Menina Má e as crianças sombrias na ficção

Tem livros que a gente começa meio por curiosidade, sem grandes expectativas, e de repente se vê completamente fisgado.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo com Menina Má, de William March.

O que me chamou a atenção logo de cara foi a história por trás do autor e da obra, e a edição da DarkSide, como sempre impecável, não deixou passar nada disso. Além de um projeto gráfico bacana,, essa edição traz conteúdo extra que contextualiza o livro, fala da vida do autor e também do impacto que essa história teve na época.

E é aí que a coisa fica ainda mais interessante.

Publicado originalmente em 1954 com o título The Bad Seed (algo como “A semente do mal”), o livro causou um certo rebuliço ao colocar no centro da narrativa uma criança psicopata.

Sim, isso que hoje é até comum em filmes e séries, crianças que cometem crimes, personagens infantis com distúrbios psicológicos, era algo quase impensável na época. Por isso, dá para dizer que Menina Má foi meio vanguarda nesse aspecto.

William March: um autor marcado por conflitos internos

A história de William March é por si só bastante interessante.

Nascido em 1893, nos Estados Unidos, ele teve uma infância conturbada, marcada pela pobreza e por uma relação difícil com o pai. Cresceu em um ambiente rígido e conservador, o que influenciou profundamente sua visão de mundo e, claro, sua escrita.

Mais tarde, lutou na Primeira Guerra Mundial, experiência que o deixou com traumas psicológicos duradouros e inspirou algumas de suas obras mais densas.

Outro aspecto importante da vida de March, e que raramente era falado abertamente na época, foi sua sexualidade. Muitos estudiosos acreditam que ele viveu com a homossexualidade reprimida durante boa parte da vida, o que o levou a um isolamento emocional profundo.

Essa tensão interna aparece de forma sutil em suas obras, seja na forma de personagens marginalizados, seja em temas como a dualidade entre aparência e essência. Saber disso dá uma camada a mais de compreensão e empatia pela figura de March, e talvez ajude a entender o tom sombrio, mas ao mesmo tempo humano, que existe em Menina Má.

A construção do suspense e o impacto cultural

A história gira em torno de Rhoda Penmark, uma garotinha aparentemente perfeita: educada, inteligente, doce. Mas aos poucos, a mãe dela começa a perceber que por trás dessa fachada existe algo errado. Muito errado.

O jeito que o livro constrói essa tensão é excelente. Não tem exageros ou violência explícita — tudo vai sendo sugerido, revelado aos poucos, e isso faz com que a leitura seja ainda mais instigante. A dúvida, a ambiguidade moral, o desespero da mãe que vai sendo corroída por uma verdade difícil de aceitar.

E uma curiosidade que achei muito legal é que o sucesso do livro foi tão grande que ele rapidamente virou uma peça de teatro e, logo depois, um filme.

The Bad Seed, de 1956, é um clássico do cinema da época e manteve boa parte do elenco original da peça, inclusive a atriz que interpretou Rhoda. O filme, claro, tem algumas adaptações (inclusive um final mais aceitável para os padrões morais da época), mas continua sendo uma ótima pedida para quem curte cinema antigo e quer ver como essa história foi traduzida para as telas.

Leitura rápida e que prende a atenção

Pois é, foi uma leitura rápida e, ao mesmo tempo, muito prazerosa. Não é um livro longo, mas tem uma densidade psicológica que te prende do início ao fim. William March tem uma escrita afiada, direta, e ao mesmo tempo sensível nos momentos certos. É fácil entender por que essa história marcou tanta gente e continua relevante até hoje.

E mesmo sendo um romance da década de 50, ele ainda consegue provocar reflexões atuais sobre natureza versus criação, psicologia infantil, o papel dos pais, e até que ponto o mal pode ser algo inato ou moldado. São temas que ainda hoje geram debates e, em Menina Má, são explorados com uma maturidade surpreendente.

No fim das contas, gostei muito da leitura.

ara quem curte thrillers psicológicos, clássicos sombrios ou histórias com personagens moralmente ambíguos, é uma leitura que vale muito a pena.

Marcia Gay Harden: Da Broadway ao Oscar com Coração e Consciência

Marcia Gay Harden é um daqueles nomes que, mesmo que você não reconheça de imediato, provavelmente já viu em algum papel marcante.

Seja no cinema, na televisão ou no teatro, ela sempre aparece com uma presença forte, entregando performances intensas, emocionantes e memoráveis.

Ao longo da carreira, Harden construiu um repertório diversificado, conquistando o respeito da crítica e o carinho do público. Sua história pessoal também é cheia de nuances e atitudes inspiradoras que mostram quem ela é além das telas.

Origens e infância: uma vida em movimento

Marcia nasceu no dia 14 de agosto de 1959, em La Jolla, Califórnia. Filha de Beverly, uma dona de casa, e Thad Harold Harden, um oficial da Marinha dos Estados Unidos, ela teve uma infância itinerante.

Por conta da carreira do pai, a família se mudou diversas vezes, morando em diferentes partes do mundo, incluindo Japão, Alemanha, Grécia e vários estados americanos. Essa experiência multicultural teve um papel importante na formação de sua visão de mundo e também influenciou sua capacidade de adaptação e empatia, características fundamentais para sua atuação como atriz.

Apesar das constantes mudanças, Marcia encontrou nas artes um ponto de equilíbrio. Ela estudou teatro na Universidade do Texas e depois concluiu um mestrado em Belas Artes na Tisch School of the Arts da Universidade de Nova York, um dos centros de formação mais prestigiados para atores. Foi ali que ela refinou suas habilidades e deu os primeiros passos profissionais rumo a uma carreira brilhante.

Trajetória: entre o teatro, o cinema e a televisão

O início da carreira de Marcia foi marcado por participações no teatro off-Broadway e em produções independentes. Aos poucos, ela foi chamando a atenção por sua presença cênica e pela profundidade emocional de suas interpretações.

Sua estreia no cinema aconteceu nos anos 80, mas foi em 1990, com o filme “Os Bons Companheiros” (Goodfellas), de Martin Scorsese, que ela começou a ser notada pelo grande público. Mesmo em um papel pequeno, sua performance foi destacada.

A década de 1990 foi importante para consolidar sua posição como atriz de talento. Ela participou de filmes como “The Spitfire Grill”, “Miller’s Crossing” e “Meet Joe Black”.

No entanto, o grande reconhecimento viria em 2000, quando Marcia venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação em “Pollock”, no papel de Lee Krasner, artista plástica e esposa do pintor Jackson Pollock. A interpretação foi profundamente aclamada por sua entrega emocional e pela complexidade que ela trouxe à personagem.

Pollock e o Oscar: um marco na carreira

O filme “Pollock”, dirigido e estrelado por Ed Harris, foi um projeto pessoal e artístico ambicioso, que retratava a vida do icônico pintor expressionista Jackson Pollock. Marcia interpretou Lee Krasner com tanta intensidade e verdade que acabou ganhando o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2001.

Essa vitória foi um divisor de águas em sua carreira.

Além do reconhecimento da indústria, o prêmio abriu portas para papéis mais variados e desafiadores. A atuação em “Pollock” revelou ao público e à crítica a profundidade da sua entrega como atriz e sua capacidade de se transformar completamente em seus personagens.

Angels in America: um dos grandes momentos no teatro

Apesar de ter alcançado fama no cinema, Marcia nunca abandonou o teatro. Um dos seus momentos mais relembrados nos palcos aconteceu com sua participação em “Angels in America”, a monumental obra de Tony Kushner que aborda temas como AIDS, religião, política e identidade na América dos anos 80.

A peça é dividida em duas partes e é considerada um marco do teatro contemporâneo.

Marcia participou da montagem de “Angels in America” na Broadway, demonstrando, mais uma vez, sua coragem e versatilidade como intérprete.

Uma mãe com orgulho: filhos queer e ativismo

Em diversas entrevistas e aparições públicas, ela demonstrou ser uma mãe amorosa e defensora dos direitos LGBTQIA+. Três filhos nasceram do seu casamento com o diretor Thaddaeus Scheel, que terminou em 2012, e os três se identificam como queer.

Em 2023, ela participou do evento “Drag Isn’t Dangerous” (em português, “Drag não é perigoso”), um especial beneficente em apoio à comunidade drag e LGBTQIA+.

Durante o evento, Harden falou sobre o orgulho que sente de seus filhos e sobre a importância de apoiar a diversidade e combater o preconceito.

Sua fala foi clara, sensível e direta. Ela disse que o amor é amor e que é papel dos pais abraçar os filhos exatamente como são. Sua postura tocou muitas pessoas e ganhou destaque nas redes sociais e na mídia.

Versatilidade como marca registrada

Se há uma característica que define a carreira de Marcia Gay Harden, é a versatilidade. Ela já interpretou vilãs cruéis, mães amorosas, profissionais determinadas e personagens profundamente humanas e falhas.

Sua filmografia inclui dramas intensos, comédias leves, suspenses psicológicos e até blockbusters, como sua participação em “Cinquenta Tons de Cinza”, onde interpretou Grace, a mãe adotiva de Christian Grey.

Essa diversidade de papéis não é à toa.

De fato, ela consegue transitar entre diferentes estilos de atuação sem perder sua identidade como artista. Isso a torna uma presença sempre interessante, capaz de surpreender o público mesmo em papéis pequenos.

MENDONÇA, de Bebê a Bordo: uma personagem à frente do seu tempo

Com a disponibilização de Bebê a Bordo no Globoplay, resolvi revisitar essa novela clássica dos anos 80 e me deparei com uma grata surpresa: a personagem Joana, vivida por Débora Duarte.

Ou melhor, Mendonça, como era frequentemente chamada pelos demais personagens.

O apelido ajudava a reforçar sua imagem de mulher dura, prática, profissional e de certa forma, distante dos padrões femininos idealizados na época.

Uma novela irreverente e cheia de polêmicas

Escrita por Carlos Lombardi e exibida originalmente em 1988, Bebê a Bordo foi uma novela que ousou em muitos aspectos. Misturava drama, comédia escrachada, sátira social e personagens caricatos, numa estética vibrante e caótica típica das novelas daquele período.

A trama principal girava em torno de Ana, interpretada por Isabela Garcia, uma jovem que abandona sua filha recém-nascida na porta de uma desconhecida, que mais tarde descobre ser sua própria mãe, Laura, vivida por Dina Sfat.

A novela causou bastante repercussão por seu humor irreverente, por abordar temas familiares com certo deboche e por não poupar exageros. Apesar do tom cômico predominante, havia espaço para personagens mais densas e intrigantes, como Mendonça.

Mendonça: uma sapatão em meio ao caos

Desde suas primeiras aparições, Mendonça já chamava atenção. Era uma executiva de marketing respeitada, articulada, eficiente e sempre muito simpática. Mesmo com uma postura reservada e séria, conquistava o respeito e a confiança das pessoas ao seu redor. Mas havia algo a mais naquela personagem que logo despertava a curiosidade de quem assistia.

Ela não falava abertamente sobre sua vida afetiva ou sexual. No entanto, tanto os personagens quanto o público pareciam já saber que Mendonça era lésbica.

Isso era sugerido por pequenas piadas feitas por colegas, pelas constantes visitas das “sobrinhas” que ela recebia em casa e também por sua postura que fugia dos estereótipos femininos esperados da época. Jogava futebol, usava roupas sóbrias, evitava maquiagem e mantinha sempre uma aparência mais neutra.

O apelido Mendonça, dito com naturalidade e sem muito questionamento, também funcionava como uma forma de reforçar essa imagem: ela era “diferente”, uma mulher que não performava feminilidade como as demais personagens. Isso a tornava alvo de brincadeiras, mas também a colocava em uma posição de respeito.

Hoje, com um olhar mais atento e uma compreensão mais ampla das nuances da representação LGBTQIA+ na mídia, fica claro que a sexualidade da personagem estava ali o tempo todo, mesmo que nunca verbalizada. Era uma presença silenciosa, construída com base em códigos sociais, estereótipos e omissões típicas da época.

A representação das lésbicas na TV brasileira: os anos 80 e o silêncio como estratégia

Falar sobre Mendonça também é uma oportunidade de refletir sobre como a televisão brasileira tratava a presença de mulheres lésbicas nas décadas passadas. Nos anos 80, esse tipo de representação era extremamente rara e, quando existia, vinha quase sempre marcada por silêncios, estereótipos e apagamentos.

A TV aberta brasileira, especialmente nas novelas, moldou durante décadas o imaginário nacional sobre afetos, identidades e normas sociais. No entanto, por se tratar de um meio fortemente regulado pela moral dominante, pela censura e pelos interesses comerciais, a diversidade sexual demorou muito a conquistar espaço. Quando personagens LGBTQIA+ apareciam, geralmente eram gays caricatos (voltados para o humor) ou figuras ambíguas que não tinham sua sexualidade claramente verbalizada.

Essas escolhas não eram acidentais. Durante os anos 80, o Brasil ainda vivia as marcas da ditadura militar, que havia terminado oficialmente em 1985. Mesmo com a redemocratização em curso, os tabus morais continuavam presentes na cultura popular, especialmente na televisão, onde qualquer representação que fugisse da heteronormatividade era considerada arriscada.

Um exemplo anterior a Bebê a Bordo é a personagem Letícia, interpretada por Mônica Torres na novela Ciranda de Pedra (1981). Letícia se vestia e se comportava de forma tradicionalmente associada ao masculino. Sua aparência e atitudes fugiam completamente do ideal feminino da época. Embora sua sexualidade nunca tenha sido explicitada na trama, muitos espectadores e estudiosos da televisão a identificam como uma personagem com identidade lésbica ou queer. Ela é lembrada como uma das primeiras figuras femininas da teledramaturgia brasileira a destoar de forma tão visível dos padrões de gênero.

Outro caso marcante ocorreu em Selva de Pedra (remake de 1986), em que as personagens Cíntia (Christiane Torloni) e Fernanda (Beth Goulart) eram retratadas como mulheres bissexuais. A novela chegou a gravar cenas de maior intimidade entre as duas, mas, diante da pressão do público conservador e dos patrocinadores, o roteiro foi reescrito. As cenas foram suavizadas, e o romance entre as personagens acabou sendo neutralizado. O público jamais viu a plenitude dessa relação, que poderia ter representado um marco importante na história da televisão brasileira.

Esse tipo de abordagem tem nome: é o que estudiosos da mídia chamam de “representação implícita” ou “não-dito”. Ao invés de negar completamente a possibilidade de um personagem LGBTQIA+, a novela o constrói com camadas de sugestão — olhares, falas ambíguas, referências indiretas. No caso das lésbicas, o apagamento era duplo: além de não serem mostradas em relações afetivas, muitas vezes também eram representadas por meio de uma “masculinização” que as afastava do desejo, como se fossem assexuadas ou traumatizadas demais para amar.

O impacto desse tipo de representação

Por mais que essas personagens tenham sido importantes por existirem em uma época de pouquíssima visibilidade, suas construções reforçavam a ideia de que a sexualidade lésbica era um segredo, algo proibido, que deveria ser escondido para preservar a ordem social.

E, mesmo assim, eram personagens que geravam identificação. Muitas mulheres lésbicas, ao assistir à TV naquela época, se reconheciam nesses silêncios, nesse tipo de dor não verbalizada.

A força de personagens como Mendonça, portanto, está menos em uma representação direta e mais em sua existência silenciosa, mas significativa. E para muitas mulheres, isso já era um sinal de que sua identidade também poderia fazer parte daquela narrativa, mesmo que de forma tímida e escondida.

É só anos depois que as novelas passaram a apresentar personagens lésbicas com relações afetivas mais desenvolvidas. Exemplos como Clara e Rafaela, em Mulheres Apaixonadas (2003), ou Marina e Clara em Em Família (2014), marcaram uma virada importante, mas que levou décadas para acontecer (e ainda assim, cheio de problemáticas né?).

Ao olhar para trás, é possível ver em personagens como Joana/Mendonça os primeiros passos, ainda que cautelosos, de uma jornada que continua até hoje: a busca por representações mais justas, humanas e completas das diversas formas de amar e existir.

Um romance que parece mais concessão do que verdade

Apesar de toda a construção cuidadosa da personagem, a novela seguiu por um caminho que hoje levanta questionamentos. Mais adiante, Mendonça começa a se envolver com um homem. Para quem acompanha sua trajetória desde o início, esse relacionamento soa forçado. Parece mais uma tentativa de enquadrar a personagem em um final “aceitável” do que uma evolução coerente com quem ela realmente era.

Na época, era comum esse tipo de solução narrativa. Personagens que fugiam do padrão heteronormativo frequentemente acabavam “corrigidos” ao final, como se precisassem se adequar à expectativa do público. No caso de Joana, esse romance soa como uma concessão, uma escolha do roteiro para não ir longe demais.

Ainda assim, não apaga o impacto da personagem. Mesmo com esse desfecho que tenta suavizar sua história, Mendonça continua sendo uma das figuras mais interessantes da novela.

Um olhar de hoje para uma história do passado

Rever Bebê a Bordo com os olhos de 2025 é uma experiência reveladora. Entre cenas cômicas, bordões exagerados e uma estética tipicamente oitentista, há espaço para enxergar Joana como um ponto fora da curva. Uma mulher que já anunciava, ainda que de forma sutil, a necessidade de novas narrativas na televisão brasileira.

Sua história pode não ter tido o final ideal, mas o que ela representa vai além disso. Ela é o reflexo de muitas realidades silenciadas e, ao mesmo tempo, um marco, mesmo que discreto, de representatividade.

Para quem nunca tinha reparado nela, vale a pena prestar atenção agora.

E para quem sempre se incomodou com aquele final que não fazia sentido, agora há espaço para dizer com clareza: Joana era muito mais do que o roteiro permitiu mostrar.