Mais estranho que a ficção

Mais estranho que a ficção possui um dos argumentos mais brilhantes que eu já vi em um filme e ainda que o desempenho não seja tão grandioso, resta reconhecer que a premissa é no mínimo curiosa.

A trama conta a história de Harold Crick (Will Ferrell), um personagem fictício de um livro que de repente, começa a ouvir a voz da autora de sua história. Ela não só narra seus sentimentos como também antecipa suas ações. Para entender o que se passa, Harold procura ajuda de um professor de literatura que tenta prever (através de estudos literários) qual será o seu futuro. Um dia, a caminho do trabalho, a narradora diz que sua morte está iminente e ele entra em desespero sem saber como lutar contra o seu destino. Imerso em questionamentos sobre a própria vida, Harold decide se entregar (como nunca o fez antes) a uma nova paixão, Ana Pascal (a jovem cozinheira que conheceu a pouco tempo).

Através de outra perspectiva, acompanhamos a história de Karen Eiffel (Emma Thompson) uma escritora solitária que está enfrentando um bloqueio criativo e que não sabe como matar o personagem principal de seu ultimo livro: Harold Crick.

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Eis um típico filme que trabalha a metalinguagem com leveza e sensibilidade. Muitos questionaram a atuação de Will Ferrell no papel principal, eu particularmente acho que ele se saiu muito bem. A verdade é que independente do ator, Harold é um personagem riquíssimo e de fácil identificação (tanto no cinema, quanto – provavelmente – no universo literário).

O cotidiano maçante o tornou um homem refém das próprias ações, totalmente desmotivado e com poucas perspectivas: Harold faz as mesmas coisas, todos os dias, sem se perguntar ‘porque eu não largo tudo isso e vou fazer o que eu gosto?” Em contrapartida, ele se apaixona pela única mulher que o levou a questionar seus hábitos. Ana Pascal, diferente de Harold, largou a faculdade em Havard para atender aos seus desejos, ela usa roupas despojadas, se diverte com os amigos e tem uma personalidade forte.

Gosto muito da Emma Thompson e ela está divina nesse filme: com uma aparência frágil, ela nos convence que é uma escritora completamente atormentada pela idéia de matar um de seus melhores personagens. Há algo mais profundo que liga Karen e Harold, não é só o livro ou a narração, é o fato de que os dois se sentem perdidos, os dois estão sem rumo. Adoro a maneira que ela encontra para descobrir como matar Harold: Karen se coloca no lugar dele, ela se desloca da sua casa confortável e vai para as ruas (para os hospitais, para as pontes) com o intuito de ver, de sentir o que Harold sentiria. Outro fato importante é a perspectiva narrativa, a voz de Karen não só nos dá uma noção sobre os personagens como provoca a catarse.

É impossível, em determinado momento, não se perguntar se Harold existe ou não. Se você não se importa com Spoilers continue lendo, mas o fato é que Harold existe e inclusive, chega a se encontrar com Karen para implorar que ela o deixe vivo. De maneira inusitada, Karen (que é famosa por ‘matar seus personagens’) entra em uma crise consciência se culpando por todos os personagens que morreram em seus livros.

Essa nítida discussão sobre o que é real ou não me remeteu a Kauffman, que possui estratégias fantásticas em seus filmes que questionam diretamente o espectador (o que Forster conseguiu fazer de maneira leve e bem humorada – e esse é um dos seus principais êxitos).

Mais estranho que a ficção é um filme que nos questiona sobre a vida, sobre o que queremos e o que estamos fazendo dela. Não somos personagens de um livro, nós não estamos sujeitos a vontade do destino (será?).

– Filme de 2007, dirigido por Marc Forster

O quarteto

Maggie Smith Foi a primeira vez que reparei na beleza de Maggie Smith e no quanto àqueles olhos grandes e azuis são bonitos. Nem mesmo os filmes que ela fez com Judi Dench despertaram tal admiração.  Smith entrou para o meu imaginário (e tenho certeza que não só para o meu) como a velha professora de Hogwarts, Minerva McGonagall. Lembro-me dela também no papel da ríspida madre superiora em Mudança de Hábito, portanto, sua solidez me pareceu característica e foi assim que a marquei em minha memória.

Em ‘O Quarteto’ (filme de 2012, dirigido por Dustin Hoffman), Maggie Smith dá a vida a Jean, uma ex-cantora lírica que decide se mudar para uma casa de repouso de cantores aposentados. Sua chegada não é bem vista por alguns moradores do local e a trama leva-nos a desvendar o por quê. Logo na apresentação do filme, sentimos o clima leve do filme e acompanhamos um dos ensaios dos cantores que todos os anos, no dia 10 de outubro, comemoram o aniversário de Giuseppe Verdi com um concerto.

Vi a mesma pergunta repetidas vezes em diversos sites: ‘Por que Dustin Hoffman demorou tanto para trabalhar como diretor’?  Não sei a reposta ao exato, mas afirmo com toda certeza que seu debut na direção foi sublime. Em uma entrevista que vi com a Maggie Smith sobre a produção, ela conta o quanto se sente desconfortável se vendo em tela. O entrevistador lhe dizia que ela tem fama de ser perfeccionista e pergunta como foi trabalhar com Hoffman. Em resposta ela disse que ele é um dos melhores diretores com quem trabalhou porque já esteve na pele de um ator e sabe exatamente como eles se sentem em cena. A beleza da direção e sem dúvidas na fotografia se dá porque logo percebe-se um respeito pelo desempenho de cada ator em tela. Cada um deles, em sua devida proporção, merece uma menção na trama.

Maggie+Smith+Quartet

Dustin Hoffman dirigindo as cenas em 'O quarteto'
Dustin Hoffman dirigindo as cenas em ‘O quarteto’

O quarteto - Dustin Quando Jean chega ao asilo ela é tratada com rispidez por alguns moradores, mas sua presença incomoda principalmente Reg (Tom Courtenay) que afirma que deixará o local se ela realmente se mudar. Ironicamente, Jean fica a sua procura em grande parte da trama e só então descobrimos que os dois foram casados anteriormente e que Jean traiu Reg com outro homem.  O clima de briga entre os dois personagens é totalmente equilibrado pela presença do sedutor Wilf (Billi Connoly) e da esquecida Cissy (Pauline Collins). Os quatro, anteriormente, formaram um prestigiado grupo de cantores, mas depois de um tempo, tomaram os próprios rumos (a primeira a abandonar o grupo foi Jean).

Todo o mistério que ronda Jean faz da personagem mais encantadora. O filme, de fato é centrado em Maggie Smith, mas Pauline Collins, com toda aquela doçura não fica para trás. Cissy se esquece de tudo e sua fragilidade é compensada pela proteção e carinho dos outros moradores que não deixam que algo lhe aconteça. O próprio Wilf, em um momento descontraído, confessa que foi apaixonado por ela e por seus belíssimos ‘pares de peitos’.Quartet-1

Após uma reunião, os três amigos se juntam para tentar convencer Jean a se apresentar novamente.  Particularmente, admiro a abordagem que se deu às inseguranças da velhice. Jean se nega a cantar novamente porque tem medo de desafinar e não quer decepcionar os fãs. (Wilf ironicamente responde: ‘seus fãs provavelmente já estão mortos’).

No filme, Jean reclama dos ‘malditos quadris’ que doem muito. Acho engraçado porque no filme ‘O Exótico Hotel Marigold’, o personagem de Smith tinha o mesmo problema. Fiz uma pesquisa e descobri que Maggie Smith foi acometida por um câncer severo e ficou por algum tempo afastada das telas e nunca mais se aventurou a trabalhar no teatro. Maggie e Jean dividem algo em comum: as consequências da velhice e enfrentaram a possibilidade de abandonar a carreira.

Gosto da visão positiva sobre o avanço da idade, daquela velha ideia de que: ‘nunca é tarde para recomeçar’. Ao final, admiro muito a decisão de Hoffman de não mostrar o quarteto se apresentado. Seria arriscado colocar atores, que não cantam, dublando cantores de ópera. Achei justo e mais seguro.

O QUARTETO