Frank e o Robô

Na juventude, Frank foi um ladrão responsável por inúmeros golpes. Porém, castigado pela velhice é obrigado pelo filho a conviver com um robô que o alimenta, limpa a casa, controla o horário dos remédios e lhe faz companhia. Em princípio essa relação “homem x máquina” o incomoda muito. Até que Frank aprende a gostar da situação e se aproveita do ajudante para voltar à ativa. Frank ensina ao robô pequenos truques e cria um projeto: roubar um dos livros mais valiosos da biblioteca, Dom Quixote. A biblioteca, por sinal, está passando por uma reforma: todos os livros serão trocados por arquivos digitais. Lá há uma companhia que Frank adora a bibliotecária: Jennifer e por isso, a visita constantemente.

Frank e o Robo

Quando soube que Susan Sarandon participava do filme “Frank e o Robô” fiquei um pouco chateada. A proposta da sinopse não me chamava atenção de maneira alguma, nem o pôster, nem o trailer. Fui traída pela imagem (assim como outros espectadores dos quais acompanhei os comentários em sites de cinema). Há uma passagem no livro que estou lendo que pode, muito melhor do que eu, explicar essa situação.

Em “A linguagem cinematográfica”, Marcel Martin ressalva uma das vertentes de pensamento de Lucien Wahl: Podemos então constatar que uma boa quantidade de filmes perfeitamente eficazes no plano da linguagem mostra-se nula do ponto de vida estético, do ponto de vista do ser fílmico: não têm existência artística. “Há filmes”, escreve Lucien Wahl, “cujo roteiro e razoável, cuja direção é impecável, cujos atores são talentosos, e não valem nada. Não vemos o que lhes falta, mas sabemos que é o principal” O que lhes falta é aquilo que alguns chamam de alma ou graça, é o que eu denomino ser. Não são as imagens que fazem um filme, escreveu Abgel Gance, mas a alma das imagens.

No caso de Frank e o Robô, dirigido por Jake Schreier essa percepção de “alma fílmica” em contraponto a própria imagem está muito presente. Apesar das ressalvas no filme, que nem sempre estão de acordo com a afirmação de Lucien Wahl, a imagem de Frank Langella, um senhor de idade acompanhado por um robô pequenino é pouco convincente.  Mas o roteiro, as mensagens e a brilhante interpretação de um forte time de atores (Liv Tyler, James Marsden e o próprio Frank Langella) são quesitos importantes para atribuir ao filme esse bom desempenho: são dispositivos que completam a alma da obra.

Frank e o RoboEm suma, o robô é importante para o argumento, mas não é essencial. “Frank e o Robô” vai além (muito além) da relação do homem e máquina. A proposta principal, ainda que subjetiva é a reflexão da relação do homem com o próprio homem. A velhice e o esquecimento de Frank é um dos motivos para que a família compre um ajudante. Mas por quê ninguém se dispõe a ficar com ele? Talvez, porque todo mundo está ocupado demais com a própria vida. Jake Schreier então nos faz pensar mais uma vez em outra consequência da velhice (e do nosso futuro incerto): a solidão.

O filme engana-nos mais uma vez quando nos leva a acreditar na lucidez de Frank. Somos convidados, como cúmplices, a duvidar do dono da biblioteca e torcer para que Frank consiga não só roubar o Dom Quixote mas também as suas joias. Ao redor da situação, acompanhamos o drama dos filhos que precisam seguir com as próprias vidas e ao mesmo tempo, cuidar do pai.

Alías, o fim do filme é uma doce surpresa.

Frank e o Robô

Minha doce Geisha

 Doce geisha

Eu nunca fui fã de comédias românticas, mas esse filme em especial me agradou muito. Resolvi escrever sobre ele porque encontrei críticas bem negativas que o classificavam como uma comédia intencionalmente boba e inverossímil. De fato, o roteiro é extremamente leve e descompromissado, mas há aspectos igualmente importantes que devem ser levados em conta. “Minha doce Geisha” é um filme de 1962 dirigido por Jack Cardiff e roteirizado por Norman Krasna. O filme traz a belíssima Shirley MacLaine no papel de Lucy Dell, uma atriz hollywoodiana casada com um diretor europeu Paul Robaix (interpretado pelo excelente Yves Montand, que dentre outros sucessos, traz no currículo “Adorável Pecadora”).

Lucy e Paul fizeram grandes sucessos juntos, mas dessa vez Paul resolveu ir sozinho ao Japão para realizar uma versão de Madame Butterfly para o cinema. Lucy tenta convencê-lo de que pode interpretar o papel, mas Paul insiste que aqueles cabelos ruivos e olhos azuis definitivamente não serviriam para uma geisha.  Sem deixar o marido desconfiar, Lucy vai para o Japão e se submete a uma transformação para conseguir o papel. Aprende a falar e a se portar como uma geisha, coloca lentes pretas nos olhos e usa peruca. O grande problema é que Paul se apaixona pela geisha, deixando Lucy numa situação complicada.

O filme caiu no “popularesco” e agradou ao público. Uma das coisas que eu gosto é o trabalho visual e o cuidado que Cardiff teve nas primeiras cenas em que Shirley Maclaine aparece como geisha. Inicialmente ela sempre está ofuscada por uma sombra (quando não é o seu rosto são seus olhos), esse artifício propõe uma dupla interpretação. A sombra ofusca Lucy do marido, mas também do espectador que vai conhecendo a geisha aos poucos.  A sombra também está presente no momento em que Paul invade o quarto da geisha e implora por um beijo.

Minha doce geishaa

O falso sotaque da Shirley poderia parecer pedante, como aquela cena em que ela diz que nunca beijou um homem. Porém MacLaine é extremamente cativante e você se diverte imensamente com ela.  É muito claro que todo aquele disfarce é difícil de não ser notado, mas Yves Montand te convence que o marido não sabe de nada. É, como eu disse anteriormente, uma comédia descompromissada, divertida… vale muito a pena!

Shirley Maclaine, minha doce geisha

SPOILER:  Não há como não se apaixonar pelo fim do filme, quando descobre-se que Paul sabia o segredo de Lucy, que ela era sua doce geisha.  

“Don’t be sympathy to anybody but me, my geisha”

Abril Despedaçado

Abril-Despedaçado

Abril Despedaçado, filme dirigido por Walter Sales (importante diretor que traz no currículo filmes como Central do Brasil e Terra Estrangeira) é antes de tudo, uma obra que fortalece a identidade do cinema brasileiro e evidencia uma linguagem característica e bastante enraizada da nossa cultura: a do nordeste. Por isso é também importante dar a devida atenção ao roteiro de Karim Aïnouz (cineasta brasileiro que trabalhou em grandes obras como O céu de Sueli e Viajo porque preciso, volto porque te amo).

A partir de um cenário árido e cheio de simbolismo, acompanhamos a trajetória de Tonho (Rodrigo Santoro) que é atormentado por um questionamento: vingar ou não a morte do seu irmão mais velho, assassinado pela família rival. A luta teve início em décadas anteriores, quando o avô de Tonho, resolveu reivindicar os direitos pela terra que lhe foram tomadas pela família Ferreira. Desde então há um enfrentamento de várias gerações que por uma questão de honra, alimentam um ciclo de vingança e violência.

abril

Abril

A narrativa, baseada no romance do albanês Ismail kadaré, é ambientada no sertão nordestino de 1910 e consegue de forma sensível (e muito bela), tratar de temas cruéis que envolvem não só os valores humanos, mas também as relações sócias: uma delas, muito presente no filme: o patriarcado.  A figura masculina na obra possui um papel fundamental e está representada na ideia de força e seriedade que se concentra no pai. É ele o responsável pela continuidade das atividades produtivas que sustentam a família e é justamente ele, que alimenta (quase que de forma obrigatória) a vingança dos Breves.

abril-despedacado3A presença da morte na vida dos personagens é acentuada pela estagnação. Muito bem metaforizada na figura dos bois que ficam rondando na mesma direção e de maneira automatizada, sem sair do lugar. A bolandeira é a própria vida no sertão, onde não acontece nada e os personagens vivem a repetição das mesmas atividades, dos mesmos valores, do mesmo desejo de vingança e não saem do lugar. Mas essa rotina é quebrada pelo “menino” (Ravi Ramos Lacerda), irmão mais novo de Tonho e que narra todos os acontecimentos da trama. Apesar de se encontrar imerso nesse mundo paralisado, “menino” demonstra esperança, jovialidade e alimenta um questionamento sobre a necessidade de vingança.

Seu questionamento fica ainda mais forte com a chegada de Clara e Salustiano, um casal que está de passagem pelo local e que de alguma forma, trazem mudanças para a vida do personagem. Essas mudanças podem ser dividas em três etapas, igualmente importantes: 1ª) Clara presenteia o “menino” com um livro e alimenta sua imaginação quanto ao mundo e quanto ao mar. 2ª) “Menino” recebe um nome de Salustiano: Pacu, o que auxilia na criação da identidade do personagem, 3ª) Clara se envolve com Tonho e abandona o parceiro. Coincidentemente (ou não!) é nesse momento que os bois começam a se movimentar sozinhos na bolandeira (de tão automatizados) e Tonho se dá conta que alguma coisa precisa mudar (e inconscientemente, essa também é uma decisão de Pacu).

A Dama Enjaulada

Imagem

O que poderia acontecer quando os humanos se encontram enjaulados e os animais ficam soltos?

Há algumas semanas estou comentando no Twitter sobre esse filme. É que de repente tive uma vontade absurda de assistir de novo. Quem ainda relaciona a imagem da Olivia de Havilland à “boazinha de Hollywood”, sem dúvidas, deveria vê-la interpretando Mrs. Cornelia Hilyard.  “A Dama Enjaulada” é um filme inquietante e continua provocando angustia em muita gente. Não há dúvidas de que foi um estrondo na década de 60, que chocou os críticos e o público com diálogos carregados de sensualidade e violência. Para além da violência, o roteiro de Luther Davis traz também uma pitada de sadismo.

Havilland interpreta uma senhora que acidentalmente fica presa no elevador de casa. Sozinha (em um dia de muito calor), encontra-se totalmente desprotegida quando um bando de vagabundos invadem sua residência para roubá-la. A situação fica ainda pior quando os invasores começam a brincar e torturar a mulher que não tem para onde correr.  Há ainda um agravante, Cornélia recebe a notícia de que seu único filho foi em embora e ao que tudo indica, cometeu suicídio.

Provavelmente os produtores queriam fazer com que Havilland parecesse mais velha, mas o fato é que ela tinha apenas 48 anos quando atuou em “A Dama Enjaulada” e estava em ótima forma. Essa caracterização de envelhecimento (de bengala e roupas fechadas) é uma das justificativas para o uso do elevador em casa. Para acentuar essa necessidade, a personagem ainda explica que recentemente sofreu um acidente que dificultou sua locomoção.

Quando fica presa no elevador, em uma altura assustadora, Cornélia tenta desesperadamente conseguir ajuda. O barulho que provoca, acaba chamando atenção de um bêbado que curiosamente entra pela cozinha e não se mostra interessado em ajudá-la. É justamente ele que comete o primeiro crime: leva peças preciosas da casa para um avaliador. Nesse mesmo ambiente, há um grupo de três bandidos que resolvem seguir o bêbado para descobrir onde ele conseguiu todo aquele material.

Depois que os bandidos entram na casa, Mrs. Cornelia Hilyard. fica sujeita a todo tipo de terror psicológico. Os bandidos tentam fazer de tudo para conseguir encontrar um “possível” cofre, nem que para isso, tenham que brigar uns com os outros. Mas o bando possui um líder e ele é quem mais aterroriza a dona da casa. James Caan está sensacional como o “mandante” do bando. Nesse filme ele me lembra o Stanley de “Uma Rua Chamada Pecado”. Sempre rindo alto e exalando masculinidade, tem cenas riquíssimas acentuadas por um roteiro ousado.

A dama Enjaulada

Quando seu personagem se junta a Cornelia Hilyard há uma tensão sexual que Waltger Grauman sustenta muito bem, sem permitir que o filme seja absorvido pelo “mau gosto”. O contato sexual é um dos clímax da trama, onde o “animal” se une ao humano. Onde o humano precisa ser “animal” para só assim conseguir sobreviver.

O filme sugere inúmeras interpretações. Uma delas, de Giuliano Francesco é que há uma metáfora sobre a falência do capitalismo: “cujo sistema estrutural é literalmente invadido e “destruído” pelas classes menos favorecidas. Assim, a opulenta Mrs. Hillyard, enquanto assiste impotente à devastação de sua propriedade por um bando de arruaceiros, representa toda uma classe dominante, literalmente engaiolada e indefesa diante da revolta dos bárbaros historicamente subjugados.”

[Tenho que fazer uma observação: A abertura é sensacional. Logo no inicio as imagens e os créditos se misturam entre barras animadas que formam grades e nos remetem ao elevador em que a personagem principal se encontra presa. São imagens fortes que dão dicas aos espectadores do que os aguarda.]

Ficha Técnica:

Ano: 1964

Direção Walter Grauman

Roteiro: Luther Davis

Gênero: Drama, Terror

Lena

LENA

Lena, dirigido por Christophe Van Rompaey, conta a história de uma menina gorda e extremamente solitária, que inusitadamente começa a ter um relacionamento com Daan. Um rapaz bonito, popular e pouco confiável. Cansada dos tratamentos hostis da mãe (que, dentre outros “carinhos” a chama de hipopótamo e monstro), decide abandonar a casa e viver com o namorado. A mudança traz fortes questionamentos a Lena, que presencia diariamente a apatia do pai de Daan ( um homem com cerca de cinquenta anos, que depois da morte da mulher, deixou de se importar com o comportamento do filho que o apelidou de “fantasma”).

O filme me incomodou muito. Não pela história (que é interessante). O que me chamou a atenção foi o diálogo crú e o roteiro seco diante de assuntos tão complexos. Apesar de uma proposta diferente, o longa perde-se no marasmo e deixa o espectador um pouco entediado. Há também um outro detalhe importante: a protagonista causa uma incrível sensação de desconforto e pouca empatia. Ironicamente, apesar desses “contras”, a produção Holandesa/Belga (aliás, muito premiada) é um filme importante porque apresenta uma proposta diferente e trabalha  através do suspense psicológico com uma perspectiva sobre as amarguras da vida.

 LENA

Já no principio da trama, Lena (Emma Levie) aparece transando com um desconhecido que se envergonha de mostrá-la aos outros colegas. Essa é uma constante na vida da personagem que deixa muito claro o preço que se paga por “não ser como as outras” (ou seja, por ser gorda). Para enfatizar que esse é o seu grande ”karma”, vemos a garota se remoer ao observar o cotidiano da melhor amiga que sempre é buscada pelo namorado no trabalho. Pra piorar, quando chega em casa, depois do estágio, precisa ficar do lado de fora até que a mãe se despeça do namorado.

O papel masculino na vida da garota é um ponto relevante. O pai não mostra interesse, então Lena se vê nas mãos de uma mãe irresponsável e ardilosa. Os namorados da mãe são tão imprestáveis quanto ela. Os homens com que se relaciona só se interessam por sexo e se sentem envergonhados de exibi-la aos outros. Daan, o primeiro namorado e até então, o único homem que a valoriza é lindo e simpático, mas está envolvido com furtos e drogas. O pai de Daan é um lunático mal resolvido que a assedia.

Completamente absorvida por um mundo estereotipado, Lena tenta desafogar-se das pressões cotidianas nas aulas de dança que frequenta semanalmente. Há momentos belíssimos criado pelo diretor que usa muito bem a câmera panorâmica. Enquanto está tomada de tamanha tristeza ou de felicidade, a câmera possibilita que o espectador se torne um confidente (evidenciando o voyeurismo de quem está diante das telas).

Ficha Técnica:

Original: Lena (2011)

País: Bélgica, Holanda

Diretor: Christophe Van Rompaey

Roteirista: Mieke de Jong

Monstros

FREAKS

Na última sexta-feira tive a felicidade de assistir no Cine Humberto Mauro “Os Monstros”, dirigido por Tod Browning em 1932. Nutria uma curiosidade antiga pelo filme que conta a história de um circo em que as atrações principais são aberrações (daí o nome “Freaks”). Hans (interpretado por Harry Earles) é um anão que se apaixona pela trapezista mais bela do circo: Cleópatra. O anão tenta agradá-la de todas as maneiras, comprando presentes caros e se submete a terríveis humilhações. Cleópatra, por outro lado, é uma mulher gananciosa que só aceita se casar com Hans porque descobre que ele é herdeiro de uma grande fortuna. Mas assim como Hans, as outras aberrações do circo são honestos e leais. Percebendo as maldades de Cleópatra, se juntam e tramam uma vingança.

O filme ficou esquecido por muitos anos e foi censurado até a década de 60. Enquanto esteve em cartaz, causou repulsa e indignação dos espectadores e deu um prejuízo de 164 mil dólares a MGM. Mulheres grávidas foram proibidas de assisti-lo porque acreditavam que o filme poderia causar abortos. Algumas pessoas sofreram infarto durante a exibição, outras fizeram protestos para que parasse de ser transmitido. Todo esse rebuliço é muito curioso quando se pensa que as aberrações eram pessoas com alguma deficiência ou deformação física. A imagem de pessoas sem braços, sem pernas ou com algum problema de fala, não correspondia a estética americana e estavam muito distante do que hoje entendemos como politicamente correto. Aliás, o politicamente correto não existia

freaks

Os atores com deficiência, ou “as aberrações” também chocavam a equipe de produção e o elenco “normal”, que se sentiam incomodados por terem que atuar com pessoas que chamavam de retardadas. Não há muitas informações sobre os bastidores, mas o que se sabe e que Tod Browning enfrentou inúmeras dificuldades para sustentar as produções e manter a equipe em harmonia. O que se compreende hoje é que o filme foi de tamanha inovação e coragem inclusive porque o próprio cinema falado estava engatinhando. 

Os críticos classificaram o filme como uma produção sensacionalista e de mau gosto. Curiosamente, Browning trabalhou em um circo durante a sua juventude e presenciava diariamente as humilhações que os verdadeiros “freaks” sofriam. A grande ironia é na concepção de Browning,os monstros eram Cleópatra e seu amante Hércules, pessoas detestáveis e de caráter duvidoso. Depois que Cleópatra casa com Hans, ela se une ao amante para pensar em uma forma de matar o marido. O filme propõe uma reflexão de contraponto entre a moral e estética, aspectos fundamentais da sociedade pós-moderna.

freakskTomo a liberdade de reproduzir aqui uma parte do texto de Bernard Herzogenrath escrito no livro ‘1001 filmes para ver antes de morrer’ da editora Sextante: ‘Desde sua concepção original como um filme de terror que superasse todas as expectativas, algo mais perturbador do que qualquer coisa jamais vista (quando Dwain Esper o explorou sob titulos vagos e enganosos, como Amor proibido, Show de monstros e Erros da natureza), até seu renascimento como filme de vanguarda na tradição de Luis Buñuel e Alain Robbe-Grillet, Monstros, de Tod Browning, englobou os gêneros terror, filme de arte e documentário – este último, por conta de seu realismo, a partir do uso de ‘aberrações reais’. Não obstant, apesar da originalidade em termos de concepção e estética – e da surpreendente capacidade de ao mesmo tempo comover e chocar plateias – Monstros continua sendo, até hoje, uma obra subestimada. (…) Uma mera sinopse não pode fazer justiça a este filme assustador porém profundo, o qual é preciso de fato ver para ‘crer’. Uma suprema bizarra (aberração?) do cinema mundial, considerada por muitos o mais extraordinário filme da carreira de um diretor cuja filmografia inclui a versão original de Drácula (1931)”

Carmen Miranda

Carmen Miranda

Carmen é um dos símbolos mais interessantes de beleza e feminilidade que tenho em mente. Essa percepção veio a aumentar depois que terminei de ler uma de suas biografias, escrita por Ruy Castro. Pensei por algum tempo em que tipo de publicação faria hoje. Em principio queria citar (em referência ao dia das mulheres) algumas feministas que me inspiraram a conhecer e participar do movimento. Logo depois, pensei em filmes temáticos e músicas que seguem essa perspectiva e por fim, me lembrei da Carmen.

No dia que resolvi escrever sobre ela, conheci a jornalista Júnia, que por coincidência estava com o mesmo livro nas mãos. Foi um encontro completamente casual e inesperado e que me valeu muito. Eu passeava pelo edifício Maletta, estava com sede, entrei numa lanchonete e lá a encontrei. Eu disse para a Júnia que estava com a “Carmen na cabeça” e que não conseguia parar de pensar no triste fim que ela teve. Sabiamente, Júnia me disse que a vida é feita de escolhas e que Carmen foi uma mulher feliz com as escolhas que fez.

Carmen MirandaComo Helena Solberg diria em seu documentário “Banana is my business”, Carmen Miranda tinha a inocente ideia de que conseguiria representar o Brasil no exterior. Se comprometeu tanto que essa foi sua bandeira por muitos anos. Carmen exigia cantar em português em seus filmes e sempre estava na defensiva quando o assunto era o país. Se Carmen conseguiu representar o Brasil? Claro que sim, mas em partes. Ninguém jamais representaria um país em sua totalidade tendo em vista a complexidade e vastidão cultural, ideologia, política ou qualquer outro aspecto que engloba uma nação. Ainda assim, sua imagem está extremamente ligada ao Brasil, ela se tornou um símbolo.

Também por coincidência, o professor Mozahir citou o livro do Ruy Castro como uma bibliografia que ajudaria a entender o papel do rádio no país. Infelizmente, poucas pessoas (ou praticamente nenhuma) mostrou interesse por Carmen. Depois da aula tive que escutar: “quem é Carmen?” ou, “ela ainda está viva?“ Sim, Carmen continuará viva, enquanto for lembrada. Na verdade é um pouco decepcionante pensar que estudantes de jornalismo, já no fim do curso, não fazem ideia de quem foi Carmen. Não é uma informação que está colada na grade curricular, mas que eu tenho certeza: faria um bem danado! O Mozahir dizia: “foi incrível o que essa mulher fez”, ela chegou a ser uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood na década de 1940, enfrentava maratonas diárias de shows e tinha uma repertorio invejável.

Sempre bem humorada e com consciência plena de sua beleza, Carmen ficou famosa ainda muito jovem. Comandava sua carreira com determinação e sabedoria. Pouco tempo depois de fazer sucesso cantando, comprou uma casa nova para os pais e aprendeu a dirigir. Tinha também muita habilidade com costura, por isso: customizava facilmente suas roupas. Aqueles sapatados gigantescos (e pesados) que usava nos shows foram inventados por ela e exigiam um equilíbrio fora do comum. Além disso, Carmen ditava moda. Chegavam a dizer que ela era careca porque nunca mostrava os cabelos. Os turbantes, na verdade, só se fixavam na cabeça justamente por causa dos cabelos. No fundo, ela achava toda aquela conversa de “ser careca” muito engraçada. Há também um fato interessante: antes de Hollywood, viajou muito pela América Latina. Chegaram a perguntar a Carmen se era verdade que o Brasil era uma “matagal” onde se encontrava macacos e cobras. Carmen brincava e dizia: “Sim, há muitas cobras”

Carmen Miranda

Apesar de todo esforço em representar o país, Carmen não foi bem acolhida pelos críticos brasileiros. Morando nos Estados Unidos, recebia em sua casa jornais ou informações de amigos da hostilidade dos críticos. Diziam que ela gesticulava demais, que tinha uma voz péssima, que estava gorda ou que tinha esquecido a língua portuguesa. Com tanta hostilidade, Carmen ficou temerosa de voltar ao Brasil. Quando veio pra cá, já em 1955, estava completamente confusa e fraca, resultado direto dos calmantes, dos estimulantes e da bebida.

Helena Solberg e Ruy Castro afirmaram inúmeras vezes sobre o quanto Carmen Miranda foi injustiçada. A obra deles, acima de tudo (e acima da própria Carmen) possui uma semelhança maravilhosa: todas as duas (tanto o livro, quanto o documentário) são de uma doçura incontestável, que fazem com que a gente se incline a gostar dela também. Um dos sonhos de Carmen era voltar ao Brasil e pular carnaval do meio da multidão. Dizia que queria se misturar no meio do povo, dançar até não poder mais e depois voltar para casa. Como Ruy Castro acrescentaria: esse era um devaneio, Carmen jamais conseguiria pular carnaval sem ser identificada.

Dois dos inumeros pares de sapato que Carmen Miranda colecionava em sua casa em Hollywood.
Dois dos inumeros pares de sapato que Carmen Miranda colecionava em sua casa em Hollywood.

De origem católica, sacrificou as próprias vontades em nome de um casamento em que a figura masculina dominava. Castro dizia no livro que em momentos de confusão (mental), Carmen chegou a afirmar que apanhava do marido (não se sabe se isso realmente aconteceu). David Sebastian conheceu Carmen nas filmagens do filme Copacabana. Ela aceitou as investidas e casou-se com o americano. * Antes, porém, Carmen teve inúmeras desilusões amorosas: hora por homens que não aceitavam sua fama e seu dinheiro, hora por homens que simplesmente não a levavam a sério. Ironicamente, o grande desejo de Carmen era se casar e ter filhos.

Como não acreditava em divórcio, perdeu parte da felicidade por um casamento desastroso. Ela, que vivia cercada de brasileiros em sua casa, teve que deixar de recebê -los. David também passou a empresariá-la, assegurando-se de sempre vê-la na ativa, não importasse o quanto estivesse exausta. Usou parte do dinheiro (que não era pouco) em investimentos sem futuro e em presentes caríssimos. Além disso, estimulou o uso das bebidas alcoólicas que no final da vida, tornaram-se um hábito, ou melhor: uma necessidade de Carmen.

Mas como Ruy Castro evidencia, David não foi o culpado pelo fim trágico de Carmen. Ele só veio a piorar as coisas. Com os limites da medicina na época, acreditava-se que tanto os calmantes quanto os estimulantes eram benéficos. Como uma bola de neve, Carmen foi aumentando as pílulas, até chegar nas medicações injetáveis. Para tentar diminuir o vício, os médicos cortavam as doses dos remédios, o que na verdade, deveria ser feito gradativamente. Assim, Carmen passava dias sem dormir, tinha alucinações, até o que o organismo cedia. Mas o ciclo vicioso dos remédios sempre voltava: e Carmen caiu em uma profunda depressão.

Carmen Miranda

Um dos tratamentos indicados e que Ruy Castro descreve era o choque elétrico. Ao que parece, Carmen recebeu cinco sessões de choques elétricos que comprometeram sua memória. Subia ao palco e submetia-se a apresentações em que muitas vezes esquecia as letras das musicas. Também já não tinha a mesma coordenação motora e constantemente perdia o ar ou ficava zonza.

“Em 1953, a aplicação dos eletrochoques ainda era feita em moldes primitivos. O paciente não era anestesiado. Não lhe davam um relaxante muscular e ele não recebia oxigenação artificial, como se passaria a fazer muito depois. Nem se sonhava com monitores cardíacos, cerebrais e de pressão arterial. E, pior ainda, não se fazia uma desintoxicação prévia, com a eliminação gradual dos medicamentos, que afinal, tinham levado àquela condição. Na época, a máquina de eletrochoque, fabricada pelos Laboratórios Lester, de Nova York, fornecia uma carga de 110 volts, muito mais do que, no futuro, se consideraria “aconselhável”. Eram precisos três enfermeiros para manobrá-la: um, para girar o botão e aplicar o choque, os outros dois, para conter o paciente e impedi-lo de se machucar e de, literalmente, levantar vôo.”

Os médicos alegaram que Carmen estava com problema nos nervos. A depressão estava tão profunda que ela não se levantava da cama, não comia nem falava. Veio ao Brasil pouco tempo antes de morrer. Tanto os médicos quanto os amigos próximos, acreditavam que essa era uma maneira de ajudá-la a melhorar. Carmen ficou hospedada no Copacabana Palace por mais de cem dias. Continuava tomando os remédios que um dia a matariam justamente para se manter nos palcos. Chegou a se apresentar no Brasil, foi recebida por milhares de pessoas que cantavam “Taí” em sua homenagem. Visivelmente fragilizada, confundia os companheiros da juventude que a visitavam no hotel e chorava sem parar. Castro dizia que ela cogitou a hipótese de não ir para Hollywood, mas o marido era insistente e praticamente a obrigara a voltar a ativa.

Carmen, fragilizada depois dos tratamentos.
Carmen, fragilizada depois dos tratamentos.

Em uma apresentação no programa de Jimmy Durante, Carmen cai de joelhos e diz que está sem fôlego (há, inclusive, diversos vídeos no Youtube, reproduzindo o show). Ruy Castro conta que nesse momento, ela revira os olhos e dá pra perceber que a morte já estava por perto. Naquela mesma noite, em 5 de Agosto de 1955, Carmen cantou seus sucessos para um grupo de amigos. Subiu ao quarto, fumou um cigarro, tirou a maquiagem e foi para o quarto. Faleceu após um colapso cardíaco. Foi encontrada deitada no chão segurando um espelho de rosto.

Seu corpo chegou ao Brasil em 12 de Agosto, cerca de quinhentas mil pessoas acompanharam o velório cantando “Taí” em despedida. As vendas dos seus discos aumentaram consideravelmente, semanas depois, já não tinham mais estoque. Carmen foi enterrada no Cemitério São João Batista.

*Carmen, no programa de Jimmy Durante: em uma apresentação que aconteceu hora antes de seu falecimento. Carmen, aos 24:07min cai e diz que está sem ar:

Normal

Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança
Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança

Quando achei que a Jessica Lange não podia me surpreender mais, encontro disponível na internet “Normal”, longa produzido em 2003 pela HBO. Com muita delicadeza, o filme dirigido por Jane Anderson (e que traz Tom Wilkinson e Richard Bull no elenco) explora uma discussão antiga e complexa: a transexualidade. Apesar do assunto não ser uma novidade, a troca de sexos continua sendo motivo de grandes discussões políticas e representações cinematográficas. No filme “A Lei do Desejo” (de 1987), Carmen Maura interpretava Tina, um homem que mudou de sexo para manter um caso incestuoso com o pai. Também não muito distante Felicity Huffman protagonizou em 2005 “Transamérica”, longa em aparecia como um transexual que lutava para realizar a cirurgia de troca de sexo.

Mas, diferente das bizarrices de Almodóvar ou da abordagem quase visceral de Duncan Tucker, “Normal” é extremamente leve. Vemos Roy Applewood, um senhor casado e com filhos que decide assumir a transexualidade. Ele cria um embate com a conservadora cidade onde mora e passa a conviver com a hipocrisia, com o preconceito dos colegas do trabalho e com a incompreensão da família. A imagem de Tom Wilkinson, vestido de mulher me lembrou muito o cartunista brasileiro Laerte Coutinho. Para quem nunca viu, há uma entrevista maravilhosa que Coutinho cedeu a Marília Gabriela onde fala do seu trabalho e de suas experiências como transexual. Recentemente, Laerte tomou uma atitude polêmica: entrou na justiça para ter o direito de usar o banheiro feminino.

{A revelação}

Logo no início do filme, o casal Roy e Irma Applewood (que comemoram 25 anos de casados) reúnem-se com o padre da igreja para conversar sobre a relação. Após uma benção, o padre questiona se está tudo bem ou se há alguma coisa interferindo na vida sexual dos dois. Inesperadamente, Roy (um senhor na casa dos cinquenta anos) não consegue segurar as lágrimas e confessa: “Sou uma mulher presa no corpo de um homem e quero fazer uma cirurgia para trocar de sexo”.

Em princípio, tanto o padre quanto a Irma não acreditam naquela conversa. Porém, quando cai na real de que tudo aquilo é verdade e de que o marido está decidido a fazer a cirurgia, Irma abandona a sala e termina a reunião. Já em casa e incrédula começa a confrontar o marido com perguntas duras e diretas: “Quando você transava comigo, era um homem ou uma mulher?” De maneira sincera e compreensível, Roy responde que em várias vezes, durante o sexo, se sentia como mulher.

- Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!-Você não pode tê-lo de volta.
– Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!
-Você não pode tê-lo de volta.

Ironicamente, a filha do casal (interpretada por Hayden Panettiere, ainda bem novinha) possui trejeitos masculinizados, não gosta de usar roupas de meninas e não tem paciência quanto à menstruação. Irma faz de tudo para que ela não saiba do que acontece com o pai, mas há situações que não podem ser evitadas. Sem delongas, Irma manda Roy para fora de casa e implora para que ele repense suas “escolhas”. Acontece que Roy chegou ao ponto de não conseguir negar-se mais, chegou ao fundo do poço, estava com algo entalado na garganta e aquele era o momento de se libertar.

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{Transformação}

Roy conversa o chefe para informá-lo que daquele dia em diante, passaria a se vestir como mulher. O chefe lentamente entende que Roy está falando a verdade e apesar de incompreender a situação, decide mantê-lo no cargo. O chefe vai até a casa de Irma para perguntar se aquilo está realmente acontecendo. Após uma conversa familiar, os dois trocam olhares e surpreendentemente, se beijam. Logo se separam e brincam: “Não daria certo” – o que não é verdade já que os dois passam a ter um caso. Brilhantemente, o filme explora não só a sexualidade de Roy, mas também a sexualidade de Irma. Depois de assumir-se transexual, Roy deixa claro para a mulher que o sexo é uma necessidade natural do ser humano, portanto, ela tem o direito de transar com outros homens (já que ele vai realizar a cirurgia).

Roy passa a tomar hormônios, fica mais sensível, os seios crescem, assim como os cabelos. Nesse meio tempo Irma entra na menopausa e os dois enfrentam juntos, as mudanças corporais. Em uma cena divertida e ao mesmo tempo bela, Roy ouve som no carro e tenta cantar com voz de mulher. No dia seguinte, quando chega de brincos no serviço, um de seus colegas o obriga a tirá-los. Entre socos e pontapés, Roy impõe-se e mostra que a partir daquele momento, teria que ser tratado com respeito.

{Aceitação}

O filme, na verdade, não explora o que aconteceu com Roy antes da “revelação”. Há poucos lampejos e referências a uma infância em que ele, ainda menino, pegava as roupas da mãe para se transvestir. O enfrentamento com o pai, em uma festa de família tornou-se o ponto alto da representação de seu sofrimento. Durante os parabéns, o patriarca da família relembra o quanto Roy era diferente dos outros. Humilha-o diante dos irmãos, da filha e da mulher. Roy esquiva-se da sala. Tempos depois, Irma o encontra no celeiro, com uma espingarda apontada para o pescoço.  Diante do êxtase emocional percebe que não conseguiria perder o marido, não conseguiria vê-lo morrer.

Irma Jessica Lange

Após a possibilidade da perda, Irma permite a volta do marido a casa e passa a conviver pacificamente com a mudança.  Em uma cena belíssima, Irma opina sobre as escolhas de roupa do Roy. Ele, já vestido de mulher, agradece o apoio. E ela responde: “Você faria o mesmo”. Os diálogos são uma lição de amor e cumplicidade, de que o amor (o verdadeiro) vence as dificuldades do dia-dia.

Pouco tempo depois Roy e a família vão à missa. Os integrantes passam a encará-lo e ele, respeitosamente se ausenta da Igreja. Com certeza, esse é um dos pontos positivos do filme: a diretora trata com compreensão a incompreensão das pessoas diante a transexualidade. Sem julgamentos, AndersonRoy Tom Wilkinson mostra que nem todo mundo entende o que acontece com um transexual e que esse é um processo dificílimo. De alguma forma, a cena da igreja me fez lembrar uma conhecida que dizia que se estivesse com a filha na rua e visse dois homens (ou duas mulheres) se beijando, chamaria a polícia. Levei essa discussão para a aula de Política e um dos meus colegas disse uma coisa interessante: “às vezes o pré-conceito está intrínseco, a pessoa não percebe quanta maldade um ato desses representa. Em um país sério, se ela chamasse a polícia seria ela que iria presa”.

 Por último, há outra cena que me deixou emocionadíssima. A família recebe o filho mais velho. Quando ele encontra o pai (sua referencia de masculinidade) vestido de mulher, começa a julgá-lo. Os dois se esmurram pela casa até que o pai consegue convencê-lo de que o respeito mútuo é indispensável. Os dois, em lágrimas, abraçam-se na escada sala. Quando as coisas voltam ao Normal, Irma e Roy fazem sexo como homem e mulher, pela última vez.

Sister Jude, Baby Jane e Norma Desmond

Desde o último episódio, em que vi Jessica Lange apresentando um número musical em American Horror Story, estou pensando em escrever esse post. Como sempre, a falta de tempo não deixou. Há algumas semanas, reparei que a busca por AHS no blog continua em alta. Não é por menos. A 2ª temporada está chegando ao fim (com o penúltimo episódio indo ao ar hoje) e tanto a trama, quanto os personagens, sofreram reviravoltas absurdas. De longe, Sister Jude é a minha personagem preferida.

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No começo da série, “Judy” era uma freira sádica, deslumbrada pelo poder e que adorava humilhar seus pacientes. No entanto, a freira (e antiga prostituta) passou por poucas e boas. Depois de quase ser violentada por um paciente psicótico (vestido de Papai Noel), foi aprisionada em Briarcliff, acusada de um crime que não cometeu. Enfrentou um antigo nazista e ficou cara a cara com o diabo. Após um encontro com a morte, revelou um pouco mais do seu passado sombrio e de seus antigos desejos, entre eles: o sonho de ser mãe, que não se consumou quando descobriu que tinha sífilis.

Agora como interna, sofre todos os abusos que cometia com os pacientes, quando era diretora do hospício. É obrigada a tomar calmante de cavalo, usa camisa de força, fica presa na solitária e toma eletrochoques (o último foi além da conta: deixou a pobre coitada totalmente desnorteada). Jude foi a responsável por colocar a jornalista Lana Winters em Briarcliff, mas arrepende-se do que fez e tenta ajudá-la a sair. Lana, por outro lado, internada por ser lésbica, sofre inúmeras violências na mão do Drº Therdson, um serial killer, que mata, estupra e arranca a pele de mulheres. Há inclusive, uma cena fortíssima, em que Lana é obrigada a se masturbar olhando para um homem nu, para ver se consegue despertar por ele algum sinal de desejo (isso não acontece).

Sister Jude
Sister Jude

 O 11º capítulo foi espetacular, ou melhor: inesperado. Desde o início da série, há um jogo muito interessante do diretor, que fica evidente nesse capítulo: a idéia é de que todos nós somos uma mistura de sentimentos bons e ruins e que somos levados diariamente a questionar nossos valores e conviver com nossos instintos. De maneira triunfante e com a ajuda do Kit e da Sister Jude, Lana consegue sair do hospício e se vingar do Drº Therdson, humilhando-o  publicamente e por fim, atirando em sua nuca. A jornalista escreve um livro sobre as histórias que viveu no hospício e sobre as pessoas que conheceu enquanto esteve internada, entre elas: Pepper.

Pepper, após ter um encontro com alienígenas, voltou diferente. A pequena de dentes grandes e laço no cabelo que não conseguia pronunciar direito as palavras, volta com uma inteligência que não lhe é característica. Ela enfrenta Drº Arden, o nazista que adora fazer experiências com os internos e impede que ele chegue perto de Grace, que está grávida de Kit – há toda uma história complexa entre Kit e os alienígenas que ainda não foi muito bem explicada. Ironicamente, Pepper torna-se uma grande companheira para a Sister Jude: o que é fantástico, já que só na reta final da série é as duas se aproximam.

LINK ONLINEBrilhantemente, o final do Drº Arden e da Irmã Mary Eunice deixou os espectadores de cabelo em pé. A inocente Mary Eunice, que no segundo episódio incorpora um demônio e que atormenta a vida dos personagens durante todo o tempo, não agüenta mais a situação em que se encontra (afinal: é uma pessoa boa que se encontra presa em um corpo que só faz maldades), implora ao Monsignor Timothy O’Hara que a liberte.Ele então a mata, jogando-a do vão das escadas. Drº Arden, que tem uma paixão incontrolável pela irmã, decide cremá-la. Junta-se ao seu corpo falecido da freira e os dois terminam juntos…queimados.

Pode até parecer que esse post é um grande Spoiler. Bom: é e não é.  A verdade é que na madrugada de hoje, vi o vídeo promocional do último episódio de American Horror Story e fiquei (e ainda estou) extasiada. Não se sabe ao certo o que realmente vai acontecer, mas a o vídeo promete um final emocionante. Sister Jude, que acabou esquecida naquele hospício, aparece (bem rapidamente), fragilizada, quase sem cabelos e muito magra. Se ela vai ou não recuperar a sanidade é um mistério (acho pouco provável). A imagem de Jessica Lange quase sem cabelos e revirando os olhos em um quarto escuro me chocou – e muito. É por isso que resolvi escrever esse texto. O vídeo confirmou a idéia que eu tinha sobre a atriz e sobre a relevância desse trabalho.

[ Quem se tornou fã de Lange depois que a conheceu pela série (e olha, não são poucos) deve ter sofrido quando descobriu que o Globo de Ouro de melhor atriz foi para Julianne Moore. Na verdade eu não quero entrar na discussão de quem tem ou não tem o mérito para ganhar o prêmio, sabemos que a atuação da Julianne Moore em Game Change foi impecável, mas pra mim, a Academia cometeu um erro cabeludo ]

Apesar da contextualização completamente diferente dessas três, percebo algumas ligações fortes entre Sister Jude, Baby Jane e Norma Desmond e a principal delas: são as atrizes. Pouco antes de ser convidada a interpretar um dos papeis mais marcantes de sua carreira, Bette Davis colocou um anuncio no jornal pedindo por emprego. A velha atriz, provando o amargor do esquecimento, dizia nos jornais que precisava trabalhar porque tinha três filhos. Como diria tempos depois, “envelhecer não é para mocinhas”. E realmente não é, principalmente em um meio tão ruidoso quando se trata de beleza e juventude.

Davis recebeu o convite de Robert Aldrich de braços abertos e topou contracenar com a sua inimiga: Joan Crawford. “O que terá acontecido a Baby Jane”, um filme B de 1962, entrou anos depois, para a lista de clássicos do cinema americano. Não é por menos, afinal, além de unir duas lendas, Aldrich trouxe a tona uma história inesquecível de duas irmãs que vivem na mesma casa e dividem um passado perturbador. O fato é que para representar Jane Hudson, Bette Davis abriu mão da vaidade e aceitou aparecer em cena como uma grande caricatura de si mesma.

Bette Davis como Baby Jane
Bette Davis como Baby Jane

Com o rosto coberto de base branca, marcada por traços fortes de batom, Jane, entornando infantilidade e loucura, aterroriza a irmã (e porque não, os espectadores) com o sonho de voltar a fazer o mesmo sucesso que fazia quando criança. Bette Davis saiu da sua zona de conforto e topou rir de si mesma.  No filme, a atriz canta e dança como se fosse uma menina de dez anos.  Para piorar a situação, Jane quando jovem envolveu-se em um acidente de carro com a irmã. Ela estava dirigindo bêbada e bateu no portão deixando Blanche paraplégica. Desde então a sua sanidade nunca mais foi a mesma.

A inveja pelo sucesso da irmã, que também virou uma famosa atriz de cinema, escorre pelas mãos de Jane, que oferece ratos e passarinhos mortos no café da manhã, a amarra na cama e rouba seus cheques para comprar bebidas. Bette Davis, maliciosa que só, chega ao auge com seu personagem, quando Jane, em um ataque de loucura liga para o médico da irmã e imita perfeitamente sua voz. Aquela gargalhada no final da ligação é simplesmente inesquecível.

Gloria Swason como Norma Desmond
Gloria Swason como Norma Desmond

Em 1950, Gloria Sawson também andava esquecida. A atriz que encabeçou diversos sucessos da MGM e foi uma dos principais nomes do cinema mudo, aceitou a trabalhar em um projeto de Billy Wilder que ironicamente, ilustra uma rica atriz: Norma Desmond, que foi um sucesso no cinema mudo, mas que acabou sendo esquecida. “Crepúsculo dos Deuses” satiriza o próprio cinema e brinca com a carreira desastrosa de alguns atores. Norma Desmond quer fazer um filme e para isso, praticamente obriga o roteirista Joe Gillis a lhe ajudar na produção. Totalmente sem bom senso, Norma Desmond não percebe que aquele filme já está fadado ao fracasso.

Muitas atrizes receberam a proposta antes de Gloria Swason, mas nenhuma delas aceitou por acharem que a história era parecida demais com a realidade em que viviam É aí que entramos outra vez na coragem de Swason, que assim com Davis e Lange, aceitou rir de si mesma. Norma Desmond envolve-se tanto com a produção do filme que a traria de volta ao estrelato, que acabou ficando louca, esperando por um “Close up” que nunca veio. (Ou melhor, veio sim, brilhantemente arquitetado por Wilder).

Jessica Lange então, segura de si e de sua carreira, aceita interpretar uma freira maldosa e louca. Todo mundo sabe que ela também andou um pouco esquecida. Me arrisco a dizer que mesmo o Globo de Ouro em 2009 por Grey Gardens, não foi suficiente para trazê-la de volta aos olhares do público – talvez por isso, tenha aceitado trabalhar em TV, um meio, como a mesma afirmou que não está acostumada. Recebeu duras críticas, entre elas de que estava velha e plastificada demais. Lange não se entregou, não se escondeu, não se envergonhou. Pelo contrário, deu a cara a tapa a milhões de espectadores do mundo inteiro, que a aguardam ansiosamente todas as quartas-feiras.

Jessica Lange como Sister Jude
Jessica Lange como Sister Jude

Surgiu com um porrete na mão, com as unhas grandes e vermelhas, vestindo uma camisola sensual debaixo do hábito, apanhou na bunda (de quatro!), tentou exorcizar um demônio sozinha e não se cansou de tocar Dominique para os pacientes. Brilhante mesmo, foi a sua performance em “The Name Game”, onde apareceu com um cabelo estilo anos 60 e rebolou até o chão. Claro que esse é um trabalho em conjunto e que por traz de tudo isso, há cabeças pensantes, entre elas Ryan Murphy, o qual agradeço muito por ter nos presenteado com essa personagem incrível, que é a Sister Jude.

Confiram a cena da Jessica Lange cantando em American Horror Story:

The Name Game