Lost Crossing

 Não tinha planejado essa publicação e também não queria remendar o último post que fiz sobre The Walking Dead, mas acabo de descobrir que a Melissa Mcbride me segue no Twitter e isso me deixou bastante entusiasmada. Como disse anteriormente, estou encantada pela atriz e por seus cabelos curtos. Em 2007, Melissa participou de um média-metragem chamado “Lost Crossing” – algo como: Viagem perdida ou Travessia perdida. O filme, produzido pela BlueLantern Films tem  trinta e três minutos e possui uma trama bem interessante.

Marie (Carrie-Rose Menocal) é uma menina de quinze anos que fugiu de casa. O ônibus em que se encontra quebra e ela se vê obrigada a esperar o concerto. Nesse meio tempo, a garota conhece outra passageira: Sheila (Mcbride) que sugere que as duas dividem um quarto de hotel até conseguirem seguir viagem. Inicialmente, elas constroem uma relação amistosa, até que Sheila revela um antigo segredo e começa a demonstrar um comportamento obsessivo.

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É estranho, mas esse pequeno filme de apenas trinta minutos me remeteu a tantas coisas, a tantas músicas, livros e personagens que eu acho que poderia ficar até amanhã escrevendo sobre ele. Primeiro porque a Melissa Mcbride está fantástica, ela carrega o filme nas costas e possui uma interpretação muito densa. Segundo porque o tema, apesar de uma rápida abordagem do filme, abre caminho para discussões mais profundas.

Marie e Sheila vão a um supermercado e um homem com quem tinham se desentendido anteriormente as ameaça. Sheila bate em si mesma e ele afirma: “Você é uma vadia louca!” e Sheila responde: “Eu te disse!”.  Há algo que nós é confidenciado nesse instante. Não só pela cena, pelo diálogo, mas pela trilha sonora. Depois de jogarem boliche, Sheila diz a Marie que compreende o porquê ela fugiu de casa e diz que passou pela mesma coisa, que sofreu abusos sexuais do pai quando tinha doze anos e que a mãe foi relapsa.

Quando Marie descobre um remédio controlado na bolsa de Sheila e percebe onde se meteu, ela tenta ir embora, mas já é tarde. E é aí que Melissa Mcbride se transforma (na cena seguinte em que Sheila não encontra seus remédios) ela aparece com os olhos manchados de maquiagem, com uma feição inquieta, assustadora. [Eu não sou nenhuma estudiosa de comportamentos ou de doenças mentais, mas acho que impressionante o preconceito – e a falta de conhecimento que existe sobre o tema.] Marie encontra uma foto antiga de Sheila com a filha e a imagem é até um pouco perturbadora: Onde está essa menina? O que aconteceu com ela?

Quando Sheila senta na cama e não consegue se mover, de tanto chorar, senti a aflição daquela mulher que tenta cuidar de uma criança, quando não consegue cuidar nem de si mesma. É como se ela se perguntasse: “O quê estou fazendo comigo”? Quem sou eu? Por que eu sou assim? ’ Depois eu fiquei me questionando, será que eu estou viajando demais? Isso se deu em apenas uma cena e a personagem sequer falou alguma coisa. Acabei me lembrando de um texto que li a poucos dias do Ricardo Costa onde ele diz o seguinte:

“Na narrativa, vazios e silêncios são signos, em elipse, de sentidos harmônicos. Fazem parte da música da imagem, mesmo quando se fala de cinema mudo. Há de fato silêncios que falam, tal como os vazios criados numa sequência de imagens. Neles vibram, como numa caixa de ressonância, sonoridades e sentidos de determinadas palavras, neles reverberam sinais e formas de certas imagens. Imagens ou palavras articuladas são o fio que nos conduz. Os silêncios que elas criam são o leito que nos embala. De uma maneira ou de outra, um filme é sempre quadro de melodia, filme mudo e partitura.”

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Sheila começa a se aproximar da garota e há algo até “sexual” entre elas, como se Sheila estivesse atraída pela menina. Marie promete não abandonar Sheila, mas assim que ela adormece a garota vai embora. Sheila se vê sozinha novamente e enquanto está sentada em uma estação, repara em uma pequena menininha. Sheila nunca vai parar. Ela se vê naquelas garotas, é como se fosse um reflexo do que ela foi quando pequena. Ao mesmo tempo ela tem um instinto, como se precisasse protegê-las, como se não pudesse ficar sozinha e provavelmente lembra da filha – que deve ter morrido ou algo do tipo.

A personagem de Melissa me lembrou muito, muito mesmo “Atração Fatal” e logo  me remeteu a Alex Forrest. No filme (de 1987) Glenn interpreta uma executiva emocionalmente desequilibrada que começa a ter um caso com um homem casado (interpretado por Michael Douglas) e que faz de tudo para participar da vida dele: custe o que custar. O que era para ser um caso extraconjugal qualquer acaba se tornando um pesadelo, Alex persegue a mulher do cara, sequestra a filha dele e provoca situações que se tornaram antológicas no cinema americano– Esse é um filme muito bacana e eu espero poder escrever sobre ele no LA AMORA  um dia.

Glenn Close

Sou apaixonada com esse filme e me lembro de ter assistido em um dos extras do DVD uma entrevista em que a Glenn Close dizia que não se sentiu a vontade com o final da personagem. Em principio, Alex cometeria suicídio, mas parece que a ideia não agradou ao público e ela acaba sendo assassinada. Na entrevista Glenn passa bastante tempo discutindo a possibilidade de  que Alex tenha sofrido abusos sexuais quando criança.

Glenn é praticamente uma militante e há muito anos luta contra os estigmas sobre as doenças mentais – ela possui uma fundação chamada “Bring Change 2 Mind”, participa de inúmeras palestras, projetos de incentivo à informação e tem como exemplo a própria família que durante gerações apresentaram doenças mentais como bipolaridade e esquizofrenia. (Leia mais sobre o trabalho dela nesse link: Nucleo Tavola)

Como disse, o filme me remeteu a outros personagens e esses três são especiais – ficam como dica para quem se interessou no assunto e gosta do tema:

* Louca Obsessão é outro clássico do cinema americano. Produzido em 1990, o filme – baseado em um livro de Stephen King – conta a história de Paul Sheldon, um escritor que sofre um acidente de carro e é socorrido pela enfermeira Annie (Kathy Bates) que diz ser sua fã numero um. Annie cuida de Paul e em agradecimento, ele permite que ela leia seu último livro (que se não me engano, ainda não tinha sido lançado) onde a personagem principal – e favorita de Annie – morre. A enfermeira vai a loucura, fica revoltada e tenta se vingar do escritor.

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* A professora de piano é um filme de 2000, dirigido por Michael Haneke – só pra constar, sou alucinada nele! A trama conta a historia de Erika Kohut (Isabelle Huppert) uma professora que trabalha no Conservatório de Viena. Ela possui um comportamento ortodoxo e aos quarenta anos, ainda vive com a mãe (Annie Girardot). Quando não está dando aulas, Érika gosta de frequentar cinemas pornôs e peep-shows. Ela conhece Walter Klemmer (Benoit Magimel) e acaba se relacionando com ele, mas o envolvimento dos dois sai do controle quando Erika começa a sugerir jogos sádicos e perversos.

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* Uma Rua Chamada Pecado: Clássico, clássico, clássico de 1951 – baseado na obra de  Tenesse Williams. O filme conta a história de Blanche Dubois  (Vivien Leigh), uma mulher neurótica que vai visitar a sua irmã grávida Stela (Kim Hunter) em Nova Orleans e acaba não se entendendo com o cunhado Stanley Kowalski (Marlon Brando), um homem com comportamento questionável e abusivo que lhe causa repulsa.  – Ok, esse resumo está pessimo, o filme é muito, MUITO mais do que isso!

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Bom, eu sei que eu me alonguei muito nessa publicação, mas não consegui resistir. O curta é muito interessante e por sorte, ele está disponível na internet. Deixo o link do vídeo de “Lost Crossing” abaixo:

A Onda

“O mal-estar da pós-modernidade” é o primeiro livro de Zygmunt Bauman que leio. Aliás, ainda estou no primeiro capítulo e algumas das reflexões realizadas na segunda parte, intitulada: ‘A criação e anulação dos estranhos’ me remeteu ao filme A onda (produção de 2008, drigida por Dennis Gansel).

Baseado em fatos reais (ocorridos na Califórnia em 1967), A onda conta a história de Rainer Wegner (interpretado por Jürgen Vogel), um professor de ensino médio que precisa dar aula de autocracia, mas que não gosta do tema e percebe um desinteresse por parte dos estudantes. Como solução, sugere que o grupo faça um experimento prático sobre as dimensões e mecanismos do fascismo e cria, junto aos alunos, um movimento intitulado ‘A Onda’.  O movimento basea-se na força pela disciplina e Wegner torna-se o líder, impondo ordens que devem ser seguidas dentro da sala. A Onda entusiasma os alunos que passam a propaga-la pela escola, pela internet e até pela cidade: quem não concorda com as regras é automaticamente excluído. O que era para ser apenas um exercício foge do controle de Wegner e quando ele tenta interrompê-lo, percebe que o movimento está muito mais forte do que ele imaginava.

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Wegner pede que os alunos enumerem as principais características de uma autocracia e em resposta eles dizem: “são iguais a de uma ditadura”. O professor então responde: ‘Sim, mas não só isso, a autocracia acontece quando um indivíduo ou um grupo dominam sobre uma massa”.  Auto deriva do grego e significa si, Kratia significa governo/poder. Em sala eles concluíram que autocracia acontece quando um grupo concentra tanto poder em suas mãos que pode alterar leis como e quando bem entenderem. O principio básico dessa forma de governo é: a ideologia, o controle e a supervisão. Além disso, vários fatores facilitam o surgimento da autocracia, entre eles: alto desemprego, injustiça social e alta taxa de inflação. Wegner diz que toda a autocracia precisa de um símbolo de identificação e de um líder, em pouco tempo, A Onda possui não só um símbolo, como também um ‘comprimento’ e um uniforme.

Wegner pede que os alunos usem, a partir daquela data, uma camisa branca e divide entre eles algumas funções: criar o símbolo, uma página na internet e frases de identificação. A abordagem sobre os uniformes logo me lembrou o texto de Bauman quando ele cita Elias Canetti e diz o seguinte:

“Em algum momento do nosso século se tornou comum à compreensão de que os homens uniformizados devem ser mais temidos. Os uniformes eram o símbolo dos servidores do estado, essa fonte de todo o poder e acima e de tudo do poder coercitivo ajudado e favorecido pelo poder que absolve da desumanidade. Envergando uniformes, os homens se tornam esse poderem nome do estado. O estado que vestiu homens de uniforme, de modo que estes pudessem ser reconhecidos e instruídos para pisar, e antecipadamente absolvidos da culpa de pisar, foi o estado que se encarou como a fonte, o defensor e a única garantia da vida ordeira: a ordem que protege o dique do caos.”

Karol, uma aluna aplicada de Wegner, percebe que o movimento está tomando dimensões inesperadas e pede que o professor pare com o projeto. Ela nega-se a ir de uniforme às aulas e não concorda em divulgar o símbolo da Onda. Intencionalmente, Wegner – cumprindo o papel do líder – passa a ignorar Karol, não responde a suas perguntas nem deixa que ela opine nas discussões da sala. Karol torna-se alvo da fúria dos outros alunos (influenciados pela postura do professor) que a enxergam como uma traidora. Sobre a ação punitiva aos que transgridem as ordens, Bauman realiza uma complexa metáfora entre o desejo humano de atingir a pureza e a anulação dos estranhos. Para o autor, não importa qual a espécie de sociedade, cada uma delas produz sua própria espécie de estranhos.

“Se os estranhos são as pessoas que não se encaixam no mapa cognitivo, moral ou estético do mundo – num desses mapas, em dois ou em três, se eles, portanto, por sua simples presença, deixam turvo o que deve ser transparente, confuso o que deve ser uma coerente receita para a ação, e impedem a satisfação de ser totalmente satisfatória,se eles poluem a alegria com a angústia,  ao mesmo tempo que fazem o atraente o fruto proibido, se, em outras palavras, eles obscurecem e tornam tênues as linhas de fronteira que devem ser claramente vistas, se, tendo feito tudo isso, geram a incerteza, que por sua vez dá origem ao mal-estar de se sentir perdido – então, cada sociedade produz esses estranhos. Ao mesmo tempo que traça suas fronteiras e desenha seus mapas cognitivos, estéticos e morais, ela não pode senão gerar pessoas que encobrem limites julgados fundamentais para a sua vida ordeira e significativa, sendo assim acusadas de causar a experiência do mal-estar como a mais dolorosa e menos tolerável”

A ONDA

[Spoiler!]

Como disse anteriormente, a situação foge do controle e os garotos passam a veicular mensagens de ódio aqueles que não fazem parte do movimento. Um dos estudantes, o mais entusiasmado com a ideia de um novo ‘nazismo’ não aceita o fim da Onda e ameaça matar o professor. É interessante observar que o próprio professor estava imerso naquele jogo perigoso e não queria, mesmo aos pedidos da mulher e do diretor, acabar com a Onda. Percebendo que não havia mais nada o que fazer, Wegner se reúne com os alunos e determina o fim da ‘brincadeira’.  O aluno – aquele mais entusiasmado, se suicida.

A trama nos chama atenção para vários aspectos, não é atoa que existem inúmeros artigos e publicações a respeito. Ele incita a reflexão sobre a figura do professor (e de sua influência) em sala de aula e também nos faz pensar sobre o quanto somos envolvidos em discursos atraentes (seja do governo, da mídia…).

Indico dois sites que eu gosto muito e que fizeram ótimas críticas sobre o filme:

Crítica daquele Filme

Revista História

REFERÊNCIA: O mal estar da modernidade/ Zygmunt Bauman; tradução Mauro Gama,  Claudia Martinelli Gama: revisão técnica Luís Carlos Fridman – Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 1998

Terras Perdidas

Terras Perdidas (A Thousand Acres) é um belo filme e ainda que pese pelo argumento melodramático, continua servindo como representação das imperfeições e inquietudes humanas. A famosa frase de Tolstoi (afixada nas primeiras páginas de Anna Karenina) resume bem o argumento do longa: “As famílias felizes são todas iguais; mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

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O enredo foi baseado no livro de Jane Smiley (que por sua vez, inspirou-se na clássica obra de Shakespeare: ‘O Rei Lear’) e conta a história da família Cook – que por três gerações cuidaram de uma fazenda com mais de mil acres em uma das regiões mais férteis de Iowa. Larry (o patriarca) percebendo sua incapacidade em administrar os negócios por causa da velhice, decide dividir a terra entre suas filhas (Rose, Virginia e Carol). Carol, a mais nova, questiona a decisão do pai e não aceita a divisão. Larry, que não gosta de ser contrariado, deserda Carol e impede que ela se aproxime da fazenda. A decisão de Larry desencadeia diversas situações desagradáveis e traz à tona segredos dolorosos.

Jocelyn Moorhouse (também diretora em Colcha de Retalhos) usa sabiamente os cenários externos e explora o tom emotivo através do perfil literário. Virgina (a irmã mais velha) narra a história e além de contextualizar o espectador, exprime um olhar participativo (em primeira pessoa) sobre o que se passa. Diferente de Carol (interpretada por Jennifer Jason Leigh), que é financeiramente independente e se mudou para outra cidade ainda muito jovem, Rose e Virginia construíram suas casas junto a seus respectivos maridos ao lado de Larry – que é praticamente um tirano – e tiveram que conviver com suas imposições.

Michelle Pfeiffer e Jessica Lange (que recebeu uma indicação ao Globo de Ouro) são as precursoras da trama e junto a Jason Robards trazem realismo ao enredo. Virginia e Rose possuem personalidades diferentes mas confraternizam sentimentos semelhantes em relação ao pai e de alguma forma, se acostumaram a viver em uma sociedade ortodoxa e machista. Um dos grandes méritos de Moorhouse é o respeito pelo aspecto psicológico dos personagens – ela constrói inter-relações que permeiam a passividade e a violência (o que, de fato, acontece na vida real).

Jessica Lange Michelle

Larry já não é uma figura simpática e se torna menos convidativo quando descobrimos que abusou sexualmente das filhas mais velhas. A dramaticidade do diálogo se dá porque Rose incita Virginia a confessar que também foi abusada sexualmente por ele. É interessante observar a discrepância de personalidades: enquanto Virginia acreditava que precisava aceitar a atitude do pai, Rose confessa que se sentia seduzida. As duas dividem um rancor enorme em relação a ele e, diferente de Carol, tiveram que aprender a lidar com a repulsa por causa da necessidade de convivência.

A carga dramática da trama é acentuada pelos problemas que contornam o universo particular de Virginia e Rose. Enquanto Virginia possui um casamento infeliz e não consegue ter filhos, Rose apanha do marido e precisou retirar um seio por causa do câncer que a acometeu anteriormente. Nesse ponto as duas se esbarram novamente pois acabam tendo uma relação extraconjugal com o mesmo homem (interpretado por Colin Firth). Rose que tem uma postura mais fria revela que sabia do que se passava e não se importava com a situação, em contrapartida, quando Virginia descobre que a irmã também se relacionava com ele, leva um choque e além de mostrar-se culpada (por causa do marido) reprime seu desejo e se distancia do amante. – Gosto desse momento da trama porque o espectador também é  pego de surpresa: não só pelo fato das duas dormirem com o mesmo homem, mas também pela postura insensível de Rose.

Carol volta a conversar com o pai e em uma reviravolta, entra com um processo contra as irmãs. A briga em família toma proporções maiores quando as pessoas da cidade passam a defender o velho Larry, acreditando que suas filhas mais velhas são na verdade, duas oportunistas. É interessante a discrepância entre gêneros, o machismo chega a tal ponto que o advogado de Rose e Virginia sugere que elas usem vestidos para transparecer um comportamento mais feminino e tradicional.

As sessões com o juiz se tornam uma oportunidade para que os quatro lavem as roupas sujas, Rose revela sobre o abuso sexual e Carol não acredita nela. Enquanto isso, a relação entre Rose e Virginia se torna cada vez mais forte e as duas percebem que, apesar de todos os problemas, podem contar uma com a outra. Tudo piora com a morte do marido de Rose e com o retorno inesperado do câncer de mama. Virginia é colocada a prova e começa a repensar sobre o que fazer da própria vida.

Jesus Henry Christ

Amo a Toni Collette e passei a amá-la mais ainda depois que vi esse filme. “A origem da vida” (título em português) é uma doce homenagem aos que não se encaixam, aos estranhos, aos “freaks”, aos marginalizados. Com uma narrativa dinâmica e sarcástica, a trama conta a história de Henry, um menino superdotado que não consegue se adaptar em nenhuma escola e que tem um desejo incontrolável de descobrir a identidade do seu pai. Em seu aniversário de dez anos, seu avô revela que Patrícia (sua mãe) fez uma inseminação artificial e que ele possui uma irmã.

Henry descobre que seu pai biológico é um professor neurótico e decide estudar na faculdade onde ele trabalha para explorar suas origens. Apesar de contrariar as vontades de Patrícia (que faz de tudo para protegê-lo), Henry se aproxima de Audrey (sua meia irmã, uma menina pouco amigável e tão estranha quanto ele). Audrey, que tem 13 anos, enfrenta um problema: seu pai escreveu sua biografia que, além de ser um sucesso, revelava sua homossexualidade.

Jesus Henry Christ

Dirigido por Denis Lee e produzido por Julia Roberts, “Jesus Henry Christ” apresenta uma bela fotografia e um delicioso clima nostálgico. A narrativa inicia-se nos anos 70 e nos contextualiza sobre a infância de Patrícia que aos dez anos, teve que enfrentar sucessivas mortes (e partidas) de entes queridos. Enquanto ela ficou cuidando do pai, um de seus irmãos decidiu sair de casa. o outro morreu de AIDS e os gêmeos morreram em um terrível acidente. Para piorar, Patrícia  viu sua mãe morrer queimada logo no dia do seu aniversário, o que lhe deu uma tremenda fobia de acender velas.

Desde que era pequena sua família tinha o costume de dizer “Jesus H. Christ” em situações desconfortáveis, o que virou um bordão e a seguiu pelo resto da vida. Quando se tornou mãe, Patrícia teve uma surpresa: seu filho nasceu falando, tinha uma memória inigualável e um dos maiores QI’s do mundo. Henry chamou a atenção da mídia e, por sua inteligência, foi aceito na faculdade.

Jesus HenryToni Collette é maravilhosa, consegue transpor todo o tipo de emoção em diálogos simples e em situações em que poderia passar despercebida. Jason Spevack e Samantha Weinstein dividem as atenções: apresentam uma química maravilhosa e encabeçam as melhores cenas. Frank Moore e Michel Sheen também são indispensáveis, acentuam o clima descontraído do filme e ajudam a balancear a dosagem dramática;

Como disse anteriormente, “Jesus Henry Christ” foge do convencionalismo e de uma maneira bem delicada (engraçada e irônica) ilustra a situação dos marginalizados. No filme também acompanhamos a situação homem branco que se comporta – e se sente  – como um negro, a da professora muçulmana que precisa aturar o desrespeito dos alunos, a da secretária brasileira que todo mundo acha que fala espanhol, a da mãe solteira, da lésbica, do neurótico e do gênio. Todos são pessoas sem “voz”, que não estão representados na mídia e que, antes de qualquer coisa, precisam se aceitar.

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Há quem critique essa intenção da produção de ser “cool” (e é compreensível). De fato há algumas situações que poderiam receber uma abordagem diferente como, por exemplo, a expulsão de Henry por heresia. Ainda assim, o filme merece a atenção e é um ótima opção de “passatempo”. Fui conquistada pelo formato, pelo argumento e pela trilha sonora – o aspecto teatral da cena final, com Toni Collette fechando as cortinas ao som de “Home Sweet Home” me deixou rendida.

FICHA TÉCNICA:
Título Original: Jesus Henry Christ
Genero: Comédia
Duração: 92 minutos.

O que terá acontecido a Baby Jane?

Tenho medo de escrever sobre clássicos, sinto que a maioria do que poderia ser abordado já foi explorado exaustivamente. Com “O que terá acontecido a Baby Jane” não é diferente, há inúmeras análises, releituras e várias interpretações sobre o longa. Não é pra menos, Baby Jane é um dos filmes mais interessantes que existem.

Antes de escrever sobre ele e sobre todas as coisas que já li, tenho que ressaltar que esse é um dos meus filmes favoritos. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que o vi: o filme passou de madrugada em um canal aberto da TV e eu tive uma súbita paixão por Joan Crawford (e por suas sobrancelhas grossas). Foi com aquelas mulheres estranhas que apareciam na tela que eu finalmente entendi: “É de cinema mesmo que eu gosto”. Passei a pesquisar sobre elas, comprei livros e colecionei (e ainda coleciono) seus trabalhos.

Pra mim não existe filme que se iguale a ele, há um clima de decadência e disputa, além de um registro sarcástico da vida artística, da insanidade e do rancor.

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Baseado no livro de Henry Farrell (leia mais sobre ele aqui: Indiscreet Talkin), o filme conta a história de duas velhas irmãs que vivem em uma mansão em Hollywood.  Jane (Bette Davis) foi uma estrela mirim que caiu em esquecimento e que cuida de sua irmã Blanche (Joan Crawford) que também foi atriz quando jovem, mas sofreu um acidente que a deixou paralítica.

As duas vivem uma interminável disputa (que só veio a piorar depois do acidente, já que Jane foi considerada suspeita). Enquanto Blanche não apresenta boas condições físicas, Jane é alcoólatra e mentalmente instável. Baby Jane se transformou em uma figura grotesca que vive em uma realidade paralela, distorcida – li em um artigo que a personalidade de Jane indica a possibilidade de ela ter sido abusada sexualmente quando criança, talvez e provavelmente, pelo pai.

A trama inicia-se em 1917 e o diretor nos situa sobre o clima de disputa entre as duas que desde muito jovens sentem inveja uma da outra. A pequena Baby Jane Hudson se apresenta em um teatro lotado onde, perto dali vendem suas bonecas. Enquanto isso, observando os bastidores, Blanche sofre pela desatenção do pai e garante que um dia se vingará da irmã. Depois, em 1935, acompanhamos a decadência de Jane que só consegue papéis em filmes por causa de Blanche, que se tornou uma atriz de sucesso.

A abertura (que é genial) ilustra o acidente e nos contextualiza sobre a tragédia que se abateu sobre Blanche, que ficou paralítica. Já em 1962, temos  um retrato dos efeitos do tempo sobre as duas: enquanto Blanche vive enclausurada em seu quarto e é impedida de receber o carinho dos fãs, Jane está cansada de cuidar da irmã e aproveita-se do seu dinheiro para tentar voltar a fazer sucesso.  Jane comete várias barbaridades com Blanche (em uma famosa cena, por exemplo, lhe serve ratazana no jantar). A ação se torna completa com quatro importantes coadjuvantes: Elvira (Maidie Norman, a empregada), Edwin (Victor Buono, o pianista), Mrs Bates (Anna Lee, a vizinha) e Barbara (a filha da vizinha – na vida real, filha da Bette Davis).

Loucura, humor negro e perversidade

Apesar de todas as dificuldades, de algumas falhas no roteiro e problemas durante a produção Robert Aldrich (que aliás, teve uma importante participação no movimento “noir”) acertou na loteria e acertou em cheio – tanto que depois tentou usar a mesma fórmula sem êxito.  Quando começou a ser produzido, “Baby Jane” (classificado por muitos como um filme B) aguçou a curiosidade dos que não acreditavam que Aldrich conseguiria juntar Davis e Crawford no mesmo filme. Tudo isso por um simples motivo: Bette e Joan foram inimigas durante anos.

Joan Crawford trabalhou com Robert Aldrich em 1956 no filme “Folhas de Outono” e já tinha uma boa relação com o diretor. Em entrevistas, ele deixou claro que Crawford havia expressado o desejo em participar de um filme com Davis. Para Aldrich foi mais difícil convencer Bette a participar de Baby Jane, não só porque ela iria contracenar com a grande inimiga, mas porque seu papel era pouco atrativo e a colocava em uma situação arriscada. Davis percebeu a importância do personagem e acabou abraçando a ideia.  É interessante observar que, apesar do sucesso de filmes como ‘Crepúsculo dos Deuses’ ou ‘Uma Rua Chamada Pecado’ a abordagem de transtornos psiquiátricos em filmes não era comum na década de 60.

O sucesso do filme não se deu apenas pela famosa briga entre as protagonistas, há aspectos técnicos que merecem atenção e que muitas vezes passam despercebidos. Aldrich priorizou o universo feminino, os poucos homens que aparecem em tela possuem um papel secundário. A histeria das mulheres é explorada já nas cenas iniciais quando Baby Jane implora por um sorvete e Blanche se nega a aceitá-lo (o pai não possui voz ativa e cede aos desejos da filha mais nova). Já em 1962 o pianista é um agente passivo diante das decisões da mãe que o obriga a trabalhar com Jane e o convence a tentar tirar proveito dela.

As vizinhas e a empregada reforçam o “cast” e acentuam o clima de desconforto e disputa. Enquanto Bárbara e a mãe são fofoqueiras e ficam atentas, espiando as ações de Jane, Elvira (a empregada) está dentro da casa mas não toma nenhum atitude (e paga um preço caro por isso).

Bette Davis Baby Jane

O que terá acontecido a Baby Jane possui um incrível trabalho semiótico. Que vai tanto do cenário, gótico e melancólico, até as roupas. Aldrich foi incrivelmente sábio em relação a construção do cenário. A casa dos Hudson faz parte da narrativa e possui características fundamentais para o desenvolvimento da trama: primeiro, é enorme acentua a sensação de solidão e de medo, segundo, é fria e escura, personifica o clima de terror, de fobia. 

O figurino também é um “detalhe” fundamental. Jane, apesar da maquiagem sombria, veste roupas claras. Blanche, em contraste, usa roupas escuras, está sempre com o cabelo preso. Como sabemos, Jane sempre foi uma garota mimada, mas o primeiro instinto assassino partiu de Blanche. Enquanto Jane possui uma personalidade infantil, explosiva, Blache possui auto-controle, é polida.  É como se Aldrich mandasse uma mensagem subliminar, deixando logo de cara que há uma possível inversão de valores.

Bette Davis x Joan Crawford

1962 - Bette Davis e Joan Crawford em reunião com os produtores de "O que terá acontecido a Baby Jane?"
1962 – Bette Davis e Joan Crawford em reunião com os produtores de “O que terá acontecido a Baby Jane?

Hoje de manhã estive pensando em um termo que pudesse definir a situação das duas em 1962 e não encontrei nada mais apropriado do que: “humilhação”. Elas já não tinham uma posição de poder nas filmagens e quase imploravam por um emprego. Na época, Jack Warner se negou a liberar um estúdio para as gravações e ainda disse que não iria ajudar duas “velhas”.  Crawford e Davis se odiavam, mas aceitaram trabalhar juntas por necessidade, o que de alguma forma é bastante irônico e triste porque foram ridicularizadas.

Pouco se sabe sobre como e onde essa briga começou, alguns dizem que nem elas sabiam. Acontece que essa rivalidade levantou inúmeras teorias (eu juro, já li tanta coisa que não sei em quê acreditar!):  Dizem que Davis tinha inveja de Joan, que era uma mulher linda. Dizem que Joan tinha inveja de Davis, que era muito talentosa. Que Joan estava apaixonada por Davis. Dizem que Joan e Bette se apaixonaram ao mesmo tempo por Franchot Tone. Que brigavam por suas produtoras, Bette era a grande estrela da Warner e Joan, da MGM.

A rixa era antiga, por muitas vezes Bette Davis afirmou que Joan Crawford só conseguia bons papéis porque dormia com os diretores, em contrapartida Crawford dizia que Bette não tinha talento e era cheia de maneirismos. Bette, que tinha a língua afiada afirmou: “Joan dormiu com todos os astros da MGM, com exceção de Lassie.” / “Se Joan Crawford estivesse em chamas eu mijaria nela para apagar o fogo” / “Por que sou tão boa interpretando vilãs? Talvez porque eu não seja uma vilã. Talvez por isso a Joan Crawford sempre interprete mocinhas.”

joan crawford e Bette DavisA tensão nos bastidores começou logo nos primeiros dias quando Joan Crawford reclamou do camarim que era muito pequeno e ficava próximo ao lixo. Bette desconfiava que Joan dormia com Aldrich e soltava a notícia para toda a equipe. Há boatos de que Joan mandou inúmeros presentes a Bette enquanto estavam filmando e que Bette negou todos, indisposta a qualquer tipo de trégua.

Para mexer com Joan (na época, esposa do diretor da Pepsi Cola), Bette mandou instalar uma máquina de Coca Cola no set, também deu uma entrevista onde dizia que Joan se encaixava perfeitamente no papel de Blanche e que não seria capaz de interpretar um personagem tão grandioso quanto Baby Jane.

Joan não queria fazer cenas de corpo a corpo com Bette porque acreditava que ela poderia machucá-la de verdade, por isso custava a entrar no clima e deixava Davis impaciente (as cenas em que Jane bate no rosto de Blanche demoraram a ser filmadas porque Joan não se sujeitava a Davis). Há quem afirme que Davis realmente chutou a cabeça de Joan em uma das tomadas e que Joan não deixou barato. Davis tinha um sério problema na coluna e em uma das cenas precisava carregar Joan. Bette insistiu para que Joan não fizesse ‘peso morto’ e a ajudasse. Joan não só fez peso morto como também colocou alguns objetos no bolso. Depois de gravar a cena, Davis gritava de dor e precisou ser internada.

Bette Davis e JoanUm dos casos famosos envolvendo as duas deu-se na premiação do Oscar daquele ano. Bette Davis recebeu uma indicação e Joan, não.  É claro que Joan não se conformou com isso e ligou para cada um das outras indicadas, entre elas, Anne Bancroft (que concorria 1963_Joan Crawford Oscarpor ‘O milagre de Anne Sullivan).  Bancroft não podia ir ao evento e concordou em deixar que Joan Crawford a representasse. Ironicamente, Bancroft ganhou o Oscar e Joan subiu ao palco e fez um lindo discurso de agradecimento, na plateia: Bette Davis, roendo as unhas de raiva. Como muitos dizem, ‘naquela noite, Joan saiu vitoriosa.

Quatro amigas e um casamento

Leslye Headland errou na mão e errou feio. “Quatro amigas e um casamento”, apesar de apresentar um elenco interessante, possui diversas piadas de mal gosto e coloca os personagens em situações tão humilhantes que é difícil assisti-lo até o fim. A trama, que segue a premissa de “Se beber não case” é uma versão frustradada da franquia. O filme conta a história de quatro amigas que se conhecem desde o colegial: Becky (Rebel Wilson), Regan (Kirsten Dunst), Katie (Isla Fisher) e Gena (Lizzu Caplan). Becky, que é a gordinha da turma conta para Regan que vai se casar e a convida para ser sua dama de honra. Regan, uma mulher linda (que possui uma carreira de sucesso e um bom namorado) sente uma inveja enorme da “cara-de-porco” e não se empenha em ajudá-la a organizar o casamento. A presença de Katie e Gena também não melhoram em nada pois elas além de se drogarem pouco antes do casamento, estragam o vestido da noiva. 

ImagemFiquei me perguntando porque a ótima Rebel Wilson aceitou participar de um filme como esse. Becky, seu personagem, é constantemente humilhada por ser gorda e, mais do que isso, têm seu casamento boicotado pelas “amigas”. Em certo momento da trama (no mínimo estranho), as meninas pegam seu vestido e o levam em um clube de strip. Uma das dançarinas simplesmente esfrega sêmen nele e limpa suas partes íntimas com o pano. Não bastasse, sujam o vestido de sangue e se negam a comprar outro mais bonito porque acreditam que ela não merece “ser melhor do que elas”. A atmosfera do longa cria um enorme desconforto e é difícil crer que Becky tenha as aceitado como damas de honra. Particularmente, gosto de filmes que abusam do sarcasmo e exploram esse tipo de humor, o problema é que exageraram na dose e tudo me pareceu de um extremo mal gosto.

Outro aspecto estranho é o fato de usarem cocaína indiscriminadamente, passarem por situações constrangedoras (como vomitar na própria roupa, engatinhar, lamber o chão, cortar os pulsos) e agir como se isso não fosse, no mínimo, desagradável. Aliás, uma delas sofre overdose pouco antes do casamento e é difícil torcer para que o personagem se recupere. Talvez, por não ter gostado do filme, quase não tenha percebido a química entre Gena (Lizzu Caplan) e seu ex-marido, ainda mais quando ela afirma que ele a abandonou enquanto ela fazia um aborto (aos quinze anos de idade).

Kirsten Dunst (que apresentou pouca química em relação as outras atrizes) não precisava ter um filme como esses na carreira, completamente desnecessário.

As bem armadas

Apesar de ser protagonizado por duas atrizes cativantes, “As bem armadas” é o típico filme policial/comédia onde os personagens principais não se entendem de início, mas precisam se aturar para resolver uma grande caso. Na trama, Sandra Bullock interpreta Ashburn, uma experiente agente do FBI que para conseguir uma promoção precisa aturar as maluquices de Mullins (Melissa McCarthy), uma policial regional. Enquanto Ashburn é uma mulher extremamente comportada, Mullins é boca suja e não se importa em tratar os bandidos de maneira rígida (e até questionável). As duas se unem para descobrir a identidade do principal distribuidor de drogas em Boston, mas para fazê-lo precisam entrar em acordo.

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O filme não apresenta elementos surpresa, estamos acostumados com a fórmula do gênero e inclusive, já vimos Sandra Bullock em um personagem parecidíssimo (lembram-se de Gracie Hart do Miss Simpatia?). Paul Feig (também diretor em Missão Madrinha de Casamento) pareceu não se importar em usar um argumento pouco criativo e de alguma forma, se debruçou sobre o nome das atrizes para sustentar a trama. De fato, a produção é descompromissada e pode ser uma opção de entretenimento, o destaque vai para Melissa McCarthy que se sobressai ao roteiro e encabeça as cenas mais engraçadas.

Fama para todos

“Fama para todos” é um filme belga, produzido em 2000 e  dirigido por Dominique Deruddere. Ainda hoje apresenta um retrato irônico e bem humorado de uma sociedade midiatizada, cujos padrões estéticos são cada vez mais reforçados e seguidos por um público alienado (pareceu clichê né? Eu sei). Arrisco-me a dizer que se esse argumento fosse construído nos dias de hoje, iríamos ver protagonistas investindo em suas redes sociais, upando vídeos no Youtube e implorando por likes, afinal o que se almeja desde o início do filme (mais do que o próprio dinheiro) é a fama. A fórmula parece antiga e a situação também já não é uma novidade, ainda assim, “Fama para todos” é o típico filme que convida a catarse e por ser simples e bem humorado, nos prende do início ao fim.

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Não sei porque demorei tanto a escrever sobre ele, o conheci através do Sonata Premiere (um dos melhores blogs para download que existem) e desde que assisti, a música “Lucky Manuelo” não sai da minha cabeça. A trama conta a história de Marva, uma garota gordinha e impopular que sonha em se tornar famosa. Desde pequena, seu pai (Jean) alimenta seu sonho e insiste em cadastrá-la em concursos de talento (que nunca dão em nada e que só reforçam a sua frustração). Jean passa grande parte do dia trabalhando em uma fábrica de garrafas, mas inesperadamente recebe a notícia de sua demissão. No auge de seu desespero, Jean sequestra a cantora mais importante do país e em troca da sua liberdade exige que seu produtor faça de Marva uma pessoa famosa.

O interessante é que a busca pela fama dos personagens (Marva/Jean) é tão doentia que quase acaba com a harmonia da família. Marva culpa Jean pelo insucesso e Jean tenta, de todas as formas, viabilizar o sonho da filha. A figura materna é o ponto de equilíbrio, ela tenta colocar limites em Jean e Marva, mas ao mesmo tempo, compartilha o desejo de sair do anonimato. Enquanto isso, em outra perspectiva, acompanhamos o pesadelo da cantora mais famosa do país que quer se afastar das câmeras e viver do que lhe dá mais prazer: a mecânica.

Deruddere critica não só a busca insana pela fama, mas também a saturação midiática. A diretora deixa bem claro que Marva não possui talento nem carisma. Para chegar a fama ela precisa dormir com o produtor e chamar a atenção (ou se esconder) através de uma fantasia. Há ainda uma crítcia ao sensacionalismo (percebam, aquela cena em que Marva e o pai conversam Ao Vivo não é mais do que uma espetacularização da vida privada).

[Spoiler] Por fim, temos uma boa surpresa. Quando Marva começa a cantar “Lucky Manuelo” percebemos que o plot twist do filme é que ela se sai muito bem, emociona a plateia e apresenta uma melodia linda. Manuelo (o personagem da música) é um homem “que teve origem humilde, que nunca teve uma chance justa e parecia condenado antecipadamente para  existir sem brilho” Afinal, quem era Manuelo senão Marva, Jean e o próprio público?

“Ele lutou por sua felicidade
Ele lutou por igual
A vida não dá um monte de presentes
A vida não importa com o que você deseja
Você tem que acreditar em si mesmo
Você tem dentro desse poder
O que você pode fazer o sol brilhar
Após a noite mais escura”

Ficha Técnica:
Título original: Iedereen beroemd!
Direção e roteiro: Dominique Deruddere
Elenco: Josse De Pauw, Eva van der Gucht, Werner De Smedt, Thekla Reuten, Gert Portael, Victor Löw, Ianka Fleerackers, Alice Reys
Duração: 97 minutos
Ano: 2000
Países de origem: Bélgica, França, Holanda

A máscara do anonimato

Me deparei com o DVD na loja e não resisti em comprar. Acabo de vê-lo e, depois de ler várias resenhas, fico mais tranquila em saber que eu não fui a única a me sentir perdida. “A máscara do anonimato” é um filme de 2003, dirigido por Larry Charles e roteirizado por ninguém mais, ninguém menos que Bob Dylan. A premissa é bem interessante, mas o desenvolvimento traz uma sequência complexa e pouco linear. Apesar de um elenco de peso, o filme recebeu várias críticas negativas, o New York Times chegou a considerá-lo “uma bagunça incoerente e profana”. 

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A trama não determina a época nem o lugar da história, o que se sabe é que se passa em um país pobre e subdesenvolvido que vive a mercê das vontades de um governo abusivo e ditatorial. Nina Verônica (uma produtora de TV) e seu parceiro Uncle Sweetheart estão completamente endividados e para fugirem dos agiotas, decidem organizar um show de caridade e roubar parte do dinheiro. Com uma pequena verba inicial, decidem soltar Jack Fate (Dylan), uma lenda da música que caiu no esquecimento depois de ficar preso. A volta de Fate traz a tona várias polêmicas e a maior delas, envolve o presidente.

Gosto de filmes experimentais e “A Máscara do anonimato” não está longe disso, há um uso quase abusivo da câmera subjetiva e diálogos extremamente metafóricos: a maioria trazendo um questionamento sobre governos opressores e censuras veladas. Percebe-se, já na abertura, uma crítica social que é desenvolvida ao longo da trama e vivida pelos personagens em particularidade. Apesar de comportamentos agressivos, todos possuem uma insatisfação quanto a situação que vivem e pela vida que levam. Outro aspecto técnico que me agradou foi a ambientação, marcada por uma cenografia quase teatral (não fosse as poucas tomadas externas).

Pelo que eu entendi, os personagens de John Goodman e Jessica Lange (alias, uma femme fatale) representam a grande mídia que cede ao sistema opressor e não só concorda, como também sustenta a barbárie. Aliás, renderam suas ideologias e trouxeram uma brutalidade para o próprio cotidiano, exigindo que os outros obedeçam suas vontades. Ao mesmo tempo, se questionam sobre o modo de vida que levam e são infelizes (como aquela cena do trailer, em que Jessica Lange aparece desolada e só, como se sentisse incapaz de mudar). Em contrapartida, Jeff Bridges encarna o bom jornalismo, o contestador e que além de mais fraco, acaba vencido no final.

Jessica Lange - Masked and

Penélope Cruz possui uma pequena participação, repleta de sentidos (posso estar enganada), mas acho que seu personagem simboliza a religião: que aliena, que cega. Cruz traz a tela um personagem estranho e infantilizado e totalmente dependente da ação alheia. No mais, “A Máscara do Anonimato” ou “Mascarados e Anônimos” possui uma deliciosa trilha sonora e é o típico filme que deixa inúmeras dúvidas na cabeça.

A força da amizade

A Força da Amizade

Li várias críticas negativas sobre esse filme e muitas delas são válidas. Apesar de trazer velhos clichês dos road movies, A força da amizade oferece uma trama agradável, com boas atuações e uma bela fotografia. De fato, aquela história de personagens que recebem lições de vida através de uma viajem não é uma novidade no cinema e a direção de Christopher N. Rowley (aliás, sua estreia) é um pouco imprecisa. É difícil não fazer uma comparação ao clássico ‘Thelma e Louise’ de Ridley Scott. As paisagens, os personagens femininos e até o figurino nos leva a lembrar dele (A Força da amizade chegou a ser apelidado de ‘Thelma e Louise na menopausa‘). Apesar de todas as contradições, Jessica Lange, Kathy Bates e Joan Allen apresentam uma boa química e são o que há de mais convidativo no filme.

Na trama, Jessica Lange interpreta Arvila Holden, uma mulher que acaba de ficar viúva e que para atender o pedido do marido, resolve espalhar suas cinzas. A decisão de Arvila desagrada Francine (Christine Baranski) que deseja que seu pai seja enterrado ao lado de sua mãe. Francine determina que se Arvila não concordar com o enterro e não lhe entregar as cinzas, venderá a casa (que seu pai lhe deixou através do testamento). Acompanhada das melhores amigas, Margie (Kathy Bates) e Carol (Joan Allen), Arvila resolve realizar uma viagem em seu Bonneville conversível para decidir o que fazer.

Bonneville

Apesar da situação ser um pouco mórbida (principalmente pelo fato de Árvila levar as cinzas do marido para todos os lugares e, inclusive, adormecer com elas) há um clima de euforia e aventura ao longo da viagem que deixa a trama mais agradável. Joan Allen e Kathy Bates interpretam personagens em contraponto, enquanto Carol (Allen) é uma mulher casada, extremamente religiosa e preocupada com a família, Magie é solteira e só deseja se divertir. Christine Baranski, com pouco destaque, é um elemento crucial da história e nos levanta questionamentos sobre Árvila. Independente de Francine ser arrogante, ela tinha o direito de se despedir do pai e não o fez pois Árvila a impediu – ao meu ver, esse é o momento mais dramático do longa.

Jessica Lange se sai muito bem, mas dessa vez um aspecto me chamou a atenção. O efeito do excesso de cirurgias plásticas em seu rosto é assustador. Em uma entrevista que vi, ela afirma que escolheu aparecer no filme com pouca maquiagem para trazer mais naturalidade e dor ao personagem. De fato, Árvila é o destaque da trama e acompanhamos de perto seu sofrimento, mas é justamente a ausência de maquiagem que nos possibilita reparar sua expressão muito marcada pela plástica.

O namoro de Magie com o caminhoneiro não foi bem desenvolvido, mas foi prazeroso vê-la se apaixonar e se entregar ao relacionamento. Gosto quando a Carol, em sinal de companheirismo e proteção, chama o caminhoneiro para conversar e pede que ele não brinque com os sentimentos de sua melhor amiga. Quando o jovem Bo apareceu para ajudá-las a concertar o pneu, eu achei que ele e Árvila teriam algum lance, apesar do clima (e da pouca química entre os dois), o fato de Arvila se inspirar na história dele para seguir seu caminho provavelmente uma das lições mais bacanas, a de persistir. É uma pena que esse filme seja tão difícil de encontrar, tanto para download quando em DVD.