MENDONÇA, de Bebê a Bordo: uma personagem à frente do seu tempo

Com a disponibilização de Bebê a Bordo no Globoplay, resolvi revisitar essa novela clássica dos anos 80 e me deparei com uma grata surpresa: a personagem Joana, vivida por Débora Duarte.

Ou melhor, Mendonça, como era frequentemente chamada pelos demais personagens.

O apelido ajudava a reforçar sua imagem de mulher dura, prática, profissional e de certa forma, distante dos padrões femininos idealizados na época.

Uma novela irreverente e cheia de polêmicas

Escrita por Carlos Lombardi e exibida originalmente em 1988, Bebê a Bordo foi uma novela que ousou em muitos aspectos. Misturava drama, comédia escrachada, sátira social e personagens caricatos, numa estética vibrante e caótica típica das novelas daquele período.

A trama principal girava em torno de Ana, interpretada por Isabela Garcia, uma jovem que abandona sua filha recém-nascida na porta de uma desconhecida, que mais tarde descobre ser sua própria mãe, Laura, vivida por Dina Sfat.

A novela causou bastante repercussão por seu humor irreverente, por abordar temas familiares com certo deboche e por não poupar exageros. Apesar do tom cômico predominante, havia espaço para personagens mais densas e intrigantes, como Mendonça.

Mendonça: uma sapatão em meio ao caos

Desde suas primeiras aparições, Mendonça já chamava atenção. Era uma executiva de marketing respeitada, articulada, eficiente e sempre muito simpática. Mesmo com uma postura reservada e séria, conquistava o respeito e a confiança das pessoas ao seu redor. Mas havia algo a mais naquela personagem que logo despertava a curiosidade de quem assistia.

Ela não falava abertamente sobre sua vida afetiva ou sexual. No entanto, tanto os personagens quanto o público pareciam já saber que Mendonça era lésbica.

Isso era sugerido por pequenas piadas feitas por colegas, pelas constantes visitas das “sobrinhas” que ela recebia em casa e também por sua postura que fugia dos estereótipos femininos esperados da época. Jogava futebol, usava roupas sóbrias, evitava maquiagem e mantinha sempre uma aparência mais neutra.

O apelido Mendonça, dito com naturalidade e sem muito questionamento, também funcionava como uma forma de reforçar essa imagem: ela era “diferente”, uma mulher que não performava feminilidade como as demais personagens. Isso a tornava alvo de brincadeiras, mas também a colocava em uma posição de respeito.

Hoje, com um olhar mais atento e uma compreensão mais ampla das nuances da representação LGBTQIA+ na mídia, fica claro que a sexualidade da personagem estava ali o tempo todo, mesmo que nunca verbalizada. Era uma presença silenciosa, construída com base em códigos sociais, estereótipos e omissões típicas da época.

A representação das lésbicas na TV brasileira: os anos 80 e o silêncio como estratégia

Falar sobre Mendonça também é uma oportunidade de refletir sobre como a televisão brasileira tratava a presença de mulheres lésbicas nas décadas passadas. Nos anos 80, esse tipo de representação era extremamente rara e, quando existia, vinha quase sempre marcada por silêncios, estereótipos e apagamentos.

A TV aberta brasileira, especialmente nas novelas, moldou durante décadas o imaginário nacional sobre afetos, identidades e normas sociais. No entanto, por se tratar de um meio fortemente regulado pela moral dominante, pela censura e pelos interesses comerciais, a diversidade sexual demorou muito a conquistar espaço. Quando personagens LGBTQIA+ apareciam, geralmente eram gays caricatos (voltados para o humor) ou figuras ambíguas que não tinham sua sexualidade claramente verbalizada.

Essas escolhas não eram acidentais. Durante os anos 80, o Brasil ainda vivia as marcas da ditadura militar, que havia terminado oficialmente em 1985. Mesmo com a redemocratização em curso, os tabus morais continuavam presentes na cultura popular, especialmente na televisão, onde qualquer representação que fugisse da heteronormatividade era considerada arriscada.

Um exemplo anterior a Bebê a Bordo é a personagem Letícia, interpretada por Mônica Torres na novela Ciranda de Pedra (1981). Letícia se vestia e se comportava de forma tradicionalmente associada ao masculino. Sua aparência e atitudes fugiam completamente do ideal feminino da época. Embora sua sexualidade nunca tenha sido explicitada na trama, muitos espectadores e estudiosos da televisão a identificam como uma personagem com identidade lésbica ou queer. Ela é lembrada como uma das primeiras figuras femininas da teledramaturgia brasileira a destoar de forma tão visível dos padrões de gênero.

Outro caso marcante ocorreu em Selva de Pedra (remake de 1986), em que as personagens Cíntia (Christiane Torloni) e Fernanda (Beth Goulart) eram retratadas como mulheres bissexuais. A novela chegou a gravar cenas de maior intimidade entre as duas, mas, diante da pressão do público conservador e dos patrocinadores, o roteiro foi reescrito. As cenas foram suavizadas, e o romance entre as personagens acabou sendo neutralizado. O público jamais viu a plenitude dessa relação, que poderia ter representado um marco importante na história da televisão brasileira.

Esse tipo de abordagem tem nome: é o que estudiosos da mídia chamam de “representação implícita” ou “não-dito”. Ao invés de negar completamente a possibilidade de um personagem LGBTQIA+, a novela o constrói com camadas de sugestão — olhares, falas ambíguas, referências indiretas. No caso das lésbicas, o apagamento era duplo: além de não serem mostradas em relações afetivas, muitas vezes também eram representadas por meio de uma “masculinização” que as afastava do desejo, como se fossem assexuadas ou traumatizadas demais para amar.

O impacto desse tipo de representação

Por mais que essas personagens tenham sido importantes por existirem em uma época de pouquíssima visibilidade, suas construções reforçavam a ideia de que a sexualidade lésbica era um segredo, algo proibido, que deveria ser escondido para preservar a ordem social.

E, mesmo assim, eram personagens que geravam identificação. Muitas mulheres lésbicas, ao assistir à TV naquela época, se reconheciam nesses silêncios, nesse tipo de dor não verbalizada.

A força de personagens como Mendonça, portanto, está menos em uma representação direta e mais em sua existência silenciosa, mas significativa. E para muitas mulheres, isso já era um sinal de que sua identidade também poderia fazer parte daquela narrativa, mesmo que de forma tímida e escondida.

É só anos depois que as novelas passaram a apresentar personagens lésbicas com relações afetivas mais desenvolvidas. Exemplos como Clara e Rafaela, em Mulheres Apaixonadas (2003), ou Marina e Clara em Em Família (2014), marcaram uma virada importante, mas que levou décadas para acontecer (e ainda assim, cheio de problemáticas né?).

Ao olhar para trás, é possível ver em personagens como Joana/Mendonça os primeiros passos, ainda que cautelosos, de uma jornada que continua até hoje: a busca por representações mais justas, humanas e completas das diversas formas de amar e existir.

Um romance que parece mais concessão do que verdade

Apesar de toda a construção cuidadosa da personagem, a novela seguiu por um caminho que hoje levanta questionamentos. Mais adiante, Mendonça começa a se envolver com um homem. Para quem acompanha sua trajetória desde o início, esse relacionamento soa forçado. Parece mais uma tentativa de enquadrar a personagem em um final “aceitável” do que uma evolução coerente com quem ela realmente era.

Na época, era comum esse tipo de solução narrativa. Personagens que fugiam do padrão heteronormativo frequentemente acabavam “corrigidos” ao final, como se precisassem se adequar à expectativa do público. No caso de Joana, esse romance soa como uma concessão, uma escolha do roteiro para não ir longe demais.

Ainda assim, não apaga o impacto da personagem. Mesmo com esse desfecho que tenta suavizar sua história, Mendonça continua sendo uma das figuras mais interessantes da novela.

Um olhar de hoje para uma história do passado

Rever Bebê a Bordo com os olhos de 2025 é uma experiência reveladora. Entre cenas cômicas, bordões exagerados e uma estética tipicamente oitentista, há espaço para enxergar Joana como um ponto fora da curva. Uma mulher que já anunciava, ainda que de forma sutil, a necessidade de novas narrativas na televisão brasileira.

Sua história pode não ter tido o final ideal, mas o que ela representa vai além disso. Ela é o reflexo de muitas realidades silenciadas e, ao mesmo tempo, um marco, mesmo que discreto, de representatividade.

Para quem nunca tinha reparado nela, vale a pena prestar atenção agora.

E para quem sempre se incomodou com aquele final que não fazia sentido, agora há espaço para dizer com clareza: Joana era muito mais do que o roteiro permitiu mostrar.

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