O mundo

Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
— O mundo é isso — revelou — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.

fogueira - mundo

Divã

obj_divaLi esse livro pela primeira vez quando estava no fim do ensino fundamental. Foi na época em que eu descobri que a biblioteca pública da minha cidade (que por sinal, ficava ao lado da minha escola), servia para mais coisas do que apenas fazer pesquisa escolares. É que eu comecei a ter autonomia de sair da escola e ir sozinha para casa, o que me permitiu dar pequenas escapadas. Depois, já na faculdade, o reli duas vezes… e ainda guardo boas recordações desse livro.

Na época eu me sentia como uma confidente da Mercedes, a personagem-narradora. Era como uma voyer, escutando as histórias que ela secretamente contava para o psicanalista. Eu, uma garota de quatorze anos, me sentia quase que como uma adulta que conversava com sua amiga de quarenta anos…

Bom, do muito que lembro do livro, acho que três aspectos foram marcantes:

Primeiro: O livro é beeeem melhor do que o filme (E, sim, eu também amo a Lília Cabral. Mas o filme é meio zuado, não é muito fiel ao livro e tem umas partes bem desnecessárias). Segundo: O estilo da narrativa é uma das coisas que mais me prenderam, já que a personagem principal dialoga com o psicanalista e é através das sessões em que vamos descobrindo o que se passa em sua vida. Terceiro: É um livro bem feminino, sensível, que levanta problemáticas do universo das mulheres e que nos faz pensar muito sobre nossas escolhas, sobre nosso cotidiano. E é claro que nem por isso deixa de ser indicado aos homens.


“Perigoso é a gente se aprisionar no que nos ensinaram como certo e nunca mais se libertar, correndo o risco de não saber mais viver sem um manual de instrução.”


Sinopse: Divã conta a história de Mercedes, uma mulher de 40 anos, moderna, inteligente, pragmática, divertida, super-feminina, casada, com dois filhos, com a vida estabilizada – que procura um psicanalista. Para Mercedes, a consulta começa como uma curiosidade e acaba por tornar-se numa experiência envolvente que vai pôr a descoberto as facetas que ela mais reprime. No consultório descobre-se uma mulher ciumenta, insegura, que dramatiza por tudo e por nada. Descobrem-se, também, as memórias que guarda religiosamente: o primeiro namorado, a amiga, as mulheres dos amigos do marido ou a namorada do filho. Nesta aventura, Mercedes conta com o apoio da amiga Mônica e do marido desta, Gustavo.

Senhora

paulo-elaine-senhora-f2Senhora é um clássico da literatura nacional, um dos últimos romances escritos por José de Alencar. Lembro de tê-lo lido duas vezes, uma na época da escola e outra já formada, quando descobri que existia um filme baseado na história, protagonizado pela Elaine Cristina. (Eu adoro a Elaine Cristina!) Fazia tempo que eu queria comentar sobre esse filme, sobre este livro…é que se trata de uma história muito linda, o livro é delicioso de ler e o filme é uma adaptação muuuuito bem feita e fiel. Não sei se quem já leu percebe isso, mas eu enxergo um tom meio feminista e uma enorme crítica ao casamento por interesse (lembrando que a história é ambientada do no século XIX).

O livro foi lançado em 1875, dois anos antes da morte do autor. A trama conta a história de Aurélia, uma jovem pobre e muito bonita. A mando de sua mãe, Dona Emília, ela passava os dias na janela com o intuito de conseguir encantar algum rapaz (de preferência, rico). É claro que, se fosse por Aurélia ela se casaria com Fernando, sua grande paixão. Fernando e Aurélia chegam a ficar noivos, mas ele desfaz o casamento para se casar com Adelaide, uma moça rica.

O destino dá uma guinada e Aurélia tem a notícia, através de um tio interesseiro eelaine-chicoMartins-cinema-Senhora trambiqueiro, de que herdou uma fortuna. O fato é que Dona Emília chegou a se relacionar com Pedro Camargo, um filho bastardo de um fazendeiro importante da região. Só depois da morte de Pedro e depois da morte de Emília, é que Aurélia teve acesso ao dinheiro.  Afortunada e com sede de vingança, Aurélia dá uma missão para o tio. Fazer com que Fernando deixe de se casar com Adelaide para se casar com ela. É claro, ela oferece uma grande quantia em troca dessa “negociação”.

A loucura disso tudo é que Fernando aceita, casa com Aurélia com a falsa ideia de que agora, finalmente, seriam  felizes juntos. Mas Aurélia, com um enorme rancor no peito, só pensa em se vingar de Fernando, humilhando-o dentro de casa e fazendo dele escravo de suas vontades.

Sobre o filme: produzido em 1976 e dirigido por Geraldo Vietri. Um filme que apresenta um trabalho primoroso de reconstrução histórica, e que por infelicidade, caiu em esquecimento… Flávio Galvão, Elaine Cristina e Paulo Figueiredo dão o tom certo aos personagens, seguram a carga dramática de cada um deles e deixam a trama ainda mais bela. Especialmente Elaine, que está bem melancólica e muito firme.


Hasta no verte Jesus mio

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“Esta é a terceira vez que regresso à Terra, mas nunca sofri tanto quanto nessa reencarnação, já que na vida anterior fui rainha.”

Descobri Elena Poniatowska quando me mudei para São Paulo, um de seus livros foi o primeiro que li quando fiz a minha carteirinha na biblioteca pública. Foi paixão a primeira vista, ou a primeira lida. Pra falar a verdade, já tinha ouvido sobre ela em uma entrevista da Daniela Romo, que dizia gostar da sua narrativa. Na época não dei muita atenção até realmente pesquisar sobre a autora, ver suas entrevistas e ler seus livros. Comecei por Hasta no verte Jesus mío, escrito em 1969. Trata-se da história de Jesusa, uma mulher que cresceu e viveu em um ambiente de pobreza, que sofreu inúmeros abusos e proibições (principalmente do pai e do marido) e que mesmo assim, não deixou de se rebelar contra as injustiças sofridas por ela e por seu povo oaxaqueño – isso tudo durante o Porfiriato.

O livro de Poniatowska é um marco na literatura mexicana porque rompe com o oficialismo e apresenta uma narrativa alternativa através de um discurso bastante feminino. É uma obra que presa pela memória e dá a voz representativa, através de um personagem, à uma multidão marginalizada (sofrida, mas não resignada). Gosto especialmente do humor negro, do trabalho respeitoso da autora às tradições e as crenças populares.

Jesusa nasceu e viveu na pobreza, a mãe morreu pouco tempo depois de seu nascimento, ela trabalhou em diversas funções para garantir sua sobrevivência, casou-se sem ter uma paixão fervorosa pelo noivo, sofreu abusos físicos e psicológicos, perdeu-se do marido em plena Revolução Mexicana, falava com mortos e acima de tudo, tinha uma rudeza que mesclava a ignorância com a sabedoria, por exemplo… ela passava horas se ensaboando no rio e se raspando com areia: “E mesmo que estivesse doendo, a questão é que eu precisava matar o microbio”

A amizade entre autora e a personagem

O que mais me encantou na obra não foi só a trama, a narrativa ou a personagem com visível tom feminista. Acontece que além de ser baseada em uma história verídica, trata-se de uma relação de confiança e amizade entre entrevistador e entrevistado. Bom…Poniatowska nasceu em Paris, mas foi naturalizada no México. Começou a trabalhar como jornalista em 1955, entrevistou grandes nomes da figura política e cultural da América Latina. Em 1962 foi assistente do antropólogo Oscar Lewis, que lhe chamou atenção para o jornalismo testimonial (o que ao meu ver, está muito próximo do conceito de novo jornalismo). Foi daí que surgiu a ideia para escrever “Hasta no verte Jesus mío”,

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Um dia Elena estava em uma lavanderia e escutou Josefina Bórquez, que ao que parece, reclamava de alguma coisa… mas com muita sabedoria. A jornalista ficou encantada com a sua linguagem, com seu sotaque e se aproximou. Assim deu início à um trabalho de testemunho, em que visitava Josefina semanalmente para tomar notas de suas histórias, de suas memórias, de suas piadas e crenças.

Elena, que em 2013 recebeu o prêmio Cervantes, deu uma entrevista à CBN e comentou sobre Josefina: “Ela me marcou muito, por ser uma pessoa de caráter e dignidade. Me encantou assim que a vi, assim que conversei com ela. Quando fazia as visitas ela me dizia: você está roubando a minha luz, então vai ter que pagar!. Isso porque eu usava um gravador enorme. Ela era muito valente e me marcou muito, se todos os mexicanos fossem como essa mulher, uma mulher de verdade, estaríamos salvos”

A identidade cultural na pós-modernidade

Oi gente! Estou lendo “A identidade cultural na pós-modernidade”, de Stuart Hall. Como de costume, fiz algumas anotações e um pequeno resumo. Acho que me ajuda a estudar e a lembrar dos pontos mais importantes. Vou fazer uma série de publicações sobre este livro, uma sequência… pra me ajudar a estudar e claro, para compartilhar informações. O livro é pequenino, dividido em seis capítulos e com apenas 56 páginas.

O livro se volta para questões como: Que pretendemos dizer com crise de identidade? Que acontecimentos recentes nas sociedades precipitaram essa crise? Que forma elas tomam? Quais são suas consequências potenciais?


Identidade-cultural

“O homem da sociedade moderna tinha uma identidade bem definida e localizada no mundo social e cultural. No entanto, uma mudança estrutural está fragmentando e deslocando as identidades culturais de classe, de sexualidade, de etnia, de raça e de nacionalidade. As velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio. Se antes elas eram sólidas localizações, nas quais os indivíduos se encaixavam socialmente, hoje se encontram com fronteiras menos definidas, o que provoca no indivíduo uma crise de identidade”


1- A Identidade em questão 

A questão da identidade está sendo extensamente discutida na teoria social, em essência o argumento é o seguinte:  as velhas identidades que por tanto tempo estabilizaram o mundo social estão em declínio. Surgem novas identidades e o indivíduo moderno está fragmentado, até então, ele era visto como um sujeito unificado.

– A crise de identidade: Perder o sentido de sí. Deslocamento das estruturas e processos centrais da sociedade moderna. Abalo das referências que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. As identidades modernas estão sendo descentradas, isto é: deslocadas e fragmentadas.

“A identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza” – Kobena Mercer

Identidade Social


1.1 – Três concepções de identidade

A) Sujeito do Iluminismo: Concepção humana de um indivíduo totalmente centrado, unificado. O centro consiste no núcleo interior, concepção muito individualista do sujeito e de sua identidade.

B) Sujeito Sociológico: Reflexo da crescente complexidade do mundo moderno e consciência de que o núcleo interior não é autônomo nem autossuficiente, mas formado na relação com “outras pessoas importantes para ele”, que mediavam sentidos e valores. Interação entre o eu e a sociedade. Concepção interativa da “identidade” e do “eu”.

C) Sujeito Pós Moderno: O sujeito, previamente encarado como tendo uma identidade unificada e estável está se tornando fragmentado, composto não de uma, mas de várias identidades,  algumas vezes contraditórias e não resolvidas. A identidade deixa de ser fixa, permanente e passa a ser uma celebração móvel: formada e transformada continuamente e não biologicamente. 

“Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortadora narrativa do eu”


1.2- O caráter da mudança na modernidade tardia

globalizaçãoA questão da identidade também está relacionada ao caráter da mudança na modernidade tardia, em particular, ao processo de mudança conhecido como globalização e seu impacto sobre a identidade cultural:  para Marx, a modernidade – [é o] permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eterno. Todas as relações fixas e congeladas são dissolvidas, todas as relações recém formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. “À medida em que áreas diferentes do globo são postas em interconexão umas com as outras, ondas de transformação social atingem virtualmente toda a superfície da Terra”

SOCIEDADE TRADICIONAL X SOCIEDADE MODERNA

– Tradicional: O passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contém e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular do passado, no presente e no futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes.

– Moderna: Sociedade de mudança constante, rápida, abrangente e contínua.  Possui uma forma altamente reflexiva de vida, na qual as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz das informações recebidas sobre aquelas próprias práticas, alterando, assim, constitutivamente seu caráter.

“A sociedade não é, como os sociólogos pensaram, muitas vezes, um todo unificado edownload bem delimitado, uma totalidade, produzindo-se através de mudanças evolucionárias a partir de sí mesma, com o desenvolvimento de ma flor a partir de seu bulbo. Ela está constantemente sendo descentrada ou deslocada por forças fora de sí mesma.” – O deslocamento tem características positivas: desarticula as identidades estáveis do passado, mas abre possibilidades para novas articulações”

Palavras-chave: Descontinuidade, Fragmentação, Ruptura e Deslocamento.


1.3 – O que está em jogo na questão das identidades?

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Erosão da identidade mestra – Nenhuma identidade singular (ex, raça ou classe social) pode alinhas todas as diferentes identidades como uma identidade mestra, única, abrangente, na qual se pode basear uma política de forma segura.

– Bibliografia: A Identidade Cultural na pós-modernidade. Stuart Hall; tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: Lamparina, 2014.

Se vivêssemos em um lugar normal


– Você já foi para a Disney? – Contra atacou Jack

– Claro! O voo saiu do aeroporto internacional de La Chona. Pelo que eu sabia, a Disney era um castelo de fantasia onde o importante era se comportar bem, não importa o que acontecesse ou o que você pudesse ver. As vezes algum Mickey Mouse, quando ninguém estava olhando, levava você para o canto e enfiava o dedo no seu cu. Mas você tinha que ficar quietinho, sem reclamar e sem fazer o mesmo, nada de querer agarrar os peitos da Margarida ou da Minnie, não, porque havia guardas hiperfuriosos que surravam você com o cassetete. Estão vendo? Melhor não falar da Disney na frente dos pobres.

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Ontem terminei de ler mais um livro do Juan Pablo Villalobos, passei praticamente toda a viagem de Minas/São Paulo o lendo. Comentei aqui no La Amora que no mês passado conheci este autor através do livro Festa no Covil e que gostei da sua narrativa, do seu bom humor e de suas ironias. Pois, “Se vivêssemos em um lugar normal” também tem essa pegada, ainda que de uma perspectiva bem diferente.

A história se passa na década de 1980, num México assolado por pobreza e com uma enorme discrepância social, em uma cidade em que “há mais vacas do que pessoas”. O narrador é Orestes, um adolescente que vive junto à sua família em uma casa minúscula e mal acabada que mais se parece uma “caixa de sapato”. Seu pai é professor de educação cívica e moral e sua mãe, dramática, é uma mulher que recusa a própria pobreza e insiste em dizer que pertence à classe média, ou seja, quejuam nega o mundo em que vive. Dentre disputas e ofensas, Orestes e seus seis irmãos aprenderam a sobreviver a base de quesadillas. Como a comida é pouca, um nutre o desejo secreto de que os irmãos desapareçam.

O “equilíbrio” da família é interrompido quando chegam novos vizinhos no morro da “puta que pariu” (onde eles moram). Acontece que a casa dos vizinhos é grandiosa, luxuosa…e Orestes não entende para quê serve uma casa tão grande para uma família com apenas três membros. “Definitivamente somos pobres”.  Em seguida se instala no local um empreendimento imobiliário de alto padrão e a casa da família de Orestes está prestes a ser demolida.

O livro é uma delícia, daqueles que você lê rapidinho e volta para reler as partes mais engraçadas. Ah! E a Polônia também aparece nesta história (junto a elementos fantásticos como alienígenas e melancias psicodélicas). Uma história que se passa no México, mas que com facilidade poderia se passar no Brasil, principalmente por causa da bem humorada descrição da pobreza, dos pobres e sua conflituosa relação com a sociedade.

Festa no Covil

Eu sei que o ano está praticamente na metade, mas vou dizendo logo de cara que 2015 é o meu ano literário. Estou lendo muito e de tudo o que vocês podem imaginar (ainda mais agora, que estou morando perto de uma biblioteca absurdamente gigante!). Logo na minha primeira visita à biblioteca, sentei e li umlivro sensacional (pequenino, de apenas 88 páginas), que me lembrou muito a narrativa de ‘O Caderno Rosa de Lori Lambi”, da Hilda Hilst. Trata-se de “Festa no Covil”, do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos.

2015-05-07 15.40.31Então, o ‘Caderno Rosa de Lori’ é um diário de uma garotinha de oito anos, lembram? Pois, Festa no Covil tem praticamente a mesma essência: um menino chamado Tochtli é filho de um dos chefões do narcotráfico mexicano, Youcaut. Na narrativa, ele conta como é a sua vida abastada em um palácio, cercada de adultos- com muito conforto e solidão. Um dos desejos recentes de Tochtli é ter em seu minizoológico um hipopótamo anão da Libéria… e ele insiste muito nessa ideia (durante todo o livro).

Citação:

“Algumas pessoas dizem que eu sou precoce. Dizem isso principalmente porque pensam que sou pequeno para saber palavras difíceis. Algumas das palavras difíceis que sei são: sórdido, nefasto, pulcro, patético e fulminante. Na verdade não são muitas pessoas que dizem que sou precoce. O problema é que não conheço muita gente. Conheço no máximo umas 13 ou 14, e quatro delas dizem que sou precoce. Dizem que eu pareço mais velho ou o contrário, que sou muito novo para essas coisas. Ou o contrário, às vezes pensam que sou um anão.”

A narrativa, cheia de ironias e com muito humor negro, é também obscura. O menino, ainda inocente, conta como convive com a violência como algo natural… ele relata, por exemplo, as torturas que o seu pai comete constantemente contra suas vítimas. Em seus relatos, ele também conta que estuda em casa e revela que cresceu sem a presença da mãe.

Lendo um pouco da introdução, descobri que o que Villalobos faz é um pouco de ‘experimentalismo’ de um gênero muito popular na América Latina chamado: “Pulp/Narcoliteratura”, que fala e denuncia a violência, a corrupção e a marginalização.

Enfim, um livro delicioso…

 “Sinistro e doce como uma caveira de açúcar”


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Não sou uma dessas

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“Uma garota conta tudo o que aprendeu”

Encontrei o livro da Lena Dunham em promoção na Fnac, apenas 19,90. Não poderia deixar de comprá-lo, já havia tempo que tinha curiosidade para lê-lo. Acompanho a página da editora Intriseca pela internet e sempre assistia algumas pílulas feitas pela Lena em que ela respondia perguntas dos leitores. Ela me pareceu muito simpática, descontraída…

Então, como sempre faço, atropelei minha lista, interrompi algumas leituras e passei este livro na frente. Logo no princípio, tive uma boa surpresa, uma linda citação retirada do livro Madame Bovary. Também gostei dos divertidos títulos dos capítulos como: “Tira minha virgindade (não, sério, tira)” ou “Fixação por garotas:naquela época em que quase fui lésbica, depois vomitei”.

Reparei que ela fala muito e basicamente sobre sexos e/ou relacionamentos amorosos. E fala de uma forma diferente… Sem amarras, sem medos. Contando detalhes íntimos que deixam o leitor até meio sem jeito. Lena também relembra muitos momentos do colégio, e da universidade – da época em que trocava de parceiros facilmente e que já havia dormido com praticamente todos os colegas. Ela, que veio de uma família de artistas, parece que foi criada em um ambiente muito liberal onde se comentava de sexo livremente: sem vergonha ou culpa.

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Também é curioso a narrativa sobre a sua iniciação na TV e as consequências que Girls (uma série da HBO, dirigida por ela) trouxe para sua vida. Antes mesmo de publicar o livro, Lena recebeu U$3.5 milhões, já pensou? Pouco após o lançamento, surgiu uma polêmica sobre um dos casos contados por ela… em uma de suas lembranças, Lena conta que quando criança inspecionava a vagina da irmã. A crítica caiu matando, acusando-a de ter abusado sexualmente da garota.

1012-bks-CROSLEY-videoSixteenByNine1050Bom… agora que já falei dos “prós”, pulamos para os “contras” . Ao logo da leitura fui me decepcionando um pouco, apesar dos temas chamarem atenção – a autora simplesmente não conseguiu me prender na narrativa. Não achei suas histórias interessantes e me identifiquei com muito pouco (ou quase nada) do que ela contou. Lena me pareceu uma menina mimada, um jovem que é moderna porque precisa disso para não cair em uma crise existencial e as lembranças (a maioria escolares) me pareceram bem bobas. Quer dizer, eu esperava SIM, um livro mais autoral, mais desafiador, com mais referências e questionamentos…

Éramos Seis


“Enquanto ia andando, descendo a Avenida Angélica, comecei a lembrar que os meus também foram embora, a vida levou-os e se espalharam pelo mundo, menos Carlos que já não existe. Esse eu visito sempre, está deitado no cemitério S. Paulo, dormindo sossegado entre quatro roseiras que florescem todos os anos, em Setembro. São rosas brancas, bem grandes, das que ele mais gostava. Carlos eu sei que está bem, os outros não sei onde andam. Estão aí, pelo mundo.”


RAMOS_SEIS_1260649451PEntão, finalmente e depois de tanto tempo, terminei de ler “Éramos Seis” – estou encantada! Maria José Dupré (ou Sra. Leandro Dupré, como assinava seus livros) nos presenteou com uma história belíssima, daquelas que merecem ser lembradas por toda a posteridade. A trama é bem famosa, até porque já foi adaptada para a televisão (se não me engano, duas vezes). Quem não sofreu junto com a Irene Ravache, que encarnava a Dona Lola? Pois é…

Eu pensei em escrever inúmeras coisas sobre o livro, mas em princípio, gostaria de chamar atenção para o título, que é de uma poesia tão linda e de uma tristeza… Em suma, resume perfeitamente a dor de uma mulher, mãe e esposa, que acompanha e sofre com o distanciamento de cada um dos membros da sua família. “Éramos Seis” é um livro triste e nostálgico, e também uma aula de história, um convite a conhecer (ou lembrar) o Brasil da década de 1930, repleto de turbulências políticas e conservadorismo.

O livro guarda o gostinho gostoso da “época da vovó”, das brincadeiras no terreiro, dos bondinhos, dos laços de fita, das panelas de tacho, dos doces de laranja e mamão, da era do rádio, dos chapéus…da inocência perdida.

1e78eb458f4d73ebb511bcf0183ff4ccDona Lola, casada com seu Júlio, faz de tudo para manter o equilíbrio familiar e educar seus filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel. Os quatro possuem personalidades muito diferentes e são a tônica da narrativa, já que o leitor acompanha suas histórias de infância até a vida adulta. Em determinado momento, a  família é abalada com a morte de Júlio e é Dona Lola a principal responsável por enfrentar as dificuldades financeiras.

Me recordo muito da novela, e há diversas diferenças entre a adaptação e o livro. No livro, a família é muito mais pobre do que aparenta na novela. Eles quase passam fome e a D. Lola (que aliás, se chama Eleonora), conta que escolheu ficar sem os dentes para poder comprar o presente de casamento do filho.

Júlio, o pai, é uma figura muito conservadora e por vezes violenta… Alfredo é um cafajeste da pior raça, daqueles que tira dinheiro da mãe, da tia e dos irmãos, sem se preocupar com a dificuldade financeira da casa. Isabel, se envolveu com um home casado e foi duramente criticada pela família, a ponto de ser impedida de voltar para casa – tinha apenas vinte anos. E a morte de Carlos (sem dúvidas, um dos momentos mais tristes do livro), acontece por causa de uma úlcera. Ele morre da mesma doença que matou seu pai.


Separei algumas citações:

“Fiquei pensando em como é misteriosa a natureza humana; quando pensamos que conhecemos a alma dos nossos filhos, suas vontades, seus gostos, suas reações, suas debilidades, vemos que estamos longe da verdade, não conhecemos nada, estamos diante do inexplicável. Mesmo sondando com tato e cautela, deparamos sempre o desconhecido e ficamos surpreendidos diante do inesperado”

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“Nunca disse aos  meus filhos para serem honestos. Sabe por quê? Porque sempre pensei que a gente já nascesse honesta e isso não se ensinasse. Imagine dizer a eles todos os dias: Não roube, não mate. Você acha que isso ensina? É o mesmo que dizer: a boca é para falar, os olhos são para olhos. Isso ensina, Clotilde?”

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“Mi hijo ha muerto ayer. Durante tres dias y tres noches he estado luchando con la muerte, queriendo salvar esta pequena y tierna vida y durante cuarenta horas he permanecido sentada junto a sua cama, mientras la gripe agitaba su pobre cuerpo, ardiente de fiebre dia e noche.  A la tercera noche he caído desplomada. Mis ojos no podían ya más y se me cerraban sin que yo me di cuenta. He dormido durante tres o cuatro horas en la dura butaca y mientras he estado dormida se lo ha llevado la muerte” – Zweig

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Guia Politicamente Incorreto da América Latina

Terminei de ler o Guia Politicamente Incorreto da América Latina no mês passado, mas perdi a deixa e acabei não escrevendo sobre ele no La Amora. Com ele descobri que sei muito pouco (ou quase nada) sobre a história da América Latina e me impressionei com algumas revelações dos autores, Leandro Narloch e Duda Teixeira. Lembram que eu tinha comentado sobre “O Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”? Pois é… eu não sei qual foi publicado primeiro, o fato é que seguem a mesma estrutura e possuem uma narrativa irônica, direta e meio coloquial (o que é uma delícia, porque permite uma leitura mais fluída, menos trabalhosa e descompromissada).

LaAmoraGuiaPoliticO livro apresenta uma visão diferente da história oficial dos grandes nomes do cenário político e social da América Latina (Che Guevara, Evita e Perón, Pancho Villa, Salvador Allende…) e desconstrói a imagem de herói que muitos deles carregam há anos.

O meu capítulo favorito é o que fala sobre a Evita Perón, sobre a sua fama de bondade que escondia a vida luxuosa, cercada de roupas, joias e propriedades caríssimas. “A madona dos descamisados”, que distribuía notas de dinheiro ao povo, conseguiu construir sua imagem através do patrocínio governamental (e que, aliás, flertava com o fascismo). Evita  morreu aos 33 anos, vitima do câncer no colo do útero. Deixou uma herança superior a 8,5 milhões de dólares. Ah! E fiquei muito surpresa quando os autores contam que Perón gostava de sair com garotinhas de treze anos…

A verdade é que aprendi muito com esse livro, passei a olhar o Pancho Villa, por exemplo, de uma maneira bem diferente. Este foi um herói moldado por Hollywood e usou do “falso coitadismo” para se popularizar. Segundo os autores, Pancho Villa dizia que era de origem pobre e analfabeto, quando  estudiosos confiram que ele  veio de uma família “que desfrutava de certa abundância” e que Pancho estudou até a escola primária.

Da história dos Incas, Astecas e Maias, pouco me surpreendeu. Talvez porque já conhecia um pouquinho… Acho que não é muita novidade o fato de que lutavam entre sí. Mas aqui, eles são retratados como mais cruéis como de fato a “história oficial” conta. Eu não imaginava, por exemplo, que os Incas chegaram a impor a religião deles aos povos conquistados anteriormente a chegada dos espanhóis.

A história do Haiti é muuuito interessante, é incrível e eu…. gente, eu confesso, que nunca li nada sobre! A vida de Julien Raimond ou de Jean Kina… que foram escravos e que escravizaram.  É muito louco pensar na organização dos escravos de São Domingos que conseguiam organizar revoltas simultâneas, sem a facilidade de comunicação que conhecemos hoje em dia…

Por fim, acho legal evidenciar uma reflexão feita pelos autores que me lembra muito o que Jorge Castañeda diz em livro (do qual já escrevi aqui). Sobre o coitadismo, a mania que os latinos possuem de lamentar… De não conhecer bem seus próprios heróis e de ter a cultura como forma de resistência. Mas, principalmente, de achar que a América Latina é “abrangente e homogênea”, quando há mais diferenças do que semelhanças entre os países…