A garota do parque

Certos filmes me chamam a atenção por causa do elenco, neste caso “A garota do parque” filme de 2007, dirigido por David Auburn (o mesmo diretor de ‘A casa do lago’) me atraiu por ser encabeçado por Sigourney Weaver. Não fui com muitas esperanças em relação ao filme porque já tinha lido vários comentários negativos sobre o desenvolvimento da trama. De fato, a história é interessante, mas perde o ritmo no meio do caminho. Apesar  dos problemas, fica muito claro que todos os elementos fílmicos são muito bem respeitados, sem aventuras quanto aos movimentos de câmera ou de continuidade. [O filme foi lançado diretamente em DVD no Brasil e é uma produção independente].

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A narrativa conta a história de Júlia Sandburg, uma mulher que ficou profundamente traumatiza após o desaparecimento da filha em um parque. O início da trama nos apresenta a família da personagem: o marido e os dois filhos (Chris e Meg) e percebe-se um claro clima de harmonia. Júlia leva Meg ao parque, como o faz constantemente mas acaba se distraindo e não consegue encontrar a garota. Passam-se quinze anos e Júlia continua sofrendo pela ausência da filha. Sua relação com o Chris deteriorou-se, ela o encontra para o jantar de noivado, mas não consegue estabelecer diálogo. O ex-marido, agora casado com outra mulher, também parece não conseguir se relacionar com Júlia e prefere se manter distante.

Completamente absorvida na esperança de reencontrar a filha, Júlia afunda-se no trabalho e em uma solidão profunda. Em um dia inusitado, Júlia encontra Louise (uma jovem com a idade que sua filha teria hoje) e decide ajudá-la. Louise mente dizendo que está grávida e que precisa de dinheiro para voltar para casa, (Júlia lhe empresta setecentos dólares, mas pouco tempo depois, reencontra Louise bebendo e se divertindo em um bar). Júlia decide perdoar Louise e levá-la para casa, a relação das duas se torna um perigoso jogo de interesse e mentiras. Enquanto Júlia vê a possibilidade de Louise ser sua filha perdida, Chris tem certeza que Meg está morta.

Dor, Solidão e Abandono

Apesar de apresentar uma história interessante, há dois aspectos que me desagradaram muito. Meg é um personagem intenso e complexo, mas a interpretação de Daisy Tahan foi pouco cativante. Outro detalhe é o final que deixa a desejar e não oferece respostas. Aliás, a relação entre Júlia e Chris definitivamente poderia ser mais explorada, afinal, Chris cresceu à sombra da irmã e não teve a oportunidade de conhecer o lado mais amoroso da mãe.

Seu ressentimento quanto a mãe fica evidente quando Júlia tenta se aproximar e ele não a permite. Em uma conversa durante a festa de noivado, Chris deixa que seus sentimentos venham à tona e demonstra, diante de todos os convidados, toda a sua dor, toda a raiva que sente quanto a rejeição que sofreu durante a infância.

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Sem títuloMOMMOChris é um personagem riquíssimo, assim como sua noiva. Enquanto Chris questiona a credibilidade de Meg e os sentimentos que sua mãe nutre por ela, sua noiva tenta fazê-lo perdoá-la e focar no que interessa: no nascimento do seu primeiro filho. Portanto, apesar de parecer que a trama baseia-se apenas no relacionamento entre mãe e filha desaparecida, há outras bifurcações e situações paralelas importantes (que passam despercebidas).

O violinista que veio do mar

Aproveitando a onda de filmes que tenho assistido com Judi Dench e Maggie Smith, resolvi escrever sobre ‘O violinista que veio do mar’, produção de 2004 dirigida por Charles Dance. [este é o primeiro filme de Dance como diretor que, aliás, é um ator conhecido e atuou em vários filmes como Alien 3 e Game of Thrones]. A história se passa na década de 1930 e conta a história de duas irmãs: Úrsula e Janet que vivem sozinhas em uma pequena residência na vila de Cornwell, norte da Inglaterra (a única visita constante que recebem é a ranzinza e cômica Dorcas, empregada que as acompanha há anos). A morosidade do cotidiano é interrompida quando elas encontram no mar um jovem desacordado e decidem levá-lo pra casa.

ImagemDepois de cuidarem de seus ferimentos, descobrem que Adreas (Daniel Bruhl) não fala inglês e provavelmente sobreviveu a um naufrágio. Janet e Úrsula passam meses cuidando do rapaz, compram roupas, o alimentam e criam uma relação de proximidade. Elas se surpreendem com sua facilidade de tocar violino e arrumam um instrumento emprestado para que ele treine todos os dias. A música de Andreas chama a atenção de Olga Daniloff (Natascha McElhone), irmã de um violinista e compositor famoso.  Olga, que só estava de passagem pela cidade, convida Andreas para se juntar a ela em uma viagem. A grande oportunidade de Andreas se torna um pesadelo para Úrsula, que se apaixonou perdidamente pelo jovem.

Não há o que questionar sobre elenco: Dench e Smith são as grandes protagonistas e guiam toda a ação do filme.  Independente disso, o espaço dos outros atores é respeitado: Natascha McElhone está belíssima, faz jus ao personagem que interpreta e esbanja sensualidade, assim como Daniel Bruhl (nem um pouco prejudicado pela ausência de falas e fundamental para o desenrolar da trama). Sobre a direção de Dance, percebe-se muita calma quanto ao ritmo dos acontecimentos: tudo em seu devido tempo, acentuando a realidade das velhas senhoras. Além disso, o cenário é belíssimo (bucólico, frio e silencioso) e sustenta a sensação de solidão das irmãs.

tumblr_miajastdN41qb2flgo1_500Admiro a forma respeitosa em que a velhice é representada e mais do que isso, admiro a forma realística que trataram sobre um tema bastante subjetivo: o amor. Úrsula se apaixona por Andreas e não consegue esconder o sentimento da irmã que a todo tempo, tenta protegê-la e impedi-la de se aproximar do garoto. Em uma entrevista que vi com as atrizes, Dench falava que da pureza do amor de Úrsula e sugeriu que talvez, ela tivesse algum problema mental (ocasionado pela idade). Quando vi o filme, não me pareceu que Úrsula tinha alguma doença, no meu ponto de vista ela realmente tinha se apaixonado e como todo romântico, acreditava que um dia iria se juntar ao amado.

Não fica muito claro se Úrsula teve algum marido ou namorado, quanto a Janet (que é muito mais ‘pé no chão do que a irmã’) sabe-se que ela foi casada e que o marido morreu em guerra. É possível perceber um contraponto belíssimo: a viuvez de Janet não a fez descrente no amor, mas adormeceu nela o desejo de encontrar outro homem. Úrsula, por outro lado, tem dentro de si uma paixão arrebatadora (apimentada pelo ciúme que ela sente de Olga). Muito do que li, de comentários de quem já viu o filme, tratava-se do fato de Úrsula ser velha e mesmo assim se apaixonar. (Falavam com admiração não do fato dela ter se apaixonado por um garoto: mas do fato de ter se apaixonado, simplesmente).

Só há um motivo que me deixou um pouco antipatizada com o personagem Andreas: o fato de ele ter ido embora sem avisar as irmãs. Ele comeu da comida delas, vestiu as roupas que elas lhe compraram, teve abrigo e carinho e depois, as abandonou. Sua relação com as duas me pareceu seca e no mínimo ingrata afinal, será que Andreas não percebeu que Úrsula estava apaixonada por ele? Porque ele não se deu ao trabalho de avisá-las que iria embora? Por quê não deu atenção a elas depois do show? Foi doído ver o estado em que Úrsula ficou após perceber que Andreas tinha as abandonado e ficou claro o quanto era essencial que Janet, naquele momento, se mantivesse forte e segurasse as pontas.

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Divina Confusão

4461“O que acontece quando os deuses se equivocam?”

Tenho uma admiração muito grande pela dramaturgia mexicana. Em uma publicação anterior, eu comentava sobre o quanto gosto da Diana Bracho e do Jesús Ochoa. Há algum tempo encontrei no Youtube um filme de 2008 dirigido por Salvador Garcini em que os dois fazem parte do elenco (aliás, um elenco repleto de rostos conhecidos como Pedro Armendariz Jr., Alejandro Camacho, Luis Roberto Guzmán, Alan Estrada, Ana Brenda Contreras) e que de alguma forma, passou desapercebido por muita gente.

O longa se chama “Divina Confusão” e apesar dos pDiana BRacho Divinaequenos erros, é um filme divertido que fala sobre homossexualidade de uma maneira bem sutil. A história se passa em dois cenários: o dos humanos e o dos deuses. Bibi e Pablo realizam um jantar de noivado e reúnem seus pais para anunciar o casamento. Todos se encontram na data marcada pelos noivos, mas percebem que há um clima estranho. Ao mesmo tempo, para se assegurar que tudo ocorra bem, Zeus pede que Eros acompanhe o jantar e se certifique de que o casal esteja realmente apaixonado. Ironicamente, Eros comete um erro de pontaria e sua flecha atinge Júlia (mãe do noivo) que fica perdidamente apaixonada por Bibi (a noiva).

Ao longo da trama, percebemos que Bibi também se interessa por Júlia e a situação começa a ficar insustentável, já que são elas as responsáveis pela organização do casamento. Depois de reconhecerem que se amam, as duas passam a viver grandes impasses: enquanto Júlia não quer decepcionar o filho e teme enfrentar a fúria do marido, Bibi por sua vez não sabe como terminar o noivado e assumir seu amor por sua sogra.

Como disse, o filme é muito delicado, mas apresenta certo contraponto:  possui cenários teatrais e ao mesmo tempo, carrega a plasticidade das telenovelas. A presença dos deuses faz com que a trama pareça mais boba do que realmente é, outro problema é que os personagens não são explorados em sua dimensão psicológica e certas cenas são completamente desnecessárias. O fato é que Diana Bracho e Ana Brenda Contrera não deixam a peteca cair, como protagonistas da trama, encenam diálogos fundamentais (um exemplo é quando Bibi resolve se declarar a sogra). Mesmo que a direção tenha perdido a mão, fazendo com que o filme fique parado no meio do caminho entre drama e comédia, ‘Divina Confusão’ é um filme interessante e convidativo.

4462Como disse, apesar dos pesares, o filme apresenta grande delicadeza quanto a abordagem sobre a homossexualidade feminina. Em uma cena linda, Júlia e Bibi estão na aula de Yoga, as duas se aproximam e tocam uma a outra (as mãos, os braços) e quase não percebem que estão em um local repleto de pessoas. Para corrigir o erro de Eros, os deuses são transformados em humanos e descem a terra para resolver a situação.

Depois de se aproximar da sogra,  Bibi vai até o escritório de Júlia e decide se declarar, dizendo que nJulia e BIbi Divina Confusionão consegue mais fingir que não a ama. Júlia passa dias sem dormir e toma uma decisão drástica.  {Se você se interessou pelo filme, pare de ler agora: SPOILER!} Júlia vai até a casa de Bibi para dizer que as duas não podem ficar juntas, elas se beijam e inesperadamente são flagradas por  Pablo (o noivo) que decide contar tudo ao pai. Todo o idílio amoroso entre as duas começa a se despedaçar: Júlia apanha do marido e Bibi tem um grande enfrentamento com o pai. Depois de toda confusão, Júlia decide não se unir a Bibi, que vai embora para outro país. Passam-se anos, Júlia escreve um livro sobre as duas e descobrimos em OFF que o marido de Júlia e o pai de Bibi também se apaixonaram.

Trailer:

Colegas

Fui com sede ao pote, ‘Colegas’ (filme de 2012, dirigido por Marcelo Galvão) não é lá isso tudo. A fotografia é maravilhosa, encanta pelas paisagens e é adocicada pela trilha sonora, mas a narrativa surreal força uma situação pouco convidativa (que é agravada pelo diálogo desconexo e sem ritmo). Não há como negar uma simpatia espontânea pelos personagens principais, nem a boa intenção de quem produziu todo o longa, mais apesar da delicadeza, o filme deixou um ‘quê’ de quero mais.

Colegas

O filme conta a história de três amigos que inspirados pelo filme ‘Thelma e Louise’ roubam o carro do vigilante (Lima Duarte) do instituto onde vivem para fazer uma viagem. Cada um saí em busca de realizar um desejo: o de Stalone (Ariel Goldenberg) é conhecer o mar.  O sonho de Aninha (Rita Pokk) é de se casar e o sonho de Márcio (Breno Viola) é de voar. No entanto, os três se envolvem em uma sequência de crimes e passam a ser tratados como perigosos fugitivos pela polícia local.

Todo o filme exige uma capacidade de transgressão muito grande e a valorização que se dá ao mundo lúdico que acompanha as situações vividas pelos personagens fica muito clara. Aliás, é interessante como o filme ironiza (com muito bom humor) a dificuldade que os portadores de síndrome de down enfrentam cotidianamente. Quanto a isso, não dá pra negar que a função do filme foi cumprida.  A mensagem de superação é muito bonita, os três personagens estão sozinhos e mesmo assim, conseguem o que desejam.

Cena-do-filme-Colegas-de-Marcelo-Galvao-que-e-protagonizado-por-portadores-de-Sindrome-de-Down-size-598O problema é que há um excesso de fofura. Somos levados não só a olhar o mundo dos três personagens como também: fazer parte dele. O que poderia ser um humor leve se torna um pastelão (repletos de clichês): policiais atrapalhados, uma imprensa plastificada, um gay estereotipado e uma série de diálogos bonitos (mas óbvios). Gosto, especialmente do perfil literário do filme. Lima Duarte como narrador faz com que a trama fique mais gostosa e mais rica, é ele que explica de onde surgiu o desejo dos personagens e qual é o rumo de cada um deles.

Esses pequenos defeitos fazem com que o filme fique um pouco cansativo, mas você pode gostar se for acostumado com esse tipo de perspectiva. No mais, o longa é um filme que guarda uma bela mensagem, que fica escancarada já nas primeiras cenas: ‘As pessoas são como tapete. “De vez em quando, precisam de um chacoalhão”.

Confira o trailer:

Notas sobre um Escândalo

Notas sobre um EscandaloSou apaixonada com esse filme desde que o vi em 2006. Assisti novamente inúmeras vezes e sempre fiquei com a sensação de que “Notas Sobre um Escândalo” é uma produção muito bem feita. É evidente que Cate Blanchet e Judi Dench levam grande parte do mérito porque são as que aparecem na telona e dão a cara a tapa. Mas não há como ficar indiferente com a direção de Richard Eyre e com o roteiro bem elaborado de Zoe Heller e Patrick Marber. O filme, a história e os próprios personagens  poderiam não ser tão interessantes se não fossem realizados com tanta destreza e detalhamento técnico.

Desde a narração em primeira pessoa ao deslocamento subjetivo da câmera: Eyre conseguiu fazer com que tudo ficasse em seu devido lugar. Outro aspecto que me chama atenção é a iluminação que parece andar de mãos dadas com o desenvolvimento dramático. Nos momentos de clímax, por exemplo, onde as personagens estão em confronto, os ambientes ficam mais escuros. Quando Sheba (personagem interpretada por Cate Blanchett) faz sexo com o aluno, a iluminação recebe um tom avermelhado e as cenas na escola são em sua maioria brancas e muito claras. É importante lembrar aqui que Judi Dench e Richard Eyre já trabalharam juntos anteriormente no aclamado “Iris”, onde Judi (ao lado de Kate Winslet, Jim Broadbent e Hugh Bonneville) contou o drama da novelista Iris Murdoch.

notas sobre um escandaloA trama conta a história de Bárbara (Dench) uma professora de história dominadora que vive sozinha com seu gato, Portia. Bárbara executa suas tarefas com mão de ferro dentro da escola, amedronta os alunos e os colegas (talvez, por isso, seja tão solitária). Seu cotidiano muda com a chegada da professora de artes Sheba Hart (Cate Blanchett). As duas criam uma forte relação de amizade, mas a situação fica cada vez mais perigosa quando Bárbara descobre que Sheba tem um caso amoroso com um de seus alunos.

Logo no início somos familiarizados com a narrativa de Bárbara que conta como o seu dia-a-dia na escola se tornou enfadonho e sem graça até a chegada da nova professora. Sheba roubou a atenção dos alunos e dos outros professores que também foram seduzidos por sua graciosidade. Bárbara só se aproxima dela após uma briga na sala de aula (Sheba não consegue acalmar os alunos até que a Bárbara chega e impõe a ordem). Desde então as duas passaram a almoçar juntas e a dividir os segredos. Sheba convida Bárbara para um almoço em sua casa e é assim que Bárbara conhece toda a família da colega. Aos poucos a relação das duas toma um rumo doentio já que Bárbara não gosta que outros professores se aproximem da amiga. Quando ela descobre que Sheba teve um caso com um de seus alunos ela não só provoca a amiga como faz com que ela fique em uma situação de completa dependência

Eu e um colega brincávamos outro dia e dizíamos que esse filme poderia muito bem se chamar ‘Notas de uma solitária’ pois é o que define melhor a personagem de Dench, Bárbara. Gosto especialmente da maneira em que ela aparece em tela: com um aspecto que acentua sua velhice e sua rispidez. Desde as primeiras cenas percebemos o quanto aquela odiosa senhora está submersa na necessidade de encontrar alguém para lhe fazer companhia. O fato mais interessante, sem dúvidas é que toda a sua carência, converte-se em um desejo lésbico escondido. Suas carícias, seus olhares e seu desejo não são só evidenciados pela narrativa literária, mas também pelos aspetos corporais que Dench e Blanchett o fazem muito bem. Não há uma resposta concreta em cena, mas me perguntei inúmeras vezes o que teria provocado tanta dureza na vida dessa mulher.notas-escandalo

Se há dois momentos que me agradam diante essa perspectiva (da sexualidade reprimida de uma professora idosa) e que ficam ainda mais interessantes pela forma sarcástica em que ela dirige seus diálogos (como uma maneira de se defender e de esconder toda fraqueza emocional), são: quando o gato de Bárbara morre ela aproveita-se da bondade de Sheba, pede que a amiga feche os olhos e diz: ‘Quando estávamos tristes, eu e minha amiga tínhamos o costume de fechar os olhos e acariciar uma a outra’. Sheba o faz, mas a sensação que se tem é de completo desconforto. No segundo momento, Bárbara está sozinha em casa na banheira e começa a descrever como é terrível sentir-se só e pensa: ”Gente como ela acha que sabe o que é solidão. Mas solidão, daquelas onde uma ida à lavanderia é o máximo que pode se esperar do seu fim de semana… Onde encostar o braço no cobrador do ônibus pode descarregar um choque elétrico por seu corpo… Desse tipo de solidão, ela não sabe nada.”

Todo o mistério que ronda Bárbara (que, a meu ver, é o personagem mais interessante da trama) também envolve a personalidade paradoxal de Sheba, afinal a sua jovialidade e beleza escondem o que o espectador descobre só mais tarde: o deslize de relacionar-se com um jovem de quinze anos e a família completamente desproporcional a sua aparência. Bárbara, em uma de suas cruéis anotações, ironiza a casa de Sheba evidenciando o quanto ela todo aquele cenário não combina com sua personalidade: o marido mais velho, da filha adolescente problemática e do filho com Síndrome de Down. Inesperadamente, Sheba se apaixona pelo aluno quando ele, por sua vez, não quer mais se relacionar com ela. As situações se invertem e toda a infantilidade que se espera do garoto, passa a ser vista na professora.scandal

Toda a trama nos traz questionamentos interessantes sobre quem realmente somos e com quem estamos nos relacionando diariamente. No âmago de cada um de nos, guardamos não só os mais profundos segredos como também desejos e temores absurdos. Moldamos uma personalidade para nos adequarmos socialmente e é em consequência a essa escolha que deixamos parte do que somos escondida. Notas sobre um escândalo é um filme imperdível, daqueles que conseguem equilibrar muito bem a narrativa fílmica. Só para ressaltar, o trabalho de Philip Glass na trilha sonora é deslumbrante.

O quarteto

Maggie Smith Foi a primeira vez que reparei na beleza de Maggie Smith e no quanto àqueles olhos grandes e azuis são bonitos. Nem mesmo os filmes que ela fez com Judi Dench despertaram tal admiração.  Smith entrou para o meu imaginário (e tenho certeza que não só para o meu) como a velha professora de Hogwarts, Minerva McGonagall. Lembro-me dela também no papel da ríspida madre superiora em Mudança de Hábito, portanto, sua solidez me pareceu característica e foi assim que a marquei em minha memória.

Em ‘O Quarteto’ (filme de 2012, dirigido por Dustin Hoffman), Maggie Smith dá a vida a Jean, uma ex-cantora lírica que decide se mudar para uma casa de repouso de cantores aposentados. Sua chegada não é bem vista por alguns moradores do local e a trama leva-nos a desvendar o por quê. Logo na apresentação do filme, sentimos o clima leve do filme e acompanhamos um dos ensaios dos cantores que todos os anos, no dia 10 de outubro, comemoram o aniversário de Giuseppe Verdi com um concerto.

Vi a mesma pergunta repetidas vezes em diversos sites: ‘Por que Dustin Hoffman demorou tanto para trabalhar como diretor’?  Não sei a reposta ao exato, mas afirmo com toda certeza que seu debut na direção foi sublime. Em uma entrevista que vi com a Maggie Smith sobre a produção, ela conta o quanto se sente desconfortável se vendo em tela. O entrevistador lhe dizia que ela tem fama de ser perfeccionista e pergunta como foi trabalhar com Hoffman. Em resposta ela disse que ele é um dos melhores diretores com quem trabalhou porque já esteve na pele de um ator e sabe exatamente como eles se sentem em cena. A beleza da direção e sem dúvidas na fotografia se dá porque logo percebe-se um respeito pelo desempenho de cada ator em tela. Cada um deles, em sua devida proporção, merece uma menção na trama.

Maggie+Smith+Quartet

Dustin Hoffman dirigindo as cenas em 'O quarteto'
Dustin Hoffman dirigindo as cenas em ‘O quarteto’

O quarteto - Dustin Quando Jean chega ao asilo ela é tratada com rispidez por alguns moradores, mas sua presença incomoda principalmente Reg (Tom Courtenay) que afirma que deixará o local se ela realmente se mudar. Ironicamente, Jean fica a sua procura em grande parte da trama e só então descobrimos que os dois foram casados anteriormente e que Jean traiu Reg com outro homem.  O clima de briga entre os dois personagens é totalmente equilibrado pela presença do sedutor Wilf (Billi Connoly) e da esquecida Cissy (Pauline Collins). Os quatro, anteriormente, formaram um prestigiado grupo de cantores, mas depois de um tempo, tomaram os próprios rumos (a primeira a abandonar o grupo foi Jean).

Todo o mistério que ronda Jean faz da personagem mais encantadora. O filme, de fato é centrado em Maggie Smith, mas Pauline Collins, com toda aquela doçura não fica para trás. Cissy se esquece de tudo e sua fragilidade é compensada pela proteção e carinho dos outros moradores que não deixam que algo lhe aconteça. O próprio Wilf, em um momento descontraído, confessa que foi apaixonado por ela e por seus belíssimos ‘pares de peitos’.Quartet-1

Após uma reunião, os três amigos se juntam para tentar convencer Jean a se apresentar novamente.  Particularmente, admiro a abordagem que se deu às inseguranças da velhice. Jean se nega a cantar novamente porque tem medo de desafinar e não quer decepcionar os fãs. (Wilf ironicamente responde: ‘seus fãs provavelmente já estão mortos’).

No filme, Jean reclama dos ‘malditos quadris’ que doem muito. Acho engraçado porque no filme ‘O Exótico Hotel Marigold’, o personagem de Smith tinha o mesmo problema. Fiz uma pesquisa e descobri que Maggie Smith foi acometida por um câncer severo e ficou por algum tempo afastada das telas e nunca mais se aventurou a trabalhar no teatro. Maggie e Jean dividem algo em comum: as consequências da velhice e enfrentaram a possibilidade de abandonar a carreira.

Gosto da visão positiva sobre o avanço da idade, daquela velha ideia de que: ‘nunca é tarde para recomeçar’. Ao final, admiro muito a decisão de Hoffman de não mostrar o quarteto se apresentado. Seria arriscado colocar atores, que não cantam, dublando cantores de ópera. Achei justo e mais seguro.

O QUARTETO

Odeio o dia dos namorados

Com uma narrativa alternada, o filme ‘Odeio o dia dos namorados’ dirigido por Roberto Santucci e roteirizado por Paulo heloisa_perisseCursino, é uma comédia leve, recheada de bom humor e romantismo.

Apesar da plasticidade (herdada da TV) e dos clichês (quase inevitáveis), somos presenteados pela atuação de Heloísa Perissé que dinamiza a trama.

O filme também conta com um elenco sensacional, entre eles os atores, estão: Daniel Boaventura, Marcelo Saback, Daniela Valente, Danielle Winits, Toni Tornado, Fernando Caruso, Júlia Rabello

Antes de ir ao cinema para vê-lo, encontrei várias críticas negativas. É engraçado como filmes desse segmento provocam certo incômodo. Confesso que também não sou muito chegada nesse tipo de produção, mas esse em especial foi uma boa surpresa. Li que Roberto Santucci e Paulo Cursino se inspiraram em “Um Conto de Natal” (de Charles Dickens) ao realizarem a trama. Em entrevista, eles afirmaram que também tiveram influência de outros filmes como ‘A felicidade não se compra’, ‘Minhas adoráveis ex-namoradas’ e ‘Odeio o dia dos namorados’ (com a Nina Vardalos). Parece que fizeram uma grande colcha de retalhos e exploraram uma estética já conhecida dos espectadores.  Gostei do filme porque ele é agradável, descomprometido e serve como uma boa opção de passatempo.

odeio_o_dia_dos_namorados_duplaNo longa, Heloisa Perisse (diferente do usual) interpreta Débora, uma publicitária de sucesso que decidiu investir na vida profissional e esquecer a afetiva.  Débora é uma mulher rude e fria que maltrata e é odiada pelos funcionários. Um dia, recebe a proposta de realizar uma campanha onde precisa falar sobre ‘amor’, ironicamente, seu cliente é Heitor (um ex-namorado que sempre foi apaixonado por ela). Durante a apresentação da campanha, Débora percebe que deixou o Ipad com os demonstrativos no trabalho e decide ir buscá-lo.  Em consequência a alta velocidade, Débora sofre um acidente que coloca a sua vida em risco. Segundos antes da morte, ela reencontra um amigo que lhe dá a oportunidade de rever toda a vida e descobrir onde errou.

Débora não só volta ao passado como também faz uma viagem pelo futuro (em uma São Paulo de 2036 onde ‘Ai se eu te pego’ virou um clássico). Há diversas referências engraçadas como ao grupo Dominó e aos Menudos. As reconstituições das roupas são mto legais…

Em uma pesquisa pela internet, encontrei a entrevista que Perissé cedeu ao Pânico, onde ela fala sobre a trama e sobre a produção, confiram!

Como me sinto quando: versão Susan Sarandon

– depois da balada a amiga diz: ‘eu nunca fiz tanta loucura!’

Thelma– O clima esquenta com o boy e ele não toma a iniciativa

Horror Picture– Todos foram pra balada e ninguém te convidou

Louise– você tenta mandar uma indireta, super direta

tumblr_mla4ac3riz1qbkh27o3_250– você tá na balada e tocam a sua músicaJanet– quando dizem: “tudo bem, pode ficar com o último pedaço do meu chocolate’

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– você está de TPM e insinuam que você está nervosa demais

tumblr_mlk6xmvlEW1qcpkfeo1_500– quando lhe dizem: Richard Gere está subindo a escada rolante com uma rosa nas mãos para te entregar

tumblr_ml5l1cF3sq1qcpkfeo8_250– você está dormindo e alguém chega e acende a luz do seu quarto

tumblr_ml3bng02Sl1qc0zrfo1_500– vocês se odeiam, mas não perdem a pose

tumblr_mlx0xtxYKk1qkxowqo7_250Susan Sarandon

O sequestro do ônibus 174, uma releitura sobre o choque do real

Em uma das reflexões iniciais de “O choque do real e a experiência urbana” Beatriz Jaguaribe afirma que a cidade (repleta de lixo, becos e fervilhantes atividades) é também cenário para a presença de novas tecnologias e meios de comunicação onde as pessoas são minadas por uma cultura do medo.

Diferente do que se imagina a “cultura do medo” não é experimentada empiricamente. Para a autora, a maioria dos cidadãos experimentam o medo (assaltos, roubos e violações) através da divulgação fílmica ou literária e todo o discurso e construção midiática influencia na criação de uma estética sobre a retratação da violência social.

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Segundo Jaguaribe o choque do real pode ser entendido como a tentativa de provocar um efeito catártico no espectador ou leitor. Portanto a principal finalidade dessa estratégia é criar um incômodo, provocar espanto, atiçar a denuncia social e aguçar o sentimento crítico. Um aspecto importante é que o impacto não é necessariamente extraordinário, mas é exacerbado e intensificado. O real, por sua vez é como uma releitura ou uma representação do fato ao que Jaguaribe define: “o real é a existência de um mundo que independem de nós, a realidade social, em contraste, é uma fatia do real que foi culturalmente engendrada, processada e fabricada por uma variedade de discursos, perspectivas dialógicas e pontos de vista contraditórios”.

O conceito do choque do real e sua finalidade ajuda-nos a entender sua presença nos diversos meios de comunicação de massa (como a reportagem jornalística, o fotojornalismo e o cinema). As narrativas fílmicas (inclusive nos documentários) atendem ao que a autora chama de usar a verossimilhança e intensificação do real. Para ela, é comum observar a organização da narrativa para lhe dar mais fluxo e continuidade.

É importante ressaltar aqui uma observação realizada por Bill Nichols em referência aos documentários. Segundo Nichols o documentário se apoia muito menos na continuidade para dar credibilidade ao mundo a que se refere do que o filme de ficção. Percebe-se que muitas produções estão debruçadas sobre o que ele chama de montagem de evidência: “Em vez de organizar os cortes para dar a sensação de tempo e espaço únicos, unificados em que seguimos as ações dos personagens principais, a montagem de evidencia organiza-os dentro da cena de modo que se dê a impressão de um argumento único, convincente e sustentado por uma lógica”

Ônibus 174:

O sequestro ao ônibus 174 ocorreu em 12 de Junho de 2000 no bairro Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Sandro do Nascimento (então com 22 anos) invadiu o ônibus com um revolver calibre 38 com o objetivo de assaltar os passageiros. Impedido pela polícia militar, Sandro inicia um sequestro que duraria cinco horas. Toda a ação foi acompanhada e amplamente divulgada pela mídia. Dois anos depois, o episódio que marcou o povo brasileiro, foi tema para o documentário dirigido por José Padilha e Felipe Lacerda.

ônibus 174O documentário se propõe a recontar o caso através de entrevistas com os passageiros, com a polícia e com a imprensa. A produção também busca oferecer uma explicação para o episódio através de um estudo biográfico de Sandro (nele, por exemplo, temos conhecimento de que Sandro é um sobrevivente do Massacre da Candelária, que sua mãe foi assassinada quando ele ainda era muito pequeno e que sua condição marginalizada o levou a inúmeras prisões).

Sandro nasceu em 1978 e foi criado pela mãe até os seis anos (quando ela, grávida, foi assassinada na sua frente). Adotou o apelido de ‘Mancha’ e passou a ser morador de rua (viciou-se em drogas, nunca aprendeu a ler ou escrever e Sequestro onibus 174teve inúmeras passagens em instituições de jovens delinquentes).  Seus únicos contatos familiares (com forte alusão a figura materna) foram: sua tia Julieta, a assistente social Yvone Bezerra e a mãe Dona Elza da Silva. O sequestro ao ônibus 174 ocorreu em Junho. Sandro fez 11 pessoas de reféns. Após o sequestro (que resultou na morte da estudante Geisa), Sandro foi imobilizado pela Polícia e morreu asfixiado na viatura.

Há muitos aspectos que chamam atenção sobre o caso do ônibus 174 e Jaguaribe sabiamente destaca um deles: “o revelador e o inusitado do sequestro ao ônibus não é a trajetória terrível de Sandro. Não é a morte absurda da jovem Geisa, nem a espantosa incompetência da polícia e das autoridades, nem mesmo a condição execrável das prisões no Brasil. O que marca singularmente o episódio é a sua completa visibilidade midiática que fez com que esses terríveis ingredientes ganhassem projeção diante as câmeras”.

O documentário e o filme sobre o caso 174 adéquam-se ao que a autora chama de tradição do naturalismo e brutalismo, afinal, contam a história do “realismo sujo das ruas”, retratam a violência em situações limites e ilustram a precariedade e marginalização das classes mais baixas. É interessante observar que a mídia visual possui mais força do que a escrita – comprovado no que presenciamos com o sequestro: o espetáculo, a abundância de informações e uma incansável repetição. O que nos leva a questionar a função da mídia nesses acontecimentos… Apesar de romper com a causalidade e oferecer uma experiência intensa ao espectador (principalmente através da tragédia) o choque é silenciado pela banalidade.

Para a autora, a atitude blasé se justifica pelo medo. As pessoas, embora atentas ao entretenimento, temem que esse choque seja transferido para sua particularidade.  Todo esse cenário funciona como um efeito cíclico, o espectador tem medo, mas procura tais emoções para revitalizar seu cotidiano entediante, a mídia por outro lado, cria o imaginário do risco e depende da circulação da narrativa sobre a violência. Ou seja, o contado do espectador com a metrópole, resume-se em voyeurismo.

onibus-174“O boom de biografias, livros de reportagem, documentários, filmes e narrativas realistas não é uma novidade para o público brasileiro, mas o que marca a produção recente é o forte apelo ao retrato da realidade em fase da violência urbana.”

A atitude blasé é muito bem ilustrada através do documentário sobre o ônibus 174 na entrevista com o sociólogo Luís Eduardo Soares:

“Esse Sandro é um exemplo dos meninos invisíveis que eventualmente emergem e tomam a cena e nos confrontam com a sua violência que é um grito desesperado e impotente. A nossa incapacidade de lhe dar com nossos dramas: com a exclusão social, com o racismo. Nos aprendemos a viver tranquilamente com os Sandros, com as tragédias e com os filhos das tragédias. Isso se converteu em parte do nosso cotidiano. A grande luta desses meninos é contra a invisibilidade. Nos não somos ninguém e nada se alguém não nos olha e nos reconhece, nos dá valor, não preza nossa existência, não devolve a nos a nossa imagem ungida de algum brilho, de alguma vitalidade ou reconhecimento. Esses meninos (de rua) estão famintos de existência social. Um menino negro, pobre, transita invisível pelas ruas brasileiras. Há duas maneiras de se produzir invisibilidade: esse menino é invisível porque nós não o vemos, nos negligenciamos a sua presença. Ou porque projetamos sobre ele um estigma, uma caricatura, um preconceito  .”

Para Beatriz Jaguaribe é importante observar que apesar dessa falta de atitude dos espectadores e cidadãos não há uma divisória rígida nem uma cultura do apartheid. Distintas realidades entram em conflito na metrópole, são confrontos acirradamente desiguais, violentamente injustas, altamente discriminatórias quanto ao gênero, raça e cor. Há uma troca, uma hibridação contínua de símbolos e culturas.

It’s a man’s world

O título da publicação é sugestivo mas refere-se ao filme que vi na semana passada com a Dianne Wiest e Whoopi Goldberg. “O sócio” (1996, dirigido por Donald Petrie ) é uma adaptação da produção francesa de 1979, “L’Associé” que conta a história de Laurel Ayres, uma mulher imagesnegra especialista em mercado financeiro que apesar do talento, não consegue ascender na carreira. Depois de perder um cargo importante para um colega golpista e menos competente que ela, Laurel pede demissão e decide abrir uma empresa e para isso, recebe ajuda de Sally (Wiest), uma super secretária.  Mesmo com tanto talento e dedicação, Laurel não consegue encontrar um sócio para sua empresa (primeiro porque ela é mulher e segundo porque é negra). A empresária então, decide inventar um sócio (um homem, mais velho e branco) que lhe garante visibilidade aos negócios, mas que lhe traz sérios problemas.

Há dois aspectos que me chamaram atenção logo no início do filme. A música ‘It’s a man’s world, criada e mundialmente conhecida na voz do James Brown é cantada por uma mulher. Outro ponto interessante é que o trabalho gráfico da abertura é uma referência aos monitores de computador de fósforo verde. É engraçado ver todo aquele aparelhamento, que provavelmente na época eram de última geração e que hoje estão totalmente ultrapassados. Os computadores ainda tinham aquelas letrinhas verdes subindo pela tela e os celulares eram enormes.

 DiannewiestO filme é leve e carrega alguns clichês, mas nada que comprometa o efeito surpresa da trama. Logo no início, acompanhamos o desgaste que Laurel enfrenta para conseguir um acordo com sócios importantes da empresa para a qual trabalha. Ironicamente, seu colega de trabalho, burla as regras e leva o mérito de ter conseguido novos parceiros. Há uma conversa interessante que acontece quando Laurel vai atrás dele e pergunta qual foi o motivo de tê-la passado para trás. Ele então responde: “Você nunca seria vice-presidente e sabe muito bem porque”. É nesse momento que Laurel se demite da empresa e resolve abrir seu próprio negócio. Outro aspecto interessante é que, desde a primeira cena, Sally está presente na tela. No entanto, sua figura é tão secundária que ela aparece de relance, com poucas falas, arrumando as mesas ou a gravata do chefe. Ninguém lhe dá o devido valor ali, nem mesmo Laurel.

Laurel abre a empresa e encontra conflitos usuais. Ninguém quer ser seu sócio, independente da sua capacidade. Tudo porque ela não possui nome, ou seja, não é conhecida na área. Inesperadamente, Laurel recebe uma visita de Sally. Ela tenta fingir que está tudo sobre controle, mas Sally logo percebe o problema da colega. Ainda descrente que Sally poderia ajudá-la, Laurel pede que Sally vá embora. A secretária então diz: “O feminismo ainda não chegou em Wall Street”. Sally liga para uma amiga, a secretária de um importante empresário e consegue marcar um horário para Laurel com ele. Só então Laurel percebe o valor da doce secretária e então a convida para trabalhar com ela.

o sócioOutra passagem que eu gosto muito no filme acontece quando Laurel chega em casa devastada pelo insucesso da primeira tentativa da empresa. Sua vizinha bate em sua porta e pergunta: “Você tem sua carreira, mas quando chega em casa o que tem?” e Laurel responde: eu tenho Independência. Mas para isso ela teve que mentir: teve que dizer que sua empresa também é administrada por um homem (que não existe) chamado “Cuty”. Sua credibilidade agora depende dele e ela passa a burlar os encontros, fingindo que o Senhor Cuty está viajando ou que ele tem pavor de ser visto publicamente. Enquanto acompanhamos o crescimento da sua empresa, o colega de Laurel (aquele que a passou para trás) começa a enfrentar problemas no serviço. Na teoria ele é um ótimo especialista, mas na prática, não dá conta.

Como todo bom filme de comédia dos anos 90, O Sócio tem lá seus clichês. O primeiro e inevitável é a secretária gostosa que dorme com os homens por interesse. “Querem levar a gente pra cama e essa é a nossa força”.  O outro é a jornalista interesseira e irresponsável que não mede esforços para conseguir uma entrevista com o senhor Cuty. “Para escrever sobre a Laurel, a imprensa precisa conhecer o Cuty”

WhoopidiannewiestLaurel faz de tudo para esconder a inexistência do Cuty, mas a situação fica da vez mais insustentável. Ela descobre que Sally já sabia que Cuty era uma invenção e então conta com a sua ajuda para forjar a morte do sócio. As duas (em uma cena divertida e surreal) colocam uma caveira de mentira em um carro com um explosivo. O feitiço acaba virando contra o feiticeiro e elas são acusadas de matá-lo.

Brilhantemente, para fugir das acusações, Laurel resolve dar vida a Cuty e se traveste de um homem branco. Sem duvidas, seu surgimento é um dos momentos mais agradáveis da trama. Há uma premiação que acontece em um clube onde só é permitida a entrada de homens. Laurel entra no clube, mas ninguém a reconhece. O grande vencedor do premio é o Senhor Cuty e ela, sem pensar duas vezes, vai recebê-lo. Já no inicio do discurso ela diz uma frase que me agrada muito: “O termo exclusivo significa excluir”. Outra coisa que eu gosto muito é que no bar, todos os garçons são negros e são eles que começam a aplaudi-la.

Ficha técnica:

O Sócio / The Associate
Direção: Donald Petrie
Elenco: Whoopi Goldberg, Dianne Wiest e Eli Wallach
Gênero: Comédia
Duração: 108 min.

Whoppi Goldberg totalmente travestida e irreconhecível como Cuty,
Whoppi Goldberg totalmente travestida e irreconhecível como Cuty,