Diante da dor dos outros

Susan Sontag

Depois de tanto tempo consegui encontrar em um dos sebos de BH o livro “Diante da dor dos Outros” escrito por Susan Sontag em 2003. Sontag sempre me chamou atenção por abordar com sabedoria assuntos fundamentais da sociedade contemporânea através de um olhar crítico e abrangente. Nessa obra, a autora realiza uma reflexão sobre a representação da dor através das imagens e discute como elas podem contribuir para aumentar a discórdia, fomentar a violência ou mesmo para criar apatia. Além disso, analisa diversas imagens mundialmente famosas de distintas épocas (por exemplo: refere-se tanto a documentos fotográficos da Primeira e da Segunda Guerra quanto ao ataque de 11 de Setembro, a imagens da Palestina, Ruanda e Israel).

Com dinamicidade, Sontag inicia o livro dialogando com Virginia Woolf. Conta que em 1937, Woolf recebeu uma carta de um renomado advogado londrino que fez a seguinte pergunta: “Na sua opinião, como podemos evitar a guerra? Em resposta, Woolf contextualiza e sustenta uma retórica sobre as imagens da guerra que diariamente invadiam os jornais chamando atenção sobre o impacto da devastação. Sontag explica que quando Virgina Woolf utiliza a expressão “o que nós podemos fazer”, ela também posiciona o interlocutor diante as imagens chocantes. O “nós” refere-se não só aos que sentem repugnância ou empatia, mas também aos que por um motivo ou outro, decidem ignorar os horrores da guerra.

“A seleção desta manhã contém a foto do que talvez seja o corpo de um homem, ou de uma mulher; está tão mutilado que pensando bem, poderia ser o cadáver de um porco. Mas ali adiante estão, seguramente, crianças mortas e também, sem dúvida, um pedaço de uma casa. Uma bomba arrombou a parte lateral; há ainda uma gaiola de passarinho pendurada no que, pode-se presumir, foi a sala de estar. (…) O senhor as chama de “horror e repugnância” Nós também a chamamos de horror e repugnância. A guerra, diz o senhor, é uma abominação, uma barbaridade, é preciso por fim à guerra, a qualquer preço. E nós fazemos eco a suas palavras. A guerra é uma abominação, uma barbaridade, é preciso pôr fim à guerra” (Virgina Woolf).

Ainda sobre a perspectiva de Woolf, Sontag questiona ao leitor se as imagens provocam apenas repugnância. Ela nos pede para refletir sobre o poder e as intenções de quem fotografa e de quem expõe as imagens.Como afirma, certas fotos servem para atiçar o ódio, causar dó ou empatia, simbolizar superioridade ou inferioridade, pode ser entendido como um clamor por paz ou por vingança, pode representar heroísmo ou covardia.

Registro: “As imagens não são só registro, mas também funcionam como testemunho pessoal”

Quando escreve sobre a importância da fotografia como um registro, Sontag nos faz recordar que anos de experiência e aprendizado em fotografia não representam uma vantagem insuperável aos inexperientes. Ironicamente, fotos tremidas ou com má resolução/iluminação possuem uma legitimidade (ou autenticidade) semelhante a fotografias de profissionais. Como exemplo, cita que após o ataque de 11 de setembro, artistas realizaram uma mostra chamada “Aqui é Nova York. Os organizadores reuniram fotógrafos amadores e profissionais que resgistraram o ataque e colocaram as imagens sem o nome do autor a venda. A pessoa que comprava a foto poderia levar pra casa uma imagem feita por Gilles Peress, James Nachtwey ou uma foto de um completo desconhecido.

Fotojornalismo: A década de 1940 (em tempos de guerra) conferiu legitimidade aos fotojornalistas que arriscavam a pele para registrar os conflitos. A profissão conferia certo prestígio e influência. Como Sontag explica, as revistas preconizavam uma missão ampla e eticamente árdua para os fotógrafos que deviam fazer uma crônica desse tempo fosse este de guerra ou de paz, como testemunhas honestas, livres de preconceitos chauvinistas.

Voyeurismo: “o horripilante nos convida a ser ou espectadores ou covardes, incapazes de olhar”. No terceiro capítulo do livro, há uma grande análise sobre a contemplação do sofrimento (ou tormento) alheio. “Parece que a fome de imagens que mostram corpos em sofrimento é quase tão sôfrega quanto o desejo de imagens que mostram corpos nus”. As imagens nos convidam a olhar, algumas quase nos desafiam: “você é capaz de observar imagem tão horripilante?”. Somos então, tomados por um prazer que mistura vergonha e satisfação e também de choque: “talvez as únicas pessoas com o direito de olhar as imagens de sofrimentos dessa ordem extrema sejam aquelas que poderiam ter feito algo para minorá-lo”.

Sontag questiona a fotografia, a contemplação e a realidade. Mas ‘Diante da dor dos outros’ é, sobretudo, um questionamento sobre a guerra e construção imagética que realizamos sobre ela. Pois a fotografia é também um documento histórico da humanidade e como documento, está presente na memória e no esquecimento coletivo (e individual). Para Susan Sontag podemos esquecer mais facilmente de um acontecimento se não temos imagens para lembrá-lo.

Imagens Historicas

Através de um olhar crítico, a autora se posiciona contra as adulterações das fotos da guerra e contra aqueles que lucram com a imagem da dor alheia. Ela cita, por exemplo, o lugar impróprio em que várias fotos são veiculadas  dentro de uma revista (de um lado uma propaganda de perfume e do outro, uma mãe e um filho mortos). Ainda nessa perspectiva, Sontag se refere a manipulação, de imagens.

Sontag cita o caso de Roger Fenton, o primeiro fotojornalista contratado para registrar imagens de guerra (no caso, a Guerra da Criméia). Nas fotos, Fenton criava a ilusão que os soldados viviam em boas condições e que aquele cenário horroroso, não era ‘tão horroroso assim’. Segundo a autora, essas adulterações se repetiram inúmeras vezes (como nos próprios ataques dos EUA ao Afeganistão, onde as TVs veiculavam que os civis não seria atingidos).

“Mas a imagem fotográfica, na medida em que constitui um vestígio (e não uma construção montada com vestígios fotográficos dispersos), não pode ser simplesmente um dispositivo de algo que não aconteceu.

É sempre a imagem que alguém escolheu; fotografar é enquadar e enquadrar é excluir”

Sontag, Susan, 1933 – Diante da dor dos outros / Susan Sontag: tradução Rubens Figueiredo – São Paulo. Companhia das Letras, 2003

Carmen Miranda

Carmen Miranda

Carmen é um dos símbolos mais interessantes de beleza e feminilidade que tenho em mente. Essa percepção veio a aumentar depois que terminei de ler uma de suas biografias, escrita por Ruy Castro. Pensei por algum tempo em que tipo de publicação faria hoje. Em principio queria citar (em referência ao dia das mulheres) algumas feministas que me inspiraram a conhecer e participar do movimento. Logo depois, pensei em filmes temáticos e músicas que seguem essa perspectiva e por fim, me lembrei da Carmen.

No dia que resolvi escrever sobre ela, conheci a jornalista Júnia, que por coincidência estava com o mesmo livro nas mãos. Foi um encontro completamente casual e inesperado e que me valeu muito. Eu passeava pelo edifício Maletta, estava com sede, entrei numa lanchonete e lá a encontrei. Eu disse para a Júnia que estava com a “Carmen na cabeça” e que não conseguia parar de pensar no triste fim que ela teve. Sabiamente, Júnia me disse que a vida é feita de escolhas e que Carmen foi uma mulher feliz com as escolhas que fez.

Carmen MirandaComo Helena Solberg diria em seu documentário “Banana is my business”, Carmen Miranda tinha a inocente ideia de que conseguiria representar o Brasil no exterior. Se comprometeu tanto que essa foi sua bandeira por muitos anos. Carmen exigia cantar em português em seus filmes e sempre estava na defensiva quando o assunto era o país. Se Carmen conseguiu representar o Brasil? Claro que sim, mas em partes. Ninguém jamais representaria um país em sua totalidade tendo em vista a complexidade e vastidão cultural, ideologia, política ou qualquer outro aspecto que engloba uma nação. Ainda assim, sua imagem está extremamente ligada ao Brasil, ela se tornou um símbolo.

Também por coincidência, o professor Mozahir citou o livro do Ruy Castro como uma bibliografia que ajudaria a entender o papel do rádio no país. Infelizmente, poucas pessoas (ou praticamente nenhuma) mostrou interesse por Carmen. Depois da aula tive que escutar: “quem é Carmen?” ou, “ela ainda está viva?“ Sim, Carmen continuará viva, enquanto for lembrada. Na verdade é um pouco decepcionante pensar que estudantes de jornalismo, já no fim do curso, não fazem ideia de quem foi Carmen. Não é uma informação que está colada na grade curricular, mas que eu tenho certeza: faria um bem danado! O Mozahir dizia: “foi incrível o que essa mulher fez”, ela chegou a ser uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood na década de 1940, enfrentava maratonas diárias de shows e tinha uma repertorio invejável.

Sempre bem humorada e com consciência plena de sua beleza, Carmen ficou famosa ainda muito jovem. Comandava sua carreira com determinação e sabedoria. Pouco tempo depois de fazer sucesso cantando, comprou uma casa nova para os pais e aprendeu a dirigir. Tinha também muita habilidade com costura, por isso: customizava facilmente suas roupas. Aqueles sapatados gigantescos (e pesados) que usava nos shows foram inventados por ela e exigiam um equilíbrio fora do comum. Além disso, Carmen ditava moda. Chegavam a dizer que ela era careca porque nunca mostrava os cabelos. Os turbantes, na verdade, só se fixavam na cabeça justamente por causa dos cabelos. No fundo, ela achava toda aquela conversa de “ser careca” muito engraçada. Há também um fato interessante: antes de Hollywood, viajou muito pela América Latina. Chegaram a perguntar a Carmen se era verdade que o Brasil era uma “matagal” onde se encontrava macacos e cobras. Carmen brincava e dizia: “Sim, há muitas cobras”

Carmen Miranda

Apesar de todo esforço em representar o país, Carmen não foi bem acolhida pelos críticos brasileiros. Morando nos Estados Unidos, recebia em sua casa jornais ou informações de amigos da hostilidade dos críticos. Diziam que ela gesticulava demais, que tinha uma voz péssima, que estava gorda ou que tinha esquecido a língua portuguesa. Com tanta hostilidade, Carmen ficou temerosa de voltar ao Brasil. Quando veio pra cá, já em 1955, estava completamente confusa e fraca, resultado direto dos calmantes, dos estimulantes e da bebida.

Helena Solberg e Ruy Castro afirmaram inúmeras vezes sobre o quanto Carmen Miranda foi injustiçada. A obra deles, acima de tudo (e acima da própria Carmen) possui uma semelhança maravilhosa: todas as duas (tanto o livro, quanto o documentário) são de uma doçura incontestável, que fazem com que a gente se incline a gostar dela também. Um dos sonhos de Carmen era voltar ao Brasil e pular carnaval do meio da multidão. Dizia que queria se misturar no meio do povo, dançar até não poder mais e depois voltar para casa. Como Ruy Castro acrescentaria: esse era um devaneio, Carmen jamais conseguiria pular carnaval sem ser identificada.

Dois dos inumeros pares de sapato que Carmen Miranda colecionava em sua casa em Hollywood.
Dois dos inumeros pares de sapato que Carmen Miranda colecionava em sua casa em Hollywood.

De origem católica, sacrificou as próprias vontades em nome de um casamento em que a figura masculina dominava. Castro dizia no livro que em momentos de confusão (mental), Carmen chegou a afirmar que apanhava do marido (não se sabe se isso realmente aconteceu). David Sebastian conheceu Carmen nas filmagens do filme Copacabana. Ela aceitou as investidas e casou-se com o americano. * Antes, porém, Carmen teve inúmeras desilusões amorosas: hora por homens que não aceitavam sua fama e seu dinheiro, hora por homens que simplesmente não a levavam a sério. Ironicamente, o grande desejo de Carmen era se casar e ter filhos.

Como não acreditava em divórcio, perdeu parte da felicidade por um casamento desastroso. Ela, que vivia cercada de brasileiros em sua casa, teve que deixar de recebê -los. David também passou a empresariá-la, assegurando-se de sempre vê-la na ativa, não importasse o quanto estivesse exausta. Usou parte do dinheiro (que não era pouco) em investimentos sem futuro e em presentes caríssimos. Além disso, estimulou o uso das bebidas alcoólicas que no final da vida, tornaram-se um hábito, ou melhor: uma necessidade de Carmen.

Mas como Ruy Castro evidencia, David não foi o culpado pelo fim trágico de Carmen. Ele só veio a piorar as coisas. Com os limites da medicina na época, acreditava-se que tanto os calmantes quanto os estimulantes eram benéficos. Como uma bola de neve, Carmen foi aumentando as pílulas, até chegar nas medicações injetáveis. Para tentar diminuir o vício, os médicos cortavam as doses dos remédios, o que na verdade, deveria ser feito gradativamente. Assim, Carmen passava dias sem dormir, tinha alucinações, até o que o organismo cedia. Mas o ciclo vicioso dos remédios sempre voltava: e Carmen caiu em uma profunda depressão.

Carmen Miranda

Um dos tratamentos indicados e que Ruy Castro descreve era o choque elétrico. Ao que parece, Carmen recebeu cinco sessões de choques elétricos que comprometeram sua memória. Subia ao palco e submetia-se a apresentações em que muitas vezes esquecia as letras das musicas. Também já não tinha a mesma coordenação motora e constantemente perdia o ar ou ficava zonza.

“Em 1953, a aplicação dos eletrochoques ainda era feita em moldes primitivos. O paciente não era anestesiado. Não lhe davam um relaxante muscular e ele não recebia oxigenação artificial, como se passaria a fazer muito depois. Nem se sonhava com monitores cardíacos, cerebrais e de pressão arterial. E, pior ainda, não se fazia uma desintoxicação prévia, com a eliminação gradual dos medicamentos, que afinal, tinham levado àquela condição. Na época, a máquina de eletrochoque, fabricada pelos Laboratórios Lester, de Nova York, fornecia uma carga de 110 volts, muito mais do que, no futuro, se consideraria “aconselhável”. Eram precisos três enfermeiros para manobrá-la: um, para girar o botão e aplicar o choque, os outros dois, para conter o paciente e impedi-lo de se machucar e de, literalmente, levantar vôo.”

Os médicos alegaram que Carmen estava com problema nos nervos. A depressão estava tão profunda que ela não se levantava da cama, não comia nem falava. Veio ao Brasil pouco tempo antes de morrer. Tanto os médicos quanto os amigos próximos, acreditavam que essa era uma maneira de ajudá-la a melhorar. Carmen ficou hospedada no Copacabana Palace por mais de cem dias. Continuava tomando os remédios que um dia a matariam justamente para se manter nos palcos. Chegou a se apresentar no Brasil, foi recebida por milhares de pessoas que cantavam “Taí” em sua homenagem. Visivelmente fragilizada, confundia os companheiros da juventude que a visitavam no hotel e chorava sem parar. Castro dizia que ela cogitou a hipótese de não ir para Hollywood, mas o marido era insistente e praticamente a obrigara a voltar a ativa.

Carmen, fragilizada depois dos tratamentos.
Carmen, fragilizada depois dos tratamentos.

Em uma apresentação no programa de Jimmy Durante, Carmen cai de joelhos e diz que está sem fôlego (há, inclusive, diversos vídeos no Youtube, reproduzindo o show). Ruy Castro conta que nesse momento, ela revira os olhos e dá pra perceber que a morte já estava por perto. Naquela mesma noite, em 5 de Agosto de 1955, Carmen cantou seus sucessos para um grupo de amigos. Subiu ao quarto, fumou um cigarro, tirou a maquiagem e foi para o quarto. Faleceu após um colapso cardíaco. Foi encontrada deitada no chão segurando um espelho de rosto.

Seu corpo chegou ao Brasil em 12 de Agosto, cerca de quinhentas mil pessoas acompanharam o velório cantando “Taí” em despedida. As vendas dos seus discos aumentaram consideravelmente, semanas depois, já não tinham mais estoque. Carmen foi enterrada no Cemitério São João Batista.

*Carmen, no programa de Jimmy Durante: em uma apresentação que aconteceu hora antes de seu falecimento. Carmen, aos 24:07min cai e diz que está sem ar:

Olhos de Azeviche

(Elisa Lucinda)

Olhe aqui, olhos de azeviche
Vamos acertar as contas
porque é no dia de hoje
que cê vai embora daqui…
Mas antes, por obséquio:
Quer me devolver o equilíbrio?
Quer me dizer por que cê sumiu?
Quer me devolver o sono meu doril?
Quer se tocar e botar meu marcapasso pra consertar?
Quer me deixar na minha?
Quer tirar a mão de dentro da minha calcinha?
Olhe aqui, olhos de azeviche:
Quer parar de torcer pro meu fim
dentro do meu próprio estádio?
Quer parar de saxdoer no meu próprio rádio?
Vem cá, não vai sair assim…
Antes, quer ter a delicadeza de colar meu espelho?
Assim: agora fica de joelhos
e comece a cuspir todos os meus beijos.
Isso. Agora recolhe!
Engole a farta coreografia destas línguas
Varre com a língua esses anseios
Não haverá mais filho
pulsações e instintos animais.
Hoje eu me suicido ingerindo
sete caixas de anticoncepcionais.
Trata-se de um despejo
Dedetize essa chateação que a gente chamou de desejo.
Pronto: última revista
Leve também essa bobagem
que você chamou
de amor à primeira vista.
Olhos de azeviche, vem cá:
Apague esse gosto de pescoço da minha boca!
E leve esses presentes que você me deu:
essa cara de pau, essa textura de verniz.
Tire também esse sentimento de penetração
esse modo com que você me quis
esses ensaios de idas e voltas
essa esfregação
esse bob wilson erotizado
que a gente chamou de tesão.
Pronto. Olhos de azeviche, pode partir!
Estou calma. Quero ficar sozinha
eu co’a minha alma. Agora pode ir.
Gente! Cadê minha alma que estava aqui?

Delicatessen

(Hilda Hilst)

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, ”tá quentinho, comprei agora”. Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua ”ídala”, mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: ”pé-de-porco”. Não entendi. Como? ”Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também”. Ahn… interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: ”O que aconteceu com seus gatos?” Resposta: ”Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu”. Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que ”bife” era uma coisa para as classes mais baixas, ”de um mau gosto terrível”, ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia… Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas… Perguntei: ”E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?” Resposta: ”Tive de matá-los”. ”Mas por quê?!” Resposta: ”Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos”. ”Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?” Olhou-me aparvalhado: ”Mas onde? Pra quem?” ”E como você os matou?” ”A pauladas”, respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.

Não estás deprimido, estás distraído

Outro dia vasculhando a internet em busca de uma música da Mercedes Sosa, descobri Facundo Cabral e de lá não consegui mais parar de ver seus vídeos e ouvir suas músicas. Esse é um texto que está disponível também em vídeo com a narração do próprio autor. O link abaixo é narração do texto complepto,  por isso o vídeo tem quase uma hora de duração. O texto é lindo e vale a pena conferir!

Não estás deprimido, estás distraído, distraído da vida que lhe habita.Tens coração, cérebro, alma e espírito… então como podes sentir-se pobre e desprezado? Distraído em relação à vida que te rodeia: Golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios.

Não caias como caiu teu irmão que sofre por um único ser humano, quando no mundo existem cinco mil e seiscentos milhões. Além de tudo, não é assim tão ruim viver só. Eu fico bem, decidindo a cada instante o que desejo fazer, e graças à solidão conheço-me, oque é algo fundamental para viver.

Não caias no que caiu teu pai, que se sente velho porque tem setenta anos, e esquece que Moisés comandou o Êxodo aos oitenta e Rubinstein interpretava Chopin com uma maestria aos noventa. Só para citar dois casos conhecidos.

Não estás deprimido, estás distraído, por isso acreditas que perdeste algo, o que é impossível, porque tudo te foi dado. Não fizeste um só cabelo de tua cabeça, portanto não podes ser dono de nada.

Além disso, a vida não te tira coisas, a vida te liberta de coisas. Te alivia para que voe mais alto, para que alcances a plenitude. Do útero ao túmulo, vivemos numa escola, por isso, o que chamas de problemas são lições.

E a vida é dinâmica, por isso está em constante movimento, por isso que devemos estar atentos ao presente, por isso que minha mãe dizia: eu me encarrego do presente, o futuro é assunto de Deus. Por isso Jesus dizia: o amanhã não interessa ele trará novas experiência a cada dia lhe basta com sua própria vontade.

Não perdeste nada, aquele que morre simplesmente está adiantado em relação a nós, porque para lá vamos todos. Além disso, o melhor é o amor que segue em teu coração. Quem poderia dizer que Jesus esta morto? Não existe a morte: existe mudanças.

E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, Michelangelo, Whitman, São Agostinho, a Madre Teresa, teu avô e minha mãe, que acreditavam que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com coisas demais, e nos machuca, porque nos torna desconfiados.

Não encontras a felicidade e é tão fácil, só deves escutar teu coração antes que lhe intervenha tua cabeça, que está condicionada pela memória, e complica tudo com coisas velhas, com ordens do passado, com o prejuízo que adoenta, que acorrenta. A cabeça que divide, quer dizer empobrece. A cabeça que não aceita que a vida é como é e não como deveria ser.

Faz apenas o que amas e serás feliz e aquele que faz o que ama, está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando deve chegar, porque o que deve ser será, e chegará naturalmente. Não faças nada por obrigação nem por compromisso, apenas por amor.

Então terás plenitude, e nessa plenitude tudo é possível. E sem esforço, porque és movido pela força natural da vida, a que me levantou quando caiu o avião que levava minha mulher e minha filha; a que me manteve vivo quando os médicos me deram três ou quatro meses de vida.

Deus te tornou responsável por um ser humano, e é tu mesmo. A ti deves fazer livre e feliz, depois poderás compartilhar a vida verdadeira com todos os outros. Lembra-te de Jesus : “Amarás ao próximo como a ti mesmo”. Reconcilia-te contigo, coloca-te frente ao espelho e pensa que esta criatura que estás vendo, é uma obra de Deus; e decide agora mesmo ser feliz, porque a felicidade é uma aquisição. Não algo que chegará de fora.

Aliás, a felicidade não é um direito, e sim um dever, porque se não fores feliz, estarás levando amargura para todos os que te amam. Um único homem que não possuiu nenhum talento nenhum valor para viver, mandou matar seis milhões de irmãos judeus.

Existem tantas coisas para experimentar, e a nossa passagem pela terra é tão curta, que sofrer é uma perda de tempo.

Temos que desfrutar a neve do inverno e as flores da primavera, o chocolate de Perugia, a baguette francesa, tacos mexicanos, os mares e rios de vinho chileno, o futebol brasileiro e charutos Davidoff Chez. Temos de desfrutar das Mil e Uma Noites, a Divina Comédia, Dom Quixote, Pedro Páramo boleros de Manzanero e da poesia de Whitman, Mahler, Brahms, Ravel, Debuzzi, Mozart, Schopain, Beethoven, Caravallo, Rembrandt, Velásquez, Cézanne , Picasso e Tamayo, entre tantas maravilhas.

E se estás com câncer ou AIDS, podem acontecer duas coisas, e as duas são boas; se a doença ganha te liberta do corpo que é cheio de moléstias: tenho fome, tenho frio, tenho sono, tenho vontades, tenho razão, tenho dúvidas… e se tu vences, serás mais humilde, mais agradecido, portanto, facilmente feliz. Livre do tremendo peso da culpa, da responsabilidade e da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente,…. como deve ser.

Não estás deprimido, estás desocupado. Ajuda a criança que precisa de ti , essa criança que será sócia do teu filho. Ajuda os velhos, e os jovens lhe ajudarão quando o for. Aliás o serviço é uma felicidade segura como gozar a natureza e cuidar dela para aqueles que virão. Dá sem medida e te darão sem medida. Ama até que te tornes o ser amado, mais ainda converte-te no mesmíssimo Amor .

E não te deixes confundir por uns poucos homicidas e suicidas, o bem é maioria, porém, não se nota porque é silencioso, uma bomba faz mais barulho que uma caricia, porém, para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida. O bem alimenta-se de si mesmo, o mal destrói-se a si mesmo. Se o mal soubesse que é um bom negócio ser bom, seria bom nem que seja por negócios.

Não estás deprimido, estás distraído. Se escutar ao outro, o que leva dentro, saberia tudo, em tudo encontraria algo para ti, então elevaria-se constantemente, e já não haveria confusões se não matizes, e nesta serenidade não querias nada, então encontraria tudo, e estando no presente diria e farias o que há de dizer e fazer em cada momento, natural e graciosamente, sem esforço o que faria com que tua relação com os outros fosse plena e o crescer no amor seria mais criativo sem limites e condições.

A ignorância nos faz sentir presos e mortais, é dizer que nos fechamos e limitamos sozinhos o medo nos distrai do amor, que é sábio e valente porque sabe que não há nem medidas nem fim, olhe para dentro e desaparecerão as nuvens da periferia, fique quieto e em silêncio para ouvir a sua sabedoria interior.

A que tem séculos, não anos como seu corpo e por isso está além de suas medidas caprichosas, dos preconceitos que causam medo, filho de sua ignorância.

Não estás deprimido, estás distraído das maravilhas que acontecem ao seu redor. Desde o nascimento a colheitas, desde revoluções a concertos, desde campeonatos de futebol até viagens interplanetárias, não está deprimido por algo que passou, senão distraído de tudo, que é agora mesmo.

Eu estou aqui para lembrá-lo que todos nós fazemos parte da maior empresa, a humanidade, que constrói, cura, semeia, lava, canta e dança.

Deus espera que o homem volte a ser criança, para o acolher em seu seio…

Não estás deprimido, estás distraído…

Facundo Cabral

Tradução de Camila Mortari Remonatto.

* O texto original está disponível em:

http://www.facundocabral.info/literatura-texto.php?Id=87

Metamorfoses de Madame Bovary

“Metamorfoses” é o subtítulo do capítulo 4 do livro de Robert Stam – A literatura através do cinema (Realismo, magia e  a arte da adaptação). O autor apresenta uma rica análise sobre um dos meus livros favoritos: Madame Bovary, de Gustave Flaubert.  O capítulo é pesado, com termos literários e cinematográficos complexos e relevantes para quem se interessa pela área.

Em princípio Stam compara Emma Bovary  a Dom Quixote. Ele explica que os dois personagens se inspiram nos romances de cavalaria durante a vida e justamente por isso, passam por um processo  de desencantamento – percebem que a vida real não corresponde às expectativas criadas pelos livros.

Na verdade li Madame Bovary aos 15 anos, motivada pelo filme de Chabrol com Isabelle Huppert interpretando a personagem principal. Apesar de sempre idealizar alguma coisa ou alguém, Emma me cativou nas seguintes questões: além do tom feminista, se entregou aos seus desejos, tentou fugir das banalidades do casamento e dos substratos religioso e acima de tudo: tinha uma personalidade subversiva.

Acentuando o que Stam afirma sobre a personagem: apesar de encontrar no amante as mesmas banalidades do casamento, ela continua mandando cartas de amor a Leon – alimentando a ilusão de que há uma maneira correta para se ter um relacionamento amoroso.  Através de uma interface com a modernidade, Stam explica que o livro de Flaubert funciona perfeitamente como um roteiro que ensina ao ator como se portar e ao produtor como situar câmeras por meio de passagens detalhadas.

O que ele quer dizer é que a precisão de Flaubert facilita a construção de um roteiro. São dicas sensoriais e de composição passíveis de adaptações, como por exemplo: descrições do figurino, detalhes de enquadramento e a postura física. Todas essas dicas ainda são ligadas a uma questão fundamental: ao discurso indireto livre, que facilita o acesso aos sentimentos e pensamentos do personagem. Stam deixa claro que o trabalho de Flaubert tem um tom “protocinematográfico” .

O autor ainda completa: “(…) a importância histórica de Madame Bovary, é em parte, proveniente de seu ágil emprego do ponto de vista romanesco  e especialmente da maneira com que Flaubert dispersa a agencia narrativa delegando – a aos múltiplos personagens, sem intervenção autoral direta à la Balzac”. – p 203.

Madame  C’est Moi

 

Stam chega a uma das minhas reflexões favoritas sobre a obra: realiza uma crítica fundamental à “extensão da identificação” de Flaubert com Emma, ou seja, Flaubert mistura suas memórias as memórias das personagens. É exatamente o que Alfred Hitchcock faz em seus filmes – e atua também como um voyeur. Quando foi levado aos tribunais, Flaubert disse a frase: “Eu sou Madame Bovary” para se defender das acusações. Esse deslocamento é sentindo inclusive pelo leitor, que “olha com os olhos de Emma”.

Aí chegamos a Chabrol. Na verdade o autor faz uma análise de diversos filmes baseados no romance realista. Há uma variedade tão grande, que eu realmente não imaginava. Confira:

“Madame Bovary é também um dos romances que mais foram filmados. Uma lista parcial incluiria duas versões francesas ( a de Renoir de 1934 e a de Chabrol de 1991); duas versões hollywoodianas ( uma atualização moderna da H. B. Warner, intitulada Unboly Love (1932) e a versão de Minnelli, em 1949); uma versão alemã, em 1937; uma versão Argentina; em 1947; uma italiana, em 1969 (I pecati di Madame Bovary); a versão russa de Alexander Sokurov, em 1989, uma versão indiana em 1985, uma portuguesa, em 1997 de Manuel de Oliveira e uma versão da BBC de 2001″

Na verdade a versão de Chabrol foi à única que vi. Conforme o autor explica, Chabrol realiza um casamento entre as versões de Renoir e Minnelli, colocando ali tudo o que faltou, inclusive deixando

 a obra ainda mais realista. Chabrol tinha uma admiração tamanha por Flaubert, queria ser o mais fiel possível a obra. Tanto que tentou filmar nos lugares indicados por Flaubert. Essa relação com a personagem foi tão forte que na gravação da morte ficou doente. Flaubert também adoeceu enquanto descrevia a morte de Emma.

Mas a relação entre Chabrol e Flaubert não é só de admiração, Robert Stam explica que os dois participaram de movimentos inovadores (o romance clássico francês e a nouvelle vague), são irônicos e – “são fascinados pelas mulheres inteligentes que se destacam entre os homens medíocres que as circunscrevem”.

Gosto da Isabelle Huppert desde ‘Oito Mulheres “, mas foi nesse filme que conheci a sua capacidade subjetiva (e profunda) de interpretação. O autor explica que Huppert chegou a afirmar que saia e entrava do personagem deliberadamente., como uma metamorfose: horas obsessiva, horas desligada. São dois estilos contrapostos: fria, desinteressada e aborrecida x vibrante, viva e apaixonada.

Ao final, Stam deixa um questionamento válido: apesar de tantas adaptações, há alguma realmente feminista? ele sugere diversas e interessantes variações hipertextuais para a obra que realmente fazem falta e conclui que não. Não há no cinema, uma interpretação feminista de Madame Bovary.

O que fizemos de nós?

 

Comecei a ler o segundo livro com menos entusiasmo do que pelo primeiro mas fui sendo cativada mais uma vez pela capacidade narrativa de Zuenir Ventura. O segundo livro “1968, O que fizemos de nós” só perdeu um pouco do meu interesse por causa de algumas entrevistas. O fato é que me surpreendi positivamente (mais uma vez), não há nada de pedante em nenhuma das afirmações, uma lição jornalística: a importância das entrevistas.

Gosto principalmente da primeira parte e de suas respectivas divisões, os ‘reflexos do baile distante, ‘a falta de bússola – enfim, são fantásticas. Esse balanço que o autor faz, mostra que melhoramos em muitas coisas e que ainda estamos em dívida com muitas outras. O que mais me agrada é pensar que a reflexão do autor sobre a “nova geração” ou a “geração dos netos de 68” é justamente sobre a minha geração. Me identifiquei em diversos relatos que ele realiza.

Zuenir Ventura começa o livro conversando com as mulheres que em apoio (e também influenciadas) pelos movimentos de 68, se separaram dos maridos e foram a luta (cada uma a sua forma). Hoje reconhecem que aquela época refletiu diretamente no comportamento das suas netas, nas suas formas de vestir e de conversar. A crítica maior sem dúvidas é sobre a internet, para elas, um processo de alienação.

De fato, o mundo digitalizado trouxe vantagens em relação a 68. A comunicação rápida, o número de informações cada vez maior… mas que transformou as relações pessoais: “Ficam horas no MSN”, como diria Maria Lúcia Dahl. E realmente ficamos. As redes sociais se tornaram tão comuns que são um bem (ou mal?) necessário. No meu caso: pensei inúmeras vezes em apagar a minha conta no Facebook, mas como? Faço trabalhos acadêmicos, combino horários, troco informações, marco encontros.

Meu capítulo preferido sem duvidas é: “Sexo, drogas e rave”. Zuenir trabalha muito bem com esses conceitos, deixando claro suas diferenças entre 2008 e 1968. Gosto principalmente das análises que ele faz sobre o sexo nos dias de hoje, me fez entender muito do porque agimos assim: sim, somos uma geração que tem medo de fazer sexo e porque? Por causa da AIDS. Soa até engraçado quando analisam o “ficar” da nossa geração. “Eles se beijam, beijam e não fazem nada” – ou seja, não chegam nos finalmente.

A AIDS (a concepção, o medo, o terror à doença) veio para limitar essas ideia de amor livre. Sexo só se for seguro, com camisinha. Na década de 1980 não se entendia muito sobre a doença (aliás, acho mesmo que evoluímos pouco, mas pelo menos nos livramos daquela ideia de: câncer gay). O beijo, como explica Zuenir era apenas a preliminar para o contato carnal.

Outro momento interessante do livro é a descrição que ele faz das raves, das comparações com o Festival de Woodstock, das músicas e principalmente dos participantes da festa com pirulitos na boca. Alguns chupam pirulito por causa das drogas, para não trincar os dentes. Outros, chupam porque gostam de bancar a ideia, de fingir. Em falar em drogas, essa foi uma das heranças malditas de 1968, das suas relações com a criminalidade e das suas divergências em relação a liberação ou não.

Bom…. e as listas? Bacana demais, ele faz uma separação do que acabou e do que não acabou com 1968. O que não acabou? Nelson Rodrigues, Pilula Anticoncepcional, capitalismo, maconha, sonho, MPB…. O que terminou? Comunismo, Transar sem camisinha, cabelo comprido, palavrão. O palavrão ele mesmo classifica: “não sumiu mas saiu de moda”.

A melhor entrevista, sem dúvidas é com José Dirceu, que vive reafirmando a sua inocência. Em 2008 havia ainda uma especulação sobre o mensalão, nada como o que vivemos hoje: o julgamento. Na verdade é muito bom ver a perspectivas dos personagens e de como estão agora: Caetano Veloso, Heloisa Buarque de Hollanda, César Benjamim, etc…

Dói, ai, eu sei como dói

Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai agüentar, mas aguenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar.  Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai agüentar, mas agüenta: as dores da vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás. Você acha que não, porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico no horizonte estando na praia. Ele parece parado, mas aí você desvia o olho, toma um picolé, lê uma revista, dá um pulo no mar e quando vai ver o barco já tá lá longe. A sua dor agora, essa fogueira na sua barriga, essa sensação de que pegaram sua traquéia e seu estômago e torceram como uma toalha molhada, isso tudo – é difícil de acreditar, eu sei – vai virar só uma memória, um pequeno ponto negro diluído num imenso mar de memórias. Levante-se daí, vá tomar um picolé, ler uma revista, dar um pulo no mar. Quando você for ver, passou. Agora não dá mesmo pra ser feliz. É impossível. Mas quem disse que a gente deve ser feliz sempre? Isso é bobagem. Como cantou Vinícius: “É melhor viver do que ser feliz”. Porque pra viver de verdade a gente tem que quebrar a cara. Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, eu sei como dói. Mas passa. Tá vendo a felicidade ali na frente? Não, você não tá vendo, porque tem uma montanha de dor na frente. Continue andando. Você vai subir, vai sentir frio lá em cima, cansaço. Vai querer desistir, mas não vai desistir, porque você é forte e porque depois do topo a montanha começa a diminuir e o unico jeito de deixá-la pra trás é continuar andando. Você vai ser feliz. Tá vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto de agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que tô falando a verdade. Eu não minto. Vai passar.

(Caio Fernando Abreu)

O ano que não terminou

Uma colega me emprestou “1968, O ano que não terminou” de Zuenir Ventura, obra clássica moderna, indicada para qualquer estudante de jornalismo (e para qualquer um que se interesse pela história política e cultural do Brasil). Devorei o livro em dois dias… Zuenir tem um poder narrativo muito profundo, que envolve o leitor (e que exige agilidade), apesar da clareza na exposição das ideias.

A história que começa na famosa “festa na casa da Helô” e envolve figuras públicas e populares que através de muita luta, representaram um expoente para a democracia.

Toda essa narrativa se somou ao documentário que assisti ontem no Belas Artes: Tropicália, dirigido por Marcelo Machado – um recorte sobre o movimento que com a conturbada situação política, enriquecia o cenário musical, os festivais e a juventude.

De fato, as duas obras possuem semelhanças esperadas. O que eu poderia dizer é que: o livro e o filme são complementares. Gosto muito da maneira em que Zuenir começa a sua obra analisando a participação da figura feminina, uma pena eu não ter o livro aqui para reproduzir uma de suas ideias: mas é mais ou menos assim: o autor explica que a efervescência política acabou com muitos casamentos. As mulheres saiam de casa pois aquela percepção de “dona do lar”, cuidando dos filhos, começara a mudar.

Em Tropicália, fica muito claro que 1967 e 1968 foram anos conturbados, mas de certa forma, bem diferentes, uma delas é o Ato Institucional nº 5 (ainda não decretado).  A televisão já cumpria um papel de massificação e de divulgação (mas não tão evidente: nem todos acreditavam em seu poder).

A morte do estudante Edson Luiz por Ventura ficou ainda mais clara para mim no documentário. Pelo que entendi, Edson Luiz foi um espécie de mártir do movimento, o cortejo para o enterro foi seguido por milhares de pessoas. (Zuenir conta um fato interessante, ele relata que durante o caminho ao cemitério as luzes se apagaram (não se sabe se foi um boicote), e mesmo assim, as pessoas não desistiram de seguir o corpo – foram pegando jornais e fazendo tochas – que queimavam muito rápido.

 

Ainda sobre o livro: a missa de sétimo dia de Edson Luiz recebe uma descrição fantástica e chama atenção para o papel dos padres. Naquele dia a polícia cercou toda a igreja, eram mais de cem cavalos. As pessoas que estavam dentro ficaram temerosas de sair. Alguns militantes (inclusive ateus) foram a missa propositalmente, conscientes da possibilidade de  um enfrentamento. Percebendo a situação, os padres saíram na frente das pessoas, fazendo uma corrente protetora e acabaram apanhando da polícia, como muitos que ali estavam.

Sobre a passeata dos cem mil, também há um detalhe interessante: o que me chamou atenção foi a forma em que a população acabou por abraçar a causa. As pessoas jogavam objetos das sacadas das janelas para atingir os policiais.

O documentário é lindo, mais linda ainda: Gal Costa. Sabe, adoro aquela mulher, aquela voz. A minha amiga que estava comigo disse baixinho (ela é demais não é?, concordei sem nem um pingo de dúvidas). Ainda muito novinha, conta como foi a apresentação em 1968 da música “Divino Maravilhoso”, alguns aplaudiam, outros vaiavam. Ela contou que durante a apresentação um homem gritava: Fora! Fora! E ela cantava ainda mais forte, cantava para ele… e ele percebeu, se sentou: “aí, não teve jeito”.  Maria Bethênia linda, poderosa, jovem… em uma apresentação agressiva de “Carará” e os Mutantes, Rita Lee Jones, simpática como sempre e doce.

Documentário incrível, livro igualmente incrível… super indico. 🙂