Não existem erros, coincidências. Todos os eventos são bênçãos dadas a nós para aprendermos através deles.

VioletaA despedida de Violeta mudou a minha relação com Deus e com a morte. Antes eu tinha certeza da existência D’Ele, hoje não sei. Antes tinha um medo enorme da morte, hoje não a enxergo com tanto terror. A vida de Violeta se foi como um sopro, de repente seu corpo imóvel e totalmente sem vida, parecia apenas uma casca, uma pousada inabitada. Seus olhos vidrados deixavam claro que ela não estava mais ali e por sorte, não estava mais sofrendo. Em suma, foi o que me consolou. Ainda que eu sinta uma raiva enorme, uma revolta – a situação me faz perceber o quão miseráveis somos diante da morte.

Sua ausência tem sido tão difícil como aqueles testes que a gente precisa fazer sem antes estudar. Você simplesmente não sabe qual é a resposta, você tenta – e falha. Às vezes, mentalmente, chamo por seu nome ou em uma inútil esperança, imagino a possibilidade de tê-la de volta. Deus não negocia Em conversas com amigos, alguns chegaram a me perguntar o porquê de ficarmos tão tristes e mobilizados, afinal: era ‘só’ um cachorro. Violeta tinha personalidade, não era só um cachorro, era um membro da família, era amada e respeitada. E assim como qualquer outra morte, ficamos de luto. A casa ficou vazia, silenciosa, escura, fria – foi difícil.10409562_890400947652422_8982864657036263419_n

No dia seguinte em que perdemos Violeta comecei a ler um livro chamado ‘A Roda da Vida’, indicado pelo meu chefe. A escritora, Elizabeth Kubler Ross é uma psiquiatra mundialmente famosa, especialista em assuntos que envolvem a morte. O livro é uma autobiografia, nele Ross conta sua incrível história de vida e relata os anos em que trabalhou com pacientes moribundos (influenciando diretamente o fim da vida deles).  De fato, o livro pode ser interessante para quem acaba de passar pela difícil prova de perder alguém querido. Os relatos de Kubler me fizeram perceber que não se está sozinho diante da morte de alguém amado – muitos passaram por uma perda tão triste (ou até mais trágica que a sua).

A RODA DA VIDAEnquanto escrevia o livro, Kubler já estava idosa e havia sofrido uma série de derrames – enfrentava a ideia da própria morte. Antes, no entanto, ela fez uma recapitulação dos momentos mais marcantes de sua vida e de sua carreira: como por exemplo, quando decidiu contar aos pais que ia estudar medicina. Ou quando começou a trabalhar no acompanhamento psiquiátrico de portadores da AIDS (isso, nos anos 80). Sua cartilha de casos e histórias é impressionante, ela é o exemplo do que se pode chamar de: uma vida bem vivida.

Mesmo sendo especialista no assunto, a escritora confessa que passou por momentos difíceis de questionamento. Um deles, muito forte: Sua mãe sofreu um derrame que a deixou quatro anos em uma cama, se comunicando apenas através dos olhos. Ela então se perguntava, porque a sua mãe, que tinha sido tão bondosa durante toda a vida e que ajudara tantas pessoas, passava agora por uma situação tão cruel. Sua conclusão foi a seguinte: Que a sua mãe tinha ajudado inúmeras pessoas, mas nunca tinha deixado ninguém ajudá-la.

Ao longo da minha leitura me posicionei um pouco cética em relação às suas experiências espirituais. Mas, acho que é um livro que pode agradar qualquer tipo de leitor, independente de sua preferências religiosas… Gosto especialmente de seus pensamentos finais, dos quais compartilho aqui:

“Preparando-me para passar deste mundo para o próximo, sei que o céu ou o inferno são determinados pela maneira como as pessoas vivem suas vidas no presente. A única finalidade da vida é crescer. A suprema lição é aprender como amar e ser amado incondicionalmente. Há milhões de pessoas no mundo que estão passando fome. Há milhões sem um teto. Há milhões que sofrem de AIDS. Há milhões de pessoas que sofreram violências. Há milhões de pessoas que padecem de invalidez. Todos os dias, mais alguém clama por compreensão e compaixão. Escutem o som de suas vozes. Escutem como se o chamado fosse música, uma linda música. Posso garantir que as maiores recompensas da vida inteira virão do fato de vocês abrirem seus corações para os que estão precisando. As maiores bênçãos vêm sempre do ajudar aos outros.”

Eu compro essa mulher

Apaixonada com dramaturgia me deparei, na semana passada, com um livro incrível: “Eu compro essa mulher” da Cristiane Costa. A autora, através de uma análise sobre as novelas brasileiras e Eu compro essa mulhermexicanas, realiza uma reflexão sobre o romance e o consumo na dramaturgia. O culebrón mexicano e as produções brasileiras possuem mais aspectos em comum do que muitos imaginam. É através de uma pesquisa profunda e de um texto agradável que Costa consegue fazer com que o leitor compreenda que os dois tipos de produções nasceram basicamente do mesmo “pai”: o folhetim.

Decidi fazer uma série de publicações relacionadas ao livro, cada uma dedicada a um capítulo diferente. Nas publicações, você vai perceber que os temas abordados por Costa também perpassam por questões históricas e literárias.

Mas, por quê Costa resolveu evidenciar esses dois países?

Logo na introdução ela esclarece a dúvida:

“Embora a Argentina, Venezuela e Colômbia também possuam uma indústria vigorosa, com características fortemente locais, optou-se por focalizar a pesquisa no México e no Brasil, os maiores centros produtores de telenovela do continente. A tão propalada natureza melodramática latino-americana é hoje o principal produto de exportação cultura da região. Exibidas em mais de cem países, em lugares tão distantes quanto a Romênia e a China, as telenovelas continuam parando cidades e provocando verdadeiras ondas de comoção nacional. Num mundo globalizado e voltado para o consumo, não é de se estranhar que certos gêneros narrativos se tornem transnacionais. Afinal, os sonhos românticos são praticamente os mesmos.”

Também há uma justificativa para o título. Em 1966 a Rede Globo exibiu uma novela chamada “Eu compro essa mulher”, baseada no melodrama de Glória Magadan. A história foi adaptada pela televisão mexicana (Yo compro esa mujer) três décadas depois e repetiu o sucesso estrondoso. Como e porque esse modelo reverbera na televisão latino-americana? As respostas são muito interessantes e nos permite conhecer mais sobre a nossa história e sobre nós mesmos.

México – Parte 2

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Dando continuidade à publicação sobre o livro escrito por Erico Veríssimo, México, vamos às citações:

 “Quem quer que haja vivido um pouco, deve ter concluído que, assim como existem corpos predispostos à tuberculose, há  almas predispostas ao amor. No primeiro caso basta um golpe de vento. No segundo, uma simples troca de olhares.”

‘Esse país americano, conquistado e colonizado por espanhóis, com uma tremenda percentagem de sangue índio, já teve um imperador austríaco e uma corte francesa.”

“Uma cena me ficou na memória com uma nitidez inapagável. Parados no meio-fio duma calçada, no Paseo de la Reforma, vejo passar o enterro de um bombeiro que se suicidou. Os tambores, cobertos de crepe, estão abafados e soam surdos. Não se ouve seques um  toque de clarim. Atrás dos tambores marcham alguns pelotões. Os solados, de uniforme negro, gola carmesim, crepe no braço, marcham em cadenciado silêncio. E sobre um carro também coberto de preto está o esquife cinzento envolto na bandeira mexicana.  Pla-ra-ta-plan! Pla-ra-ta-plan! Lá se vai o cortejo rumo do cemitério. Haverá outro país no mundo em que um velório seja mais velório, um enterro mais enterro, e a morte mais a morte?”

“Agora o cantor grisalho, ventrudo e cinquentão diz que não vale nada, pois chorando a vida começa e em choro a vida se acaba.”

(Sobre o Barroco Mexicano): “Se os índios fossem capazes de expressão literária, seu protesto escrito teria encontrado pela frente a barreira formidável da Inquisição. Povo plástico por excelência, o mexicano achou sua forma de expressão na arquitetura e na escultura. Mas não teriam os frades percebido a silenciosa, sutil reação? Acho que perceberam e que não só toleraram como também sabiamente encorajaram essas inocentes heresias, como parte de sua técnica de catolização do gentio. Essa “tolerância” continuou através do tempo e culminou na aceitação por parte da Igreja da Nossa Senhora de Guadalupe, a Virgem índia. É aqui em Puebla que se encontram os melhores espécimes do barroco mexicano, do churrigueresco e do plateresco.”

“Minha companheira declara-se fascinada pela sonoridade de alguns nomes mexicanos.Guadalajara…Jalisco…Cuernavaca…Acapulco…Querétaro…Churubusco, Chapingo…Hermosill…Manzanillo…Polanco…Xoxhimilco.”

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“Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, de modo que inventou a semana. Para passar o weekend não sabemos como se arranjou. Agora, segundo dizem, passa o fim de semana em Cuernavaca, que possui um clima privilegiado. Alguns habitantes do México e alguns visitantes do país vizinho são da mesma opinião de Deus.”

(O Povo): “O México é uma nação em que predomina o sangue índio. Cerca de 30% de seus habitantes são racial e culturalmente índios. A menor parte da população, uns 10%, é formada de brancos (sempre escrevo essa palavra com dúvidas e reservas), de criollos, isto é, de filhos de pais e mães espanhóis  mas nascidos no México, e de um bom número de pessoas oriundas de vários países europeus e dos Estados Unidos. Os 60% restantes são mestiços. O índio é o elemento passivo da população, constitui uma espécie de silencioso, imóvel coro da tragédia nacional. Sua capacidade de apagar-se não é apenas psicológica ou sociológica, mas também física, pois por um curioso mimetismo defensivo, como o de certos animais, o índio mexicano como que consegue diluir-se na paisagem.

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Jalisco

Os 10% que são ou se consideram brancos vivem e pensam mais ou menos como os brancos de qualquer outro país da América e, seus dramas e neuroses não vêm, acredito, do fato de serem mexicanos, mas sim de pertencerem a uma determinada classe social e viverem neste século e nesta hora. Assim, o que na minha opinião melhor representa o México, isto é, o de sangue espanhol de índio, não só porque ele constitui a maioria da população, mas também e principalmente porque dá a nota tônica na vida do país. Compreendê-lo, portanto, será compreender o México.

(A língua): Se o espanhol da zona das Caraíbas tem a doçura e a consistência do melado, o que se fala no México é igualmente fluído e doce, embora muito mais claro. É um castelhano com mel e uma  pitadinha de Chile. Quem quer que tenha ouvido Cantiflas terá uma ideia da fala do mexicano, do povo, com sua entonação musical, sua abundancia de diminutivos, a sua qualidade pirotécnica, e a ênfase em certas vogais.

O que mais me encanta na língua mexicana são os diminutivos, a coisa que o forasteiro menos espera encontrar em boca duma gente com tanta capacidade para a violência e tão pouca inclinação para a ternura. Muitas vezes parei na rua para escutar furtivamente diálogos de gente do povo. Vamos agora imaginar uma rápida conversa entre dois pelados numa pulquería:

 

-Quieres um poço de tequila, amiguito?

-Sí.

-Cuanto?

– Un naditita.

-Un tantito así?

-Eso, gracias hermanito!

– Cuando vuelves a tu casa?

-Lueguito, y tu?

– Nochecita, no más.

 

Para Veríssimo o Mexicano é um ser angustiado:

-Se você tivesse de fazer a psicanálise do povo mexicano, como explicaria essa sensação angustiosa de insegurança e inquietante em que ele parece viver? (…)

– Por causa de um trauma de nascimento que marcou fundamente o inconsciente coletivo deste país, deve ser o responsável por essa neurose de angustia que domina o povo mexicano.

– E como se caracteriza essa angústia?

-Por uma sensação aflitiva de que algo  de mau, algo de terrível está sempre por acontecer. O nascimento da nação mexicana foi difícil, dilacerante, sangrento, doloroso.

– E como se portou o recém-nascido?

– O índio que  sobreviveu  à Conquista não se adaptou ao ambiente frio  e hostil  criado pelo invasor: desejou voltar ao ventre  materno, isto é , à terra.

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(Morte): No México a morte é uma espécie de concumbina, uma companheira que cada homem carrega consigo por toda a parte e todas as horas. O mexicano exibe sua morte como efeito, uma joia. Diante vem essa atitude diante a morte? Do espanhol não é, porque este, embora tenha seus namoros com a Parca, não a vê sem temor e não deixa nunca de encará-la como um símbolo de aniquilamento, a despeito de seu catolicismo. Acho que o mexicano deve essa tendência ao componente de índio de seu caráter. Para o índio pré-cortesiano, o além-túmulo não prometia torturas ou castigos. Os astecas aceitavam a ideia da imortalidade,. Para eles a força vital continuava depois da morte. O próprio comportamento da natureza não seria indício disso? Não se sucediam as estações? O sol (símbolo da força e da vida), o Sol que desaparece engolido pela noite não tornava a aparecer na manhã seguinte? (…) A morte pois, não significava destruição, mas transformação, era uma fase dum ciclo infinito. A morte, portanto, não é eterna, mas efêmera. É um perene rejuvenescimento da vida. Isso explica a alegria com que caminhavam para a morte aqueles belos jovens sacrificados a Texcatlipoca, o deus da eterna juventude. Os maias chamavam os recém-nascidos “prisioneiros da vida”.

 

Se a morte é a maior fonte de angústia do homem, e se o mexicano não a encara com horror, de onde vem o drama de que está saturada a vida desse povo? Eu diria que vem da própria angústia de viver, da fatalidade da vida. Há uma espécie de morte que o mestiço teme: a morte social, o horror de não triunfar, de não subir, de ficar por baixo, ignorado e sem nome. Se um cristão o ordinário teme os demônios do Inferno além-túmulo, o que o mexicano teme são as forças demoníacas deste mundo cheio de influências  mágicas, em sua maioria maléficas. A morte – parece ele dizer- é certo; o  incerto é a vida.

México – Parte 1

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Você descobre o que é boa literatura, quando lê um livro parecido com México, do Érico Veríssimo.  Desde o surgimento do La Amora, demonstro uma admiração e carinho por esse país, mesmo sem nunca tê-lo visitado (e ainda um pouco longe de fazê-lo). Com a narrativa de Veríssimo e com sua delicadeza e atenção aos pequenos detalhes, fiz uma viagem sem ter, de fato, saído de casa.

Foram dois deliciosos meses de leitura, agregados com a vontade de não terminá-lo. Com um texto claro, dinâmico (dividido em diversos subtítulos) e sensível, Veríssimo construiu um retrato do México dos anos 50 difícil de não se apaixonar (o livro foi escrito em 56/57). O retrato, no entanto, contém um misto de realidade e fantasia que acentuam a percepção de que “Sim, o México é um país mágico”.

A cada descrição (das ruas, do povo, das igrejas, dos museus, da cultura, da religião, dos mitos, da língua…) me senti como se estivesse andando de mãos dadas a Veríssimo, observando junto com ele, todos aqueles monumentos. A viagem se inicia por Juarez e logo é marcada por um acidente. Veríssimo e a esposa decidiram viajar para o México de trem (na época, os dois viviam nos EUA), mas o trem descarrila, ferindo diversos passageiros e deixando os viajantes parados no meio do deserto. Depois de muito esperar, conseguem continuar a viagem e passam por Chihuahua, que segundo Veríssimo, com sua seca e miséria, lembra o nordeste brasileiro.

México

“E aqui nos vamos por entre as relíquias, já com essa pressa cretina do turista profissional que não visita os lugares porque deseja realmente vê-los, mas sim porque quer ter o direito de mais tarde dizer aos outros e a si mesmo que os viu”.

Mas Veríssimo não é esse turista profissional, de maneira alguma. Tanto não é que escolhe viajar e conhecer os estados mais distantes da capital, as cidades do interior (Puebla, Cholula, Oxaca, Taxco) porque acredita que é ali que está a verdadeira essência de um povo. E ele não tem pressa, demora, observa os detalhes e os estuda, sem a ânsia de acabar.

Em um grande e encantador capítulo, Veríssimo conta a história do México, defendendo a ideia de que foi nessa época (sangrenta e obscura) em que nasceram duas grandes características propícias do mexicano: o drama e a desconfiança. Em sua concepção, a Conquista foi tão violenta que é possível construir uma metáfora, a atitude dos espanhóis para os mexicanos, através da principal figura: Hernán Cortes é parecida com a de uma pessoa estuprada diante do estuprador, “aquele abusa de maneira violenta e traumatiza da terra virgem”.   

  “Pobre México! Tão lonDiego-Rivera-The-Flower-Carrierge de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”

Através de sete colóquios, em que reconstrói  conversas que teve com José Vasconcelos, Veríssimo dá uma pincelada sobre a história mexicana, perpassando pelos momentos mais importantes, como por exemplo, a revolução de 1910. Mas o texto não é só descritivo, é também analítico, crítico. Veríssimo delimita e mapeia o perfil de grandes personalidades (políticos, artistas) e se posiciona sobre cada um. Madero, Zapata, Pancho Villa, Victoriano Huerta, Carranza e artistas como  Orozco, Diego Rivera, David Alfaro Siquieros – Todos tem seu lugar na obra.

Mas é o povo que encanta Veríssimo, é o índio, o mestiço, as mulheres, os meninos, as cores, as igrejas, a fé. O autor analisa e descreve aspectos que para ele são os de identificação do mexicano, seja o patriotismo, a relação com a morte, língua, as gírias, a Virgem de Guadalupe. Ele sente e percebe o mexicano pulsante, aquele que está longe do idealismo.

Na segunda parte, reproduzirei algumas citações interessantes. E aqui, no vídeo abaixo, coloco uma das músicas que Veríssimo escutou logo que chegou no México, uma música que, por sinal o deixou inquieto. Conta a história de um homem (o preso número 9) que descobriu a traição da mulher com o melhor amigo e acabou os matando. O preso número  9 está prestes a ser executado. Ele, no entanto, não demonstra raiva ou medo, pelo contrário: está satisfeito. Porque conseguirá perseguir os amantes por toda a eternidade.

O caderno rosa de Lori Lamby

lori“Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas” (Oscar Wilde)
“E quem olha, se fode” (Lori Lamby)

O caderno rosa de Lori Lamby é, de longe, o meu livro favorito da Hilda Hilst. Em poucas páginas, Hilst consegue assustar, envergonhar, confundir e manipular o leitor de uma maneira simples e direta: utiliza uma linguagem infantil e, assim como as histórias libertinas, se apoia em uma narrativa epistolar e apresenta um personagem inocente que aos poucos vai se corrompendo.

Lori é uma garotinha de oito anos que descreve em seu diário, os encontros sexuais que tem com adultos a mando de seus pais. Ao contrário do convencional, Lori não se sente abusada, ela gosta de se envolver com os homens, sente prazer e adora os presentes que ganha depois dos encontros. Gosta tanto, que os narra no diário e com uma linguagem sensorial, constrói cartas e histórias obscenas.

Fácil entender porque se trata de um livro polêmico e pouco popular, a crítica caiu matando, encararam a história como um registro insensível sobre a pedofilia. E o próprio público também se manifestou negativamente. Hilst conseguiu colocar o leitor em um lugar extremamente desconfortável com uma narrativa erotizada, mas com um narrador 1improvável. O fato é que além do incômodo e controverso, o livro ainda consegue ser cômico.

A menina descreve as tardes em que passa esperando pelo próximo “tio” e narra, com uma inocência enlouquecedora, as taras de cada um deles. Impossível ler essa páginas e passagens tão obscuras, sem pensar no papel da autora, que de certa forma, traz a tona, uma obra moralizante.

O pai de Lori é um escritor que não consegue fazer sucesso com seus livros e passa grande parte da narrativa, se esforçando para criar uma história que atenda aos interesses da editora. Seria a própria Hilda Hilst? Que chegou a reclamar que “Poesia no Brasil não dá dinheiro” e, por isso, resolveu escrever textos obscenos? Difícil saber.

No diário de Lori, existe uma transcrição de uns escritos de um adulto. “O caderno Negro” – Corina, a moça e o jumento, conta uma história erótica, suja e bruta sobre o envolvimento de um homem do interior, com uma ninfeta viciada em sexo. O texto não está ali, atoa, ele dá certos indícios. Alguns críticos e estudiosos da obra de Hilst acreditam que a narrativa de Lori Lamby, na verdade foi escrita pelo pai, que criou o diário, como se fosse uma menina de oito anos para conseguir fazer sucesso. Genial, não?

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“Eu tenho oito anos. Eu vou contar tudo do jeito que eu sei porque mamãe e papai me falaram para eu contar do jeito que eu sei. E depois eu falo do começo da história. Agora eu quero falar do moço que veio aqui e que mami me disse agora que não é tão moço, e então eu me deitei na minha caminha que é muito bonita, toda cor de rosa. E mami só pôde comprar essa caminha depois que eu comecei a fazer isso que eu vou contar. Eu deitei com a minha boneca e o homem que não é tão moço pediu para eu tirar a calcinha. Eu tirei. Aí ele pediu para eu abriras perninhas e ficar deitada e eu fiquei. Então ele começou a passar a mão na minha coxa que é muito fofinha e gorda, e pediu que eu abrisse as minhas perninhas. Eu gosto gosto muito quando passam a mão na minha coxinha. Daí o homem disse para eu ficar bem quietinha, que ele ia dar um beijo na minha coisinha. Ele começou a me lamber como o meu gato se lambe, bem devagarinho, e apertava gostoso o meu bumbum. Eu fiquei bem quietinha porque é uma delícia e eu queria que ele ficasse lambendo o tempo inteiro, mas ele tirou aquela coisona dele, o piupiu, e o piupiu era um piupiu bem grande, do tamanho de uma espiga de milho, mais ou menos. Mami falou que não podia ser assim tão grande, mas ela não viu, e quem sabe o piupiu do papi seja mais pequeno, do tamanho de uma espiga mais pequena, de milho verdinho. Também não sei, porque nunca vi direito o piupiu do papi. O moço pediu pra eu dar um beijinho naquela coisa dele tão dura. Eu comecei a rir um pouquinho só, ele disse que não era para rir nem um só pouquinho, que atrapalhava ele se eu risse, que era pra eu ficar quietinha e lamber o piupiu dele como a gente lambe um sorvete de chocolate ou de creme.”

“Mami me ensinou que a minha coisinha se chama lábios. Ache engraçado porque lábio eu pensei que era a boca da gente, e mami me disse que tem até mais de um lábio lá dentro, foi isso que ela disse quando eu perguntei como era o nome da coisinha. Quem será que inventou isso da gente ser lambida e porque será que é tão gostoso? Eu quero muito que o moço volte. Tudo isso que eu estou não é pra contar pra ninguém porque se eu conto pra outra gente, todas as meninas vão querer ser lambidas e tem umas meninas mais bonitas do que eu, aí os moços vão dar dinheiro pra todas e não vai sobrar dinheiro pra mim, pra eu comprar coisas que eu vejo na televisão e na escola. Aquelas bolsinhas, blusinhas, aqueles tênis e a boneca da Xuxa.”

Nota sobre: Carta ao pai

Carta ao PaiLi Kafka pela primeira vez quando estava no ensino médio. A história de um homem que se transformava em um inseto pouco me surpreendeu. Por ignorância, por não saber da importância histórica da obra, dei pouco valor a narrativa. Depois, quando já estava quase no fim da faculdade, reli o livro com mais cuidado e me surpreendi com um mundo de sentidos (principalmente em relação às criticas sociais) que estavam “escondidas” na narrativa.

Descobri “Carta ao pai” também quando estava na faculdade, quando uma querida colega de sala de aula andava para cima e para baixo com o livro nos braços. A curiosidade sobre o que Kafka teria a dizer sobre o pai sempre foi latente, mas só agora tive a oportunidade de ler este livro.

Kafka escreveu a carta em 1919, aos 36 anos (cinco anos antes de morrer). Nessa época já tinha publicado “A metamorfose” e “O processo” e estava hospedado em uma pensão em Praga com o intuito de fazer um tratamento de saúde. De acordo com Modesto Carone (o autor do posfácio do livro que li): ‘O pretexto imediato para a elaboração da carta foi uma pergunta feita pouco tempo antes por Hermann Kafka, que queria saber por que o filho afirmava ter medo dele. Um dos motivos da carta foi certamente o estremecimento das relações entre pai e filho após a tentativa (logo abandonada) de casamento de Kafka com Julie Wohryzek. 

Kafka demonstra muito rancor em relação as atitudes do pai e evidencia o quanto a sua personalidade “tirana” influenciou para que ele fosse um homem introspectivo e inseguro. Em um momento da carta, o autor conta que seu pai tinha o costume de deixá-lo de castigo na varanda (no escuro e no frio) – e que ele morria de medo e esperava que alguém pudesse ajudá-lo. Ele também descreve a personalidade de sua mãe, como sendo uma mulher bondosa, porém serviçal.

Sobre o pai, outra coisa parece incomodá-lo muito: a forma com que ele destratava as pessoas. Kafka era obrigado a ajudar o pai em sua loja e ficava extremamente envergonhado quando o pai humilhava os funcionários e o ensinava a fazer igual. Tímido, Kafka não tinha vontade de ser vendedor, mas era obrigado a passar os dias atrás do balcão.

Ele está de volta

“Ele está de volta”, livro do escritor e jornalista alemão Timur Vermes, é a típica história que promete, mas não cumpre. Quando alguém lhe disser “Não julgue o livro pela capa” leve em consideração e não faça como eu, que o levei para casa com certo deslumbramento e acabei me decepcionando. Me decepcionei tanto que nem ia escrever uma resenha, até que encontrei alguns textos na internet dizendo que a narrativa é “hilária” e de “morrer de rir” – me senti enganada.

Ele está de volta

De fato, o argumento que norteia a narrativa é genial: Hitler acorda em 2011, como se nada tivesse lhe ocorrido. De repente, as pessoas começam a encará-lo como um comediante (já que, quem iria imitá-lo tão bem assim?) e logo depois, vira um sucesso estrondoso no YouTube, conquistando legiões de admiradores.

O fato de Hitler se adaptar tão rapidamente ao mundo real (usando celulares, computadores e não se assustando com automóveis tão avançados) me incomodou bastante. Além disso, acho que Timur Vermes pouco aproveita a potencialidade do personagens e não há clímax, não ação, não há surpresa! Apenas uma recorrência de discursos enfadonhos.

Ainda que decepcionante, o livro traz uma crítica ao mundo midiático, calcada na propagação de informações erradas, na ausência do cuidado com a apuração e também ao “star system”. Como jornalista, me identifiquei com alguns trechos…

Ele está de volta Timur

Orange is the new black – O livro!

“O fato de que eu havia me acostumado à vida na prisão chocou meus amigos e familiares, mas ninguém lá de fora pode realmente compreender o efeito galvanizador de todos aqueles rituais rígidos, sejam os oficiais ou os informais. É esse o paradoxo enganoso e cruel das longas sentenças. Para mulheres que cumprem penas de sete, doze ou vinte ano, a única maneira de sobreviver é aceitar a prisão como seu universo. Mas como elas poderiam sobreviver no mundo exterior, quando fossem libertadas?”

O livroFiquei feliz ao descobrir que Orange is the new black foi inspirada em um livro e mais feliz ainda, ao ler o livro e descobrir que a série possui certa fidelidade. Piper realmente existe e  na narrativa conta como se envolveu, aos vinte e três anos, com uma traficante de drogas e acabou sendo presa.

Em uma sensível descrição, Piper Kerman relata em detalhes o dia-a-dia em que viveu, durante quinze meses, em uma prisão federal. Com cautela em relação aos nomes (ela muda a maioria deles), a autora explora tristes dramas pessoais e casos, alguns bem humorados, de quando se viu presa.

Logo no início, ela conta como – após se formar, em teatro – mudou-se para Massachusetts e conheceu Nora, uma mulher bem mais velha, rica e charmosa, que a levou para conhecer o mundo e a envolveu em uma série de crimes. Ao contrário do que é ilustrado na série, Nora só aparece no julgamento e a relação das duas é bem fria. Em relação ao marido, no entanto, Piper é extremamente amorosa e agradecida. (Spoiler? Larry não se envolve com a melhor amiga dela).

No livro, Piper e Red possuem uma ligação muito forte, as duas são como mãe e filha. Piper narra, inclusive, os momentos em que ia até a cela de Red só para massagear os seus pés.

O interessante é que muitos dos casos que ela conta foram retratados na série de maneira fiel, fiquei surpresa ao ver esse cuidado da produção e esse carinho, atenção, em relação aos detalhes. Ela conta, por exemplo, que chegou a dividir a cela com uma jamaicana, a “Natalie” – uma mulher séria e muito preocupada com a higiene, que não gostava de falar sobre seu passado e que as prisioneiras chamavam de macumbeira, muitas diziam que ela estava presa porque jogou água quente no rosto de uma mulher.

Ou quando falava sobre Vanessa, uma transexual que tinha o corpo muito mais bonito do que diversas mulheres: “Vanessa se viu privada dos hormônios que tomava, por isso várias características masculinas que, de outro modo, teriam ficado menos evidentes, principalmente a sua voz. Apesar de usar na maior parte do tempo uma voz aguda, bem juvenil, ela era capaz de mudar a frequência para sua estrondosa e masculina voz de Ricardão. Adorava usar isso para dar um susto terrível nas pessoas e conseguia silenciar a barulheira do refeitório gritando ‘Cala a boca, todo mundo!’!.

Como eles são na vida real?

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Como de costume, selecionei algumas partes que me pareceram mais interessantes no livro e as reproduzi aqui, deem uma olhada:

Os personagens:

Sam HealyImagem: “O que você realmente precisa é ficar atenta com as outras detentas. Algumas delas são tranquilas. Ninguém vai mexer com você a não ser que você permita. Agora, as mulheres, elas não brigam muito. Elas falam, fazem fofoca, espalham boatos. Então, podem falar de você. Algumas dessas garotas vão pensar que você acha que é melhor do que elas. Vão dizer: Ah, ela tem dinheiro (…) E há lésbicas lá. Têm algumas, mas elas não vão incomodar você. Algumas vão tentar ser suas amigas, ou algo parecido. Fique longe delas! Entende, você não precisa fazer sexo com elas. Sou antiquadoImagem, não aprovo nada dessas coisas esquisitas”.

“O Sr. Butorsky, meu supervisor, tinha inventado uma prática. Uma vez por semana, ele convocava todas as detentas sob sua supervisão, metade do pavilhão, para uma reunião de um minuto com ele. A gente precisava se apresentar no escritório que ele dividia com Toricella e assinar um grande livro de registro para comprovar a presença.”

Anita DeMarco e Miss Rosa: “Minhas novas colegas de cela me deixaram em paz. Às dez da noite, as luzes se apagaram de repente, e coloquei Jane Austen em cima do armário e fiquei olhando para o teto, ouvindo o aparelho respirador de Anette – ela sofrera um ataque cardíaco logo após chegar a Danbury e precisava usá-lo à noite. A Srta. Luz, quase imperceptível no outro beliche inferior, se recuperava de um tratamento contra um câncer de mama e não tinha sequer um fio de cabelo na cabeça pequenina. Eu começava a suspeitar que a coisa mais perigosa que poderia acontecer na cadeia era ficar doente.

RedRed: “Ela havia passado por uma vida doida fora da prisão, tendo emigrado da Rússia para os Estados Unidos aos três anos”. Ela saiu de casa aos dezoito para se casar com um gângster russo. Sua vida conjugal abarcara todo o esplendor excessivo da era das discotecas de Nova York nos anos 1970 e 1980 e vários anos fugindo da polícia.

Red: – A polícia tentou nos prender de tudo quanto é jeito, meu marido só ria. Bem, se eles querem tanto pegar você, vão conseguir. Eles nunca desistem.”

“Seu marido estava preso em algum lugar do sul do pais, e os filhos já eram crescidos. Ela perdera tudo, mas conseguiu aguentar uma dúzia de anos na cadeia sem entrar em parafuso e levava a vida da melhor maneira possível. Ela era perspicaz e exuberante. Era gentil, mas podia ser cruel. Sabia como tirar proveito do sistema e também como não se deixar ser REdhumilhada. Eles sempre tentavam. Os filhos crescidos de Red vinham visitá-la todas as semanas, e também vários outros parentes, murmurando em russo. A sala de visitas era o único lugar onde eu a via no uniforme cáqui padrão, o resto do tempo, ela vestia calças xadrez de cozinheira, o avental grená com Red bordado em branco no peito e uma rede nos cabelos. No entanto, para as visitas ela sempre arrumava o cabelo e se maquiava para parecer mais elegante, quase uma mocinha”.

Pennsatucky: “Allie tinha uma aliada, uma jovem do oeste da Pensilvânia, que assumia com orgulho sua condição de caipira. Eu a chamava de Pennsatucky”

“Seus dentes da frente estavam marcados pelo vício do crack – eram marrons e deteriorados e ela raramente sorria. Mas recentemente, depois de vária sessões com a dentista baixinha e alegre (a única pessoa do corpo médico de quem eu gostava e a quem julgava competente) e com Linda Vega, a presa responsável pela higiene dental, ela havia passado por uma transformação espantosa. Normalmente, os dentes eram arrancados, mas não dessa vez. Com dentes postiços imaculadamente brancos, Pennsatucky tinha virado uma garota muito bonita, e sua imitação de Jessica Simpson havia melhorado agora ela podia exibir um enorme sorriso ao fazer sua performance”.

pennsatuckyOlhos loucos: “Uma das recém-chegadas era Morena, uma hispânica que parecia uma princesa maia ensandecida. Ensandecida não porque tivesse uma aparência geral desleixada ou alucinada. Tinha todo o jeito de alguém que sabia cumprir pena, e seu aspecto era imaculado, com uniforme bom, passado e arrumado. Porém, Morena tinha um olhar perturbador. Ela ficava encarando a gente, aqueles olhos castanhos eram incrivelmente expressivos, e seria impossível dizer que mensagem eles estavam transmitido. Era como se ela precisasse se esforçar muito para conter o que quer que estivesse se passando dentro da sua cabeça, e isso transparecia no olhar. Eu não fui a única a reparar no olhar bizarro. – Aquela ali não bate bem, disse Pop, tocando a lateral da cabeça. Cuidado”.

“Eu era rigorosamente educada e neutra, porque Olhos Loucos me deixava nervosa. Além das diversas conversas entrecortadas a caminho do trabalho, as interações dela comigo no Pavilhão aumentaram drasticamente.”

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Pornstache: “Ator Pornô Gay era um sádico arrogante, com cabelo escovinha, olhos próximos e bigode denso que parecia ex-membro de uma banda cover do Village People”

Big Boo: “Big Mama era um leviatã, alegre que vivia no Dormitório A – espirituosa e ágil ao usar as palavras, benevolente e de constituição prodigiosa. Mas não esbanjava modéstia, como ficou provado pela maneira descarada com que ela seduzia uma serie de mulheres muito mais jovens e magras do que ela no seu cubículo aberto. Eu simpatizava com Big Mama e ficava fascinada com o sucesso de sua vida amorosa. Como ela conseguia? Quais eram suas técnicas? Seriam as mesmas dos homens gordos de meia-idade que queriam transar com mocinhas? Depois as garotas não a rejeitavam, nem a desrespeitavam, então tinha sido por mera curiosidade? Eu ficava curiosa, mas não tinha coragem de perguntar”.

John Bennett: “No lugar do Ator Pornô tínhamos agora o Sr. Maple, que parecia ser o exato oposto do seu antecessor. O Sr. Maple era jovem, recém-saído do serviço militar no Afeganistão, e mostrava-se  exageradamente amigável e cortês. Fez sucesso instantâneo entre as mulheres do Pavilhão.”

Além da fidelidade em relação aos personagens, a série manteve diversos casos que Piper narra ao longo do livro:

red_nicky“Sobre o dia das mães: Muitas mulheres haviam feito rosas vermelhas com caules longos em crochê para suas mães da prisão ou amigas. Algumas se organizaram em relacionamentos do tipo família um tanto formalizados com outras prisioneiras, sobretudo em duplas mãe-filha. Havia muitos pequenos clãs em Danburry. As mais jovens dependiam de suas mães para lhes dar conselho, atenção, comida, empréstimos na cantina, afeto, orientação e até mesmo disciplina”.

“Uma amiga da oficina elétrica tinha me ensinado a fazer um isqueiro com um pedaço plástico metalizado, duas pilhas AA, pedaços de arame de cobre e fita isolante. Mas eu podia ficar sem fumar, sem problema algum.”

“Esse ritual que eu viria a repetir centenas de vezes no decorrer do ano, nunca mudava. Tirar os sapatos, meias, blusa, calças e camiseta. Erguer o sutiã e mostrar os seios. Mostras as solas do pés. Então dar as costas para a guarda, abaixar a calcinha e se agachar. Depois, forçar uma tosse, o que teoricamente faria qualquer contrabando oculto cair no chão”.

O.Orange“Eu achava tediosa a veneração religiosa de algumas vizinhas evangélicas agressivas. Algumas fiéis tinham o hábito de alardear os brados que iam orar sobre uma série de tópicos, que Deus andava ao seu lado durante o encarceramento, que Jesus amava os pecadores e assim por diante”.

Quando a Piper reclama da comida da Red (no livro, a Red se chama Pop): “Ela me encarou enfurecida e me apontou o dedo: – Escute aqui querida, sei que você acabou de chegar e que não tem a mínima noção sobre nada. Vou falar só uma vez. Existe aqui um negócio chamado “incitar revolta”, e você está falando essa merda, greve de fome, essa merda só é incitar revolta. Você pode se meter numa bela encrenca por causa disso, eles vão trancar você numa UAS, sem pensar duas vezes. Da minha parte, não estou nem aí, mas você não conhece esses caras querida. Basta que a   pessoa errada escute você falando uma merda dessas e ponto, ela conta para os agentes e você vai ver com que  rapidez vão trancafiar esse seu rabo numa solitária. Então fica a dica, cuidado com o que fala”

“Ao chegar a Danbury, fiquei surpresa com o fato de que, aparentemente, não haviaOrange qualquer atividade lésbica. As celas, tão perto do posto dos guardas, eram bastiões de decoro. Não havia carícias, beijos ou qualquer ato sexual óbvio em nenhuma das áreas comuns e, apesar de alguém ter me falado de uma história de uma ex-presidiária que transformara a academia em ninho de a mor, eu sempre a encontrava vazia quando ia lá (…). Muitos relacionamentos românticos que observei mais pareciam paixões adolescentes, e um casal raramente durava mais do que um ou dois meses. Era fácil distinguir entre as mulheres que se sentiam sozinhas e queriam consolo, atenção e romance e as lésbicas de verdade: havia algumas.”

“Havia menos bulimia e mais brigas do que vira nos meus tempos de faculdade, porém existia o mesmo conjunto de valores femininos – um espírito de camaradagem  e um senso de humor obsceno nos melhores dias, e melodramas histéricos acompanhados de fofocas maliciosas nos piores”.

Orange-is-the-New-Black-2a-temporada-12Mar2014-04“Dezesseis de setembro foi o dia da Feira de Emprego na prisão, um evento anual de fachada organizado pela ICF de Danbury que teoricamente abordava o fato de que as pessoas teriam de reingressar no mundo exterior. Até então eu não havia testemunhado qualquer esforço significativo de preparar as presidiárias para um retorno bem-sucedido à sociedade, com exceção das mulheres que passaram pelo programa intensivo de tratamento contra a dependência química (…) Várias empresas haviam se comprometido a participar do evento, muitas delas entidades sem fins lucrativos.

(…) Como se vestir para o trabalho? Como se vestir’ era organizada pela Dress for Success, uma entidade sem fins lucrativos que ajuda mulheres a conseguir roupas apropriadas para o local de trabalho. Uma jovial mulher de meia idade nos explicou os erros e acertos do momento de escolher a roupa para um entrevista de emprego e solicitou voluntárias.

“Eu conhecia uma mulher lá embaixo… Uma baixinha, bem quieta, ficava na dela, não incomodava ninguém. Ela estava cumprindo prisão perpétua. Ela trabalhava, andava na linha, ia para a cama cedo, e só. Aí uma garota apareceu lá, essa garota era um problema. Ela começou a encher o saco da baixinha, ficava sacaneando, perturbando o tempo inteiro. Era uma garota muito idiota. Bom, essa baixinha que nunca causou problemas a ninguém, enfiou dois cadeados em uma meia e mandou ver na garota. Nunca vi nada parecido antes, aquela garota ficou mal, sangue por todo o lado, se ferrou.”

“A lição que nosso sistema prisional ensina a seus residentes é como sobreviver como um prisioneiro, não como um cidadão – o que não constitui uma estrutura de conhecimento muito construtivo para nós ou para as comunidades às quais retornamos”

Ostra feliz não faz pérola

Ostra FelizGosto muito do Rubem Alves, as coisas que ele escreve me tocam profundamente. Tive a felicidade de encontrar ‘Ostra feliz não faz pérola’ online e fui lendo, pelo celular mesmo, aos pouquinhos.

Neste livro, Alves constrói uma teia com diversos pensamentos e citações sobre assuntos fundamentais à sociedade e ao ser humano. Em sessões diferentes, ele comenta sobre a morte, sobre a vida, sobre a religião, velhice, educação, política, saúde mental (…)

No livro, Alves dialoga com o leitor, faz questionamentos sobre diferentes percepções de vida. Ele não se impõe, pelo contrário, apresenta suas ideias e convida a reflexão. Incrível como a sua narrativa simples e sensível consegue fazer com que a leitura fique ainda mais agradável.

Difícil fazer uma ‘resenha’ do livro, porque não é um texto simples, padronizado, fechado. Pelo contrário, Ostra feliz não faz pérola é um convite a análise (seja sobre a vida ou sobre a morte).

Gosto especialmente do título, acho que uma das coisas mais linda que já li e reproduzo o que Alves escreve:

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer cascas, conchas duras, dentro das quais vivem.

Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saída uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.

Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão”… Não era depressão, era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolve-lo com uma substancia lisa, brilhante e redonda.

Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra.

Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa. Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos.  No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição dos cristãos, levavam a tragédia a sério.

Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza.

A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta, mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer.

Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um home completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…

Confira, outros trechos:

“Há livros maravilhosos que a gente lê uma vez. Não adianta ler a segunda porque já sabe o fim da estória. Outros não contam estória alguma, são feitos de fragmentos inconclusos, e cada fragmento é uma chave para o mundo inteiro”.

“O gol é fundamentalmente um ato sádico. Um estupro. Um gol é um time que enfia a sua bola no buraco do outro – dolorosamente -, embora o outro tenha feito de tudo para impedir que isso acontecesse”.

“A medicina é uma arte rigorosa, regida por princípios de assepsia e de ética. Por exemplo: quando se vai aplicar uma injeção é preciso desinfetar o lugar onde a agulha vai entrar no corpo. Pura curiosidade: os médicos que aceitam a função de carrascos nas penitenciárias desinfetam o lugar onde a agulha com líquido letal vai penetrar na veia do condenado? Acho que sim. É preciso evitar infecções. Será que os carrascos na cama, de noite, pedem perdão ou se entendem apenas como executores de um ato burocrático? Os criminosos de guerra alemães alegaram que eles apenas cumpriam ordens. O argumento não foi aceito. Foram enforcados. Não é horrendamente imoral que o Estanho tenha o direito de matar? Matam na guerra, milhões. Não são caçados como terroristas. São saudados como heróis. Como são bonitas as fardas dos generais! A diferença entre os morticínios de Estado e os morticínios dos terroristas está em que os primeiros são feitos em nome do Estado e os segundos em nome de uma crença política ou religiosa. Os morticínios são feitos por loucos. Mas a loucura do Estado é legítima”.

“Sobre o perdão: Não sei se deve perdoar sempre. Como perdoar o torturador? Como perdoar o adulto que espanca uma LV225740_Zcriança? Como perdoar a Inquisição, os campos de concentração, a bomba atômica, os homens públicos que se enriquecem a custo do dinheiro do povo que sofre e morre? Quem perdoa tudo é porque não se importa com nada”.

“Olha as aves do céu. É um conselho de Jesus. Se ele aconselhou é porque o voo das aves no céu é uma metáfora do sagrado. As aves voam porque  são amigas do ar e dos ventos (vejam só os urubus voando nas funduras do céu sem bater as asas…). E foi o próprio Jesus que declarou que Deus é um vento que sopra sem  que saibamos donde vem nem para onde vai. Nosso destino é ser aves: flutuar ao sabor do vento. Por decisão divina, somos seres destinados ao voo. Não é por acaso que o céu estralado foi um dos primeiros objetos da curiosidade cientifica dos homens. A famosa Torre de Babel que os homens se puseram a construir e cujo topo deveria bater nos céus foi um artifício técnico bolado pelos homens para compensá-los do seu aleijão: haviam perdido suas asas. Quem não pode voar tem que subir pelos degraus… Mas vocês sabem o que aconteceu: a torre nunca foi concluída e os homens se espalharam pelo mundo na maior confusão. De fato, para se tocar as estrelas é preciso ter asas. Se duvidam, releiam a estória do sapo que resolveu ir á festa nos céus dentro do buraco da viola do urubu. Terminou estatelado numa pedra. Acho que o mito da Torre de Babel e a estória do sapo são variações do mito de Ícaro”.

(…) “O deus do taoismo é um rio em que temos de navegar sem remar, flutuando ao sabor das águas, sem fazer força, porque é inútil nadar ao contrário, pois é, o Alan Watts escreveu o seguinte: Especialmente à medida que se vai ficando velho, torna-se cada vez mais evidente que as coisas não possuem substância, pois o tempo parece passar cada vez mais rápido, de forma que nos tornamos conscientes da liquidez dos sólidos, as pessoas e as coisas ficam parecidas com reflexos e rugas efêmeras na superfície da água”.

“A velhice tem sua beleza, que é a beleza do crepúsculo. A juventude eterna, que é o padrão estético dominante em nossa sociedade, pertence à estética das manhãs; As manhãs têm uma beleza única, que lhes é própria. Mas o crepúsculo tem outro tipo de beleza, totalmente diferente da beleza das manhãs. A beleza do crepúsculo é tranquila, silenciosa – talvez solitárias. No crepúsculo, tomamos consciência do tempo. Nas manhãs o céu é como o azul do mar, imóvel. Nos crepúsculos, as cores se põem em movimento: o azul vira verde, o verde vira amarelo, o amarelo vira abóbora, o abóbora vira vermelho, o vermelho vira roxo – tudo rapidamente.

Ao sentir a passagem do tempo, nós percebemos que é preciso viver o momento intensamente. “Tempus Fugit” – o tempo foge, portanto ‘carpe diem’, sabemos que a noite está chegando. Na velhice, sabemos que a morte está chegando. E isso nos torna mais sábios e nos faz degustar cada momento como uma alegria única. Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos”.

 (Cássia Janeiro)

O que sobrou

O que sobreou de você neste

Apartamento

Foram as suas roupas,

Que logo vão ser dadas,

Os seu livros,

Alguns dos quais serão meus,

Aqueles que compramos juntos,

As lembranças,

O que sobrou foram os seus retratos

e,

Quando vi uma foto sua,

Sorridente e saudável,

Lembrei-me de que não me preparei

Para a sua vinda,

Mas pude me preparar para a sua

Ida.

Mas quando você foi,

Ah, meu Deus!

O que sobrou?

O que sobrou

Fui eu.

 

“Na Declaração Universal dos Direitos Humanos falta um direito: Todos os seres humanos tem o direito de morrer sem dor.”

“Há de se viver bem. Há de se morrer bem. A ideia de que a medicina é uma luta contra a morte está errada. A medicina é uma luta pela vida boa, da qual a morte faz parte”.

Histórias Íntimas

Histórias Intimas A primeira vez em que ouvi falar em Mary del Priore foi há dois anos atrás. Ela estava presente em uma edição da Bienal do Livro em Belo Horizonte para comentar sobre seu lançamento. Por infelicidade não pude vê-la, mas guardei seu nome e desde então – também por indicação de uma professora, acompanho suas publicações.

Terminei outro dia a leitura do “Histórias Íntimas” onde Priore conta e analisa a sexualidade e o erotismo na história do Brasil. Que livro incrível, Priore apresenta uma dinamismo e constrói uma narrativa gostosa através de uma historiografia muito bem feita. A autora fala sobre aborto, pedofilia, educação sexual, mídia, carnaval, masturbação, feminismo, censura (…), e apresenta diversos aspectos sociais em um trabalho sensível e corajoso.

Com um olhar crítico, ela revela as mudanças comportamentais ao longo dos anos. Antigamente, por exemplo, era comum andar nú, fazer sexo e defecar em publico. Por quê e como a educação sobre o corpo se modificou tanto? Como o homem foi proibindo o que não era decente? Afinal, quem determinava o que era decente ou não? “Antes malcheirosos e sujos, hoje, perfumados”. Difícil sintetizar quinhentos anos de história, por isso, fica muito claro que o trabalho de Priore é uma pincelada sutil sobre a história.

Como sempre faço, durante a leitura realizei algumas anotações, marquei detalhes que me chamaram atenção.  Divido com vocês as minhas anotações, um pequeno resumo do primeiro capítulo, “Da Colônia ao Império”. Prometo compartilhar depois as outras anotações.

Logo na introdução, Priore levanta uma reflexão inquietante. Ela questiona o leitor sobre a construção da sociedade brasileira em que as práticas sexuais, antes marginalizadas, se tornaram comuns: “As bancas de jornais exibem mulheres frutas. Nas propagandas, casais seminus lambem os beiços e trocam açucaradas. Nas frentes das câmeras segredos são revelados sem constrangimento. A internet abriu um universo de possibilidade para o sexo. Da pedofilia à prostituição, tudo se encontra no mercado virtual (…) Segundo pesquisas do IBGE, o número de casamentos caiu. Além disso, aumento a quantidade de mulheres mais velhas que se unem a homens mais jovens e elas procriam mais tarde, também. Se a ideia de interioridade dava consciência à vida dos indivíduos no passado, hoje, vivemos apenas o instantâneo”.

“Nas igrejas, pinturas demonstravam os diabos que recebiam as almas pecadoras, nuas em pelo, com golpes de pá e tridentes. Nos livros de oração com imagens, o justo morria sempre de camisola”

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Capítulo 1: “Da Colônia ao Império”

Durante a Colônia, a noção de privacidade ainda estava em “gestação” – foi construída em um meio instável e precário. A ideia de privacidade e intimidade dos homens do século XVI e XVIII se diferenciava profundamente da nossa. O sentimento de coletividade sobrepunha-se ao de coletividade: fazer sexo e andar nú eram práticas que correspondiam aos ritos estabelecidos pelo grupo. “Privado” era um conceito familiar, em 1718, o jesuíta Raphael Bluteau – um dos primeiros a usar o termo, escreveu: “Privado, uma pessoa que trata só de sua pessoa, de sua família e de seus afazeres domésticos”. Palavras como “vergonha” e “pudor” não existiam no dicionário. Muitas pessoas andavam nuas, sobretudo os índios e os escravos.

1500: Desabrochar do Renascimento da Europa e a chegada dos portugueses no Brasil. Na pintura, o humanismo colocava o homem como centro do mundo e não mais Deus, descobrindo-se os corpos nus. “Nu que hoje associamos ao erotismo, mas os nossos avós não o faziam”.

Os padres e os jesuítas, desde o início da colonização, lutavam contra a nudez e contra aquilo que ela simbolizava. Para os jesuítas, a nudez dos índios era igual a dos animais, afinal, assim como os bichos, os índios não tinham vergonha ou pudor do natural. Anchieta afirmou que as índias, além de andarem peladas, não se negavam a ninguém. “Comparadas com as mulheres que nas gravuras representavam o continente asiático ou a Europa, nossa América era nua, não porque sensual, mas porque despojada, singela e miserável”.

Imagem“A associação entre nudez e luxuria provocava os castigos divinos. Ameaçavam-se as pecadoras que usavam decotes. Eis por que a luxúria foi associada a uma profusão de animais imundos: sapos, serpentes ou ratos que se agarravam aos seios ou ao sexo das mulheres lascivas. Nas igrejas, pinturas demonstravam os diabos que recebiam as almas pecadoras, nuas em pelo, com golpes de pá e tridentes. Nos livros de oração com imagens, o justo morria sempre de camisola. O pecador, despido! Enterravam-se as pessoas vestidas, para ressuscitassem com roupas que as identificassem”.

Os seios: As chamadas “tetas” só tinham uma função, a produção do leite: “Acreditava-se que o sangue materno cozinhava com o calor do coração, tornando-se branco e leitoso.” Os seios não eram vistos como algo sensual, mas algo ligado ao pudor da maternidade. Ao longo dos anos os seios começaram a ser cobertos: “E isso até nas imagens sacras. Estátuas da Virgem Maria em estilo barroco, antes decotadas, ou a própria Virgem do Leite- que antes expunha os bicos – desaparecem de oratórios e igrejas. Nossa Senhora passa a cobrir-se até o queixo”.

Banho: Nas civilizações antigas o banho estava associado ao prazer: vide as termas romanas. Os primeiros cristãos quiseram acabar com a frequentação (aos conhecidos “banhos bordéis”), religiosos eram proibidos de comparecer a esses locais (…). Brasil: Enquanto os índios davam um exemplo de higiene, os europeus eram impedidos de nadarem nus, eram não só perseguidos como também obrigados a pagarem multas. Não tomavam banho, “as películas nauseabundas, que os antigos acreditavam funcionar como verniz que atuava contra doenças, na verdade bloqueava as trocas aéreas, necessárias ao organismo”.

“Hábitos de higiene, hoje associados ao prazer físico, eram inexistentes. Entre os habitantes da América portuguesa, a sujeira esteve mais presente do que a limpeza”. Rostos, mãos, braços, peitos e pernas raramente recebiam uma lavada. Os quartos (ou leitos) raramente eram abertos ou purificados,  também não ficavam expostos ao sol – as camas ficavam úmidas de suor.

Perfume: As mulheres usavam perfumes que remetiam a odores de animais, “haviam neles um papel sexual que acentuava a ligação entre as partes íntimas e o odor”. Ou seja, o perfume não era usado para mascarar o cheiro, mas para sublinhá-lo. Os cheiros íntimos agradavam.  O poeta Gregório de Matos, por exemplo, chegou a criticar a mulher que se lavava antes do ato sexual:

“Lavai-vos quando o sujeis
 E porque vos fique o ensaio
Depois de foder lavai-o
 Mas antes não o laveis”
 

(1790) Na Europa esse conceito foi se transformando, o odor forte, considerado um arcaísmo, se tornou coisa de roceira e de prostitutas velhas. Aqui a sensibilidade ao cheiro também foi se instalando, há registro de processos de divórcio, por parte de cônjuges que não aguentavam o odor do parceiro. Apesar da sujeira estar em toda parte, as pessoas apontavam-na com o dedo e começavam a se incomodar. Sobretudo, defecar e urinar em público, expondo as partes íntimas, chocava.

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As casas: As moradias era bonitas por fora, mas raramente eram limpas por dentro. Os aposentos eram varridos por uma vassoura feita de bambu. Água no chão? Nunca. “A fim de tornar os quartos toleráveis e deles expulsar o mau cheiro, costumavam usar substâncias odoríferas antes de dormir”. Penicos estavam por toda a parte e seu conteúdo era jogado na ruas e praias. A privada era um luxo que ninguém tinha. “Entre nós o penico vigorou até o século XIX, empestando o ambiente”.

Chaves eram artefatos caríssimos, portanto as portas não ficavam trancadas. As camas eram um elemento de ostentação e traduziam um alto nível de vida. Na hora da intimidade, os casais se sentiam mais a vontade nos matos, praias e campos. Longe dos olhos dos outros.

O Corpo:  Os cabelos femininos, conhecidos como “crinas” eram altamente valorizados, assim como hoje. O corpo devia ser “entre o magro e o gordo, carnudo e cheio de suco”. Morenice e robustez eram padrões de beleza.