Dias melhores virão

dias-melhores-virao-291Infelizmente não estou familiarizada com produções nacionais da década de 80. Há aspectos técnicos e contextuais que desconheço. Ainda assim, gostaria de comentar um pouco sobre o filme que revi na noite passada e que como sei, foi importante para o fortalecimento da identidade do cinema brasileiro.

“Dias melhores virão”, de 1989, é um filme dirigido por Cacá Dieguez – que traz Marília Pêra, José Wilker, Lília Cabral, Zezé Motta, Rita Lee e Paulo José no elenco. Na história, acompanhamos o cotidiano de Marynalva Matos (Pêra), uma dubladora que sonha em ser atriz de Hollywood. Apesar dos figurinos vibrantes e de uma aparente alegria, Marynalva ou Mary, como prefere ser chamada, é uma mulher marcada por uma vida solitária e infeliz.

Mary transfere seus profundos desejos (e fantasias) para os personagens e para as histórias dos filmes americanos que dubla. Como cortina, conhecemos os pequenos dramas dos colegas (também dubladores) que trabalham com Marinalva, entre eles Dalila (Zezé Motta), uma mulher negra que mora um senhor de idade maluco e que, ao contrário da personagem principal, é extremamente realística.

País vagabundo, povo fodido:

Dias melhores virãoPeço desculpas pelo subtítulo, mas é que não consegui pensar em outro mais adequado. “Dias melhores virão”, apesar de ser extremamente caricato, carrega consigo o que o brasileiro sentia no início dos anos 90 (e que de alguma forma, ainda sente). Marynalva é pobre, vive no subúrbio, toma sua cervejinha no final de semana e vive como amante de um homem, que nunca abandonará a mulher para ficar com ela. Para Marynalva, não há nada mais bonito do que a língua inglesa e seu sonho, é igualar-se à estrelas do cinema americano. Aliás, Marynalva não é nome de estrela, por isso, ela troca decide mudá-lo para Mary Matos.

Sua vizinha Dalila é negra, pobre e trabalha duro para conseguir sobreviver (ela brinca várias vezes que não pode ser vista pela polícia conversando com um branco porque será confundida com bandido). Sua outra colega trabalha vendendo rendas para ter umDias melhores virão Rita Lee dinheiro extra no final do mês. Pompeu (Paulo José) é um cineasta sem sucesso que nunca conseguiu verba para realizar um filme.

Como todo mundo sabe, a autoestima do brasileiro estava baixa, não tinha dinheiro, nem confiança e tudo que era vinha do estrangeiro, era melhor. O próprio titulo do longa é muito sugestivo: ‘Dias melhores virão’, uma síntese do próprio país (um país do futuro, uma promessa – que nunca se concretiza).

A trama inicia-se com a chegada de um rolo de filme americano muito aguardado pelos personagens. Através de um flashback, entendemos porque aquele filme é tão esperado. Voltamos então no tempo e conhecemos a história de Marynalva que já no primeiro dia de trabalho, mostra-se encantada com o seriado pelo qual foi contratada para dublar. Na tela, uma Rita Lee quase irreconhecível, falando em inglês é apresentada como uma atriz que estrela uma série americana (ao estilo I Love Lucy).

Gosto especialmente da interpretação de Zezé Motta, que me passa uma honestidade muito grande e que se contrapõe a excentricidade de Marília Pêra. (não que essa excentricidade seja ruim). Na trama, Dalila recebe inúmeras cartas de um gringo que se apaixonou por ela quando esteve no Brasil durante o carnaval. Ele a pede em casamento e sugere que ela vá morar com ele no México. Como Dalila não fala inglês é Marynalva que traduz todas as suas cartas. A decepção de Marynalva a ver o sucesso da vida amorosa da amiga é evidente (e paradoxalmente engraçada).

A vida amorosa de Marynalva foi um desastre desde muito cedo. A personagem vive assombrada pela imagem de Gabriel, seu primeiro namorado. Ela conta a história que quando tinha dezesseis anos, os dois saíram de um baile e após uma boa transa, Gabriel queria se exibir para ela em sua moto. O rapaz não viu o caminhão de lixo se aproximar, sofreu um acidente e morreu na hora.  Marynalva se afogou em um mundo depressivo e decidiu não sair mais do apartamento, vivia lendo revistas e vendo TV.

Pompeu se apaixona imediatamente por Marynalva e divide com ela todos os seus sonhos. Ironicamente, Marynalva não nutre o mesmo amor por ele e o usa para espionar o amante.

Deboche e Plasticidade:

Há uma cena muito divertida em que Mary chega em casa, depois de um dia de trabalho, liga a TV e começa a assistir uma entrevista do Daniel Filho, falando sobre a situação do cinema brasileiro. A personagem observa um pouco a tela e depois faz uma careta, debochando das nossas produções. E não é que somos nós? De alguma forma, descrentes no cinema nacional?

Marilia pERAO longa é todo muito plastificado o que evidencia uma intencionalidade, exemplo é que quando Mary caminha para chegar em casa, é usual o surgimento de um morador de rua ou de um bandido (todos, negros mas pouco convencionais). Outra coisa interessante é que apenas Mary usa perucas, roupas exageradas e de cores fortes, portanto é o quesito identificador de sua excentricidade, afinal, diferente dos outros, Mary é um personagem absolutamente lúdico.

Mary é uma doce referencia a Carmen Miranda, uma atriz/cantora que conseguiu fazer sucesso em Hollywood. E qual é vantagem? ‘Ela ganha em dólar, responderia um dos personagens. Mas também tem que fazer todas as vontades do estudo. –E daí, se ganha em dólar? (*Marynalva consegue chegar nos EUA e fazer sucesso, mas sua personagem é uma empregada, porque é esse o lugar que Hollywood nos reserva).

Aurora: Aurora Miranda aparece pouco no filme, mas não passa despercebida. Aquela participação na trama, uma sutil homenagem a sua carreira e a carreira da irmã, Carmen Miranda é também um trabalho metalinguístico. O personagem é bastante caricato, não se sabe muito bem o que ela faz ali, às vezes ela aparece cantando, outras, dublando. Independentemente, a história de Aurora se Aurora Miranda em Dias Melhores Virão mistura com a de Carmen, com a de Marynalva e com a de tantas outras mulheres que um dia nutriram o sonho de ir para Hollywood. Como se sabe, Aurora também foi cantora e ao lado da irmã, gravou inúmeros sucessos. Pouco tempo depois que Carmen foi para Hollywood, Aurora seguiu seu passos. Moraram juntas em uma mansão em Beverly Hills. Enquanto a carreira de Carmen decolava, a de Aurora afundava. Ela decidiu se dedicar inteiramente a família e aos filhos e parou de cantar ou gravar discos. Ruy Castro conta na biografia de Carmen, que Aurora não se dava muito bem com David Sebastian (marido de Carmen) e por isso, decidiu voltar ao Brasil com os filhos. Quando chegou, teve um choque cultural grande, estava acostumada com as ruas limpas da América, com a beleza e com a vida boa. Quis voltar, mas já não tinha jeito. Aurora também tentou recomeçar a cantar no Brasil, mas suas músicas já tinham ‘saído de moda.

Escada para protagonista

Dianne wiest Ontem encontrei um site americano dedicado ao trabalho teatral da Dianne Wiest. Há inúmeras entrevistas e críticas jornalísticas disponíveis onde ela fala sobre aspectos da carreira e da vida particular. Encontrei também no Google Books um livro escrito por Rosemarie Tichler e Barry Jay Kaplan “Actors at Work’, onde ela fala como decidiu seguir a carreira e quais foram os seus melhores desempenhos. Em um dos artigos do site, bastante descritivo aliás, Wiest comenta sobre Helen Sinclair, personagem que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1995. A jornalista descreve o enorme apartamento de Dianne no Upper West Side em NY e conta que a atriz apareceu para a entrevista com o cabelo escuro, estilo anos 30. Com seu marcante tom de voz, Dianne conta para a entrevistadora que pensou em desistir do papel (escrito por Woody Allen, especialmente para ela), por que não conseguia fazer o que ele exigia: falar alto. Ela reuniu-se com Allen e disse que não se importaria se fosse dispensada. Ele então insistiu docemente e disse que nenhuma faria aquele papel se não fosse ela.

A entrevista foi realizada pouco tempo depois que Dianne ganhou o Oscar e pela quantidade de matérias disponíveis  no site (realizadas na época) fica muito claro o assédio que o ator sofre depois que ganha um prêmio desses. Dentre inúmeras coisas, Wiest disse foi bailarina até os 19 anos, quando decidiu se tornar atriz. Ela já havia feito alguns trabalhos no teatro, mas foi exatamente Woody Allen que trouxe visibilidade para sua carreira já que ele a escalou para A Rosa Púrpura do Cairo, seu primeiro trabalho no cinema. Gosto especialmente o que ela revela sobre Tiros da Brodway pois há uma admiração muito grande em suas palavras.

Para ela, Helen Sinclair foi um desafio inigualável: tanto de entonação, quanto corporal. Ela brinca que o beijo de John Cusack é muito bom, apesar de estranhar sua pouca idade.Wiest estava com 47 anos e Cusack com 28. Ela revelou que Allen intencionalmente a fez parecer mais velha na trama, para evidenciar a diferença de idade entre os personagens.  Cusack mais tarde afirmou que sempre achou Dianne Wiest belíssima e atraente, portanto, não teve nenhum problema em beijá-la. Ele chegou a brincar que nada se iguala ao beijo em que deu em Anjélica Huston em Os Imorais (filme em que ela interpretava sua mãe e, depois do beijo, cortava sua garganta). Dianne então conta que a entonação que usava no filme quase estouravam os microfones, era como transpor o teatro para um pequeno cenário.

Dianne Wiest e Woody Allen

A jornalista então pergunta sobre planos futuros e ela diz que não há nada em mente além de ser mãe em tempo integral. Dianne, na época, viva com suas duas filhas (uma de sete e outra de três anos) e dizia que tudo mudara depois de tê-las adotado. A jornalista a chama de mãe solteira e Wiest reforça que essa foi a melhor escolha da sua vida. Na entrevista, a atriz reflete sobre um ponto que me chamou atenção (e que inclusive é ao que se refere o título dessa publicação). Ela dizia que não nutria mais ilusões de receber um trabalho de destaque e que se sentia muito feliz e orgulhosa pelo papel que Hollywood lhe reservara: o de coadjuvante. Para Wiest, na idade em que ela se encontrava, nunca iriam contratá-la para atuar em um filme de ação ou um filme sensual, mas que ela se contentava com isso (e que se sentia grata).

No livro “Actors at Work” há também um belo trabalho descritivo: os autores contam que a aguardavam em um pequeno e chique restaurante de Nova York e que ela chegou perfeitamente na hora marcada. A atriz sentou-se em uma enorme mesa preta e logo foi contando que havia se acidentado no set de filmagens do filme “Dedication”, de 2007, onde ela fazia o papel da mãe da atriz Mandy Moore. Dianne aceitou as uvas que o garçom lhe oferecera e disse que só iria comer depois da entrevista. Ela também se desculpou inúmeras vezes por não ser muito boa em dar entrevistas.

No decorrer da conversa, Dianne conta como começou a trabalhar em Law & Order e porque decidiu sair. Dianne participou de 48 episódios entre 2000 e 2001 onde fazia o papel de Nora Lewin, uma promotora de justiça. Ela dizia que aceitou o convite de Dick Wolf sem saber exatamente onde estava se metendo. O início do trabalho já foi desestimulante pois ninguém lhe explicou direito qual a origem do personagem, suas motivações: tudo era automatizado e repetitivo. Em um episódio a promotora decide sentenciar um menor de idade a pena de morte. Dianne negou filmar essa cena porque sabia do peso de uma narrativa como aquela, sendo transmitida para milhões de pessoas. Ela também afirmou que chegaram a dizer que ela tinha um caso com Samuel Waterston e que dentre vários murmúrios, diziam que ela estava sendo beneficiada por ser amante do ator. Decidiu então, largar o programa.

Os autores voltam a lhe fazer uma pergunta recorrente: o que ela sente quando lhe chamam de atriz coadjuvante. Dianne brinca que nunca foi sexualmente atraente. O autor a corrige e diz: “você não é uma Marilyn Monroe, mas é muito bonita”. Ela então volta a comentar que essa pretensão de ser destaque já saiu de sua mente faz tempo. Hoje Dianne pode escolher onde, como e com quem quer atuar e esse, sem dúvidas, é um beneficio de poucos.

Em suma, o que me levou a escrever essa publicação é que desde que comecei a acompanhar o trabalho de Wiest, fiquei inquieta ao perceber o quanto ela foi deixada de lado. O único filme em que me lembro de vê-la como protagonista foi “Obrigada, Doutor Rey” de 2002, ainda assim dificílimo de achar (e pouco divulgado). O fato de ser coadjuvante não a incomoda o que de alguma forma, é um alívio. Acho que uma atriz com um repertório como o dela, não pode (de jeito nenhum) cair no esquecimento.

O destino de uma vida

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O Destino de uma vida (Losing Isaiah, 1995) é um daqueles dramalhões que te prendem do início ao fim. O longa conta a história de Khaila (Halle Berry), uma viciada em drogas que abandona o filho em um lixão. Por sorte, o garoto é salvo e vai parar no hospital. Lá, a assistente social Margaret (Jessica Lange) emocionalmente abalada pelo caso, decide adotá-lo. Passam-se dois anos, Khaila se reabilita e descobre que o filho, o pequeno Isaiah está vivo e então, decide recorrer à justiça por sua guarda.

É uma pena que um filme desses não seja tão fácil de encontrar para download na internet. Por sorte, volta e meia, ele é transmitido na TV a cabo pelo Telecine. O time de atores chama atenção (Samuel L. Jackson, David Strathairn, Cuba Gooding Jr.), mas o destaque da trama vai para Marc John Jefferies (o Isaiah) que garante grande parte da doçura do filme. O jovem ator nos envolve desde a primeira cena em que aparece nos ombros do pai adotivo conversando sobre futebol. A intimidade que o pequeno conquistou com os outros atores praticamente transborda pela tela e é impossível não ser cativado.

o fofo do Marc John Jeffries, no papel de Isaiah.
o fofo do Marc John Jeffries, no papel de Isaiah.

Particularmente, gosto muito do trabalho técnico realizado na abertura. A câmera em plongeé mostra toda a cidade de cima e o barulho de sirenes nos dá o indício de que algo está acontecendo. De repente, vemos uma Halle Berry irreconhecível, com o rosto ferido e cabelo desgrenhado, tentando alimentar seu pequeno bebê. A câmera subjetiva aumenta nossa inserção em seu desespero, em sua incontrolável vontade por mais uma dose. Em sua loucura provocada pelo vício, Khalia deixa o pequeno Isaiah no lixo em busca de crack. Na sequencia, o espectador fica com o coração na mão: na tela, vemos a imagem do pequeno bebê, quase sendo amassado pelo caminhão de lixo.

Margaret acompanha de perto o pesadelo vivido por Isaiah. No início tenta se distanciar, mas aos poucos cria uma relação protecionista. Depois de uma longa conversa com o marido e com a filha, decide que irá levar o bebê para casa. Um dia, sua colega de trabalho a adverte: pergunta a Margaret o que ela faria se uma assistente social se envolvesse em um dos seus casos e resolvesse adotar a criança. Sem pestanejar, Margaret responderia que a faria desistir.

Khalia, por outro lado acaba presa por roubar comida em uma loja. Todo o processo de reabilitação inicia-se naquele ambiente hostil que é a prisão. Junto a outras mulheres se vê obrigada a comparecer em sessões de terapia onde revela suas dores mais profundas. Depois de dois anos e já de volta as ruas, Kahlia começa a trabalhar como babá e visita constantemente uma assistente social. Em uma cena belíssima, a assistente pergunta a Kahlia se ela está lendo o livro que lhe foi indicado. Ela faz com que Kahlia leia em voz alta, mas aquela passagem a deixa muito emocionada, Khalia chora com muita dor e finalmente revela que perdeu um filho.

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O processo de adaptação de Isaiah à família de Margaret não é tão fácil. Em consequência as drogas que a mãe utilizava, Isaiah também ficou viciado. Conforme é informado no longa, o garoto possui grande irritabilidade e déficit de atenção. Ele exige de Margaret dedicação ‘full time o que prejudica sua relação com Hannah, a filha mais velha. Em uma apresentação escolar de Hannah, Isaiah tem um crise e Margaret precisa de ausentar. Hannah fica chateada e reclama por não conseguir se aproximar da mãe.

Nesse meio tempo, a assistente social informa a Khalia que seu filho está vivo e que se ela realmente está interessada em tê-lo de volta, algumas mudanças terão que acontecer. Khalia arruma um novo emprego, aluga uma casa, melhora a aparência e se diz pronta para uma batalha. Quando Margaret e o marido são informados de que a mãe biologia de Isaiah quer sua guarda, há uma comoção muito grande. Margaret insiste que como assistente social, seguiu todos os procedimentos corretos a procurou por algum tempo, mas não teve resposta.

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Uma mãe negra, uma mãe branca:

A luta entre as duas mães rapidamente tornou-se uma briga racial. O maquiavélico advogado de Khalia (brilhantemente interpretado por Samuel L. Jackson), pergunta a Margareth se Isaiah possui algum brinquedo da sua cor: É claro que sim, ela responde, e também possui bonecos azuis, verdes e alaranjados. Ele então retruca: E com qual dele a criança irá se identificar, como o Muppet amarelo? Em outro momento, ele pergunta ao marido de Margareth com que frequência eles recebem negros para jantar ou se por acaso, possuem amigos negros. Ele responde: O pediatra de Isaiah é negro. O advogado então pergunta: E você o convida para a sua casa? Ainda em outro momento, o advogado pergunta quais livros Margaret lê para Isaiah e se em algum deles, o herói é negro.E ela responde que nunca leu um livro para ele onde o heroi fosse de fato, negro.

Para Khalia, Isaiah precisa conviver com outros negros para aprender a se defender. Ela insiste em colocá-lo em uma escola junto a outras crianças negras e exige que ele vá viver com ela. Segundo sua percepção, viver com uma mulher branca não faria Isaiah perceber a sua ‘condição racial. Nem conhecer historicamente sua raça. No banheiro do tribunal, as duas mães acabam se esbarrando e o diálogo entre as duas ilustra perfeitamente o tom dessa discussão tão complexa. Khalia diz que Isaiah não é como um cachorrinho de estimação que pode ser adestrado. Margaret retruca: eu não sei o que há de errado com o seu povo. “Com o meu povo?” Khalia pergunta.

Brincando no banheiro, Hannah e Isaiah dão as mãos. Um sobreposta a outra evidenciando a diferença entre as cores, Hannah pergunta: ‘O que há de diferente entre as nossas mãos? E Isaiah responde: a sua é maior do que a minha.

losing isaiahO rei Salomão e as duas mães

Há uma história religiosa sobre o caso do Rei Salomão e duas mulheres. O rei pediu sabedoria e humildade a Deus para poder discernir entre o bem e o mal. Deus então lhe garantiu que o faria, sem lhe dizer quando ou como. Um dia, duas mulheres se aproximaram dele e colocaram-se a discutir. As duas moravam na mesma casa e tiveram um filho praticamente no mesmo dia. No entanto, uma delas acabou adormecendo e deitou-se sobre a criança que faleceu. A outra criança continuava viva, mas não se sabia quem era a mãe. Uma afirmava que durante a madrugada, a outra trocou os bebês. A outra, por outro lado, disse que sua criança era a que estava viva e que toda aquela história era mentira. O rei Salomão então disse: Tragam-me uma espada e dividam a criança ao meio. A primeira mulher disse: – Ah, senhor meu! Dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis. A outra, porém dizia: Nem meu, nem teu. Seja dividido!

Então respondeu o rei: Dai à primeira o menino vivo. De modo nenhum o mateis; esta é sua mãe.

“O destino de uma vida coloca” em jogo questões sociais complexas, mas evidencia o papel de um sentimento fundamental para uma relação familiar. Margaret questiona: Estamos falando de negros e brancos, mas e sobre o amor?

De fato, o tribunal se prendeu a uma discussão importante mas não fundamental: onde Isaiah encontraria o verdadeiro amor? Qual das duas iria lhe amar de verdade? O fato de Khaila tê-lo abandonado e depois se arrependido, significaria que ela não o amasse? Levamos para casa e para a vida esses questionamentos.

Três filmes do cinema brasileiro, difíceis de engolir.

Tenho andado com muito azar quando se trata de cinema brasileiro. ´Os últimos três filmes que vi são de um desastre tão grande que fiquei me perguntando por que eu fui perder meu tempo. Já me meti em inúmeras discussões com pessoas que adoram afirmar que o cinema nacional é ruim e que só tem putaria. É assim mesmo que muitos pensam, não adianta. Mas como explicar esse sucesso de público? De alguma forma os brasileiros querem se ver retratados na telona. Não como personagens caricatos (nem do jeito que o cinema hollywoodiano injustamente insiste em fazer). O brasileiro vai a sala de cinema para ver sua cultura, seus problemas, sua realidade. Ele quer ver na telona uma representação da sua sociedade, da sua língua, afinal o cinema é também instrumento de identificação cultural, por isso tão importante.

As ultimas três produções que vi são bastante questionáveis (uma delas, inclusive, recebeu grande aceitação do público). São filmes que de alguma forma, cedem aos padrões estéticos americanos e fortalecem antigas estigmas que taxam o brasileiro. Todos os três estão fora do circuito alternativo, são produções popularescas e bastante enganadores (principalmente porque são muito convidativas). Mas isso não importa, comédia boa (sendo alternativa ou não) é aquela que te faz rir, que abusa da ironia e do sarcasmo sem perder a mão.

grazi massaferaO primeiro dos três filmes que vi foi Billi Pig, produção de 2012, dirigida por José Eduardo Belmonte. Billi Pig já engana pelo elenco (Selton Mello, Cássia Kiss, Milton Gonçalves e Zezé Barbosa) logo depois, te decepciona pela construção do roteiro e pela sequência duvidosa. Classificado como uma chanchada misturada com screwball comedy, a produção conta a história de Wanderley, um corretor de seguros falido que tenta ajudar sua mulher Marivalda(Grazi Massafera) a realizar o seu sonho de ser atriz. Não fosse só por isso, Marivalda possui um porquinho de pelúcia que cria vida e começa a interferir no cotidiano dos dois. Contexto completamente desconexo, diálogos sem graça, falhas de continuidade. Enfim, um filme triste de assistir.

Logo a primeira cena é bastante confusa: Marivalda aparece com um falso Oscar na mão, cercada de índios macumbeiros que a induzem a sacrificar o pequeno porco falante. Trata-se do sonho da personagem que vive uma perseguição insana pela fama. Ela e o marido se juntam a um falso padre e tentam ajudar a filha de um traficante poderoso. Grazi Massafera aparece com um sotaque terrível e Selton Mello com frases previsíveis e repetitivas.Perde-se muito tempo com histórias paralelas e há um dificil desenvolvimento da história (com vários personagens desaproveitados e sem ligação com a idéia central).

Totalmente Inocentes , filme de 2012 e dirigido por Rodrigo Bittencourt é também um daqueles que promete mas não cumpre. A intenção é boa, a concepção é interessante, mas na prática não dá certo. O enredo conta a história de três garotos (Bracinho, Torrado e Da Fé) que querem dominar o morro para impressionar a menina mais bonita da favela: Gildinha (Mariana Rios). O problema é que o lugar já é liderado por ‘Do Morro (Fábio Porchat) que também está interessado por ela. Ainda na trama, acompanhamos a história do jornalista Wanderlely (Fábio Assunção), um homem atrapalhado que corre o risco de perder o emprego se não conseguir um furo.

totalmente inocentesPercebe-se desde o início que o filme não tem grandes pretensões É uma comédia leve com poucos diálogos interessantes e com bons atores. Mas é um filme sem foco, que se perde diversas vezes e que peca por reunir tantos personagens estereotipados de uma vez só. Uma moça honesta e bonita que mora na favela, um traficante mau com uma história triste, uma lésbica extremamente masculinizada, um dono de uma pastelaria mão de vaca, um jornalista de má índole (e por aí vai). Sem contar que ainda temos a irritante presença de Filipe Neto, totalmente deslocado e inconveniente. (Gosto do Filipe Neto, mas ele foi mal aproveitado. Neto aparece com um narrador que reforça repetidas vezes o que o espectador já viu e compreendeu).

Totalmente Inocente é uma paródia do Tropa de Elite e do filme Cidade de Deus e, de alguma forma é uma homenagem aos ‘favelas movies. O destaque vai para Kiko Mascarenhas no papel da Diaba Loura, engraçado e totalmente transvestido, ele faz o filme valer a pena. Porchat também está muito bom, mas não em seu melhor momento: Porta dos Fundos é a comprovaçã básica de que ele sabe fazer humor de uma forma melhor (beeeem melhor).

vai-que-da-certo-460O terceiro filme tem um ‘mérito’ que os outros não tem: é um sucesso de publico e de crítica. Vai que dá certo, produção de 2013, dirigido por Maurício Farias, tem a cara da Globo, aliás, é uma produção da Globo Filmes (e talvez por isso, carregue a mesma plasticidade da TV). A história: Cinco amigos de adolescência se reencontram e percebem que não alcançaram o sucesso planejado, então decidem assaltar uma transportadora de valores. O elenco é bom (Bruno Mazzeo, Danton Mello, Fábio Porchat, Felipe Abib, Gregório Duvivier, Lúcio Mauro Filho e Natália Lage), a história é interessante, mas o filme fica no meio caminho entre o ‘mais ou menos’ e o razoável.

Fico decepcionada quando bons atores não podem aproveitar seu potencial. Exemplo disso é Gregório Duvivier que no filme, interpreta um rapaz bobo, que só se interessa por videogame. Ironicamente, ele é um dos personagens mais engraçados do filme, graças é claro, a Duvivier. A trama tem várias reviravoltas mas te deixa desestimulado. Esse é um filme para passar o tempo e para ver uma só vez.

Com uma forte publicidade e distribuição, Vai que dá certo insipira-se em um sucesso americano: Se beber não case. A produção foi contextualizada para o Brasil, mas os mesmos dispositivos narrativos podem ser encontrados. O personagem de Duvivier, por exemplo, assemelha-se muito ao que Zach Galifianankis faz com o personagem Alan: se envolve em problemas que atrapalham os planos dos amigos.

Personagens superficiais, produção comercial escancarada. Aliás, os atores do Porta dos Fundos é um chamativo. Na trama, os dois possuem papéis pequenos e apesar de coadjuvantes, roubam a cena.

Dolores Claiborne

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Dolores é um nome que vem do latim e significa dor/lamentações. Foi esse que Stephen King escolheu para o personagem vivido por Kathy Bates em “Eclipse total”, filme de 1995, dirigido por Taylor Hackford. King ficou tão impressionado com a atuação de Kathy Bates em “Louca Obsessão”, que escreveu o livro tendo a atriz em mente. Não há como uma obra dessa profundidade dramática passar despercebida. O filme traz um forte time de atores (entre eles: Jennifer Jason Leigh, Judy Parfitt e Christopher Plummer) envolvidos em uma trama muito bem elaborada e de uma destreza técnica admirável.

Dolores Claiborne é uma empregada doméstica que trabalha para Vera Donovan (uma senhora extremamente rica e detestável). Um dia, Vera é encontrada morta na escada de casa e Dolores é considerada a principal suspeita. Sua filha, a jornalista Selena Claiborne (Jennifer Jason Leigh), retorna a pequena cidade para tentar ajudar a mãe. O problema é que Dolores já havia se envolvido com um assassinato há quinze anos antes e a volta da filha a cidade traz lembranças e revelações drásticas.

Em princípio, Dolores parece uma mulher detestável, que vive em uma casa suja e escura e está totalmente desnorteada. Selena, por outro lado, não é apenas jovem e bonita: é uma mulher bem sucedida e extremamente equilibrada. Quando as duas se encontram na delegacia (onde Dolores não reconhece a filha, já que não a encontra há anos) a narrativa se inverte. Apesar da velhice e do descuido, Dolores é uma mulher lúcida e sabe perfeitamente os riscos que corre se for julgada culpada pela morte da patroa. Selena, por outro lado mostra um completo desconforto por estar naquele lugar e principalmente, por estar perto da mãe. Dolores-Claiborne

É dentro da casa suja e escura que entendemos todo o passado que assombra Dolores. Suas memórias são confidenciadas aos poucos ao espectador que, de alguma forma, é conquistado por aquela mulher tão sofredora. Através da sua percepção, descobrimos que Dolores apanhava do marido e era constantemente humilhada por ele. Ela relembra que recebeu uma paulada nas costas do homem completamente bêbado. Sua dor física e moral eram tão grandes que Dolores resolveu findar todo aquele pesadelo: prometeu ao marido que se a cena se repetisse, um dos dois morreria.

É também através de suas memórias que entendemos porque ficou tanto tempo exercendo um trabalho exaustivo. Vera, sua patroa, tinha manias que nem mesmo sabia explicar. Dolores precisava lavar os lençóis todos os dias e pendurá-los em um varal distante da casa. Além da limpeza dos móveis e do chão, tinha que dar conta da comida. O mísero dinheiro que juntava seria usado para fugir da cidade com a filha.

Dolores iria fugir no dia do eclipse, em sua percepção, as pessoas estariam distraídas e não iriam sentir sua falta.  Mas algo dá errado e ela se vê presa naquela lugar pelo resto da vida. Ainda resistente, Dolores (que havia perdido o marido recentemente), continua trabalhando para Vera com o objetivo de financiar os estudos da filha, longe daquele lugar.

Dolores Claiborne - Kathy Bates

Eclipse Total não é um filme que se limita a um pequeno suspense sobre assassinatos. É, para além do que nos apresenta inicialmente, um drama sobre dor, solidão, tristeza e arrependimento.  Porque Selena foi embora? Porque ela se sente tão mal perto da mãe?  Conforme Dolores se lembra, Selena foi uma das testemunhas dos maus tratos que sofria do marido. Então, porque sente tanta admiração pelo pai? O filme nos responde a todos esses questionamentos e de maneira sensível, nos mostra como é difícil lidar com um passado obscuro.

Há uma cena belíssima que Selena olha para as mãos machucadas da mãe e pergunta: o que você fez com a sua mão? E Dolores responde: Se você quer saber como é a vida da pessoa, é só olhar para a mão dela.

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O Exótico Hotel Marigold

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Tive uma conversa bastante produtiva com uma colega da faculdade que dizia que tem um medo enorme de envelhecer. Acho engraçado essa predisposição que nos temos de viver ansiosamente imaginando o futuro. Minha colega tem apenas 21 anos e já está pensando na velhice. Obviamente, todos nós paramos um dia da vida para pensar em como estaremos daqui há quarenta anos. O assunto surgiu porque o nosso professor explicava o conceito de âncora que dentre inúmeras coisas, traz uma reflexão sobre como o sujeito contemporâneo experimenta o tempo. Estamos vivendo em um mundo aceleradíssimo e essa nova noção, nos faz ter uma relação distinta com o passado.

Então depois da aula, minha amiga me mostrou um artigo daJudi Dench Elaine Brum chamado “Esses filhos perplexos diante da velhice dos pais” onde a jornalista realiza um belíssimo argumento sobre o surgimento de uma nova relação entre pais e filhos. Para Brum, a frase dos pais na década de 1970 é: “não quero incomodar meus filhos”. Mas a frase dos pais dessa geração é: “Incomodar os meus filhos? Nem me importaria. O que não quero é que os meus filhos me incomodem!”. O artigo é realmente muito bom e ela utiliza quatro filmes recentes sobre a velhice para ilustrar o texto. Um deles, o qual ela classifica como o ‘mais fraco’ é O Exótico Hotel Marigold, dirigido por John Madden. *(Os outros são: E se vivêssemos todos juntos, O quarteto e Amour).

 O Exótico Hotel Marigold conta a história de um grupo de aposentados britânicos que resolvem viajar para a Índia, atraídos pela publicidade de um hotel exótico e barato. Quando chegam no lugar, descobrem que as acomodações luxuosas em que imaginavam ficar estão, na verdade, quase caindo em pedaços. O filme traz a belíssima Judi Dench no papel Evelyn, uma mulher que ficou viúva e descobriu que o marido deixou inúmeras dividas a serem pagas. Ela então vende o apartamento e vai a Índia, para tentar reconstruir a vida. A produção também traz Maggie Smith, no papel de uma mulher rabugenta e preconceituosa que precisa ir a Índia para fazer uma cirurgia no quadril.

Maggie SmithApesar desses dois monstros do cinema inglês, o destaque vai para Tom Wilkinson e para Penelope Wilton. Tom Wilkinson interpreta Graham, um juiz aposentado que vai a Índia para fazer as pazes com o passado e reencontrar o grande amor da sua vida: um indiano com quem se relacionou quando jovem. Os dois foram pegos enquanto transavam. Graham voltou para faculdade sem saber o paradeiro do amante. Passou a conviver diariamente com a culpa, imaginando os terríveis castigos que o companheiro poderia ter sofrido. Penélope, por sua vez, interpreta Jean, uma mulher mal humorada e amargurada com a vida. Jean e o marido (interpretado por Bill Nighy) resolvem viajar para Índia para comemorar o casamento. Ela, no entanto, não se contenta com o local, nem com as pessoas e tenta, de todas as formas, voltar para casa.

Para todos os personagens, mas principalmente para esses dois, há uma mudança brusca na vida: uma ruptura. Enquanto Graham encontra a possibilidade de viver em paz com o passado e com a própria consciência, Penélope se vê diante de uma nova perspectiva de futuro. Há também outros plots interessantes como a história de Sonny (Dev Patel), que tenta manter o hotel, apesar de não ter nenhum talento para administração, ou da história de Sunaina (Tena Desae), que não é aceita pela família do namorado (Sonny).

O filme é de uma delicadeza tamanha e apresenta um aspecto interessante: o choque de culturas. Essa dificuldade que nos temos de encarar outro país, com cores diferentes, cheiros, lugares, crenças e comidas distintas. Quanto a velhice, o filme nos impulsiona a refletir positivamente sobre o nosso futuro. Há uma passagem final da personagem da Judi Dench que eu acho sensacional e tomei a liberdade de reproduzir:

“É nossa culpa achar que somos muito velhos para mudar? Com medo da decepção, para começar novamente? Nos levantamos de manhã e fazemos o que podemos. Nada mais importa. Mas também é certo que a pessoa que não arrisca nada… não faz nada, não tem nada. Só o que sabemos do futuro é que será diferente. Mas, talvez, o que tememos é que ele seja o mesmo. Por isso devemos comemorar as mudanças. Porque, como já disse alguém, no final tudo dá certo. E se não der certo, então, acredite…é porque ainda não chegou no final.”

Sinédoque, Nova York

synecdoche new yorkOntem de madrugada me peguei chorando por um filme sem pé nem cabeça. Hoje de manhã fiz a mesmíssima coisa. Como disse num post anterior, desde que vi “A Estranha vida de Timothy Green” senti uma vontade incontrolável de assistir os filmes da Dianne Wiest. “Sinédoque, Nova York” entrou na lista. Já tinha visto ao trailer e já li inúmeras críticas. Porém o filme foi uma surpresa boa, boa até demais. Me atrevo a dizer que é um dos melhores filmes que eu já vi na vida. Pensei muito sobre o que escreveria sobre ele. Não há uma receita pronta, uma sinopse simples e fechada. Não há uma interpretação exata, uma formula. No grupo de cinema que participo, disseram que Charlie Kaufman fez um filme que te dá sensações diferentes a cada vez que for revisto. Se você o assistir daqui há dois anos, terá uma ideia diferente da mensagem final.

Kaufman é conhecido pelos seus roteiros absurdos e viajados como “Adaptação” e “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Mas esse é o primeiro em que trabalha como diretor. Não fica atrás dos outros. Existe uma polêmica muito grande sobre o longa: no mesmo ano, por exemplo, ganhou o prêmio de melhor e de pior filme. Alguns dizem que é inexpressivo, exagerado. Outros (dos quais eu faço parte), dizem que é uma obra prima. Acontece que o filme tem um forte tom fatalista e Kaufman não economiza nas metáforas (tanto dramáticas, quanto plásticas e ideológicas). Além disso, o roteiro não é linear (na trama se passam quarenta anos e você quase não percebe).  Esse “no-continuum” deixou muitos espectadores perdidos por aí. Eu fui um deles. Me perdi e me encontrei diversas vezes enquanto assistia.

Quero muito falar sobre as impressões que tive sobre o filme, mas antes de tudo, tenho que admitir uma gafe. Quando vi o título, pensei que Sinédoque se referia a uma cidade ou a um estado. Após uma rápida pesquisa, descobri que sinédoque (ou synecdoche, em inglês) é uma figura de linguagem muito parecida com a metonímia. É quando a parte refere-se ao todo. Um exemplo seria: “eu não tenho um teto para dormir”, o teto refere-se à casa. Talvez a sinédoque do filme trata-se justamente da peça de teatro que o personagem principal passa a vida tentando concluir. Talvez a palavra nos impulsione a refletir que aquele mundo ficcional criado pelo personagem é a sinédoque de NY, ou do mundo, ou da vida. Pode ser isso. Pode não ser nada disso.

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Sinédoque, Nova York conta a história de Caden (Philip Seymour Hoffman ) um dramaturgo hipocondríaco casado com a pintora Adele(Catherine Keener) com quem tem uma filha de quatro anos, Olive. Desde o inicio da trama temos indícios de que o casamento não vai bem. Adele aparenta um aspecto cansado e desinteressado diante aos problemas do marido. O cenário (uma casa pequena e escura), ajuda a acentuar o clima de desconforto dos personagens. No dia da estreia da peça de Caden, Adele diz que precisa ficar em casa para terminar suas pinturas. Quando ele chega em casa, entusiasmado com o sucesso de crítica, encontra a mulher e a amiga, Maria, em pleno êxtase após usarem drogas. Os dois visitam uma terapeuta e em uma de suas confissões, Adele afirma que queria que o marido morresse, para que assim pudesse recomeçar a vida,sem se sentir culpada.

Caden é uma figura simpática e é muito claro a sua predisposição em tentar compreender a esposa. No entanto, Adele, totalmente angustiada, decide viajar por uma semana para a Alemanha, levando junto a amiga Maria e a pequena Olive. Inicia-se na trama uma narrativa desconexa. As doenças de Caden começam a sobressair em sua pele, o tempo parece não ser mais o mesmo. Em um dos ensaios da peça, Caden recebe uma “cantada” de Hazel (Samantha Morton), a garota da bilheteria. Apesar das investidas, Caden afirma que é um homem casado e que sua mulher está há uma semana na Alemanha. Ela por sua vez, responde: “preciso lhe comprar um calendário já que ela está na Alemanha há um ano”.

synecdoche_new_york12Caden tenta inúmeras vezes falar com a mulher. Em uma dessas, por telefone, Adele o chama de “Ellen” e por fim, afirma que ficou famosa. Ele então recebe uma inesperada notícia: ganhou um grande prêmio que irá financiar sua próxima obra, não importa o quanto for gasto. Caden encontra um enorme galpão, onde reproduz Nova York e contrata milhares de atores para encenar a peça. Como ele mesmo diz, a peça será sobre morte, sobre a vida, sobre os encontros e sobre os sentimentos. Quanto mais vai produzindo, mais vai sendo imergido por uma tristeza inigualável.

Com um impecável trabalho metalinguístico, Caden contrata atores para encenar figuras do seu cotidiano. Atrás de uma perfeição inatingível, o dramaturgo perde anos de sua vida, tentando montar uma peça que provavelmente não será encenada. Para cada personagem, ele escreve todos os dias, um bilhetinho, onde determina o que deve ser feito. Essa precisão detalhada, confunde-se com seu cotidiano perturbado e infeliz. Ele anda, anda, mas não consegue sair do lugar. Nesse meio tempo, Caden casa-se com Claire (Michelle Williams), uma das atrizes da peça. Desolada, Hazel (a garota da bilheteria) decide abandonar o projeto e se casar com outro homem. O tempo passa, Caden tem outra filha, mas não consegue deixar de se perturbar sobre o paradeiro de Olive.

Caden aguarda o atendimento médico no hospital e folheando umasynecdoche revista, vê uma foto da filha Olive (agora com onze anos) com os braços e grande parte do corpo tatuado de enormes flores vermelhas. Desolado, Caden vai à Alemanha para entender o que está acontecendo com a filha e consegue descobrir qual é o apartamento da ex-mulher.  Ele bate na porta, mas ninguém o atende, até que uma senhora (já muito velhinha) pergunta se ele se chama Helen. Caden responde que sim. A mulher então lhe entrega a chave e diz que Adele pediu que ele (ou ela?) fizesse toda a limpeza.  Caden passa a frequentar a casa e sempre encontra as mesmas condições: o chuveiro ligado, lençóis desarrumados e um vaso sanitário para limpar. Ele também encontra cartas de Adele direcionadas a Helen, onde ela vai lhe contando sobre a vida.

Ao mesmo tempo, o dramaturgo tenta continuar com o seu trabalho e todos os dias vai ao galpão para organizar os ensaios. Desolada, sua atual mulher: Lucy resolve abandoná-lo e passa a namorar com outro homem (um ator que conheceu quando decidiu largar a peça do marido). Ironicamente, Hazel (a garota da bilheteria) que também se casou, teve filhos e se distanciou de Caden, pede para voltar a trabalhar com ele, já que está desempregada. Nesse meio tempo, Caden encontra Olive, sua filha. Olive está morrendo, as tatuagens (feitas por Maria) provocaram sérias infecções em seu corpo. Em uma cena dramática, Olive pede que Caden lhe peça desculpas por tê-la abandonado. Ele diz que nunca a abandonou, quando na verdade, sua mãe, fugiu com Maria para a Alemanha. Ainda assim, Olive insiste que Caden repita a frase: “Me desculpe por abandonar você para manter uma relação homossexual com Eric”. Olive morre e não perdoa o pai.

Hazel passa a atuar como a secretária de Caden. Ela o ajuda a contratar um ator para interpretá-lo e dentre outros personagens, também o ajuda a encontrar uma atriz para interpretar Helen (a mulher da limpeza). Mas o tempo está visivelmente passando para o produtor e para os atores. Mesmo assim, Caden não sabe o que fazer com a peça. Muitos atores morrem, outros abandonam o espetáculo. A própria Hazel acaba falecendo pouco tempo depois, intoxicada pela fumaça da casa onde morava. Caden está definhando, já está velho, cansado, sem cabelos e sem saúde. A atriz que interpreta Helen então sugere: vemos trocar de lugar: eu interpreto Caden e vou dirigindo você, enquanto você interpreta Helen.

Metáforas:

Todo o filme, como disse anteriormente é muito subjetivo. As metáforas, portanto, estão sujeitas a diversas interpretações e pontos de vista. A mais interessante delas é a casa que pega fogo. Ao que tudo indica, Kaufman queria evidenciar que sempre sofremos as consequências dos nossos atos, todas as nossas escolhas condicionam o nosso futuro. Quando Hazel decide morar em uma casa que pega fogo ela sabe que pode morrer intoxicada (e é justamente o que acontece). A metáfora também pode estar ligada ao discurso do padre:” Há um milhão de pequenos textos… anexados a cada escolha que você faz. Você pode destruir sua vida, cada vez que você escolher”

Outro belo momento acontece quando Caden vê a caixa que deu de presente para Olive no lixo e como não consegue lacrimejar, usa um colírio para tentar ilustrar sua dor. Kaufman ironiza a artificialidade do cotidiano, a banalidade com que tratamos nossas dores e decepções mais profundas. Aliás, me lembrei de outra cena interessante: Quando Caden visita Olive (que está morrendo no hospital) ela o obriga a dizer que a abandonou para viver um caso homossexual com um homem chamado ‘Erick’. No final do filme, vemos a empregada Ellen com o marido e dizer que ‘Erick’ a odeia.

Frases Marcantes:

 – Mas enquanto está vivo, você espera em vão, desperdiçando anos por um telefonema ou uma carta ou um olhar de alguém ou alguma coisa para fazer tudo certo. E isso nunca vem… ou parece vir mas não vem realmente. Então você passa seu tempo em vago arrependimento… ou vaga esperança que alguma coisa boa virá adiante. Algo para fazer você se sentir conectado. Algo para fazer você se sentir inteiro. Algo para fazer você se sentir amado. E a verdade é… eu sinto tanta raiva! E a verdade é… eu sinto tanta porra de tristeza! E a verdade é… eu tenho me sentido tão magoado por muito tempo. E por muito tempo eu venho fingindo que estou bem apenas para seguir adiante, apenas para… Eu não sei por quê. Talvez porquê ninguém queira ouvir sobre meu sofrimento… porquê eles tenham os seus próprios. Foda-se todo mundo. Amém.”

– “O que esteve antes com você, um excitante e misterioso futuro está agora atrás de você. Vivido, entendido, decepcionante. Você percebeu que não era especial. Você tem lutado em sua existência e agora está deslizando silenciosamente para fora dela. Esta é a experiência de cada um. De cada um. Os detalhes dificilmente importam. Cada um é cada um. Assim, você é Adele, Olive, Hazel, Claire. Você é Ellen. Toda a miserável tristeza dela é sua. Toda a solidão dela. O cabelo cinza, como palha. As mãos dela, feridas e vermelhas. São suas. É tempo de você entender isso. (Ande). Como as pessoas que adoram você e param de lhe adorar. Como se morressem, como se seguissem em frente… Como se você as tirasse, como você tirou sua beleza, sua juventude. Como se o mundo esquecesse de você, como você identificasse sua transitoriedade. Como se você começasse a perder suas características, uma por uma. Como se aprendesse que não há ninguém olhando você, e nunca houve. Você pensa apenas em dirigir, não vindo de algum lugar, não chegando em algum lugar: apenas dirigir. Contando o tempo. Agora você está aqui. São 7:43. Agora você está aqui. São 7:44. Agora você está… chegando. ‘

-“Talvez um novo titulo.’Doenças infecciosas em bovinos’. O título significa muitas coisas.Você verá,significa muito.” / A Obscura Lua, Iluminando um Obscuro Mundo”

Gabrielle

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Gabrielle é um puta filme, daqueles que consegue te tirar o fôlego.  Foi através dele que conheci Pascal Gregory: paixão a primeira vista. Na época eu estava com uma paranoia em relação à Isabelle Huppert e assistia aos seus filmes sem parar. Li muitas críticas negativas sobre o longa, diziam que a  inversão da câmera para BW nos momentos subjetivos do personagem principal tornavam a narrativa muito lenta.  A meu ver, o dispositivo usado por Patrice Chéreau foi um dos diferencias da trama.

Gregory interpreta Jean Harvey, um homem da alta sociedade francesa casado com Gabrielle. Para ele, a esposa é a síntese da perfeição, da pureza. Através de suas descrições iniciais temos a impressão de um casamento sem problemas. Gabrielle não é só o grande amor de Jean, mas também sua propriedade (logo no início do filme ele se refere a ela como o seu objeto mais valioso). Os dois sempre comparecem a jantares elegantes e aparentam se divertir muito. A casa também é habitada por diversos empregados, que acompanham a falsa felicidade do casal quase como voyeurs. São observadores silenciosos, que ficam a espreita.

Em comemoração aos dez anos de casamento, Jean planeja um belíssimo jantar para a mulher e os amigos. Quando chega em casa, encontra uma carta deixada por Gabrielle onde ela diz que decidiu abandoná-lo.  Na carta, Gabrielle usa palavras ríspidas e inimagináveis para um homem orgulhoso como Jean. Ele, por outro lado vai à loucura, é tomado por uma fúria grandiosa (grita, quebra os copos e as taças) mas perde-se em uma confusão de dúvida e sentimentos: O que fazer? Ela vai voltar? Devo perdoá-la? (O espectador acompanha todo o desespero acentuado pela narração em off.)

Gabrielle

Depois de ataque de raiva, Jean senta-se no sofá, abandonado a própria sorte. Inesperadamente, Gabrielle retorna a casa. Com os olhos cheios de lágrimas e quase silenciosa, deixa claro que a tentativa de fugir com outro homem não deu certo. A linha precursora do filme não é sobre o abandono de Gabrielle, nem o porque ela deixou Jean e sim: o seu retorno. É o seu retorno que provoca todo o diálogo sufocante entre os protagonistas. É a sua volta que provoca todo o embate sobre um casamento sufocante.

Isabelle Huppert se transforma. Após o retorno da personagem, a atriz dá vida a uma Gabrielle rancorosa, fragilizada e martirizada por um casamento infeliz. Nesse filme ela realiza um trabalho corporal belíssimo. Prostra-se sobre a cadeira, totalmente curvada. Os olhos vermelhos condizem com a voz quase inaudível. Infelizmente, não consigo encontrar o meu DVD para reproduzir um dos diálogos. Vi esse filme em 2007, mas até hoje me lembro perfeitamente de uma fala da personagem. Jean a pergunta se um dia houve amor naquele relacionamento, Gabrielle responde que sempre teve nojo do marido e que a ideia de ter o esperma dele dentro do seu corpo a fazia vomitar.

Depois das discussões, onde Jean perde a cabeça várias vezes, não há mais nada. Acabou-se o desejo, acabou-se o respeito. Tudo se foi, inclusive o casamento.  Mas seu orgulho é tão forte, que ele faz de Gabrielle sua prisioneira. Passa a torturá-la e humilhá-la publicamente. Ainda resta no seu eu o desejo de impor-se, seja como homem, como dono da casa ou como um marido traído. Como subordinada, Gabrielle se rende, deita-se sobre a cama expondo sua dor e sua fraqueza.

Filme belísisimo!! Confira o trailer:

PRÊMIOS

– César de Melhor Figurino e Design de Produção em 2006. – Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2005.

FICHA TÉCNICA

Diretor: Patrice Chéreau
Elenco: Isabelle Huppert, Pascal Greggory, Claudia Coli, Thierry Hancisse, Chantal Neuwirth, Thierry Fortineau.
Produção: Patrice Chéreau
Roteiro: Patrice Chéreau, Anne-Louise Trividic
Fotografia: Eric Gautier
Trilha Sonora: Fabio Vacchi
Duração: 90 min.
Ano: 2005
País: Alemanha/ França/ Itália
Gênero: Drama
Cor: Colorido

Setembro

Não sei por que, mas nunca fui muito fã dos filmes de Woody Allen. Dois deles em especial me pareceram muito bons. São justamente os que foram classificados pelos críticos como filmes trágicos, produções que vão em contraponto ao costume de Allen conhecido por realizar comédias românticas e satíricas.

O primeiro é “A outra”, filme de 1988 estrelado por Mia Farrow e Gena Rowlands. O segundo, “Setembro” de 1987. Desde que assisti “A estranha vida de Timothy Green” senti uma vontade imensa de rever os filmes com a Dianne Wiest e por isso, não tive como fugir de Woody Allen. Comprei doze de seus filmes sendo que cinco deles são do diretor.

Dianne Wiest , Mia Farrow

Comecei ontem por “Setembro”. Ironicamente, o filme que me encantou pela proposta cenográfica e pelos diálogos é um dos mais rejeitados e esquecidos. Setembro traz Mia Farrow como Lane, uma mulher emocionalmente fragilizada que não consegue se livrar das marcas dolorosas do passado. Lane sofre um colapso emocional e decide se mudar para a casa onde passou a maior parte da infância.

Lá ela conhece e começa a se relacionar com Peter (Sam Waterston), um escritor em crise. Toda a história se passa dentro da casa da mãe de Lane que também é ambientada por Stephanie (Dianne Wiest), melhor amiga de Lane, Howard (Denholm Elliott) um velho professor aposentado, Diane (Elaine Stritch) mãe de Lane e Lloyd (Jack Warde), seu namorado.

Gostei do filme porque é melancólico, mas com um tom realista.  Os diálogos são tão teatrais quanto literários e a previsibilidade não é, de forma alguma, um ponto negativo. Allen trabalha bem os conflitos humanos e representa a realidade crua, sem floreamentos. É interessante como ele cria uma teia de relacionamento entre os personagens que quase transborda pela tela.  Lane está tão emocionalmente frágil quanto às outras pessoas daquela casa, o problema é que ela se esvai enquanto eles se reprimem.

Há três vertentes importantes no filme, a primeira é o relacionamento entre Lane e Diane. Depois de abandonar o marido, Diane começou a se relacionar com um “bandido”. O homem era um alcoólatra e constantemente batia nela. Após presenciar toda aquela situação doentia que envolvia a mãe, Lane (aos quatorze anos) decide matá-lo. Desde então, sua vida não foi a mesma.

Todo o sentimento de culpa é ainda agravado por uma sensação constante: Lane chegou aos cinquenta anos e não teve uma vida de sucesso. Diante desse turbilhão de emoções, a presença da mãe a incomoda cada vez mais. Diane, por outro lado, parece não se importar tanto com a dor da filha. Seu maior aborrecimento é a velhice, sente-se como uma jovem de 21 anos aprisionada no corpo de uma idosa.

Setembro

A segunda é a relação entre Peter e Stephie. Peter manteve um relacionamento com Lane, deixando-a completamente apaixonada. Mas a chegada de Stephie muda a situação. Peter se encanta por Stephie e passa a assediá-la. Ela, por outro lado, é uma mulher casada e com filhos e se esquiva de Peter o tempo todo, principalmente porque Lane, sua melhor amiga, se apaixonou por ele.

Achei belíssima a forma em que Stephie foi se entregando a Peter. Após uma discussão acalorada com o marido pelo telefone, Peter a procura e ela veemente se nega a sair com ele, até que de repente, fecha a porta e o beija.

Desde então, os dois passam a se encontrar escondido. Peter propõe que fujam juntos para Paris.  Apesar de toda paixão, Stephie sabe que não consegue abandonar os filhos e o marido. Quando os dois são descobertos por Lane, Stephie confessa que sabia do interesse de Peter e que o alimentava. Ela ficou encantada por sua inteligência e queria se sentir desejada.

O problema é que Stephie se apaixonou de verdade e ficou atraída pela enorme fragilidade do escritor. Peter, por outro lado, também confessa que só namorou Lane porque estava inseguro, precisava de alguém que o estimulasse a escrever o livro. Os três acabam submersos por uma destrutiva teia de paixão e manipulação.Dianne wiest, setembro

A terceira vertente é o sentimento não correspondido que Howard, o professor aposentado, nutre por Lane. Howard se apaixonou cegamente por ela, mas tinha medo de se declarar porque não queria fragilizá-la ainda mais. Mas Lane não sente nada, simplesmente nada. Ele chega a perguntar se a idade a incomoda já que é mais velho do que ela. Lane explica que não é isso, o problema é que está apaixonada por outra pessoa: Peter.

Toda a ação acontece tendo como pano de fundo muita dor, desejo, decepção e medo. A decisão de Lane de vender a casa faz daquele momento o único e o último entre aquelas pessoas. Mas apesar de todo o drama, de toda angústia que sentem, não há como parar de viver. Como Stephie diria: Setembro está chegando e é preciso seguir em frente, manter-se ocupada te fará esquecer os problemas.