Uma série imperdível: “Quem ama não mata”

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Meu professor comentava muito sobre “Quem ama não mata” durante as aulas da pós-graduação. Trata-se de uma série produzida pela Rede Globo em 1982 que retratava cinco casais de diferentes faixas etárias e seus problemas conjugais. O principal deles, Alice e Jorge, interpretados por Marília Pera e Cláudio Marzo, viviam uma crise profunda. Ela não conseguia engravidar e acreditava ter algum problema, quando na verdade, ele não podia ter filhos. A série, que foi transmitida em 20 episódios (todos eles estão no Youtube), serviu de inspiração para “Felizes para sempre?”, protagonizada por Maria Fernanda Cândido, Paola Oliveira e Enrique Diaz.

Eu assisti e me apaixonei, achei realmente incrível. Todos os personagens, em sua carga dramática, possuem um quê de questionamento social, especialmente as mulheres. Tão diferentes e ao mesmo tempo, muito parecidas em alguns pontos. Logo no primeiro capítulo recebemos a pista de que um dos personagens foi assassinado e que este crime foi passional. Na época, o Brasil ainda vivia as sombras do assassinato da Angela Diniz…

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Este tipo de produção ainda estava em uma fase experimental na Globo, essa é a terceira série lançada pela emissora. As temáticas de “Quem ama não mata” são tão atuais que é difícil acreditar no ano em que foi lançada. Além de um retrato  da emancipação feminina, do abuso sexual e de relacionamentos abusivos, a série trazia suavemente uma reflexão sobre o aborto.

Marília Pêra esta muito linda e extremamente feminina, incorpora a típica mulher do lar que gasta os dias se dedicando a vida doméstica, que depende financeiramente do marido e que sonha com a maternidade. Susana Vieira interpreta sua irmã e vai na contramão da personalidade de Alice. Laura é a mãe imperfeita que fica longos dias sem ver as filhas (criadas pelos avós), e alimenta um relacionamento instável. Júlia, interpretada por Denise Dumont, é uma das filhas de  Laura e sugere um relacionamento aberto à seu marido após se apaixonar por outro homem, é uma jornalista em começo de carreira sedenta por conhecimento.

Através dos pais de Alice, a série debate a sexualidade na velhice e o processo de envelhecimento em sí. É difícil não comparar “Quem ama não mata” com “Felizes para sempre?” e me impressiona a maneira em que o olhar sobre a velhice (especialmente feminina) tem se transformado. Na primeira versão, os pais são conservadores e encaram a velhice como um “momento de descanso” a qual enxergo como uma preparação para a morte.

Na segunda versão, o casal vê a velhice como uma oportunidade de fazer aquilo que não fizeram quando jovens. E em relação a mulher, a Norma, ainda há uma questão importante: o marido não consegue satisfazê-la sexualmente e o casal entra em conflito quando ela, professora universitária, é assediada e se sente atraída por um professor mais jovem.

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A reflexão sobre a maternidade realizada na série é algo que me encanta. Alice possui um desejo incontrolável de ser mãe, mas acima de tudo, se sente na obrigação de fazê-lo para agradar o marido e satisfazer a família. E é através desse desejo que ela passa a ser controlada pelo marido, que depois de se descobrir infértil, assume uma postura extremamente machista, impedindo a esposa de sair e exigindo que ela se comporte de determinada maneira. A falsa ideia da vida perfeita através da maternidade é quebrada pela figura de Laura, que é uma péssima mãe e que provou, de todas as maneiras, não ter nascido para o “ofício”.

Ainda há um personagem que eu adoro, trata-se de Yara, interpretada por Ângela Leal. Em determinado momento da trama, ao desconfiar de sua infertilidade, o marido de Alice procura Yara no intuito de saber o que aconteceu com o filho que tiveram juntos, anos atrás. Ao vê-la ele se surpreende pois quando jovem, era uma menina pobre e sem instruções. “Fiz um aborto”, ela diz para ele, ostentando um cargo alto em uma empresa de empréstimos e ainda completa “O filho não era seu”.

Então é isso, fica a dica da serie… que achei inteligentíssima e cheia de questionamentos sociais. Se gostarem, espero que voltem aqui para comentar!

:*

Dias melhores virão

dias-melhores-virao-291Infelizmente não estou familiarizada com produções nacionais da década de 80. Há aspectos técnicos e contextuais que desconheço. Ainda assim, gostaria de comentar um pouco sobre o filme que revi na noite passada e que como sei, foi importante para o fortalecimento da identidade do cinema brasileiro.

“Dias melhores virão”, de 1989, é um filme dirigido por Cacá Dieguez – que traz Marília Pêra, José Wilker, Lília Cabral, Zezé Motta, Rita Lee e Paulo José no elenco. Na história, acompanhamos o cotidiano de Marynalva Matos (Pêra), uma dubladora que sonha em ser atriz de Hollywood. Apesar dos figurinos vibrantes e de uma aparente alegria, Marynalva ou Mary, como prefere ser chamada, é uma mulher marcada por uma vida solitária e infeliz.

Mary transfere seus profundos desejos (e fantasias) para os personagens e para as histórias dos filmes americanos que dubla. Como cortina, conhecemos os pequenos dramas dos colegas (também dubladores) que trabalham com Marinalva, entre eles Dalila (Zezé Motta), uma mulher negra que mora um senhor de idade maluco e que, ao contrário da personagem principal, é extremamente realística.

País vagabundo, povo fodido:

Dias melhores virãoPeço desculpas pelo subtítulo, mas é que não consegui pensar em outro mais adequado. “Dias melhores virão”, apesar de ser extremamente caricato, carrega consigo o que o brasileiro sentia no início dos anos 90 (e que de alguma forma, ainda sente). Marynalva é pobre, vive no subúrbio, toma sua cervejinha no final de semana e vive como amante de um homem, que nunca abandonará a mulher para ficar com ela. Para Marynalva, não há nada mais bonito do que a língua inglesa e seu sonho, é igualar-se à estrelas do cinema americano. Aliás, Marynalva não é nome de estrela, por isso, ela troca decide mudá-lo para Mary Matos.

Sua vizinha Dalila é negra, pobre e trabalha duro para conseguir sobreviver (ela brinca várias vezes que não pode ser vista pela polícia conversando com um branco porque será confundida com bandido). Sua outra colega trabalha vendendo rendas para ter umDias melhores virão Rita Lee dinheiro extra no final do mês. Pompeu (Paulo José) é um cineasta sem sucesso que nunca conseguiu verba para realizar um filme.

Como todo mundo sabe, a autoestima do brasileiro estava baixa, não tinha dinheiro, nem confiança e tudo que era vinha do estrangeiro, era melhor. O próprio titulo do longa é muito sugestivo: ‘Dias melhores virão’, uma síntese do próprio país (um país do futuro, uma promessa – que nunca se concretiza).

A trama inicia-se com a chegada de um rolo de filme americano muito aguardado pelos personagens. Através de um flashback, entendemos porque aquele filme é tão esperado. Voltamos então no tempo e conhecemos a história de Marynalva que já no primeiro dia de trabalho, mostra-se encantada com o seriado pelo qual foi contratada para dublar. Na tela, uma Rita Lee quase irreconhecível, falando em inglês é apresentada como uma atriz que estrela uma série americana (ao estilo I Love Lucy).

Gosto especialmente da interpretação de Zezé Motta, que me passa uma honestidade muito grande e que se contrapõe a excentricidade de Marília Pêra. (não que essa excentricidade seja ruim). Na trama, Dalila recebe inúmeras cartas de um gringo que se apaixonou por ela quando esteve no Brasil durante o carnaval. Ele a pede em casamento e sugere que ela vá morar com ele no México. Como Dalila não fala inglês é Marynalva que traduz todas as suas cartas. A decepção de Marynalva a ver o sucesso da vida amorosa da amiga é evidente (e paradoxalmente engraçada).

A vida amorosa de Marynalva foi um desastre desde muito cedo. A personagem vive assombrada pela imagem de Gabriel, seu primeiro namorado. Ela conta a história que quando tinha dezesseis anos, os dois saíram de um baile e após uma boa transa, Gabriel queria se exibir para ela em sua moto. O rapaz não viu o caminhão de lixo se aproximar, sofreu um acidente e morreu na hora.  Marynalva se afogou em um mundo depressivo e decidiu não sair mais do apartamento, vivia lendo revistas e vendo TV.

Pompeu se apaixona imediatamente por Marynalva e divide com ela todos os seus sonhos. Ironicamente, Marynalva não nutre o mesmo amor por ele e o usa para espionar o amante.

Deboche e Plasticidade:

Há uma cena muito divertida em que Mary chega em casa, depois de um dia de trabalho, liga a TV e começa a assistir uma entrevista do Daniel Filho, falando sobre a situação do cinema brasileiro. A personagem observa um pouco a tela e depois faz uma careta, debochando das nossas produções. E não é que somos nós? De alguma forma, descrentes no cinema nacional?

Marilia pERAO longa é todo muito plastificado o que evidencia uma intencionalidade, exemplo é que quando Mary caminha para chegar em casa, é usual o surgimento de um morador de rua ou de um bandido (todos, negros mas pouco convencionais). Outra coisa interessante é que apenas Mary usa perucas, roupas exageradas e de cores fortes, portanto é o quesito identificador de sua excentricidade, afinal, diferente dos outros, Mary é um personagem absolutamente lúdico.

Mary é uma doce referencia a Carmen Miranda, uma atriz/cantora que conseguiu fazer sucesso em Hollywood. E qual é vantagem? ‘Ela ganha em dólar, responderia um dos personagens. Mas também tem que fazer todas as vontades do estudo. –E daí, se ganha em dólar? (*Marynalva consegue chegar nos EUA e fazer sucesso, mas sua personagem é uma empregada, porque é esse o lugar que Hollywood nos reserva).

Aurora: Aurora Miranda aparece pouco no filme, mas não passa despercebida. Aquela participação na trama, uma sutil homenagem a sua carreira e a carreira da irmã, Carmen Miranda é também um trabalho metalinguístico. O personagem é bastante caricato, não se sabe muito bem o que ela faz ali, às vezes ela aparece cantando, outras, dublando. Independentemente, a história de Aurora se Aurora Miranda em Dias Melhores Virão mistura com a de Carmen, com a de Marynalva e com a de tantas outras mulheres que um dia nutriram o sonho de ir para Hollywood. Como se sabe, Aurora também foi cantora e ao lado da irmã, gravou inúmeros sucessos. Pouco tempo depois que Carmen foi para Hollywood, Aurora seguiu seu passos. Moraram juntas em uma mansão em Beverly Hills. Enquanto a carreira de Carmen decolava, a de Aurora afundava. Ela decidiu se dedicar inteiramente a família e aos filhos e parou de cantar ou gravar discos. Ruy Castro conta na biografia de Carmen, que Aurora não se dava muito bem com David Sebastian (marido de Carmen) e por isso, decidiu voltar ao Brasil com os filhos. Quando chegou, teve um choque cultural grande, estava acostumada com as ruas limpas da América, com a beleza e com a vida boa. Quis voltar, mas já não tinha jeito. Aurora também tentou recomeçar a cantar no Brasil, mas suas músicas já tinham ‘saído de moda.