Mais estranho que a ficção

Mais estranho que a ficção possui um dos argumentos mais brilhantes que eu já vi em um filme e ainda que o desempenho não seja tão grandioso, resta reconhecer que a premissa é no mínimo curiosa.

A trama conta a história de Harold Crick (Will Ferrell), um personagem fictício de um livro que de repente, começa a ouvir a voz da autora de sua história. Ela não só narra seus sentimentos como também antecipa suas ações. Para entender o que se passa, Harold procura ajuda de um professor de literatura que tenta prever (através de estudos literários) qual será o seu futuro. Um dia, a caminho do trabalho, a narradora diz que sua morte está iminente e ele entra em desespero sem saber como lutar contra o seu destino. Imerso em questionamentos sobre a própria vida, Harold decide se entregar (como nunca o fez antes) a uma nova paixão, Ana Pascal (a jovem cozinheira que conheceu a pouco tempo).

Através de outra perspectiva, acompanhamos a história de Karen Eiffel (Emma Thompson) uma escritora solitária que está enfrentando um bloqueio criativo e que não sabe como matar o personagem principal de seu ultimo livro: Harold Crick.

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Eis um típico filme que trabalha a metalinguagem com leveza e sensibilidade. Muitos questionaram a atuação de Will Ferrell no papel principal, eu particularmente acho que ele se saiu muito bem. A verdade é que independente do ator, Harold é um personagem riquíssimo e de fácil identificação (tanto no cinema, quanto – provavelmente – no universo literário).

O cotidiano maçante o tornou um homem refém das próprias ações, totalmente desmotivado e com poucas perspectivas: Harold faz as mesmas coisas, todos os dias, sem se perguntar ‘porque eu não largo tudo isso e vou fazer o que eu gosto?” Em contrapartida, ele se apaixona pela única mulher que o levou a questionar seus hábitos. Ana Pascal, diferente de Harold, largou a faculdade em Havard para atender aos seus desejos, ela usa roupas despojadas, se diverte com os amigos e tem uma personalidade forte.

Gosto muito da Emma Thompson e ela está divina nesse filme: com uma aparência frágil, ela nos convence que é uma escritora completamente atormentada pela idéia de matar um de seus melhores personagens. Há algo mais profundo que liga Karen e Harold, não é só o livro ou a narração, é o fato de que os dois se sentem perdidos, os dois estão sem rumo. Adoro a maneira que ela encontra para descobrir como matar Harold: Karen se coloca no lugar dele, ela se desloca da sua casa confortável e vai para as ruas (para os hospitais, para as pontes) com o intuito de ver, de sentir o que Harold sentiria. Outro fato importante é a perspectiva narrativa, a voz de Karen não só nos dá uma noção sobre os personagens como provoca a catarse.

É impossível, em determinado momento, não se perguntar se Harold existe ou não. Se você não se importa com Spoilers continue lendo, mas o fato é que Harold existe e inclusive, chega a se encontrar com Karen para implorar que ela o deixe vivo. De maneira inusitada, Karen (que é famosa por ‘matar seus personagens’) entra em uma crise consciência se culpando por todos os personagens que morreram em seus livros.

Essa nítida discussão sobre o que é real ou não me remeteu a Kauffman, que possui estratégias fantásticas em seus filmes que questionam diretamente o espectador (o que Forster conseguiu fazer de maneira leve e bem humorada – e esse é um dos seus principais êxitos).

Mais estranho que a ficção é um filme que nos questiona sobre a vida, sobre o que queremos e o que estamos fazendo dela. Não somos personagens de um livro, nós não estamos sujeitos a vontade do destino (será?).

– Filme de 2007, dirigido por Marc Forster

Em seu lugar

Eu levo o seu coração comigo, eu o levo no meu coração
Eu nunca estou sem ele a qualquer lugar que eu vá, meu bem, e o que que quer que seja feito por mim somente é o que você faria, minha querida
tenho medo que a minha sina pois você é a minha sina, minha doçura.
Eu não quero nenhum mundo pois bonita você é meu mundo, minha verdade
e é você que é o que quer que seja o que a lua signifique
e você é qualquer coisa que um sol vai sempre cantar
aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe aqui é a raiz da raiz e o botão do botão e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes.
Eu levo o seu coração, eu o levo no meu coração

(E.E. Cummings)

Em seu lugar Sou fã da Toni Colette desde que assisti ‘O casamento de Muriel’, gosto muito da Cameron Diaz também, acho que ela tem um ótimo astral que sobressai às telas e cativa o público. As duas foram uma escolha perfeita para a adaptação cinematográfica do livro ‘In her shoes’, escrito por Jennifer Weiner. O filme, dirigido por Curtis Hanson é uma reconstrução sensível e delicada de um relacionamento complexo entre irmãs que vivem uma rotina completamente diferente e que dividem um passado doloroso.

Enquanto Rose é uma advogada bem sucedida, Maggie é uma mulher que não quer saber de trabalhar e que não se importa em viver as custas da irmã mais velha. Em contrapartida, Rose é uma mulher insegura com o próprio corpo que desabafa suas mágoas comprando vários sapatos (muitos dos quais nunca usou) e Maggie é uma mulher belíssima que namorou com vários homens, mas que não conseguiu estabelecer um relacionamento com nenhum deles. A mãe das duas possuía um histórico de pertubação mental e depois de sofrer várias internações, morreu em um acidente de carro (que não se sabe se foi intencional). Elas foram criadas pelo pai (que se casou novamente) e por muito tempo, desconheceram a existência da avó materna Elle (Shirley Maclaine) que pensavam estar morta.

Nem Colette, nem Diaz, nem mesmo Shirley Maclaine roubam a cena: todas as três recebem o mesmo espaço e atuam com bastante cumplicidade, o que é admirável. Eis um drama feminino bem medido, bastante delicado e com um argumento belíssimo. Não há como não se identificar com os personagens, principalmente com Rose (Toni Colette) que, depois de perder um namorado de uma forma bem dramática, decide largar o emprego e mudar a vida radicalmente. Enquanto ela ‘deu duro’ nos estudos e no emprego, Maggie teve uma vida vazia e baseada em aparência que, de repente, também cai por terra. Depois de uma briga séria, as duas irmãs se distanciam e passam a enfrentar o cotidiano por outra perspectiva.

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Maggie, colocada para fora de casa por Rose, pede que Elle (sua avó) lhe dê abrigo. Elle, por outro lado, deixa que Maggie more com ela no asilo em troca de que Maggie trabalhe com os idosos. A vida de Maggie no asilo traz à tona uma antiga briga do seu pai e sua avó, que não entravam em um acordo sobre o tratamento mais adequado para sua mãe. Enquanto isso, Rose começa a namorar um colega de trabalho que há muito tempo estava apaixonado por ela e, longe da irmã, consegue se sentir mais confiante em relação aos homens.

A distância das duas aumenta e a saudade aperta. Rose está se preparando para casar e Maggie investindo todas as suas energias em um novo projeto: aprender a ler. Para Maggie, a experiencia de viver em um asilo foi bastante construtiva, sua avó a incentivou a rever seu comportamento infantilizado e pediu que ela se colocasse no lugar da irmã. Quando a mãe das duas faleceu, Rose não só tomou conhecimento de tudo o que acontecia como se sentiu responsável por cuidar de Maggie.

Há muitas cenas do filme que me conquistaram, acho que esse é um dos tipos de produção que obtém sucesso quando aborda um drama feminino (e familiar) com tanta sutileza. Quando Rose vai fazer sexo pela primeira vez com o noivo, ela pede que ele apague a luz por ter vergonha do próprio corpo e ele insiste em vê-la nua, em fazer com que ela se sinta a vontade diante dele. Essa é a cena que eu mais gosto porque resume perfeitamente muitas das inseguranças femininas: ‘ela quer, ela deseja, mas tem medo e se envergonha’. Enquanto Maggie aprende a ler, ela nos questiona se só a beleza exterior é o bastante para ter uma vida feliz e completa. Só e humilhada, Maggie faz o caminho de volta, assume seus erros e sofre para melhorar. A distância das duas as faz rever todo o amor que sentem, a importância do companheirismo e da cumplicidade. Eis um filme sensível e belíssimo, que merece ser visto e revisto.

O Porco Espinho

“O que importa não é o fato de morrer.
Mas o que você está fazendo quando morre.
O que você estava fazendo no momento em que morreu?
Você estava pronta para amar”.

Paloma (Garance Le Guillermic) é uma rica e inteligente menina de onze anos que decide cometer suicídio no dia do próximo aniversário. Encantada por arte e filosofia, a pequena passa dias filmando seu cotidiano com o desejo de realizar um documentário para comprovar que a vida não faz sentido.  Seu pai, um ‘homem brilhante e muito ocupado’ e sua mãe, uma mulher completamente neurótica que quase não dão fé da sua existência alimentam ainda mais o seu pessimismo em relação a vida.  Enquanto a data de executar o seu plano não chega, Paloma conhece duas pessoas que a fazem questionar a visão de mundo:  o novo vizinho: senhor Kakuro Ozu e a séria Renné (Josiane Balasko), a faxineira do grande apartamento em que vive. 

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Amour

Assisti Amour em fevereiro, pouco antes da premiação do Oscar. Fiquei com uma vontade imensa de escrever sobre ele aqui no La Amora, mas não consegui. O texto foi abandonado pela metade e só hoje, depois de meses, tive coragem de finalizá-lo. A verdade é que Haneke bateu em uma tecla que me sensibiliza e que, confesso, me dá muito medo: a velhice. Aliás, não é um medo qualquer. Tenho medo de envelhecer e de ver os meus entes queridos envelhecer, tenho medo da doença da dor e da morte.

 Coincidentemente, no dia em que assisti Amour, uma amiga me perguntou se existia a possibilidade de Michael Haneke se tornar um novo Lars Von Trier. “Acho difícil ver Haneke criando um movimento e distribuindo certificados por aí”, brinquei. Mas sem dúvidas, assim como Lars, Haneke é um cineasta pugilista que ganhou mais visibilidade através de Hollywood. Tanto é pugilista que logo na primeira sequencia de Amour tomamos um soco no estômago e de quebra recebemos um aviso de que o resto do filme não será fácil.

 Ver o cadáver fétido de uma senhora, todo em negro, cercada por flores secas é angustiante ( fico imaginando essa cena filmada em plongée.) Haneke sabe o que faz e aliás, o faz muito bem. A começar pelo título. Esta aí a prova de que as vezes “menos é mais” Em uma das discussões no Filmow, uma garota disse que esse é o pior título de um filme que ela já viu. Os outros participantes (inclusive eu) caíram matando, defendendo a ideia de que o título condiz com a proposta do filme que justamente, mostra o amor, a dedicação e a paciência do marido.

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 A trama conta a história de um casal de idosos, Anne (Emmanuelle Riva) e George (Jean-Louis Trintignant) que vivem sozinhos e que se deparam com um acontecimento que muda o cotidiano dos dois. Anne sofre um derrame e George precisa cuidar dela. Sem o auxílio da filha, interpretada por Isabelle Huppert, George vê sua mulher adoecer aos poucos, perder a habilidade de andar e de falar. De fato, o que choca no filme é a fidelidade extrema que Haneke usou ao abordar um tema bastante delicado. Achei genial o fato da filha não participar da vida do casal e aparecer de relance, afirmando que não pode abandonar o marido e os filhos que moram em outro país. O foco é a relação entre marido e mulher e Haneke deixou isso muito claro (sugerindo ainda, uma discussão sobre o abandono e a ingratidão de alguns filhos para os pais.).

 O desgaste físico e o emocional ficam evidentes em cada cena. Ele precisa alimentá-la, trocá-la, levá-la ao banheiro, escovar seus dentes e arrumar seu cabelo. O esforço é acrescido pelo fato de que ele também já esta velho e sofre com os reflexos da idade. Em um dos momentos da trama, Anne afirma que não sabe se faria o mesmo por George. O companheirismo e a lealdade é tão grande que ele reconhece que cuida dela sem esperar ou exigir nada em troca.

Fiquei  muito decepcionada quando vi que Emmanuelle Riva não levou o Oscar de melhor atriz, uma pena mesmo e no mínimo, uma injustiça. Já tinha assistido Riva em ‘Hiroshima mon amour‘ e tive uma boa surpresa em revê-la nesse longa. Sem dúvidas, Jean-Louis Trintignant tem seu destaque, mas é Riva que sobressai em tela e acentua essa sensação de que a juventude é efêmera.

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* Nos últimos dias, surgiu na internet o caso do Fred Stobaugh e rapidamente fiz uma ligação ao filme Amour. Stobaugh é um senhor americano de 96 anos que resolveu participar do concurso musical promovido pelo Green Shoes (normalmente, eles pedem que os candidatos enviem seus materiais pelo Youtube). Stobaugh, que não tem nenhuma experiência musical, resolveu contar sua história e apresentar sua música através de uma carta, ele escreveu “Oh Sweet Lorraine” em homenagem a Lorraine Stobaugh, que foi casada com Fred durante 73 anos e que faleceu aos 91( um mês antes da faixa ser composta).

A história conquistou o estúdio, que decidiu ajudar o compositor a realizar uma gravação profissional. A boa surpresa é que a música emocionou o público e ficou entre os mais vendidos no iTunes EUA. ‘Oh Sweet Lorraine’ também se tornou destaque no ranking Digital rock songs da revista Billboard, que descreveu a entrada da música na parada como “surpreendente”.

Noivas em Guerra

Nunca sonhei em me casar, não tenho mesmo esse desejo e por um longo período alimentei a percepção de que o casamento é um dos piores e mais enganosos contratos sociais que existem. Há pouco tempo atrás eu acreditava na inexistência do amor eterno e duvidava que duas pessoas conseguissem se manter apaixonadas pelo resto da vida. Como diria o dramaturgo Nelson Rodrigues: “Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata”. Vejo homens e mulheres unidos não por amor, mas por necessidade (seja emocional ou financeira), casais infelizes que não se separam porque acreditam que precisam prestar contas à sociedade ou Noivas em Guerraviver de aparências.

Confesso que aos poucos fui mudando meus conceitos. Continuo não acreditando em casamento, nem em paixões eternas, mas acredito no amor e no companheirismo. Acho que duas pessoas conseguem viver juntas, dividindo a intimidade com o outro e sustentando um relacionamento em que há, antes de qualquer coisa, o respeito. Conheci algumas mulheres, três delas em especial, que sonham em se casar e em ter filhos. A ideia de casamento, que sempre me foi muito abstrata, começou a fazer sentido quando vi que aquele era mesmo o objetivo da vida delas: se casar e depois ter filhos.

Aliás, todas as três mostraram um forte desejo de seguir carreira e se dar bem na profissão.  Quer dizer, elas me fizeram entender (e por mais simples que isso pareça, eu não concordava) que é possível ter uma boa vida profissional e familiar simultaneamente.

Por algum tempo acompanhei a dedicação das três na organização da cerimônia e nos contratempos que foram aparecendo. É difícil achar igreja, é difícil achar um lugar para realizar a festa, é difícil encontrar o vestido certo, arrumar os convites, fazer a lista de convidados, organizar o chá de panela… na verdade, é um inferno! Outro dia, zapeando pela TV, me deparei com um filme que ilustra (com certos exageros, é claro) muito bem essa situação (e é uma sugestão  bacana pra quem pretende se casar):

Noivas em Guerra é uma comédia, produzida em 2009 e dirigida por Gary Winick (também diretor em Cartas para Julieta, De repente 30 e Um jovem sedutor). É um filme simples e sem muitas surpresas, mas que traz um tema agradável e uma abordagem interessante.  A trama conta a história de Emma e Liv (Anne Hathaway e Kate Hudson) duas mulheres que são amigas desde pequenas e que coincidentemente, dividem o sonho de se casar no Plaza Hotel. Por um erro da secretária a data do casamento das duas é marcada para o mesmo dia e assim nasce um confronto, já que nenhuma das duas abre mão de seus planos.

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Com uma proposta bem leve e divertida, Anne Hathaway e Kate Hudson encaram cenas engraçadas que, de alguma forma, chamam atenção para a condição feminina. É interessante ver o quanto os homens se mostram despreocupados sobre a cerimônia, enquanto elas (preocupadas em ‘fingir’ que tudo está dando certo) praticamente se matam de tanto trabalho. Um trabalho exaustivo, mas prazeroso. A procura pelo vestido, a escolha dos convites, os ensaios, as músicas e a ambientação da igreja: tudo escolhido com uma enorme cautela.

Apesar de ser a temática central, o casamento não é o ponto mais forte do filme e sim a amizade. É através dessa perspectiva que se consegue perceber a contraposição das personalidades das duas. Emma é mais frágil, enquanto Liv é uma mulher competitiva. Emma está tão envolvida nos preparativos da cerimônia que não percebe o desconforto que existe entre ela e o noivo. Liv, por outro lado, deixa suas emoções aflorarem a ponto de prejudicar seu desempenho no emprego. A situação ainda é acentuada pela incerteza sobre quem conseguirá o Plaza Hotel e pela disputa infernal entre as duas.

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Pelos olhos de Maisie

Maisie é uma garotinha de seis anos que vive um cotidiano tumultuado após o divórcio dos pais. Sua mãe, Susanna (Julianne Moore) é uma estrela de rock e seu pai Beale (Steve Coogan) é um ocupado e influente galerista. Sua principal companhia é a babá, mas ela acaba se casando com seu pai e Maisie se vê em uma situação delicada. Atenta as brigas judiciais por sua guarda, a pequena se torna uma espectadora das ações dos outros personagens e sofre com as atitudes inconsequentes dos adultos. Pouco tempo depois sua mãe se casa com um completo desconhecido e ela se vê novamente sem lugar…

what-maisie-knew-filmBaseado no livro de Henry James, a produção de 2012, dirigida por David Siegel e Scott McGehee é um delicado registro de uma história simples, mas cheia de significados. Com uma fotografia primorosa e atuações fortes, Pelos olhos de Maisie retorna uma antiga discussão: a importância da figura paterna/materna na vida da criança e as consequências do divórcio. Julianne Moore, no papel de Susanna, traz a tela uma mulher contraditória, que ama a filha mas que prefere a carreira. O comportamento explosivo da mãe, a música alta e o excesso de bebidas é observado por Maisie que, apesar de desconfortável, é levada a entender (ou a fingir) que aquele é o melhor ambiente pra ela.

No início não nos é confidenciado, mas aos poucos percebemos que os pais de Maisie não possuem estrutura. Apesar do aspecto financeiro bem resolvido, o lado emocional da pequena é deixado de lado e os pais tendem a priorizar apenas seus objetivos.  Logo depois que Susanna se casa, seu marido Lincoln (Alexander Skarsgard) se aproxima de Maisie de uma maneira carinhosa e sincera. O que poderia ser uma solução acaba virando um contratempo, já que Susanna tem ciúmes e não abre mão de ocupar o primeiro lugar na vida da filha.

Em outra perspectiva, acompanhamos a relação de Maisie com a babá Margo (Joanna Vanderham), a única que consegue estabelecer um diálogo com a menina, sem qualquer constrangimento. Apesar das contradições, Maisie é uma garota muito amada, o problema está na forma em que os adultos demonstram esse sentimento. Um fato que chamou atenção (e que foi muito bem articulado pelos produtores) é a ênfase na relação de Maisie com os adultos, poucas crianças aparecem no longa e quando aparecem estão em situações secundárias.

Outro fato interessante é que uma das características marcantes de Maisie na versão literária é que ela é uma garota que dissimula muito bem e tenta não se importar com a indiferença dos pais. Ela joga o mesmo jogo dos adultos e age como se, de fato, não soubesse de nada. Esse detalhe também é percebido no filme, quando Susanna, por exemplo, pergunta a Maisie se seu pai e a babá se beijam. Apesar de saber o que se passa, a menina finge um desconhecimento. O destaque do filme vai para Onata Aprile, que apesar de estar ao lado de famosos nomes do cinema se sobressai em cena em uma atuação confiante e sem rodeios.

film-whatmaisieknew-500  – O livro: Publicado em 1897 o romance Pelos olhos de Maisie é uma das obras mais importantes de Henry James, escritor e filósofo norte-americano também autor de A fera na selva (1903) e Retrato de uma senhora (1881). A história se passa em Londres, mas os personagens viajam com frequência por diversos países como Florença, Bruxelas e Paris.  James fez com que a história tivesse vários cenários e ambientações para mostrar que Maisie vivia a mercê das decisões dos adultos e que muitas vezes, era como um joguete e que vivia alternamente ao cuidado dos outros. Publicado depois de o autor ter realizado seu primeiro trabalho com método cênico, Pelos olhos de Maisie apresenta várias passagens com escrita teatral.

Confira o trailer!

Flores raras (e banalíssimas)

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério

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Acabo de chegar do cinema, fui ver Flores Raras, do Bruno Barreto com Glória Pires e Miranda Otto. É um belo filme que, aliás, retrata uma história linda. Apesar de grande parte ser em inglês, eis um longa de fácil identificação ao público brasileiro (principalmente por ter como cenário o Rio de Janeiro da década de 50/60 e apresentar referências políticas, culturais e econômicas).

Li outro dia que ‘Flores Raras’ é um romance lésbico e agora, depois de vê-lo, não acho que essa classificação o faz justiça. De fato, há uma forte abordagem do romance das personagens principais (aliás, mulheres admiráveis), mas o filme não se restringe a isso. Flores raras levanta uma reflexão sobre a própria condição humana, dos amores não correspondidos, do desejo, da insegurança, das decepções e anseios.

O filme retrata a chegada da poeta norte-americana Elizabeth Bishop (interpretada por Miranda Otto) ao Brasil, em 1951. A convite da amiga Mary (Tracy Middendorf), Bishop  vem para o país e se hospeda na casa da arquiteta Lota de Macedo Soáres (Gloria Pires). Seu interesse era ficar por duas semanas, acabou ficando por quinze anos. Mary e Lota possuem um longo relacionamento e a chegada de Elizabeth, em princípio, não causa nenhum problema. Inicialmente há um perceptível estranhamento entre Bishop e Lota, duas mulheres fortes com temperamentos e inspirações diferentes. Aos poucos as duas se apaixonam e Mary perde o seu lugar.

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Em sua enorme casa, Lota constrói um escritório para Elizabeth e é lá onde ela realiza ‘North & South — A Cold Spring, obra que lhe rendeu o prêmio Pulitzer de 1956.  A relação das duas, conturbada pelo alcoolismo de Bishop, pela presença de Mary (que decide adotar um bebê) e pela intimidadora personalidade de Lota, vai se desgastando aos poucos até que Bishop decide voltar a Nova York e lecionar na Universidade de Havard. Nesse meio tempo, Lota estava envolvida com a política e realizava (a convide do Carlos Lacerda) um de seus trabalhos mais conhecidos, o Parque do Flamengo, que foi duramente criticado pela imprensa.

Bruno Barreto (também diretor em Última partida 174 e O que é isso Companheiro?) acertou em cheio ao não levantar bandeiras e tratar a homossexualidade com naturalidade. O trabalho cenográfico é primoroso, a ambientação e o figurino foram muito bem elaborados. Gosto especialmente do cuidado que ele demonstrou ao usar planos subjetivos e sugerir um efeito catártico em relação à Bishop, como aquela cena em que ela lava os cabelos de Lota e lhe faz um poema, em homenagem…

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?

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Gloria Pires está belíssima, muito sensual e sobressai às outras. Vi uma entrevista dela no Canal Brasil, onde ela dizia que não teve problemas em falar em inglês, mas ficou temerosa nas cenas mais fortes já que a memorização é um pouco mais complexa. Glória encarna uma Lota agressiva, menos feminina que as outras personagens e parece ser muito mais forte também. É interessante quando Elizabeth lhe pergunta sobre sua profissão e ela fala: ‘nasci arquiteta’, de fato, Lota nunca frequentou a universidade e foi reconhecida como arquiteta autodidata e paisagista emérita.

Quatro Irmãos

Fiquei com uma ótima impressão do trabalho do John Singleton depois que vi ‘Quatro Irmãos’, filme de 2005 que traz Mark Wahlberg, Tyrese Gibson, André 3000 e Garrett Hedlund nos papéis principais. Singleton também foi diretor em Velozes e Furiosos.

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Quatro Irmãos conta a seguinte história: Bobby, Angel, Jack e Jeremiah são na verdade, filhos adotivos de uma velha senhora que se dedicou durante toda vida a direcionar crianças abandonadas a lares adotivos. Os quatro não conseguiram arrumar uma família e assim, foram adotados por ela. Todos eles possuem uma triste história de abandono e violência amenizada pelo carinho da doce Evelyn Mercer (Fionnula Flanagan). Eles voltam a se reencontrar quando descobrem que Evelyn foi morta durante um assalto que ocorreu em uma mercearia. [É interessante como a personalidade de cada um deles é marcante e contraditória, ainda assim, possuem um senso de união e amor fraterno, fortalecido pelo convívio]. Tempos depois, recebem a notícia de que o assassinato de Evelyn foi planejado e desde então, passam a juntar as pistas para conseguirem se vingar do responsável pela morte da mãe.

O filme tem uma narrativa ótima, não perde o ritmo em nenhum minuto e é uma opção interessante para quem gosta de ação (com uma pitada de humor negro). Um fato marcante é que Singleton teve um cuidado sublime ao retratar todos os lados envolvidos no caso, sem perder a mão: desde a polícia, os filhos, suas mulheres e os próprios assassinos – todas as cenas com um enorme convite a catarse. Fionnula Flanagan foi uma escolha perfeita, ela consegue transmitir toda a delicadeza da personagem com veracidade (e em poucas cenas). Mais uma vez o destaque vai para Mark Wahlberg, o irmão esquentadinho e cabeça dura que de tanta teimosia, sobressai aos outros. Sophia Vergara tem uma participação pequena mas marcante. Na trama ela faz o papel de Sofi, a namorada do Angel. A latina, atrapalhada (sexy e mal humorada), coloca o namorado em enrascadas por excesso de ciúme.

Fica então a dica, eis um filme que volta e meia passa no SBT e na FOX e que vale muito a pena ser assistido!

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Os terríveis bonecos de Chad O’Connell

Você conhece Chad O’Connell? Pois  eu não conhecia até minutos atrás, quando resolvi fazer uma rápida pesquisa sobre Bette Midler e acabei me deparando com essas imagens incríveis! De acordo com o site, Chad trabalhou por cerca de dez anos com maquiagens cinematográficas e foi aluno do legendário Dick Smith (responsável pela maquiagem do filme ‘O Exorcista’). Com um realismo fora do normal, Chad explora cada detalhe de seus bonecos de silicone e hoje,  vende máscaras e bonecos não só para o mundo cinematográfico como também atende pedidos ‘particulares’ (o que provavelmente, deve custar uma fortuna!).

Para mais informações, segue o site: http://www.chadoconnellart.com

O que terá acontecido a Baby Jane?
O que terá acontecido a Baby Jane?
Winifred - Abracadabra
Winifred – Abracadabra
Winifred - Abracadabra
Winifred – Abracadabra
Eva Ernst - Convenção das Bruxas
Eva Ernst – Convenção das Bruxas
Eva Ernst (Anjelica Huston) - Convenção das Bruxas
Eva Ernst (Anjelica Huston) – Convenção das Bruxas
Vincent Price - The abominable Dr. Phibes
Vincent Price – The abominable Dr. Phibes
Sharon Needles
Sharon Needles
Norman Bates
Norman Bates

Anjos da lei

Resolvi escrever sobre ‘Anjos da lei’ porque tive uma surpresa quando encontrei no Filmow, no IMDB e no Omelete uma boa recepção e diversas críticas positivas sobre o longa. Anjos da Lei (ou 21 Jump Street) é um filme de comédia, lançado em 2012, dirigido por Chris Miller e Phil Lord (também diretores em ‘Tá chovendo hambúrguer’). A trama conta a história de dois rapazes que eram inimigos no colégio, mas que se tornaram companheiros quando foram aceitos na Academia de Polícia. Particularmente, comecei a assistir o filme com muitas esperanças e o que vi foi um retalho de clichês e diálogos repetitivos.

Entendo perfeitamente quem gostou do filme, há alguns detalhes que, de fato, merecem atenção. Um deles é que os diretores de ‘Anjos da lei’ se inspiraram na famosa série policial da FOX (produzida nos anos 80 e que trazia Johnny Depp no papel de Tom Hanson). O que é bacana é que fizeram uma boa releitura da série e, na história, os personagens tem a oportunidade de retornar ao colégio (totalmente transformado) e reviver o passado.

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Como eu gosto do Jonah Hill! E como fico chateada ao vê-lo fadado ao mesmo tipo de papéis – em Anjos da lei, não acontece diferente. No início do filme, somos apresentados a Schmidt e a Jenko. Enquanto Schmidt (Hill) é um nerd gordinho e impopular, Jenko (Channing Tatum) é o garanhão da turma e o esportista mais popular da escola. Depois de já formados, os dois são colocados na mesma classe da Academia de Polícia e decidem se ajudar. Enquanto Schmidt auxilia Jenko com as provas escritas, Jenko ajuda Schmidt nas provas práticas/físicas. Quando se tornam oficialmente policiais, Jenko e Schmidt percebem que a vida profissional não é tão fácil assim e são surpreendidos por uma sequencia de insucessos ( a começar por uma péssima tentativa de prisão de um bando de motoqueiros).

Como castigo os dois são colocados em outra unidade e recebem uma missão: descobrir quem é o fornecedor das drogas que os garotos da escola da região estão usando. Agora, disfarçados, Jenko e Schmidt voltam ao colégio (dessa vez, como irmãos) e se empenham para descobrir quem é perigoso traficante. Ironicamente, a escola está remodelada, o que era popular há alguns anos atrás, deixou de ser. Assim, Schmidt (sempre rechaçado por ser nerd e amoroso) se torna o popular da turma, enquanto Jenko passa a andar com os nerds.

anjos-da-lei-640x480Apesar da proposta, ‘Anjos da lei’ reúne todos os velhos clichês, oferece um filme simples (mas uma opção para passar o tempo). Não bastasse ser impopular, nerd e gordinho, Schmidt atrapalha-se em seus romances e é praticamente ridicularizado em tela por seu ‘excesso de sentimentalismo’.  Jenko é bonitão e praticamente todas as mulheres se oferecem a ele (assim como a professora que não para de convidá-lo pra sair).  Ice Cube, no papel do chefe de polícia aparece como uma cara mal humorado, com boca suja e impaciente –  QUER MAIS CLICHÊ QUE ISSO? Pois é, você encontra: carros explodindo (ou não?) , meninas lindas dopadas, segregação escolar (grupo de teatro x grupo de estudos de química), professores politicamente incorrentos – e por aí vai…