Só eu não gostei do filme “Uma doce mentira”?

(filme de 2010, Diretor: Pierre Salvadori)

Eu comprei esse filme com tanto entusiasmo que quase caí da cadeira quando acabou. Sinceramente eu já não sou muito fã de filmes românticos, mas “Uma doce mentira” dá vontade de ir embora antes do final. De fato, a história sem Maddy Dandrieux (interpretada por Nathalie Baye) não faria sentido, mas é por responsabilidade dela  – do personagem – que o filme desanda.

Aliás, não há nada de novidade nessa história. “Numa manhã de primavera, Emilie recebe uma linda carta de amor anônima. Sua primeira reação é jogar a carta no lixo. Mas ela vislumbra uma forma de salvar sua mãe, uma mulher triste e isolada desde a partida de seu marido. Sem pensar muito, ela envia a carta para a mãe, sem saber que o autor é Jean, seu tímido empregado. Emilie não imagina que seu gesto desencadeará uma série de desentendimentos, criando situações fora de controle.”

Comentei algumas coisas no Filmow e a galera caiu matando dizendo que o filme foge de clichês e que enfim, a Audrey Tautou conseguiu se livrar da doçura de Amelie Poulain, que o filme é lindo, etc e coisa e tal. Ok… Mas eu, confesso… achei o filme bem chato! E o que tem de diferente dos filmes de Hollywood? Não sei, talvez: “É um filme francês e charmoso”.

Sabe os personagens ficam cercados por uma culpa que não precisam sentir. Jean começa a ir a encontros com Maddy contra vontade e Maddy culpa a filha pela situação (mas de maneira bem grosseira, inclusive tentando se vingar e criando ciladas). E a história para nessa metade: não trata profundamente do assunto (sobre as consequências reais da mentira), nem de maneira leve. Fica no muro e a situação cria um mal estar e incompreensão.

O destino bate à sua porta

O destino bate à sua porta

(Dirigido por Bob Rafelson, 1981)

Sinopse: Nos anos 30, em um posto de gasolina e restaurante à beira da estrada, Nick Papadakis (John Colicos), um grego que é o dono do estabelecimento, emprega Frank Chambers (Jack Nicholson), um andarilho. Em pouco tempo Cora Papadakis (Jessica Lange), a mulher dele, está tendo um obsessivo e apaixonado caso com Frank. Logo o casal de amantes conclui que a única forma de ficarem juntos e ter todo o dinheiro que ambos almejam é assassinar Nick

 

Quando coloquei esse filme no DVD às 1:45h da madrugada, imaginei que não ficaria com a atenção presa até o final, mas pelo contrário: não consegui piscar os olhos.  Também, o que esperar de um filme que tem Jessica Lange, Anjelica Huston, Jack Nicholson e Christofer Lloyd no elenco? Eu estou abismada com tantas reviravoltas e o mais importante: o diretor conseguiu fazer tudo isso, sem perder o ritmo.

Lembro que na semana passada, comentava com a minha mãe que tive esse filme em VHS nas mãos há uns dez anos (presenteado por um amigo dela, que sabia que eu era fã incondicional da Anjelica Huston), mas não o assisti por falta de paciência. Ainda bem que não o fiz porque naquela época (eu estava com uns dez anos) e provavelmente não entenderia nada.

O título em inglês “The Postman always rings twice” se refere a um antigo ditado que diz que quando se abre a porta para a morte, ela volta a bater de novo. A primeira versão do filme foi realizada em 1946 por Tay Garnett, com Lana Turner e John Garfield no elenco. Estou muito curiosa para vê-la porque se for tão boa (ou melhor) que a versão de 81, sem duvidas, entrará para a minha lista de filmes preferidos.

Estava lendo “1001 filmes para ver antes de morrer”, organizado por Steven Jay Schneider e encontrei uma referência ao longa de 1946, onde eles dizem o seguinte: “Lana Turner jamais esteve tão atraente como no papel de Cora Smith, que se casa com um homem mais velho insosso (Cecil Kellaway) para escapar da pobreza, mas que, profundamente insatisfeita, sucumbe à sua atração por Frank Chambers (John Garfield), um jovem andarilho.

Como muitos filmes noir, o relacionamento do casal malfadado depende de um crime, o assassinato do marido de Cora (…). Os enquadramentos claustrofóbicos de Tay Garnett enfatizam o aprisionamento dos amantes mortais e a mise-en-scene melancólica e proibitiva do filme é o cenário perfeito para a trama sinistra. Com seu figurino branco e glamourizada pela iluminação, Turner se torna o centro visual da história, baseada no romance de James M. Cain publicado na década anterior. Cora não é uma femme fatale comum. Seus sentimentos por Frank são verdadeiros e não uma armação ardilosa.

Em princípio foi difícil imaginar Jack Nicholson como um galã sedutor, porque como disse em outro post a imagem dele me remete a um fanfarrão. Mas ele consegue: e o faz muito bem aliás. A questão é que fiquei me perguntando como eles fariam um casal como Nicholson e Lange dar certo. Mas em momento algum você deixa de acreditar que os dois se amam e lutam pra ficar juntos.

A grande sacada são os momentos surpresas em que você supõe um acontecimento e aí, “ou dá tudo errado, ou dá tudo certo”. (E olha, eu realmente me surpreendi em algumas cenas!) A primeira tentativa do assassinato, onde Cora pega um saco cheio de bolinhas de chumbo, bate na cabeça do marido e solta um grito, assustada e incrédula por realmente ter feito aquilo: É SENSACIONAL!

Há também um clima tenso e sensual tão forte que você se convence: Caramba, eles são uns canalhas, mas merecem ser felizes.  – Pra você ter uma idéia, fazem sexo logo depois de assassinarem o marido de Cora / Os dois transando e o corpo bem ali.

O filme é super válido e já ouvi comentários de que o segundo supera o primeiro. A questão do ritmo é fundamental, ou melhor: é o que provavelmente diferencia os dois, claro que também pelas técnicas e pela  época em que foram produzidos. O que posso falar do segundo é que ele sustenta perfeitamente esse clima de suspense (mesmo que não tenha  o charme de um filme noir).

Geração Prozac

 

No Filmow, vários usuários classificaram Geração Prozac como uma versão mais leve de Garota Interrompida (filme de 1999, com Winona Ryder e Angelina Jolie ). Ao meu ver, os dois filmes se desencontram em muitas partes, principalmente porque possuem abordagens diferentes. Pra mim Geração Prozac está muito mais próximo de Réquiem por um Sonho (filme de 2000, com Ellen Burstyn) que também possui cortes secos e transições de lente subjetiva que levam o espectador a entrar no mundo do personagem.

Geração Prozac não aborda nenhum tema fora do comum. A trama envolve dramas muito próximos da realidade: Elizabeth (Lizzie, interpretada por Christina Ricci) é uma menina que vê os seus pais divorciarem muito cedo e cresce sob a proteção da mãe. Aos dezenove anos, ela consegue uma vaga no curso de Jornalismo na conceituada universidade de Harvard. Porém Lizzie acaba entrando em profunda depressão e se dedica a noites incansáveis de trabalho, sempre regadas de drogas e bebidas. Sua instabilidade emocional afasta seus entes mais queridos. Assim, ela decide procurar uma psiquiatra: Dra. Diana Sterling (Anne Heche), que lhe receita o antidepressivo Prozac

O filme me cativou na primeira cena, onde Lizzie sentada nua na cama, com feições e postura de desânimo explica um de seus dilemas:

 “Meus pais se divorciaram antes de eu fazer dois anos. E desde então, meu pai quase não participou da minha vida. E minha mãe participou demais. Ela queria corrigir todos os seus erros através de mm”.

A câmera gira entorno daquele corpo magro e quase desfalecido quando de repente, o pequeno momento de silêncio (onde Lizzie encara a câmera) é interrompido pela entrada da Senhora Wurtzel (mãe de Lizze, interpretada por Jéssica Lange).  Ela não consegue esconder o contentamento de ter uma filha bolsista em Harvard. Abre as cortinas, empacota as coisas, liga para a mãe avisando que aquele era o primeiro dia de faculdade da filha. Parecia que era ela que estava indo estudar: – educação e oportunidade: palavras que ela repete incansavelmente, reafirmando que seus desejos e perspectivas foram canalizados na filha.

Ainda que com certa frieza, Lizzie se levanta para arrumar suas coisas. No caminho para a faculdade, mãe e filha conversam sobre as perspectivas do curso de jornalismo e esse diálogo é essencial, é o recurso mais rico que o diretor utiliza para deixar claro o grau de complexidade daquela relação. Através das falas (linguagem emotiva) a mãe revela suas frustrações:

 

E pensar que na sua idade eu já era mãe e dona de casa. Eu ficava tão entediada que comprei um macaco, só para ter alguém com quem conversar. Mas aí você chegou.

Existe um momento no filme que me chamou atenção: Lizzie diz que a mãe vive tentando arrumar um namorado e sempre pergunta a filha se seus pretendes eram bons partidos. Ela conheceu de perto todos os namorados da mãe, menos o que ela mais queria: o pai. A primeira idéia que se tem é de que a mãe é uma solteirona enxuta e carente.

Na cena em que chegam na faculdade, um homem se aproxima e oferece ajuda. A mãe logo pergunta: “Você acha que ele seria um bom pai?” Logo ocorre uma pequena inversão, entende-se que mãe se culpa pela ausência da figura paterna na vida da filha e sua preocupação não é só encontrar um namorado e sim: a de encontrar um pai. Ela não é uma mãe tão má quanto em princío Lizzie nos leva a achar, se preocupa com a alimentação, higiene e educação da filha.

Quando se despedem, a Senhora Wurtzel sai chorando pelo corredor e Lizzie logo pensa: “sempre estivemos juntas, só nos duas: e minha mãe achou um jeito de se aproveitar disso.” Aquele era no imaginário de Lizzie um momento de ruptura (logo se percebe que  ela precisa da mãe muito mais do que imagina).

Na faculdade Lizzie pode ser o que não conseguiu na escola. Encontrou amigos, chamava atenção dos garotos, bebia, fumava, falava palavrões. Estava longe de casa e deixou seu desejo mais intimo aflorar: o desejo de não ser tratada como estranha (mesmo se sentindo assim). Lá ela conhece Ruby (interpretada por Michelle Williams), que se torna sua melhor amiga: “Se ela fosse homem, me casaria com ela”.  Freqüentam festas, falam sobre os mesmos filmes e músicas – a faculdade simboliza a libertação.

Um dia, passeando pela faculdade avista seu pai: era aquele, o homem que não via há cerca de quatro anos, ele estava justamente ali na sua frente, fotografando uma jovem que provavelmente possuía idade próxima a dela. “Como ele pôde nos trocar por isso?” Ela recorda de quando ainda era criança quando ele a fotografava: “Quando você vai voltar papai? Mamãe disse que se você quiser, ela quer também.” Com um enquadramento em seus olhos subtende-se que essa é uma lacuna que não foi preenchida. E assim ela mente pra si mesma: “Eu não o vejo há quatro anos, não preciso dele mais.”

Lizzie tem uma personalidade forte, mas totalmente susceptível. A sua iniciação no mundo das drogas e da bebida mostram a sua fragilidade. Na primeira vez que utiliza o ecstasy tem alucinações com Lou Reed. Imagina que ele canta pra ela. Seus olhos se enchem lágrimas. As drogas não são um caminho sem volta, mas sem dúvidas, é um caminho terrivelmente dolorido para os envolvidos e no caso representado no filme: ainda mais doloroso para a usuária.

Suas emoções são bem instáveis. Depois que ganha o prêmio de melhor aluna de jornalismo e recebe um convite de trabalho da Revista Rolling Stones, perde o rumo. Parece que tem medo de não conseguir produzir nada interessante então passa a viver disso: de escrever. Não come, não tom banho: só escreve. Gosto muito de quando ela fala: “Escrevo desde sempre, eu preciso”. Mas essa necessidade se torna tão grande, que começa a consumi-la. Ela é grossa com os amigos, não liga para a mãe.

Quando encontra-se em um cerco fechado, Lizzie é convencida a procurar a Dra. Diana Sterling. Ela se questiona inúmeras vezes se aqueles encontram realmente vão ajudá-la. Na primeira consulta, ela diz: “Eu sei que você vai dizer que tenho medo de rejeição por causa da minha relação com o meu pai. Só quero que você saiba que mesmo assim, continuo querendo me encontrar com ele”.

Há uma cena belíssima produzida por Erick Skjoldbaerg, onde ela está sentada, tentando escrever. Em um fade, aparece um disco do Lou Reed rodando e a sala onde ela se encontra, começa a rodar junto. Tomada por um desespero ela entende que teve um bloqueio: não consegue escrever. “Eu quero explicar como estou exausta. Até nos meus sonhos, eu acordo cansada.”

É ai que a Senhora Wurtzel entra novamente na história encenando uma dos diálogos do filme que mais mexeram comigo. Ela se desespera ao perceber que a filha voltou a ter depressão, começa a gritar e a chorar. Lizze recorda da infância e das discussões que a mãe tinha com o pai por telefone: Na cena, aparece a mãe gritando com o pai, enquanto ela rabiscava um desenho, fingindo não ouvir: “Eu a criei sozinha. O que você fez por ela? Eu a criei sem sua ajuda, dei alimentação, roupa, educação. Você nem veio visitá-la ou levá-la pra passear”A mãe quase quebra o telefone e de repente, solta um grito que parecia abafado há anos. Grito de cansaço, de tristeza.

Lizzie promete que vai passar o aniversário junto a mãe. Assim, a Senhora Wurtzel prepara todo um jantar e convida os pais. Mas Lizzie não parece tão animada. Antes mesmo dos seus avôs chegarem, ela bebe e rouba cigarros da mãe. Durante o jantar, a mãe tenta manter as aparências, mostrar para os pais que fez o ‘dever de casa todo e que criou uma boa filha, comenta dos prêmios que ela ganhou: faz uma propaganda da menina.

Mas Lizzie mal se senta a mesa e quando o faz, humilha a mãe. Diz que ela não chegou a ler nenhum de seus trabalhos e que por isso, não tem direito nenhum de falar sobre isso. Os avôs se assustam, perguntam se ela está se drogando. E ela diz: Sim! Eu uso drogas. Depois, adormece no sofá.

A mãe está acabada, ainda assim, cobre e faz um carinho na filha. Em Off, Lizzie diz algo emocionante: ‘Mãe, me desculpe. Me ajude. Eu sei que eu não tenho o direito de me comportar assim.  “Sonhei que tinha dito o contrário do que saiu da minha boca.” Quando se encontram pela manhã o embate acontece.

Lizzie diz que a mãe não paga as suas contas. Isso choca tanto a Senhora Wurtzel que ela pega todas as contas que paga para a consulta da filha e mostra os papéis acumulados. Com os olhos arregalados, revela que está exausta de tanto trabalho extra, só para manter o tratamento de Lizzie. A menina, depois que cai na real chora sem parar, sentindo-se naturalmente culpada.

A trama sofre algumas alterações. Lizzie começa um namoro e mostra ainda mais o seu descontrole emocional. Liga para o namorado sem parar, vai a seu encontro (mesmo quando ele pede um tempo). Ela fica devastada, aquele término de relação faz com que se sinta péssima – ela não sabe (ou simplesmente não consegue) controlar seu ciúme. É aí que a Dra Diana Sterling entra com o Prozac.

Quando a Senhora Wurtzel vai visitar a filha no hospital, acaba sendo assaltada. Leva socos e pontapés no rosto, tem o braço machucado e fica internada. A situação das duas  se inverte mais uma vez. “E assustador pensar que alguém precisa de mim”. Quem já esteve em uma situação como essa, com um pai ou uma mãe internado, deve entender que realmente é assustador. Falando agora por mim: parece que não vai se dar conta, que parte de você fica ali fingindo agüentar quando a outra, quer mergulhar a cabeça no travesseiro e chorar.

Lizzie não é uma má pessoa, apenas não aprendeu a controlar seus sentimentos (ou não consegue). Sua mãe, no final das contas é uma heroína: Está ali para segurar a filha a todo o momento, não se importando em como fazê-lo.

Acho que não preciso escrever mais nada (e acredite, eu ainda teria muito mais o que falar – às vezes eu não consigo deixar de ser prolixa). Na verdade, foquei na relação entre mãe e filha, na complexidade desse amor – foi onde o filme mais me tocou. Termino o Post então, com uma fala que a Senhora Wurtzel emite para a filha, quando as conversam na mesa da sala sobre o fim do namoro de Lizzie.

Quando seu pai me deixou

Você me trouxe de volta a vida.

Você precisava de mim

Você era tudo pra mim.

Confira o trailer:

O Cliente

Essa minha curiosidade em relação à Jessica Lange deve ter ficado muito clara na seqüência de posts que fiz sobre o seu trabalho (e tenham certeza que ainda há muito o que escrever). Ontem mesmo, depois de assistir o filme “Rob Roy – A Saga de uma Paixão” fui ver no Youtube suas indicações ao Oscar e descobri que em 1995 ela acabou ganhando na categoria de Melhor Atriz por Blue Sky, concorrendo com Susan Sarandon (que foi indicada por sua atuação em “O Cliente”).

Há anos fiquei me questionando quem poderia ter “roubado” o Oscar da Susan Sarandon em 1995 e procurei algumas vezes no Google, sem me tocar quem era a Jessica Lange. Longe de tirar o mérito do trabalho dela em “Blue Sky” (que pretendo assistir assim que tiver um tempo), mas se há um trabalho da Susan Sarandon que eu gosto é o da Reggie Love.

Enfim, esse post de hoje não é sobre a Jessica Lange e sim sobre a atuação da Susan Sarandon em “O Cliente”… Vocês entenderam. A primeira impressão que tive do livro de John Grisham foi de que a imagem de Reggie descrita no livro passava longe das feições de Susan Sarandon. O autor descreve a seguinte passagem:

“A primeira coisa que ele notou foi o cabelo de Reggie. Era grisalho e mais curto do que o seu, muito curto acima das orelhas e na nuca, um pouco mais cheio na parte de cima com uma franja que descia desde o meio da cabeça. Mark nunca tinha visto uma mulher de cabelos grisalhos cortados tão curtos. Ela não era velha e não era jovem”.

Mas depois percebi que essa precisão vai muito além de cabelos grisalhos como descritos no livro ou ruivos, como o da atriz. Se existe algo muito exato naquela construção de imagem é de que “ela não era jovem, nem velha”. Bom, a Susan Sarandon tinha 49 anos quando fez aquele filme e quem diria?

Acho muito válido o provável pensamento: “quem faz comparações tão exatas entre filme e livro?” Aí vai à resposta: Eu (apesar de não ter costume nenhum em fazer isso). O que me encanta é que a produção de Joel Schumacher é tão próxima ao livro, que eu não fui pega de surpresa em nenhum momento e não poderia dizer que o detalhamento (esperado em qualquer obra escrita) é muito melhor do que o que se encontra no filme. Ou seja: o filme é fiel ao livro.  – Obs: eu vi o filme primeiro.

O que Grisham e Joel Schumacher conseguem fazer lindamente é colocar em contraponto duas figuras femininas com histórias distintas, sem desvalorizar suas lutas pessoais. Reggie Love é uma mulher forte, que se vê cercada de homens que questionam a todo tempo o seu poder e sua inteligência. Dianne Sway (interpretada por Mary-Louise Parker) é uma mulher pobre e que parece desorientada quanto a criação dos dois filhos pequenos.

Em determinada altura da história há uma sutil mudança de papéis. Fragilizada pelas discussões diárias com os advogados e com o próprio Mark, descobrimos que Reggie Love possui uma história muito triste. Seu passado com o alcoolismo a fez perder a guarda dos dois filhos. Agora ela não parece tão forte assim. Em contraponto, Dianne percebe que precisa tomar uma posição para defender os filhos e se impõe mais. É como se fosse um Yin-Yang, ninguém é tão forte ou tão fraco, ninguém é tão bom ou ruim. Somos todos imperfeitos.

E como eu já li e vi o filme várias vezes, posso garantir que nenhum dos dois perde o ritmo, o que é  garantido  sempre quando tem um nome envolvido: Mark. O garotinho que presenciou todo o assassinato e que foi o responsável por desenrolar toda a trama da história.

Em especial, gosto de uma fala do filme:

“- Ele estava suando

 – Você o encontrou vivo?

– Eu já disse que não

– Mortos não suam Mark.”

E de uma passagem do livro:

– “Num canto da saleta em cima da garagem, Reggie folheava um livro grosso, perto da lâmpada da mesa. Era meia noite, mas ela não podia dormir. Enrodilhada sob um acolchoado, tomava chá e lia o livro encomendada para ela por Clint: Testemunhas relutantes”. Continue reading “O Cliente” →

Um Certo Olhar

Às vezes eu fico encabulada com as traduções brasileiras para os títulos dos filmes. Sempre me lembro de uma das conversas que tive com as meninas da faculdade que disseram

– É a forma que eles encontram para tornar o filme mais vendável.

– Ótimo, peçam para colocar uma legenda de IDIOTA na nossa testa também.

Mas enfim: Há algum tempo estou com este filme gravado em DVD e essa é a terceira vez que sento para vê-lo. Como o início é muito lento, não tinha paciência para chegar aos finalmente, até que hoje: feriado e sem internet, decidi ver tudo até o final. E acreditem: o filme conseguiu minhas lágrimas (o que não é tão difícil, mas).

A história é muito interessante: “Alex (Alan Rickman) é um inglês que está no Canadá para se encontrar com a mãe do seu falecido filho. No caminho, conhece Vivienne (Emily Hampshire) e lhe dá uma carona. No caminho um acidente com um caminhão provoca a morte de Vivienne. Então, Alex decide procurar a mãe da jovem: Linda (Sigourney Weaver). Alex descobre que Linda é autista e quando conversam sobre o acidente, percebe que ela não teve qualquer reação ao saber do acidente da filha. Assim, decide (e de certa forma é impelido por Linda) a ficar até o funeral. Alex conhece Maggie (Carrie-Anne Moss), a vizinha de Linda, com quem acaba tendo um relacionamento”.

“Um certo olhar” é  um filme que levanta questionamentos sobre perda, sobre sofrimento. Quando Alex e Linda são visitados pelo motorista do caminhão que matou Vivienne, Alex fica nervoso – pede para que ele saia. E Linda diz algo interessante: “Eu não vou ter Vivienne de volta, nem você, nem ele.” O que a cena sugere é: porque prolongar a dor? “Vivienne morreu, mas nós estamos vivos”.

Além da fotografia linda, temos um presente: a atuação brilhante de Sigourney Weaver é de contagiar qualquer um. Ela consegue fazer com que as “manias” chatas de Linda, se tornem cativantes. É como se entrássemos na cabeça do personagem para entender que um tapete fora do lugar, ou uma manchinha no sofá representam um real sofrimento, algo tão grande que a impede até de levantar da cama. Aquele é o universo dela, da autista, e precisa ser respeitado. Ah, e quanto ao nome do filme: Assistam para descobrir por que Snow Cake, ou: “Torta de Gelo”

Ficha Técnica:

Duração: 1h 52min

Dirigido por: Marc Evans

Gênero: Drama

Nacionalidade: Reino Unido, Canadá

Com: Alan Rickman, Carrie-Anne Moss e Sigourney Weaver

A semiótica de Ozon – Oito Mulheres

-Cuidado com Spoilers!

Baseada em uma peça homônima de Robert Thomas – escritor famoso no teatro popular dos anos 70, a história se passa na década de 1950, em uma residência francesa, onde uma família se reúne para comemorar o Natal. A tempestade de neve que cai na cidade impede que as moradoras saiam. Isoladas, as oito mulheres se vêem envolvidas em um mistério, já que o único homem da casa, Marcel, é assassinado. Cada uma delas tem suas razões para matar Marcel e por isso, buscam pistas e trocam acusações. Tem-se aí o início de um longo dia de investigação que faz com que muitos segredos sejam revelados.

Observa-se desde o início do filme, nos diversos diálogos entre as personagens, que a figura masculina de Marcel apesar de se mostrar praticamente ausente (já que aparece em duas cenas, sem mostrar o rosto e sem falas), serve como uma referência e encontra-se presente no discurso, nas reflexões e nas imagens construídas nos diálogos. Em 8 Mulheres a figura masculina é um signo e um significante.  Para compreender melhor o conceito de signo, Santaella explica que:

 O signo é uma coisa que representa uma outra coisa:  seu objeto. Ele só pode funcionar como signo se carregar esse poder de representar, substituir uma outra coisa diferente dele. Ora, o signo não é o objeto. Ele apenas está no lugar do objeto. Portanto, ele só pode representar esse objeto de um certo modo a uma certa capacidade.  (SANTAELLA, p.58, 1983)

O signo faz parte de um processo de comunicação já que permite transmitir informações. Uma mensagem, por exemplo, possui um conjunto de signos e segundo Santaella (1983, p.59) “a relação de representação que o signo mantém com o seu objeto, produz-se na mente interpretadora um outro signo que traduz o significado do primeiro.”

As produções cinematográficas possuem grande potencialidade ao transmitir uma mensagem ao telespectador e podem fazê-lo através da aproximação da realidade do receptor. Segundo Lotman (1978), no cinema, quanto maior for a analogia entre a arte e a vida e a sua semelhança, maior e mais imediata será a recepção por parte do espectador. No caso de 8 mulheres, a obra é uma descrição de um mundo fantástico e por isso, o diretor permite-se abusar de cenários teatrais.

O HOMEM

Há quem estabeleça uma ligação entre o filme de Ozon com “The Women” (de George Cukor, 1933) e com os mistérios de Agatha Christie. Na verdade, cada personagem, representado por carismáticas e populares atrizes francesas (entre elas Catherine Deneuve, Isabelle Huppert e Fanny Ardant), possui uma relação complicada com Marcel que alimenta o confronto entre elas.

No entanto, como o personagem não possui falas nem rosto, é possível dizer que sua figura é praticamente construída através do discurso de cada mulher. Suas características são evocadas por meio de histórias que Augustine (cunhada, apaixonada por Marcel) conta, por casos do passado que Piarrete (irmã de Marcel) relembra ou por presentes caros que Gaby (mulher de Marcel) exibe.

A figura do homem é um signo ideológico que reflete a realidade de todas as personagens: uma mulher apaixonada pelo marido da irmã, uma mulher que engravidou do próprio padrasto, uma filha que ama o pai, uma mulher que chantageia o irmão para conseguir dinheiro, uma mulher que decide abandonar o marido, duas empregadas que odeiam o chefe e uma senhora que precisa que sua filha continue casada para manter seu padrão social.

O personagem de Marcel (e o símbolo que ele representa na construção da trama) cumpre diversas funções, ele é marido, irmão, chefe e pai, sem que seja necessário defini-lo como um homem bom ou ruim, afinal, uma delas (ou todas) está mentindo. Marcel foi assassinado com uma faca nas costas e não é possível ouvir sua versão da história. O mistério em relação a sua personalidade fica mais forte através da linguagem de cada mulher utiliza. Vale lembrar que cada uma delas possui um quadro musical dentro da trama e todas as músicas representam o que cada mulher sente em relação aquele homem.

Sua figura representa certa fragilidade afinal, nas duas cenas que aparece, apesar de estar de costas, está visivelmente triste e cansado. E em uma delas, o homem tenta se expressar, porém sua mulher não o escuta. O personagem não tem voz, não tem rosto e mesmo assim, assume uma posição crucial dentro da trama, isso porque as mulheres o caracterizam com tal importância.

 O FIGURINO E AS CORES

“Porque Augustine usa uma roupa marrom e esses óculos com lentes escondendo aqueles olhos azuis tão bonitos?”, pergunta Piarrete em um dos momentos do filme.  Se François Ozon fosse responder, provavelmente diria que a roupa de cada personagem é um reflexo de suas personalidades. No caso de Augustine, por exemplo, que é uma das personagens mais caricatas da trama, o seu vestuário exprime toda a sua excentricidade. Ela é uma mulher frívola, hipocondríaca e solteirona.

Um de seus momentos mais marcantes é quando descobrem o amor secreto que nutria por Marcel. Augustine resolve então tirar toda aquele vestuário e passa a vestir roupas tão bonitas quanto as das outras personagens, além disso, solta dos cabelos, abandona os óculos e passa a usar maquiagem. Nesse caso, a o vestido era apenas um signo representando o seu objeto.

Tanto os figurinos, quanto os cenários, são marcados por cores fortes. Percebe-se a predominância de tons vermelhos, azuis e amarelos.  Em determinadas cenas a presença da iluminação determina e nos indica sensações. Quando Gaby e Pierrete discutem na sala, começam a lutar fisicamente e caem sobre um enorme tapete vermelho, o cenário fica mais escuro, a música até então agitada se acalma, e as mulheres se beijam.  No momento em que as outras mulheres que estavam rondando a casa em busca de uma saída chegam, a iluminação do ambiente volta a ficar mais clara.

As sombras que acompanham os corpos de Gaby e Piarrete, em contraste com a neve que cai sobre a janela, sugerem certo erotismo na cena que se confirma com o beijo. Piarrete, que usa um vestido vermelho é uma prostituta que mantinha uma relação secreta com a empregada da casa do irmão (Marcel) e Gaby, que usa um vestido azul é a mulher de Marcel. Desde o início do filme, as duas possuem uma relação de rivalidade.

Em análise de secundidade, o sentimento (ou a impressão) em relação a esta cena pode variar de pessoa para pessoa, criando ou não um laço de identificação com os personagens que dialogam. O fato é que esta cena contou com um grande trabalho do diretor, dos produtores e das atrizes, que se dedicaram a criar elementos que envolvessem o telespectador, principalmente como explica Ozon, através de inserções musicais mais fortes

AS MÚSICAS

Cada uma das oito mulheres da trama possuem uma cena musical. Todas as músicas têm uma ligação com o relacionamento com Marcel. A música na trama se transforma em um instrumento para dar significado às emoções que as mulheres sentem no momento e é utilizada como uma linguagem que permite uma interação entre as personagens e os telespectadores, afinal, todas elas encaram as câmeras, como se cantassem diretamente para o público.

Além disso, a ambientação de cada cena é crucial para que o receptor possa estabelecer uma interpretação do que elas querem dizer. O cenário, as cores e a iluminação enriquecem o trabalho de cada atriz e permite que interajam entre si. Em todos os momentos musicais, as mulheres cantam ou são assistidas pelas outras.

 

Toi Jamais: A música interpretada por Catherine Deneuve demonstra a infelicidade de Gaby (mulher de Marcel) em relação ao seu casamento. Gaby, no final da trama confessa que pretendia abandonar o marido para viver com outro homem.

Car homme,                               Para o homem

Tu n’es qu’un homme             Você é um homem

Comme les autres                     À semelhança de outros

Je le sais                                    Eu sei

Tu es mon homme                   Você é meu homem

Je te pardonne                           Eu te perdôo

Et toi jamais                              E você nunca

Message Personnel:

 A música interpretada por Isabelle Huppert exprime o desejo contido de Augustine em relação a Marcel. Neste momento da trama, a personagem confessa que ele é sua paixão há muitos anos, no entanto, ela não tinha como dizer, afinal era sustentada por sua irmã e tinha que cuidar de sua mãe.

Et il y a des mots que je ne dirai pas               E há palavras que não digo

Tous ces mots qui font peur quand ils ne font pas rire

Todas essas palavras estão com medo quando não rir

Qui sont dans trop de films, de chansons et de livres

Quem está em muitos filmes, músicas e livros

Je voudrais vous les dire         Eu diria a você

Et je voudrais les vivre            E eu quero viver

Je ne le ferai pas,            Eu não vou,

Je veux, je ne peux pas                    Eu quero, eu não posso

Je suis seule à crever, et je sais où vous êtes

Estou morrendo sozinho, e eu sei onde você está

SIGNOS

 Para facilitar a interpretação dos signos disponíveis no filme, é necessário ter conhecimento sobre os três conceitos abaixo. De acordo com SANTOS:

 “Peirce desenvolveu a semiótica, que para ele é a mesma coisa que lógica, ou  a ‘ciência das leis necessárias gerais dos signos e, especialmente dos símbolos’, num nível de abrangência muito grande. Ele formulou uma fenomenologia com base em três categorias. “Analiso a experiência, que é a resultante cognitiva de nossas vidas, e nela encontro três elementos (PEICE, CP.  84). Fenômeno, para ele é tudo que aparece para nos em todos os momentos de nossa vida”. (SANTOS, p. 1)

Primeiridade: é a categoria do ser, da pura qualidade e está relacionada com o presente absoluto, com aqui e agora. “(…) e aquilo que é sem reverência a qualquer outra coisa dentro ou fora dele” (PEIRCE, CP 85). Ele a denomina também de oriência. “O mundo está cheio deste elemento de originalidade irresponsável, livre”.

Secundidade: Categoria do existir, do acaso, da “força bruta”, da ação do passado sobre o presente. É uma categoria binária, também chamada de obsistência e consistirá na ausência de qualquer razão, regularidade ou norma. “O mercador das ‘Mil e Uma Noites’ jogou fora um caroço de tâmara que feriu o olho de um demônio. Este ato foi puramente mecânico, e não houve uma triplicidade genuína. (PEIRCE, CP 86).

Terceiridade: Categoria do ser em futuro, da representação, significação e comunicação. Um futuro que influencia o presente de modo triádico, não dualista, como o passado influencia o presente. “Mas se ele (o mercador) houvesse feito mira no olho do demônio, teria havido algo mais que o simples jogar do caroço (…). Aqui teria intervido a intenção, a ação da mente. A triplicidade intelectual, ou mediação, e minha terceira categoria” (PEIRCE, CP 86).

O quadro seguir sintetiza os trechos selecionados e respectivamente, o signo e significados identificados tendo como base os conceitos de primeiridade, secundidade e terceiridade expostos acima

O filme é marcado por uma revelação. Depois de tantos diálogos sobre o assassinato e sobre as impressões que cada personagem tinha a respeito de Marcel, Catherine (a filha mais nova) revela que seu pai está vivo. A inquietação das mulheres é clara, afinal aquela armação fez com que cada uma revelasse seus segredos mais profundos.  O discurso de Catherine em relação ao pai e aos acontecimentos deixa claro que toda aquela situação foi planejada. A menina revela que cortou os fios do telefone, sumiu com as chaves e que junto ao pai, forjou uma cena de assassinato.

É nesse momento, que cada mulher pensa na sua situação, afinal depois de tantas revelações não é possível voltar atrás. Nenhuma delas tenta mudar o discurso que criaram em relação ao homem durante o desenvolvimento da trama. Quando vão ao quarto de Marcel, para tirar satisfações, deparam-se com uma cena surpreendente. Marcel suicidou-se.  A reviravolta da trama e principalmente do papel (o símbolo e o significado) que o personagem e único homem representa se dá nesse momento. O homem se mata por não conseguir conviver com tanta hipocrisia.

FICHA TÉCNICA

  • título original:  8 Femmes
  • gênero:  Musical
  • duração: 01 hs 43 min
  • ano de lançamento: 2002
  • site oficial: http://www.8femmes-lefilm.com/
  • estúdio: Le Studio Canal+ / Centre National de la Cinématographie / Fidélité Productions / France 2 Cinéma / Gimages 5 / Mars Films
  • distribuidora: USA Films / Imovision
  • direção:  François Ozon
  • roteiro: François Ozon e Marina de Van, baseado em peça teatral de Robert Thomas
  • produção: Olivier Delbosc e Marc Missonier
  • música: Krishna Levy
  • fotografia: Jeanne Lapoirie
  • figurino: Pascaline Chavanne
  • edição:Laurence Bewedin

Elenco:

Referências Bibliográficas:

1. SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 9ª edição, 1983

2. PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica e filosofia. São Paulo, SP: Cultrix, 1977.

3. LOTMAN, Yuri. Estética e semiótica do cinema. Lisboa: Editorial Estampa 1978.

4. BONA, Rafael José. A semiótica do Cinema: O signo paterno no filme Central do Brasil. Disponível em < http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2007/resumos/R0005-1.pdf > Acesso em: 22 de nov. 2010.

5. Terra Letras. Disponível em < http://letras.terra.com.br/8-femmes/> Acesso em: 22 de nov. de 2010

6. SANTOS, José Milton. Semiótica Peirceana.

7. Adoro Cinema. Disponível em < http://www.adorocinema.com/filmes/8-mulheres/> Acesso em: 22 de nov. de 2010

Ética, estética e Cinema

reflexão rápida, porque ninguém é de ferro.

A produção cinematográfica, assim como tantas outras produções artísticas, ocupa um papel importante na compreensão e valorização da subjetividade humana. Não sendo considerada apenas uma “forma de fazer arte”, o cinema quando realizado com um compromisso ético, cumpre a função de retratar a realidade. Em outros casos (ou, porque não dizer: quase sempre), é possível que o cineasta deixe de ser um observador para expressar os seus pontos de vista.

A narrativa do espaço fílmico assume perante os espectadores e perante os personagens, uma relação importante que propicia comportamentos e emoções. No âmbito da ética, vários aspectos precisam ser observados como: filmar só quem autoriza ser filmado, linguagem, contraste, sombras, sons, campos e cortes.

O cinema (seja na construção de documentários ou películas de entretenimento) trabalha com a interioridade das personagens (tanto nos gestos quanto na própria palavra dita) e depende também do ambiente, valoriza a história e determina como os fatos deverão ser narrados. Algumas situações, por exemplo, são menos filmadas por serem menos filmáveis (locais com espaço reduzido, pouca luz). Como reflexão sobre essas premissas, temos ainda que salientar a importância dos créditos e dos roteiros.

As discussões disponíveis neste blog não possuem o intuito de ensinar ou analisar a estética das obras audiovisuais. O texto acima, que ajuda a apresentar o tema é apenas o início de reflexões sobre a abordagem e o papel do cinema. Como proposto no post anterior, a pergunta “é possível dar conta da produção cultural das grandes cidades sem ser injusto?”

Nem gravata, nem honra

Cunha, pequena cidade situada na divisa entre o Rio de Janeiro e São Paulo é o cenário do documentário “Nem Gravata, nem honra” de Marcelo Masagão, que propõe a determinados moradores, interessantes questionamentos sobre as diferenças entre os sexos. De forma ilustrativa e divertida, o diretor permite que os personagens assistam a gravação de suas entrevistas após um ano e pede que comentem sobre elas.

Em uma das entrevistas, realizada em uma escola, uma criança (menina) diz que os homens sentem-se envergonhados de se aproximar dos filhos e conclui que justamente por serem homens, devem se portar de maneira mais fria. Por outro lado, em sua visão, a mulher possui a figura da doçura materna, é aquela em que os filhos podem confiar e descarregar seus problemas emocionais. Para reforçar essa idéia o diretor se utiliza de exemplos que enriquecem ainda mais a trama.

 Um deles é o da professora que antes de se dedicar a profissão, ficava em casa cuidando dos filhos enquanto seu marido (publicitário) saia para trabalhar e assumia as despesas da casa. O prefeito de Cunha confessa que não tinha uma relação próxima com seu pai e que também é distante dos filhos, mas de acordo com a sua concepção, é algo que contribui para a educação deles. Não muito distante, há uma frase muito repetida da qual me recordo ouvir na infância: “Os filhos são da mãe e não do pai”.

A professora, de início, só se sentiu motivada a tirar carteira, estudar e começar a trabalhar, quando viu seu marido oferecendo carona para a vizinha. Depois que venceu seus próprios preconceitos, também se viu obrigada a responder questionamentos de outras pessoas, como os da sogra, que lhe questionava se a educação dos filhos estaria em jogo em conseqüência de tal emancipação.

Neste contexto, assim como exemplifica Laraia em sua obra “Cultura, um conceito antropológico”, existem mulheres que em outros países e distintas sociedades, desempenham atividades que na nossa cultura, podem ser considerados trabalhos específicos de homens.

Por que há quem acredite que a mulher não tem condições para desempenhar a função de pedreiro, se por outro lado, em bairros mais pobres (ou sem água), carregam baldes pesados, lavam, passam e cozinham para toda a família? Tanto o livro de Laraia quanto o documentário, são obras importantes pra desmistificar o determinismo biológico, que em resumo, estabelece diferenças entre os homens tendo como base o gênero ou as raças.

O homem de um dos casais entrevistados, afirma que afigura masculina possui mais “moral”, é ele que representa a moral da família, de forma paternalista, é quem manda na casa e nos morados que nela se encontram. Mas essa moral é questionada com outro exemplo. Quando outro casal é entrevistado, o espectador se depara com uma situação incomoda.

A mulher foi traída, aceita o homem de volta e sente-se culpada por estar envelhecendo. Durante o documentário, ainda ressaltam que a mulher cede à entrevista na cozinha e o homem, na sala, delimitando o lugar a que cada um “realmente” pertence.

O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. Tendo como base esse conceito, podemos ter um dos entrevistados como exemplo que afirma que a homossexualidade é “coisa” de latino americano. Mas essa influencia geográfica, como contrapõe Laraia, também é falsa afinal, será mesmo que se uma criança recém nascida (por exemplo) for retira da França e for criada no Brasil, terá características e uma cultura muito distinta da nossa?

Dogma 95

O filme dinamarquês “Festa de Família” foi o primeiro a receber o certificado de obediência ao Dogma 95. A narrativa explora a história de Helge (interpretado por Henning Moritzen) que ao completar sessenta anos, decide reunir a família para uma comemoração. A festa transcorre sem incidentes maiores até que o seu filho mais velho diz que seu pai o estuprava (junto a sua falecida irmã gêmea) com o consentimento da mãe.

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O diretor Thomas Vinterberg, contrapondo às regras do convencionalismo, utilizou uma câmera de mão (semelhante à imagem de registro caseiro em VHS) que sempre em movimento, tornou-se uma complementação à subjetividade dos personagens envolvidos na trama. Além da luz natural, é possível perceber a reprodução dos sons do ambiente.

Em 1998, Lars Von Trier surpreendeu o público com seu filme “Os Idiotas”, sua única obra totalmente fiel ao movimento Dogma 95. Em busca da essência do cinema, o diretor realizou o filme em locações (e não em estúdios), sem efeitos especiais, iluminações ou trilhas sonoras. Assim como em “Festa de Família” a câmera ficava na mão do cinegrafista. O filme conta a história de uma mulher deprimida e solitária que se agrega a um grupo de pessoas normais que para chocar a sociedade e desestabilizar costumes, se passam por portadores de doenças mentais.

No mesmo ano, Søren Kragh-Jacobsen recebe o Urso de Prata no Festival de Berlim por seu filme “Mifune – Dogma 3”. Ao contrário dos dois filmes anteriores, a câmera não treme e a imagem é nítida. Mesmo na busca pela “inocência perdida” do cinema, o diretor realiza uma das obras mais líricas do movimento.

 A obra conta a história de Kresten que se casa com a filha do patrão e que tem a lua-de-mel interrompida pela morte de seu pai. O personagem se vê obrigado a partir para a fazenda da família para tomar decisões sobre o enterro e resolver o que fazer com seu irmão que é portador de deficiência mental. Com dificuldades para cuidar do seu irmão, coloca um anúncio no jornal e quem responde é Lívia, uma prostituta por quem Kresten se apaixona.

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Já em 2000, Kristian Levring adere ao movimento e lança o seu filme “O Rei está vivo – Dogma 4”. Nele, um grupo de pessoas (de diferentes idades, etnias, sexo e crenças) fica isolado em um deserto da Namíbia. Diante do desconforto, do calor e da fome, surgem sentimentos, frustrações e conflitos de valores.  Até que em um momento, um dos personagens, sugere a encenação de uma obra Shakespeariana, “O Rei Lear”.

O Dogma 95, com suas restrições e como voto de castidade, propõe adequar o cinema na representação da verdade. Atualmente, cerca de 80 filmes, produzidos em diversos países (como Itália, EUA, México, Canadá) já receberam o certificado.

2X1

Como sou fã alucinada de Kristin Scott Thomas, aí vai a dicas de dois filmes para “não” ver com a atriz, ou melhor: veja, mas não vá com tantas esperanças. E também a dica de um filme maravilhoso com ela, que você não pode perder:

UM CRIME DE AMOR

(Crime d’amor, de 2010 – direção: Alain Corneau)

Li algumas coisas sobre esse filme que conta a história de “crime perfeito” e fiz  download dele há alguns meses, na esperança de ser um interessante simplesmente por ter um história dessas e trazer como personagens principais ótimas atrizes como Kristin Scott Thomas e Ludivine Sagnier. Quanto à atuação delas, não há o que ser questionado, são ótimas e representativas dentro do que o roteiro permite. No entanto, se engana quem acredita que há alguma novidade nessa história. É bem possível que você termine de ver o filme se perguntando a mesma coisa que eu: acaba assim? Fiquei até um pouco decepcionada, porque o filme promete muito, mas não cumpre. A história também não é nada diferente do que estamos acostumados: Uma chefe calculista (e sedutora) versus uma funcionária tímida e competente. No início percebe-se até um “clima” entre as duas, que trocam olhares e toques e quase se beijam (será essa a justificativa do título?), mas essa relação (ligação sexual, ou seja, lá o que for) não se concretiza. O que resta é a pergunta: A chefe conseguiu seduzir a funcionária a ponto de provocar tal desejo de vingança ou são as humilhações que ela a fez passar que causou todo esse final drástico?

A MULHER DO QUINTO ANDAR

(La femme Du Vème, de 2012 – direção: Pawel Pawlikowski)

 Quando eu vejo um filme desses, com uma sinopse tão chamativa, com uma capa linda e não consigo pegar o ritmo, me sinto meio burra. As críticas nos blogs de cinema são as melhores possíveis, mas os comentários de espectadores não especializados que assim como eu, viram o filme e não gostaram – são até reconfortantes. Eu estou acostumada com filmes europeus, sem aquela explosão de acontecimentos que o formato americano traz, mas não é só isso. Ficou um vazio: um “quê” de quero mais, talvez por uma falta de seqüência ou de explicação mesmo. Não adianta jogar recortes para o público e pedir: engula! (alguns fazem isso muito bem, mas enfim). A história já é bem complexa, então, se você pegar esse filme para assistir e não ler nada precisará de uma percepção do cão para conseguir interpretar certas passagens. Tom Ricks é um escritor que possui uma restrição judicial em relação a sua filha, que mora em Paris. Depois de sair da cadeia (por crimes que não ficam claros se cometeu ou não), ele vai a França para tentar se aproximar da menina. Fica em uma pensão de segunda, rodeado de gente estranha e aceita pegar um trabalho onde é orientado a “não fazer perguntas”, só abrir a porta para quem tiver a senha. No meio dessa confusão (onde o próprio personagem se perde, sem saber o que é realidade ou não), ele vai até a festa na casa de um escritor e conhece Margit. Bom, o que seria o diferencial é justamente o que leva o filme para o ralo.

CONTRE TOI

(direção: Lola Doillon, 2010)

 

Esse filme foi uma surpresa boa, recheado de suspense e erotismo. Ainda que com o ritmo do cinema europeu (meio parado), o filme consegue transmitir essa sensação aflitiva e realista dos personagens: a do seqüestrador e da seqüestrada. Diante da dor, do íntimo e da violência os dois mundos paralelos acabam se unindo, se relacionando. Gosto da seqüência, gosto das falas, das cenas, da violência e especialmente do final (esse sim surpreende). Yann perde a esposa que morreu dando a luz. Desesperado, deixa a filha com a avó materna e resolve seqüestrar Anna, a média responsável pelo parto. Ele a prende em um quarto mal iluminado, sem banheiro e sem comida. Talvez a forma de responsabilizar alguém pela dor que sentia e fazê-la sentir o mesmo, ainda que fisicamente. Mas Anna não se sente culpada pela morte da mulher de Yann, ela não provocou aquilo. Ela esmurra a parede, se debate contra a porta até perder as forças. Há uma cena interessante: ela está com muita sede, ele então entra no quarto com uma garrafa de água. Bebe a água, joga o resto no chão e vai embora. E ela fica ali, indefesa. – É, não vou ficar descrevendo o filme, tem que ver para entender o quanto é bom.