Comentou, mas não assistiu

gloria pires no oscar

Uma curiosidade meio mórbida me fez assistir a transmissão do Oscar pela Rede Globo, foram surgindo vários memes da Glória Pires na internet e eu fui ficando absurdamente louca para saber do que se tratava. Acontece que Glória simplesmente não sabia o que fazer ali, não conhecia o nome dos diretores, dos atores, e não tinha feito o para casa; o essencial: assistir os filmes. “Bacana”, “Merecido” e até um “Médio” ela foi capaz de soltar. Engraçado foi, mas vergonhoso também. O que me levou a pensar no que passou na cabeça dessa atriz, tão querida, que aceitou se expor desse jeito. Ou ela acreditou que ser comentarista de um evento desse porte se dá apenas em dizer o que achou, sem emitir nenhum conhecimento técnico? Por outro lado, Maria Beltrão e Arthur Xexeo, rápidos nas observações, carregavam livros e cadernos de anotações que os direcionavam e ajudavam a assimilar as indicações e categorias. Beltrão tentava tirar alguma coisa de Glória Pires, que fazia um olhar evasivo (do tipo que não faz ideia do que a pergunta se trata) e logo, uma bola fora. “Glória, qual será o melhor filme¿” “Eu não sou boa em previsões, mas acho que Trumbo”. Trumbo não foi indicado…A confusão de Glória me confundia, porque eu também estava por fora dos filmes e imagino que muitos espectadores também, quer dizer, ela deixou o desinformado ainda mais confuso. Foi estranho, muito estranho..

Flores raras (e banalíssimas)

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério

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Acabo de chegar do cinema, fui ver Flores Raras, do Bruno Barreto com Glória Pires e Miranda Otto. É um belo filme que, aliás, retrata uma história linda. Apesar de grande parte ser em inglês, eis um longa de fácil identificação ao público brasileiro (principalmente por ter como cenário o Rio de Janeiro da década de 50/60 e apresentar referências políticas, culturais e econômicas).

Li outro dia que ‘Flores Raras’ é um romance lésbico e agora, depois de vê-lo, não acho que essa classificação o faz justiça. De fato, há uma forte abordagem do romance das personagens principais (aliás, mulheres admiráveis), mas o filme não se restringe a isso. Flores raras levanta uma reflexão sobre a própria condição humana, dos amores não correspondidos, do desejo, da insegurança, das decepções e anseios.

O filme retrata a chegada da poeta norte-americana Elizabeth Bishop (interpretada por Miranda Otto) ao Brasil, em 1951. A convite da amiga Mary (Tracy Middendorf), Bishop  vem para o país e se hospeda na casa da arquiteta Lota de Macedo Soáres (Gloria Pires). Seu interesse era ficar por duas semanas, acabou ficando por quinze anos. Mary e Lota possuem um longo relacionamento e a chegada de Elizabeth, em princípio, não causa nenhum problema. Inicialmente há um perceptível estranhamento entre Bishop e Lota, duas mulheres fortes com temperamentos e inspirações diferentes. Aos poucos as duas se apaixonam e Mary perde o seu lugar.

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Em sua enorme casa, Lota constrói um escritório para Elizabeth e é lá onde ela realiza ‘North & South — A Cold Spring, obra que lhe rendeu o prêmio Pulitzer de 1956.  A relação das duas, conturbada pelo alcoolismo de Bishop, pela presença de Mary (que decide adotar um bebê) e pela intimidadora personalidade de Lota, vai se desgastando aos poucos até que Bishop decide voltar a Nova York e lecionar na Universidade de Havard. Nesse meio tempo, Lota estava envolvida com a política e realizava (a convide do Carlos Lacerda) um de seus trabalhos mais conhecidos, o Parque do Flamengo, que foi duramente criticado pela imprensa.

Bruno Barreto (também diretor em Última partida 174 e O que é isso Companheiro?) acertou em cheio ao não levantar bandeiras e tratar a homossexualidade com naturalidade. O trabalho cenográfico é primoroso, a ambientação e o figurino foram muito bem elaborados. Gosto especialmente do cuidado que ele demonstrou ao usar planos subjetivos e sugerir um efeito catártico em relação à Bishop, como aquela cena em que ela lava os cabelos de Lota e lhe faz um poema, em homenagem…

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?

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Gloria Pires está belíssima, muito sensual e sobressai às outras. Vi uma entrevista dela no Canal Brasil, onde ela dizia que não teve problemas em falar em inglês, mas ficou temerosa nas cenas mais fortes já que a memorização é um pouco mais complexa. Glória encarna uma Lota agressiva, menos feminina que as outras personagens e parece ser muito mais forte também. É interessante quando Elizabeth lhe pergunta sobre sua profissão e ela fala: ‘nasci arquiteta’, de fato, Lota nunca frequentou a universidade e foi reconhecida como arquiteta autodidata e paisagista emérita.