Uma vida inteira entre um texto e outro

Eu adoro reler os textos que escrevi aqui.

Quando comecei este blog, tinha 21 anos e muito a dizer. Hoje, aos 35, entendo por quê: quando somos jovens, falamos com a convicção de quem ainda não se enganou o bastante. Com o tempo, a gente descobre que sabe bem menos do que imaginava e que isso, curiosamente, é um alívio.

De lá para cá, tanta coisa mudou: o mundo, a vida, eu.

Minha avó morreu, e foi um baque. Nelson, o marido da minha mãe, também se foi. Veio a Covid. Mudei de casa, saí e entrei em empresas, criei a minha própria empresa! Foram tantas coisas, uma atrás da outra, que às vezes é estranho parar para pensar em tudo o que aconteceu.

Mas continuo a mesma, de certa forma. Sigo lendo meus livros, apaixonada por cinema. Hoje, pelo menos, temos o streaming, que facilita muito a vida. Quando criei o blog, por exemplo, eu passava dias e horas baixando filmes por torrent. Pode uma coisa dessas?

Por falar em mudanças, uma das coisas que mais me divertem ao reler tudo isso aqui é lembrar que, naquela época, não existia ChatGPT. Eu escrevia, apagava, escrevia de novo. Passava horas pesquisando, abria aba atrás de aba. E foi assim que aprendi tanto. Os textos saíam imperfeitos, mas eram inteiramente meus, com cada dúvida e cada descoberta do caminho.

E confesso que já pensei em apagar este blog inúmeras vezes. Depois de tantos anos, não sei se escrevi alguma bobagem por aqui. Provavelmente sim. Mas, quando releio, lembro da Thaís que fui, dos sonhos, da inocência, da coragem e dos defeitos também (é claro).

Por isso, hoje comprei um domínio. O blog passa a ter um endereço próprio, um cantinho só dele na internet. É uma forma de garantir que essa memória continue guardada e que eu (e vocês) possamos revisitar tudo isso.

Mas também é uma maneira de trazer esse espaço de volta à vida. De fazer dele, novamente, um lugar para registrar memórias, experiências, descobertas e coisas que tenho lido, assistido e consumido por aí. Já pensei até em criar um podcast e revisitar essa essência da comunicação, que eu amava tanto quando cursava Jornalismo.

Bom, não sei exatamente o que vai sair daqui, nem com que frequência vou escrever. Talvez essa seja justamente a graça. Quero voltar a escrever sem grandes pretensões, como fazia aos 21 anos. Só que agora com 35 e algumas histórias a mais para contar.

Nos vemos de novo, em breve! 💜

Menina Má e as crianças sombrias na ficção

Tem livros que a gente começa meio por curiosidade, sem grandes expectativas, e de repente se vê completamente fisgado.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo com Menina Má, de William March.

O que me chamou a atenção logo de cara foi a história por trás do autor e da obra, e a edição da DarkSide, como sempre impecável, não deixou passar nada disso. Além de um projeto gráfico bacana,, essa edição traz conteúdo extra que contextualiza o livro, fala da vida do autor e também do impacto que essa história teve na época.

E é aí que a coisa fica ainda mais interessante.

Publicado originalmente em 1954 com o título The Bad Seed (algo como “A semente do mal”), o livro causou um certo rebuliço ao colocar no centro da narrativa uma criança psicopata.

Sim, isso que hoje é até comum em filmes e séries, crianças que cometem crimes, personagens infantis com distúrbios psicológicos, era algo quase impensável na época. Por isso, dá para dizer que Menina Má foi meio vanguarda nesse aspecto.

William March: um autor marcado por conflitos internos

A história de William March é por si só bastante interessante.

Nascido em 1893, nos Estados Unidos, ele teve uma infância conturbada, marcada pela pobreza e por uma relação difícil com o pai. Cresceu em um ambiente rígido e conservador, o que influenciou profundamente sua visão de mundo e, claro, sua escrita.

Mais tarde, lutou na Primeira Guerra Mundial, experiência que o deixou com traumas psicológicos duradouros e inspirou algumas de suas obras mais densas.

Outro aspecto importante da vida de March, e que raramente era falado abertamente na época, foi sua sexualidade. Muitos estudiosos acreditam que ele viveu com a homossexualidade reprimida durante boa parte da vida, o que o levou a um isolamento emocional profundo.

Essa tensão interna aparece de forma sutil em suas obras, seja na forma de personagens marginalizados, seja em temas como a dualidade entre aparência e essência. Saber disso dá uma camada a mais de compreensão e empatia pela figura de March, e talvez ajude a entender o tom sombrio, mas ao mesmo tempo humano, que existe em Menina Má.

A construção do suspense e o impacto cultural

A história gira em torno de Rhoda Penmark, uma garotinha aparentemente perfeita: educada, inteligente, doce. Mas aos poucos, a mãe dela começa a perceber que por trás dessa fachada existe algo errado. Muito errado.

O jeito que o livro constrói essa tensão é excelente. Não tem exageros ou violência explícita — tudo vai sendo sugerido, revelado aos poucos, e isso faz com que a leitura seja ainda mais instigante. A dúvida, a ambiguidade moral, o desespero da mãe que vai sendo corroída por uma verdade difícil de aceitar.

E uma curiosidade que achei muito legal é que o sucesso do livro foi tão grande que ele rapidamente virou uma peça de teatro e, logo depois, um filme.

The Bad Seed, de 1956, é um clássico do cinema da época e manteve boa parte do elenco original da peça, inclusive a atriz que interpretou Rhoda. O filme, claro, tem algumas adaptações (inclusive um final mais aceitável para os padrões morais da época), mas continua sendo uma ótima pedida para quem curte cinema antigo e quer ver como essa história foi traduzida para as telas.

Leitura rápida e que prende a atenção

Pois é, foi uma leitura rápida e, ao mesmo tempo, muito prazerosa. Não é um livro longo, mas tem uma densidade psicológica que te prende do início ao fim. William March tem uma escrita afiada, direta, e ao mesmo tempo sensível nos momentos certos. É fácil entender por que essa história marcou tanta gente e continua relevante até hoje.

E mesmo sendo um romance da década de 50, ele ainda consegue provocar reflexões atuais sobre natureza versus criação, psicologia infantil, o papel dos pais, e até que ponto o mal pode ser algo inato ou moldado. São temas que ainda hoje geram debates e, em Menina Má, são explorados com uma maturidade surpreendente.

No fim das contas, gostei muito da leitura.

ara quem curte thrillers psicológicos, clássicos sombrios ou histórias com personagens moralmente ambíguos, é uma leitura que vale muito a pena.

Marcia Gay Harden: Da Broadway ao Oscar com Coração e Consciência

Marcia Gay Harden é um daqueles nomes que, mesmo que você não reconheça de imediato, provavelmente já viu em algum papel marcante.

Seja no cinema, na televisão ou no teatro, ela sempre aparece com uma presença forte, entregando performances intensas, emocionantes e memoráveis.

Ao longo da carreira, Harden construiu um repertório diversificado, conquistando o respeito da crítica e o carinho do público. Sua história pessoal também é cheia de nuances e atitudes inspiradoras que mostram quem ela é além das telas.

Origens e infância: uma vida em movimento

Marcia nasceu no dia 14 de agosto de 1959, em La Jolla, Califórnia. Filha de Beverly, uma dona de casa, e Thad Harold Harden, um oficial da Marinha dos Estados Unidos, ela teve uma infância itinerante.

Por conta da carreira do pai, a família se mudou diversas vezes, morando em diferentes partes do mundo, incluindo Japão, Alemanha, Grécia e vários estados americanos. Essa experiência multicultural teve um papel importante na formação de sua visão de mundo e também influenciou sua capacidade de adaptação e empatia, características fundamentais para sua atuação como atriz.

Apesar das constantes mudanças, Marcia encontrou nas artes um ponto de equilíbrio. Ela estudou teatro na Universidade do Texas e depois concluiu um mestrado em Belas Artes na Tisch School of the Arts da Universidade de Nova York, um dos centros de formação mais prestigiados para atores. Foi ali que ela refinou suas habilidades e deu os primeiros passos profissionais rumo a uma carreira brilhante.

Trajetória: entre o teatro, o cinema e a televisão

O início da carreira de Marcia foi marcado por participações no teatro off-Broadway e em produções independentes. Aos poucos, ela foi chamando a atenção por sua presença cênica e pela profundidade emocional de suas interpretações.

Sua estreia no cinema aconteceu nos anos 80, mas foi em 1990, com o filme “Os Bons Companheiros” (Goodfellas), de Martin Scorsese, que ela começou a ser notada pelo grande público. Mesmo em um papel pequeno, sua performance foi destacada.

A década de 1990 foi importante para consolidar sua posição como atriz de talento. Ela participou de filmes como “The Spitfire Grill”, “Miller’s Crossing” e “Meet Joe Black”.

No entanto, o grande reconhecimento viria em 2000, quando Marcia venceu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação em “Pollock”, no papel de Lee Krasner, artista plástica e esposa do pintor Jackson Pollock. A interpretação foi profundamente aclamada por sua entrega emocional e pela complexidade que ela trouxe à personagem.

Pollock e o Oscar: um marco na carreira

O filme “Pollock”, dirigido e estrelado por Ed Harris, foi um projeto pessoal e artístico ambicioso, que retratava a vida do icônico pintor expressionista Jackson Pollock. Marcia interpretou Lee Krasner com tanta intensidade e verdade que acabou ganhando o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2001.

Essa vitória foi um divisor de águas em sua carreira.

Além do reconhecimento da indústria, o prêmio abriu portas para papéis mais variados e desafiadores. A atuação em “Pollock” revelou ao público e à crítica a profundidade da sua entrega como atriz e sua capacidade de se transformar completamente em seus personagens.

Angels in America: um dos grandes momentos no teatro

Apesar de ter alcançado fama no cinema, Marcia nunca abandonou o teatro. Um dos seus momentos mais relembrados nos palcos aconteceu com sua participação em “Angels in America”, a monumental obra de Tony Kushner que aborda temas como AIDS, religião, política e identidade na América dos anos 80.

A peça é dividida em duas partes e é considerada um marco do teatro contemporâneo.

Marcia participou da montagem de “Angels in America” na Broadway, demonstrando, mais uma vez, sua coragem e versatilidade como intérprete.

Uma mãe com orgulho: filhos queer e ativismo

Em diversas entrevistas e aparições públicas, ela demonstrou ser uma mãe amorosa e defensora dos direitos LGBTQIA+. Três filhos nasceram do seu casamento com o diretor Thaddaeus Scheel, que terminou em 2012, e os três se identificam como queer.

Em 2023, ela participou do evento “Drag Isn’t Dangerous” (em português, “Drag não é perigoso”), um especial beneficente em apoio à comunidade drag e LGBTQIA+.

Durante o evento, Harden falou sobre o orgulho que sente de seus filhos e sobre a importância de apoiar a diversidade e combater o preconceito.

Sua fala foi clara, sensível e direta. Ela disse que o amor é amor e que é papel dos pais abraçar os filhos exatamente como são. Sua postura tocou muitas pessoas e ganhou destaque nas redes sociais e na mídia.

Versatilidade como marca registrada

Se há uma característica que define a carreira de Marcia Gay Harden, é a versatilidade. Ela já interpretou vilãs cruéis, mães amorosas, profissionais determinadas e personagens profundamente humanas e falhas.

Sua filmografia inclui dramas intensos, comédias leves, suspenses psicológicos e até blockbusters, como sua participação em “Cinquenta Tons de Cinza”, onde interpretou Grace, a mãe adotiva de Christian Grey.

Essa diversidade de papéis não é à toa.

De fato, ela consegue transitar entre diferentes estilos de atuação sem perder sua identidade como artista. Isso a torna uma presença sempre interessante, capaz de surpreender o público mesmo em papéis pequenos.

MENDONÇA, de Bebê a Bordo: uma personagem à frente do seu tempo

Com a disponibilização de Bebê a Bordo no Globoplay, resolvi revisitar essa novela clássica dos anos 80 e me deparei com uma grata surpresa: a personagem Joana, vivida por Débora Duarte.

Ou melhor, Mendonça, como era frequentemente chamada pelos demais personagens.

O apelido ajudava a reforçar sua imagem de mulher dura, prática, profissional e de certa forma, distante dos padrões femininos idealizados na época.

Uma novela irreverente e cheia de polêmicas

Escrita por Carlos Lombardi e exibida originalmente em 1988, Bebê a Bordo foi uma novela que ousou em muitos aspectos. Misturava drama, comédia escrachada, sátira social e personagens caricatos, numa estética vibrante e caótica típica das novelas daquele período.

A trama principal girava em torno de Ana, interpretada por Isabela Garcia, uma jovem que abandona sua filha recém-nascida na porta de uma desconhecida, que mais tarde descobre ser sua própria mãe, Laura, vivida por Dina Sfat.

A novela causou bastante repercussão por seu humor irreverente, por abordar temas familiares com certo deboche e por não poupar exageros. Apesar do tom cômico predominante, havia espaço para personagens mais densas e intrigantes, como Mendonça.

Mendonça: uma sapatão em meio ao caos

Desde suas primeiras aparições, Mendonça já chamava atenção. Era uma executiva de marketing respeitada, articulada, eficiente e sempre muito simpática. Mesmo com uma postura reservada e séria, conquistava o respeito e a confiança das pessoas ao seu redor. Mas havia algo a mais naquela personagem que logo despertava a curiosidade de quem assistia.

Ela não falava abertamente sobre sua vida afetiva ou sexual. No entanto, tanto os personagens quanto o público pareciam já saber que Mendonça era lésbica.

Isso era sugerido por pequenas piadas feitas por colegas, pelas constantes visitas das “sobrinhas” que ela recebia em casa e também por sua postura que fugia dos estereótipos femininos esperados da época. Jogava futebol, usava roupas sóbrias, evitava maquiagem e mantinha sempre uma aparência mais neutra.

O apelido Mendonça, dito com naturalidade e sem muito questionamento, também funcionava como uma forma de reforçar essa imagem: ela era “diferente”, uma mulher que não performava feminilidade como as demais personagens. Isso a tornava alvo de brincadeiras, mas também a colocava em uma posição de respeito.

Hoje, com um olhar mais atento e uma compreensão mais ampla das nuances da representação LGBTQIA+ na mídia, fica claro que a sexualidade da personagem estava ali o tempo todo, mesmo que nunca verbalizada. Era uma presença silenciosa, construída com base em códigos sociais, estereótipos e omissões típicas da época.

A representação das lésbicas na TV brasileira: os anos 80 e o silêncio como estratégia

Falar sobre Mendonça também é uma oportunidade de refletir sobre como a televisão brasileira tratava a presença de mulheres lésbicas nas décadas passadas. Nos anos 80, esse tipo de representação era extremamente rara e, quando existia, vinha quase sempre marcada por silêncios, estereótipos e apagamentos.

A TV aberta brasileira, especialmente nas novelas, moldou durante décadas o imaginário nacional sobre afetos, identidades e normas sociais. No entanto, por se tratar de um meio fortemente regulado pela moral dominante, pela censura e pelos interesses comerciais, a diversidade sexual demorou muito a conquistar espaço. Quando personagens LGBTQIA+ apareciam, geralmente eram gays caricatos (voltados para o humor) ou figuras ambíguas que não tinham sua sexualidade claramente verbalizada.

Essas escolhas não eram acidentais. Durante os anos 80, o Brasil ainda vivia as marcas da ditadura militar, que havia terminado oficialmente em 1985. Mesmo com a redemocratização em curso, os tabus morais continuavam presentes na cultura popular, especialmente na televisão, onde qualquer representação que fugisse da heteronormatividade era considerada arriscada.

Um exemplo anterior a Bebê a Bordo é a personagem Letícia, interpretada por Mônica Torres na novela Ciranda de Pedra (1981). Letícia se vestia e se comportava de forma tradicionalmente associada ao masculino. Sua aparência e atitudes fugiam completamente do ideal feminino da época. Embora sua sexualidade nunca tenha sido explicitada na trama, muitos espectadores e estudiosos da televisão a identificam como uma personagem com identidade lésbica ou queer. Ela é lembrada como uma das primeiras figuras femininas da teledramaturgia brasileira a destoar de forma tão visível dos padrões de gênero.

Outro caso marcante ocorreu em Selva de Pedra (remake de 1986), em que as personagens Cíntia (Christiane Torloni) e Fernanda (Beth Goulart) eram retratadas como mulheres bissexuais. A novela chegou a gravar cenas de maior intimidade entre as duas, mas, diante da pressão do público conservador e dos patrocinadores, o roteiro foi reescrito. As cenas foram suavizadas, e o romance entre as personagens acabou sendo neutralizado. O público jamais viu a plenitude dessa relação, que poderia ter representado um marco importante na história da televisão brasileira.

Esse tipo de abordagem tem nome: é o que estudiosos da mídia chamam de “representação implícita” ou “não-dito”. Ao invés de negar completamente a possibilidade de um personagem LGBTQIA+, a novela o constrói com camadas de sugestão — olhares, falas ambíguas, referências indiretas. No caso das lésbicas, o apagamento era duplo: além de não serem mostradas em relações afetivas, muitas vezes também eram representadas por meio de uma “masculinização” que as afastava do desejo, como se fossem assexuadas ou traumatizadas demais para amar.

O impacto desse tipo de representação

Por mais que essas personagens tenham sido importantes por existirem em uma época de pouquíssima visibilidade, suas construções reforçavam a ideia de que a sexualidade lésbica era um segredo, algo proibido, que deveria ser escondido para preservar a ordem social.

E, mesmo assim, eram personagens que geravam identificação. Muitas mulheres lésbicas, ao assistir à TV naquela época, se reconheciam nesses silêncios, nesse tipo de dor não verbalizada.

A força de personagens como Mendonça, portanto, está menos em uma representação direta e mais em sua existência silenciosa, mas significativa. E para muitas mulheres, isso já era um sinal de que sua identidade também poderia fazer parte daquela narrativa, mesmo que de forma tímida e escondida.

É só anos depois que as novelas passaram a apresentar personagens lésbicas com relações afetivas mais desenvolvidas. Exemplos como Clara e Rafaela, em Mulheres Apaixonadas (2003), ou Marina e Clara em Em Família (2014), marcaram uma virada importante, mas que levou décadas para acontecer (e ainda assim, cheio de problemáticas né?).

Ao olhar para trás, é possível ver em personagens como Joana/Mendonça os primeiros passos, ainda que cautelosos, de uma jornada que continua até hoje: a busca por representações mais justas, humanas e completas das diversas formas de amar e existir.

Um romance que parece mais concessão do que verdade

Apesar de toda a construção cuidadosa da personagem, a novela seguiu por um caminho que hoje levanta questionamentos. Mais adiante, Mendonça começa a se envolver com um homem. Para quem acompanha sua trajetória desde o início, esse relacionamento soa forçado. Parece mais uma tentativa de enquadrar a personagem em um final “aceitável” do que uma evolução coerente com quem ela realmente era.

Na época, era comum esse tipo de solução narrativa. Personagens que fugiam do padrão heteronormativo frequentemente acabavam “corrigidos” ao final, como se precisassem se adequar à expectativa do público. No caso de Joana, esse romance soa como uma concessão, uma escolha do roteiro para não ir longe demais.

Ainda assim, não apaga o impacto da personagem. Mesmo com esse desfecho que tenta suavizar sua história, Mendonça continua sendo uma das figuras mais interessantes da novela.

Um olhar de hoje para uma história do passado

Rever Bebê a Bordo com os olhos de 2025 é uma experiência reveladora. Entre cenas cômicas, bordões exagerados e uma estética tipicamente oitentista, há espaço para enxergar Joana como um ponto fora da curva. Uma mulher que já anunciava, ainda que de forma sutil, a necessidade de novas narrativas na televisão brasileira.

Sua história pode não ter tido o final ideal, mas o que ela representa vai além disso. Ela é o reflexo de muitas realidades silenciadas e, ao mesmo tempo, um marco, mesmo que discreto, de representatividade.

Para quem nunca tinha reparado nela, vale a pena prestar atenção agora.

E para quem sempre se incomodou com aquele final que não fazia sentido, agora há espaço para dizer com clareza: Joana era muito mais do que o roteiro permitiu mostrar.

A doce voz de Natalia Lafourcade

 

Tenho escutado as músicas de sempre, em looping. Sabe quando você cria uma playlist e passa a ouví-la diariamente, indo e voltando para algum lugar do cotidiano, numa repetição sem fim? Eu meio que “estacionei” nessa situação, pois tenho bastante dificuldade em encontrar músicas novas que me interessam. [E, quando eu encontro, escuto por dias seguidos, repetidas vezes].

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Então, é sempre assim, todo dia a minha playlist começa com Kate Bush, passa por Marcelo D2, Elis, Mercedes Sosa, Caetano e Gal. Nada mal, né? Mas um pouco cansativo, confesso. Até que num dia, um amigo me apresentou a NPR Music, uma plataforma americana sem fins lucrativos que oferece uma programação super alternativa. Eles possuem um canal no Youtube, chamado Tiny Desk, por onde passaram artistas de diversas nacionalidades e que se apresentam num tom mais intimista e autoral.

Lá fui eu: abri o canal, deixei tocar no automático e comecei a trabalhar nos meus textos. Daí escuto: Natalia Lafourcade, com uma voz super doce e com músicas leves e gostosas, baladinhas de latin rock, que trazem muito da música folclórica latino-americana, numa pegada bem autoral e atualizada. Fiquei por dias escutando as músicas, decorando as frases mais impactantes (e anotando nos meus bloquinhos).

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Despidiendo últimamente todo lo que sucedió

Hoy saludo mi presente y gusto de este dulce adiós (lindo, né?)

Lafoucarde é uma cantora mexicana, muito admirada pelo seu trabalho como compositora. Inclusive, recebeu o Grammy (2018) pelo melhor álbum, que traz uma homenagem à música folclórica latino-americana. No seu último disco, chegou a fazer uma homenagem à Agustín Lara (que, por muitos anos, foi namorado de María Félix; um ícone do cinema mexicano).

A minha música preferida, sem dúvidas, é “Soledad y el mar”. Mas, tem também a “Tu si sabes quererme”, que apresenta uma pegada bem romântica (e humorada). Engraçado, mas a voz da Lafoucarde me lembra muito a Carla Morrison, ao mesmo tempo em que a “pegada” das letras me lembram a Chavela Vargas (que, fazendo um comentário fora da curva, era apaixonada pela Frida Kahlo, sabia?).

É sempre bom descobrir músicas novas e, melhor ainda, poder compartilhá-las. Se você tiver um tempinho, dá uma procurada por ela no Spotify ou no Youtube mesmo. Depois, passa aqui para me contar o que achou? E, se tiver alguma dica de música, não deixe de colocar nos comentários, adoraria trocar ideias sobre o assunto!

VOCÊ SABE O QUE É O TESTE BECHDEL?

Refletir sobre a representação das mulheres no cinema (e na mídia, em geral) é uma forma importante de promover a igualdade de gênero e atuar em estratégias de melhoria social. Um dado importante do Instituto de Pesquisa da Geena Davis, indica que as mulheres representam menos de um terço dos personagens com falas nos filmes. Além disso, quando possuem alguma profissão nessas tramas, normalmente não ocupam lugares de poder.

Já está mais do que constatado,que a mídia é sexista. Mas, existe toda uma atuação de mulheres e homens que atuam para mudar essa perspectiva. E, nesse contexto, está o Teste de Bechdel. O teste surgiu em 1985, quando Alison Bechdel, cartunista, realizou uma tirinha ironizando os filmes hollywoodianos que, em sua maioria, representam as mulheres de uma forma estereotipada.

Nele é feito questionamentos simples, mas extremamente relevantes na análise cinematográfica ou mesmo nas pesquisas de sexualidade e gênero. As questões podem parecer triviais, mas tenha em mente que muitos filmes (inclusive, famosos blockbusters) não passam pelos testes.

Para “passar” no teste, o filme deve cumprir três pequenas regras:

  • ter duas personagens com nome
  • ao menos uma cena em que duas mulheres conversam entre sí
  • o tema não pode ser sobre homem

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NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO: A SOLIDÃO FEMININA

A professora de artes Sheba (Cate Blanchett) acaba de se mudar para uma nova escola e, sem conhecer muito bem o local, aproxima-se de Bárbara Covett (Judi Dench) também professora do colégio. Ela o faz, sem saber que esta dominadora mulher, possui atitudes extremamente bizarras e obsessivas. Em princípio, as duas se tornam grandes amigas: saem para beber, visitam a casa uma da outra e trocam inúmeras confidências.

Mas, um fato quebra a relação idílica das duas: Bárbara descobre que Sheba está se relacionando com um de seus alunos, de 15 anos.

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Notas Sobre um escândalo é uma história bastante curiosa (o livro, inclusive, é tão ou mais envolvente). Mais do que uma narrativa sobre a obsessão de uma mulher com a outra, a história retrata (de forma bem sutil) a solidão feminina. Ao longo da narrativa, é possível observar como os detalhes fazem toda a diferença: a gata de Bárbara como o único elo emocional da professora, o marido mais velho e o filho de Sheba, que fazem com que ela se sinta cada vez mais esgotada e sem saída.

Os dois personagens são muito complexos, com nuances bem particulares. Bárbara é uma mulher na casa dos 60 anos, extremamente carente e com um histórico duvidoso. Suas atitudes indicam uma sexualidade reprimida e toques de “desejos homossexuais latentes”. Da parte de Sheba, um imediatismo em vivenciar experiências novas e aproveitar a juventude que se esvai, além da necessidade por sexo (que, provavelmente, está em falta com o marido).

Difícil não ficar um pouco incomodado com certos acontecimentos, a gente quase fica “envergonhado” com certas atitudes dos personagens, o que transforma o espectador em um voyeur absoluto.

[Pycho-Bidd] Mulheres mais velhas e cinema

Psycho-biddy (também conhecido com hag horror ou hagsploitation) é um subgênero do terror que, normalmente, apresenta filmes que contam histórias de mulheres na casa dos 50/60 anos, mentalmente abaladas por algum acontecimento que as aterroriza, por um alto nível de estresse (ou, apenas desestruturadas psicologicamente).

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O estilo surgiu em 1962, com o assombroso sucesso de “O que terá acontecido à Baby Jane” (um clássico protagonizado por Bette Davis e Joan Crawford), e foi, também, inspirado em “Crepúsculo dos Deuses” (famoso noir estrelado por Gloria Swanson).
O subgênero “Mulheres Psicóticas” (numa tradução à brasileira) apresenta tramas repletas de vingança, assassinato ou melodrama e o mais importante: “mulheres maduras em situações de perigo/violência/loucura”.
[ Particularmente, acho que esses personagens são sensacionais, especialmente quando abordados de uma forma caricata ou sarcástica, ainda que apresentem inúmeras possibilidades. Há muito humor em “Nazaré Tedesco”, por exemplo, mas há também muito drama em Bárbara Covett (personagem de Judi Dench em Notas sobre um Escândalo).]

Jessica Lange em AHS: podemos considerar como Hag Horror?

O subgênero andava esquecido, até que (re) surge Jessica Lange, com a sua cabeleira loira e estilo inconfundível, em American Horror Story. Murphy, o diretor da trama, fã do tema e extremamente atualizado com o que chamamos de “escola de cinema”, não poderia ter feito um trabalho mais incrível e bem elaborado (tsc, tsc…ainda que eu ache que tenha perdido a mão à partir da terceira temporada).
Como Constance, em Murder House, Jéssica dá a vida à uma mulher enigmática e vingativa, repleta de mistérios sobre os filhos e com uma relação estranha com a casa. A maior característica desse hag horror é a sua posição em relação à Moira, a empregada da casa (e “ex” amante do seu marido, digamos…).
Mas, o ápice acontece em Sister Jude, a freira e ex-prostituta que dirige um manicômio.

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Jude, assim como todas as personagens que se enquadram no gênero, luta contra a decadência física da idade, nutre uma paixão não correspondida (por um padre) e está em uma situação de extremo estresse: encara a possibilidade de perder o posto no manicômio, a aproximação de uma jornalista muito curiosa e acontecimentos “sobrenaturais” e inexplicáveis.

Vivemos, então, a reinvenção do subgênero?

Desde a sua invenção, o subgênero conta com diversos filmes (diferentes nuances e histórias). Há, inclusive, uma ótima lista no Filmow para quem se interessa pelo assunto e que entender um pouco mais sobre o tema.

O fato mais interessante é que na época da sua criação, existia uma espécie de deboche, as atrizes maduras (então consideradas veneno de bilheteria), eram vistas com certa piedade por parte da crítica, que não perdoava a idade.

Não cabe hipocrisia: as atrizes, na medida que vão ficando mais velhas, continuam perdendo espaço em Hollywood. Mas, hoje há toda uma interpretação diferenciada sobre a idade, sobre sexualidade e beleza. Entende-se, cada vez mais, que é possível envelhecer de uma forma diferenciada, manter a vivacidade e explorar a pluralidade feminina, em diversos personagens.

O ESPETÁCULO MAIS TRISTE DA TERRA

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Gosto muito de livros com reportagens e reconstituições, especialmente se feitos com a mesma primazia e atenção que se encontra em “O espetáculo mais triste da terra”, livro escrito por Mauro Ventura.  Por meio de diversas entrevistas, Ventura reconstitui a tragédia do Grande Circo Americano, ocorrida no Rio de Janeiro em 1961 e vai, delicadamente, traçando o perfil dos personagens e os efeitos dos acontecimentos na vida de cada um deles.

O Grande Circo Americano anunciava sua chegada com a chamada: “O maior espetáculo da Terra”, frase de impacto de atraiu um enorme público. Mas: ele não tinha lona, era coberto por um plástico (de última tecnologia) que, durante o acidente, impediu a saída das pessoas (muitas crianças) que, ao notarem o fogo e ficarem apavorados, criaram um efeito manada, pisoteando uns aos outros.  

E o pior: a tragédia ocorreu na véspera de Natal.

A história, de tão trágica (e bem escrita) provoca muito incômodo: pessoas desfiguradas, crianças perdendo a família ou pais reconhecendo os corpos dos filhos. É praticamente impossível não se deixar impactar pelos relatos de dor e tristeza daqueles que presenciaram o ocorrido. Mas, apesar de todo o drama, há aspectos importantes/interessantes da época, que nos ajudam a visualizar um pouco do Brasil de antigamente.

Um deles, por exemplo, é a análise que o autor faz sobre a inexistência da tecnologia como conhecemos hoje. A presença de celulares, redes sociais ou mesmo internet, poderia ter facilitado o socorro à vítimas, a comunicação com os bombeiros ou médicos (pasmem! o principal hospital da cidade encontrava-se fechado, pois os funcionários estavam em greve). Portanto, houve um enorme desencontro: pessoas chegavam ao ambulatório e não eram recebidas. João Goulart, presidente do Brasil à época, precisou se mobilizar e fez um pedido de desculpa público às vítimas

Duas figuras, no entanto, merecem bastante atenção. A primeira delas é o Profeta Gentileza, que fez a sua “primeira aparição”. Ele pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio ajudar as vítimas (500 pessoas morreram). Ele viveu no RJ por 4 anos e depois, percorreu o Brasil divulgando mensagens de paz e solidariedade. O segundo é o cirurgião plástico Ivo Pitanguy, que até então, defendia os procedimentos de reconstituição e era desacreditado pelos colegas. A plástica naquela época, muito distante do que conhecemos hoje, ainda dava os primeiros passos.

Em geral, trata-se de um livro muito interessante, que nos mantém presos à leitura do início ao fim. Recomendo, muitíssimo.

[BIRDBOX] E A SUBJETIVIDADE DO CINEMA

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Lançado recentemente pela Netflix, Birdbox (dirigido por Susanne Bier e protagonizado por Sandra Bullock) gerou uma onda de memes, críticas, resenhas e comentários pela internet. A popularização do longa, que contou com um marketing enorme, não é de se estranhar: além da facilidade da distribuição do streaming, o filme apresenta um apelo imagético ao famoso livro “Caixa de Pássaros”, de Josh Malerman.

Particularmente, o que mais me chamou atenção nesse lançamento, não foi o filme em sí, mas a onda calorosa de críticas (positivas e negativas) que ele casou. Sem entrar no mérito se o filme é bom ou ruim, o que mais me agrada nessa história toda é a subjetividade que o cinema carrega consigo e suas inúmeras possibilidades de interpretação. 

Resumindo: diversos espectadores criaram discussões online para identificar as metáforas e alegorias que o filme apresenta. Depressão pós parto, luta pela sobrevivência, redescoberta do eu, luto… Enfim, uma série de interpretações e possibilidades que são também abstratas e mostram, de uma forma bem interessante, como a arte (no caso, a sétima arte) pode ser muito frutífera.

Bird box

Birdbox conta a história de Malorie, uma mulher com dois filhos, que precisa chegar em um refúgio para escapar de uma criatura desconhecida e extremamente perigosa. O cenário é pós-apocalíptico, onde as pessoas precisam usar uma venda, que impedem que vejam tal criatura (ela transforma as pessoas em seres violentos, que tentam o auto extermínio).

O filme tem toda uma atmosfera angustiante, que prende mais pelo suspense sobre as criaturas, do que pelos personagens (não muito carismáticos). Em suma, trata-se de um ótimo exemplo de como o entretenimento, o consumo e a arte estão cada vez mais diluídos.

E aí, você já viu o filme? O que achou do longa? Deixe um comentário nesse post, queremos saber a sua opinião. 🙂