As ligações perigosas: sobre o livro

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“O amor, o ódio, só tem o trabalho de escolher,

tudo está debaixo do mesmo tecto.

E pode até, fazendo existência dupla,

afagar com uma das mãos e ferir com a outra “

M. Merteuil

Entusiasmada com a narrativa, li o livro e fiz anotações sobre detalhes que me chamaram atenção. Um delas, e talvez até evidente, é que a Marquesa de Merteuil é um personagem muito mais pérfido e cruel do que parece ser no filme. Logo nas páginas iniciais, quando o Visconde revela o desejo de se relacionar com a Presidente de Tourvel, a Marquesa sugere que ele poupe se tempo, ‘tome sua virtude a força’ e atenda seu pedido de desonrar a jovem Cecília Volanges. Em uma carta da Madame de Volanges, fica muito claro porque as outras mulheres a admiram: não só por sua beleza, mas também por conseguir resistir [como assim dizia] aos terríveis encantamentos do Visconde – e não ser domada por nenhum homem.

Em boa parte do livro, o Visconde e a Marquesa se empenham em fazer com que Cecília e Dancey se encontrem, ao mesmo tempo, morrem de tédio das infindáveis e tolas declarações de amor. Já na segunda parte da trama, a Marquesa decide denunciar a troca de cartas entre os jovens apaixonados por puro divertimento, para ela não existe amor sem obstáculos e é dessa forma que, ironicamente, ganha a confiança de Cecília, Dancey e da Madame de Volagens.

Assim como no filme, as passagens mais interessantes se dão entre o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil. As cartas trocadas por eles estão repletas de ironia, sensualidade e duplo sentido. Além disso, os dois analisam os outros personagens friamente (até com certo deboche) e garantem o ritmo da narrativa. O Visconde de Valmont também merece seu destaque, sua insistência em relação a Presidente de Tourvel é admirável, assim como a sua astúcia. Um fato que me chamou a atenção foi que o Visconde só decidiu tirar a virgindade de Cecília após descobrir que sua mãe escrevia cartas denunciando-o a Presidenta (e não apenas, para agradar a Marquesa).

Provavelmente é uma impressão minha (pois não achei menção a isso em nenhuma página da internet), mas é o seguinte: durante algumas passagens, o Visconde e a Marquesa me pareceram apresentar certos interesses homossexuais, um exemplo é quando o Visconde relata um fato que lhe ocorreu quando estava na casa da Viscondessa M: ‘Os beijos da Viscondessa deixaram-me indiferente, mas confesso que o de Vressac me deu prazer’. Em outro momento, a Marquesa cita Cecília mas não se refere a ela como amiga e sim como uma leve paixão e que se fosse homem teria prazer em cortejá-la (a carta logo me lembrou da famosa cena do filme ‘Segundas Intenções’ – filme de 1999, também baseado no livro, onde Kathryn Merteuil (interpretada por Sarah Michelle Gellar) e Cecile (Selma Blair) se beijam.

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A Marquesa me pareceu muito mais sábia e maquiavélica do que o Visconde. Em uma passagem do livro, o Visconde pede que a Marquesa não dê atenção a Prévan, um homem que disse publicamente que a conquistaria. Ela se nega a atender seus pedidos, diz que dormiria com Prévan para satisfazer sua própria vontade e que ninguém iria ficar sabendo. [A Marquesa mede suas forças com o Visconde, não atende seu pedido e ainda lhe provoca ciúmes]. O fato é que a Marquesa arma para Prévan e faz com que o encontro dos dois se pareça a uma tentativa de estupro – Prévan acaba preso.

Na primeira e na segunda parte, Cecília nos leva a crer que é uma moça inocente (mesmo com todas as desconfianças e insinuações da Marquesa), porém depois que perde a virgindade com o Visconde (inclusive, depois de descobrir que ele dormiu com a sua mãe), a personagem praticamente transforma-se e passa a ser o que as palavras do Visconde definem bem: ‘tão sabia quanto o mestre’. 

[ O desfecho ] Não há muito o que comentar das cartas dos outros personagens, eles são fundamentais para o desenvolvimento da trama, mas a Marquesa e o Visconde se sobressaem, eles são os manipuladores. A presidente de Tourvel, que em grande parte da obra tenta fugir dos próprios desejos e manter sua virtude é humilhada por Valmont e acaba morrendo (em uma mistura de dor, decepção e cólera). O Visconde, como sabemos, morre em uma batalha com Danceny, que seu muda de Paris com medo de perseguições. O que não nos é contado no filme é que Cecília implora que a mãe lhe coloque em um convento e decepcionada com o amor, se torna freira. A Marquesa,depois da humilhação no teatro, pega varíola, fica com o rosto completamente desfigurado (e ainda perde um olho) e nas palavras da Madame de Volagens, fica hedionda:  ‘O marquês de ***, que não perde a ocasião para uma maldade, dizia ontem, falando dela, que a doença a virara do avesso, e que tinha agora a alma estampada no rosto. Infelizmente todos acharam que a expressão era justa’ (Carta CLXXV, p.358)

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Marquesa de Merteuil uma feminista?

‘Eu sempre soube que nasci para dominar o seu sexo

e vingar o meu’

Confesso que estou encantada com a história, viciada no livro e no filme… participei de algumas discussões, revi outras interpretações e li vários artigos/publicações na internet sobre a trama. Lola Aronovich, autora do blog ‘Escreva, Lola, Escreva’, nos presenteou com duas publicações sobre a trama e foi questionada por uma leitora se a Marquesa poderia mesmo ser considerada uma feminista. Lola chamou atenção para o fato de a Marquesa ter consciência do seu papel desprivilegiado na sociedade e de se esquivar da situação. Outro detalhe, sabiamente observado por ela é que a Marquesa foi a única a receber um castigo (o Visconde e a Presidente morrem, Cecília vai para o convento – o que não é mostrado no filme) enquanto a Marquesa é humilhada publicamente.

Particularmente, não sei se ‘feminista’ é um termo adequado, ainda assim, concordo que a Marquesa de Merteuil representa as mulheres (e sua condição desigual a dos homens) com bastante êxito. Não só ela, as outras personagens também o fazem muito bem. Oprimidas pelos contratos sociais (como o casamento), pela igreja, condenadas ao silêncio, levadas a negar os desejos e os próprios prazeres, responsáveis por apresentar uma reputação de pureza, uma atitude passiva e vários outros aspectos que poderíamos citar por horas.

Outro Blog que eu adoro e que também levanta um questionamento interessante é o ‘Há sempre um livro a nossa espera‘, da Cláudia Soares Dias.  Ela se pergunta sobre a causa e as motivações sociais que levaram a Marquesa apresentar tal personalidade. Para Cláudia, essa personalidade se dá porque Merteuil possuía uma grande dificuldade em lhe dar com rejeições e apresentava (quando adolescente) uma forte curiosidade em relação a sexualidade que esbarrava nas restrições religiosas e sociais. No entanto, não acho que essa personalidade se limite apenas a uma curiosidade, mas também a uma necessidade de ‘auto-proteção’, antes de se tornar viúva, ela ainda estava sujeita às vontades do marido, ainda estava presa a figura masculina e foi só com a sua morte que ela pôde se reinventar.

Em uma passagem do filme, o Visconde faz a seguinte pergunta a Marquesa:

Visconde: Eu frequentemente me pergunto como você conseguiu se inventar

Marquesa: Bem, eu não tive escolha, tive? Sou mulher. Mulheres são obrigadas a serem muito mais cheias de recursos que homens. Vocês podem arruinar nossa reputação e nossas vidas com algumas poucas palavras bem escolhidas. Portanto, é claro que eu tive de inventar não apenas eu mesma, mas também formas de fuga que ninguém pensou antes. E eu fui bem-sucedida porque sempre soube que nasci pra dominar o seu sexo e vingar o meu

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No livro, essa passagem se dá na carta LXXXI, justamente quando o Visconde tenta convencer a Marquesa de que ela não deve se relacionar com Prévan. Austera e confiante, ela explica sua trajetória para mostrar que não teme nenhum homem (e que não aceita ordens). Merteuil também fala (com certo deboche) da sua superioridade sobre o Visconde: ‘Que tem o Visconde feito que eu não tenha ultrapassado mil vezes? Seduziu, perdeu mesmo muitas mulheres: mas que dificuldades teve a vencer? Que obstáculos a ultrapassar? Onde está o mérito que verdadeiramente lhe caiba?”

Reproduzo uma parte da carta que é uma síntese da história de Marquesa e que nos ajuda a descobrir um pouco mais da sua personalidade… (Olha, é um pouco grande… eu sei, mas vale muito a pena!)

‘Entrando na sociedade num tempo em que, criança ainda, as circunstâncias me condenavam ao silêncio e a inacção, delas soube tirar proveito para observar e refletir. Enquanto me julgavam estouvada ou distraída, não dando ouvidos à verdade dos ensinamentos que me dispensavam, eu recolhia cuidadosamente tudo o que procuravam esconder-me.

Essa curiosidade útil, ao mesmo tempo que servia para me instruir, ensinava-me ainda a dissimular. Obrigada muitas vezes a esconder dos olhos dos que me rodeavam os motivos que me chamavam atenção, experimentei pousar os meus no que me agradasse; o resultado desde logo foi ter adotado aquele olhar sem constrangimento que o Visconde tantas vezes me gabou. Animada por este primeiro êxito, tratei de regular, pelo mesmo processo, os diversos movimentos do meu rosto. Se sentia qualquer apreensão, estudava-me até assumir um ar de serenidade, ou mesmo de alegria, levei o meu zelo ao ponto de a mim própria causar dores voluntárias, para durante esse tempo procurar a expressão de prazer. Com o mesmo cuidado e maior custo, exercitei-me a reprimir os sintomas de uma alegria inesperada. Foi assim que consegui tomar sobre a minha fisionomia aquele domínio que algumas vezes admirou em mim.

Eu era ainda muito nova, e quase sem interesse, mas só tinha de meu os próprios pensamentos, e indignava-me a ideia de que mos pudesse roubar ou surpreender contra minha vontade. Munida dessas primeiras armas, experimentei servir-me delas. Não me satisfazia a não me deixar penetrar: divertia-me mostrar-me sob formas diferentes. Dominando os meus gestos, observava as minhas falas. Uns e outras eram regulados segundo as circunstancias, ou mesmo segundo as minhas fantasias. Desde então, a minha maneira de pensar pertenceu-me a mim só, e não mostrei nunca senão o que me era útil deixar ver.

Este trabalho sobre mim própria fixou a minha atenção sobre a expressão dos rostos e o carácter das fisionomias, e adquiri esta mirada penetrante, na qual a experiência todavia me ensinou a não me fiar inteiramente, mas que, em todos os casos, raramente me enganou.  

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Ainda não tinha quinze anos, possuía já os talentos a que a maior parte dos nossos políticos devem a sua reputação, e encontrava-me ainda nos rudimentos da ciência que pretendia adquirir.  (…) O meu desejo não era gozar, era saber. O desejo de me instruir sugeriu-me os meios.  Senti que o único homem com quem podia falar sobre esse assunto, sem me comprometer, era o meu confessor. E logo tomei o meu partido. Passei por cima dessa pequena vergonha e gabando-me duma falta que não tinha cometido, acusei-me de ter feito tudo o que fazem as mulheres. Tal foi a verdade que ideia exprimia. A minha esperança não foi de todo iludida, nem inteiramente realizada, o receio de me trair impedia-me de me esclarecer. Mas o bom do padre pintou-me o mal tão grande que eu concluí que o prazer devia ser extremo e ao desejo de o conhecer sucedeu o de o saborear.

Não sei onde esse desejo me teria conduzido, e, faltando-me por completo a experiência, uma única oportunidade ter-me-ia talvez perdido. Felizmente pra mim, minha mãe anunciou alguns dias depois que eu ia casar-me. A certeza de que ia saber extinguiu imediatamente a minha curiosidade, e cheguei virgem aos braços do Sr. De Merteuil. Era com tranquilidade que esperava o momento que tudo devia ensinar-me, e foi-me preciso reflectir para mostrar confusão e receio. A primeira noite, que geralmente se tem uma ideia tão cruel ou doce, apresentava-me apenas uma ocasião de experiência: dor e prazer, tudo eu observava com exatidão e nessas diversas sensações via apenas fatos para recolher e meditar.  

Este gênero de estudo depressa começou a agradar-me; mas, fiel aos meus princípios, e sentindo, talvez por instinto, que ninguém devia estar mais longe da minha confiança do que o meu marido, resolvi, pelo simples fato de que era sensível, mostrar-me impassível a seus olhos. Esta frieza aparente foi, ao longo do tempo, o fundamento inabalável da sua cega confiança. Juntei-lhe, após uma segunda reflexão, o aspecto estouvado que a minha idade autorizava; e nunca ele me julgou mais criança do que nos momentos em que com mais audácia eu o iludia.

Entretanto, devo confessá-lo, deixei-me primeiro arrastar pelo turbilhão do mundo, e entreguei-me inteiramente às suas distrações fúteis. Mas ao fim de alguns meses, tendo-me o senhor de Merteuil levado a partilhar as suas tristes férias no campo, o medo do aborrecimento fez com que me voltasse o gosto do estudo; e encontrando-me rodeada apenas de pessoas cuja distância de mim me punha ao abrigo de toda a suspeita, aproveitei a ocasião para dar um campo mais vasto às minhas experiências.

 Foi ali, principalmente, que obtive a certeza de que o amor que nos louvam como a causa dos nossos prazeres é apenas, quando muito, o seu pretexto. A doença do senhor de Merteuil veio interromper tão doces ocupações; foi necessário segui-lo à cidade, onde ele ia procurar socorros. Morreu, como sabe, pouco tempo depois; e embora, no fim de contas, eu não tivesse de me queixar dele, nem por isso senti menos vivamente o preço da liberdade que a minha viuvez ia proporcionarme, e a mim própria prometi aproveitar bem essa liberdade. Minha mãe contava que eu entrasse num convento, ou voltasse a viver com ela. Recusei uma e outra solução; e tudo o que concedi à decência foi voltar ao mesmo lugar no campo, onde me restavam ainda algumas observações a fazer.

 Essas observações ganharam força com o auxílio da leitura; mas não julgue que foram todas do gênero que supõe. Estudei os nossos costumes nos romances; as nossas opiniões nos filósofos; procurei mesmo nos mais severos moralistas o que eles exigiam de nós, e soube assim o que se podia fazer, o que se devia pensar e o que era preciso parecer. uma vez fixada sobre esses três pontos, só último apresentava algumas dificuldades na sua execução; esperei vencê-las e medirei nos meios.

 Começava a aborrecer-me dos meus prazeres rústicos, demasiado monótonos para a minha imaginação; sentia uma necessidade de coquetismo que me reconciliasse com o amor; não para verdadeiramente o sentir, mas para o inspirar e o fingir. Em vão me haviam dito e eu tinha lido que não se podia fingir esse sentimento; eu via, no entanto, que para o conseguir bastava juntar à inteligência de um autor o talento de um comediante. Experimentei os dois gêneros, e talvez com algum êxito; mas em lugar de procurar os vãos aplausos do teatro, resolvi empregar na minha felicidade o que tantos outros sacrificavam à vaidade.

 Um ano se passou nessas diversas ocupações. Como o meu luto já me permitia voltar a aparecer, regressei à cidade com os meus grandes projetos; não esperava o primeiro obstáculo que aí encontrei. Aquela longa solidão, aquele retiro austero tinham lançado sobre mim uma aparência de virtude que amedrontava os nossos galãs; mantinham-se afastados e deixavam-me entregue a uma multidão de aborrecidos senhores, que pretendiam todos a minha mão. O embaraço não estava em recusá-los; mas várias dessas recusas desagradavam à minha família, e eu perdia nessas questões internas o tempo que prometera a mim mesma gastar tão agradavelmente.

 Fui pois obrigada, para atrair uns e afastar os outros, a pôr em relevo algumas inconsequências e a empregar em prejudicar a minha reputação, o cuidado que pensava aplicar em conservá-la. Consegui-o facilmente, como pode imaginar. Mas não me sentindo arrebatada por nenhuma paixão, fiz só o que julguei necessário, e medi com prudência as doses da minha leviandade. Logo que atingi o fim que me propusera voltei ao ponto de partida e fiz promessas de emenda a algumas daquelas mulheres que, não podendo ter pretensões a agradar, se pavoneiam com as do mérito e da virtude. Foi um lance de dados que me valeu mais do que eu esperava.

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Aquelas reconhecidas donas arvoraram-se em minhas apologistas; e o zelo cego que empregaram para louvar o que elas chamavam a sua obra chegou ao ponto de, à menor frase que alguém se permitisse a meu respeito, todo o partido da virtude gritar contra o escândalo e a injúria. Pelo mesmo processo consegui ainda a aprovação das mulheres que pretendiam agradar, as quais, persuadidas de que eu renunciava a seguir carreira idêntica à sua, me escolheram para alvo dos seus elogios, todas as vezes que queriam provar que não diziam mal de toda a gente.

 Entretanto, a minha anterior conduta tinha atraído os apaixonados; e, para me equilibrar entre eles e as minhas infiéis protetoras, mostrei-me como uma mulher sensível, mas difícil, a quem o excesso de delicadeza fornece armas contra o amor.

Então comecei a desenvolver no grande teatro os talentos que dera a mim própria. O meu primeiro cuidado foi o de adquirir o renome de invencível. Para chegar a isso, os homens que não me agradavam foram sempre os únicos de quem simulei aceitar as homenagens. Empreguei-os sutilmente em alcançar por meio deles as honras da resistência, enquanto me entregava sem receio ao amante preferido.

 Mas a esse a minha fingida timidez não permitiu nunca que me seguisse na sociedade; e os olhares do mundo fixaram-se, desse modo, no amante recusado. Sabe, meu amigo, que levo pouco tempo a decidir-me; é por ter observado que são quase sempre os cuidados anteriores que revelam o segredo das mulheres. Por muito que se faça, o tom nunca é o mesmo, antes e depois do acontecimento. Esta diferença não escapa ao observador atento, e achei menos perigoso enganar-me na escolha do que deixar-me penetrar. Ganho ainda com esse procedimento afastar as evidências, que fornecem os únicos elementos para nos julgarem. Estas precauções, e ainda a de nunca escrever, não entregar nunca uma prova da minha derrota, poderiam parecer excessivas; a mim nunca me pareceram suficientes. Desci ao fundo do meu coração, e nele estudei o dos outros. Soube assim que não há ninguém que não conserve aí um segredo que não deve ser revelado; eis uma verdade que a Antiguidade parece ter conhecido melhor do que nós, e da qual a história de Sansão poderia ser apenas uma engenhosa alegoria. Nova Dalila empreguei sempre, como ela, o meu poder em surpreender esse importante segredo.

Quantos Sansões modernos não tive eu já com a cabeleira sob a minha tesoura! E a esses, deixei eu de temer; são os únicos que me tenho permitido humilhar algumas vezes. Mais subtil com os outros, a arte de os tornar infiéis para evitar parecer-lhes volúvel, uma fingida amizade, uma aparente confiança, alguns rasgos generosos, a ideia lisonjeira que cada um conserva de ter sido o meu único amante, tudo serviu para obter o seu silêncio. Por fim, quando esses meios me faltaram, soube, antes de romper, abafar de antemão, sob o ridículo ou a calúnia, a confiança que esses homens perigosos pudessem obter. O que lhe estou dizendo, tem-me o Visconde visto praticar constantemente; e duvida da minha prudência! (…)

Precipícios d’alma

Quem frequenta o La Amora sabe o quanto eu sou fã da Joan Crawford, encontrei outro dia um de seus filmes em DVD que há tempos tenho vontade de assistir e confesso que nunca a tinha visto em uma atuação tão primorosa. Precipícios d’alma (Sudden Fear) é um filme de 1952, dirigido por David Millher que traz Crawford, Jack Palance e Gloria Grahame em um ótimo suspense noir que envolve paixão, assassinato, interesse e muito dinheiro. Apesar da simplicidade, a trama apresenta um ritmo delicioso e um trabalho visual muito interessante.

Joan Crawford

O filme inicia-se em um ensaio de uma peça teatral escrita por Myra Hudson (Crawford), uma mulher sensível, bela e riquíssima. Apesar do talento, o ator Lester Blaine (Palance) não é contratado para o papel principal porque segundo Myra, ele não tem o ‘ar romântico’ necessário para o personagem. Depois de ser dispensado, Lester persegue Myra para tentar convencê-la de que tem charme suficiente para participar da peça. Durante uma viagem de trem de Nova York a São Francisco, os dois ficam cada vez mais íntimos e começam a se relacionar. Lester e Myra se casam e vivem por algum tempo um idílico romance ate que Myra decide doar toda a sua fortuna e viver apenas do trabalho que realiza no teatro. Inesperadamente, Lester reencontra uma antiga amante chamada Irene Neves (Grahame) e juntos decidem matar Myra antes que ela se livre do dinheiro.

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Já no começo, há um aspecto muito claro: Lester aproxima-se de Myra para se vingar por ter sido dispensado da peça. O que não fica óbvio é a forma que ele usará para se vingar dela e é o que de fato, sustenta o argumento do filme. Ao aproximar-se de Myra, Lester comprova que além de ser um ótimo ator é um homem perigoso (e porque não, cheio de mistérios?). Enquanto isso, a forte personalidade que Myra apresenta no início da trama (cercada de bajuladores e de homens que a obedecem cegamente) cai por terra quando ela se apaixona. Desde o casamento, Myra traz a tona toda a sua necessidade de receber e de dar amor. Sua face romântica transborda por quase todo o filme e quando descobre que seu marido não é realmente quem pensa, Myra surpreende mais uma vez, mostrando que possui cartas na manga, acentuadas por destreza e astúcia.

Além da tensão presente em todo o filme, outro aspecto que chama atenção é uma enorme sensualidade que envolve os três personagens principais. De fato, Jack Palance não apresenta uma beleza irresistível e ainda assim, te convence que é um arrebatador de corações.  [Aliás, essa foi a sua primeira indicação ao Oscar]. Grahame, no papel de Irene Neves mostra um atrevimento  admirável através de mulher linda e sem escrúpulos. Há uma cena entre os dois muito interessante onde Lester bate em Irene e a empurra no sofá. Ao invés de ter uma reação dramática, Irene se deita e sensualmente acende um cigarro.

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Joan Crawford está lindíssima, lindíssima mesmo (com um figurino impecável, a atriz exibe um corpo escultural e um rosto marcante que lhe é característico). Mais do que isso: o roteiro lhe favorece imensamente e permite que cresça em tela, explorando diversas feições: alegria, tristeza e medo – ela praticamente manda na câmera.  É importante lembrar que nessa época, Crawford pediu para sair da Warner e estava decidida a trabalhar em outros projetos. Em ‘Precipícios d’alma’ Joan atuou também como produtora e uniu-se a RKO para atrair investidores. Assim como Palance, recebeu uma indicação ao Oscar, mas acabou perdendo para Shirley Booth.

Outro destaque vai para a iluminação marcada por um forte contraste e para a sequência dos pesadelos de Myra onde, por exemplo, ela sonha que está caindo de um prédio. A criatividade técnica expõe uma montagem muito bem feita e acentua o clima de suspense (aliás, as cenas finais são de tirar o fôlego).

Mamãe é de morte

Quem se lembra de ‘Mamãe é de morte’? Aquele filme que passava direto na Band. Pois é, tive a oportunidade de revê-lo ontem e só agora, depois de uma pesquisa rápida, descobri que é uma produção de 1994, dirigida por John Walters ( também diretor em Pink Flamingos, famoso por filmes alternativos e de baixo orçamento, muito conhecido no gênero trash).

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Há várias controvérsias sobre esse filme, enquanto alguns dizem que é um dos piores de Walters, outros o classificam como um clássico contemporâneo. O fato é que apesar do exagero característico, ‘Mamãe é de morte’ apresenta cenas hilárias com uma boa dose de ironia e humor negro.  A trama conta a história de Beverly Stuphin, uma perfeita dona de casa americana que guarda um terrível segredo: é uma perigosa serial killer.  O cotidiano tranquilo da família (composta por seu marido Eugene (Sam Waterston) e seus dois filhos, Misty e Chip é interrompido quando Bervely sofre uma ‘crise nervosa’ e passa a matar (sem nenhum escrúpulo) qualquer um que incomode sua família.

Revendo o filme, fiquei atenta a várias  menções interessantes ao cinema trash e me deparei com uma cena onde citam ‘Almas Mortas’, um longa B de 1964 que traz Joan Crawford no papel de Lucy Harbin, uma mulher que foi traída pelo namorado e que decide assassina-lo (e a sua amante) a machadadas. Tempos depois ‘Almas Mortas’ foi classificado como um horror cujo subgênero podia ser definido por Psycho-biddy ou hag horror, trata-se de filmes que misturam drama, thriller, vingança e humor negro onde as personagens principais são mulheres maduras e perigosas (algumas insanas e outras sobre tremendo estresse).

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E como Kathleen Turner está linda, aliás, o filme todo é praticamente ela. Responsável pelas cenas mais hilárias (como aquela em que ela imita o canto dos pássaros ou a do julgamento), Turner sobressai aos outros atores em uma encenação ímpar e engraçada.  É interessante perceber características que marcam os filmes dos ano 90, esse, por exemplo, apresenta uma enorme influência da videoarte (como o uso contínuo das janelas e da sobreimpressão).

Mais do que trash (como a cena onde Beverly arranca um rim do rapaz que a filha é apaixonada), ‘Mamãe é de morte’ é uma crítica bem humorada à sociedade moralista e despe a imagem de família [e vizinhança ] exemplar para mostrar que no fundo, todos nos guardamos nossas imperfeições.

Missão madrinha de casamento

Quando fizeram burburinhos sobre esse filme, que foi um sucesso em 2011 e rendeu mais de $700 milhões de bilheteria, eu pensei com meus botões: (desculpem a expressão) ‘Deve ser uma bosta!’. Passou-se o tempo e eu me peguei assistindo o filme pela TV a Cabo e morrendo de rir. Mordo a língua, volto atrás e confesso que ‘Missão madrinha de casamento’ é um filme divertidíssimo, repleto de cenas e diálogos engraçados. Bom, conheço quem não goste da trama e diz que tem muitos clichês de romance de casamento (e na verdade, tem  mesmo), mas apesar de tudo é um filme interessante do qual me arrisco a dizer que é quase uma versão feminina de ‘Se beber não case’.

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Apesar de ser uma comédia ‘água com açúcar’, Missão madrinha de casamento traz rostos conhecidos da TV Americana (como Rose Byrne, Kristen Wiig e Melissa McCarthy) que sempre deram um show de atuação, mas que de alguma forma, ficaram por muito tempo em segundo plano. Nesse caso, há que citar Melissa McCarthy que ganhou uma enorme visibilidade e que de uns tempos pra cá, cresceu como ninguém no campo do entretenimento.

O filme, dirigido por Paul Feig (o mesmo diretor de Professora sem Classe e As bem armadas) conta a história de Annie, uma mulher que foi convidada pela melhor amiga Lilian para ser sua madrinha de casamento. Annie, no entanto, enfrenta diversas dificuldades para organizar a festa de ‘despedida’ pois sua rival, a Helen, tenta tomar as rédeas da situação e fazer a festa da sua forma (para isso, dispõe-se a gastar fortunas, pagar viagens e vestidos caros). Nesse meio tempo sua vida financeira desanda, ela perde o emprego e é obrigada a voltar a morar com a mãe. Annie conhece um charmoso policial e se apaixona por ele, mas não sabe como lidar com a situação já que desde o último fracasso no relacionamento, decidiu não levar ninguém a sério.

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Se fossemos comparar com ‘Se beber não Case’, Melissa McCarthy seria o Adam, quase sempre ‘fora de órbita’, seu personagem: Megan chama atenção por apresentar falas inusitadas e desconexas. Rondou também pela internet uma entrevista da Kristen Wiig [que atuou como  roteirista do filme] onde ela afirma que não tem interesse em fazer uma sequencia, segundo Wiig, uma continuação seria muito rentável mas esse não é o objetivo de sua carreira.

Dear Zachary

Dear Zachary

Dear Zachary é um documentário devastador, daqueles que te faz ter medo da mente humana e consciência da fragilidade da vida. Há diversos filmes dramáticos e ficcionais que representam histórias chocantes e que conseguem nos atingir de uma maneira impactante, a diferença é que quando o filme termina, os atores saem da pele do personagem e continuam o rumo de suas vidas. Não nessa história, aqui (como de fato acontece em qualquer lugar do mundo) a morte é definitiva e leva com ela as pessoas que amamos e deixa uma enorme saudade [ou, revolta].

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O filme possui um formato interessante e apresenta um ritmo fundamental para o desenvolvimento da narrativa. Dear Zachary reconta a história de Andrew Bagby um médico que foi assassinado com cinco tiros pela namorada Shirley. Andrew era melhor amigo de Kurt Kuenne (diretor e produtor do filme) que resolveu pegar depoimentos de vários conhecidos, vizinhos e pacientes e realizar o documentário. Kuenne acompanhou todo o processo judicial que acusava Shirley como a principal suspeita do assassinato e retratou de perto a luta e a dor dos pais de Andrew, os Bagby, para colocá-la na cadeia.

Para surpresa de todos, quatro meses depois, Shirley afirmou que estava grávida de Andrew. Diante dessa perspectiva, o diretor resolveu mudar o formado do filme e como em uma carta, contar para Zachary como era seu pai. Logo no início de uma das entrevistas, há um comentário sucinto, mas que me parece bastante relevante.

Uma amiga (e também ex-namorada de Andrew) diz que no dia seguinte encontrou uma publicação no jornal onde noticiavam que encontraram um homem morto de jaleco em um parque e que ninguém sabia o porque do seu corpo estar ali. Ela questiona a frieza dos jornais e diz que aquela nota não fazia jus ao ‘homem’ que noticiavam estar morto: ‘Esse não era o Andrew, o Andrew era muito mais do que isso….’  Por um momento, como jornalista, me peguei pensando na banalização do cotidiano, nos inúmeros casos de assassinato e de crimes horrendos que escutamos todos os dias, sem nos perguntar ‘quem era ele’ e nos incontáveis mortos que diferente de Andrew, não tiveram a oportunidade de ter a vida recontada (e romanceada) através de um documentário.

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Após descobrirem a gravidez de Shirley, David e Kathleen (os Bagby) fizeram de tudo para conseguir a guarda do menino já que Shirley não foi presa. O casal passou por situações inimagináveis, tiveram que conviver diariamente com a assassina do filho, para não perder o contato com o neto.  Em vários momentos [como cúmplices], escutamos gravações de conversas entre David, Shirley e Kathleen onde os avós asseguram que não deixarão que nada falte ao bebê. ‘Deixaremos fralda e leite na sua porta pela manhã, o bebê não vai passar fome’

No desenrolar do filme, Kuenne pede que os entrevistados falem sobre Andrew e que mandem uma mensagem para Zachary: praticamente todos demonstram um carinho imenso por Andrew e fazem questão de contar uma história para comprovar o porque o admiravam  tanto. Logicamente, as entrevistas mais tristes são as dos pais que relatam desde a felicidade do nascimento do filho ao triste dia em que foram reconhecer seu corpo, que estava com o rosto completamente desfigurado após levar um tiro na bochecha.

Finalmente, Kuenne decide viajar e se encontrar com Zachary. As imagens são belíssimas, não há como não se emocionar com essa prova de amor (afinal, fazer um filme é um trabalho árduo – e reconstruir uma biografia ainda mais).  O problema é que a narrativa nos pega de surpresa mais uma vez, o documentário sofre uma reviravolta e nos deixa mais uma vez sem rumo, compartilhando aquela dor imensa: a da perda.

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– Segunda Parte –

Se você se interessou pelo filme e não quer Spoilers, por favor, não leia o resto do texto.

Antes de qualquer coisa eu já tinha decidido parar o texto por aqui, mas eu sinto que falta algo mais, alguma explicação que justifique tanta emoção em relação a um documentário. Pouco tempo depois de encontrar Zachary, Kuenne recebeu a terrível notícia de que Shirley havia desaparecido e levado seu filho com ela. Shirley matou Zachary (que tinha apenas treze meses)  com uma dose de remédios e depois suicidou. Os Bagby, que antes relatavam a felicidade de ter o bebê sob custódia, passam novamente a dor da perda. Kuenne [já, com uma voz cansada e muito triste] revela que depois desse acontecimento, tinha decidido abandonar o projeto , até que percebeu que não fazia sentido fazer um filme para Andrew ou para Zachary, o filme agora era para os Bagby.  De uma maneira muito tocante, os amigos de Andrew mandam mensagens para os Bagby, agradecendo por terem trazido ao mundo, uma pessoa tão especial.

No dia que vi o filme, pouco tempo antes de dormir, fiquei me perguntando se existe uma consciência ou reflexão antes da morte. Seja como for (e sei, que esse pensamento não atingiu só a mim), fiquei pensando no que Andrew, Zachary e Shirley pensaram antes de morrer: se Andrew pensou nos pais, se Shirley pensou nos outros filhos ou se Zachary pensou: ”por quê?“

Tomboy

Tomboy é um filme simples, que trata de um assunto complexo sem rodeios e com muita naturalidade.  O longa de 2011, dirigido por Céline Sciamma, conta a história de Laura (Zoé Héran), uma menina de onze anos que gosta de se vestir (e se comportar) como menino. A trama acompanha a adaptação de Laura e de sua pequena irmã Jeanne (Malonn Lévana) à nova casa. Seus pais se mudam constantemente e Laura se vê obrigada a fazer novos amigos. Aproveitando o fato de ser desconhecida, Laura se faz passar por um garoto. Ela se apresenta aos vizinhos como ‘Michael’ e na turma das crianças conhece Lisa (Jeanne Disson) por quem se apaixona.

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Diferente das outras garotas, Laura/Michael ainda não desenvolveu seu corpo e sua fisionomia confunde-se com a de um garoto. Ela percebe a diferença, mas sente-se insegura ao se aproximar das outras crianças. Seus questionamentos e dúvidas ficam visíveis quando Laura, em frente ao espelho, analisa se pode ou não se juntar aos outros meninos e jogar futebol sem camisa. Não há dúvidas quanto sua sexualidade e sim quanto ao seu comportamento. Laura gosta de Lisa e isso fica evidente logo nas primeiras cenas. O que a incomoda, o que lhe faz chorar sozinha no quarto, é o fato, por exemplo, de não conseguir fazer xixi em pé como os outros.

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É interessante como a curiosidade infantil sobre a sexualidade nasce espontaneamente. Em um cena repleta de delicadeza, Sciamma mostra Laura em frente ao espelho, observando sua fisionomia em silêncio. Ela tira a camisa, tira o short e fica lá, por um longo tempo. Suas atitudes são de uma criança tímida e em contraponto, de uma garota decidida. Não há diálogos que abordam a sexualidade de Laura, em nenhum momento a personagem aparece conversando sobre o assunto, mas as imagens dizem tudo: Laura é um menino, presa no corpo de uma menina.

A atitude de naturalidade dos pais é reforçada quando a mãe descobre que Laura se passa por menino para os amigos. Ela não lhe repreende por se vestir como homem, mas por mentir sobre sua identidade. Laura é obrigada a ir à casa de Lisa e contar que é uma menina. Toda a crueldade (e a curiosidade das crianças) se aflora e Laura é humilhada e afastada do grupo. E é dessa forma que Sciamma, com muita destreza nos dá uma bela lição que vem através de um carismático personagem, que chama a atenção durante todo o filme: Jeanne.

Com apenas cinco anos, Jeanne não se questiona sobre a irmã. Ela a ama e a defende independente de qualquer circunstância.  Tem a pureza de uma criança pequena e diferente das outras, não foi contagiada por pré-conceitos. Portanto, Jeanne mantém a mentira de Laura e diz aos amigos que tem um irmão chamado Michael. Apesar da complexidade do papel, Zoé Héran fica menor em tela quando está ao lado de Malonn Lévana. A garotinha chama atenção pela destreza e pelo rostinho cativante.

Queria também chamar atenção para um detalhe. Desde que vi Albert Nobbs, me interessei por artigos que abordam a transexualidade e em muitos há uma observação interessante que, definitivamente, se adéqua ao filme. Tomboy (ou ‘menina moleque’) refere-se a meninas que se vestem como homens, mas não é um termo que está condicionado a homossexualidade. O que os artigos querem dizer é que  nem toda lésbica gosta de se vestir de homem e nem toda mulher que gosta de se vestir de homem é lésbica. Um detalhe que parece muito evidente, mas que não é. Pelo contrário, é muito comum que as pessoas façam essa ligação que não deveria ser encarada como uma ‘regra’.

Um canto de esperança

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Um canto de esperança/Paradise Road (de 1997, dirigido por Bruce Beresford) é aquele tipo de filme que fica marcado na memória. Lembro de tê-lo assistido há anos atrás e algumas das cenas não saíram da minha cabeça. A história é extremamente forte e apresenta um tom realístico que é intensificado por uma produção sensível e por atuações marcantes. Glenn Close encabeça o elenco feminino que também conta com Cate Blanchet, Pauline Collins e Frances McDormand.

A trama se passa na década de 1940, japoneses invadem Cingapura e forçam várias crianças e mulheres a viverem em um campo de concentração onde realizam inúmeros trabalhos, sofrem agressões físicas e psicológicas. Entre essas mulheres encontra-se Adrienne Pargiter (Close) formada na Academia Real de Música que, junto a Daisy ‘Margaret’ Drummond (Collins) organiza um coral e enfrenta a resistência do exército japonês.

tumblr_mo1gxnQTZS1rs3i49o1_500Gosto do clima inicial do filme onde um grupo de aristocratas e suas respectivas mulheres comentam e ironizam a guerra. As opiniões se dividem quando falam sobre os japoneses: uns acreditam que eles são perigosos, outros de que não há nada a temer. O início da trama nos dá ideia do padrão de vida dos protagonistas: mulheres lindas e maquiadas, homens em ternos caros, mesas bem servidas e uma deliciosa música ao fundo. O ar de desconforto e incerteza aumenta quando escutam barulhos de bombas que invadem o salão. As mulheres [que estavam visitando os maridos] precisam voltar imediatamente para casa, a cidade está sendo atacada.

No navio, somos apresentados às personagens principais: Adrienne (Glenn Close), Susan Macarthy (Cate Blanchet), Mrs. Tippler (Pamela Rabe), Mrs. Roberts (Elizabeth Spriggs), Topsy Merritt ( Julianna Margulies), Daisy ‘Margaret‘ Drummond (Pauline Collins) e Rosemary Leigthon Jones (Jennifer Ehle). Há um pequeno e engraçado diálogo onde elas se apresentam umas as outras: sou esposa do dono de uma empresa de café, sou esposa do dono de uma empresa de tecidos (…). O navio (repleto de mulheres e crianças) é surpreendido por um novo ataque e todos são obrigados a abandona-lo. Adrienne, Susan e Rosemary ficam horas na água, até que conseguem chegar em terra firme.

Repletas de ferimentos na pele, as três conseguem uma carona de um militar japonês (aparentemente gentil) que as deixa em um local desconhecido. Adrienne chega a discutir com o militar, dizendo que o navio que atacaram só levava pessoas indefesas. Sem perceber, Adrienne, Susan e Rosemary são abandonadas em um campo de concentração e lá encontraram várias mulheres (inclusive algumas que estavam no navio) vivendo em terríveis condições.

Desde então, elas são obrigadas a acordar cedo para trabalhar, precisam dividir pouca comida e viver com água escassa.  Além de apanhar diariamente, ficam expostas ao mau cheiro e a diversas doenças que assolam o grupo. Elas sofrem um choque de realidade, antes acostumadas com uma vida repleta de luxo e agora vivendo como escravas. Não demora para que os conflitos comecem a surgir, tanto externamente quanto dentro do grupo.

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Personagens maniqueístas: a luta do bem e do mal

Talvez por apresentar um grande número de personagens (e não ter tempo nem espaço suficiente para desenvolvê-los) Beresford tenha escolhido apresentá-los com características muito marcantes – não sei afirmar se no livro a abordagem é feita da mesma maneira. Adrienne é a líder, justiceira e corajosa. Susan é atrevida, jovem e enérgica. Mrs. Roberts é avarenta (e a personagem que mais ironiza/critica a burguesia). Não há como questionar a presença da seguinte relação maniqueísta: os japoneses são maus e as prisioneiras são do bem, mas essa relação ainda bifurca-se e divide os personagens dos dois grupos:

No ambiente das prisioneiras Mrs. Tippler e Daisy são fortes personalidades em contraponto. Enquanto Daisy (a missionária que parece ainda mais gentil com aqueles grossos óculos) apazigua as companheiras, é paciente com as crianças e com os militares. Mrs Tippler é desonesta com as outras mulheres, incita as brigas e desestimula o coral. No final, Daisy recebe a redenção do sofrimento através da morte enquanto Mrs Tippler é separada dos filhos.

No grupo dos militares japoneses o Capitão Tanaka (Stan Egi) é cruel com as prisioneiras, impõe diversos castigos e proibições. Em uma cena fortíssima, ele obriga Susan a se ajoelhar por horas diante de estacas que podem perfurá-la a qualquer momento. Em contrapartida, o intérprete (David Shung) tenta ser gentil com as mulheres e sempre mantém a calma quando conversa com elas (Adrienne chega a chamá-lo de covarde).

A história que inspirou o filme

Song of Survival2O filme baseia-se no livro de Helen Colijn: “Song of Survival: Women Interned” onde ela descreve com detalhes a vida de mulheres que foram prisioneiras em um campo de concentração japonês durante a Segunda Guerra. Helen e a irmã Antoniette ficaram presas nesse campo de concentração e juntas, presenciaram o trabalho de Margaret Dryburgh e Norah Chambers: duas inglesas que no início de 1943, se uniram para amenizar o duro cotidiano das prisioneiras e criaram um coral.

Margaret era uma missionária e Norah havia estudado piano, violino e canto na Academia Real de Música em Londres. Margaret se lembrava das partituras e as escrevia escondido em um pedaço de papel, os ensaios eram feitos com muito cuidado para não chamar atenção dos japoneses. As mulheres cantavam várias músicas clássicas como as de Chopin, Beethoven e Dvorak. Reproduzo o texto do Paulo Franke onde ele detalha com mais riqueza os acontecimentos:

Helen comentou: “Imagine-se em um campo de prisioneiros com fome, camundongos, baratas, com aquele cheiro terrível de banheiros e a gritaria dos guardas à sua volta! E de repente você ouve essa música. É algo magnífico que dá o sentido de união, mas também de força para continuar vivendo em uma situação que parece não ter fim. É algo positivo surgindo de uma experiência muito negativa. Por essa razão posso falar do campo sem ter que passar por todos os pesadelos novamente.” Margaret faleceu no dia 21 de abril de 1945 e foi sepultada em um cemitério perto do campo, sob as palmeiras. Mais tarde, Norah escreveu em seu diário: “Ela foi admitida no hospital e poderia ter melhorado, mas, como muitas outras pessoas, estava fraca demais e por isso não houve chance de recuperação. Ao visitá-la, ela me reconheceu e tentou falar. Tentou repetir o seu salmo preferido, o 23, o que eu fiz por ela tão bem quanto pude.”

Atrás da Porta

Quando soube que “Atrás da porta” estava em cartaz no Belas Artes em Belo Horizonte, não pensei duas vezes e fui ao cinema no mesmo dia. Duas coisas me chamaram a atenção: Helen Mirren e Istvan Szabo, que dentre outros filmes, dirigiu o belíssimo “Adorável Júlia”. A produção é inspirada na obra da escritora húngara Magda Szabo e roteirizada por Andrea Vészits. Apesar de apresentar uma boa história, o filme deixou certo desconforto quanto ao desenvolvimento técnico, principalmente pelas cenas desnecessárias e pela ambientação questionável.

A história se passa na Hungria na metade do século XX e retrata a vida Magda (interpretada por Martina Gedeck), uma escritora que precisa de uma empregada para cuidar da casa onde mora com o marido Tibor (Károly Eperjes). Depois de muito procurar, Magda encontra Emerenc (Mirren), uma senhora que atende a todas as qualificações exigidas mas que é misteriosa e rabugenta. Emerenc aceita o trabalho mas impõe duas condições: que não questionem seu passado e que nunca entrem em sua casa.

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No início, Emerenc é apenas uma estranha. Ela limpa, cozinha e sai sem dizer nada. A relação das duas começa a ficar mais íntima quando Magda ganha um cachorro e apenas Emerenc consegue domesticá-lo. O cão se torna um pretexto para que as duas iniciem uma conversa e finalmente se tornem amigas. Tibor está sempre ausente (aliás, a figura masculina é secundária na trama) e a presença de Emerenc na casa se torna cada vez maior.

Magda e Emerenc são duas mulheres completamente diferentes. Enquanto Magda vive em uma casa confortável, com um marido que a ama, é jovem e feliz, Emerenc é uma velha solitária e rancorosa, que tem um passado misterioso e que trabalha duro para conseguir o próprio sustento. Apesar da distância, as duas estabelecem uma bela relação de empatia e de confiança.[As estranhas manias de Emerenc são o principal chamativo da personagem. Todos os dias, durante anos, ela varre as ruas (mesmo com uma tempestade de neve caindo). Silenciosa, ela caminha pelo bairro sem deixar que se aproximem da residência. Ela morre de medo de chuva e de trovões. Na casa de Magda, é ela que determina o que está sujo e o que não está, ela discute com os patrões e aos poucos invade um espaço que não é seu – Tibor não concorda com tanta intimidade e chega a demití-la, mas Magda percebe que não consegue mais viver sem Emerenc].

A curiosidade de Magda sobre a vida de Emerenc cresce cada vez mais. Por diversas vezes ela tenta descobrir o que há de tão secreto na casa e sempre é impedida pela empregada. Emerenc confessa alguns detalhes sobre o seu passado que, talvez, justifiquem seu estranho comportamento. Quando pequena resolveu fugir de casa e levar a irmã mais nova consigo. No meio do caminho as duas enfrentaram uma tempestade e sua irmã acabou falecendo (atingida por uma árvore), fato que nunca foi perdoado por sua mãe. Durante a guerra, trabalhou como empregada em diversas casas e teve um romance ‘proibido’. Emerenc adotou uma criança e foi mandada pra fora de casa pelo pai por ser mãe solteira.

Nesse meio tempo, enquanto a carreira de Magda começa a decolar, a saúde física e mental de Emerenc começam a cair. Totalmente fragilizada, Emerenc se nega a ser internada, com medo que invadam sua casa e descubram seu segredo. Ela pede que Magda prometa nunca deixar que ninguém entre no local. Ironicamente, no dia em que Magda vai a uma premiação, os vizinhos e a polícia decidem entrar na casa de Emerenc para forçá-la ir ao Hospital.

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De fato a fotografia é um destaque da produção, principalmente nos flashbacks que recontam o passado de Emerenc e onde percebe-se um cuidado quanto aos cenários ao ar livre. Ainda assim, há uma sensação persistente de que alguma coisa está faltando ali (e que se acentua quando descobrimos o que está atrás da porta). Percebe-se um desconforto por parte dos atores e pouca química acontece quando Mirren e Martina Gedeck estão em cena.  Apesar dos enganos e de não ser tão marcante, ‘Atrás da Porta’  é um filme interessante de assistir.

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Albert Nobbs

Há muito tempo estou com vontade de ver esse filme e ontem, por sorte, o encontrei em promoção nas Lojas Americanas por R$ 4.99. Antes de vê-lo, li alguns artigos relacionados à trama e acabei tendo boas surpresas. Albert Nobbs é uma produção de 2012, estrelada por Glenn Close e dirigida por Rodrigo García (García, aliás, é filho de Gabriel Garcia Marquez e possui ótimos trabalhos no currículo, um deles: ‘In Treatment’ já foi tema de duas publicações aqui do blog e é um dos meus preferidos).

O filme baseia-se na obra do romancista irlandês George Moore e conta a história de Albert Nobbs, uma mulher que por trinta anos se vestiu de homem e trabalhou como garçom em um hotel. Albert tinha uma personalidade contida e, justamente por sua dedicação ao trabalho, conquistou o respeito dos colegas e dos moradores do local. Durante todo esse tempo, Albert juntou suas economias visando abrir seu próprio negócio: uma tabacaria.

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A vida de Albert vira de cabeça para baixo com a chegada do pintor Hubert Page. A Sra Baker (proprietária do hotel) ordena que Hubert e Albert durmam no mesmo quarto e logo na primeira noite, Hubert descobre que Albert é uma mulher. Albert implora a Hubert que guarde seu segredo e Hubert o faz. No outro dia, Hubert revela a Albert que também é uma mulher e que está casado com Cathleen, uma costureira.

Por curiosidade, Albert vai à casa de Hubert para saber como ele conseguiu se casar com outra mulher. Em uma conversa informal, Albert conta a Hubert sua história: Albert era filha de uma prostituta, foi criada em um convento (e foi expulsa de lá quando sua mãe morreu). Aos quinze anos, foi estuprada por cinco homens e pouco tempo depois, encontrou um terno masculino e resolveu vesti-lo para trabalhar como garçom. Albert achou que não conseguiria enganar ninguém, mas acreditaram que se tratava de um homem e desde então, ela passou a se vestir assim. Albert confidenciou a Hubert seu desejo de ter uma mulher e abrir seu próprio negócio, durante a conversa, os dois são interrompidos por Cathleen e Albert se esquece de perguntar a Hubert como ele fez para se casar com uma mulher.

Nesse meio tempo, Joe Mackins chega ao hotel e é contratado pela Sra Baker para arrumar a caldeira. Joe começa a namorar Helen Dawens (uma das empregadas), mas logo apresenta um comportamento violento e controlador. Ironicamente, Albert acredita que Helen será uma perfeita esposa e a convida para sair. Joe se aproveita da situação e faz com que Helen tire dinheiro de Albert (que lhe dá vestidos e chapéus novos). Após alguns meses, Albert revela a Helen que pretende abrir um negócio e Helen lhe confessa que seu desejo é deixar a Irlanda e ir morar nos Estados Unidos.

Albert NobbsGlenn Close e Albert Nobbs

Fiquei desnorteada quando descobri que, apesar de ter cinco indicações, Glenn Close nunca recebeu um Oscar. Close possui diversos trabalhos importantes no cinema americano e Albert Nobbs não é diferente. Aliás, ela já havia interpretado Albert Nobbs nos teatros e lutou por mais de dezoito anos para fazê-lo virar filme (no longa, chegou a trabalhar  no roteiro e na produção), portanto é fácil entender porque esse filme foi feito especialmente para ela, que carrega nos ombros a carga dramática e está presente nas cenas mais sublimes. [Glenn Close recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz, mas acabou perdendo para Meryl Streep por ‘A Dama de Ferro].

Quase não reconheci Janet McTeer quando a vi em cena e tive dúvidas se era de fato uma mulher. McTeer também recebeu uma indicação a melhor atriz coadjuvante, mas quem levou a estatueta foi Octavia Spencer por ‘Histórias Cruzadas’. Não há dúvidas quanto ao seu brilhante desempenho nem sobre a importância do seu papel a trama: foi Hubert que acordou os desejos adormecidos em Albert e lhe deu esperança. Chamo atenção para a cena em que Albert Nobbs e Hubert Page, depois de anos, se vestem de mulher novamente. Abaixo há uma reflexão sobre o texto de Simone Benmussa onde ela aborda a importância das roupas. De fato, quando Albert se veste de mulher e corre pela praia, há um enorme simbolismo em sua feição: por um momento, Albert está livre.

Tecnicamente, a trama apresenta uma fotografia maravilhosa e um inquestionável trabalho de maquiagem e figuro. [SPOILER] O que me incomodou um pouco foi certa lentidão quanto ao desenvolvimento e um final mal explorado. Albert falece e logo depois descobrem que se tratava de uma mulher. Mas não tivemos tempo de saborear a reação dos outros personagens, nem mesmo ter raiva da Sra Baker, que rouba todo o seu dinheiro.[SPOILER]

Albert-Nobbs-Janet-McTeer-Roadside-Attractions-e1328645681748albert-nobbsSuas roupas se tornaram seu corpo

Sensibilizada pelo filme, passei a noite de ontem pesquisando sobre o trabalho de George Moore e acabei esbarrando em um texto escrito por Simone Benmussa (diretora francesa que adaptou “The Singular Life of Albert Nobbs” ao teatro em 1978).  Tomo a liberdade de reproduzir algumas de suas reflexões que apresentam aspectos interessantes para a interpretação da obra. Logo no início, Benmussa afirma que as roupas possuem um papel tão importante quanto o dos atores. As roupas não são apenas uma reconstrução histórica ou peças de decoração, elas são parte do texto, dos gestos e são pontos de partida para discussões mais importantes.

Albert pegou as roupas de seu antigo chefe lhe deu para vender e só assim (vestido de homem), foi capaz de conseguir um emprego que lhe desse a oportunidade de ganhar um pouco mais de dinheiro. Sua ambiguidade é percebida já no início da trama: Albert usa a roupa do único homem que poderia ter amado e assim, impede que outros homens a ame. Masculinizada, ela ganha uma autoridade e participa da rede hierárquica dos empregados do hotel (mas continua marginalizada por ser a única a saber o que se tornou).  Mesmo que Albert tenha começado a se vestir de homem por um mero acidente, as roupas masculinas lhe deram algo além do dinheiro, do respeito e do trabalho: Albert se distanciou do próprio corpo.

Albert NobbsEm contraste, somos apresentados a Hubert Page ( uma mulher que se livrou de um casamento opressor e passou a vestir roupas de homem, conseguiu um trabalho e se uniu a outra mulher). Benmussa chama atenção para um aspecto: Page é uma pintora e suas roupas são mais informais, ela decidiu largar o marido e se unir a outra mulher, como pintora não precisa seguir hierarquias e diferente de Albert, Page é feliz. Ao tentar fugir da sociedade, Nobbs fez de seu disfarce uma prisão, suas economias, ao invés de trazer segurança se transformaram em uma mania obsessiva.

Benmussa sugere outra reflexão importante, ela chama atenção para o fato de que Albert não tem um problema quanto ao próprio sexo, ele não quer alterar o corpo e sim: escondê-lo. Sua imagem de felicidade é ter uma casa e se adaptar a sociedade burguesa. Pela complexidade do personagem, Benmussa pedia que suas atrizes atuassem em dois níveis: elas precisavam ser extremamente reais, simples e ao mesmo tempo, explorassem o imaginário do espectador. As  atrizes precisavam ter voz grossa, firme e tinham que convencer que aquela história surreal era algo concreto e que, de fato, se passava no cotidiano.

Sua feminilidade ainda estava debaixo daquelas roupas. Quando Helen se aproxima, Albert tem duvidas que são normais a uma mulher, enquanto serve os empregados ela não percebe que possui certos gestos femininos – seu maior objetivo é impedir que atos falhos apareçam. Benmussa afirma que até mesmo George Moore foi um pouco violento com Albert: ele criou uma mulher feia, com cerca de cinquenta anos, muito magra e com os dentes amarelados. Moore escreveu a trama como uma comédia, para ele esse tipo de situação só acontecia com mulheres feias (que não podiam ser amadas).

Apesar de parecer óbvia e simples, a história possui grande força social e política (a peça traz a tona temas como: solidão, marginalidade, sexualidade, paternidade e descriminação) – e por isso, continua tão atual.

Confira a transformação de Glenn Close em Albert e de Janet McTeer em Hubert:

Mental

Estou com esse filme há um mês no computador e só ontem tomei a iniciativa de assisti-lo. Tive uma ótima surpresa e indico a qualquer pessoa que queira se divertir com um longa interessante, que traz diversas contestações e principalmente: mantém o ritmo e não cai na mesmice.  “Mental” é uma comédia australiana dirigida por PJ Hogan (o mesmo direitor de ‘O Casamento de Muriel’ e ‘O casamento do meu melhor amigo’) que conta a história da problemática família Moochmore.

Curiosamente, PJ Hogan se baseou na própria vida para fazer o filme. Quando tinha 12 anos sua mãe sofreu um colapso nervoso e foi internada em um hospício. Seu pai se recusava dizer onde sua mãe estava e, assim como no filme, decidiu contratar uma babá para cuidar dele e da irmã (que é esquizofrênica).  Em 1994, quando produziam ‘O casamento de Muriel’, PJ Hogan tinha o costume de contar casos de sua babá a Toni Collette que por muito tempo insistiu que fizessem um longa sobre a história e a convidassem para o elenco.

Mental - Toni Collette

Há muitos aspectos que chamam atenção na trama, a começar por um forte senso de humor negro que ironiza a sociedade e brinca com as falhas humanas. Desde uma vizinha compulsiva por limpeza a uma mulher viciada em colecionar bonecas (que possuem cabelo de verdade): há um belo trabalho quanto a narrativa que joga com espectador e não estabelece diferenças claras entre a normalidade e a loucura. Toni Collette está maravilhosa e carrega grande parte dramática do filme, mas também não há como ignorar a presença de Rebecca Gibney (quase irreconhecível), no papel de uma mulher doce e completamente pirada.

Uma família em pedaços, uma oportunista e uma pitada de loucura

Logo no início da trama somos apresentados a Shirley Moochmore (Rebecca Gibney) que canta no jardim da casa uma das mais famosas músicas do cinema americano: The Sound Of Music.  Enquanto diverte-se em seu pequeno idílio, suas filhas a observam e ficam completamente agitadas, tentando se livrar do vexame que a mãe lhes causou. Ao contrário da  família Von Trapp, os Moochmore possuem sérios problemas de comportamento e são um incômodo para os vizinhos. Shirley insiste que as filhas precisam aprender a dançar e a cantar (como em ‘A Noviça Rebelde’) para que seu marido, Barry (Anthony LaPaglia), finalmente volte para casa.

Cada uma das cinco filhas acredita ter algum problema mental, Coral (Lily Sullivan), a filha mais velha, insiste que é bipolar. Leanne diz ser autista, Kayleen sociopata, Jane afirma ser depressiva e Michelle, esquizofrênica. Os Moochmore são vizinhos da detestável Nancy (Kerry Fox) que odeia Shirley e as meninas. Nancy é uma mulher moralista e preocupadíssima com a limpeza da casa (que esfrega o chão da rua com escova de dente) – ela também tenta esconder e limitar os trejeitos da filha, que é lésbica e completamente masculinizada.

Inesperadamente, Shirley tem um ataque de nervos e compra diversos artigos em uma loja de mobílias. Ela acredita que ao comprar móveis novos, suas filhas deixarão de ser chamadas de porcas. Barry decide internar a mulher e contratar uma babá. [Se alguém perguntar as meninas onde esta Shirley, elas devem dizer que a mMENTALãe está se divertindo em férias]. Doris (Caroline Goodall), irmã de Shirley, não pode cuidar das meninas porque gasta todo o tempo com sua coleção caríssima de bonecas (ela, inclusive, corta o cabelo de uma das sobrinhas para colocar em seu brinquedo).

Barry encontra Shaz (Toni Collette) na rua e sem se preocupar com o seu passado, a contrata para ser a babá das meninas. Ocupado com a prefeitura, ele se ausenta mais uma vez da casa e deixa que Shaz resolva todos os problemas. Aos poucos Shaz conhece cada uma das meninas e descobre que todas estão sentimentalmente abaladas pela falta dos pais. A única delas que realmente apresenta algum problema é Michelle, que é esquizofrênica.

A presença de Shaz faz com que as meninas percebem que não há nada de errado com elas. Aos poucos, elas largam a ideia de que possuem alguma doença mental e se unem para ajudar a mãe a sair do hospício. Shaz também conversa com Shirley para convencê-la voltar para casa e cuidar das crianças. A relação de confiança é drasticamente quebrada, quando descobrem que Shaz possui um surpreendente passado.

Um toque de genialidade em diálogos surreais

Fiquei mais atenta aos diálogos dos filmes desde que comecei a escrever para o La Amora. Gosto de um humor bem feito quanto a narrativa e ‘Mental’ correspondeu bem. Em uma cena interessante, Shirley conta para Shaz como começou a se relacionar com Barry. Em um de seus primeiros encontros, Barry a estuprou e mesmo assim, ela ficou apaixonada por ele. Shirley esperou pelo telefonema por 3 semanas até que descobriu que estava grávida de Coral e Barry não teve como fugir. Em outro momento engraçado, Shaz comenta a história da Austrália com as meninas. Diferente do oficial, ela insiste que os antepassados dos australianos eram loucos, já que os loucos eram sempre mandados para longe. Os diálogos surreais ficam ainda mais engraçados com as referências a personagens da cultura pop como Cate Blanchett, Nicole Kidman e Rupert Murdoch.