Peixe morto

463-20150721180302Não sei dizer o que senti enquanto lia este livro. Uma curiosidade me impedia de abandoná-lo ao mesmo tempo em que certo asco me fazia não querer acabar de lê-lo. Algo me incomodou profundamente na história e com sinceridade, não sei dizer muito bem o que foi. Ao mesmo tempo, a ambientação me provocou um acalento por causa da saudade que sinto de Minas (principalmente por ser ambientada em alguns lugares que sempre gostei de passear). Então, eu realmente não sei dizer se gostei ou não do livro (o que é meio estranho…).

A trama, que tem um assassinato com tema principal, é cheia de jogos de sedução e mistério. Todos os dias pela manhã, um professor universitário caminhava pela Lagoa da Pampulha, até se deparar com um corpo de um homem boiando. Os detalhes do crime chocam, afinal o homem estava com a boca cheia de acarás (peixes) e com a pele do tronco arrancada desde a base do pescoço às axilas. Não bastasse, o professor conhecia o cara assassinado e por um motivo muito especial, poderia facilmente ser incriminado.

A história se mistura em duas narrativas e a construção delas é como um quebra-cabeça. Os capítulos são nomeados por datas e horas diferentes e ainda há um diálogo epistolar de um fato que se passou antigamente (e que também envolve: peixes e taxidermia).

 

México, um país em dois olhares

mexicoAs obras de dois autores inspiraram a linha comparativa deste trabalho, eles tiveram a coragem de se aventurar a estudar o México, sua história e o comportamento dos mexicanos. Um deles foi Érico Veríssimo, que publicou o livro “México” em 1960. O outro foi Jorge G. Castañeda, autor de “Amanhã para sempre”, de 2013.

É curioso como a visão dos dois se assemelha em alguns quesitos e por vezes, se distanciam abruptamente em outros casos. Naturalmente há o distanciamento do tempo em que os livros foram escritos, mas leva-se também em consideração a linha narrativa. Enquanto o livro de Veríssimo é um romance com forte tom poético, o livro de Castañeda apresenta uma linguagem mais científica e um estudo sobre o conceito de identidade nacional. Jorge G. Castañeda é professor de uma das maiores universidades do México (a UNAM) e atuou como chefe das Relações Internacionais no governo do então presidente Vicente Fox. Em seu livro, ele confronta diversos clássicos, autores (como Octavio Paz) e questiona os estereótipos pelos quais os mexicanos ficaram conhecidos.

Érico Veríssimo foi um dos escritores brasileiros mais populares do século XX (e dentre suas obras famosas, cabe citar a trilogia de O tempo e o vento).  Ele realizou sua terceira viagem ao México em 1955, ao lado de sua esposa, Mafalda. Na época, dizia enfrentar um bloqueio criativo por causa da vida burocrática que levava nos EUA, ele ocupava um cargo na Organização dos Estados Americanos, em Washington.

A visão de Jorge G. Castañeda pode não ser muito agradável aos mexicanos já que ele indica grandes falhas na sociedade e, de maneira corajosa, se atreve a sugerir soluções. Apesar de uma linguagem complexa, o livro perpassa por assuntos certeiros e fundamentais sobre o país, como por exemplo: o narcotráfico e a violência.

Castañeda começa sua reflexão afirmando que os mexicanos são individualistas e o são de uma maneira diferenciada. No primeiro capítulo “Por que os mexicanos são ruins em bola e não gostam de arranha-céus”, ele explica que os mexicanos enxergam a casa própria não só como status, mas como garantia de individualidade – por isso, a pequena popularidade dos arranha-céus (ou prédios). De acordo com o autor, os mexicanos são individualistas inclusive no esporte, por isso são os melhores no Golfe  e não no futebol.  Eles evitam pegar ônibus e são individualistas até quando o assunto é democracia, sentem desconfiança em relação às ações coletivas.

 O perfil que o autor faz do mexicano é bem distante do lado romântico que Érico Veríssimo descreve. Por exemplo: Castañeda afirma que os mexicanos são avessos a qualquer tipo de confronto ou competição porque são fatalistas. Se vêem como perdedores e… já que vão perder, vale a pena lutar? O autor apresenta diversas análises e aponta algumas justificativas para esse comportamento, uma delas está na própria história do México, que foi extremamente cruel e violenta com os índios.

Para Veríssimo, o mexicano é um povo que foi traumatizado em seu nascimento e isso marcou o inconsciente coletivo do país, por isso vivem sempre angustiados “por uma sensação aflitiva de que algo de mau, algo de terrível está sempre por acontecer. O nascimento da nação mexicana foi difícil, dilacerante, sangrento, doloroso e o índio que sobreviveu à Conquista não se adaptou ao ambiente frio e hostil criado pelo invasor, ele desejou voltar ao ventre materno, isto é, a terra.”

Sobre os mexicanos e seus costumes, Castañeda explica que a população já não é tão católica como muitos pensam. Hoje, a maioria deles não vai à igreja nem vivem a religião, mesmo que se autodenominem como católicos praticantes. O escritor ainda explica que o país é extremamente marcado pelo racismo, pelo preconceito e pelas lutas de classes. Eles se dizem “mente aberta”, mas não são. Veríssimo vê a religião com outros olhos, ele possui um encantamento em relação a ternura que os mexicanos sentem pela Virgem de Guadalupe, e entende que toda essa identificação vem do fato de que a virgem, morena, teria aparecido para um índio (chamado Juan Diego na colina Tepeyac).

Em 1960, Veríssimo dizia o mesmo que Castañeda sobre as diferenciações raciais, porém em outras palavras. Para ele, o México era uma nação em que predominava o sangue índio. Ele dizia que cerca de 30% de seus habitantes eram racial e culturalmente índios enquanto a menor parte da população era formada de brancos ou de criollos, isto é, de filhos de pais e mães espanhóis, mas nascidos no México.

Os 10% que eram ou se consideram brancos viviam e pensavam mais ou menos como os brancos de qualquer outro país da América e, seus dramas e neuroses relacionavam-se não ao fato de serem mexicanos, mas sim de pertencerem a uma determinada classe social: “Assim, o que na minha opinião melhor representa o México, é o de sangue espanhol de índio, não só porque ele constitui a maioria da população, mas também e principalmente porque dá a nota tônica na vida do país”.

E a relação com os Estados Unidos também é tema para estudo nos dois livros. Veríssimo não deixa de citar a famosa frase de Porfírio Diaz que dizia: “Pobre Mexico, tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos”.  Já Castañeda, utiliza a famosa frase em introdução ao assunto: “Nós não atravessamos a fronteira, a fronteira nos atravessou” Sobre essa relação, os dois autores concordam em um ponto: por parte dos mexicanos, há uma mistura de raiva e admiração.

Mesmo com linguagens tão diferentes, os dois autores se mostram carinhosos e respeitosos em relação ao país, eles não economizam palavras ao falar das cores, da arquitetura, dos pintores, da história e das músicas mexicanas. Muito se pode descobrir através da visão deles e é difícil não se envolver na leitura desses livros.

Minha vida sem banho

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Escolhi esse livro pelo título, fiquei extremamente curiosa com a descrição e sobre o desenvolvimento da história. Li o livro em menos de uma semana e definitivamente, fiz uma boa escolha: me emocionei e me diverti com a história. “Minha vida sem banho” foi escrito em 2014 pelo jornalista Bernardo Ajzenberg. Na trama, Célio é um homem que, de repente, não toma banho por conta do aquecedor quebrado. Porém, ao longo dos dias, ele vai repetindo a ação… ele simplesmente decide não tomar banho mais. A narrativa vai se misturando com outras vozes e histórias, pois além de Célio, há as correspondências de sua namorada (que acabou de realizar uma viagem) e a narrativa sobre a história dos pais de Célio (com um suspense delicioso).

Numa das resenhas que li por aí, diziam que a grande metáfora para a ausência dos banhos seria nossa mania destrutiva de sempre protelar algo que necessita ser feito. Eu encarei o lance mais como uma “acumulação” das marcas que a vida deixa, acho que o personagem estava mesmo era depressivo pela ausência da namorada, pela vida sem sentido e por causa da relação com os pais. E aí, as coisas que ele vivia (as dores, decepções) ficavam impregnadas em seu corpo como a sujeira fica quando não se toma banho. Viajei, né?

A história vai ficando cada vez mais legal no decorrer dos dias, quando ele começa a feder e a sentir coceiras em lugares impróprios. As pessoas fingem não perceber a ausência dos banhos, até que a situação fica insustentável. Outro detalhe que amei é que a trama é ambientada em São Paulo. Tem um ano que moro aqui e toda vez que ele citava um lugar eu ficava me perguntando se conhecia ou se já tinha visitado.

A história de uma vaca rebelde

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Confesso que há muito não lia algo tão criativo e divertido. O livro é narrado em primeira pessoa e não tem compromisso nenhum com a realidade. A personagem principal, Elsie Bovary, é uma jovem vaca acostumada com a vida calma no pasto  e cheia de inquietações. Dentre inúmeros pensamentos, ela sempre se pergunta sobre o desaparecimento de sua mãe. Um dia, ela resolve se aproximar da casa dos humanos, donos da fazenda, e percebe que todos eles ficam horas vidrados em suposto deus que vive numa caixa. A caixa é uma TV e ao observá-la descobre que há uma série de possibilidades, culturas e crenças que vão além daquele pequeno mundinho em que vive. Mesmo com toda inverossimilhança, a narrativa construída por David Duchovny é tão encantadora que você se deixa levar e a tradução é tão perfeita que as pequenas piadas escondidas no texto não perdem o sentido. Duchovny é um ator hollywoodiano e sua experiência provavelmente o ajudou a escrever um livro quase como um pequeno roteiro, cheio de diálogos e passagens divertidíssimas.

Amor, sexo, culpa e traição… que livro bom!

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Fernando Sabino é um dos autores brasileiros que, no momento, mais desperta o meu interesse. A verdade é que eu gostaria de ter lido mais de seus livros. Há algumas semanas terminei de ler A Faca de dois gumes e enquanto lia, mergulhei em cada um dos contos, cheios de sensualidade, humor e suspense. Sabino é um escritor belo-horizontino, nascido em 1923; fez parte do Grupo Mineiro, liderado por Carlos Drummond de Andrade e Martins de Almeida. Seu conto de estréia foi Os grilos não cantam mais, de 1941.  Dentre as suas obras mais famosas estão O homem nu (de 1960) e o Grande Mentecapto ( de 1979).

O livro reúne uma trilogia, histórias independentes (e escritas em momentos diferentes da vida do autor) que narram três crimes. Em suma, todas as histórias possuem uma forte relação com o  amor e com os sentimentos de culpa e dúvida. De todos, gostei mais do segundo… uma espécie de quebra cabeça que me encantou pela genialidade da narrativa e pelos encontros e desencontros dos personagens.  Nessa história, chamada “Martini Seco”, um casal entra num bar e começa a discutir. Ele vai ao banheiro e ela ao telefone. Os dois voltam à mesa, ela toma um gole da bebida e cai fulminada. A polícia acredita que ele a matou, enquanto ele jura que enquanto estavam discutindo, ela tinha ameaçado se matar. Ou seja, o que aconteceu naquela cena, um assassinato ou um suicídio?

O primeiro dos contos possui inspiração na obra machadiana Dom Casmurro, “O bom ladrão” conta a história de um cara que se apaixona por uma mulher de comportamento duvidável, ela é uma ladra que não não mostra arrependimentos de seus crimes (na verdade, pequenos furtos, digamos…crimes sutis). O problema é que o amor que ele sente por ela  é tão grande que o faz cúmplice e às vezes, até mesmo responsável por alguns delitos.  A terceira história é sensacional, é ela que dá nome ao livro e que posteriormente inspirou o filme  de Murilo Salles, de 1989. Um advogado leva uma vida perfeita junto ao filho e a esposa. Um dia, descobre que ela o trai e enfurecido, decide assassiná-la. O plano é brilhante, o crime é perfeito… mas uma reviravolta inesperada acontece e sua vida se torna um inferno.

Mergulhei nessas histórias, alucinada para descobrir a resolução de cada um dos crimes. Histórias inteligentes, diálogos dinâmicos e muito humor negro. Uma delícia de livro!

A fenda do tempo

downloadPensei que este livro fosse uma narrativa de comédias para adultos, até começar a ler e ver que se tratava de um livro infanto juvenil. Poderia tê-lo abandonado, mas não consegui. Comecei a lê-lo hoje pela manhã e acabei de acabar a última das 202 páginas. Uma história muito gostosa, contata de um jeitinho que encanta. O livro foi escrito por Dinísio Jacob, escritor paulista, nascido em 1951. Ele trabalhou como roteirista para “O Castelo Rá-Tim-Bum”, “Glub-Glub”, “Cocoricó” e a “TV Cruj” (assisti todos quando criança). Terminei este livro pensando que daria um ótimo filme e que espero lembrar dessa história pra contar para os meus filhos.

O livro conta com dois personagens principais, a chinezinha Yeng-Cheng (uma espécie de secretária/doméstica que adorava varrer) e o Bildamaster, um linguista  (que falava com fluência dezenas de línguas). Os dois vivem em um casarão em São Paulo, um antigo instituto de pesquisas que está ameaçado por empreendedores que querem fazer do local um grande estacionamento (olha! me lembrei do castelo agora!!).  Antigamente o casarão era de propriedade de Dona Leocádia Laura, uma das únicas mulheres baronesas de café da época (poderosa!), um quadro com seu rosto fica exposto na parede principal da casa.

Bom, acontece que um dia um enorme buraco surge no quintal. O buraco é tão grande que seria possível passar um elefante, um rinoceronte (e ainda sobrar espaço). Do buraco surgem barulhos estranhos parecidas com vozes bem distantes e cavalos… Bildamaster, curioso que só, entra no buraco e vai parar na Inglaterra da Idade Média. Por outro lado, Dona Leocádia volta do passado e se depara com um mundo completamente novo.

Delícia de livro gente, eu amei a Dona Leocádia (que saiu de 1925) passeando pela Avenida Paulista e se surpreendendo com os carros, com a ausência dos casarões de seus amigos e com o metrô. Um livro inteligente e ao mesmo tempo, simples e cheio de aventuras para  encantar crianças inteligentes.

Os perigosos – Autobriogafias e AIDS

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“Os perigosos” é um daqueles livros que se guarda para sempre, o encontrei perdido em uma das estantes da Leitura e o trouxe junto na mala na minha mudança para São Paulo. Li fazendo inúmeras anotações, tentando ficar atenta a tudo. Marcelo Secron Bessa tem um texto dinâmico, delicioso e muito esclarecedor. Foram 379 páginas de muito aprendizado.  O livro realiza uma análise sobre as produções literárias com temáticas relacionadas à AIDS e dá uma ênfase nas autobiografias.  Mais do que isso, oferece uma oportunidade de compreender como a imprensa reagiu em relação a doença e como reforçou alguns estigmas (tinham uma narrativa baseada em medo e preconceito, mas ao mesmo tempo, alertavam e informavam os leitores).

Este é um tema que me interessa muitíssimo, por vários motivos. Me impressiona como a minha geração desconhece a história relacionada à doença e por vezes, acredita estar imune a ela. Como eu disse, este livro me ensinou muito e me fez ter conhecimento sobre histórias e fatos que não imaginava. Nos primeiros capítulos, o autor conta que a epidemia foi tratada como um “câncer gay” e que muitos acreditavam que ela não chegaria ao Brasil. Na época, a imprensa direcionava matérias sobre a AIDS para as seções de saúde.

Uma das grandes discussões, que prevaleceu por muito tempo, é a de como encarar o doente. Eram vítimas ou culpados¿ Existia ali uma inocência ou uma vilania? Como a doença foi diretamente ligada aos homossexuais, existia todo um discurso moralista que os tinha como pervertidos. Os médicos e os enfermeiros, por outro lado, eram tratados como heróis. Na metáfora militar, eles encarnavam os soldados na linha de frente de combate. Ao longo dos anos foram surgindo narrativas literárias e matérias com tom romanesco. Um exemplo interessante é o de um jornalista que se passou por médico para acompanhar o dia a dia de um hospital que tratava desses pacientes.

O autor dialoga com muitos outros autores que realizaram um trabalho literário sobre a AIDS, como Susan Sontag, Michel Foucault, Jean-Claude Bernardet, e Valéria Polizzi. Também entre eles está Hebert Daniel.  Sobre Herbert, o autor afirma: se Cazuza foi a cara da doença, Hebert Daniel foi a voz. Sobre Hebert há um apontamento interessante, ele não gostava do termo “aidético” dizia: “Não sou aidético, estou com AIDS”. Sobre isso, reescrevo uma citação que marquei no meu livro:

“Nas reportagens jornalísticas anteriores, a pessoa com AIDS é chamada de vítima, doente, condenada e similares. Usualmente, ao serem interpelados sobre o porquê do uso de aidético em detrimento de termos menos tendenciosos, os jornalistas esclareciam que seria imposição dos editores para ocupar menos espaço. Decerto que isso faz sentido, já que, geralmente, os textos jornalísticos têm espaços contadíssimos e, por isso, devem prezar pela síntese. Mas, hoje, relendo uma fotocópia daquela edição do jornal, penso que além da intenção (e necessidade) de ocupar menos espaço nos textos, parece também que sua criação pelo tal “ABC da AIDS”, naquele momento e naquele contexto, visavam dar um tom, digamos, mais científico e, portanto, neutro do que parece indicar a justaposição desse termo com outros mais médicos e técnicos”.

O capítulo que mais gostei, que está todo marcado e cheio de post its, fala sobre Caio Fernando Abreu (um dos meus autores favoritos). Caio foi um homem extremamente sensível e marcado como um “escritor pesado e de baixo astral”. Por volta de 1994, quando se descobriu soropositivo, ele se tornou uma “celebridade”, o que de certa forma lhe causou certo incômodo:  “Sinto que houve, primeiro, quando me declarei soropositivo, um espanto, depois um movimento meio de solidariedade, misturado de piedade e escândalo. E acho que Ovelhas negras não recebeu atenção da crítica. Ganhou muita nota, teve muita entrevista e aí os caras só queriam saber sobre AIDS, era um absurdo. Depois (de aparecer no programa) do Jô Soares, parei. Porque o meu trabalho literário continua. O resto da crítica falava sobre um escritor com AIDS e tal, inclusive nas críticas da reedição de Morangos Mofados. O texto não foi levado em consideração”.

Durante a doença, Caio busca inspiração em Frida Kahlo e se identifica com a dolorosa vida da pintora que, depois de um acidente, passou por sérias intervenções cirúrgicas e sentiu muitas dores. “Tenho lido muito. Sofri e chorei com O diário de Frida Kahlo que me dá muita força: se ela suportou tanta, tanta dor, porque eu não suportaria também?”

Rose Marie Muraro: uma mulher impossível

A minha curiosidade sobre Rose Marie Muraro (sobre sua vida e sua obra) surgiu há muito tempo, quando peguei o finalzinho de um documentário onde ela dava um depoimento sobre feminismo. Anos se passaram até que encontrei materiais sobre ela. Nesta semana terminei “Memórias de uma mulher impossível”, uma autobiografia riquíssima, que não só conta a história da pensadora como também a contextualiza com fatos políticos, econômicos  e culturais que aconteceram no Brasil.

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A autora de “A sexualidade da mulher brasileira”, possui uma vida cheia de singularidades. Originou-se de uma família riquíssima, empobreceu, tinha um problema sério na visão (desde pequenininha), batalhou para sustentar os filhos e desafiou os grandes para defender o direito das mulheres. De tudo o que li, o que mais me impressionou foi sua forte ligação com a igreja católica e como, aos poucos, ela foi se desvinculando da instituição (mantendo sua espiritualidade intacta).

O livro foi escrito em 1999 e, ao mesmo tempo em que ela me soa extremamente visionária, percebo alguns conservadorismos. Já na época, a autora acreditava numa revolução comunicacional que iria aproximar as mulheres e permití-las conhecer seus direitos, esse novo estilo de comunicação (em sua concepção) faria as mulheres se aproximarem e serem mais ativas, criando novos coletivos, por exemplo. Rose faleceu em 2014, aos 83 anos, portanto acredito que tenha presenciado o avanço e a importância das redes sociais/internet e comprovado sua teoria. Encontrei certo conservadorismo em algumas afirmações sobre os homossexuais, principalmente quando ela os chama de pervertidos.

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Mas, eu não a interpreto mal… tento compreender suas limitações e o pensamento vigente na época. Rose defende a homossexualidade, tem uma postura muito especial em relação aos gays e às lésbicas (a quem ela afirma serem muito mais carinhosas e delicadas em seus relacionamentos.). Inclusive ela afirma que se apaixonou e se relacionou com um homem abertamente gay e que adorava frequentar bares LGBTs.

De tudo o que ela falou, me marcou muito a maneira em que ela insiste e defende a importância do feminismo estar vinculado a luta de classes. O que pode parecer obvio, mas não é. Não adianta lutar pelo direito das mulheres sem se importar com aquelas e aqueles que são socialmente/economicamente mais desfavorecidos que nós. Já no finalzinho do livro ela também chama atenção para a importância do Feminismo Negro.


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Citações  

” O fim da compulsão pelo trabalho faz desmoronar a long prazo todo esse monumental edifício que é a civilização baseada na lógica criada pelo capital criada pela mente em detrimento do corpo. O corpo liberto trabalha em outro mundo, outro tipo de civilização, solidária e não competitiva. E não pode existir sem esse trabalho. Faz parte da sua natureza.”

“A androginia, a relação do amor entre homens e mulher iguais, é o antídoto à relação de dominação entre gêneros, que é a base de tudo, de toda e qualquer dominação.”

“A morte, a realidade nada vence, pode ser vencida pelo amor”

“O corpo reprimido conhece o prazer da sexualidade localizada, o corpo liberto conhece  êxtase de Eros que ilumina tudo, até o trabalho, que passa a ser ação transformadora”

“Ser feminista no Brasil em 1971 não foi fácil. Ibrahim Sued escreveu um artigo me malhando, dizendo que não casava comigo porque eu era feia e lésbica, pode? Nunca passou pela cabeça dele que alguém pudesse rejeitá-lo. Ele era feíssimo, e barrigudo.”

“Nesse momento aprendi que doentes não são loucos, doente é a sociedade inteira. Porque a sociedade, ao reprimir a profundidade, faz com que todas as coisas se tornem mecânicas. As pessoas ficam obcecadas pelo trabalho, pois não tem esse contato profundo consigo mesmas que os lucos têm, ainda que de maneira quebrada. Mas tem mais do que nós. E nós, “normais”, queremos tapar esse buraco com trabalho. E é isso que alimenta o sistema. A nossa insatisfação fundamental que nada cura é o desejo do abismo.”

Resenha: “O pintor da vida moderna”, Baudelaire

P.S – Nesta semana o professor solicitou esta leitura e eu fiz algumas anotações, que atrevo chamar de resenha. 

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Charles Baudelaire foi um poeta francês, considerado um dos percursores do Simbolismo e reconhecido como o fundador da tradição moderna em poesia. Nasceu em 1821 em Paris e faleceu em agosto de 1867. Uma de suas obras mais conhecidas é “Flores do Mal”, onde ele começa o seu projeto simbólico.  O livro “O pintor da vida moderna”, iniciado em 1863, foi escrito em três fases: a primeira para o Le Figaro (publicada em 26 de novembro) e a segunda publicada em 29 do mesmo mês. Mais tarde essas partes foram reunidas em uma coletânea num livro editado em 1868 sob o título de L’Art Romantique.

Através de um ensaio crítico, Baudelaire analisa a figura do pintor na vida moderna e suas relações com diversos setores, fatos e figuras que estão ligados à arte. Já no capítulo inicial o autor apresenta uma postura crítica em relação àqueles que supervalorizam as obras de arte clássicas e menosprezam os artistas menores. Como exemplo, cita as pessoas (a quem chama de amadores) que vão ao Museu do Louvre e se colocam radiantes diante de um quadro de Ticiano Vecellio e depois se dizem conhecedoras do museu. Ou mesmo aqueles que leram Rancine e Bossuet e acreditam que dominam a história da literatura.

Aprofundando suas reflexões, o autor ressalta a importância da moda e de sua contextualização para compreendermos o passado e o presente. Em suas palavras: “o passado é interessante não só pela beleza que dele souberam extrair os artistas para os quais ele era o presente, mas igualmente como passado, por seu valor histórico”. Os trajes antigos que hoje nos provoca riso carregam consigo valores de moral e estética de uma determinada época.

Ainda nessa questão, o autor afirma que o homem imprime o que acredita ser belo em seu vestuário, o homem deseja se assemelhar àquilo que gostaria de ser: “o passado, conservando o sabor do fantasma, recuperará a luz e o movimento da vida e se tornará presente”.  A teoria racional e histórica do belo se opõe à teoria do belo único e absoluto e mostra-nos que o belo possui uma dupla dimensão: ele possui elemento eterno e invariável ao mesmo tempo em que possui um elemento relativo e circunstancial

O Artista x O Homem do Mundo

(Quem foi C. G. ?)

Durante toda a reflexão sobre a diferença entre um artista e um homem do mundo, Baudelaire utiliza como exemplo um amigo e o cita no livro como “C.G.” Trata-se de Constatin Guys, um pintor e desenhista autodidata que viveu entre 1805 e 1892, que trabalhou como repórter e foi profundo conhecedor do mundo da moda. Para Baudelaire, C.G. é o típico “homem do mundo” e não apenas um “artista” (num sentido restrito). O homem do mundo é aquele que se interessa pelo mundo inteiro, que quer saber, entender e conhecer. O artista vive no mundo moral e político, o homem do mundo é um cidadão espiritual do universo.

Para o autor, o homem do mundo e a criança possuem muitas semelhanças. Os pequenos enxergam tudo como novidade e estão sempre inspiradas. Enquanto o adulto foi dominado pela razão, a criança é dominada pela sensibilidade. Portanto, o “homem do mundo” é também um “homem criança”, aquele que é dominado a cada minuto pelo gênio da infância e para qual nenhum aspecto da vida é embotado… ele ama a multidão, pois a multidão é um espelho imenso de possibilidades, um caleidoscópio dotado de consciência.

Uma das grandes buscas do “homem do mundo” é a modernidade. A modernidade caracteriza-se pelo transitório, efêmero, contingente. “ A modernidade é a metade da arte e a outra metade é o eterno e o imutável”. Neste sentido, o artista que procura reproduzir uma fórmula (com aqueles que pintam personagens com inspirados em expressões já consagradas) tendem a produzir algo falso, ambíguo e obscuro.

A memória possui um papel fundamental na criação e na originalidade. Para o autor, “todo os bons e verdadeiros desenhistas desenham a partir da imagem inscrita no próprio cérebro e não a partir da natureza”. A memória e a imaginação estão interligadas, e permitem que o desenhista se torne mais anárquico e imparcial.

O Dândi x A mulher

Tanto o Dândi e a Mulher foram figuras (ou objetos) de arte atemporal que serviram de inspiração para os artistas da modernidade. Os dois podem ser encarados como elementos de representação que perduram no tempo e que mesclam dois conceitos importantes trabalhados no texto: moda e beleza.

O dândi é aquele que cultua as próprias paixões e a sí mesmo, mas para fazê-lo precisa de dinheiro. Não porque o dinheiro é indispensável, mas é algo que o permite alcançar o símbolo da superioridade aristocrática de seu espírito. Sua imagem nos remete ao típico rico ocioso, um homem entediado e que sofre por ser homem.  Ele nunca pode ser vulgar. Conforme explica Baudelaire:

 “ O dandismo aparece sobretudo nas épocas de transição em que a democracia não se tornou ainda todo-poderosa, em que a aristocracia está apenas parcialmente claudicante e vilipendiada. Na confusão dessas épocas, alguns homens sem vínculos de classe, desiludidos, desocupados, mas todos ricos em força interior, podem conceber o projeto de fundar uma nova espécie de aristocracia, tanto mais difícil de destruir pois que baseada nas faculdades mais preciosas, mais indestrutíveis, e nos dons celestes que nem o trabalho nem o dinheiro podem conferir” (BAUDELAIRE, p. 872, 1996)

Como modelo artístico, a mulher é quase uma divindade. Encarada como símbolo da beleza natural e por vezes pura, ela transmite luz e um convite a felicidade. O seu porte, seus movimentos, seu tecido… todos esses aspectos nos remetem à harmonia. Porém, ao mesmo tempo, as mulheres podem parecer mágicas ou até sobrenaturais, especialmente quando está diante da necessidade de ser adorada.

Neste caso, assim como o citado acima, a indumentária (e os adereços) é fundamental para indicar a época em que o personagem viveu. Diante disso, Baudelaire também realiza uma reflexão acerca da maquiagem. Afinal este “artifício” possui como objetivo e por resultado fazer desaparecer da tez todas as manchas que a natureza semeou.

O autor defende a ideia de que as pinturas para o rosto não devem ser usadas de uma forma vulgar, no sentido de imitar uma beleza artificial. A maquiagem não pode ser encarada como um artifício para dissimular um aspecto, “pode exibir-se não como afetação, mas como espécie de candura”.

 

REFERÊNCIAS

BAUDELAIRE, C.  Sobre a modernidade:  o pintor da vida moderna. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996

MANTOLVANI, R., Resenha: “O pintor da vida moderna, de Baudelaire”.  Disponível em: http://escrita-das-mulheres.blogspot.com.br/2007/02/resenha-o-pintor-da-vida-moderna-de.html [Acesso: 21 de maio de 2016]

Canalla de mis noches

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Marisa Medina foi uma comunicadora espanhola que fez muito sucesso na década de 1960 e 1970, mas que acabou em ruína após se viciar em jogos e drogas. Comprei este livro sem saber de quem se tratava e confesso que o que me chamou atenção foi o titulo. Terminei de lê-lo hoje e fiquei com muitas impressões, li o livro em poucos dias porque não conseguia me desgrudar dele. A história, uma autobiografia, é contada em primeira pessoa, com um toque muito emocional. Nos primeiros capítulos Marisa narra a sua vida  de dentro da clínica de reabilitação, quase como em formato de diário.

A sua relutância em permanecer naquele lugar e o confronto da família em relação aos seus vícios são muito dramáticos. Em todos os momentos Marisa mostrava a importância da opinião de suas filhas, o que a levou a aceitar a reclusão. Porém o ambiente da clínica, em princípio, lhe causou repulsa. Ela não conhecia aquelas mulheres (bem mais jovens que ela) e não conseguia acreditar no discurso daquelas que tentavam ajudá-la dizendo que aquele era um ambiente amigável.

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Marisa saiu do mundo luxuoso da fama e se tornou uma mulher comum, viciada, perdida nas noites de jogatina. Eu gosto muito da maneira com que ela mescla essas duas realidades….e confesso, é quase impossível não ter uma “curiosidade mórbida” sobre o que lhe aconteceu. Como uma mulher linda, rica e famosa conseguiu chegar ao fundo do poço? Ela perdeu todo o dinheiro, as casas, os restaurantes, a beleza…

Um dos momentos que mais me agrada no livro é a recordação da infância, quando Marisa relembra a influência da sua avó materna em sua educação, da fraqueza de sua mãe diante da avó extremamente rígida e da ausência de seu pai, um homem que morava perto de sua casa e que a via constantemente nas ruas,  mas que a ignorava como se não a conhecesse. Segundo Marisa ela foi criada num mundo cercada de “velhos trites”  e de alguma forma, levou esta tristeza para o resto da vida.

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Ela estreou na televisão em 1962 no programa “Tv Escuela”, depois disso decolou… teve seus próprios programas, foi apresentadora de festivais musicais, gravou cds e participou de alguns filmes…Casou-se com o compositor Alfonso Santisteban em 1970 e, de acordo com o livro, vivia cercada de regalias, frequentava muitas festas, seus melhores amigos eram famosos e a imprensa a assediava a todo momento. Com Alfonso teve três filhas, cada uma nasceu em um momento diferente de sua vida financeira: Sílvia, a mais velha, vivenciou os dias de fortuna e do casamento perfeito, Alejandra presenciou as primeiras brigas e Laura, nasceu quando o casamento já anunciava um fim e quando a situação financeira já não era tão boa.

Marisa expõe a sua mágoa em relação ao marido que a traía constantemente e que chegou a colocar uma mulher em sua casa, sendo ela sua amante (com ela teve filhos, inclusive). Por isso Marisa deixa bem claro que já não existia um encontro sexual entre os dois, portanto, se relacionava com outros homens sem culpa. Ela também fala de seus desejos eróticos de uma maneira muito aberta.

O livro foi escrito em 2002 e ela me soa muito sincera, todo o tempo; como alguém que já não tem mais nada a perder. É muito louco pensar que ela morreria onze anos depois, aos 69 anos, de câncer. Do pouco que li das críticas, o livro deixou Alfonso extremamente descontento, ele dizia não conseguir reatar a mesma relação com a ex-esposa depois do que foi dito, mas que permaneceu ao seu lado durante sua morte.