Os 13 porquês

os 13 treze porques thirteen reasons why jay asher_thumb[3]Li esse livro no mês passado e desde então, venho me programando para escrever sobre ele aqui no La Amora. Que narrativa deliciosa!

‘Os 13 porquês’, escrito por Jay Asher, conta a história de Clay Jensen, um estudante adolescente que um dia, após o colégio, chega em casa e encontra na porta um pacote com seu nome, cheio de fitas cassetes. Nas fitas, a voz de Hannah Baker, uma menina que estudou com Clay e que cometeu suicídio. Em cada uma das gravações, Hannah enumera os motivos que a levaram a se matar e nomeia todos os envolvidos, entre eles: Clay. Mas o quê Clay pode ter feito, já que gostava de Hannah?

Asher cria uma narrativa dupla, intercalada entre as confissões de Hannah e os pensamentos de Clay. ‘Os 13 porquês’, que é seu primeiro livro, surgiu depois que Asher visitou um museu e lhe entregaram fones de ouvido. Enquanto o autor observava as obras, ouvia vozes dos artistas – alguns deles, já falecidos. O livro, que será transformado em filme e protagonizado por Selena Gomes, foi traduzido para mais de trinta países.

Não há dúvidas de que o gênero é juvenil, com temáticas próprias de adolescentes: escola, namoro, família, bullying. Mas há algo mais interessante, que o faz ser indicado a leitores de todas as idades: trata-se, acima de tudo, de questionamentos existenciais. Difícil não gostar do Clay, difícil não se sensibilizar por Hannah. Talvez esse seja o grande mérito do Asher, provocar a catarse.

Podcast #2)

Por favor, cuide da mamãe.

ImagemTenho lido muitos livros ultimamente, especialmente porque ganhei um celular que me permite fazer isso. Reconheço que nada tira o gosto de tocar um livro, de sentir o cheirinho das páginas, mas a facilidade da internet em compartilhamentos de dados é irresistível.

“Por favor, cuide da mamãe” caiu em minhas mãos exatamente no dia em que o celular chegou aqui em casa, li porque o título (e a sinopse) me encantaram e aos poucos, fui me emocionando com a narrativa. O engraçado é que até aquele momento nunca tinha ouvido falar na autora (Kyung-sook Shin) e, logo depois, virei fã dela.

A trama conta a história de Park So-nyo, uma senhora de 69 anos, mãe de cinco filhos, que desaparece em uma estação de metrô em Seul. Casada há mais há mais de cinquenta anos, Park So-nyo acostumou-se a seguir o marido a todos os lugares mas, excepcionalmente neste dia (no dia em que eles saíram da aldeia onde vivem para visitar os filhos) ela acabou se perdendo em meio à multidão em uma plataforma.

Seu marido supôs que ela o seguia, já que foi assim a vida inteira, mas quando se deu conta, ela não estava mais lá. Preocupados, os filhos de Park começam a procurá-la e, ao descobrirem alguns segredos da mãe, começam a perceber que nunca a conheceram de verdade.

por-favor
Kyung-sook Shin

Além de contar uma história emocionante, o que Kyung-sook Shin faz é sugerir que o leitor monte um quebra-cabeça através das narrativas. Narrativas, exatamente. Porque não há apenas uma voz, o livro é construído com a percepção de quatro pessoas diferentes: de dois filhos, do marido e da própria Park So-nyo. Em princípio o texto pode causar estranheza porque não há um personagem bem delimitado, às vezes a visão de todos eles se mistura, às vezes eles dialogam.

É incrível como esse tipo de estrutura textual pode não ser bem encarada pelos leitores, digo isso, porque li várias críticas do livro e praticamente todas elas tocaram nesse ponto.

Admiro a inteligência em relação a construção do título, afinal: a quem esse pedido é feito? A leitura do livro me permitiu perceber que a autora faz esse convite aos leitores, ela pede que a gente preste atenção não só nas nossas mães, mas nas pessoas que nos cercam, que nos amamos, mas que tratamos de forma banal, simplesmente porque elas sempre estiveram ali e a gente acha que elas estarão ali para sempre ( mas isso não acontece, infelizmente).

Jornalismo e Literatura: Estilos combinados

A literatura e o jornalismo são inter-influentes e, antes de tudo, possuem a escrita como um instrumento comum. Existem processos fundamentais que unem o jornalismo e a literatura, como por exemplo, a possibilidade de dar corpo à mensagem, escolher termos e os sentidos que se quer transmitir ao leitor ao se relatar determinado fato. Essa aproximação se inicia na utilização de um instrumento essencial: a palavra.

A participação da literatura na imprensa não é uma novidade. Durante o século XIX, os escritores tornaram-se presentes nos jornais através de diversas publicações como contos e crônicas. No Brasil, por exemplo, José de Alencar conseguiu consolidar a carreira e adquirir visibilidade publica através do seu trabalho no Correio Mercantil e no Diário do Rio de Janeiro. Autor de “O Guarani” (1857) e “Lucíola” (1862) retratou a complexa sociedade da sua época e ocupa um importante lugar nos clássicos da literatura brasileira. Conforme explica Héris Arnt, a literatura e o jornalismo exercem influências mútuas.

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A presença dos escritores favoreceu o aparecimento de um jornal informativo e atraente, com assuntos mais variados – formato que se fixa no século XX e que existe até hoje. A literatura, em contrapartida, sofreu também influencia do jornalismo. Ligado às exigências do meio – tudo num jornal informa -, o olhar dos escritores do século XIX volta-se para as questões sociais e as agruras da vida cotidiana. (ARNT,  p.8, 2002)

Da mesma forma, conforme explica Filipe Pena (2006), Machado de Assis e Joaquim Manoel de Macedo atuaram como jornalistas e ali receberam incentivos para seguir a carreira literária. Machado de Assis atuou como cronista, escreveu peças e poesias e, através das suas obras, incentivou a reflexão sobre a realidade e sobre o cotidiano da população. Grande colaborador do jornalismo brasileiro é o autor, dentre outras obras, de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) e “Dom Casmurro” (1899).

       Outro autor que merece atenção é Honoré de Balzac que se destacou no jornalismo literário com publicações em folhetins que retrataram de maneira rica e detalhada seu contexto social. Balzac ofereceu um vasto conteúdo de histórias e de personagens fortemente inspirados em fatos sociais. Entre suas obras mais famosas estão “A mulher de trinta anos” (1832) e “Eugénie Grandet” (1833). 

Víctor Hugo e Charles Dickens atuaram paralelamente na literatura e no jornalismo. Com uma participação forte na política francensa, Victor Hugo publicou obras revolucionarias contra a monarquia, com o objetivo de combater a atuação de Luis Napoleão Bonaparte. Com uma extensa obra, o autor de “Os Miseráveis” (1862) exerceu importante influecia em seu país e no mundo, relatando também através de jornais, as injustiças sociais de sua época.

A presença da literatura nos jornais tornou-se marcante através dos folhetins, herança direta dos romances. Escrever para jornais não significava apenas visibilidade, mas também mais dinheiro. Os veículos aumentavam suas tiragens com os folhetins e os anunciantes mostravam-se mais interessados. As narrativas literárias facilitaram a popularização do jornal e fidelizaram os leitores. As histórias eram construídas através de texto acessível, de fácil compreensão, direcionadas a um público vasto, atingia diversas pessoas, sem distinção de classes.

De acordo com Filipe Pena (2006), características semelhantes às conhecidas telenovelas, o folhetim era escrito com uma estratégia interessante: o “plot”. Tratava-se da interrupção de um momento importante ou decisivo da narrativa que só tinha continuidade nas próximas edições. Os escritores exploravam pequenos detalhes, repetiam alguns fatos (para lembrar o público ou atualizar o leitor que não teve acesso a edição anterior) e, quando necessário, aumentavam a história ou adicionavam novos personagens para esticar o enredo e estender a trama.

O folhetim marcou a popularização dos periódicos e em países europeus contribuiu para o estímulo da população à leitura. Como os livros eram muito caros, acompanhar obras literárias semanalmente através dos jornais, tornou-se um hábito expressivo em países como França e nos Estados Unidos. No Brasil, o jornalismo literário foi um estilo que representou um avanço cultural, mas que se popularizou lentamente, pois a massa não era alfabetizada.

Os jornais sofreram transformações gráficas e adotaram, de maneira ainda mais forte, a linguagem clara e objetiva. Assim, na década de 50, a literatura diminuiu sua presença nos veículos e passou a ser encarada como um suplemento. As narrativas que atraíam os leitores dos folhetins foram perdendo espaço nos jornais, pois a preocupação com a veiculação de novidades tornou-se uma característica marcante na imprensa moderna. Os suplementos tinham função de acrescentar algo ao jornal e os escritores assumiram o desafio de combinar a qualidade dos textos com a quantidade necessária de vendas, tudo isso obedecendo às características da imprensa quanto à narrativa clara e concisa.

O surgimento dos cadernos literários nos jornais mostrou que a literatura tornou-se um complemento dos veículos. Com base na lógica do valor notícia, os cadernos literários também estavam sujeitos à utilização as técnicas e regras do discurso jornalístico. De acordo com essa lógica, o jornalismo literário se viu sujeito a acompanhar as notícias, as informações novas, que são essenciais para a imprensa moderna. Os lançamentos de mercado passaram a ter um lugar de destaque nas críticas literárias e nos suplementos, dividindo espaço com outros assuntos e aspectos valorizados como as celebridades, as fofocas e os acontecimentos inusitados.

Os escritores perceberam a importância do jornalismo e passaram a participar fortemente desse espaço público que conforme explica Filipe Pena (2006), é muito amplo. O conceito de jornalismo literário é complexo e envolve questões fundamentais para a discussão do âmbito da comunicação e da própria literatura como, por exemplo, as influencias que exercem na vida do cidadão e no cotidiano da sociedade.

Não se trata apenas de fugir das amarras da redação ou de exercitar a veia literária em um livro-reportagem. O conceito é muito mais amplo. Significa potencializar os recursos do jornalismo, ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos, proporcionar visões amplas da realidade, exercer plenamente a cidadania, romper as correntes burocráticas do lide, evitar os definidores primários e, principalmente, garantir perenidade e profundidade aos relatos. (PENA, p.6, 2006)

O jornalismo literário baseia-se na utilização de recursos do jornalismo para a construção dos textos. A apuração de um assunto, a observação e o rigor ético com as informações são estratégias que continuam sendo utilizadas. A abordagem de um tema é feita de forma aprofundada, pois, assim como no jornalismo, os textos possuem um compromisso com a sociedade e com o cidadão, que é o leitor.

O jornalismo literário rompe com as amarras das redações, apresenta técnicas diferentes e não se rende a efemeridade das publicações. Não há uma preocupação com o deadline ou com a periodicidade. O escritor não está interessado em oferecer uma novidade, uma informação imediata e sim em apresentar um texto rico com uma visão completa e detalhada da realidade.

Em contraponto com a superficialidade dos textos jornalísticos, o jornalismo literário não possui um espaço tão limitado nos veículos de comunicação e por isso tem a possibilidade de contextualizar suas informações e oferecer ao leitor uma interpretação mais profunda.

Para facilitar a compreensão das principais relações que ligam o jornalismo e a literatura, Filipe Pena, autor de “Jornalismo Literário” (2006), desenvolveu vários itens através de um conjunto de temas do que chamou de estrela de sete pontas. A primeira ponta da estrela é a potencialização do jornalismo, ou seja, explica que as técnicas narrativas jornalísticas não foram ignoradas pela literatura. A segunda defende a idéia de que a literatura ultrapassa os limitar do cotidiano e da periodicidade.

Em terceiro lugar, explica que a literatura preocupa-se em contextualizar um assunto de forma mais abrangente e completa possível mesmo que o texto não passe de um recorte, uma interpretação de determinada realidade. A quarta ponta aborda o compromisso do escritor com a sociedade e da sua contribuição com a formação do cidadão.

A quinta característica evidencia o rompimento da literatura com o lead. Para o jornalismo literário não há uma obrigatoriedade de seguir o lead, uma técnica narrativa para agilizar os textos jornalísticos. As  seis questões fundamentais do lead: Quem? O quê? Como ? Onde? Quando? Por quê?,  são fórmulas importantes para guiar os jornalistas na construção de um texto e deixá-lo menos subjetivo, mas ainda assim, reducionista.

Na sexta ponta há a preocupação em recorrer a fontes que não são primárias. O autor identifica a importancia de se conseguir depoimentos de fontes comuns, ou anônimas e de evitar os definidores primários como personagens que ocupam um órgão público ou político e que sempre possuem espaço na mídia. Na sétima ponta, o autor explica que uma obras do jornalismo literário não são efêmeras, o objetivo do escritor é não cair em esquecimento.

O jornalismo e a literatura também se esbarram fora dos periódicos e se encontram em reportagens editoriais, livros-reportagem, críticas literárias, nas narrativas de não ficção e assim, se sobressaem dos limites dos gêneros e dos discursos. Essa convivência também pode ser percebida no gênero literário classificado como romance-reportagem, que se concentra na descrição dos fatos e estabelece um enredo com foco na realidade factual.

REFERÊNCIAS

ARNT, Héris. A influencia da literatura no jornalismo: o folhetim e a crônica. Editrora E-papers, Rio de Janeiro, 2002,

BIANCHIN, Neila. Romance Reportagem: onde a semelhança não é mera coincidência.  Editora da UFSC, Florianópolis, 1997.

BRANDILEONE, Ana Paula.  O Romance Reportagem: Implicações estéticas e ideológicas. Terra Roxa e Outras Terras: Revista de estudos literários, volume 19, 2010. Disponível em:  http://www.uel.br/pos/letras/terraroxa/g_pdf/vol19/TRvol19b.pdf.  Acesso em: 29 mai. 2012.

COSSON, Rildo.  Romance Reportagem, o gênero. Editora Universidade de Brasília, São Paulo, 2001.

GALENO, Alex e CASTRO, Gustavo. Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra. Escritoras Editora, São Paulo, 2002

 LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura, Editora Manole, São Paulo, 2004.

 PENA, Filipe. Jornalismo Literário, Editora Contexto, São Paulo, 2006.

 

A Mulher que escreveu a bíblia

A publicação de hoje é especial, porque é a primeira vez em que faço um podcast para o La Amora.  Estou me aventurando no campo da edição e vocês vão reparar que o áudio está meio picotado… De qualquer forma, vou continuar treinando e espero “chegar lá” um dia. O Podcast está linkado aí embaixo e é só clicar no play para ouvir a minha voz.

“Segundo os anciãos, Deus criara primeiro o homem a partir do barro. Eu não tinha nenhuma objeção a essa humilde matéria-prima. Mas por que o homem primeiro, e não a mulher? E por que tinha a mulher sido criada de maneira diferente? A história da costela me parecia tola, para dizer no mínimo, ou talvez, até uma afronta, considerando a modéstia dessa peça anatômica. Decidi corrigir tais equívocos mobilizando para isso as minhas próprias fantasias. Criados, o primeiro homem e a primeira mulher enamoram-se loucamente um do outro, e aí transformam o Éden num cenário de arrebatadora paixão. Fodem por toda a parte, na grama, na areia, à sombra das árvores, junto aos rios. Fodem sem parar, como se a eternidade precedendo a criação nada mais contivesse que a paixão deles sob forma de energia tremendamente concentrada. O encontro dos dois era, portanto, uma espécie de Big Bang do sexo, muito Bing e muito Bang.”

ImagemEla era feia, mas escreveu o livro mais famoso do mundo.

Ela escreveu a Bíblia.

A mulher que escreveu a Bíblia, livro escrito por Moacyr Scliar e lançado em 1999, é um daquelas narrativas imperdíveis, que a gente lê rapidinho e pede por mais.  Scliar tem um desempenho invejável, consegue balancear humor e o drama sem complicação.

Além de apresentar um texto simples, Scliar mistura a linguagem coloquial e a linguagem erudita sem nenhum medo. Ele também brinca com o sagrado e o profano de maneira corajosa, sem rodeios. A personagem principal, que aliás, não tem nome, é uma mulher encantadora, inteligente e sagaz. Infelizmente, em seu contexto, ela é feia, feia que dói e essa característica física causa grandes transformações em sua vida. O engraçado é que ela tem um instinto sexual muito grande, mas não consegue satisfazê-lo por que não encontra um companheiro que corresponda seus desejos, que “apague o seu fogo”.

A história se passa no século X (a.C.) e relata o caso de uma mulher, filha do chefe de uma vila, que descobre acidentalmente que é muito feia. Por uma boa ação de um senhor que vivia no local, ela aprende a escrever. Sem nenhum pretendente, ela passa a frequentar uma montanha onde conhece um pastorzinho e se apaixona por ele. Infelizmente esse pastor tem um caso com a sua irmã, o que abala ainda mais a sua autoconfiança. Um dia, surpreendentemente, o Rei Salomão a pede em casamento.  Ela não nega e encantada com a ideia, muda-se para o harém do palácio onde convive com outras setecentas mulheres. Ela tenta se aproximar do rei, mas ele não sente nenhum desejo por ela, o fato de tê-la como esposa era por puro interesse: queria que ela escrevesse um livro, uma obra tão impressionante, que marcasse a humanidade.

O Clube do Filme

David Gilmour é um crítico de cinema desempregado. Seu filho, Jesse, de apenas quinze anos, não vai bem na escola e recebe sucessivas reprovações.  Preocupado, David permite que Jesse largue a escola contanto que assista com ele – semanalmente – clássicos do cinema.  Juntos, pai e filho criam o “Clube do filme” e passam dias assistindo e comentando produções famosas como O Poderoso Chefão, A doce Vida, Uma Rua Chamada Pecado, Ladrões de Bicicletas, Tio Vânia Em Nova York (…). 

A história é sincera e envolvente, mais do que uma trama sobre pessoas que gostam de cinema, “O clube do filme” retrata a complexidade das relações humanas e familiares. Gilmour, que parece despretensioso, deixa bem claro que como pai, está sujeito a erros e acertos. Com essa convicção,  tenta fazer com que o filho perceba que amadurecer (seja amorosamente ou financeiramente) envolve um processo muito mais complicado do que ele imagina.

Imagem“Indicar filmes às pessoas é um negócio arriscado. De certa forma, é algo tão revelador quanto escrever uma carta para alguém. Mostra como você pensa, aquilo que o motiva, e algumas vezes pode mostrar como você acha que o mundo o enxerga. Então, quando você recomenda com entusiasmo um filme a um amigo, e diz: “Ah, é bom demais, você vai adorar”, é uma experiência desconcertante quando você o encontra no dia seguinte e ele diz: “Você achou aquilo engraçado?”
 

Um livro para cinéfilos?

Li “O Clube do filme” aos pouquinhos, marcando e voltando em passagens (ou em dicas) que me pareciam interessantes. Percebi que existe uma gama de clássicos que desconheço e que preciso assistir urgentemente. De fato, foi isso que me prendeu ao livro, Gilmour citava um filme e comentava sobre a impressão que teve dele. Mesmo com comentários superficiais, ele conseguia me deixar curiosa para saber mais.

Em algumas passagens, por exemplo, o autor diz que poucas pessoas prestam atenção na beleza do poema final do velho em “A noite do Iguana” (de John Huston). Que existiu uma época em que Woody Allen só filmava filmes maravilhosos, como Crimes e Pecados (de 1989). Que a Lolita de 1997 criada por Adrian Lyne é muito melhor do que a de 1962 criada por Stanley Kubrick. Que Marlon Brando quase foi escalado para o papel do padre em O Exorcista, que Quentin Tarantino passou mais de cinco anos tentando vender o seu primeiro roteiro (…)

Por isso mesmo, acho que, apesar da história principal se basear na relação entre pai e filho (e não ter sido explorada suficientemente, talvez por não ter tanto espaço naquele contexto), o livro é direcionado a pessoas que gostam de cinema ou que, pelo menos, conhecem nomes de atores e diretores. Outra coisa divertida da história é que David e Jesse categorizam os tipos de filmes como: “Prazeres Culpados” (filmes ruins, mas que a gente adora) ou ” Filmes Superestimados”.

P.S. Sobre a relação entre pai e filho, uns aspectos me incomodaram um pouco. David pareceu passivo demais, enquanto Jesse fazia burrada atrás de burrada, sem receber punições. “Pai, usei cocaína ontem”. “Tudo bem filho, se você o fizer de novo, não assistiremos mais filmes juntos”… (WTF?!)

Para quem participa do Filmow, existe uma lista com os filmes citados no livro, onde você pode marcar quais já assistiu e quais pretende assistir:

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Elogio da Madrasta

Sinopse: Dom Rigoberto e Lucrécia (uma mulher que acaba de completar quarenta anos) casaram-se recentemente. Os dois estão apaixonados, possuem uma vida sexual satisfatória e ativa e estão felizes. Lucrécia só tem uma preocupação: agradar Alfonso (um menino de nove anos), filho de Rigoberto com outra mulher, já falecida.  Alfonso, por outro lado, parece perdidamente apaixonado pela madrasta e possui por ela uma admiração grandiosa (grande até demais). Enquanto Dom Rigoberto se dedica ao trabalho, Lucrécia e Alfonso criam uma proximidade perigosa.

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Já me falaram muito sobre o Mario Vargas Llosa, mas até a semana passada nunca tinha lido nada escrito por ele. A Jéssica, autora do Indiscreet Talkin (um blog que adoro!) comentou em uma das minhas postagens sobre o livro Elogio da Madrasta que, de alguma forma, possui uma relação com o tema do filme “Os Inocentes”, estrelado por Deborah Kerr. Fiquei com o nome do livro na cabeça e estava decidida em lê-lo. Coincidentemente ou não, na semana seguinte, uma amiga – que participa comigo de um grupo de leitura – disse que existia um livro imperdível, que era a minha cara e que eu deveria ler… Pois é, o livro se chamava Elogio da Madrasta.

– Ju, você leu meu blog esses dias?
– Ah, não tive tempo, mas por quê?
– Sério?
– Sério
– Estranho isso…
 

Não bastasse a coincidência, a Riva – outra amiga  viciada em leitura me indicou o Lê Livros, um bom site para baixar livros gratuitamente. Adivinhe, qual era um dos primeiros disponíveis para download? Elogio da Madrasta. Pode isso? Quer dizer, eu nem precisei procurar por ele, ele apareceu na tela do meu celular… Levei um susto! (tô meio assustada ainda), mas baixei logo, com ansiedade e comecei a ler imediatamente.

Do erótico ao absurdo: 
a relação entre Lucrécia e Alfonso
 
Antes de qualquer coisa, há de convir que estamos falando de uma história fictícia, erótica, bem humorada e  “politicamente incorreta”.
 

Qualquer relação sexual (ou qualquer insinuação sexual) entre uma madrasta e seu enteado é algo que chama atenção, principalmente quando a madrasta possui quarenta anos e o enteado possui nove. Desde o início da trama, Alfonso mostra um interesse “diferente” por Lucrécia, com insinuações que a deixam desconcertada e ao mesmo tempo, curiosa. Por outro lado, Lucrécia, já no primeiro capítulo, vai até o quarto do menino vestindo apenas uma camisola transparente e sem nenhum constrangimento permite que ele lhe beije a boca.

Vargas Llosa é um gênio, consegue deixar o leitor curioso e desconfortável ao mesmo tempo e cria personagens bem delimitados, mas ambíguos. Enquanto lia os capítulos, custei a acreditar que Lucrécia fosse, de fato, retribuir os carinhos de Alfonso. Como pano de fundo, a empregada da casa – que atua como um voyer –  adverte Lucrécia que há algo “malicioso” nas atitudes do garoto. Ela adverte Lucrécia por querer o bem da patroa ou apenas por ciúme?

De uma relação simples e maternal, o contato entre Lucrécia e Alfonso vai se tornando cada vez mais sério e sexual. Rigoberto, apaixonado pela esposa e pelo filho, quase nunca está por perto por causa das tarefas do trabalho. Naquela casa enorme, cercada por amigas artificiais, Lucrécia vai se sentindo cada vez mais sozinha. E é aí que Alfonso aparece, com sua graciosidade de um garoto e com uma malícia de adulto.

Nessa história não há inocentes. Alfonso observa a madrasta tomando banho, enquanto debruça-se sobre um telhado de vidro. Lucrécia, percebe sua presença, mas permite que ele continue ali. O único que realmente não tem consciência sobre o que se passa é Rigoberto, que nesta obra é um personagem fundamental, mas secundário.

A relação entre Lucrécia e Alfonso não fica apenas na observação, ou no toque, ou mesmo no beijo. Os dois transam… sim, os dois transam! Momento em que o leitor é, mais uma vez, colocado em uma situação delicada. Daí, difícil não se perguntar sobre o que se passa. Alfonso não é uma criança inocente, sabe onde está se metendo. Mas, Lucrécia… bom, você fez sexo com um garoto de nove anos, há algo errado aí…

Nietzsche para estressados

nietzsche-para-estressados-1Este é o primeiro livro de auto-ajuda que leio em anos. “ Nietzsche para estressados”( escrito por Allan Percy ) caiu em minhas mãos outro dia e eu não consegui resistir, principalmente por causa da capa (que é brilhante e tem um toque minimalista). O subtítulo me chamou atenção: 99 doses de filosofia para despertar a mente e combater as preocupações”. Franzi a testa, um pouco descrente, mas encarei o livro com seriedade – e não vou mentir, gostei. O livro é muito simples e relativamente pequeno. Eu, que não sou uma especialista em filosofia, afirmo com segurança que as “99 doses” contemplam apenas superficialmente o trabalho de Nietzsche, mas isso não faz do livro menos interessante. O livro é uma boa pedida de passatempo, pode ser interessante, por exemplo, pra quem espera em uma fila, em um consultório (…)

Só pra constar, o que Allan Percy faz no livro é o seguinte: ele seleciona algumas reflexões de Nietzche e depois comenta sobre elas, não há muito segredo ou coisas das quais a gente não desconfie, as lições de vida transmitidas são coisas que a gente já sabe, mas que não dá importância ou esquece ao longo do tempo. Como não podia deixar de fazer, separei algumas das 99 doses que me pareceram interessantes -e fiz pequenos comentários em algumas delas.

– A felicidade é passageira, frágil e volátil (“O destino dos seres humanos é feito de momentos felizes e não de épocas felizes”): Não se pode ser feliz o tempo inteiro e imaginar que essa é uma obrigação só nos faz mais tristes e preocupados.

– Estamos “desnaturalizados”: (Nós nos sentimos bem em meio a natureza porque ela não nos julga). Enquanto estamos na “cidade”, muitas vezes, precisamos fingir ser alguém que não somos, a natureza nos faz lembrar da nossa essência “há tanto tempo abandonada”.

– Não reclame (atoa) da vida: Reclamar gera mais angústia, é preciso tentar resolver as insatisfações cotidianas ao invés de ficar “parado” analisando-as.

– A indiferença (ou a falta de comunicação) é pior do que qualquer grosseria: Manifeste-se! A falta de comunicação estraga relações, guardar as coisas pra sí ou, não dizer o que pensa pode deixar você mais estressado.

– Aceite a imperfeição: (“O homem que imagina ser completamente bom é um idiota). Assumir nossa condição nos ajuda a ser mais humildes: nos faz ter consciência de que precisamos melhorar. É inútil querermos ser bons o tempo todo e fazer tudo certo – o que importa é estarmos dispostos a fazer um pouco melhor hoje do que fizemos ontem.

-Precisamos escolher bem as pessoas com quem trocamos confidências: (As pessoas que nos fazem confidências se acham automaticamente no direito de ouvir as nossas). Um dos princípios básicos da intimidade é a confiança, tome cuidado com o que fala e pra quem fala.

-Fuja das comparações: Saiba perdoar os seus erros, ame a sí mesmo, pare de analisar.

– Quem é seu amigo de verdade? (Alegrando-se por nossa alegria, sofrendo por nosso sofrimento – assim se faz um amigo). Desconfie do amigo que não se contenta com os seus “êxitos”. O amigo verdadeiro não é só aquele que te diz coisas boas, ele também é sincero e te alerta quando há algo errado.

–  Muitas vezes, os atos valem mais do que as palavras: Fale menos e faça mais, faça com que os seus atos falem por você. (Falar muito de sí mesmo pode ser uma forma de se ocultar).

– Não tenha medo do sofrimento, encare-o!: Tente extrair algum benefício da dor, sofrer nos ensina a viver, nos faz mais fortes – e é inevitável.

– Não viva em função do passado, nem do futuro, viva o presente: O futuro e o passado nos molda, mas não podemos viver em função deles.  Pensar só no passado nos deixa mais melancólicos e rancorosos, pensar só no futuro nos deixa mais ansiosos.

– Conviver com pessoas viciadas em reclamar é um tormento: (Toda queixa em si contém uma agressão). Evite a negatividade, reclamar demais não ajuda a resolver o problema. Por trás da negatividade há um sinal de impotência.

– Um passo de cada vez: (Quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar, a correr, a escalar e a dançar. Não se aprende voar, voando). Vá com calma, suba um degrau por vez.

-Bibliografia: Nietzsche para estressados/Allan Percy [tradução de Rodrigo Peixoto]; Rio de Janeiro: Sextane, 2011

O Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo

Finalmente eu terminei de ler o “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”, o quarto livro da série escrita pelo jornalista Leandro Narloch [já estou com os outros aqui em casa, prontinhos para serem devorados]. Com um texto dinâmico, irônico e bem humorado, Narloch desconstrói e contesta diversos mitos que foram criados ao longo do tempo e passados de geração a geração. O autor também desmistifica alguns personagens históricos (como Gandhi, Madre Teresa de Calcutá, Nero, Hitler, Galileu, Mussolini…) e traz a tona curiosidades sobre eles.

O interessante é que Narloch não vem para esclarecer nada, pelo contrário, já é de se esperar que o leitor termine cada capítulo repleto de dúvidas, se questionando sobre as antigas aulas de história que teve durante a época do colégio. Sempre achei que toda história depende da perspectiva de quem a conta e o “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo” vem para provar isso (não é a toa que tenha gerado tanta polêmica quando lançado, muitos historiadores/estudiosos (…) contestaram as informações do livro e chegaram a chamar o autor de oportunista).

ImagemO fato é que qualquer pessoa (com um conhecimento mínimo em história) tem potencialidade para se tornar leitor desse livro. Sem duvidas este é um livro que  traz uma coleção de informações super bacanas para quem se interessa em saber o “outro lado” da moeda. Um aspecto interessante é que Narloch, apresenta uma forte oposição ao esquerdismo, isso fica claro desde o inicinho do livro e fica mais evidente ainda quando ele faz uma comparação entre o nazismo e os partidos de esquerda. E ao que tudo indica, Narloch repudia o comunismo. – Não sei, mas foi essa a impressão que me deu.

Os personagens foram bem escolhidos e a cronologia devidamente exposta. Narloch começa seu livro na Grécia Antiga e afirma (dentre outras coisas) que não foi Nero que colocou fogo em Roma. Em relação a Idade Média, três aspectos me chamaram atenção: de acordo com o autor o desejo sexual não era reprimido, as pessoas estavam acostumadas com a nudez, com a prostituição e com o incesto e as mulheres não usavam cinto de castidade – “o cinto de castidade está para a Idade Média assim como a loira do banheiro e as balas de cocaína estão para os anos 80″.

Além de dizer que os samurais eram bêbados e um bando de fofoqueiros, de evidenciar que muitos deles tinham relações homossexuais, de dizer que os agrotóxicos praticamente salvaram milhões da fome e dizer que não foram os europeus que destruíram a África, o autor destrói duas das figuras mais amadas e influentes do mundo contemporâneo: Madre Teresa de Calcutá e Ghandi.

Gosto muito desses capítulos. Não sei muito sobre a vida de Ghandi (a quem o autor chama de “canastrão” ou da Madre Teresa, mas desconfio de bondade humana em excesso e também tenho um pé atrás em relação a adorações exageradas. Em O Guia Narloch afirma que Ghandi era  um pervertido sexual, que dormia nu com diversas mulheres para provar resistência (ou simplesmente por fetichismo). Segund o livro, Ghandi era gay, não gostava de negros e aumentou a miséria na Índia. Em relação a Madre Teresa, a “freira sádica” ele diz o seguinte:

Madre Teresa de Calcutá não era nenhuma madre-teresa. A defensora dos oprimidos e moribundos, o sinônimo do que há de bondade no mundo, não se importava em tratar os doentes sob seus cuidados e costumava negar a eles remédios para aliviar a dor.  Assim como Gandhi, Madre Teresa defendia a austeridade e a pobreza como objetivo de vida. Dizia que a dor aproximava os doentes de Deus. Durante uma entrevista para um canal de TV, perguntaram a ela por que deixar os moribundos sentir tanta dor e agonia. Ao responder, ela descreveu um diálogo com uma mulher que tinha câncer terminal e sofria uma dor insuportável. Dando um sorriso para a câmera, a madre contou ter dito: “Você está sofrendo como Cristo na cruz. Então Jesus deve estar te beijando”. Sem se dar conta da ironia da situação, Madre Teresa revelou a resposta da paciente: – Então, por favor, peça para Jesus parar de me beijar

Selvagens

Ganhei o livro “Selvagens” de aniversário. Estava namorando ele há tempos. Sempre que passava na Leitura, dava uma espiadinha nas páginas, mas não levava. Não comprei porque fiquei um pouco desestimulada pela capa (pode isso? Julgar um livro pela capa?). Voltei ao Shopping com uma amiga, a Tetê. Ficamos horas olhando os livros em promoção e quem estava lá? “Selvagens”, por R$ 4,99. Tetê não resistiu e comprou um pra ela. Eu disse: “Ok, vou levar!” E ela disse: “Eu pago, é o seu aniversário”. Pensei: Ótimo!

Comecei a lê-lo no outro dia (4 de janeiro) e não consegui parar, o livro é muito bom, simples e interessante. Aliás, acho que nunca li um livro tão rápido em toda a minha vida [salvo o ócio], Selvagens é uma boa opção de leitura. Há muitas menções à cultura pop, as letras são grandes e espaçadas (não se engane pelo número de páginas) e a trama é sexy, ácida e envolvente. Engraçado que… foi bom ler um livro de ficção, há algum tempo tenho enchido a cabeça com livros complexos e acadêmicos, trabalhosos…quero dizer, há tempos não tinha uma leitura tão leve e prazerosa.

O fato é que o livro é bem legal, diferente do que já li. O autor usa e abusa do sarcasmo, não desenvolve bem seus personagens psicologicamente, mas consegue nos fazer entendê-los de uma maneira simples. Capítulos rápidos (alguns, por exemplo, com apenas cinco parágrafos). Dinâmica quanto aos diálogos e sabedoria ao manter o tensão da trama. Marcelo Daltro em sua resenha (no blog Saleta de Leitura) escreve uma coisa sábia: Don Winslow leva o mérito por não criar personagens maniqueístas.

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“Certo dia, quando Chon – então Johny – tinha 3 anos, seu pai ensinou-lhe uma lição sobre confiança.  John Pai era um dos fundadores da Associação, o lendário grupo de garotos de Laguna Beach que ganhou milhões de dólares contrabandeando maconha antes de fazer merda e ir para a cadeia. O Grande John colocou o Pequeno Johny em cima da lareira da sala de estar, esticou o braço e disse a ele para saltar.
-Eu pego você.
Encantado e sorrindo, o garotinho se jogou, e nesse momento o Grande John baixou os braços , deu um olé e o Pequeno Johny caiu de cara no chão. Confuso, machucado, sangrando na boca – um dente da frente cortou-lhe o lábio – Chon aprendeu a lição que o pai queria lhe ensinar sobre confiança:
Nunca.
Jamais.
Em ninguém.”
 
 

Vá se foder.

A história se passa na Califórnia, Ben e Chon são dois jovens na casa dos vinte e poucos anos acostumados com uma vida repleta de luxo e dinheiro. Os amigos se unem com um propósito: plantar e vender maconha. Inusitadamente o “negócio” prospera, Ben e Chon conquistam uma clientela fiel e fazem fortuna. Ben é um cara tranquilo, não gosta de armas, ajuda instituições filantrópicas ao redor do mundo e adora sair ao ar livre. Chon, por outro lado, é um perfeito “selvagem”, aprendeu com o pai a ser bruto e atirar sem piedade. Ben e Chon poderiam ser completamente diferentes se não tivessem uma paixão em comum: a bela Ophelia Sage.

Ophelia gosta de ser chamada de O., a loira “magrinha” de braço tatuado, é uma garota mimada e inconsequente que adora sexo e drogas, ela também ama Ben e Chon (aliás, transa com os dois) e faz de tudo para ficar longe de Rupa (sua mãe, uma socialite excêntrica). O trio leva uma ótima vida (de excessos) até que o Cartel de Baja (uma grande facção mexicana) se interessa pelo negócio e lhes dá um intimado: “Ou vocês se unem a nós, ou morrem”.

O problema é que Ben e Chon – acostumados a trabalhar sozinhos e mandar no próprio negócio – não aceitam o trato e acabam gerando uma onda de revolta no Cartel (que é comandado pela “sensual” Elena La Reina). La Reina não aceita um “não” como resposta e, por isso, sequestra O e exige que Ben e Chon trabalhem para ela por três anos (ou lhe paguem vinte milhões de dólares).

[O livro, publicado no Brasil pela editora Intrinseca, foi escrito por Don Winslow e publicado em 2010. “Savages” (Selvagens) foi muito bem avaliado pela crítica, o New York Times, por exemplo, chegou a classificá-lo como um dos melhores livros do ano. Em 2012 o livro inspirou um filme dirigido por Oliver Stone, a produção trazia grandes nomes do entretenimento americano como John Travolta, Taylor Kitsch, Aaron Johnson, Blake Lively, Salma Hayek e Benício del Toro.

A obscena senhora D

Quem acompanha o La Amora sabe que eu sou alucinada com a Hilda Hilst. Desde que entrei na faculdade e fui apresentada a autora, comecei a ler e pesquisar sobre ela como louca. Hilst (1960-2004) é única, possui uma linguagem complexa, densa e contemporânea. Famosa por ser “belíssima” na juventude (e, inclusive, ser uma das grandes paixões de Carlos Drummond de Andrade), Hilda completou a faculdade de direito, mas não seguiu a profissão: preferiu dedicar-se a escrita e assim o fez, lançou seu primeiro livro aos vinte e três anos.

Mudou-se para a Casa do Sol em 1963 e lá estabeleceu uma rotina de escrever todos os dias pela manhã (e poesia a qualquer hora). Por muito tempo a autora foi alvo de críticas e viu-se envolvida em polêmicas, em entrevista, por exemplo, afirmou que fazia contato com alienígenas e com mortos em sua residência. Hilst, que dedicou a sua vida a literatura, reclamava da falta de leitores, os críticos taxaram sua obra como “de difícil compreensão”. Hilda afirmou:“fico besta quando me entendem”.

Como todo e qualquer autor, Hilda queria ser lida. Queria superar o círculo de admiradores que já conheciam a sua obra e se chateava por não conseguir estabelecer uma relação com os seus leitores. “E então eu falei: quer saber? Não vou escrever mais nada de importante. Falam sempre aquelas coisas, que eu sou uma tábua etrusca, que eu sou hieróglifo, não sei o que”. Foi assim que começou a escrever textos obscenos (eróticos/pornográficos não! obscenos), daí cria a trilogia obscena composta por: “O caderno Rosa de Lori Lamby”, “Contos d’escárnio: textos grotescos ” e “Cartas de um sedutor” onde abordava vários assuntos pesados como homossexualidade e pedofilia.

Para a sua decepção, seus livros continuaram “não lidos”. E pior, foi devorada pela crítica, estraçalhada por uma sociedade conservadora e hipócrita, as editoras a abandonaram – se negavam a publicá-la…

ImagemMas, vamos ao livro. “A obscena senhora D” foi lançado em 1982 (antes de trilogia).  A obra conta a história de Hillé, uma senhora na casa dos sessenta anos que, após a morte do marido (Ehud) enlouqueceu completamente e passou a morar no vão da escada. A narrativa compõe-se justamente do seu fluxo de consciência, é escrito em primeira pessoa e não possui uma sequência lógica. Quanto mais se distancia do mundo externo, mais Hillé enlouquece. A velha senhora passa a se questionar sobre diversas coisas, pergunta-se sobre o passado, sobre a vida, sobre o amor, a dor e a morte.

O mais interessante é que Hillé não é a única narradora, ao longo do livro, outras “vozes” aparecem e dialogam com ela. E Hilst é simplesmente brilhante no que faz, afinal, o leitor consegue diferenciar os personagens facilmente. Às vezes ela conversa com Ehud, às vezes com os vizinhos (em um momento, por exemplo, ma vizinha pede que Hillé pare de aparecer nua na janela e pare de assustar as criancinhas). Quanto mais se distancia do mundo externo, mais Hillé enlouquece.

Mas, por quê senhora D? Logo no inicinho do livro ela explica o apelido que recebeu do marido: “D de derrelição, desamparo, abandono”. Assim, ela possui uma dupla personalidade, é Hillé e Senhora D ao mesmo tempo. Diversas vezes Hillé é chamada de porca pelos vizinhos e quem tenta ajudá-la recebe palavrões e xingamentos (em um momento do livro, tentam exorcizá-la!).

Assim como na maioria dos seus outros livros, em “A obscena senhora D” Hilda Hilst traz questionamentos existencialistas, analisa a relação do homem com Deus e se pergunta sobre a morte. Segundo a tese de mestrado da Cinara Leite Guimarães, esse foi um dos livros de Hilst com tradução para o francês e também é considerado um dos textos mais importantes e complexos produzidos pela autora. A autora também afirma que Hilda possuiu um grande envolvimento com o livro e com o personagem. Seu pai era escritor, não deixou uma obra marcante e acabou os seus dias em um hospício (em parte, Hilda se inspirou nele).

Referências: A obscena senhora D, de Hilda Hislt, e as relações entre Eros, Tânatos e Logos, Cinara Leite Guimarães, Universidade Federal da Paraíba, 2007.