Holocausto Brasileiro

Holocausto Brasileiro é um livro fantástico, de importância histórica e de admirável trabalho jornalístico. Realizado por Daniela Arbex, o livro relembra a terrível história do Hospital Colônia, um hospício que funcionou durante décadas e fez mais de 60 mil vítimas (pacientes que foram violentados, torturados e privados de sua liberdade).

O Hospital Colônia foi fundado em 1903 em Barbacena, Minas Gerais. A instituição, que atendia diversos casos psiquiátricos em todo o estado serviu de palco para uma das mais assustadoras histórias que envolvem o serviço nacional de saúde pública. Comparado a um campo de concentração nazista, o “Colônia” existiu por mais de oitenta anos e foi mantido não só pelo estado como também pela igreja católica.

dica-leitura-caos-holocausto-brasileiro-banner-featuredOs pacientes chegavam em grandes vagões de carga conhecidos como “Trem Doido”, eram exibidos aos moradores que se reuniam para ver (e para  fazer chacota) dos doentes. Quando entravam na instituição, tinham seus cabelos raspados e eram despidos, muitos perdiam a identidade, a família e a dignidade. O processo de internação era absurdo, totalmente arbitrário. Uma mulher foi internada porque era triste demais, outra porque engravidara do patrão, um garoto foi internado porque era muito tímido…

O Colônia servia para “esconder” a escória da sociedade, as pessoas que a autora chama de “invisíveis”. E eram mesmo, não tinham nome, nem voz, eram excluídos porque não se adaptaram a sociedade. Muitos foram internados (ou presos) porque eram homossexuais e de acordo com a autora, cerca de 70% dos pacientes não tinham diagnostico de doença mental.  Crianças e adultos eram enclausurados nas mesmas celas, dormiam em camas sem colchão (usavam capim, repleto de urina e fezes), bebiam água de esgoto, comiam ratos e morcegos, sofriam lobotomia e levavam eletrochoques (por funcionários inexperientes), eram dopados, impedidos de  sair do hospital (quer dizer, só saiam mortos de lá).

ImagemEm princípio, pouco tempo antes de ler o livro e conhecer a história em sua complexidade, eu achava que o título “Holocausto Brasileiro” banalizava e não fazia jus ao termo.  Depois que li e reli a obra, não restaram dúvidas de que esse título é perfeito, tanto pelas barbaridades cometidas no Colônia quanto pelo número de vítimas.

É engraçado porque é justamente com essa percepção que Daniela Arbex inicia o prefácio, talvez adivinhando a reação dos leitores: “As palavras sofrem com a banalização. Quando abusadas pelo nosso despudor, são roubadas do sentido. Holocausto é uma palavra assim. Em geral soa como exagero quando aplicado a algo além do assassinato em massa dos judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Neste livro, porém, seu uso é preciso”  – Aliás, a comparação do hospital a um campo de concentração nazista não surgiu da escritora e sim do psiquiatra italiano Franco Basaglia, que em 1979 visitou a instituição e se horrorizou com o que viu.

ImagemFiquei chocada quando terminei de ler, um pouco assustada em relação a capacidade humana de ser e fazer “mal” – mais do que isso, de se silenciar diante de uma situação como essa, afinal, onde estavam os governantes, os vizinhos e as famílias que tinha conhecimento do estado dessas ‘vítimas’ e não faziam nada?

Em 1979, quando o muro do Colônia começava a cair e o “horror” chamava a atenção da opinião pública, o diretor mineiro Helvécio Ratton entrou no hospício e documentou a situação. O documentário “Em nome da razão – Um filme sobre os porões da loucura” foi todo filmado em preto e branco, sem nenhum tipo de trilha sonora. Confira!

[Depois de ler o livro, a impressão que tive foi que a Daniela Arbex não impressiona muito como narradora, apesar da história extremamente chocante, há aspectos textuais que deixam a desejar. É evidente que seu trabalho jornalístico – como citei acima – foi bem feito e exaustivo, ela fez o que manda a cartilha: entrevistas, apuração (…) Mas também usou e abusou de um texto romantizado e deixou algumas lacunas.]

História de Mulheres

Imagem
Frida Kahlo por Aleya Moreno

Durante algumas semanas uma querida amiga da faculdade, insistiu para que eu procurasse um livro da jornalista espanhola Rosa Montero. Ela passava os dias falando sobre “A louca da casa”, obra que Motero escreveu em 2003. Eu, atolada com os trabalhos do fim do semestre, acabei me esquecendo da autora.

Há um mês fui convidada a participar de um grupo de trocas. Ofereci um DVD da Elis Regina e pedi um livro. Por ironia do destino, recebi “Historia de Mulheres”, publicado em 1995 – uma coletânea de 16 pequenas biografias de personalidades femininas. Comecei a lê-lo sem interesse, sem nem me dar conta de que a autora  era a “tal” jornalista que a minha amiga tanto falava. Devorei as páginas em uma semana e fui pega por um êxtase de admiração e curiosidade. É duro admitir, mas fiquei com inveja da capacidade textual da Rosa Montero, que escreve maravilhosamente bem e tem um trabalho jornalístico impecável.

Logo na introdução, Montero reconhece que listas são excludentes e que a escolha de dezesseis biografias fatalmente deixam de fora outras mulheres com histórias tão admiráveis quanto as que foram narradas. Com um trabalho extenso, quase visceral, Montero passou dias e noites analisando documentos, lendo bibliografias e fazendo entrevistas. O livro é, na verdade, a reunião da série de textos – um pouco mais extensos, que Montero publicou no jornal El País.

Simone de Beauvoir
Simone de Beauvoir

Montero questiona o papel secundário que foi dado a mulher na sociedade e perpassa pelas diferenciações hierárquicas entre os sexos. Através de uma dimensão histórica (desde o início dos tempos, com a criação de Adão e Eva) a autora relembra mulheres surpreendentes que, de uma forma ou de outra, acabaram esquecidas pela história:

“Mais fascinante ainda é a história de Lilith. A tradição judaica conta que Eva não foi a primeira mulher de Adão, pois antes existiu Lilith. E essa Lilith quis ser igual ao homem: indignava-se, por exemplo, de ser forçada a fazer amor embaixo de Adão, uma postura que lhe parecia humilhante, e reclamava os mesmo direitos do varão. Adão, aproveitando-se de sua maior força física, tentou obrigá-la a obedecer, mas então Lilith o abandonou.  Foi a primeira feminista da Criaçao, mas suas moderadas reivindicações eram certamente inadmissíveis para o deus patriarcal da época, o qual transformou Lilith numa diaba matadora de crianças e condenou-a a padecer a morte de cem de seus filhos a cada dia, horrendo castigo que emblemiza à perfeição o poder do macho sobre a fêmea.”

Camille Claudel
Camille Claudel

As biografias são romantizadas, coisa que Montero faz muito bem. Em “A eterna fugitiva”, Montero narra a história de Agatha Christie e conta detalhes curiosos sobre a escritora. Christie não gostava de tirar fotografias, principalmente depois que fez quarenta anos e engordou muitíssimo. Preocupada com a aparência, a escritora não gostava de aparecer sorrindo nas fotos: tinha os dentes podres. Em 3 de dezembro de 1926, Agatha desapareceu. Traumatizada com a morte da mãe e com a traição do marido, simplesmente sumiu sem deixar pistas. Foi encontrada onze dias depois em um hotel, tinha perdido completamente a memória (“escapado de sí”). Nos fins dos dias, foi perdendo completamente o juízo, falava coisas sem nexo e cortava mechas do próprio cabelo – e que tanto se orgulhava.

Outra figura interessante é a Lady Ottoline Morrell uma britânica milionária que era “alta, tinha cara de cavalo e cabelo de fogo”. Durante grande parte da vida, Ottoline dedicou-se a um salão artístico por onde passaram figuras conhecidas como Virginia Woolf, Lytton Stratchey, Henry James, T.S. Elliot, Charles Chaplin e Bernard Shaw. Apesar de ser mecenas, apoiar e financiar artistas, Ottoline Morrell era quase sempre ridicularizada por eles. Aos 55 anos teve um câncer na mandíbula que a deixou desfigurada. Não bastasse, perdeu todo o dinheiro com as festas que oferecia aos artistas e descobriu as zombarias que faziam dela.

Montero afirma que apesar de sua fama de ‘aristocrata horrorosa e extravagante’, Ottoline – quando jovem – não era feia coisa nenhuma: “ É inquietante que essa mulher que foi uma das mais famosas beldades de sua época, acabe transformada, na velhice, no próprio simbolo da feiura e patetice” Mesmo depois do câncer (e das terríveis dores que sofria), Ottoline aguentou as humilhações e sofrimentos e continuou recebendo artistas em sua residência – só que de uma forma mais modesta. Morreu aos 64 anos, vitima dos estragos da doença e do tempo.

Agatha Christie
Agatha Christie

De todas as histórias, a que mais me chamou atenção foi a da Aurora Rodríguez, que nasceu em El Ferrol por volta de 1880. Uma de suas irmãs solteiras teve um filho, o abandonou e foi para Paris. Aurora o criou e incentivou seus estudos de música. O garoto, chamado Pepito Arriola tornou-se um menino prodígio e aos oito anos já era um sucesso internacional. Sua mãe, voltou de Paris e o levou embora, “coisa que Aurora não pôde perdoar”.

Aurora, que era uma mulher lunática e paranoica, planejou uma gravidez. Com astúcia procurou um progenitor: um padre aventureiro chamado Alberto Pallás. Em 1914 deu a luz a Hildegart (nome que significa “Jardim de Sabedoria”) e logo tratou de incitar-lhe aos estudos. “Quando Hildegart nasceu, Aurora começou a treiná-la desde o primeiro dia, como quem destra um animal. Antes de completar três anos, Hilde falava e escrevia corretamente, aos oito dominava quatro idiomas e era versada em filosofia e temas de educação sexual. Aos quatorze escrevia artigos para El Socialista e nessa época já se tornara famosa”.

Hilde concluiu a faculdade de direito aos 17 anos e aos 18 cursava medicina. Recebeu um convite de Havellock Ellis para ir a Inglaterra e aceitou. Sua mãe, possessiva e enciumada, a torturava psicologicamente e implorava para que ela ficasse. “Aurora sentia que a criatura lhe escapara, paranoica, considerava que Havellock Ellis fosse um espião que queria perverter sua filha”.  Três dias antes da data de partida, Aurora passou a noite velando ao pé da cama da filha vendo-a dormir e quando já estava clareando disparou-lhe quatro tiros a queima roupa, um na cabeça e três no peito que a mataram na hora. No julgamento Aurora afirmou que essa tinha sido a sua mais bela obra: “É muito mais penoso matar uma filha do que pari-la, de parir, todas as mulheres são capazes, mas de matar seus filhos não”.

Aurora e Hildegart Rodríguez
Aurora e Hildegart Rodríguez

Eu acho que eu poderia passar o resto do dia, da semana ou do mês falando desse livro. Mas, reconheço que esse texto já está maior do que devia. Só pra constar, a Rosa Montero também fala sobre: Mary Wollstonecraft, Zenobia Camprubí, Almaa Mahler, María Lejárraga, Laura Riding, George Sand, Isabelle Eberhardt, Margareth Mead, Camille Claudel, Irmãs Bronté e Irene de Constantinopla.

E pra terminar, separei umas frases do livro que eu mais gostei:

– “Todos carregamos dentro de nós nossa própria morte, toda vida é ir desvivendo”.

– sobre a Frida Kahlo: “Frida era muito bonita. Ou mais do que bonita, era tremenda. Tinha olhos ferozes e maravilhosos, boca perfeita sobrecenho hersuto, bigode apreciável. Certa vez ela o raspou e Diego ficou furioso: de algum modo os atributos sexuais dos dois eram trocados, porque ele tinha grandes peitos de mulher que a encantavam”

– sobre Margaret Mead: ” Seria cabível perguntar-se o porquê de uma mudança tão notável: as causas ocultas, o que aconteceu com ela por dentro. Há pessoas que, com o transcorrer da vida simplesmente envelhecem, outras, mais sábias ou afortunadas, vão amadurecendo. Outras, ao contrário apodrecem e outras ainda, enfim, se desbaratam, e todos esses processos têm frequentemente um claro reflexo no aspecto físico”

BIBLIOGRAFIA: Montero, Rosa, 1951 – História de Mulheres/ Rosa Montero / tradução Joana Angélica d’Avila Melo – Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009.

 

Consolação

Consolação começa em Paris, Laura acompanha os últimos momentos do seu marido, Jacques – que está em um leito de hospital, moribundo. O texto, escrito em primeira pessoa e com diversas intervenções psicológicas, nos contextualiza sobre a sua situação: Jacques sofre dores terríveis, tem uma enorme ferida na boca, dificuldades para respirar e clama pela morte.

Laura implora para que a médica responsável pelo caso termine com seu sofrimento, mas não consegue o que deseja: “Durmo e acordo com a palavra eutanásia. Euthanos… a boa morte. Por que a boa morte é proibida? Por que a lei obriga o homem a sofrer? Gemendo e chorando nesse vale de lágrimas. Mais que isso: Bendizendo a nossa dor. A dor é o castigo bendito de Deus…ela expurga o pecado do sexo. A mulher que amaldiçoasse as dores do parto era condenada à fogueira pela Inquisição”.

Enquanto seu marido praticamente vegeta (não consegue mais comer ou falar), Laura se torna uma observadora, um agente passivo diante da morte do ente querido.

Laura não está sozinha, seu filho Alex também assiste a morte do pai. Mas agora ela está viúva e precisa olhar pra frente: “Chorar, sim; soluçar, não. Interessa mostrar a dor? E para o choro tem um tempo. Lamentar a infelicidade atrai a infelicidade”. Depois que Jacques morre, Laura viaja para São Paulo e realiza um encontro com sí mesma e com a família que deixou quando mudou-se para a França.

Antes de ir para casa da mãe e da irmã, decide ir ao cemitério Consolação visitar o túmulo do pai. No caminho se depara com um enorme engarrafamento e decide ir a pé. Enquanto se dirige ao cemitério encontra personagens (“os que nunca são vistos ou ouvidos”) que possuem histórias de vida tão interessantes quanto a sua. ‘

Imagem

Betty Milan é uma psicanalista paulistana, conheci seu trabalho através de uma peça de teatro protagonizada por Bete Coelho (Adeus, doutor!) e depois disso passei a acompanhar sua coluna na Veja (Consultório Sentimental). Fiquei feliz em encontrar seu livro Consolação (publicado em 2009) por apenas R$ 8,00. O li em pouco tempo e várias passagens me incitaram a refletir sobre a vida, sobre a morte e sobre a dor.

É engraçado porque não consegui me identificar muito com a personagem principal. Depois que ela chegou em São Paulo, a única coisa que sabia fazer era reclamar, nada atendia a Laura: o trânsito estava ruim, o rio transbordava trazendo doenças, a arquitetura uma cópia do que foi feito em outros países, ‘só buraco no chão’ e muitos mendigos na rua. Enquanto Paris simbolizava o paraíso, São Paulo era o inferno. – Fiquei com raiva, Laura me pareceu ingrata com a cidade onde nasceu.

Compartilho alguns de seus preceitos, não concordo com o prolongamento da dor. Não sou especialista no assunto, mas acredito que ninguém merece viver em desconforto, em sofrimento, a não ser que apresente um quadro do qual pode se recuperar. Dizem que a gente só sabe de verdade o que é dor quando ela está no nosso corpo.

Mas, quando ela diz “Chorar, sim; soluçar, não. Interessa mostrar a dor? ” tenho lá as minhas dúvidas. Essa metáfora presente no livro, onde Laura/Milan defende a idéia de que não se deve demonstrar luto por muito tempo, nem espernear ou mostrar a dor me lembrou um dos primeiros episódios de Six Feet Under, quando o marido da Ruth Fisher morre. Primeiro, ao saber da notícia, Ruth tem um ataque na cozinha. No velório, diante das pessoas, senta-se contida e quase não faz barulho, tudo porque não fica bem e não é chic aparentar fraqueza/dor.


David, filho de Ruth, questiona: qual o problema em demonstrar a dor? Qual o problema em chorar e gritar até perder a voz se, o que se sente é uma tristeza tão grande que quase não cabe no peito?

(Coloquei o vídeo do episódio abaixo e tenho que evidenciar que a Frances Conroy é magnífica! )

Por fim, só me resta dizer que fiquei encantada com os momentos em que Laura, dentro do cemitério, conversou com Oswald de Andrade – como se Laura tivesse feito as pazes com o país. Gosto, principalmente, quando ele fala sobre a antropofagia e diz o seguinte:

Laura: –  O manifesto antropófago… Aprendi com ele a gostar de canibais.

Oswald:  – Canibais não, antropófagos… O canibalismo é coisa lá do europeu, que comia carne humana para se saciar ou para se curar. Os médicos inclusive aconselhavam a beber sangue humano. De preferência quente. Até o século XIX, os carrascos ganhavam a vida vendendo partes do corpo do criminoso. O canibalismo não tem nada a ver com a antropofagia. Os tupis não comiam carne humana para se satisfazer. Comiam por respeito ao morto e à sua família. A antropofagia era um rito de amor. Os índios consideravam o enterro uma prática horrenda, bárbara mesmo. A idéia do cadáver apodrecendo na terra era insuportável para eles.

Consolação Betty

[Consolação / Betty Millan –  Rio de Janeiro, Record, 2009]

A Religiosa: sobre o livro

– Tive a felicidade de encontrar esse livro na Fnac por apenas R$1,99.  Ironicamente, pouco tempo depois, descobri a existência de duas adaptações cinematográficas que me deixaram muito curiosa (a primeira é de 1966, dirigida por Jacques Rivette e a segunda é de 2013, dirigida por Guillaume Nicloux e com a Isabelle Huppert – de quem sou fã). Depois de ler, resolvi fazer um pequeno resumo do qual divido com vocês.

 Anna Karina como Irmã Suzanne, adaptação de 1966, dirigida por Jacques Rivette
Anna Karina como Irmã Suzanne, adaptação de 1966, dirigida por Jacques Rivette

– Sobre o livro: De acordo com o Prefácio, escrito por J. Guinsburg, o livro ‘A Religiosa’ nasceu de uma brincadeira que Diderot armou para o seu amigo, o marquês de Croismare. Diderot lhe mandou cartas forjadas fingindo ser uma jovem freira obrigada ao voto monástico contra a sua vontade. Nas cartas ele dizia ser uma jovem que não tinha ninguém no mundo que pudesse ajudá-la. Anteriormente o marquês (‘de bom coração’)  já havia movido um processo em paris por uma história semelhante, por essa razão o fato repercutiu por toda a cidade e Diderot resolveu ironizá-la. Com o passar do tempo o autor se envolveu com a narrativa epistolar, mergulhou no coração da personagem e se propôs (depois de revelar ao amigo a brincadeira) a descrever uma história que trazia  a tona as violências contra a natureza e a liberdade do ser humano bem como uma forte crítica às relações reinantes na vida monacal e as injustiças sócias que atingiam principalmente as mulheres.

Resumo:

A história é narrada em primeira pessoa e já nas páginas iniciais, Saint-Suzanne expõe seu drama: sente repugnância pela vida religiosa e precisa de um protetor que lhe defenda dos que querem a obrigar a voltar ao convento. Em formato de carta, ela relembra com exatidão todo o sofrimento que teve desde a juventude infeliz ao lado das irmãs à vida em completa solidão e clausura.

Quando pequena Saint-Suzanne recebia um tratamento diferenciado dos pais, sabia que era mais bonita e mais espirituosa do que as outras irmãs, mas sua mãe lhe fazia sentir feia e estúpida. Certas vezes, seu pai era violento e dizia que Suzanne não era sua filha. As três irmãs viviam em harmonia até que a mais velha ficou noiva. Suzanne relata que percebeu os olhares interessados do pretendente da irmã e para não criar desentendimentos, pediu aos pais que fosse afastada da casa.

Arrumaram-lhe uma vaga em um convento chamado Saint-Marie e após alguns dias, Suzanne tentou voltar ao lar, mas seus pais pediram que ela esperasse sua outra irmã se casar. O tempo foi passando e ela percebeu que todos por perto a incitavam a aceitar o hábito. Seus pais alegavam que não tinham como lhe dar um dote porque suas irmãs (agora casadas e com filhos) passavam por dificuldades. A madre superiora (a quem Suzanne adorava) dizia que ela tinha um coração bom e um espírito perfeito para ser freira.

A religiosa, livro Apesar das inúmeras súplicas, marcaram a data do seu juramento/ofício. Saint-Suzanne conta que pouco tempo antes da cerimônia, viu uma freira fugir da cela (completamente descabelada e sem roupas), ela buscava uma janela para se atirar e dizia que preferia morrer a ter que ficar presa naquele lugar. “Contaram-me a respeito dessa religiosa não sei quantas mentiras ridículas, que se contradiziam: que ela já tinha o espírito perturbado quando a receberam, que sofrera um grande susto em um momento crítico, que se tornara sujeita a visões, que acreditava estar em relação com os anjos, que fizera leituras perniciosas que lhe haviam tragado o espírito, que ouvira inovadores de uma moral desmedida que a tinham de tal modo aterrado com o julgamento de Deus, que sua cabeça ficara transtornada, que não via nada mais senão demônios, o inferno e abismos de fogo, que todas elas estavam muito infelizes, que era algo inaudito, visto que jamais houvera um problema semelhante naquela casa. Nada disso me impressionou, a todo instante, minha religiosa louca me retornava ao espírito e eu me renovava o juramento de não efetuar nenhum voto’’. 

No dia do seu voto religioso, chamaram vários membros da comunidade, a família de Suzanne estava presente, assim como a madre superiora e os diretores do convento. Durante a cerimônia, Suzanne não consentiu ao juramento causando grande escândalo. “As religiosas me rodearam e me acumularam de censuras. Eu as escutava sem proferir uma palavra. Conduziram-me para minha cela, onde me fecharam a chave”. Saint-Suzanne permaneceu por muito tempo sem ouvir nem falar sobre o que aconteceu até que um dia, a retiraram da cela e disseram que sua mãe precisava lhe falar.

Durante o encontro, a mãe de Suzanne lhe implorou que seguisse a vida religiosa e lhe confessou que ela não era filha do homem que chamava de pai. Sua mãe também lhe disse que tê-la em casa era uma grande humilhação e que estava completamente falida, pois suas outras filhas pegaram todo seu dinheiro. Suzanne relata a dor que sentiu ao ser renegada e apesar de deixar claro a mãe que seu maior desejo é estar em liberdade, aceita a vida religiosa.

Seu cotidiano no convento Saint Marie estava harmonioso, Suzanne era a religiosa preferida da Madre Superiora de Moni (uma senhora boa e compreensiva, de quem se tornou muito próxima). Ironicamente, a mãe de Suzanne e a Irmã de Moni morreram em um pequeno espaço de tempo. Seu pai também falecera. Suzanne recebeu uma carta de sua mãe onde ela dizia que tinha juntado suas economias (o que não era muito) e disponibilizado caso ela precisasse. Como estava enclausurada, Suzanne não conseguiu ter acesso ao dinheiro.

A madre superiora que substituiu a Irma de Moni se chamava Saint-Christine e conforme o relato de Suzanne possuía um caráter duvidoso, estava repleta de supertições e impunha exercícios e penitencias sobre o corpo a outras freiras. Suzanne logo se rebelou, influenciando as companheiras a não obedecerem Saint-Christine. A madre tomou aversão a todas que amavam a Irmã de Moni e todos os dias dava um escândalo. Pra castigar Suzanne por sua rebeldia, proibiu que as outras freiras conversassem com ela e condenou-a a passar semanas inteiras de joelho no ofício, separa do resto, no meio do coro, a viver de pão e água, a permanecer encerrada na cela e a cumprir as funções mais vis da casa.

Outras irmãs, as ‘favoritas’ da madre Christine também passaram a sabotar Suzanne. ‘É impossível, pra mim, entrar em todos os pequenos detalhes dessas malvadezas, impediam-me de dormir, de velar, de rezar. Um dia, roubavam-me algumas partes de meu vestuário, outra vês eram minhas chaves ou meu breviário, minha fechadura ficava entravada, ou me impediam de fazer bem as coisas, ou desarranjavam aquelas que eu fizera bem, atribuíam-me discursos e ações, tornavam-me responsável por tudo, minha vida era uma série continua de delitos reais ou simulados e de castigos.’

Pauline Étienne como Irmã Suzanne, versão de 2013
Pauline Étienne como Irmã Suzanne, versão de 2013

Com a ajuda de uma das Irmãs, Suzanne consegue um advogado. Mas o Sr Manouri, que fez de tudo para ajudá-la não conseguiu sua liberdade. Ao menos, prometeu a Suzanne que iria transferi-la para outro convento. Os dias de Suzanne ficavam cada vez mais pesados e tortuosos no convento, um dia tentaram exorcizá-la, alegando que estava endemoniada. Suzanne ficou doente, pegou um febre terrível e quase morreu. Finalmente o Senhor Manouri conseguiu chamar a atenção das autoridades eclesiásticas, que julgaram procedentes as acusações. A madre Christine sofreu as devidas sanções e Suzanne foi transferida para outro convento: o Saint Eutrope.

No outro contento tudo era diferente, as irmãs usavam roupas mais suntuosas, gostavam de cantar e dançar, comiam bem e pareciam muito felizes. Suzanne foi recebida pela Madre Superiora. que já no primeiro encontro deu indícios de quem era: “Na primeira noite, tive a visita da superiora, veio na hora em que eu me preparava para deitar-me. Foi ela quem tirou o meu véu e me despiu. Ela me dirigiu cem palavras doces e me fez mil carícias que me embaraçaram um pouco”.

Filha, Mãe, Avó e Puta

Li o livro da Gabriela Leite em uma semana, mas li aos pouquinhos, aproveitando cada capítulo, degustando cada passagem e descobrindo com muita curiosidade, admiração e respeito a história dessa mulher incrível. Lembro-me da vontade enorme que eu tinha de lê-lo e da dificuldade que tive em achá-lo. Eu estava no segundo período da faculdade quando descobri seu lançamento e comentávamos muito sobre ele nas aulas. Em frente ao local que eu trabalhava havia uma Leitura e eu sempre passava lá pra ver se eles tinham recebido o livro. No dia em que chegou eu não tinha dinheiro para comprá-lo, fiquei com uma raiva imensa e não voltei mais lá, o tempo passou e eu acabei me esquecendo. Só agora, depois de anos (de quatro anos, pra ser mais exata) é que tive a possibilidade de tê-lo em mãos por empréstimo de uma amiga querida.

Gabriela Leite é uma mulher que decidiu largar a faculdade (de filosofia na USP), as filhas e a família para se tornar prostituta. Ainda na década de 1970, Gabriela trabalhou na Boca do Lixo de São Paulo (na então famosa casa ‘La Licorne’) onde ficou por alguns anos até se mudar para a Zona Boêmia em Belo Horizonte. Pouco tempo depois ela se mudou novamente, dessa vez para o Rio de Janeiro e lá fundou a ONG DADIVA que até hoje defende os direitos das prostituas. Entre esses percursos, Gabriela viveu inúmeras situações inusitadas, conheceu diversas pessoas interessantes e incitou uma reflexão sobre a situação social e política das prostituas no país (e porque não, no mundo?).

Gabriela-Leite-fundadora-grife-Daspu_ACRIMA20110304_0057_13

A verdade é que a figura da Gabriela não me chamou atenção por ter escolhido ser prostituta, não me importaria se ela tivesse largado a vida para se tornar qualquer outra coisa (apesar de que eu sei que a prostituição ainda é um estigma social). O que me chamou atenção nela foi o fato de fazer as suas escolhas sem culpa, seguir um caminho com muita persistência e sem olhar para trás. Comentei com as minhas amigas outra dia que achei incrível o fato dela abandonar as duas filhas para seguir a profissão. Eu sei que ela não é a primeira, nem será a última, mas o fato de falar sobre o assunto sem nenhum remorso me desperta a curiosidade.

Eu, particularmente, não conseguiria ser tão desgarrada com as minhas coisas e com as pessoas que amo e a admiro por isso. Ao mesmo tempo, penso nas filhas dela que viveram sem a mãe. O interessante é que já nas páginas finais, a Gabriela fala exatamente isso: ‘Por personalidade, eu nunca cultivei o sentimento de culpa. Não sei por que sou assim. Minhas irmãs receberam a mesma educação, sentem culpa. Meu pai não tinha culpa. Acho que, nesse sentido, eu sou da linhagem dele. E adoro chegar à minha idade com essa minha história de vida, sabendo precisamente o que me dá prazer’.

Foto: Christian Gaul
Foto: Christian Gaul

Um dia eu disse a uma colega de serviço que fui a uma reunião de prostitutas em Belo Horizonte. Lembro-me como se fosse hoje da sua postura, ela rejeitou a ideia e me perguntou por diversas vezes o que eu faria lá. Na verdade, eu fui por causa de um encontro feminista que tivemos e pude conhecer um pouco da história daquelas mulheres. Minha colega me questionou muito sobre isso e eu, para acalorar ainda a situação, lhe contei da história de uma delas que, assim como Gabriela, tinha escolhido largar a vida de funcionária publica e ser puta. Passamos o dia discutindo e ela afirmava: ‘ela pode passar necessidade, mas não precisa virar prostituta, precisa? Ela pode escolher outra vida... ’ Comento isso porque acho muito pertinente o que a Gabriela fala em seu livro (e em diversas outras entrevistas que vi) sobre a vitimização das prostitutas. Eu mesmo ficava em dúvida sobre essa ideia, mas hoje já tenho uma posição mais consciente.  Sem considerar, é claro, qualquer  tipo de abuso, de trabalho escravo ou pedofilia, as prostitutas seguem essa profissão porque querem e merecem que seus direitos sejam respeitados.

Outro aspecto importante é a reflexão que ela realiza sobre o nome da profissão, é interessante como o termo PUTA/PROSTITUTA incomoda as pessoas.  Ela exemplifica a situação com o caso do Congresso latino-americano em Buenos Aires onde a palavra prostituta estava proibida. Enquanto ela se negava a deixar de falar ‘prostituta’ as outras falavam: meninas, trabalhadoras ou profissionais do sexo. Ela explica que gosta de usar o termo porque:  ‘mudar o nome é um pedido de desculpas.’

Estou apaixonada pelo livro e pela narrativa, simples e direta. O fato de ser prostituta não impediu que Gabriela namorasse nem se apaixonasse por outros homens. É bacana acompanhar suas reflexões sobre o passado, sobre suas escolhas, sobre seu relacionamento com os pais e com os amigos e é bom ler uma história que tem como cenário um Brasil que vivia uma forte explosão sexual e cultural. Gosto, principalmente, quando ela fala sobre a sua vivência em Belo Horizonte cidade que apelidou de ‘A Capital do papai-e-mamãe’. Em BH, Gabriela trabalhou num local chamado Lírio e depois mudou-se para o hotel Catete (um  ficava na Rua São Paulo e o outrona conhecida Guaicurus). Gabriela diz que os mineiros são loucos por uma rapidinha: ‘Nada de invenção, só o básico. Nenhuma sofisticação e são de pouca conversa. Por ali, Freud morreria de tédio (…) Os programas são baratos mas a quantidade é absurda’. Aqui ela conseguiu juntar uma quantidade absurda de dinheiro, chegou até a comprar uma ‘terrinha’, mas decidiu largar tudo novamente e se mudar para o Rio de Janeiro.

Além de recontar a sua vida, ela também nos confidencia momentos (no mínimo) curiosos que enfrentou durante a profissão, um deles ( que me lembrou um pouco aquele filme ‘ As Sessões’ com a Helen Hunt), Gabriela conta a história de um deficiente físico que lhe procurou para fazer sexo e do preconceito que ela nutria por ele. Depois de conhecê-lo melhor e descobrir a sua história eles não só transaram como ficaram amigos.

– A vida da Gabriela ganhou os palcos e a peça teatral é encenada por Alexia Dechamps e Pedro Osório. Há notícias de que sua vida também será adaptada ao cinema.

As ligações perigosas: sobre o livro

Imagem

“O amor, o ódio, só tem o trabalho de escolher,

tudo está debaixo do mesmo tecto.

E pode até, fazendo existência dupla,

afagar com uma das mãos e ferir com a outra “

M. Merteuil

Entusiasmada com a narrativa, li o livro e fiz anotações sobre detalhes que me chamaram atenção. Um delas, e talvez até evidente, é que a Marquesa de Merteuil é um personagem muito mais pérfido e cruel do que parece ser no filme. Logo nas páginas iniciais, quando o Visconde revela o desejo de se relacionar com a Presidente de Tourvel, a Marquesa sugere que ele poupe se tempo, ‘tome sua virtude a força’ e atenda seu pedido de desonrar a jovem Cecília Volanges. Em uma carta da Madame de Volanges, fica muito claro porque as outras mulheres a admiram: não só por sua beleza, mas também por conseguir resistir [como assim dizia] aos terríveis encantamentos do Visconde – e não ser domada por nenhum homem.

Em boa parte do livro, o Visconde e a Marquesa se empenham em fazer com que Cecília e Dancey se encontrem, ao mesmo tempo, morrem de tédio das infindáveis e tolas declarações de amor. Já na segunda parte da trama, a Marquesa decide denunciar a troca de cartas entre os jovens apaixonados por puro divertimento, para ela não existe amor sem obstáculos e é dessa forma que, ironicamente, ganha a confiança de Cecília, Dancey e da Madame de Volagens.

Assim como no filme, as passagens mais interessantes se dão entre o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil. As cartas trocadas por eles estão repletas de ironia, sensualidade e duplo sentido. Além disso, os dois analisam os outros personagens friamente (até com certo deboche) e garantem o ritmo da narrativa. O Visconde de Valmont também merece seu destaque, sua insistência em relação a Presidente de Tourvel é admirável, assim como a sua astúcia. Um fato que me chamou a atenção foi que o Visconde só decidiu tirar a virgindade de Cecília após descobrir que sua mãe escrevia cartas denunciando-o a Presidenta (e não apenas, para agradar a Marquesa).

Provavelmente é uma impressão minha (pois não achei menção a isso em nenhuma página da internet), mas é o seguinte: durante algumas passagens, o Visconde e a Marquesa me pareceram apresentar certos interesses homossexuais, um exemplo é quando o Visconde relata um fato que lhe ocorreu quando estava na casa da Viscondessa M: ‘Os beijos da Viscondessa deixaram-me indiferente, mas confesso que o de Vressac me deu prazer’. Em outro momento, a Marquesa cita Cecília mas não se refere a ela como amiga e sim como uma leve paixão e que se fosse homem teria prazer em cortejá-la (a carta logo me lembrou da famosa cena do filme ‘Segundas Intenções’ – filme de 1999, também baseado no livro, onde Kathryn Merteuil (interpretada por Sarah Michelle Gellar) e Cecile (Selma Blair) se beijam.

asafdfs

A Marquesa me pareceu muito mais sábia e maquiavélica do que o Visconde. Em uma passagem do livro, o Visconde pede que a Marquesa não dê atenção a Prévan, um homem que disse publicamente que a conquistaria. Ela se nega a atender seus pedidos, diz que dormiria com Prévan para satisfazer sua própria vontade e que ninguém iria ficar sabendo. [A Marquesa mede suas forças com o Visconde, não atende seu pedido e ainda lhe provoca ciúmes]. O fato é que a Marquesa arma para Prévan e faz com que o encontro dos dois se pareça a uma tentativa de estupro – Prévan acaba preso.

Na primeira e na segunda parte, Cecília nos leva a crer que é uma moça inocente (mesmo com todas as desconfianças e insinuações da Marquesa), porém depois que perde a virgindade com o Visconde (inclusive, depois de descobrir que ele dormiu com a sua mãe), a personagem praticamente transforma-se e passa a ser o que as palavras do Visconde definem bem: ‘tão sabia quanto o mestre’. 

[ O desfecho ] Não há muito o que comentar das cartas dos outros personagens, eles são fundamentais para o desenvolvimento da trama, mas a Marquesa e o Visconde se sobressaem, eles são os manipuladores. A presidente de Tourvel, que em grande parte da obra tenta fugir dos próprios desejos e manter sua virtude é humilhada por Valmont e acaba morrendo (em uma mistura de dor, decepção e cólera). O Visconde, como sabemos, morre em uma batalha com Danceny, que seu muda de Paris com medo de perseguições. O que não nos é contado no filme é que Cecília implora que a mãe lhe coloque em um convento e decepcionada com o amor, se torna freira. A Marquesa,depois da humilhação no teatro, pega varíola, fica com o rosto completamente desfigurado (e ainda perde um olho) e nas palavras da Madame de Volagens, fica hedionda:  ‘O marquês de ***, que não perde a ocasião para uma maldade, dizia ontem, falando dela, que a doença a virara do avesso, e que tinha agora a alma estampada no rosto. Infelizmente todos acharam que a expressão era justa’ (Carta CLXXV, p.358)

los_maquillajes_mas_recordados_de_la_historia_del_cine_762106546_1200x800

Marquesa de Merteuil uma feminista?

‘Eu sempre soube que nasci para dominar o seu sexo

e vingar o meu’

Confesso que estou encantada com a história, viciada no livro e no filme… participei de algumas discussões, revi outras interpretações e li vários artigos/publicações na internet sobre a trama. Lola Aronovich, autora do blog ‘Escreva, Lola, Escreva’, nos presenteou com duas publicações sobre a trama e foi questionada por uma leitora se a Marquesa poderia mesmo ser considerada uma feminista. Lola chamou atenção para o fato de a Marquesa ter consciência do seu papel desprivilegiado na sociedade e de se esquivar da situação. Outro detalhe, sabiamente observado por ela é que a Marquesa foi a única a receber um castigo (o Visconde e a Presidente morrem, Cecília vai para o convento – o que não é mostrado no filme) enquanto a Marquesa é humilhada publicamente.

Particularmente, não sei se ‘feminista’ é um termo adequado, ainda assim, concordo que a Marquesa de Merteuil representa as mulheres (e sua condição desigual a dos homens) com bastante êxito. Não só ela, as outras personagens também o fazem muito bem. Oprimidas pelos contratos sociais (como o casamento), pela igreja, condenadas ao silêncio, levadas a negar os desejos e os próprios prazeres, responsáveis por apresentar uma reputação de pureza, uma atitude passiva e vários outros aspectos que poderíamos citar por horas.

Outro Blog que eu adoro e que também levanta um questionamento interessante é o ‘Há sempre um livro a nossa espera‘, da Cláudia Soares Dias.  Ela se pergunta sobre a causa e as motivações sociais que levaram a Marquesa apresentar tal personalidade. Para Cláudia, essa personalidade se dá porque Merteuil possuía uma grande dificuldade em lhe dar com rejeições e apresentava (quando adolescente) uma forte curiosidade em relação a sexualidade que esbarrava nas restrições religiosas e sociais. No entanto, não acho que essa personalidade se limite apenas a uma curiosidade, mas também a uma necessidade de ‘auto-proteção’, antes de se tornar viúva, ela ainda estava sujeita às vontades do marido, ainda estava presa a figura masculina e foi só com a sua morte que ela pôde se reinventar.

Em uma passagem do filme, o Visconde faz a seguinte pergunta a Marquesa:

Visconde: Eu frequentemente me pergunto como você conseguiu se inventar

Marquesa: Bem, eu não tive escolha, tive? Sou mulher. Mulheres são obrigadas a serem muito mais cheias de recursos que homens. Vocês podem arruinar nossa reputação e nossas vidas com algumas poucas palavras bem escolhidas. Portanto, é claro que eu tive de inventar não apenas eu mesma, mas também formas de fuga que ninguém pensou antes. E eu fui bem-sucedida porque sempre soube que nasci pra dominar o seu sexo e vingar o meu

1 a al fofoqueiros e falsos

No livro, essa passagem se dá na carta LXXXI, justamente quando o Visconde tenta convencer a Marquesa de que ela não deve se relacionar com Prévan. Austera e confiante, ela explica sua trajetória para mostrar que não teme nenhum homem (e que não aceita ordens). Merteuil também fala (com certo deboche) da sua superioridade sobre o Visconde: ‘Que tem o Visconde feito que eu não tenha ultrapassado mil vezes? Seduziu, perdeu mesmo muitas mulheres: mas que dificuldades teve a vencer? Que obstáculos a ultrapassar? Onde está o mérito que verdadeiramente lhe caiba?”

Reproduzo uma parte da carta que é uma síntese da história de Marquesa e que nos ajuda a descobrir um pouco mais da sua personalidade… (Olha, é um pouco grande… eu sei, mas vale muito a pena!)

‘Entrando na sociedade num tempo em que, criança ainda, as circunstâncias me condenavam ao silêncio e a inacção, delas soube tirar proveito para observar e refletir. Enquanto me julgavam estouvada ou distraída, não dando ouvidos à verdade dos ensinamentos que me dispensavam, eu recolhia cuidadosamente tudo o que procuravam esconder-me.

Essa curiosidade útil, ao mesmo tempo que servia para me instruir, ensinava-me ainda a dissimular. Obrigada muitas vezes a esconder dos olhos dos que me rodeavam os motivos que me chamavam atenção, experimentei pousar os meus no que me agradasse; o resultado desde logo foi ter adotado aquele olhar sem constrangimento que o Visconde tantas vezes me gabou. Animada por este primeiro êxito, tratei de regular, pelo mesmo processo, os diversos movimentos do meu rosto. Se sentia qualquer apreensão, estudava-me até assumir um ar de serenidade, ou mesmo de alegria, levei o meu zelo ao ponto de a mim própria causar dores voluntárias, para durante esse tempo procurar a expressão de prazer. Com o mesmo cuidado e maior custo, exercitei-me a reprimir os sintomas de uma alegria inesperada. Foi assim que consegui tomar sobre a minha fisionomia aquele domínio que algumas vezes admirou em mim.

Eu era ainda muito nova, e quase sem interesse, mas só tinha de meu os próprios pensamentos, e indignava-me a ideia de que mos pudesse roubar ou surpreender contra minha vontade. Munida dessas primeiras armas, experimentei servir-me delas. Não me satisfazia a não me deixar penetrar: divertia-me mostrar-me sob formas diferentes. Dominando os meus gestos, observava as minhas falas. Uns e outras eram regulados segundo as circunstancias, ou mesmo segundo as minhas fantasias. Desde então, a minha maneira de pensar pertenceu-me a mim só, e não mostrei nunca senão o que me era útil deixar ver.

Este trabalho sobre mim própria fixou a minha atenção sobre a expressão dos rostos e o carácter das fisionomias, e adquiri esta mirada penetrante, na qual a experiência todavia me ensinou a não me fiar inteiramente, mas que, em todos os casos, raramente me enganou.  

glenn_close_marquise_de_merteuil

Ainda não tinha quinze anos, possuía já os talentos a que a maior parte dos nossos políticos devem a sua reputação, e encontrava-me ainda nos rudimentos da ciência que pretendia adquirir.  (…) O meu desejo não era gozar, era saber. O desejo de me instruir sugeriu-me os meios.  Senti que o único homem com quem podia falar sobre esse assunto, sem me comprometer, era o meu confessor. E logo tomei o meu partido. Passei por cima dessa pequena vergonha e gabando-me duma falta que não tinha cometido, acusei-me de ter feito tudo o que fazem as mulheres. Tal foi a verdade que ideia exprimia. A minha esperança não foi de todo iludida, nem inteiramente realizada, o receio de me trair impedia-me de me esclarecer. Mas o bom do padre pintou-me o mal tão grande que eu concluí que o prazer devia ser extremo e ao desejo de o conhecer sucedeu o de o saborear.

Não sei onde esse desejo me teria conduzido, e, faltando-me por completo a experiência, uma única oportunidade ter-me-ia talvez perdido. Felizmente pra mim, minha mãe anunciou alguns dias depois que eu ia casar-me. A certeza de que ia saber extinguiu imediatamente a minha curiosidade, e cheguei virgem aos braços do Sr. De Merteuil. Era com tranquilidade que esperava o momento que tudo devia ensinar-me, e foi-me preciso reflectir para mostrar confusão e receio. A primeira noite, que geralmente se tem uma ideia tão cruel ou doce, apresentava-me apenas uma ocasião de experiência: dor e prazer, tudo eu observava com exatidão e nessas diversas sensações via apenas fatos para recolher e meditar.  

Este gênero de estudo depressa começou a agradar-me; mas, fiel aos meus princípios, e sentindo, talvez por instinto, que ninguém devia estar mais longe da minha confiança do que o meu marido, resolvi, pelo simples fato de que era sensível, mostrar-me impassível a seus olhos. Esta frieza aparente foi, ao longo do tempo, o fundamento inabalável da sua cega confiança. Juntei-lhe, após uma segunda reflexão, o aspecto estouvado que a minha idade autorizava; e nunca ele me julgou mais criança do que nos momentos em que com mais audácia eu o iludia.

Entretanto, devo confessá-lo, deixei-me primeiro arrastar pelo turbilhão do mundo, e entreguei-me inteiramente às suas distrações fúteis. Mas ao fim de alguns meses, tendo-me o senhor de Merteuil levado a partilhar as suas tristes férias no campo, o medo do aborrecimento fez com que me voltasse o gosto do estudo; e encontrando-me rodeada apenas de pessoas cuja distância de mim me punha ao abrigo de toda a suspeita, aproveitei a ocasião para dar um campo mais vasto às minhas experiências.

 Foi ali, principalmente, que obtive a certeza de que o amor que nos louvam como a causa dos nossos prazeres é apenas, quando muito, o seu pretexto. A doença do senhor de Merteuil veio interromper tão doces ocupações; foi necessário segui-lo à cidade, onde ele ia procurar socorros. Morreu, como sabe, pouco tempo depois; e embora, no fim de contas, eu não tivesse de me queixar dele, nem por isso senti menos vivamente o preço da liberdade que a minha viuvez ia proporcionarme, e a mim própria prometi aproveitar bem essa liberdade. Minha mãe contava que eu entrasse num convento, ou voltasse a viver com ela. Recusei uma e outra solução; e tudo o que concedi à decência foi voltar ao mesmo lugar no campo, onde me restavam ainda algumas observações a fazer.

 Essas observações ganharam força com o auxílio da leitura; mas não julgue que foram todas do gênero que supõe. Estudei os nossos costumes nos romances; as nossas opiniões nos filósofos; procurei mesmo nos mais severos moralistas o que eles exigiam de nós, e soube assim o que se podia fazer, o que se devia pensar e o que era preciso parecer. uma vez fixada sobre esses três pontos, só último apresentava algumas dificuldades na sua execução; esperei vencê-las e medirei nos meios.

 Começava a aborrecer-me dos meus prazeres rústicos, demasiado monótonos para a minha imaginação; sentia uma necessidade de coquetismo que me reconciliasse com o amor; não para verdadeiramente o sentir, mas para o inspirar e o fingir. Em vão me haviam dito e eu tinha lido que não se podia fingir esse sentimento; eu via, no entanto, que para o conseguir bastava juntar à inteligência de um autor o talento de um comediante. Experimentei os dois gêneros, e talvez com algum êxito; mas em lugar de procurar os vãos aplausos do teatro, resolvi empregar na minha felicidade o que tantos outros sacrificavam à vaidade.

 Um ano se passou nessas diversas ocupações. Como o meu luto já me permitia voltar a aparecer, regressei à cidade com os meus grandes projetos; não esperava o primeiro obstáculo que aí encontrei. Aquela longa solidão, aquele retiro austero tinham lançado sobre mim uma aparência de virtude que amedrontava os nossos galãs; mantinham-se afastados e deixavam-me entregue a uma multidão de aborrecidos senhores, que pretendiam todos a minha mão. O embaraço não estava em recusá-los; mas várias dessas recusas desagradavam à minha família, e eu perdia nessas questões internas o tempo que prometera a mim mesma gastar tão agradavelmente.

 Fui pois obrigada, para atrair uns e afastar os outros, a pôr em relevo algumas inconsequências e a empregar em prejudicar a minha reputação, o cuidado que pensava aplicar em conservá-la. Consegui-o facilmente, como pode imaginar. Mas não me sentindo arrebatada por nenhuma paixão, fiz só o que julguei necessário, e medi com prudência as doses da minha leviandade. Logo que atingi o fim que me propusera voltei ao ponto de partida e fiz promessas de emenda a algumas daquelas mulheres que, não podendo ter pretensões a agradar, se pavoneiam com as do mérito e da virtude. Foi um lance de dados que me valeu mais do que eu esperava.

asas

Aquelas reconhecidas donas arvoraram-se em minhas apologistas; e o zelo cego que empregaram para louvar o que elas chamavam a sua obra chegou ao ponto de, à menor frase que alguém se permitisse a meu respeito, todo o partido da virtude gritar contra o escândalo e a injúria. Pelo mesmo processo consegui ainda a aprovação das mulheres que pretendiam agradar, as quais, persuadidas de que eu renunciava a seguir carreira idêntica à sua, me escolheram para alvo dos seus elogios, todas as vezes que queriam provar que não diziam mal de toda a gente.

 Entretanto, a minha anterior conduta tinha atraído os apaixonados; e, para me equilibrar entre eles e as minhas infiéis protetoras, mostrei-me como uma mulher sensível, mas difícil, a quem o excesso de delicadeza fornece armas contra o amor.

Então comecei a desenvolver no grande teatro os talentos que dera a mim própria. O meu primeiro cuidado foi o de adquirir o renome de invencível. Para chegar a isso, os homens que não me agradavam foram sempre os únicos de quem simulei aceitar as homenagens. Empreguei-os sutilmente em alcançar por meio deles as honras da resistência, enquanto me entregava sem receio ao amante preferido.

 Mas a esse a minha fingida timidez não permitiu nunca que me seguisse na sociedade; e os olhares do mundo fixaram-se, desse modo, no amante recusado. Sabe, meu amigo, que levo pouco tempo a decidir-me; é por ter observado que são quase sempre os cuidados anteriores que revelam o segredo das mulheres. Por muito que se faça, o tom nunca é o mesmo, antes e depois do acontecimento. Esta diferença não escapa ao observador atento, e achei menos perigoso enganar-me na escolha do que deixar-me penetrar. Ganho ainda com esse procedimento afastar as evidências, que fornecem os únicos elementos para nos julgarem. Estas precauções, e ainda a de nunca escrever, não entregar nunca uma prova da minha derrota, poderiam parecer excessivas; a mim nunca me pareceram suficientes. Desci ao fundo do meu coração, e nele estudei o dos outros. Soube assim que não há ninguém que não conserve aí um segredo que não deve ser revelado; eis uma verdade que a Antiguidade parece ter conhecido melhor do que nós, e da qual a história de Sansão poderia ser apenas uma engenhosa alegoria. Nova Dalila empreguei sempre, como ela, o meu poder em surpreender esse importante segredo.

Quantos Sansões modernos não tive eu já com a cabeleira sob a minha tesoura! E a esses, deixei eu de temer; são os únicos que me tenho permitido humilhar algumas vezes. Mais subtil com os outros, a arte de os tornar infiéis para evitar parecer-lhes volúvel, uma fingida amizade, uma aparente confiança, alguns rasgos generosos, a ideia lisonjeira que cada um conserva de ter sido o meu único amante, tudo serviu para obter o seu silêncio. Por fim, quando esses meios me faltaram, soube, antes de romper, abafar de antemão, sob o ridículo ou a calúnia, a confiança que esses homens perigosos pudessem obter. O que lhe estou dizendo, tem-me o Visconde visto praticar constantemente; e duvida da minha prudência! (…)

Do diário de Silvia

Do diário de Silvia foi escrito por Erico Veríssimo em 1961 enquanto ele se encontrava em Virginia, Estados Unidos. O diário encontra-se nos últimos capítulos de o ‘O arquipélago’ (que compõe a trilogia de ‘O tempo e o vento’ – formado também por ‘O Continente’ e ‘O Retrato). No livro, escrito em primeira pessoa, Silvia relembra a infância e expõe a vida conturbada que teve com a mãe, a ausência da figura paterna, o insucesso do casamento com Jango e também fala do amor proibido que sente pelo cunhado: Floriano.

Em seus textos, há uma interlocução com vários personagens de ‘O tempo e o vento’ (como o seu padrinho Dr. Rodrigo,  Dinda – já com 85 anos e completamente cega, o comunista Arão Stein, Tio Bicho e Zeca). Com grande dose de subjetividade, Silvia conta sobre seus pesadelos constantes com a mãe, sobre seus abortos e sua intensa relação com a terra. Outro aspecto interessante é que a história se passa na década de 1940 e há diversas menções a acontecimentos históricos como a implantação do Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial.

Fiquei encantada pelo livro! Principalmente porque logo na primeira página, Silvia reflete sobre o hibridismo humano. Passei a lê-lo intensamente e marcar as passagens que me pareciam mais belas, das quais, tomo a liberdade de reproduzir:

Imagem

– Isso prova que, como todo o mundo, tenho dupla personalidade. Agora sou a que escrever e depois serei a que lê. Qual! Tenho muitas Sílvias dentro de mim. Cada vez que eu reler estas páginas, serei outra. E cada uma dessas outras será diferente da que escreveu.

-Em certos momentos, chegamos a ter até um certo orgulho de nossas tristezas e infelicidades, e usamos essas ‘desgraças’ para comover os outros e arrancar deles piedade ou amor. (Não quero piedade, quero amor). Em suma, uma chantagem. Um caso parecido com o da Palmira Pepé, que há anos anda pelas ruas da cidade manquejando, choramingando e mendigando. Quando os médicos querem curar-lhe o defeito da perna, a Palmira recusa, alegando que, se sarar, não terá mais razão de pedir esmolas.

-Afinal de contas, onde está mesmo Deus? Não sei. Sinto que ainda não o avistei. Se Ele me conceder a graça da Sua presença, estou certa de que minha vida mudará para melhor. Em suma, necessito que Deus exista.

– Temos a tendência de classificar as pessoas como os naturalistas classificam as borboletas, feito o que as espetamos com um alfinete contra um quadro… e pronto!, passa a ser peças do nosso museu particular. Acho que foi isso que Jango fez comigo. Não quero fazer o mesmo com ele.

-Por que escrevo todas estas coisas que ninguém, mas ninguém mesmo, deverá nem poderá ler a não ser as outras Sílvias?

-Eu gostaria de compreender melhor as outras pessoas. Seria um modo indireto de me compreender a mim mesma. Gosto de gente. Desejo que os outros gostem de mim. A minha vida não teria sido, toda ela, uma busca de amor?

-Gostamos de nos imaginar bons e generosos. Mas se nos debruçarmos sobre o poço de nossos sentimentos e desejos mais secretos, esse túnel vertical onde se escondem nossas maldades, mesquinhezas, egoísmos e misérias – estou certa de que não reconheceríamos a nossa própria face refletida na água do fundo.

– Quando mamãe morreu, meus olhos permaneceram secos. Eu, que me comovo com facilidade com as histórias tristes imaginárias que leio em romances ou vejo no cinema, não tive lágrimas para chorar a morte da criatura que me deu o ser. O que eu senti foi uma espécie de alívio, mas um alívio doloroso, desses que dilaceram o peito. [Mas Sílvia, você cuidou da sua mãe durante toda a vida]. Eu queria ter feito por amor o que só fiz por um sentimento de dever. É isso que me dói.

-Um talho pode não doer muito na hora em que é produzido, mas deixa uma cicatriz que, bem ou mal, a gente carrega vida em fora… Uma cicatriz que em certos dias comicha e nos leva a pensar na pessoa que nos feriu. [Ainda com rancor?] Não, Zeca, mas com uma enorme tristeza. Porque não podemos deixar de perguntar a nós mesmos se a feria era necessária.

-O fato de acreditarmos em Deus não elimina necessariamente todas as nossas dúvidas a respeito da vida e mesmo do próprio Criador. Eu cá tenho as minhas ‘diferenças’ com Deus. Qual é o filho que não briga de vez em quando com o pai? Isso significa que ele deixa de amar o Velho? Ou que cessa de acreditar na sua existência? Ou na sua bondade? Está claro que não. E vou te dizer outra coisa importante. Levantou-se, aproximou-se da panela, apanhou outro pinhão, descascou-o e ficou a comê-lo com ar distraído, como se tivesse esquecido do que ia dizer. Depois, tornou a sentar-se a meu lado e disse baixinho: “Olha. Os grandes arranha-céus têm a capacidade de oscilar com o vento… Sabias? Pois é. Se não oscilassem, viriam abaixo. Assim é a fé. Uma fé dura e inflexível pode transformar-se em fanatismo ou então quebrar-se. A fé que se verga como um junco quando passam as ventanias, essa resiste inata. Portanto, não te preocupes. Continua a duvidar. Deus está acostumado a essas nossa fraquezas”.

-O Bento é um tipo de herói cuja presença e valor ninguém nota, porque ele atomizou, fragmentou seu heroísmo em dezenas de milhares de pequenos gestos e atos cotidianos através de toda a sua vida, de tal maneira que eles não deram e não dão na vista.

– Estou de acordo com Stein num ponto. Não é com caridade que se vai conseguir melhorar a vida dessa pobre gente, mas com uma reforma social de base.  Na minha opinião, porém, a solução não está nos métodos stalinistas. Alguém escreveu que o mal de nossas revoluções é que elas começam com a violência, para imporem um ideal, mas depois o ideal fica esquecido e permanece apenas a violência.  E como é fácil recorrer a brutalidade!  Como é natural! Como isso está de acordo com a nossa condição animal. Parece fora de dúvida que a violência goza de mais popularidade que a persuasão.

Do diário de Silvia/ Erico Verissimo – 2. ed – São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Enquanto Petrônio morre

Encontrei o livro ”Enquantenquanto-petronio-morreo Petrônio morre” na Fnac outro dia por R$4,90 e fiquei presa nele até a última página. O livro é um bom passatempo, tem uma narrativa simples, direta e uma temática deliciosa. Escrito por Flávio Braga (romancista paulistano), é o terceiro volume da coleção placere da editora Best Seller e conta a historia (em primeira pessoa) do aventureiro Percênio.

Na narrativa, Percênio (mais conhecido como Heliodoro) foi um soldado que, ao lado do amigo Júlio, se prostituía em troca de dinheiro. Os dois foram presos, mas conseguiram se livrar da morte e fugir para Roma. Após vários dias de fuga, foram recebidos por um velho senhor e passam a morar em sua casa por alguns dias.  Ironicamente, os dois se apaixonaram pela escrava Apícula (que era uma negra linda, mas que não falava sua língua).

Depois de transarem com o velho senhor e enganá-lo, os dois roubaram Apícula e passaram a frequentar casas de banho (onde ofereciam seus ‘serviços sexuais’). Heliodoro percebe um romance entre Júlio e Apícula e com ciúmes, deixa bem claro que é ele quem manda (e que só ele pode dormir com a escrava quando bem desejar).

Os três são convidados a participar de uma festa de um rico comerciante, quando chegam ao local, presenciam um grupo de aristocratas reunidos em orgia e muito desperdício de comida. Enquanto Júlio e Apícula se prostituem, Heliodoro se encarrega de roubar os convidados da festa (leva dinheiro e tecidos caros).

Na mesma festa, encontra Mirtes (a escrava sexual de um homem poderoso), deita-se com ela e a convida a se unir ao grupo. Mirtes aceita e os quatro fogem para outra cidade. Julio cai em uma emboscada e acaba sendo assassinado.

Sem o companheiro e responsável pelas duas mulheres, Heliodoro decide abrir uma casa de prostituição e tem ajuda de Mirtes. Para lucrar ainda mais, organiza uma arena onde coloca escravos e gladiadores lutando (quem vence, ganha a liberdade).  Um dia viaja a negócios e quando chega, encontra seu bordel quebrado. O dono de Mirtes voltou para buscá-la.

Sem temê-lo, Heliodoro o mata e retoma os negócios. Pouco tempo depois, Ada (a esposa do homem assassinado por Heliodoro) o procura, diz  que depois da morte do marido, não tem como se sustentar. Heliodoro a aceita e a faz de esposa, ele agora tem três mulheres.

Heliodoro se apaixona pela quarta vez, por uma jovem cristã chamada Genoveva. Ele a leva (junto a sua mãe) para casa, correndo o risco de ser preso. Apesar de várias investidas, Heliodoro enfrenta resistências por parte de Genoveva. Por fim, Heliodoro é convidado a participar de uma festa na casa de um conhecido escritor chamado Petrônio. Lá, ele presencia o suicídio do autor de Satiricon, que lê seus textos em voz alta e corta os próprios punhos: ‘Enquanto Petrônio morre, Roma se divertpetronioe’.

A narrativa é repleta de erotismo, que acentua o ritmo da trama e chama atenção para os personagens e seus respectivos confrontos.

Particularmente, só conheci Petrônio através do livro e a minha curiosidade sobre Satiricon (de que já havia ouvido falar, inúmeras vezes) aumentou. Na breve pesquisa que fiz pela internet, descobri que Petrônio foi conselheiro de Nero e após uma conspiração, saiu do poder e caiu em uma vida de libertinagem. Suicidou-se lentamente, abrindo e fechando as veias.

O prólogo do livro de Flávio Braga contextualiza sua vida e sua obra de maneira sublime: “Petrônio, assim como Cervantes e muitos outros gênios literários, foi um crítico demolidor dos livros românticos e melosos de seu tempo. Sua única obra, o romance Satiricon, que não chegou íntegro aos nossos dias, é sobre a trajetória de dois vagabundos romanos no primeiro século de nossa era. Nos dias de hoje seria micheteiros que rondam pelas boates gays das grandes cidades, além de ladrões, falsários e tudo o mais de sórdido que acompanha esse gênero de vida. Então, porque Satiricon é um dos mais importantes livros da antiguidade clássica? Ora, porque narra com realismo acontecimentos do dia-a-dia da plebe, mas não só. Petrônio escreveu em prosa moderna. O livro poderia ser escrito hoje, tal clareza e objetividade do texto. Não podemos esquecer que tudo era versificado naqueles dias e muito depois, pelo menos até o século XVIII.

Ainda sem um deus castrador, que só assumiria o poder na Idade Média, Roma gozava de uma liberdade que embora não fosse justa, era real. Mulheres e escravos muitas vezes era forçados a se submeter a desejos dos patriarcas, mas havia mais liberdade para os homossexuais, embora menos do que na Grécia, e na intimidade tudo era permitido. As casas de banho era espaços bastante democrático e as mulheres mais livres eram as heteras, uma espécie de prostituta de luxo. Um das causas principais desse comportamento era, justamente, a religião politeísta. Sendo os deuses meio humanos, com ações baseadas no amor e no ódio, por exemplo, serviam de modelo aos humanos que não viviam sob o tacão de um moralismo imposto.

Petrônio era da elite romana, diplomara e governado da Bitínia, atual Turquia. Viveu entre 14 a.C. e 66 d.C. Mas essas datas são muito discutíveis e contestadas por historiadores de diferentes correntes. O texto permite notar a ampla visão que o autor tinha de seu tempo, descrevendo aspectos do dia-a-dia que outros escritores preferem esquecer, como se a vida fosse criada e vivida somente por pessoas superiores.”

Doença como metáfora

“Doença como metáfora” foi escrito por Susan Sontag em 1978 e é uma obra que continua atual e relevante. Já no prefácio, Sontag cria uma metáfora onde afirma que todas as pessoas possuem dupla cidadania: uma no reino dos sãos e outra no reino dos doentes. “Apesar de preferirmos só usar o passaporte bom, mais cedo ou mais tarde, ficamos como cidadãos desse outro lugar”. Sua análise não é sobre a doença física em sí e sim sobre os estereótipos construídos sobre ela. A autora evidencia o câncer e a tuberculose, classificados como “duas doenças tolhidas pelos ornamentos da metáfora”. O livro, reconhecido como um clássico contemporâneo é também uma investigação sobre a política conservadora e sobre o potencial simbólico da discriminação.

Imagem
Susan Sontag por Annie Leibovitz, a autora foi diagnosticada com câncer no seio em 1977

(1) No século XIX, a tuberculose era considerada intratável, portanto receber esse diagnóstico era quase uma sentença de morte. Para Sontag, o câncer ocupou essa vaga de enfermidade implacável que entra sem pedir licença e invade secretamente o corpo do doente. A perplexidade sobre a doença é tão grande que é comum o pavor de quem a observa. Muitos doentes perceberam um distanciamento dos amigos e familiares que de forma inevitável, possuem a sensação de transgressão ou que a autora chama de violação de tabu. Os próprios nomes das doenças carregam consigo certo peso (há quem evite falar a palavra câncer, como muitos antigamente evitavam falar tuberculose).

Como os nomes já são rotulados pejorativamente, as pessoas diagnosticadas com a doença se sentem desmoralizadas e condenadas. É comum esconderem a doença que pode por em risco a vida amorosa ou mesmo o emprego. Já no primeiro capítulo, Sontag questiona a atitude de médicos que comunicam o diagnostico de câncer a família e não ao paciente: “a probabilidade de uma pessoa que sofreu um infarto coronário vir a morrer de outro infarto no intervalo de alguns anos é, no mínimo, a mesma de uma pessoa com câncer vir a morrer de câncer em breve. Mas ninguém pensa em esconder a verdade de um paciente cardíaco: nada existe de vergonhoso num ataque do coração. Mentem para os pacientes de câncer não só porque a enfermidade é (ou se supõe ser) uma sentença de morte, mas porque é considerado algo obsceno”.

(2) As metáforas sobre o câncer e sobre a tuberculose se entrecruzam e se distanciam ao longo da história. Sontag cita que Galeano chegou a comparar o câncer como um caranguejo: não porque é uma doença que rasteja e sim por causa da sua protuberância. Etimologicamente, a tuberculose foi vista como um inchaço, os médicos diziam que o tubérculo tinha um tumor – portanto, desde a antiguidade tardia até uma época bem recente, a tuberculose era tipologicamente um câncer. A autora explica que a tuberculose e o câncer só foram definitivamente separadas em 1882, quando se descobriu que a tuberculose era uma infecção bacteriana.

Muitas vezes, a tuberculose é vista como uma doença que atinge apenas um órgão: os pulmões. Ela também é vista como uma enfermidade de contrastes extremos: palidez branca e rubor vermelho. Por muito tempo acreditou-se que a tuberculose é capaz de gerar períodos de euforia e apetite sexual intenso (e que esse surto de vitalidade é apenas enganoso). Acreditava-se que o paciente com tuberculose poderia se curar se mudasse de ambiente. A tuberculose é uma doença da privação: das roupas escassas, de corpos escassos e quartos sem aquecimento. O tubérculo moribundo é alguém que se tornou mais belo e elevado. Em contrapartida, o câncer é entendido como uma doença que pode surgir em qualquer órgão, a palidez do paciente de câncer é imutável. Ele é visto como dessexualizador. Enquanto o moribundo tuberculoso é belo, o do câncer é atrofiado. O câncer é traiçoeiro e mais cedo ou mais tarde, será terminal. O câncer é uma doença da classe média, ligada à fartura, ao excesso. O tuberculoso possui estímulo de apetite, o paciente com câncer, não consegue comer.

Os aspectos citados acima são contrastes colhidos na mitologia popular. Sontag explica que muitos pacientes com tuberculose morreram sentindo muita dor, enquanto pessoas com câncer sentiram pouca ou nenhuma dor. A tuberculose não é apenas pulmonar. Ela também critica o que chama de “equação de Groddeck”: câncer=morte.  “O câncer é um tema raro e ainda escandaloso para a poesia, e parece inimaginável estetizar a doença”.

Susan Sontag faleceu em 28 de dezembro de 2004 aos 71 anos.  A autora sofreu com complicações de síndrome mielodisplásica, que evoluiram para leucemia mielóide aguda.
Susan Sontag faleceu em 28 de dezembro de 2004 aos 71 anos. A autora sofreu com complicações de síndrome mielodisplásica, que evoluiram para leucemia mielóide aguda.

(3) Para Sontag, a tuberculose e o câncer estão ligados a paixão. No entanto, enquanto a tuberculose foi vista como uma doença dos românticos e apaixonados, o câncer é efetivamente caracterizado por sua ausência (os pacientes são encarados como sexualmente reprimidos, incapazes de expressar ira). Muitos acreditam que ambas são uma sequela da frustração: o amor dos tuberculosos (mitologicamente encarados como pessoas explosivas ou sentimentais) são barrados enquanto o amor (e outros sentimentos) das pessoas com câncer são constantemente reprimidos (Sontag cita o caso de Norman Mailer que afirmou que se não tivesse assassinado a esposa, teria ficado com câncer). A resignação é a causa da enfermidade.

Ainda em referência às metáforas da tuberculose, Sontag afirma que era característica das vitimas natas e também era capaz de tornar sexy a pessoa doente. “Era tanto um modo de representar a sensualidade e fomentar as demandas da paixão como um modo de representar a repressão e divulgar as demandas da sublimação, e a doença suscitava tanto um torpor do espírito”.

(4) Sontag afirma que o tuberculoso já havia adquirido conotação romântica no século XVIII. A literatura veio para fortalecer essa ideia e apresentar o tuberculoso como alguém delicado e sensível. A doença passou a estar relacionada com uma pessoa com aspecto atrativo. Na época, era sofisticado parecer enfermo (magro e pálido). A moda entre os homens e mulheres era o vulnerável e o raquítico. A tuberculose estava ligada a noção de melancolia e elegância. Além disso, a junção entre morbidez, beleza e tristeza conotava criatividade. O mito da tuberculose tornou-se um clichê. Ao mesmo tempo, o tuberculoso era considerado um marginal e a doença passou a ser motivo de viagens (viajar ou isolar-se, até então, não eram vistas como forma de tratamento). Sontag afirma que os românticos inventavam a invalidez como pretexto para o ócio e par a isenção das obrigações burguesas afim de viver apenas para a arte. A tuberculose também era associada a loucura e só então os doentes passaram a serem enviados aos sanatórios. A autora revela algo muito interessante, ela diz que a metáfora da viagem psíquica é um prolongamento da ideia romântica: “Não por acaso a metáfora mais comum para uma experiência psicologica radical vista de maneira positiva – produzida por drogas ou por psicose – é a de uma viagem.”

(5) Ao contrário das grandes epidemias (como a peste bubônica, tifo e a cólera) a tuberculose era encarada como uma doença isolada, como uma doença do indivíduo: Ninguém pergunta “Por que eu?” quando contrai cólera ou tifo. Mas “Por que eu?” (com sentido de “isso não é justo”) é a pergunta que muitos se fazem quando sabem que estão com câncer”. Apesar da sua incidência, contrair tuberculose era algo misterioso ( o mistério que rondava a tuberculose, por exemplo, não ocorria com a sífilis. Apesar de terrível, sabia-se que a sífilis poderia ser contraída através do sexo) O julgamento não era só moral, mas também psicológico. Queimava-se as roupas do tuberculoso assim como queimavam de quem tinha cólera. Outro temor proveniente da tuberculose (e que de alguma forma, está presente no câncer) é de que ele esteja ligado a genética.

A mente de uma pessoa trai o corpo ou o corpo da pessoa trai os sentimentos. Sontag explica que no mundo antigo, as doenças eram vistas como ira divina. Hoje são formas de autojulgamento ou autotraição. Em situações extremas a doença é responsável por trazer a tona o que há de melhor e o que há de pior nas pessoas. Na antiguidade, a doença epidêmica era um castigo para a comunidade, hoje é um castigo para o indivíduo. [na literatura] “Para os personagens tratados de maneira menos sentimental, a doença é vista como uma oportunidade para finalmente agir bem”.

I710518(6)Para os gregos a doença poderia ser gratuita ou merecida, com o advento do cristianismo, moralizou-se a percepção sobre as doenças que passaram a serem vistas como punição (como um castigo justo e adequado). “No século XIV, a ideia de que a doença condiz com o caráter do paciente, assim como o castigo condiz com o pecador, foi substituída pela ideia de que ela expressa o caráter”. Sontag cita o médico Bichat que dizia que a saúde é o silêncio dos órgãos e a doença, sua revolta, portanto: a doença é a linguagem dramática do corpo. Nos séculos passados a doença foi vista como um sentimento exacerbado, a tuberculose foi logo ligada ao desejo, os primeiros românticos eram caracterizados como pessoas que desejam com mais intensidade do que as outras.

Para Sontag a ideia punitiva sobre as doenças contemporâneas (antes com a tuberculose, hoje com o câncer) ampliou-se. Antes a doença expressava o caráter, hoje o caráter causa a doença. Ela evidencia o absurdo e o perigo dessa percepção que coloca o ônus da doença no paciente (acreditava-se que a cura depende, sobretudo da capacidade de auto-estima do paciente, uma capacidade já debilitada). Tanto o mito que ronda o câncer quanto o que rondou a tuberculose sugerem que a pessoa é responsável por sua própria doença. Na visão de Sontag, o caso do câncer é pior já que o câncer é visto como sinônimo de fracasso.

As esganadas

e a relva, Fernando Botero
Mulher nua sobre a relva, Fernando Botero
Dentro de cada mulher gorda
há uma mulher magra suplicando para sair.
 Fora de cada mulher gorda
Há uma mulher mais gorda ainda
Suplicando para entrar.
(Jô Soares)

 

Passeando pela Leitura ontem, encontrei o livro “As esganadas” do Jô Soares em preço promocional e não resisti. Levei para casa e li, em menos de um dia. Hoje de manhã, conversando com uma amiga da faculdade, dizia que se eu fosse uma escritora, era exatamente esse tipo de narrativa que gostaria de construir. Jô Soares consegue ser simples direto e divertido. Ele ainda mistura personagens reais e fictícios em um cenário riquíssimo (com um gostinho delicioso de nostalgia e saudosismo.)

‘As esganadas” é uma obra escrita em terceira pessoa, que se passa no Rio de Janeiro na década de 30, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. A trama concentra-se no caso das esganadas, mulheres jovens, bonitas que são brutalmente assassinadas. Todas tem algo em comum: são gordas. Outra coisa: todas elas morreram esganadas com comidas e seus corpos são encontrados sem os olhos. O perigoso assassino usa como isca, requintes da culinária portuguesa, irresistíveis aos olhos (e aos estômagos) das jovens senhoras.

Logo no início, o autor nos revela quem é o assassino. Trata-se de Caronte (nome que tem referência ao barqueiro do Auto da Barca do Inferno, cuja função é atravessar as almas dos mortos). Caronte é um homem alto, pálido e muito magro. Ele herdou dos pais a funerária mais famosa da América do Sul, a Esfinge. Sua mãe, Odília Barroso era uma mulher enorme (com quase cento e quarenta quilos) e tinha muito medo de ver o filho engordar. Por isso o obrigava a seguir uma dieta restrita de qualquer tipo de doces ou pratos gordurosos, sem levar em consideração que o filho tinha puxado o metabolismo do pai (e poderia comer de tudo, sem preocupar-se em engordar). Em seu aniversário de dez anos, a mãe, em vez de bolo, pôs na sua frente um prato com meio mamão enfeitado com velas. Num ataque de fúria e ódio, Caronte mata Odília.

Caronte mata inúmeras mulheres brutalmente, mas há dois assassinatos que me chamam a atenção. O primeiro é o da freira Irmã Maria Auxiliadora.  Disfarçado de frade, Caronte disse a irmã que estava disposto a ouvir suas confissões. Ela lhe diz que precisava confessar todos os dias porque sempre comete o mesmo pecado: o da gula. Ele então sai do confessionário e afirma que recebeu de um emissário do Vaticano uma informação do papa: de que a gula deixará de ser um pecado. Em sua felicidade e inocência, a Irmã acredita no falso frade e aceita sua penitência: “a irmã deve ingerir a causa das suas faltas até não poder mais, como se devorasse o mal que lhe consome as entranhas”. Ajoelhada, a freira começa a comer a toda velocidade os pasteis de Santa Clara que o assassino lhe trouxe. Enquanto isso, Caronte fala um falso (e engraçado) latim como estivesse a exorcizando “Exitus Gula Demoninum!” A irmã comendo em um ritimo frenético começa a  tossir, mas não para de comer. Caronte então, pega um punhado de pasteis e lhe enfia goela abaixo. A freira morre esganada.

Outro assassinato que adorei foi o da Greta Sübeschlitz, afilhada do almirante Wilhelm Canaris, chefe da Abwehr. A gorda alemã pertencia a uma rede de espiões que a Abwehr pretendia montar no Brasil. Foi atraída pelo furgão de Caronte que trazia nas prateleiras amostras de salsichas recheadas, morreu engasgada com as próprias tripas. Seu corpo foi encontrado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, justamente no dia em que encenavam uma peça de Wagner em homenagem ao embaixador alemão Karl Ritter. O corpo nu de Greta foi enrolado nas cortinas do teatro, seu cadáver sem olhos balançava na extremidade da corda, enquanto seus cabelos estavam enrolados em salsichas.

A trama também conta com quatro personagens que se envolvem para resolver o caso. Tobias Esteves era um detetive em Portugal mas foi afastado do cargo depois que envolveu-se (com a ajuda de Fernando Pessoa) em um falso suicídio. O jovem (baixo e roliço) veio para o Rio de Janeiro para abrir uma franquia de doces e faz grande sucesso. Porém sua paixão sempre foi desvendar crimes. Sabendo do caso das esganadas, ele resolve se oferecer para ajudar o delegado Mello Noronha. O delegado, por sua vez, aceita a oferta e junto ao seu outro ajudante, Valdir Calixto (um homem atrapalhado e muito, muito engraçado) saem às ruas para resolver o caso. No meio da trama, surge Diana, a jornalista da revista O Cruzeiro, que não larga a sua câmera Leica

Bom, depois de ver o tamanho desse texto, dá pra perceber o quanto fiquei entusiasmada com o livro. Vá por mim, é muito divertido e descompromissado. Permitam-me reproduzir uma passagem que eu mais gosto:

Capa-de-As-Esganadas-do-Jo-Soares-vertical-original-200x300“Existe um preconceito velado contra a obesidade. Na verdade, dificilmente os homens o sentem. Podem ser gordos inteligentes ou ricos ou oferecem tantos outros atrativos. Quem sofre o problema com maior intensidade são as mulheres. As mulheres gordas. O leitor pode se escandalizar com o uso da palavra gorda. Os eufemismos mais comuns são: cheinha, forte, grande e, o mais usado, gordinha. Geralmente acham que a gorda (odeio a palavra obesa) não tem força de vontade. Nem caráter. Nem vergonha na cara. A gorda é um pária, o excesso do peso, um divisor de águas. O próprio adjetivo é um palavrão. Ninguém se importa com o sofrimento ou com a humilhação da gorda. Acham que ela é gorda porque quer. Observem o olhar triste das moças gordas varrendo as vitrines da moda. Os figurinos são para as magras. Alguns vendedores ainda informam sem se alterar:” Aqui é só pra pessoas normais, madame”. E a gorda se afasta engolindo o ultraje. Restam-lhe as lojas especializadas ou as costureiras do bairro. Para mim, anormal é o tratamento do vendedor. A obesidade é democrática, não faz diferença de classe. Há gordas ricas e gordas pobres. Todas sentem a mesma reprovação silenciosa da sociedade. Existem gordas belas, mas, se a beleza é notada, há sempre um apêndice ao comentário: o rosto é lindo, pena que seja gorda.”