“AIDS mata!” Eu sei porra, mas eu estou viva!

  • O título foi retirado de um dos capítulos do livro

 Às vezes eu fico pensando o que seria de mim se eu tivesse AIDS. Sabe, não sei o que acontece, tenho uma curiosidade danada para entender como foi o surgimento da doença e ao mesmo tempo, penso com os meus botões sobre o medo absurdo que tenho dela. Sempre vejo fotos, vídeos e matérias relacionados ao tema e fico pasma com a devastação que essa doença provocou na década de 1980. Por favor, não me entendam mal, não tenho nenhum medo (ou preconceito) em relação aos portadores do HIV, tenho medo da doença em sí… aliás, tenho medo da AIDS como tenho medo de qualquer outra doença, como do câncer, por exemplo.

depois daquela viagem

Desculpem pelo parágrafo acima, ficou meio merda. Por enquanto vamos mantê-lo. O que eu queria contar mesmo pra vocês é que ontem à noite peguei o livro “Depois daquela viagem” para ler e li numa sentada. É um livro delicioso, a narrativa melhor ainda – extremamente jovem, simples e coloquial. A autora, Valéria Piassa Polizzi conta como foi que ela pegou AIDS e as consequências da doença para a sua vida. Ela escreveu o livro com 23 anos, já convivia com a doença há seis anos. Sério! Imagine, você com 17 aninhos, se preocupando com o vestibular, com a formatura do ensino médio e daí descobre que está com AIDS… isso nos anos 1980.

O que mais me encantou no livro dela foi a sua capacidade de contar toda aquela história, que poderia ser transformada em um “dramalhão”, de uma maneira leve e por horas até divertida. Juro que em alguns momentos do livro me peguei rindo em voz alta (e é muito raro isso acontecer).

 Quando tinha quinze anos e fazia uma viagem à Argentina com os pais, Valéria conheceu um rapaz…. Eles começaram a namorar meses depois e o cara era super violento com ela, batia mesmo. Valéria não comentava sobre violências que sofria e todo mundo achava que o cara era um santo, até que um dia a avó dela viu ele batendo nela… ligaram para a casa dos pais do rapaz e para a surpresa, os pais dele disseram que isso era “normal”, que ele também era violento em casa e vivia quebrando tudo. Bom, o cara usava drogas e provavelmente foi assim que pegou e passou a doença para Valeria. Quando ela descobriu já não estava mais namorando com ele, tinha planos de viajar para os EUA e ainda não sabia o que iria fazer de faculdade. Ela começa seu tratamento no Brasil e o continua nos EUA, enquanto isso vive uma vida normal, sai com os amigos, estuda e se diverte…

Achei muito (muito) interessante quando ela contou que as pessoas se negavam a acreditar que ela tinha pegado AIDS apenas por sexo vaginal (sem proteção). Até mesmo os médicos americanos a questionavam se ela tinha usado drogas ou feito sexo anal, diziam que era raríssimo uma mulher com a doença. Quer dizer, ninguém sabia de nada… ou, sabiam muito pouco. E o preconceito era enoooorme, imagine que pensavam que apenas os gays pegavam AIDS. Genteeee! Diziam para Valéria não contar que tinha AIDS porque ela sofreria preconceito demais, então ela escondeu a doença dos amigos e da família durante anos, e sempre era obrigada a ouvir piadas sobre o assunto  ou comentários inadequados tipo… uma amiga dela, dentista, se negou a atender um homem gay porque ele poderia ter AIDS e ela não queria se contaminar.

Apesar de tudo, acho que Valéria teve sorte. Foi tratada nos melhores hospitais e com os melhores médicos do país, se tratou nos EUA, teve o acompanhamento e apoio dos pais e dos amigos. Agora imagine ser pobre, não ter apoio de ninguém e ter que conviver com a AIDS num Brasil em 1980. Me lembra uma das palestras que ouvi do Doutor Drauzio Varella, que tratou pacientes portadores do HIV no Carandiru… man, que tristeza! (Sério, muito triste ver aqueles homens definhando, sem tratamento adequado, num lugar inapropriado… nossa, me dá nervoso só de lembrar).

Onde andará Dulce Veiga?

dulceJá que eu publiquei uma resenha sobre “Morangos Mofados”, resolvi também falar sobre “Onde Andará Dulce Veiga”, o primeiro livro que li do Caio Fernando Abreu. Com toda a sinceridade, eu não sei descrever a grandiosidade desse livro e o que ele significa para mim. O li quando ainda estava no ensino fundamental e mergulhei na história de uma maneira inexplicável. Eu andava com esse livro para cima e para baixo e confesso que não fazia ideia de quem era o autor… acho que fui redescobri-lo anos depois, quando eu já estava quase me formando na faculdade. É realmente um livro lindo, que eu adoraria reler.

O livro foi escrito entre 1985 e 1990, traz muitos questionamentos, aborda temas polêmicos. Os personagens de Caio tem medo da AIDS, alguns morrem e sofrem a doença. O livro aborda as consequências das drogas, fala sobre a violência urbana, sobre homossexualidade e bissexualidade, sobre religião (nesse livro, especialmente sobre a umbanda), sobre a ditadura militar… É realmente um dedo na ferida. Me encanta como ele trabalhou os gêneros e a sexualidade dos personagens, hora o filho da faxineira se chamava Jacyr, hora se chamava Jacyra. Às vezes o Saul se vestia de Dulce, às vezes Márcia beijava mulheres.

A história tem como um dos centros o jornalista Pedro, o narrador-personagem que está enfrentando uma crise moral: ele está apaixonado por um homem, mas não se considera gay… pelo menos, não se considerava até aquele momento de sua vida. Pedro foi recém contratado por um jornal e tem a possibilidade de escrever uma grande reportagem, logo se lembra de Dulce Veiga, uma cantora famosíssima que conheceu há vintes anos e que desapareceu misteriosamente. Ele então entra em contato com Márcia, filha de Dulce… uma jovem meio “punk”, assombrada pela morte do ex-namorado, usuária de drogas.

Além da presença de Márcia, Pedro tem a ajuda de um diário de Dulce que encontrou no estofamento da poltrona em que, há vintes anos, ela lhe deu uma entrevista. A sua jornada o permite conhecer outros personagens enigmáticos como Saul, amante de Dulce. Um homem meio grosseiro que foi consumido pelas drogas e pelos choques elétricos que sofreu na juventude – ele foi torturado durante a ditadura militar (depois do desaparecimento da cantora), isso o traumatizou profundamente. O encontre entre Saul e Pedro é interessantíssimo, há um estranhamento e depois um beijo: “Pensei então no GH de Clarice, mastigando a barata, em Jesus Cristo beijando as feridas dos leprosos, pensei naquela espécie de beijo que não é deleite, mas reconciliação com a própria sombra.“

Quando estava a ponto de desistir, Pedro encontra Dulce… ela usava roupas simples e cantava num bar de estrada, numa pequena cidade brasileira. Os moradores de lá sabiam que ela era famosa, mas meio que  para protegê-la, não tocavam no assunto. Ela o vê e o reconhece, convida-o para ir à sua casa.. quase que uma “caverna” localizada em um monte. É realmente emocionante o encontro dos dois, Pedro percebe que Dulce enfrentou uma crise existencial e espiritual, e que ali encontrou a paz…

Morangos Mofados

Download-Morangos-Mofados-Caio-Fernando-Abreu-em-ePUB-mobi-e-PDF1Este é talvez o livro mais difícil que já li do Caio Fernando Abreu, talvez por isso tenha demorado tanto para termina-lo. Todas as outras leituras que fiz do autor foram leves, escorregavam pelos olhos. Essa não, foi pesada, demorada. Demorei por causa dos detalhes, pela narrativa e por ser um livro mais sombrio, mais triste. A verdade é que o Caio Fernando Abreu me passa essa sensação, das inúmeras cartas que ele escreveu e que li, foi essa a impressão que ficou: a de um homem triste, muito inteligente, atormentado e extremamente sozinho. Gosto muito dos seus diálogos e da forma em que ele os insere dentro do texto, fazendo a narrativa mais ágil, como se estivesse falando com o leitor. Também adoro sua espiritualidade, seu interesse pelos horóscopos, planetas e energia.

De todos os contos, o meu preferido é o “Terça-feira Gorda”. Li, reli e senti uma emoção inexplicável. A história se passa numa terça feira de carnaval, dois homens se encontram na praia e naquela mistura de suor, cansaço e tesão, fazem sexo na areia, perto de outras pessoas. Entre gritos, deboche e denúncia, os dois se beijam e transam, mas são atacados: “ De repente ele começou a sambar bonito e veio vindo para mim. Me olhava nos olhos quase sorrindo, uma ruga tensa nas sobrancelhas, pedindo confirmação. Confirmei. […] Eu estava todo suado, todos estavam suados, mas eu não via ninguém além dele. Eu já o tinha visto antes, não ali. […] Mas vieram vindo, então, e eram muitos. Foge, gritei, estendendo o braço. Minha mão agarrou um espaço vazio. O pontapé nas costas fez com que me levantasse. Ele ficou no chão […].

Morangos Mofados, o último dos contos, é também uma história linda. Trata-se de um homem que sente na boca o gosto de morango mofado, um gosto que não sai de jeito nenhum. É a iminência da morte, a tristeza e a chegada do fim. Interessante como Caio queria dar um final feliz para a história mesmo que seu personagem tivesse tendência à tragédia.  Por fim, o homem se nega a morrer, decide tentar mais uma vez. Na carta que Caio F. escreveu para um amigo ele explica que quando escreveu, foi como se o personagem tivesse vida própria e se negasse a desistir.

Eu li: Formaturas Infernais

downloadZumbis, vampiros e monstros nunca me entusiasmaram muito. Acho que um dos poucos filmes sobre vampiros que assisti e gostei foi “Fome de Viver”, mais porque tinha Deneuve, Sarandon e Bowie numa miscelânea deliciosa.

Enfim… “Formaturas Infernais” veio parar em minhas mãos, li porque não tinha nada melhor pra fazer. Li e gostei – me senti como uma garota de 15, 16 anos, viajando nas histórias bizarras das autoras, com um fundo romântico e juvenil. Em suma, o livro é até um bom passatempo, legalzinho sabe¿ Nas histórias, namorados que morrem acidentalmente e viram zumbis, caçadoras de vampiros,  anjos e bruxas com vestidos que pegam fogo, buquês amaldiçoados… muita ação, perseguição e sensualidade. (Me chamou atenção que a maioria das histórias foram escritas em primeira pessoa!).

São cinco contos que possuem histórias de terror e todas as histórias se passam no baile de formatura (tão comum nos states, não tanto no Brasil). O livro reúne autoras do momento, que fizeram um sucesso estrondoso e conquistaram milhões de fãs… Entre elas Meg Cabot (autora de “Tamanho 42 não é gorda” e “O Diário da Princesa”) e Stephenie Meyer (autora de “Crepúsculo”).

O fim de todos nós

downloadDecepcionadíssima com este livro, que me encantou pelo título e pela sinopse, mas que não conseguiu me prender pela narrativa, tornando a leitura um verdadeiro fardo. Porque tenho que confessar que sou uma daquelas leitoras que quando começa um livro, precisa ir até o final. Questão de honra! Eu me esforço (mesmo quando num caso semelhante a esse) a leitura me desagrada.

Bom, imagine que você mora em um ilha que está sofrendo pela contaminação de um vírus desconhecido e letal. Ele começa como uma gripe e vai transformando seus sentidos, fazendo você ficar desinibido, faz você confessar seus segredos mais obscuros e depois, te mata. Pois é, a trama é genial, a narrativa nem tanto.

A personagem principal é Kaelyn, uma garota de dezesseis anos que voltou a morar na ilha e que é uma das chaves principais para resolver o problema. Me chamou atenção (positivamente) o fato do livro ser epistolar, a menina escreve em primeira pessoa, contando para o seu amigo Leo, os problemas que estão assombrando a ilha depois da chegada da doença. O lugar está em quarentena, ninguém sai e ninguém entra, o que dificulta ainda mais a possibilidade de encontrar uma cura.

O livro é o primeiro de uma trilogia escrita por Megan Crewe, li que os outros são bem melhores. É uma pena, porque a leitura deste não me entusiasmou para ler os outros. Senti nesse livro uma falta de emoção, uma falta de ação… todo mundo vai sendo contaminado e a personagem principal parece só se preocupar em escrever em seu diário… 😦

Os mortos – James Joyce

os_mortos_capaO nome de James Joyce sempre me aterrorizou, já li muitas críticas classificando-o como um dos escritores mais difíceis de todos os tempos. Então, corria dele. No mês passado li “Os mortos”, um pequeno conto que Joyce escreveu (aos 25 anos). A edição que tenho em mãos é a da Companhia das Letras e Penguin, Coleção de Grandes Amores. Além de “Os Mortos” o livro também traz o Monólogo de Mary Bloom e outro pequeno conto, “Arábias”.

Sempre quis ler esse conto, o fato é que quando criança era fã louca da Anjélica Huston e o seu pai, John Huston, produziu um filme baseado nessa história (ainda não vi o filme, mas estou em busca dele!). Não sei se é uma justificativa muito louvável, mas essa é a verdade.

Então… li o livro e fiquei realmente apaixonada, foi uma leitura rápida… mas me senti como se eu tivesse imersa naquele ambiente, naquela festa de Natal, na conversa entre os convidados, no salão.  O conto, que se passa na Irlanda, acompanha a chegada de Gabriel Conroy e da esposa Gretta à casa das tias solteironas, professoras de piano. Gabriel sente um carinho imenso por elas e é tradição ajuda-las a recepcionar os convidados. O conto é basicamente um resumo da festa, dos diálogos, das danças, do discurso de Gabriel, da conversa de Gretta com as amigas…

Algo muda quando, depois da festa, já em um hotel, Gretta conta para Gabriel um caso de sua juventude. Ela se lembra de um garoto que conheceu e que era apaixonada por ela e que por “sua causa” (indiretamente, digamos…) ele faleceu. Gabriel fica abismado porque desconhecia esse perfil melancólico da esposa, muito menos dessa história.

Agora, só uma observação sobre Arábias: Os mortos é um conto grandioso, mas Arábias me agradou igualmente por ser muito singelo. Conta a história de um adolescente apaixonado pela irmã de um amigo. Essa garota está louca para ir à um bazar, mas a família a proíbe. Então, ele faz de tudo para ir nesse bazar comprar um presente pra ela. ♥

Sobre o monólogo de Molly Bloom eu nem comento, li algumas páginas e queria pular da ponte. Fluxo de Consciência grau mil, muito difícil! Mas interessante, procurei por algumas análises e resenhas, entendi mais ou menos…. kkkk

Do universo à jabuticaba

Rubem Alves é um dos meus autores favoritos, seus livros me acalantam a alma, Baixar-Livro-Do-Universo-a-Jabuticaba-Rubem-Alves-em-ePUB-mobi-e-PDFme dão uma incrível sensação de conforto e paz. É um autor de uma imensa sabedoria e, ao mesmo tempo, de humildade. O último de seus livros que li foi “Do universo à jabuticaba”, lançado em 2010. Dessa vez escolhi fazer diferente, estou com este livro há um ano e fui lendo aos poucos, bem aos pouquinhos. Sem pressa, fazendo as minhas marcações, relendo as partes favoritas…

O estilo deste me lembrou muito “Ostra feliz não faz pérola”, pequenas reflexões sobre temas como: amor, religião, saúde…Algumas até um pouco repetitivas, mas nada que atrapalhe a delicadeza e a doçura desse escritor.

 – Citações –

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“A arte chinesa: já notaram que seus cenários aparecem sempre cobertos por neblinas¿ Estão lá porque a alma precisa delas… A vida é cheia de neblinas. Durante a Revolução Cultural, as neblinas foram proibidas. Revoluções são tempos de certezas. Palavras de ordem não toleram brumas, pois é lá que moram os sonhos. Luminosidade total para tornar impossível sonhar”.

“Promessas são palavras que dizem para engaiolar o futuro. Dentro das promessas há sempre um pássaro engaiolado. Posso prometer atos, proteção, companhia, cuidado. Não posso prometer sentimentos “Sei que vou te amar, por toda a minha vida vou te amar” É lindo, mas não é verdade. Atos futuros podem ser prometidos. Sentimentos só podem ser cantados no presente.”

“O segredo do amor é androginia. Somos todos homens e mulheres, masculinos e femininos ao mesmo tempo.”

“Ciúme é a dor no coração ao ver a pessoa amada dando adeus, na fantasia. A cena do pássaro voando é dilacerante. Porque, no ciúme, ele voa para outro… Ciúme não é falta de confiança na pessoa amada. Confio que a pessoa amada nunca me trairá com o seu corpo: conheço o seu caráter. Mas não posso confiar nos seus sentimentos. Não somos donos dos sentimentos, eles se encontram além das nossas verdades”

“Albert Camus, numa frase bem curta, disse que se ele fosse escrever um livro sobre ética, noventa e nove páginas estariam em branco e na última página estaria escrito amor. ”

“A morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com a voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver.”

“Não acredito que haja dor maior que a morte de um filho. A princípio é uma dor bruta, sem forma ou cores, como se fosse uma montanha de pedra que se assenta sobre o peito, eternamente. Com o passar do tempo, essa dor bruta se transforma. Passa a ser muitas, cada uma com rosto diferente, falando coisas diferentes. Há aquela dor que é a pura tristeza pela ausência. Ela só chora e diz: “Nunca mais…” Outra é aquela dor que se lembra das coisas que foram feitas e não deveriam ter sido feitas, coisas que não foram feitas e deveriam ter sido feitas: a palavra não dita, o gesto que não foi feito. É a dor da saudade misturada com a tristeza da culpa. E há outra dor: a tristeza de que o filho não tenha completado o que começara.”

Aracy Balabanian: Nunca fui anjo

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Surpreendente. Se tivesse que fazê-lo,  assim classificaria a pequena biografia da Aracy Balabanian, escrita por Tania Carvalho para a Coleção Aplauso. Sempre fui fã de Aracy; desde muito pequena a assistia em Sai de Baixo… eterna Cassandra Matias Salão. Cheguei a ver algumas novelas também, como a Próxima Vítima, quase vibrava quando ela aparecia. Acho ela linda, diferente, bem-humorada e super elegante. Fui lendo a biografia durante a viagem que fiz para Minas Gerais, fiquei surpresa com algumas revelações e com a coragem dela de falar tão abertamente sobre assuntos polêmicos. A própria autora chama atenção para o fato de as celebridades da atualidade viverem imersas no mundo das revistas e da exposição, enquanto Aracy, por outro lado, sempre foi meio “anacrônica”, daquelas que nunca gostou de falar muito de sua vida pessoal.

O livro se chama “Nunca fui anjo”, e o título, mais do que uma referência à uma lembrança da infância de Aracy (que queria se vestir de anjo na igreja e não a deixavam porque tinha os olhos caídos) é também alusão a sua própria personalidade artística, encarada como uma mulher séria e certinha demais. Imagine, ela fala com clareza sobre os dois abortos que fez, sobre como perdeu a virgindade e sobre o fato de questionarem a sua sexualidade.

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Sua experiência na TV e no Teatro são boa parte de tema para o livro. Incrível, incrível mesmo, poder ter conhecimento  de suas histórias, de suas dificuldades no palco, das censuras, dos assédios, das lutas políticas e dos relacionamentos com os colegas. A gente sabe que o meio artístico é muito disputado, mas ouvindo essas histórias é possível ter uma dimensão da coisa. Aracy não possui uma beleza clássica, e mesmo assim, com sua grandiosidade, foi protagonista e interpretou mocinhas e vilãs , tornando-se um sucesso no Brasil inteiro.

Interessante é a sua relação com os irmãos, ora problemática, ora de afeto extremo. E ela fala claramente sobre as brigas familiares. Demonstra muito carinho pela mãe e pelo pai, e deixa claro o quanto eles foram importantes para a sua personalidade: “Muita gente acha que sou armênia, mas nasci no Brasil e meus pais, Raphael e Esther, ambos armênios, sempre tiveram uma enorme preocupação: que seus filhos fossem bons brasileiros. A Armênia permanece viva em mim, nas histórias que ouvi, a minha vida inteira, e que o meu pai e a minha mãe contavam com muita emoção”.

“Eterna Fênix” foi um dos títulos cogitados para o livro. A ideia da autora e da atriz era criar uma relação metafórica à carreira de Aracy, que mesmo com altos e baixos, nunca caiu no esquecimento… “Ela sempre ressurge”. Também relacioná-lo ao drástico acidente que Aracy sofreu e que, segundo ela, mudaria seu modo de ver a vida. “Eu nasci em 1940 e posso dizer que renasci em 1994. Neste ano, um incêndio acabou com o meu apartamento. O fogo lambeu os móveis, as janelas, dinheiro, roupas, capas de revista, fotos, a minha história. Fiquei uma pessoa sem lembranças, e isso foi o que mais doeu. Dizem os espiritualistas que o fogo limpa. E como uma fênix renasci, porque descobri que sempre se pode começar de novo”.

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Citações:

Posso dizer, também, que fui cobrada por não ser mãe. Não me deixam em paz. Uma vez, estava no corredor, indo para a maquiagem e ouvi uma atriz jovem, bonitinha, reclamando com a maquiadora (atenção, eu sou a rainha da equipe): “Para de falar Aracy, Aracy, Aracy Balabanian já era!” Entrei e rebati: Tomara que, quando você for, chegue a ser como eu. Ela me jogou na cara a sua maternidade: “Me respeite, porque sou mãe”. “Sem problema minha filha, a puta também pariu”.

CarvalhoTania_aracybalabanianPor fim, além de virgem, sem filhos e solteirona, às vezes as pessoas dizem que sou homossexual. Foram falar para a Guta, a diretora de elenco da Globo, e ela me chamou para perguntar. A primeira pessoa que saberia seria você, para quem não escondo nada. Parênteses, Guta foi uma pessoa muito importante na minha vida, alguém que tinha um amor incondicional por mim e por isso mesmo eu a chamava de mãe. Se chegasse para ela e dissesse que tinha virado sapata, ela aceitaria na hora. Mas a verdade é que jamais me interessei por mulheres. Sou freudianamente ligada ao meu pai, à virilidade. O que me atrai é a diferença, não a semelhança. Já até pensei no assunto, arrisquei bater umas pestanas para algumas mulheres que me assediaram, mas não passou disto, não mesmo.

(Sobre Sai de Baixo): O Miguel fazia loucuras em cena. Soprava no meu ouvido o texto, beliscava a minha bunda. Um dia, estavam sentadas na primeira fila minhas duas irmãs mais velhas. Ele me levou para a frente do palco e perguntou para a platéia se eles sabia como eu era chamada na escola. E arrematou: “Pizza gigante, dava para oito ao mesmo tempo.” As minhas irmãs abaixaram a cabeça. Não satisfeito ele continuou: “Produção, tira estas velhas chatas aqui da frente porque elas não querem rir  de nada”.

Não sei se sou muito boba, acho que sou, porque era a única que queria continuar. Sentia-me no melhor dos mundos. […] Sai de Baixo me permitiu uma tranquilidade financeira, além do salário, recebíamos muitas coisas a mais. Como o elenco brigava o tempo todo por vantagens, eu acabava usufruindo.  Foi com o dinheiro que ganhei em Sai de Baixo que pude comprar este apartamento em que vivo agora e consegui fazê-lo exatamente da maneira que queria.

A condessa sangrenta

A Condessa Sangrenta

Acho que é a primeira vez que eu leio um livro e fico com medo. Talvez isso tenha acontecido porque o li de madrugada, quando a casa estava escura e num silêncio absurdo. De qualquer forma, confesso…. fiquei com medo. O livro me chamou atenção pelo erotismo da capa e pelo tema, uma abordagem meio romantizada da famosíssima Condessa Bathory, considerada “uma das mulheres mais perversas e sanguinárias que a humanidade já conheceu”.

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O livro é bem pequenino, apenas 54 páginas e repleto de ilustrações assustadoras. A autora, Alejandra Pizarnik, relata as histórias das torturas de maneira lírica e poetizada, ao mesmo tempo em que traz uma série de histórias bizarras e obscuras (repletas de erotismo). Difícil não mergulhar nesse universo melancólico e assombroso da Condessa, que vivia solitária em seu enorme castelo se deliciando com os gritos de dor das jovens que torturava e com aversão a velhice.

Não se discute no livro se  história sobre a Condessa é ou não ponto de partida para a criação de um mito, o que se explora é o encantamento e a curiosidade que ela desperta. Afinal, foram mais de 600 jovens assassinadas.  A autora explica, por exemplo, que a Condessa tem origem de uma família problemática, muito rica e influente. Além de comentar sobre a indiferença do marido, ela também levanta a possibilidade da Condessa ter sido lésbica, relata como eram os banhos de sangue que ela tomava e conta como foi o seu fim (presa no castelo, abandonada por todos, sem demonstrar arrependimento).


Citações

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“Nunca puderam ser esclarecidos os rumores acerca da homossexualidade da condessa, ignorando-se tratar-se de uma tendência inconsciente ou se, ao contrário, aceitou-a com naturalidade, como um direito a mais que lhe correspondia. No essencial, viveu submersa de um âmbito exclusivamente feminino.”

“Escolhiam-se várias moças altas, belas e resistentes –  sua idade oscilava entre os 12 e os 18 anos – e arrastavam-nas à sala d torturas onde esperava, vestida de branco em trono, a condessa. Uma vez maniatadas, as criadas as flagelavam até que a pele do corpo se dilacerasse e as moças se transformassem em chagas tumefatas; aplicavam-lhe os atiçadores em brasa, cortavam-lhe os dedos com tesouras ou guilhotinas, espetavam suas chagas, praticavam-lhes incisões com navalhas (se a condessa se cansava de ouvir gritos, costuravam suas bocas, se alguma jovem se desvanecia rápido demais, ajudavam-na fazendo queimar entre suas pernas papel embebido de óleo). O sangue emanava como um gêiser e o vestido branco da dama noturna trotava-se vermelho. E tanto, que tinha que ir ao seu aposento e trocá-lo por outro”.

A história do sobrenatural e do espiritismo

“O importante ao receber uma mensagem vinda do outro lado não é tanto a exatidão da informação, mas seu papel de terapia social ou individual. O que importa não é que a previsão se realize, mas alivie, cure ou convide a agir. Astrólogos, cartomantes, médiuns e videntes agem como médicos da alma.”

lA aMORA

Adoro os livros da Mary del Priori, admiro muito o seu conhecimento histórico e sua veia jornalística. Recentemente comprei “Do outro lado”, livro em que ela faz um mapeamento da história do espiritismo no Brasil (com uma grande ênfase no Rio de Janeiro). Mesmo com um tema tão denso, foi possível fazer uma leitura bem agradável… é como se a narrativa te levasse em uma viagem histórica, como se você estivesse atravessando a época das trevas, descendo as ladeiras, passando por ruas tenebrosas e observando toda aquela gente curiosa e assustada, querendo conversar com os mortos.

Ao longo do livro, você entende que o espiritismo é muito (muito mais) do que apenas a possibilidade de conversar com os que já se foram. É muito interessante como em seu surgimento, foi encarada não como religião, mas como ciência. Mais legal ainda, são os relatos da autora sobre a origem da doutrina na Europa (com o magnetismo, Allan Kardec) até o momento em que ela chegou nas terras tupiniquins e seus efeitos sociais.

O fato é que a relação do homem com a morte e com sua concepção sempre foi marcada por uma curiosidade mórbida, pelo medo do incerto, pela utilização de símbolos e criação de mitos. Os nossos antepassados, no entanto, pareciam interpretá-la de uma maneira mais melancólica, mais intensa.  Depois de ler e reler o livro, me pareceu ainda mais evidente que o espiritismo no Brasil sofreu interferências (tanto do catolicismo, quanto das religiões africanas e de outros tipos de cultos).

É muito curiosa a reação  dos antigos  com o trabalho das cartomantes, dos exorcistas e curandeiros. Uma mistura de medo e de fé, uma estranheza que entrelaça o real e o sobrenatural de uma maneira encantadora. No livro há uma série de fotografias e recortes (de anúncios e matérias de jornais) que mostram como era conflituosa a relação da imprensa com a doutrina. Alguns veículos tentavam desmascarar e desautorizar a religião através de reportagens e sátiras.

Citalções

“Outrora,  o morto continuava vivo no seu túmulo. Recebia as homenagens dos descendentes, imóvel, mas consciente. A sepultura seria apenas outra residência, cela de dormitório, onde aguardaria o despertar no Dia do Juízo e que, por vezes, deixaria para proteger ou informar os vivos, comunicando-se com eles em sonho ou por algum sinal exterior”

“O culto dos santos, que se propagou entre séculos III e IV, firmou outra ideia: a de que era importante substituir o culto dos mortos, vindo da Antiguidade, pelo dos santos. Antes, a intimidade entre mortos e vivos era total: colocava-se comida e bebida sobre as tumbas, festejava-se a passagem para o além com danças, uma pedra na laje impedia o defunto de voltar e estar perto dos parentes.”

“As práticas rituais serviram, a pretos africanos e nacionais, para combater as violências de seus senhores e de seu cotidiano. A religião foi, sim, um instrumento de resistência escrava. Até mesmo porque não faltou clientela branca nos grandes terreiros de candomblé, macumba, e umbanda, onde a relação de submissão do preto passava a ser de dominação, de escravo passava a senhor. Ele mandava, conjurava espíritos e resolvia a vida dos outros. Apenas o pai de santo se conectava com o mundo invisível, habitado por entidades espirituais responsáveis pela vida. Seus rituais viabilizavam essa interação, ali os brancos obedeciam e se curvavam.”