Uma manhã gloriosa

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Sou muito preconceituosa com capas de livros e não teria lido este se ele não estivesse dando sopa lá em casa. Mas as coisas são loucas e parece que certas leituras caem como luva na nossa vida, de certa forma, vivo m momento muito parecido com o da personagem principal.. “Uma manhã gloriosa”, livro escrito por Diana PeterFreund e baseado no roteiro de Aline Brosh McKenna, conta a história de Becky Fuller, uma jornalista que trabalha como produtora em um programa de TV matinal e é surpreendida com uma demissão. Em busca de um nova oportunidade, ela se muda para Nova York para encarar um desafio: fazer com que o Daybreak faça sucesso. O problema é que o Daybreak é um programa de péssima audiência, com poucos equipamentos e uma equipe que não se entende. A história virou filme em 2010, protagonizado por Rachel McAdams, Diane Keaton e Harrison Ford.

Por mais que o livro apresente uma história super previsível, algo me fez gostar muito dele. Primeiro pelo senso de humor da personagem principal, de sua busca pela independência. Becky é uma mulher jovem, mas com experiência no que faz… e mesmo assim  é sempre desacreditada pelos colegas. Segundo é que, como jornalista, entendo perfeitamente como esse ambiente é estressante. Fora a correria para colocar uma matéria no ar (e uma matéria que preste), há sempre muitas brigas de ego e uma enorme cobrança. Não é fácil, não mesmo!E este livro vem para brincar um pouco com isso, tirar o pano do mundo das ilusões.

Outro detalhe que me encantou é crítica em relação as diferenças salariais entre homens e mulheres que trabalham nesse meio. No caso, a diferença entre o salário entre os dois âncoras do programa é gritante: mesmo a mulher  sendo uma profissional maravilhosa e disposta a fazer qualquer coisa. Por mais que possa abrir caminhos, o filme não se destina a tratar o tema com seriedade. Também há uma discussão muito interessante (não profunda, mas legal) sobre a relação do jornalismo e do entretenimento, do velho e do novo jornalismo, das adaptações às redes sociais e da rapidez da notícia.

O evangelho segundo o Filho

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Este é um dos livros que mais gostei de ler nos últimos tempos, fiz um mergulho em cada uma das páginas e me emocionei muitas vezes. Li uma crítica sobre ele na Folha de São Paulo que, resumidamente, dizia que a obra foi escrita de maneira superficial demais. Talvez tenha sido exatamente isso que me conquistou, a leveza do texto, a dinamicidade da história, o fato de ser uma literatura descomplicada e a abordagem sobre o lado humano do personagem principal: Jesus Cristo.

O livro possui passagens conhecidas, mas é escrito em primeira pessoa e apresenta um Jesus muito mais palpável, verdadeiro, com dúvidas, dores e tristeza…e muita bondade. Nos capítulos inciais Jesus ainda é um adolescente, mas percebe que há algo errado (ou melhor, diferente) em sua família: que seu pai e sua mãe escondem algum fato. Sua educação é rígida e ele passa os dias com seu pai, José, um homem honesto e muito sério, que o ensina a ser carpinteiro. Maria é um personagem importante, mas que aparece pouco e em momentos fundamentais, gosto da visão dele sobre as mulheres e o respeito que elas lhes transmitem.

O livro me remeteu à muitas histórias que ouvi quando criança, especialmente na minha escola (muito católica). Mas, foi como ver o outro lado da moeda e perceber em Jesus um ser muito mais caridoso e amoroso do que há anos e forçosamente me foi ensinado.

O batismo, os milagres, as escolhas dos discípulos, o encontro com Maria Madalena….As duas passagens que mais gosto mostram que Jesus, ainda que tenha tido medo, nunca duvidou de Deus ou deu um passo em falso. Por exemplo: sua insegurança em falar para aquela multidão o fez rezar muitas noites, até que pudesse ter coragem de fazê-lo e quando o fez, o fez muito bem. Ou… sua certeza de que um de seus discípulos o trairia e ainda assim, os amou e lhes passou seus conhecimentos.

É um livro lindo, que me encheu de esperança e me fez relembrar a importância do amor, da compaixão. Recomendo muitíssimo!


Sobre Norman Mailer, o autor:

Nascido em 1923 em Long Branch, Mailer foi um dos nomes do Novo Jornalismo (uma vertente da literatura de não-ficção, enraizada na grande reportagem.) Vencedor de dois prêmios Pulitzer e autor de obras polêmicas (como “Os nus e os mortos”, 1948  e “A canção do carrasco”, 1979). Quando jovem, iniciou seus estudos em engenharia aeronáutica em Havard e enveredou-se pelo mundo da comunicação ao ser convidado a participar de um jornal universitário. Um de seus livros mais vendidos foi “Marilyn: uma biografia”, onde o jornalista dizia que a atriz fora assassinada pela CIA e pelo FBI e que teve um caso com o senador Robert Kennedy. Mailer morreu em 2007, aos 84 anos por problemas pulmonares.

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Vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu

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Passei os últimos dias lendo este livro e tive uma lição de escrita criativa. Até então não conhecia a autora, Jenny Lawson, e confesso que fiquei encantada. Lawson é uma blogueira americana que fez sucesso na rede dividindo suas experiências maternas, isso muito antes das redes sociais e do Youtube. Seu texto é dinâmico, engraçado, cheio de pegadinhas e totalmente em primeira pessoa. De repente você está no meio da história e ela muda de assunto e começa a conversar diretamente com o leitor, fazendo perguntas ou acrescentando alguma curiosidade. O livro é uma auto-biografia, mas a narrativa é cheia do que ela chama de “histórias quase reais”, ou seja, nem sempre ela está falando a verdade e é preciso muito senso crítico para distingui-la das pequenas mentiras.

Com muito bom humor ela narra a sua infância no interior do Texas e o convívio com a mãe, o pai (excêntrico) e a irmã. Quando jovem, Lawson era inadequada para os padrões e meio depressiva, a irmã era o oposto: a linda e popular da escola. Enquanto isso, o pai das meninas tornava o cotidiano mais engraçado com a sua fixação com bichos exóticos. São muito legais as suas lembranças da escola, como quando um dos perus da fazenda a perseguiu até a sala de aula ou quando ela ficou com o braço agarrado na vagina de uma vaca.

Em um dos meus capítulos favoritos ela recorda a primeira vez que usou droga e todo o seu medo diante daquilo que era um mundo novo e excitante. Também gosto muito da narrativa sobre como conheceu seu marido e das dificuldades em se adequar ao mundo dele, que era rico (e usava talheres que ela nem imaginava que existia).

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Enfim, este tipo de livro é um acalanto para àqueles que não se adequam aos esteriótipos sociais, uma recordação de que existem muitas pessoas por aí que não tem a mínima ideia do que estão fazendo da vida, mas que vivem sem pensar tanto nas consequências. Que ser mãe não é como viver 24 horas em um comercial de margarina, que todo casamento está sujeito a tropeços e que amigos podem ser mais “família” do que a nossa “família”.

Um lugar especial

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Esse livro é desconcertante, muito pesado! Li esperando loucamente que acabasse. Eu realmente não sei dizer se gostei ou não. A qualidade da narrativa é muito boa,  Peter Straub (conhecido por escrever livros de terror) cumpre seu papel. O livro é pequeno, espaçado, bem construído. O problema é o teor, achei muito forte, muito obscuro… não sei explicar. O livro começa com o pequeno Keith recebendo orientações de seu misterioso tio Till de como ser um “bom psicopata”. E o menino já mostra indícios de que seu comportamento não é normal, gosta de maltratar e matar gatos, tem poucos amigos, quase não se comunica com os pais.

Mesmo sendo pouco popular na escola, Keith faz um amigo: Miller  Quer dizer, Miller é quase um escravo de Keith. as coisas que ele sofre são assustadoras. Uma delas me incomodou muito: Miller é escravo sexual de Keith, tem que lhe fazer certos “favores” e não pode sentir prazer ao cumprí-los. Na concepção de Keith, se Miller sentir prazer com o sexo entre os dois, isso os caracterizaria como gays….

Alguns assassinatos acontecem na cidade, assustam os moradores e levantam a desconfiança da polícia. Jovens desaparecidas e sexualmente abusadas, o principal suspeito é Till (e o leitor, ao longo da trama, descobre que de fato, ele é o assassino). Também desconcertante é a forma em que Till  confessa seus crimes e narra como gosta de transar com os cadáveres das jovens. 

Um Lugar Especial  busca os possíveis antecedentes de um sociopata, mostra que certos comportamentos cruéis em uma pessoa pode surgir de longa data e que essas pessoas estão por aí, bem pertinho da gente. Este é um livro realmente impactante, forte e obscuro. É preciso de coragem para encará-lo.

Michelangelo, o tatuador

“Na arte da tatuagem usavam-se cinco cores e um arquivo limitado de símbolos para cobrir o espectro da vida e da morte. Cinco cores para captar todas as alegrias e tristezas do mundo e gravá-las em uma parte do corpo. Vermelho, marrom, amarelo, verde e preto. Cinco cores para dizer tudo o que podia ser dito.” 

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Comecei a ler este livro sem pretensão, não imaginei que iria me agradar tanto quanto agradou. Sinceramente, ele tem toda uma pegada obscura, narra situações de violência e se passa em ambientes grotescos, bizarros. Ao mesmo tempo, tem como pano de fundo uma história de amor e superação. Sara Hall tem uma narrativa leve, mas muito impactante e é impossível ficar indiferente à sua sensibilidade.

A história se inicia na década de 1920 no norte da Inglaterra. É protagonizada por Cy, um jovem que mora junto com a mãe em uma espécie de “casa para tuberculosos”. Ele cresceu observando os pacientes sentindo dor e colhendo seus escarros. Sobre a sua sombra, as lembranças de seu pai, que era marinheiro. O livro narra todo o processo que o levou a ser tatuador, desde a morte precoce de sua mãe (diagnosticada com câncer no seio), ao seu convívio com um mentor genial, mas alcoólatra e por vezes sádico à sua mudança para Coney Island, onde passa a trabalhar num show de aberrações e conhece Grace, a mulher que mudaria sua vida.

O livro é todo muito detalhado, mas especialmente a infância de Cy é trabalhada com delicadeza, cheia de detalhes. É uma narrativa que nos leva para um cenário frio e extramente desigual, onde o personagem principal faz parte dos desajustados. Quem ama o mundo da tatuagem, provavelmente vai gostar muito desse livro. Mesmo sendo uma narrativa fictícia, há uma contextualização muito interessante de um mundo que aparentemente, não existe mais. É como se a tatuagem fosse encarada por outros olhos, não vista como arte. Assim com os tatuadores, marginalizados e sofrendo muitos preconceitos.

Em tradução literal, o nome do livro seria “Michelangelo elétrico”, abaixo algumas capas publicadas em outros países:

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Citação: 

Michelagniolo Di Lodovico Buonarroti, que se tornou conhecido no mundo inteiro como Michelangelo, nasceu em 1475 e morreu em 1564, aos 89 anos. Bastante idade para o seu tempo. Não havia muito que esse homem não soubesse fazer, o que era bem comum na época. Diferente de hoje, que os homens ficam sentados coçando o saco e esperando que apareça um emprego, tendo apenas habilidade suficiente para assentar tijolos, cavar carvão ou coletar impostos, uma coisa de cada vez. Por pior que seja a depressão dos dias de hoje, meu rapaz, era mais duro antigamente, por isso tenho muito respeito por tudo o que foi feito. Os tempos eram outros. Os homens se viam diante de uma tarefa e concluíam o trabalho. Michelangelo era pintor, arquiteto, escultor e poeta. Todas as coisas que são relevantes no nosso ofício.

Alguns dizem que Leonardo era o máximo de sua época, um homem bem-humorado, nada provinciano, mas a verdade é que Michelangelo tinha vocação e, diferente de todos os outros, era seu próprio patrão, mesmo quando aceitava encomendas para seu sustento. Por isso é que sua pintura lhe consumia como tempo, esse tipo de coisa não interessava a todo mundo. Mas ele tinha uma luz interior que o levava até o fim. Para mim, um homem que se incumbe de pintar a mão de Deus tem alguma coisa especial dentro de sí. Michelangelo tinha a maior dificuldade para conseguir tinta azul. Exatamente como nós. Era uma tinta cara nos eu tempo, difícil para trabalhar, usada apenas em coisas muito especiais, como os mantos de Nossa Senhora. Para pintar como Michelangelo, seria preciso descobrir como ele manejava a tinta azul.

 

Dom Quixote e os moinhos de vento na América Latina

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Em “Dom Quixote e os moinhos de vento na América Latina”, o sociólogo peruano Aníbal Quijano realiza uma análise sobre o impacto da colonialidade e da globalidade na América Latina. O leitor é contextualizado sobre como foi construída a ideia da Europa Ocidental como centro do mundo, o eurocentrismo. Através do texto, o leitor também entende o porquê do autor afirma que a América Latina se define e se reproduz como colonial- moderno e como a América Latina (e sua história) auxiliaram na criação do eurocentrismo como um modelo de produção e controle, especialmente do conhecimento.

    Dom Quixote simboliza o (des)encontro entre o mundo velho e o mundo novo, de um lado a ideologia senhorial e cavalheiresca e de outro, novas práticas e tecnologias simbolizadas pelo moinho de vento. Como diria o autor, “o novo não acabou de nascer e o velho não terminou de morrer”. Quijano defende muito a necessidade de encarar a história como uma sequência unilinear e unidimensional. Diferente do que o eurocentrismo nos faz crer, a evolução histórica é repleta de contradições, associações, fragmentações, mutações, sentidos e significados.

“[…] a maior lição epistêmica e teórica que podemos aprender de Dom Quixote: a heterogeneidade histórico-estrutural, a co-presença de tempos históricos e de fragmentos estruturais de formas de existência social, de vária procedência histórica e geocultural, são o principal modo de existência e de movimento de toda sociedade, de toda história. Não, como na visão eurocêntrica, o radical dualismo associado, paradoxalmente, à homogeneidade, à continuidade, à unilinear e unidirecional evolução, ao “progresso”. (QUIJANO, 2005: p.7)

    Para a dominação da Nova Espanha, a coroa não se preocupou em criar uma identidade comum com todas as demais populações, pelo contrário, se impôs sobre as identidades e nacionalidades, de muitas formas. Uma delas foi através da apropriação de bens materiais e da exploração do trabalho gratuito de índios, escravos e servos. O resultado foi a destruição da produção interna e do mercado interno, fora o secular retrocesso e estancamento dos processos de democratização, como esclarece o autor: “O que empobreceu a Nova Espanha, foi o que enriqueceu a Europa Ocidental”.

    O que sabemos é que a América Latina continuará dependente enquanto o eurocentrismo dominar o conhecimento já que a visão eurocêntrica distorce e bloqueia a experiência histórico cultural latina.  Para o autor, é preciso convocar os fantasmas que a história produziu e que habitam nossa existência social e inquietam nossos projetos históricos.

  A produção histórica da América Latina começa com a destruição de toda uma história que já existia, na opinião do autor “provavelmente a maior destruição sociocultural e demográfica que chegou ao nosso conhecimento”.  Ela foi realizada de várias formas, mas as principais são indicadas abaixo:

–  Desintegração dos padrões de poder e de civilização.

– Extermínio Físico.

– Eliminação deliberada de importantes produtores (cientistas, artistas)

– Repressão material e subjetiva. (Uma herança cultural e artística que se tornou inacessível já que não se podia produzir signos e símbolos próprios senão nas distorções da clandestinidade).

Raça: primeiro sistema de classificação social básica e universal dos indivíduos da espécie. A ideia de raça (a primeira categoria social da modernidade) fomentou um novo tipo de dominação social e de exploração e com eles, um novo tipo de conflito e de poder.

O colonialismo é uma experiência muito antiga. No entanto, somente com a conquista e a colonização ibero-cristã das sociedades e populações da América, na transposição do século XV ao XVI, foi produzido o construto mental de “raça”. Isso dá conta de que não se tratava de qualquer colonialismo, mas de um muito particular e específico: ocorria no contexto da vitória militar, política e religioso-cultural dos cristãos da contra-reforma sobre os muçulmanos e judeus do sul da Ibéria e da Europa. E foi esse contexto que produziu a ideia de “raça”. (QUIJANO, 2005: p.12)

 Os dominados deixaram de ser vistos como vítimas de um conflito e passaram a ser encarados como inferiores por natureza material e histórico cultural. Uma noção que não está relacionada apenas à materialidade, mas também às próprias pessoas.

Conclusão

A América Latina continua reproduzindo a ideia de que os europeus são uma raça superior. O eurocentrismo oculta e distorce nossa história, é um padrão de poder que foi imposto através da violência física e subjetiva e permitiu a rápida expansão capitalista da Europa inclusive, permitiu que se aproveitasse das inovações tecnológicas produzidas por seus escravos.

A mulher paulista e a Revolução de 32

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Tá aí um assunto que me interessa muito, por isso fiz uma pequena pesquisa sobre a participação feminina na Revolução Constitucionalista. Depois, sobre a participação feminina na Revolução Mexicana… descobri e aprendi muitas coisas e, aproveitando o Dia da Mulher, compartilho algumas delas com vocês.  

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A atividade feminina na campanha constitucionalista foi intensa, elas escreviam e assinavam petições, recolhiam roupas e verbas para as tropas, se pronunciavam nas rádios, dirigiam hospitais, cuidavam dos feridos, criavam fundos para ajudar a sustentar a família dos inválidos. Por isso este é considerado o primeiro movimento com a presença maciça da mulher brasileira, muito diferente das revoluções anteriores (como a de 1930) cujo assunto militar não contava com a participação direta da população e menos ainda das mulheres.

Interessante observar que a imagem da paulista foi construída e inspirada nas mulheres dos bandeirantes, essa era uma das justificativas utilizadas pelos jornais para exaltar o caráter “especial” e o espírito de luta das mulheres de São Paulo. Conforme a história, as bandeirantes não participavam das Bandeiras ao lado dos homens, mas tinham o mérito do sustento e da defesa do lar, sem a presença masculina.

 ‘Na construção histórica da Mulher Paulista no período colonial também são destacados episódios em que mulheres individuais pegaram em armas e entraram na guerra para proteger a santidade do seu lar. Ela, às vezes, é explicitamente comparada à Mulher Espartana, o padrão de força e estoicismo femininos. […] Esse tema tornou-se particularmente popular e útil na fase do movimento constitucionalista, no qual houve alistamento militar” (WEINSTEIN, 2004:5)

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Mas elas, além de personificarem a imagem do reencontro com o passado e com a tradição, eram encaradas também como o rosto do futuro, o espelho da modernidade que chegava ao estado. São Paulo se destacava como uma das regiões mais avançadas do país, e as mulheres paulistas despontavam como sendo mais conscientes de seus deveres cívicos e de seus direitos.

A força dessa participação trazia novos ares para o discurso público e parecia ainda mais aceitável a participação da mulher (branca, instruída e de classe média) na política. Não se pode negar, porém, que o machismo rondava a revolução. Um exemplo interessante era o empenho dos jornais para promover um discurso vexatório contra os homens que se negavam a participar da luta, uma das propostas era obriga-los a sair na rua vestido de mulheres ou de bebês.

Mesmo com os esforços para serem terem o mesmo reconhecimento dos homens, a força feminina quase era retratada na figura da mãe, esposa ou namorada, não como guerrilheiras. As referências sobre o heroísmo feminino limitavam-se a mencionar a costura de uniformes e a manutenção dos alimentos.

A participação das mulheres negras

Um estudo acadêmico realizado por Jonatan Uilly, Paulo Fernando de Souza Campos e publicado na Revista Trilhas da História, levanta um questionamento importante sobre os documentos histográficos sobre a mulher negra na Revolução de 1932 e ajuda a esclarecer alguns pontos.  Ainda que mulheres negras tenham participado ativamente da revolução, a maioria das referências femininas do movimento são representadas pelo estereótipo da mulher paulista, “branca, filha dos bandeirantes”.

Conforme o estudo, a imprensa se referia às mulheres negras como enfermeiras, ainda que tenham confeccionado as roupas dos soldados e lutado nos fronts de batalha. Na época, o termo “enfermeira” era, na maioria das vezes, relacionado a mulheres brancas, com boa situação financeira e estudo.

Considera-se ainda o Decreto n. 20. 109-31 que impedia o ingresso das mulheres negras na enfermagem. Para os autores, naquele momento (ao chamar as mulheres negras de enfermeiras), São Paulo mais uma vez impulsionava os outros estados para o progresso:

“Como sugerido, no contexto, a tradicional Escola de Enfermagem Ana Nery, no Rio de Janeiro, mantinha uma política de exclusão de mulheres negras em razão dessas não se enquadrarem no perfil desejado para a enfermeira padrão. […] Seria uma resposta de São Paulo em ditar de modo emancipado a suas próprias diretrizes em relação à enfermagem? ” (CAMPOS, UILLY. 2014:19)

Duas mulheres negras que ficaram marcada por suas atuações na Revolução de 32 foram Palmyra Calçada e Maria José Bezerra. A primeira foi considerada a madrinha da Legião Negra, em 1930 ela encabeçou um projeto para a arrecadação de proventos e promoção em prol da Revolução.

A segunda ficou conhecida como Maria Soldado e virou símbolo de luta por combatido nas trincheiras. Maria veio de Limeira, se alistou, fingiu ser homem e lutou arduamente pela causa. Ela só foi descoberta quando foi ferida, após combater na linha de frente. Em sua homenagem, a edição de 05 de setembro do jornal A Gazeta publicava:

“Uma mulher de cor, alistada na Legião Negra, vencendo toda a sorte de obstáculos e as durezas de uma viagem acidentada, uniu-se aos seus irmãos negros em pleno entrincheiramento na frente do sul, descrevendo a página mais profundamente comovedora, mais cheia de civismo, mais profundamente brasileira, da campanha constitucionalista, ao desafiar a morte nos combates encarniçados e mortíferos para o inimigo, MARIA DA LEGIÃO NEGRA! Mulher abnegada e nobre da sua raça.”


Breve contexto da Revolução Constitucionalista

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Entre julho e outubro de 1932 um grupo armado de São Paulo se dedicou a derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas, eles também lutavam para instituir um novo regime constitucional. Dentre outros motivos, a Revolução Constitucionalista era uma resposta à Revolução de 1930, um golpe de estado feito por Getúlio Vargas que impediu a posse de Júlio Prestes e tirou Washington Luís, então presidente, do poder.  No dia 23 de maio acontece o estopim da revolta; são assassinados cinco jovens estudantes no centro da cidade:

“Na noite de 23 de maio de 1932 a multidão que tomara conta das ruas se multiplicava cada vez mais e a agitação era intensa na Praça da República e foi assaltada a sede do Partido Popular Progressista de Miguel Costa e depredado o prédio do Jornal A Razão. A grande massa convergiu para o prédio da Legião; os legionários estavam armados e receberam os manifestantes à bala. Quatro jovens foram mortos: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Das iniciais de seus nomes surgiu o MMDC, entidade importante na organização da guerra. Esses mortos seriam cultuados como sendo os únicos naquela noite, mas os mortos totalizavam 13, segundo a enciclopédia “Brasil Nosso Século”. (NUNES, 2005:9).

O patriotismo cresce no coração dos paulistas, o Estado consegue mobilizar milhares de pessoas de diferentes classes sociais (muitas doaram bens, joias e pratarias para ajudar a revolução financeiramente). A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) incumbiu as empresas brasileiras de fabricar armamento militar, por outro lado, organizações civis forneciam fardas, auxílio e alimento.

Em 9 de julho eclode o movimento revolucionário, com ele mais de 200.00 voluntários saem às ruas, destes, 60.000 combateram nas fileiras do exército. Os revoltosos, que sabiam da superioridade do exército federal, contavam com a participação de outros Estados, mas após a eclosão, tanto o governo do Rio Grande do Sul (comandado por Flores da Cunha) quanto o de Minas Gerais (comandado por Olegário Maciel) decidiram apoiar Getúlio Vargas.

Durante a luta armada, São Paulo era asfixiada pelo bloqueio do porto de Santos, fora a instabilidade social, agravada pelo enfraquecimento das forças paulistas. Em setembro as condições dos combatentes já eram precárias. Em 2 de outubro, a liderança revolucionária se rende.


Referências:

(Desculpe, mas eu copiei e colei fora de ordem.  Os textos são muito bons e o melhor é que estão disponíveis na rede. Vale a pena a leitura!)

SILVA, Tânia Maria Gomes: Trajetória da historiografia da mulher no Brasil, 2008.  [Acesso em 18 de fevereiro de 2016]. Disponível em: http://periodicos.uesb.br/index.php/politeia/article/viewFile/276/311

UILLY, Jonathan e CAMPOS, Paulo Fernando: Pérola Negra, a participação das mulheres negras na Revolução Constitucionalista de 1932. Revista Trilhas da História. Três Lagoas, v.3, nº6 jan-jun, 2014.p.121-148. [Acesso: 19 de fevereiro de 2016].  Disponível em: http://seer.ufms.br/index.php/RevTH/article/view/470/271

WEINSTEIN, Bárbara:  Inventando a Mulher Paulista: Política, Rebelião, e a Generificação das identidades regionais brasileiras, 2014. Revista Gênero [Acesso em 17 de fevereiro de 2016]. Disponível em: http://www.revistagenero.uff.br/index.php/revistagenero/article/viewFile/222/146

SILVA, Tânia Maria Gomes: Trajetória da historiografia da mulher no Brasil, 2008.  [Acesso em 18 de fevereiro de 2016]. Disponível em: http://periodicos.uesb.br/index.php/politeia/article/viewFile/276/311

UILLY, Jonathan e CAMPOS, Paulo Fernando: Pérola Negra, a participação das mulheres negras na Revolução Constitucionalista de 1932. Revista Trilhas da História. Três Lagoas, v.3, nº6 jan-jun, 2014.p.121-148. [Acesso: 19 de fevereiro de 2016].  Disponível em: http://seer.ufms.br/index.php/RevTH/article/view/470/271

WEINSTEIN, Bárbara:  Inventando a Mulher Paulista: Política, Rebelião, e a Generificação das identidades regionais brasileiras, 2014. Revista Gênero [Acesso em 17 de fevereiro de 2016]. Disponível em: http://www.revistagenero.uff.br/index.php/revistagenero/article/viewFile/222/146

AZEVEDO, Frances. Heroínas de 32, a participação da mulher na Revolução de 32 é marco importante para o legado feminino no país, 2014. [Acesso em 19 de fevereiro, 2016]. Disponível em: www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI204015,61044-Participacao+da+mulher+na+Revolucao+de+32+e+marco+importante+para

BUNICORE, Augusto. As mulheres e os direitos políticos no Brasil, 2015. [Acesso em 19 de fevereiro, 2016]. Disponível em: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=2115

A vingança do bastardo

12678Me diverti muito com essa leitura, faz tempo que eu não encontrava um livro com esse tom de deboche e bizarrice. Tudo me fez gostar dele, a começar pelo currículo da autora, Eleonora V. Vorsy – a grande dama da literatura popular, escritora do Planeta Diário, uma velha sem vergonha, criadora da famosa personagem Prima Roshana – sempre sedenta por sexo.

Eleonora, na verdade, é o pseudônimo de Alexandre Machado (jornalista e roteirista, trabalhou em Os Normais, Os Aspones…). 

O livro traça a trajetória de Levi, um perfeito anti-herói. No primeiro capítulo ele está preso e acaba de receber a visita do tio, da tia e da linda prima Roshana que foram lá na cadeia só pra zombar dele. Daí nasce o desejo sangrento por vingança e suas consequências vão o levar para lugares inimagináveis.

Levi consegue sair da cadeia de uma maneira muito engraçada e inesperada, melhor ainda é como ele “sem querer” se vinga dos tios. Enquanto está no banheiro transando com a prima Roshana, sua paixão de adolescência, dois homens estão assassinando friamente (e brutalmente) os pais dela. Ao longo da trama, vão surgindo personagens que os fazem viajar (involuntariamente) ao redor do mundo e presenciar situações absurdas – em sua maioria das vezes, trágicas.

Dois personagens marcantes que aparecem já na metade da história são Bel, a sereia e Kowalsky, um homem apelidado de “Jeba” por possuir um pênis enorme. Resumindo, é muita loucura num livro só, morri de rir na parte em que Levi  e Roshana estão dentro de um avião e conhecem um ditador gay que consegue levar Levi para cama em troca de que ele permaneça vivo. Mais louco ainda são as seringas que eles carregam como arma e que usam para passar HIV para os inimigos.

O Homem que matou Getúlio Vargas

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Eu li resenhas maravilhosas sobre esse livro e me senti uma merda porque terminei de lê-lo ontem e não me identifiquei com a narrativa nem com o personagem principal. Não preciso falar da genialidade do Jô Soares e do quanto ele é querido e admirado, por isso fiquei surpresa com a minha própria reação. A ideia é bem legal, mas achei o desenvolvimento cansativo e por hora, parecia que os momentos engraçados foram meio… forçados, sabe?  – Alguém leu e também se sentiu assim?

O livro conta a história de Dimitri, um jovem anarquista que cresceu em uma sociedade secreta de assassinos e que se especializou em matar tiranos, ditadores. O problema é que Dimitri é um pouco desastrado e as coisas nem sempre saem como ele deseja. Ele viaja por vários países e interage com personagens históricos reais, o que me pareceu mais interessante. Por exemplo, em uma viagem de trem ele encontra com Mata Hari! Em outros momentos, Al Capone, Fernando Pessoa, Carmen Miranda… Um dia descobre que possui uma familiaridade distante com Getúlio Vargas e que por isso, vai viajar para o Brasil. É por vasculhar seu passado e descobrir um abandono que decide que Getúlio será a sua próxima vítima.

A parte em que ele vem para o Brasil é até legal, a gente vai lendo e mergulhando na efervescência  política da época, se sente como numa sala onde dá pra ver Vargas ser encurralado de todos os lados.  Em resumo, “O homem que matou Getúlio Vargas” é quase uma aula de história (uma aula cheia de sarcasmo, por sinal). Por isso é bom que antes de lê-lo, você revise um pouco os seus estudos. Acho que tá aí um ponto que facilitou o meu estranhamento pelo livro, eu não fazia ideia do que se tratavam alguns acontecimentos que o autor citava.

 

O demônio e a Srta Prym

O_DEMONIO_E_A_SRTA_PRYM_1229664598BFala-se muito mal do Paulo Coelho aqui no Brasil, no exterior ele é um sucesso. Já conversei com pessoas que apontavam defeitos no autor, sem nem mesmo ter lido um de seus livros. Há muitos anos eu li “O Monte Cinco”, na época achei a história linda, mas hoje não me lembro quase nada. Num sebo aqui de São Paulo, vi um de seus livros em promoção. Comprei por curiosidade e porque estava bem baratinho. Li “O demônio e a Srta Prym” em menos de uma semana. A premissa é bem boa, mas a narrativa é fraca. Foi como se estivesse lendo um conto infantil com lições de moral. E não que isso seja de todo ruim, apenas não é lá uma narrativa densa e complexa, mas em certo ponto, até cativante.

Pra falar a verdade eu odeio escrever esse tipo de coisa, que parece mais com uma crítica negativa. Jamais! Por favor não entendam mal, eu acho que poucas sãs as pessoas que possuem cacife para julgar o que é bom ou ruim, ainda mais se tratando de literatura.

O livro conta a história de uma pequena cidade onde todos os moradores são bons e confiáveis. Um dia eles recebem um estrangeiro que vem acompanhado de um demônio cheio de ouro… e maldade. O demônio abala as estruturas da cidade quando propõe dar o ouro para quem cometer um assassinato. No livro, além do estrangeiro, se destacam duas personagens: Chantal (a Srta Prym), uma jovem que trabalha no hotel da cidade e que se torna líder do grupo, incentivando-os a continuarem sendo bons e Bertha, uma idosa que vive assombrada pelo fantasma do marido e que vivia sentada na calçada porque já previa a chegada do mal.

Em suma, a narrativa se concentra entre o dilema das pessoas em cometerem ou não um crime em troca de dinheiro. Se o fizessem, deixariam de ser bons. Numa visão mais abrangente, a construção dos personagens me pareceu meio maniqueísta e simplista, afinal… qual ser humano é 100% bom ou ruim. ESTO NON ECXISTE.  No mais, é um bom passatempo. Um livro gostosinho pra ler numa sentada e pensar um pouco na vida.