Toda nudez será castigada


“Meu filho, não tenha pressa de perdoar.

A misericórdia também corrompe”


Toda Nudez Desrespeitando toda a organização que bolei na minha cabeça para as leituras de 2015, terminei de ler a peça teatral “Toda nudez será castigada”, passando este livro na frente de muitos outros que estavam na espera. Não faz mal, ler Nelson Rodrigues me ajuda a revigorar o meu apreço pela dramaturgia brasileira e me faz admirá-lo ainda mais. Já falei por aqui (inúmeras vezes) que o acho um gênio… e, depois dessa última leitura, a minha vontade de ler outras de suas obras aumentou.

Toda nudez será castigada é uma tragédia, repleta de traição, ambiguidade e perversidade. A trama conta a história de Herculano, um homem viúvo que se martiriza pela morte da esposa (que teve câncer no seio). Seu filho, Serginho (um jovem de 18 anos), não superou a ausência materna e implorou para que o pai nunca se casasse ou tivesse uma outra mulher na vida novamente. A relação doentia entre os dois é agravada pela influência das três tias, solteironas e mais velhas, que defendem a castidade de Serginho. Patricio, irmão de Herculano (e, ao meu ver, o grande vilão da peça), faz com que Herculano se apaixone por Geni, uma prostituta. O problema é que Geni, se apaixona por Herculano, mas também pelo seu filho…

Ao longo da minha leitura, fui me impressionando com as reviravoltas da história. Eis uma peça que gostaria muito de assistir. Lendo uma análise, fiquei ainda mais surpresa com a capacidade de Nelson Rodrigues de observar o cotidiano e transformar “a banal vida da classe média”, em obra prima. É realmente admirável.

Quando falo em ambiguidade (em complexidade também), não é a toa. Por exemplo, a relação obscena entre Geni e Serginho pode ser encarada com a necessidade de Geni de suprir o seu desejo maternal. A honestidade e o caráter de Herculano não são tão naturais, pelo contrário, suas boas atitudes são forçadas…talvez pela influência das tias. Outras que, defendem a boa moral e a castidade, mas que no fundo, possuem uma “tara” pela virgindade do sobrinho (e a tara é tão grande, que elas chegam a conferir se suas cuecas estão limpas de qualquer rastro de sexo). A violência sofrida por Serginho é também a sua redenção, por fim, ele consegue se livrar de toda a podridão familiar que o cerca…

Adeus, maridos

E então, o primeiro livro de março foi lido. “Adeus, maridos”, um conjunto de histórias de mulheres que decidiram largar o casamento para viver com outras mulheres. É um livro leve, descomplicado e que me ajudou a ver o feminismo de maneira mais profunda.

A introdução é uma das coisas mais interessantes que li nos últimos tempos, Marge Frantz explica como o condicionamento cultural (seja nas repreensões, sanções ou suposições), fez com que as mulheres, há muitos séculos, fossem levadas à acreditar nos privilégios do casamento – o que em parte, não é de todo falso. O problema está no que ela chama de “heterossexualidade compulsória”, a crença de que todas as mulheres e homens nascem heterossexuais.

2015-03-11 22.20.49“Nós queríamos acreditar que éramos “normais” ou, que viveríamos vidas “normais”. Queríamos ser aceitas: temíamos as críticas e os castigos sociais, tínhamos medo, principalmente da perda de apoio econômico, empregos ou filhos. Casamos.”

Essa introdução me abriu os olhos para muitas coisas, aprendi muito. Eu não fazia ideia, por exemplo, que o fim da Guerra Civil (que trouxe uma aceleração na urbanização e na industrialização), fez com que muitas mulheres da classe média se tornassem independentes, o que permitiu que abrissem mão da vida doméstica. Segundo Frantz, foi nessa época em que o movimento feminista se autodenominou pela primeira vez e foi também nessa época que surgiu a palavra “lésbica”.

A depressão da década de 1930 foi terrível para as mulheres. Diziam que se elas abandonassem seus empregos, existiria vagas suficientes para os homens. Agora, imagina o quão difícil foi para as lésbicas: “algumas casaram porque não viram alternativa possível”. Um outro aspecto, que até então eu nunca tinha pensado sobre… é na importância dos bares para a criação da identidade homossexual. Lá eles se sentiam seguros, os bares gays foram o berço de uma nova cultura, de um senso de comunidade.


 As histórias são sensacionais, surpreendentes. Muitas se passam na década de 1960 e 1980. Lembrando que o livro foi publicado em 1991 – e mesmo com alguns avanços, está claro que ainda falta muito. As organizadoras, Deborah Abbot e Elle Farmer, também dão a contribuição com suas histórias, as  duas foram casadas com homens e depois assumiram a homossexualidade.

O que pude perceber é que a maioria das histórias perpassa por um caminho de culpa e medo. Pelo temor da não aprovação dos pais, dos ex-maridos e principalmente dos filhos.

A maioria das mulheres são maduras, algumas de 50, 70 anos… e é impossível não se apaixonar pela história de muitas delas. Em um dos relatos, por exemplo, uma mulher negra conta como na década de 1950, tomou coragem para largar o marido e assumir o relacionamento dela com uma dance girl, também negra, que conheceu em um bar noturno. Ou a mulher, que perdeu a guarda dos três filhos para um marido extremamente violento e ainda foi mandada embora de casa.

“Eu ainda acredito no casamento”

Foi uma das frases que vi repetida vezes no livro (não todas com essas palavras, mas com esse sentido). Em suma elas continuam defendendo a vida a dois, mas seguindo a liberdade sexual.

– Leituras de 2015

Eu sou uma leitora descontrolada… Outro dia, estava fazendo as contas e percebi que estou lendo sete livros ao mesmo tempo. SETE.  Acho que é por isso que inicio muitas leituras e nunca consigo terminá-las. Abandono um e vou para outro e assim, consecutivamente. Imagine, que bagunça. Aí pensei, esse ano vou me organizar, vou criar metas, fazer minhas listas… ter um controle, sabe?

Adoro canais literários, daqueles que as pessoas contam o que leram no Youtube, já viram?  Aliás, gosto de alguns e fico com o pé atrás com outros…  Em um canal que vi, por exemplo, a menina falava que tinha lido 11 livros em um mês. ONZE. E eu me pergunto, como? E os livros eram grossos, cara… como?

Então, a minha meta era ler três livros por mês… Mas, até agora só li dois. DOIS.  HAHAH, vou dar um jeito. De qualquer forma, acho que essa publicação vai servir para isso… para eu ter um controle, sabe? Também aceito sugestões, rs…

Leituras de 2015

Janeiro: – A louca da casa

Fevereiro: – O moedor

Março:  Adeus maridos / Guia Politicamente Incorreto da América Latina / Toda Nudez Será Castigada

Abril: –  Éramos seis / Não sou uma dessas

Maio: Festa no Covil / Fulaninha e Dona Coisa

A empresa (A Possessa)

Sempre que posso, gosto de reler Hilda Hilst… sabe, me identifico com o que ela escreve. Não preciso dizer muito sobre (não mais do que já disse) … quem conhece um pouco de sua obra sabe que ela tem uma lucidez e uma narrativa invejável. Dentre os diversos livros que tenho, resolvi reler “A empresa”, uma de suas peças de teatro… Aliás, a primeira que ela escreveu, em 1967.

A trama, que se passa em um colégio de freiras, conta a história de América  – uma jovem criativa, sincera e contestadora que se vê reprimida pelas autoridades do colégio (em especial pelas duas Postulantes e pelo Monsenhor). Hilst não só denuncia a repressão institucional sobre os jovens, mas também chama atenção para o fato de que até os mais criativos podem ter suas ideias massacradas pelo “sistema”.

Na nota, feita pelo professor da Unicamp, Alcir Pécora, há uma observação me pareceu importantíssima: “O teatro completo de Hilda é composto por oito peças escritas  de 1967 a 1969. O fato é significativo, pois se trata de um período no qual o teatro em geral, e em especial o universitário, adquire grande importância no país, tanto por suas significação política de resistência contra a ditadura militar como pela excepcional confiança na criação jovem e espontânea que se alastrava pelo mundo”


TEATRO DA HILDA

América: Eu perguntei como é possível existir a frase “nossa senhora foi virgem antes do parto, no parto e depois do parto.

Monsenhor: Não nos cabe o julgamento dessas revelações. É preciso ter fé.

América: Mas eu penso.

Monsenhor: Mas a fé não pretende que você deixe de pensar. A fé não pretende que você abdique de sua inteligência.

América: Mas isso não é lógico. Como posso acreditar numa coisa que é absurda? Todo mundo sabe que é impossível ser virgem e dar a luz.

Monsenhor: Há verdades imutáveis

O Moedor

O MoedorSimples, sem freios e direto…. é assim que Enio Mainardi me pareceu, pouco preocupado em ser politicamente correto ou sutil. Sutileza, aliás, é algo que quase não se vê em sua narrativa. Me identifiquei com suas histórias, com sua sinceridade meio grosseira e por seu apelo à memória (que, em vários momentos, se confunde com ficção). Infelizmente, desconheço sobre o autor (o nome não me é estranho, mas dele, de suas obras e trabalhos não sei nada).

[P.S. Algumas reflexões, como as que coloco no final desse texto, me pareceram um pouco de mal gosto, mas… ao meu ver, não comprometem a qualidade da narrativa].

Encontrei o livro na Fnac por apenas R$1,99, um valor ridículo para um livro tão bacana. A capa é interessantíssima, difícil não ficar curioso em saber sobre o seu significado, o qual descobrimos no terceiro capítulo. Em uma de suas crônicas, Mainardi conta sobre o encanto que tinha em relação ao moedor de carne da avó e cria uma deliciosa comparação com o casamento:

“Jogava–se lá dentro um pedaço de carne com músculo, ou um bife de fígado de fígado molenga, por exemplo, e saía regurgitando a carne moída, de cor misturada. Dava para fazer bolinho de carne (regulagem média), sopa de carne (regulagem grande e assim por diante. Bastava girar a manivela e a carne ia sumindo lá dentro. Casamento devia ser assim, igual. Podia se colocar para moer os sentimentos havidos, os não havidos, os fingidos, as coisas passadas, as imaginadas, e daí pronto. O que era antes, não seria depois.”

O Moedor 2

Antes de cada crônica/conto, Mainardi escreve pequenas epifanias… e é possível encontrar algumas pérolas (no bom sentindo). No mais, gostei das histórias, como aquela em que ele e um amigo, Harry (que aparece em vários momentos) resolveram transar com outros homens, ou quando ele decidiu invadir o túmulo e roubou a pena de um defunto…


Citações

“Outro dia, me surpreendi buzinando impaciente na frente  do hospital que atende soropositivos, ali perto do Trianon e havia uns carros que atravancavam a rua, desembarcando doentes. Pensei, compassivo: “Vai, aidético… Mas tira logo essa merda de carro da minha frente. Tua pressa não vai te adiantar  nada, mesmo…” Também fiz piada nos corredores do shopping, ao ver gente manejando canhestramente as suas cadeiras de rodas. “Ói só, está treinando para a Fórmula 1”.

“Eu hoje não seria capaz de foder você nem com três camisinhas. Me envergonho desse destempero. Acho que disse aquilo porque me senti ofendido por ela colocar todas as sua declarações de amor nos tempos passado e no condicional. “Quando eu te amava, querido” Amava!? You, bitch!!”

“Como se o uso do buraco do cu para fins de esfregações sexuais favorecesse ideias superiores, refinando a sensibilidade. Para mim, isso dá é hemorroidas, que se amenizam com pomada e se curam com cirurgia. Se escapar da Aids”

A louca da casa

Há um mês atrás eu estava decidida a deletar este blog. Uma ideia que já estava rondando a minha cabeça há muito tempo e que, no fim do ano passado, se tornou algo definitivo. Era para ser hoje, eu ia apagar este blog no fim da primeira semana de 2015, logo depois do meu aniversário. As coisas são engraçadas, a vida me leva a acreditar que existe algo – muito além de nós mesmos – que nos faz prosseguir ou que nos impede de tomar certas atitudes.

A louca da Casa

Todos os dias, antes de ir embora do serviço, passo em frente a uma banca de revistas… Como de costume, gosto de olhar os livros que ficam à venda na prateleira debaixo. Na última terça-feira fiz o mesmo, e ao olhá-los me deparei com “A louca da casa”, da Rosa Montero. O livro que uma querida amiga, jornalista e escritora, havia me indicado quando eu ainda estava na faculdade. Ela dizia: “Você precisa ler!” Quando a encontrava nos corredores, lá estava ela… imersa em uma leitura que a fazia sentar em um corredor movimentado e barulhento, como se estivesse em seu próprio quarto, iluminado e silencioso.

Rosa Montero Não pude deixar de compra-lo e no dia seguinte já estava o devorando. Mas dessa vez, algo diferente aconteceu, algo certeiro… Era como se Rosa Montero estivesse escrevendo para mim e falando, através da sua narrativa deliciosamente objetiva, que não é hora de deletar o blog. Bom… eu já mencionei o quanto gosto dessa autora, mesmo tendo lido apenas um de seus livros. Rosa escreve como ninguém, tem uma narrativa invejável.

É claro, ela não escreve para mim… mas especialmente para todas as pessoas que gostam de escrever. Mais, para as pessoas que sentem a necessidade de escrever.  Através de metáforas, de  exemplos de escritores reconhecidos mundialmente e da sua própria história, Montero cria um ensaio sobre o que é ser escritor (profissionais ou não). Ela fala sobre os medos, anseios de quem escreve. Relata sobre a covardia que é comum nos escritores, que em meio a um mar de informações e sensações, simplesmente desiste. Ela clama para que os escritores não desistam, para que não abandonem seus sonhos, seus desejos, seus textos…

Cada capítulo é um deleite, mas gosto especialmente daquele em que ela fala sobre a sua obsessão por anões. E confessa, que inconscientemente, eles passaram a figurar os seus livros. Para ela, os anões lhe inspiram carinho, respeito, encanto e ao mesmo tempo, medo.

Enfim… eis um livro para quem gosta de escrever ou para quem deseja se aventurar a escrever. E, claro.. para quem gosta de ler. Termino essa publicação, com uma  das citações que mais gosto:

“Para mim o famoso compromisso do escritor não consiste em engajar suas obras a favor de uma causa – o utilitarismo panfletário é a traição máxima do ofício, a literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas e não de respostas – e sim, em permanecer sempre alerta contra o senso comum, contra o preconceito próprio, contra todas as ideias herdadas e não questionadas que se infiltram insidiosamente como o chumbo, más ideias ruins, que induzem à preguiça intelectual. Para mim, escrever é uma maneira de pensar, e deve ser o pensamento mais limpo, mais livre e mais rigoroso possível.”

Amanhã para sempre – parte 2

“We didn’t cross the border, the border crossed us”

Nós não atravessamos a fronteira, a fronteira nos atravessou.

méxico

Bom, como vocês sabem, gosto de realizar minhas leituras, fazendo algumas anotações… da quais, divido com vocês:

Vê-se que o México se encaixa claramente no grupo de países de renda baixa e média, como outras nações emergentes da América Latina, do Sudeste Asiático, da África e do mundo islâmico, nas quais prevalecem as atitudes tradicionais (…) Nesse sentido, está mais próximo da Polônia e de Portugal do que do que do Peru ou do Paraguai.

Estereótipo x Caráter x Identidade:

Um dos clássicos que citaremos com frequência ao longo deste estudo é Emilio Uranga, considerado em seu momento o homem mais inteligente do México, antes de morrer de tanto beber. Uranga escreveu um texto brilhante intitulado Ensaio de uma ontologia mexicano, de 1949, no qual demonstra precisamente que tal substrato ontológico não existe. O que há são, quando muito, traços característicos de um povo transformados pela interpretação sofisticada dos pensadores clássicos: estereótipos convertidos em caráter.

A identidade nacional é um conceito que define uma nação perante si mesma, de modo ontológico, histórico e com intenções fundamentais: a identidade de uma nação é o que a faz ser o que é. O caráter nacional, por sua vez, tem a ver com o modo como uma sociedade concebe a si própria e como ela é percebida pelos outros.

Individualismo

O México não tem conjuntos musicais nem orquestras mundialmente famosos, mas sua música inundou a América Latina e os Estados Unidos como nenhuma outra do exterior. Seus astros são individuais e sempre atuam assim. É impensável um concerto coletivo de músicos mexicanos – Juan Gabriel, os Tigres del Norte, Luis Miguel, Armando Manzanero, Selena à sua maneira e, muito antes, Los Panchos – como nos festivais brasileiros da década de 1960 até o início da de 1980. Uma versão mexicana do evento de Ravi Shankar e Geroge Harrison em apoio à independia de Bangladesh em 1971, ou os concertos de Sir Bobo Geldof e Bono contra a pobreza na África, ou o esforço conjunto de Peter Gabriel, Sting e Bruce Springsteen pelos direitos humanos e contra a aids são simplesmente inconcebíveis no México. Um remake aguado só ocorre quando as redes de televisão que são as donas dos músicos os instruem para que façam uma apresentação beneficente ou coisa que o valha.

Sobre a Classe Média e o Consumo:

(Cartão de Crédito): Milhões de indivíduos de baixa renda munidos de plástico foram afetados quando as recorrentes bolhas estouraram no mercado financeiro: em 1967, 982, 1987 e, enfim, 1995. Os bancos foram irresponsáveis em distribuí-los como água, os consumidores foram irresponsáveis em aceita-los e em acumular dívidas enormes, e as autoridades reguladoras foram incrivelmente irresponsáveis em deixar que tudo isso acontecesse. Os portadores usavam um cartão para saldar a dívida do outro (como nos EUA), e acabaram mergulhando rapidamente em dívidas impagáveis. Porém, uma vez mais, ao contrário do caso dos televisores, como no dos automóveis, esse fato ocorreu em escala relativamente pequena, e foi varrido pela evolução da classe média.

Mariachi

Vitimização: Há uma lei de ferro na antropologia barata mexicana, com um corolário na política do país. Ela afirma que os mexicanos gostam de se enxergar como vítimas (…). O México como país de vítimas e a política com um esporte em que a pole position, por assim dizer, é o status de vítima: talvez seja essa a feição mais conhecida e mais estereotipada associada à alma e apolítica mexicana. E não é inteiramente falsa.  Nos escritos dos clássicos, por exemplo, Manuel Gamio, Samuel Ramos e Octavio Paz – a vitimização é variedade retratada como o complexo de inferioridade de todos os mexicanos. (…) Em suma, o povo mexicano, mesmo antes de ser mexicano, sempre foi lesado pelos outros  (no lamento de Ramos: “Até agora, os mexicanos, só souberam morrer”, e nisso consiste a natureza de sua máscara (Paz), de seu complexo de inferioridade (Ramos, Ramirez e Uranga), de ser raça pobre e afligida (Gamio) e da infinidade de casos contados acerca da intuitiva associação mexicana a “los vencidos”e não a “los vencedores”.

Os mexicanos evitam o conflito e a competição: O trauma  imposto ao índio pela conquista foi tão grande que anulou suas possibilidades de luta sob a nova cultura, seu único mecanismo de defesa e sua única força foram aceitar o que ele tinha, desconfiar de tudo quanto o espanhol, o criollo ou mestiço oferecesse. O Índio se esquiva do conflito com os elementos culturais encontrados acima deles, sejam amistosos ou agressivos.  Em muitos aspectos, o índio e portanto o mestiço, e aparentemente todo mexicano tinham razão. O confronto sempre foi um mau negócio para eles, desde Montezuma e Cortés até os heróis da revolução, uma vez que todos acabaram assassinados.

Como formulou  Federico San Román, esmiuçando a tese de Santiago Ramirez, essa ausência do pai explica tanto o individualismo quanto a aversão ao conflito do mexicano. Ambos eram mecanismos de defesa construídos para proteger o mexicano abandonado contra um mundo hostil, no qual inexistia o pai protetor. O espanhol procriava com muitas mulheres sem assumir o papel de pai ou marido. Os primeiros mestiços foram criados sem pai e sem família integrada. De modo que que o mexicano, diz San Román, é um ser cronicamente bastardo ou sem pai, cuja bastardia inicial deixa uma marca permanente, e que repete sua história até hoje. Seus olhos estão sempre fitos no passado, no mesmo drama, na mesma traição. Essa traição recorrente, de geração a geração, alimenta a raiva histórica que hoje tem muito mais a ver com a desintegração  da família e a pobreza do que com acontecimentos de cinco séculos atrás.

Amanhã para sempre – parte 1

Encontrei esse livro de bobeira na Fnac e não resisti em comprar. Diferente de tudo o que eu já havia lido sobre o México, “Amanhã para sempre”, apresenta um estudo clínico sobre o país e sua população (calcado em pesquisas científicas, dados e censos – todos bem atuais. O livro foi publicado em 2013). O autor, Jorge G. Castañeda, é um professor de uma das maiores universidade do México (a UNAM) e atuou como chefe das Relações Internacionais no governo do então presidente Vicente Fox. O mais interessante é que neste livro ele confronta diversos clássicos e questiona os estereótipos pelos quais os mexicanos ficaram conhecidos.

Amanhã para sempre

A visão de Jorge G. Castañeda pode não ser muito agradável aos mexicanos já que ele indica grandes falhas na sociedade e, de maneira corajosa, se atreve a sugerir soluções. Apesar de uma linguagem complexa (especialmente por causa do uso de termos científicos), o livro perpassa por assuntos certeiros e fundamentais ao país, como por exemplo, o narcotráfico, a democracia, a violência e a história.

Castañeda começa sua reflexão reafirmando que os mexicanos são individualistas e o são de uma maneira diferenciada. No primeiro capitulo “Por que os mexicanos são ruins em bola e não gostam de arranha-céus”, ele explica que os mexicanos enxerlivro2gam a casa própria não só como status, mas como garantia de individualidade – por isso, a pequena popularidade dos arranha-céus (ou prédios). Eles são individualistas até no esporte, por isso são os melhores no Golfe ( “Há esporte mais solitário no mundo?”) e não no futebol.  Evitam pegar ônibus e são individualistas até quando o assunto é democracia, sentem desconfiança em relação às ações coletivas.

O traço que ele faz do mexicano, bem distante do lado romântico que Érico Veríssimo descreve em seu livro ‘México‘, afirma que os mexicanos são aversos à qualquer tipo de confronto ou competição porque são fatalistas. Se vêem como perdedores e… já que vão perder, vale a pena lutar? O autor apresenta diversas análises e aponta algumas justificativas, uma delas está na própria história do país, que foi extremamente cruel e violenta com os índios.

Castañeda me ajudou a ter uma visão bem mais clara sobre os mexicanos e seus costumes. Ele explica, por exemplo, que a população já não é tão católica como anteriormente. Hoje, a maioria das pessoas não vão à igreja nem praticam a religião, mesmo que se autodenominem de católicos praticantes. O escritor ainda explica que o país é marcado pelo racismo e pelo preconceito, ainda que tenham uma “mente mais aberta”. Outro detalhe importante é a discussão sobre gênero: as mulheres estudam mais e continuam ganhando menos.

Outro assunto muito discutido é a complexa e problemática relação do México com os Estados Unidos. Que culmina em algo que mistura raiva, admiração e uma ligação de dependência – de ambas as partes, naturalmente, uma mais forte que a outra. livro3

O que mais me encantou no livro foi a problemática que ele constrói sobre a existência (ou não) da identidade da América Latina. Pois é, Castañeda afirma que não existe fatores fortes o suficiente para a existência de uma identidade, para ele alguns quesitos fundamentais para a construção deste conceito simplesmente não são articulados entre os países (como a história, a língua, a composição étnica e o pertencimento).

Enfim...Amanhã para Sempre me fez perceber que os brasileiros e mexicanos possuem mais coisas em comum do que imaginam. Nas palavras do próprio autor, compartilhamos uma cultura comum ainda que não idêntica (não só pela origem, mas também pelo sincretismo e pela mestiçagem). Mesmo assim, ele indica semelhanças como a indústria cultural (novelas, filmes, música), a influência cultural religiosa e a vitimização.

Ao som do mar e à luz do céu profundo

Ao som do Mar - nelson MottaDeixei este livro abandonado na prateleira por alguns anos, só porque uma colega havia comentado que não gostava da narrativa do Nelson Motta, “que era pesada e enrolada demais”. Fui na onda dela… simplesmente o abandonei. Até que um dia, uma outra colega que coordenava um projeto social pediu a doação de livros. Pensei: “Ok, vou doá-lo… mas antes, preciso ver se a narrativa é tão ruim quanto ela falou”. Li e amei, fiquei encantada – tanto pela narrativa, quanto pela história. Gosto é gosto.

“Ao som do mar e à luz do céu profundo” (aliás, este título s2!) é um convite à um mundo decadente e ao mesmo tempo glamouroso cujo cenário não poderia ser mais lindo: o Rio de Janeiro, anos dourados.

Repleto de erotismo e suspense, a trama centra-se em um grupo de amigos que moram no bairro Peixoto e são surpreendidos com a chegada do Coronel Francis W. Simon e de sua linda e envolvente filha Carol. Marina e Bombril logo ficam amigos da garota e são seduzidos por sua personalidade carismática e questionadora.

Bombril é um garoto negro, que ama jogar futebol. Marina, filha de Dona Eva (e bonita como a mãe), é uma moça bem comportada que não sabe se deve ou não se render à vida de libertação e festas que Carol vive. Marina vê a sua vida mudar completamente quando sua mãe resolve se desquitar do pai para viver com outro homem, o coronel Kleber. O problema, é o pai de Marina: um militar linha grossa, que não aceita perder.

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O dia em que matei meu pai

Oi gente, e aí? Como vão as coisas? Já tem um tempinho que eu estou querendo fazer essa publicação, mas a correria não deixou. É que terminei de ler o livro ‘O dia em que matei meu pai’, de Mario Sabino e foi uma leitura super agradável, ainda que a obra se debruce em um tema complexo (e pesado).

A narrativa é extremamente simples e direta, provavelmente reflexo do cunho jornalístico de Sabino (que foi redator chefe da revista Veja até o final de 2011). Aliás, o título do livro não poderia ser mais propício, feito para não deixar dúvidas… De fato o personagem principal assassinou o próprio pai, cabe ao leitor  descobrir o motivo do crime e a quem ele conta a história.

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Gosto especialmente da forma em que o narrador cria um jogo de perversidade e desconfiança mentindo e escondendo certos fatos, contando os acontecimentos com uma pincelada de cinismo e brutalidade que deixa o diálogo tenso, mas muitíssimo interessante. Como quando, por exemplo, ele acusa o pai de molestá-lo e depois, desmente… e logo depois, reafirma.

O que fica claro é uma frustração do personagem diante do protagonismo do pai que sempre foi uma figura mais forte – o que alimentou, desde a sua infância, uma rivalidade mortal – trágica. Li algumas críticas negativas que apontavam uma obviedade do desfecho… a revelação do motivo que levou o interlocutor a matar o seu pai. Concordo, a certa altura do livro, fica claro  o que o fez cometer o parricídio.

Resta lembrar que existe um livro dentro do livro, isso mesmo! Uma segunda narrativa referente à um texto inacabado escrito pelo personagem principal…


O dia em que matei meu pai