Nota sobre: Carta ao pai

Carta ao PaiLi Kafka pela primeira vez quando estava no ensino médio. A história de um homem que se transformava em um inseto pouco me surpreendeu. Por ignorância, por não saber da importância histórica da obra, dei pouco valor a narrativa. Depois, quando já estava quase no fim da faculdade, reli o livro com mais cuidado e me surpreendi com um mundo de sentidos (principalmente em relação às criticas sociais) que estavam “escondidas” na narrativa.

Descobri “Carta ao pai” também quando estava na faculdade, quando uma querida colega de sala de aula andava para cima e para baixo com o livro nos braços. A curiosidade sobre o que Kafka teria a dizer sobre o pai sempre foi latente, mas só agora tive a oportunidade de ler este livro.

Kafka escreveu a carta em 1919, aos 36 anos (cinco anos antes de morrer). Nessa época já tinha publicado “A metamorfose” e “O processo” e estava hospedado em uma pensão em Praga com o intuito de fazer um tratamento de saúde. De acordo com Modesto Carone (o autor do posfácio do livro que li): ‘O pretexto imediato para a elaboração da carta foi uma pergunta feita pouco tempo antes por Hermann Kafka, que queria saber por que o filho afirmava ter medo dele. Um dos motivos da carta foi certamente o estremecimento das relações entre pai e filho após a tentativa (logo abandonada) de casamento de Kafka com Julie Wohryzek. 

Kafka demonstra muito rancor em relação as atitudes do pai e evidencia o quanto a sua personalidade “tirana” influenciou para que ele fosse um homem introspectivo e inseguro. Em um momento da carta, o autor conta que seu pai tinha o costume de deixá-lo de castigo na varanda (no escuro e no frio) – e que ele morria de medo e esperava que alguém pudesse ajudá-lo. Ele também descreve a personalidade de sua mãe, como sendo uma mulher bondosa, porém serviçal.

Sobre o pai, outra coisa parece incomodá-lo muito: a forma com que ele destratava as pessoas. Kafka era obrigado a ajudar o pai em sua loja e ficava extremamente envergonhado quando o pai humilhava os funcionários e o ensinava a fazer igual. Tímido, Kafka não tinha vontade de ser vendedor, mas era obrigado a passar os dias atrás do balcão.

Como os nossos pais…

grávidaNesses últimos dias, certa dúvida tem rondado minha cabeça. Antes, tinha a certeza do desejo de ter filhos e hoje, já não sei mais. Conversando com alguns colegas, todos eles já pais e mães, fiquei me perguntando se seria capaz de cuidar de uma criança. Aliás, fiquei me perguntando se sou capaz de estar ligada a uma pessoa pelo resto da vida e ser para ela um ponto de apoio e segurança. Não me vejo como uma pessoa preparada para ser mãe, no fundo acho que ninguém está, aprendemos socialmente.  Nesse cenário, uns acertam mais que os outros…

O discurso de que todas as mães possuem um sexto sentido me deixa em dúvida.  Um dos livros que estou lendo, veio para quebrar (ou pelo menos para colocar em xeque) essa percepção. Em ‘O corpo do diabo, entre a cruz e a caldeirinha, Silvia Alexim Nunes vem justamente para questionar e analisar a figura feminina construída ao longo do tempo

Em um dos capítulos ela analisa a relação entre a mulher e a maternidade e afirma que até certo momento da história as duas coisas não tinham uma relação tão forte: “Até o século XVIII, não se consideravam as mães como peças chaves para o desenvolvimento e a educação das crianças. Rousseau foi um dos primeiros pensadores a problematizar a relação mãe e filho, tratando-a como a ancoragem fundamental da construção da subjetividade. Partindo do pressuposto de que a natureza humana, em sua perfeição, estava sendo corrompida por uma civilização errônea, Jean Jacques conclamou as mulheres a assumirem as funções ligadas aos cuidados com as crianças e e se tornarem verdadeiras mães.”

Ao mesmo tempo, enquanto acredito no que Alexim Nunes afirma, de que não nascemos para ser mães (nos tornamos), fico me lembrando dos diversos casos que já ouvi e que me fazem acreditar (também) na existência de uma ligação (de energia, seja lá como for) entre mães e filhos. Uma colega me contava que seu filho, antes de completar um ano, sofreu um acidente e caiu na piscina da casa. Ela encontrava-se na cozinha e sentiu um aperto forte do peito e ouviu o seu filho gritando: “Mãe!” Por um momento pensou que os cachorros poderiam ter pegado o menino e correu para o canil, foi aí que viu a proteção da piscina rasgada. Pulou na água de roupa e tudo e conseguiu tirá-lo de lá. Mas como ela o ouviu gritando se o menino ainda nem falava?

Uma conhecida me dizia que eu não fazia ideia do quanto é reconfortante observar as filhas crescendo e se desenvolvendo. Outro, cuja namorada está grávida de dois meses, dizia que já era hora de deixar uma ‘semente’ no mundo. No fundo, todos concordavam com uma questão: é trabalhoso, exaustivo – e prazeroso.

Como ainda não sou mãe, eis uma das inúmeras perguntas que rondam a minha cabeça e que ainda não posso responder.  Será que os pais possuem a noção da importância e da influência que exercem na vida do filho? Será que eles entendem que o que fazem e dizem refletem na personalidade do filho e influencia na sua vida adulta?

Estou lendo um outro livro que também está muito relacionado a este tema. Em ‘Carta ao Pai’ Kafka narra as dolorosas lembranças que tem do pai, do quanto ele foi fundamental na construção da sua personalidade, dos seus traumas, dos seus medos. Na carta, que nunca foi entregue, Kafka chega a compará-lo a um tirano e narra, com muito rancor, a relação conflituosa que teve com o pai, extremamente autoritário.

Não sei se encontrarei respostas para todas as perguntas que tenho, mas hoje, a medida em que vou envelhecendo, tem se tornado mais fácil aceitar os erros dos meus pais. É mais fácil me colocar no lugar deles e entender que a vida (e o futuro) não são presenteados de bandeja. Somos responsáveis por construí-los e enquanto percorremos o caminho, sofremos algumas falhas. Espero não estar condicionada às atitudes dos meus pais, mas quanto mais eu cresço e me conheço, percebo que tenho muito deles (seja pela presença da minha mãe ou pela ausência do meu pai)… no fundo sou como eles, sou como os meus pais.

E, mãe… se você estiver lendo, saiba que eu te amo muito.