Meu amigo Cláudia

MeuamigoClaudiaAdoro documentários, adoro! Há muito tempo assisti “Meu amigo Cláudia” no Canal Brasil e desde então queria postar algo sobre ele aqui no La Amora. O tempo foi passando e eu nunca o fazia, até que neste fim de semana eu revi o documentário e me lembrei o porque gostei tanto dessa filme. Cláudia Wonder, transexual brasileira, escritora, cantora e performer – uma história incrível.

Cláudia é enigmática, encantadora. No documentário, ela narra a própria história e é impossível não ficar vidrado e apaixonado pela maneira que fala. Logo no início do filme, ela nos contextualiza sobre a sua infância: cresceu convivendo com a rejeição dos pais e com a rígida criação dos tios. Em seu interior já existia a vontade de ser mulher. Quer dizer, ela sabia que era mulher: “Eu era diferente dos amigos, diferente dos amigos, porque queria ser a Miss Brasil, a Cinderela…”

Se vestiu como mulher pela primeira vez aos quinze anos e gostava de frequentar “boates de puta” porque se sentia mais a vontade. Daí foi presa por quinze dias, o pai que mandou… queria lhe dar uma lição. Na noite começou a compreender o contexto transgênero e se sobressaiu na performance artística underground. Foi militante pelo direitos dos homossexuais, numa época de um agressivo combate contra os gays. Fora a incompreensão em relação à AIDS, a morte de muitos amigos, enfrentou a violência e o desrespeito diário da mídia, da sociedade…

Claudia

Participou do primeiro filme da Pornochanchada brasileira que trazia uma transexual: “O sexo dos anormais” – uma produção com uma história tão complexa, que merece um post separado. Morou durante onze anos na Europa, onde trabalhou em shows e como empresária na área da estética. Depois voltou ao Brasil, gravou alguns discos,  escreveu um livro. Morreu em 26 de novembro de 2010, em decorrência de uma criptococose.


“Para uns eu sou um show, para outros… uma ameça”

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1 – O texto que eu escrevi acima não faz jus à personalidade e a história de Cláudia, nem ao filme. É um documentário que merece ser assistido, e seu trabalho merece ser mais conhecido. Existem muitos e bons sites que falam sobre a Cláudia.

2 – Sou apaixonada com o título desse documentário. Trata-se de uma crônica escrita por Caio Fernando Abreu em homenagem à ela, publicado na década de 80 no Estadão.

3 – Cláudia era contemporânea de Roberta Close e acho muito interessante o tratamento diferenciado que as duas receberam da mídia. Cláudia me parecia mais politizada, mais agressiva também. Em seu depoimento ela apresenta um duro e assustador retrato das violências (físicas, morais, sexuais, psicológicas) sofridas pelos transexuais.

4 –  Tornou-se um ícone da comunidade LGBT paulista. Em 2001, foi escolhida como abre-alas da Parada Gay de São Paulo e foi madrinha do Festival Mix de Cinema e Video da Diversidade Sexual.

Um rosto de mulher

Joan CrawfordOntem dormi de madrugada, fiquei assistindo um filme com a Joan Crawford chamado “Um rosto de mulher”, dirigido por George Cukor. Sempre quis assistí-lo, mas nunca achava… até que a Jéssica me apresentou o Memo Cine, um site encantador e super indicado para quem gosta de filmes clássicos.

“Ah como a Joan era linda”, é o que eu penso toda a vez que assisto um de seus filmes. Gente, ela era linda demais! A década de 40 é a minha preferida, ela está estonteante.  Em “Um rosto de mulher”, que é de 1941, ela tirou o meu fôlego…

Na trama, Joan interpreta Anna Holm, proprietária de um restaurante que exerce chantagem sobre alguns de seus clientes. É uma mulher fria e solitária, que se esconde atrás de uma cicatriz. O fato é que, no fundo, ela possui baixa-autoestima e se defende ao incorporar uma personalidade agressiva e vingativa. Em uma de suas tentativas de chantagem, Anna acaba seJoancrawford encontrando com um cirurgião plástico que se oferece para corrigir sua deformidade, e após esse momento, ela precisa fazer uma escolha: continuar sendo uma mulher com valores desprezíveis ou começar uma vida nova. 

Joan está tão sombria, tão séria… e a trama nos apresenta uma problemática psicológica que faz com que o filme pareça mais denso. O fato é que a cicatriz possui uma ligação metafórica com sua personalidade e com seus valores, somos estimulados a descobrir se ela é tão feia “internamente” quanto “externamente”. Mas, os personagens que a rodeiam são tão desprezíveis quanto ela, desde os empregados que a ajudam em seus crimes e debocham de seu rosto, quanto os clientes… um falso milionário que não paga suas contas, uma esposa que trai o marido…

Li que Cukor se inspirou no livro do escritor Francis de Croisset, chamado “Il était une fois”. A história também pode ser encarada como uma releitura de “A Bela e a Fera” de “Frankenstein”.


Diante da dor dos outros

thais

Fui uma criança dramática, daquelas que se achava a mais feliz do mundo – ou a mais infeliz.

Meu humor ia de 8 a 80 em minutos. Lembro que minhas tias, meus primos, meus amigos, minha mãe e minha avó diziam que eu era chorona. Os meninos mais velhos da rua não me chamavam para brincar porque eu “chorava por tudo”. A verdade é que eu continuo chorona, mas com uma percepção de vida muito diferente.

Dois aspectos da minha infância, que me acompanharam em todo o meu crescimento, eram os que mais me incomodavam, os que mais me deixavam triste. A ausência paterna sempre foi um fantasma, demorei muito tempo para aprender a conviver com essa ideia, sem o sentimento de culpa, de rancor ou vergonha. Eu sofria muito, sofria de verdade. As festas escolares, a ausência e a luta diária da minha mãe me preocupavam tanto que não era difícil me ver reprimida em um canto, sempre pensativa.

Também nunca me encaixei ao esteriótipo da menina linda, delicada e magrinha. Pelo contrário, estive sempre acima do peso. Eu era a desajeitada, a menina de pernas grossas, aquela que nunca conseguia comprar roupas no shopping com as amigas porque nenhuma servia. Eu era a baleia da rua, o botijão de gás. Como eu sofria, meu Deus!

Tenho a certeza de que certos questionamentos vão me acompanhar pelo resto da vida, as complexidades humanas, as crises existenciais… nunca vou me livrar disso. Vez ou outra me pergunto sobre as minhas origens, sobre a escolha do meu pai de não estar em minha vida, sobre o fato de eu não ser como as outras. Hoje não sofro mais, não por esses motivos. Acho que foi o tempo, o amadurecimento. 

Conhecer pessoas, ouvir suas histórias me ajudou a perceber que tenho uma vida cheia de privilégios, e que meus problemas não são forças determinantes de fracasso. Outro dia, estávamos conversando na sala aqui de casa e o pai da minha amiga, um senhor na casa dos cinquenta e tantos anos, se emocionou ao falar da sua mãe. Mãe solteira, de sete filhos. Tantos anos se passaram e ele não esqueceu o abandono do pai, mas seguiu em frente. Aí a minha colega, que estava sentada ao meu lado, contou exatamente a mesma história. Mãe solteira, sem contato com o pai. A outra, também contou a mesma coisa…. Quero dizer, quantas pessoas como nós passam pela mesma situação?

A minha dor, definitivamente, não era mais legítima do que a deles. Era igual. A dor dos outros era igual a minha.

Senhora

paulo-elaine-senhora-f2Senhora é um clássico da literatura nacional, um dos últimos romances escritos por José de Alencar. Lembro de tê-lo lido duas vezes, uma na época da escola e outra já formada, quando descobri que existia um filme baseado na história, protagonizado pela Elaine Cristina. (Eu adoro a Elaine Cristina!) Fazia tempo que eu queria comentar sobre esse filme, sobre este livro…é que se trata de uma história muito linda, o livro é delicioso de ler e o filme é uma adaptação muuuuito bem feita e fiel. Não sei se quem já leu percebe isso, mas eu enxergo um tom meio feminista e uma enorme crítica ao casamento por interesse (lembrando que a história é ambientada do no século XIX).

O livro foi lançado em 1875, dois anos antes da morte do autor. A trama conta a história de Aurélia, uma jovem pobre e muito bonita. A mando de sua mãe, Dona Emília, ela passava os dias na janela com o intuito de conseguir encantar algum rapaz (de preferência, rico). É claro que, se fosse por Aurélia ela se casaria com Fernando, sua grande paixão. Fernando e Aurélia chegam a ficar noivos, mas ele desfaz o casamento para se casar com Adelaide, uma moça rica.

O destino dá uma guinada e Aurélia tem a notícia, através de um tio interesseiro eelaine-chicoMartins-cinema-Senhora trambiqueiro, de que herdou uma fortuna. O fato é que Dona Emília chegou a se relacionar com Pedro Camargo, um filho bastardo de um fazendeiro importante da região. Só depois da morte de Pedro e depois da morte de Emília, é que Aurélia teve acesso ao dinheiro.  Afortunada e com sede de vingança, Aurélia dá uma missão para o tio. Fazer com que Fernando deixe de se casar com Adelaide para se casar com ela. É claro, ela oferece uma grande quantia em troca dessa “negociação”.

A loucura disso tudo é que Fernando aceita, casa com Aurélia com a falsa ideia de que agora, finalmente, seriam  felizes juntos. Mas Aurélia, com um enorme rancor no peito, só pensa em se vingar de Fernando, humilhando-o dentro de casa e fazendo dele escravo de suas vontades.

Sobre o filme: produzido em 1976 e dirigido por Geraldo Vietri. Um filme que apresenta um trabalho primoroso de reconstrução histórica, e que por infelicidade, caiu em esquecimento… Flávio Galvão, Elaine Cristina e Paulo Figueiredo dão o tom certo aos personagens, seguram a carga dramática de cada um deles e deixam a trama ainda mais bela. Especialmente Elaine, que está bem melancólica e muito firme.


Tempos do Lobo

loboAssisti “Tempos do Lobo” naquela época em que eu tinha uma fissura pela Isabelle Huppert, quando fazia listas dos seus filmes e passava a madrugada lendo suas entrevistas. Este longa, produzido em 2002, é um dos frutos da parceria de Huppert com Michael Haneke (que também dirigiu Amour e A Professora de Piano). A trama conta a história de um casal que decide se refugiar na sua casa de campo após a cidade onde moram ser atingida por um desastre. Ficam sem comida, sem água, muitas pessoas morrem e então, eles não veem outra alternativa a não ser se mudar. Quando chegam, descobrem que a casa foi ocupada por estranhos.  O mais interessante é que Haneke não tem interesse algum em retratar o desastre, mas os efeitos desse desastre sobre as pessoas.

A Isabelle Huppert é bem conhecida por retratar seus personagens com frieza, alguns a chamam de “rainha do gelo”. E aqui não poderia ser diferente, ela está super centrada e pouco emotiva. Na trama ela interpreta Anne Laurent, a matriarca. Depois de um infeliz acontecimento a família se vê encurralada, numa sociedade completamente animalesca e desestruturada, a única opção que eles possuem é tentar se safar, de uma maneira violenta… ou não.

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Esse filme me incomodou muito mais do que “A professora de piano”, onde ela interpreta uma mulher masoquista, assombrada por suas fantasias sexuais. É que aqui, tudo me parece muito mais cruel. Aliás… a história me lembrou muito “Ensaio sobre a Cegueira”.  Em resumo, as duas obras tratam da tentativa de sobrevivência diante de uma situação inesperada. É o homem se tornando bicho. É a dominação de um grupo sobre o outro.

Lembro que existiu uma grande polêmica envolvendo o filme.  Em determinada cena, alguns cavalos são mortos. Acontece que os cavalos realmente foram assassinados, só para fazer a cena. E tem também a cena em que a Huppert é estuprada, bem perto dos filhos… uma cena muito TENSA! Sabe, eu gosto muito do Haneke… não sou entendedora de cinema, mas posso dizer sem pestanejar que ele é um dos meus diretores favoritos. Ele também dirigiu Amour, Violência Gratuita e Caché.

En agua de mar

fonte- sickpage
fonte- sickpage

Rodeadas de agua por todas partes
el mar naufragó dentro de cada una,
el faro, en vez de guiarnos, nos desencaminó,
golosas, sólo queríamos
lo que todas pedimos,
amanecer al mundo
desfloradas a besos.

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Elena Poniatowska

Hasta no verte Jesus mio

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“Esta é a terceira vez que regresso à Terra, mas nunca sofri tanto quanto nessa reencarnação, já que na vida anterior fui rainha.”

Descobri Elena Poniatowska quando me mudei para São Paulo, um de seus livros foi o primeiro que li quando fiz a minha carteirinha na biblioteca pública. Foi paixão a primeira vista, ou a primeira lida. Pra falar a verdade, já tinha ouvido sobre ela em uma entrevista da Daniela Romo, que dizia gostar da sua narrativa. Na época não dei muita atenção até realmente pesquisar sobre a autora, ver suas entrevistas e ler seus livros. Comecei por Hasta no verte Jesus mío, escrito em 1969. Trata-se da história de Jesusa, uma mulher que cresceu e viveu em um ambiente de pobreza, que sofreu inúmeros abusos e proibições (principalmente do pai e do marido) e que mesmo assim, não deixou de se rebelar contra as injustiças sofridas por ela e por seu povo oaxaqueño – isso tudo durante o Porfiriato.

O livro de Poniatowska é um marco na literatura mexicana porque rompe com o oficialismo e apresenta uma narrativa alternativa através de um discurso bastante feminino. É uma obra que presa pela memória e dá a voz representativa, através de um personagem, à uma multidão marginalizada (sofrida, mas não resignada). Gosto especialmente do humor negro, do trabalho respeitoso da autora às tradições e as crenças populares.

Jesusa nasceu e viveu na pobreza, a mãe morreu pouco tempo depois de seu nascimento, ela trabalhou em diversas funções para garantir sua sobrevivência, casou-se sem ter uma paixão fervorosa pelo noivo, sofreu abusos físicos e psicológicos, perdeu-se do marido em plena Revolução Mexicana, falava com mortos e acima de tudo, tinha uma rudeza que mesclava a ignorância com a sabedoria, por exemplo… ela passava horas se ensaboando no rio e se raspando com areia: “E mesmo que estivesse doendo, a questão é que eu precisava matar o microbio”

A amizade entre autora e a personagem

O que mais me encantou na obra não foi só a trama, a narrativa ou a personagem com visível tom feminista. Acontece que além de ser baseada em uma história verídica, trata-se de uma relação de confiança e amizade entre entrevistador e entrevistado. Bom…Poniatowska nasceu em Paris, mas foi naturalizada no México. Começou a trabalhar como jornalista em 1955, entrevistou grandes nomes da figura política e cultural da América Latina. Em 1962 foi assistente do antropólogo Oscar Lewis, que lhe chamou atenção para o jornalismo testimonial (o que ao meu ver, está muito próximo do conceito de novo jornalismo). Foi daí que surgiu a ideia para escrever “Hasta no verte Jesus mío”,

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Um dia Elena estava em uma lavanderia e escutou Josefina Bórquez, que ao que parece, reclamava de alguma coisa… mas com muita sabedoria. A jornalista ficou encantada com a sua linguagem, com seu sotaque e se aproximou. Assim deu início à um trabalho de testemunho, em que visitava Josefina semanalmente para tomar notas de suas histórias, de suas memórias, de suas piadas e crenças.

Elena, que em 2013 recebeu o prêmio Cervantes, deu uma entrevista à CBN e comentou sobre Josefina: “Ela me marcou muito, por ser uma pessoa de caráter e dignidade. Me encantou assim que a vi, assim que conversei com ela. Quando fazia as visitas ela me dizia: você está roubando a minha luz, então vai ter que pagar!. Isso porque eu usava um gravador enorme. Ela era muito valente e me marcou muito, se todos os mexicanos fossem como essa mulher, uma mulher de verdade, estaríamos salvos”

Junior

ArnoldDos tempos da minha infância, Junior era um dos filmes mais gostosos que eu assistia, daqueles que deixava uma sensação boa e um leve sorriso no canto dos lábios. Lembro que passava nas noites de sábado no SBT e eu dava pulos de alegria quando era anunciado. Quando a gente é criança é fácil acreditar em qualquer coisa, portanto me parecia muito plausível a história de um homem grávido.

Na época eu  eu desconhecia a concepção de gênero e de identidade, mas hoje percebo que o filme trazia essa discussão à tona. Na história, Arnold Schwarzenegger formava com Danny DeVito uma dupla de pesquisadores que desenvolveram um remédio que auxiliava mulheres na gravidez. O projeto dos dois é interrompido e então, eles decidem roubar um óvulo, implantar na barriga do Dr Hasse ( Schwarzenegger) como teste. O improvável acontece e Dr Hasse engravida. Daí uma série de situações cômicas e inimagináveis começam a acontecer, Dr Hasse sente-se mais sensível, come mais, sente contrações – e toda aqueles sintomas de uma mulher grávida. O grande problema é que o óbuloque eles roubaram era da Dr. Diana, interpretada pela linda e maravilhosa Emma Thompson.

JUNIOR, Arnold Schwarzenegger, 1994, holding a test tube

O filme, produzido em 1994, foi uma tentativa de reproduzir o sucesso de Irmãos Gêmeos, onde Arnold e Dany atuavam como irmãos – e que convenhamos, é um clássico. É engraçado porque enquanto muitos possuem na memória a lembrança de Arnold como o “Exterminador do Futuro”, eu sempre ligo a imagem dele à de um homem grávido.  Não sei se a maioria pensa assim, mas acho que ele é muito bom em comédias e faz seu “para casa” direitinho. Em Junior, por exemplo, ele frequentou salas de espera (de ginecologistas, acredito eu), para ver qual era o comportamento das mulheres grávidas. Bacana, né?