Ron Woodroof (interpretado por Matthew McConaughey) é um texano heterossexual, conservador e homofóbico que, após um acidente no trabalho, é internado em um hospital e descobre ter AIDS. O filme, dirigido por Jean-Marc Vallée, acompanha Woodroof durante os processos da doença e mostra como ele travou uma batalha contra a indústria farmacêutica, ajudando milhares de pessoas soropositivas em seus tratamentos. A trama, que se passa na década de 1980 e é baseada em fatos reais, também conta com Jared Leto e Jennifer Garner.
MCCONAUGHEY, O CLUBE … E O OSCAR
Quem vê Matthew McConaughey agora, talvez não se lembre da época em que o ator protagonizava comédias românticas ou filmes de ação com diálogos babacas e superficiais (nem todos, eu sei!). McConaughey está definitivamente mais maduro e, de certa forma, carrega consigo o filme. Jared Letto também está incrível (aliás, ele é incrível), mas o seu personagem não é tão bom quanto o de McConaughey, não mesmo. (Pode parecer que eu estou menosprezando o Letto, não é isso, acontece que ele possui desempenhos muito melhores do que esse.)
A gente sabe que a academia adora transformações físicas, o público se impressiona quando os atores emagrecem muito ou engordam demais para o papel, não é atoa. As transformações físicas demonstram o comprometimento, a dedicação e as dificuldades impostas pela produção.
Mas, ligar o filme apenas a esse aspecto é uma injustiça. “Clube de Compras Dallas” possui uma história densa e interessante, uma estética ambígua e diálogos bem construidos. A ambientação é de deixar o queixo caído, principalmente quando se dá conta de que o filme contou com um orçamento de 5 milhões de dólares… pode parecer muito, mas não é – esse orçamento é de um filme pequeno. Talvez por isso, apresente uma estética tão documental.
Em relação aos personagens, o destaque mais uma vez vai para McConaughey, afinal, Ron Woodroof é um homem desprezível que vai se redimindo ao longo da trama. Não dá para questionar a sua indicação de melhor ator ao Oscar, aliás, meu coração está completamente dividido entre ele e Leonardo DiCaprio (que concorre por O Lobo de Wall Street).AINDA SOBRE A AIDS…
Clube de Compras Dallas é um filme sensacional, depois de assisti-lo fiquei com uma vontade imensa de reler “Doença como metáfora”, escrito por Susan Sontag em 1988. Já na segunda parte do livro (dedicado à AIDS), Sontag afirma que o HIV banalizou o câncer. Contextualizando essa afirmação (com a doença explodindo exatamente nesse período), o que Sontag diz parece bastante plausível. Ela ainda afirma o seguinte: “Ao contrário do câncer, entendido como uma doença provocada pelos hábitos do indivíduo (e que revela algo a respeito dele), a AIDS é concebida de maneira pré-moderna como uma doença provocada pelo indivíduo enquanto tal e enquanto membro de algum “grupo de risco” – essa categoria burocrática, aparentemente neutra, que também ressuscita a ideia de uma comunidade poluída para a qual doença representa uma condenação”.
Incrível como essa reflexão está bem representada no filme e, como a sociedade parece mergulhada e engessada em seus próprios preconceitos – ainda hoje, é claro. Uma das denominações mais estupidamente criadas e usadas por um longo período foi chamar a AIDS de “câncer gay”, ligá-la apenas a homossexuais, bissexuais ou prostitutas. A gente sabe que qualquer heterossexual que transa sem proteção está igualmente exposto a contaminação. Lembro-me bem de uma campanha publicitária governamental que incentivava homens e mulheres acima dos 60 anos (casados ou não) a usarem camisinhas. Uma quantidade absurda de idosos foi diagnosticada com a doença (não sei como estão os dados atuais) e não se davam conta disso, acabam recebendo o tratamento tardio.
E o “Clube de Compras Dallas” toca na ferida, sabe exatamente onde ir. Além portar uma doença terrível, essa pessoas precisam conviver com o pré-conceito, que já é em sí, uma coisa absurdamente cruel. Por isso a grandiosidade do filme, não só por apresentar boas atuações, mas por trazer um retrato sincero sobre o HIV, de colocar o assunto mais uma vez em pauta. Relembrando Susan Sontag mais uma vez, há uma passagem no livro em que ela diz “A idéia da doença como castigo é a mais antiga explicação para a causa das doenças”.
David Gilmour é um crítico de cinema desempregado. Seu filho, Jesse, de apenas quinze anos, não vai bem na escola e recebe sucessivas reprovações. Preocupado, David permite que Jesse largue a escola contanto que assista com ele – semanalmente – clássicos do cinema. Juntos, pai e filho criam o “Clube do filme” e passam dias assistindo e comentando produções famosas como O Poderoso Chefão, A doce Vida, Uma Rua Chamada Pecado, Ladrões de Bicicletas, Tio Vânia Em Nova York (…).
A história é sincera e envolvente, mais do que uma trama sobre pessoas que gostam de cinema, “O clube do filme” retrata a complexidade das relações humanas e familiares. Gilmour, que parece despretensioso, deixa bem claro que como pai, está sujeito a erros e acertos. Com essa convicção, tenta fazer com que o filho perceba que amadurecer (seja amorosamente ou financeiramente) envolve um processo muito mais complicado do que ele imagina.
“Indicar filmes às pessoas é um negócio arriscado. De certa forma, é algo tão revelador quanto escrever uma carta para alguém. Mostra como você pensa, aquilo que o motiva, e algumas vezes pode mostrar como você acha que o mundo o enxerga. Então, quando você recomenda com entusiasmo um filme a um amigo, e diz: “Ah, é bom demais, você vai adorar”, é uma experiência desconcertante quando você o encontra no dia seguinte e ele diz: “Você achou aquilo engraçado?”
Um livro para cinéfilos?
Li “O Clube do filme” aos pouquinhos, marcando e voltando em passagens (ou em dicas) que me pareciam interessantes. Percebi que existe uma gama de clássicos que desconheço e que preciso assistir urgentemente. De fato, foi isso que me prendeu ao livro, Gilmour citava um filme e comentava sobre a impressão que teve dele. Mesmo com comentários superficiais, ele conseguia me deixar curiosa para saber mais.
Em algumas passagens, por exemplo, o autor diz que poucas pessoas prestam atenção na beleza do poema final do velho em “A noite do Iguana” (de John Huston). Que existiu uma época em que Woody Allen só filmava filmes maravilhosos, como Crimes e Pecados (de 1989). Que a Lolita de 1997 criada por Adrian Lyne é muito melhor do que a de 1962 criada por Stanley Kubrick. Que Marlon Brando quase foi escalado para o papel do padre em O Exorcista, que Quentin Tarantino passou mais de cinco anos tentando vender o seu primeiro roteiro (…)
Por isso mesmo, acho que, apesar da história principal se basear na relação entre pai e filho (e não ter sido explorada suficientemente, talvez por não ter tanto espaço naquele contexto), o livro é direcionado a pessoas que gostam de cinema ou que, pelo menos, conhecem nomes de atores e diretores. Outra coisa divertida da história é que David e Jesse categorizam os tipos de filmes como: “Prazeres Culpados” (filmes ruins, mas que a gente adora) ou ” Filmes Superestimados”.
P.S. Sobre a relação entre pai e filho, uns aspectos me incomodaram um pouco. David pareceu passivo demais, enquanto Jesse fazia burrada atrás de burrada, sem receber punições. “Pai, usei cocaína ontem”. “Tudo bem filho, se você o fizer de novo, não assistiremos mais filmes juntos”… (WTF?!)
Para quem participa do Filmow, existe uma lista com os filmes citados no livro, onde você pode marcar quais já assistiu e quais pretende assistir:
Em “Os Candidatos”, Will Ferrell interpreta Cam Brady, um deputado estadual corrupto que está há anos no poder e conhece bem o meio em que vive. Em vésperas das eleições, Brady é o único candidato ao posto e não se preocupa com a má imagem que vem construindo ao longo dos anos. Inesperadamente, uma dupla milionária investe em Marty Huggins (Zach Galifianakis), um homem inexperiente no ramo da política, mas com boa imagem e boas intenções.
Marty começa a chamar atenção dos eleitores. Preocupado em perder votos, Cam faz de tudo para melhorar as estatísticas e usa os artifícios mais baixos, desde ofensas pessoais a boicotes, para se manter na frente. Quando Marty percebe que o cenário eleitoral é muito mais cruel do que ele imagina, decide entra no jogo, criando uma verdadeira guerra.
* Pode parecer incrível, mas nem Zach Galifianakis nem Will Ferrell conseguem fazer desse, um filme agradável. A trama é interessante, há um crítica muito bem construída em relação aos políticos (e suas respectivas politicagens), mas o conjunto da obra não é engraçado, algumas cenas de mal gosto prejudicam o desempenho do filme e a trama vai se arrastando até tornar-se insuportável.
Galifianakis, aliás, está aqui… mais um vez, repetindo aquele personagem clichê – que já deixou de ser novidade: no filme ele interpreta um cara bobão, meio sentimental, que sempre se perde nas conversas e solta os comentários mais absurdos.
Já estamos acostumados com comédias do tipo pastelão, que usam e abusam do grotesco e do humor negro, mas aqui há uma dosagem muito forte, erraram na mão. Em uma cena, por exemplo, o personagem do Will Ferrell se engana e acaba dando um soco no rosto de um bebê, pode? O mais irônico de tudo isso é que tanto Galifianakis quanto Will Ferrell também atuam nesse filme como produtores, depois de tantos filmes, como não perceberam que “Os candidatos” é uma verdadeira bomba?
Ficha Técnica:
Título: A Campanha (The Campaign)
Ano de produção: 2012
Dirigido por: Jay Roach
Gênero: Comédia
Está em busca de filmes sobre adoção? Dá uma olhadinha nesse post!
Ontem uma colega me pediu uma dica, disse que precisava de nomes de filmes sobre adoção pois queria assistir com umas crianças do colégio. Imediatamente lembrei de alguns, mas percebi que nunca prestei atenção sobre o tema.
Em princípio, a ideia me pareceu fácil, mas quando fomos (juntas) colocar os títulos no papel conseguimos nos lembrar de apenas dez. E, aliás, nem todos são infantis (o que me deixou um pouco frustrada). Relendo os títulos, não duvido que existam filmes mais apropriados…de qualquer forma, foi assim que a listinha ficou, dêem uma olhada:
1) O MENINO DE OURO
Não sou muito fã desse filme porque além de inverossímil, carrega – em exagero – muitos clichês relacionados a drama familiares. Ainda assim, ele encabeça a lista porque é uma boa escolha para quem quer discutir adoção com uma criança. Além disso, o filme transborda humor, amor e magia e pode servir como passatempo.
“Menino de ouro” é um filme de 2011, dirigido por Jonatah Newman, protagonizado por Toni Colette, Maurice Cole e Ioan Gruffudd. A trama conta a história de Alec e Zooey, um casal traumatizado pela morte de seu único filho. Anos depois do acidente eles decidem adotar uma criança e fazem uma rápida visita a um orfanato, lá avistam um menino lindo chamado Eli, mas não o levam para casa.
Pouco tempo depois, Eli (que tem apenas sete anos) aparece inesperadamente na porta deles e afirma que a partir daquele momento serão uma família. Mesmo relutantes (já que não assinaram nenhum papel de adoção) o casal aceita Eli na casa. A chegada do garoto que provocas inúmeras surpresas e transformações na vida do casal.
2) O DESTINO DE UMA VIDA
Há algum tempo comentei sobre esse filme no La amora (confira!) e o coloco na lista porque merece atenção. O destindo de uma vida (Losing Isaiah, 1995) é um daqueles dramalhões que te prendem do início ao fim. O longa, conta a história de Khaila (Hale Berry), uma viciada em drogas que abandona o filho em um lixão.
Por sorte, o garoto é salvo e vai parar no hospital. Lá, a assistente social Margaret (Jessica Lange) emocionalmente abalada pelo caso, decide adotá-lo. Passam-se dois anos, Khaila se reabilita e descobre que o filho, o pequeno Isaiah está vivo e então, decide recorrer à justiça por sua guarda. Ao longo da trama, a briga pela criança se torna também um a briga racial.
3) A ESTRANHA VIDA DE TIMOTHY GREEN
Esse filme tem uma fotografia belíssima, é muito fofo e cheio de lirismo (aliás, tem uma pegada bem parecida com “Menino de Ouro” só que sem os exageros). A produção, dirigida por Peter Hedges, conta a história de Cindy e Jim (interpretados por Jennifer Garner e Joel Edgerton), um casal que já tentou de tudo, mas que não consegue ter filhos. Um dia os dois escrevem todas as características que gostariam que uma criança tivesse, colocam numa caixa e a enterram no quintal.
Na manhã seguinte aparece na porta da casa um menino – já crescido – chamado Timothy Green. O garoto, além de ter misteriosas plantas crescendo em seus pés, possui todas as características que Cindy e Jim colocaram na caixa. Encantados, Cindy e Jim o levam para casa e passam a tratá-lo como filho, a medida em que cresce, Timothy transforma a vida de todos ao seu redor.
4) MEU MALVADO FAVORITO
Imperdível, encantador, delicioso! “Meu Malvado Favorito” é uma animação de 2010 que conta a história de Gru, um homem estranho que tem a ambição de ser o maior vilão do mundo.
Enquanto disputa com Vetor pelo posto, Gru conta com a ajuda dos minions (uma multidão de bichinhos doidos, engraçados e amarelos!). Um dia, Gru se depara com três meninas orfãs que tentam lhe vender biscoitos, para não ser incomodado Gru as adota. Aos poucos ele vai sendo conquistado pelas garotas e começa a questionar seu plano maléfico de roubar a lua.
5) O PEQUENO STUAR LITTLE
Me sinto um pouco velha quando penso que assisti esse filme no cinema, quando tinha oito anos…anyway. O pequeno Stuart Little tem uma daquelas lições deliciosas de que o amor e a união vencem no final, mesmo que um membro da família seja um rato.
Produzido em 1999 e dirigido por Rob Minkoff, o filme conta a história do Sr e da Sr. Little, um casal que decide adotar uma criança e dar um irmãozinho para George. Um dia, os Little vão a um orfanato e se deparam com um rato que foi abandonado por seus pais e decidem adotá-lo. A chegada do pequeno traz muitas confusões para casa, a começar por Snowbell, o gato da família e por George, que não o aceita.
6) JUNO
Juno aborda diversos assuntos complexos (como gravidez na adolescência, barriga de aluguel e adoção) sem deixar que nenhum desses temas seja representado superficialmente, por isso o seu mérito.
Produzido em 2007 e dirigido por Jason Reitman, o filme conta a história de uma jovem de 16 anos que engravidou acidentalmente e não sabe se deve criar a criança, abortar ou doá-la. Sem o apoio dos pais, nem do namorado, Juno pensa em abortar mas logo desiste da ideia. Com a ajuda de uma amiga procura por uma família perfeita para seu filho e acaba conhecendo Vanessa (Jennifer Garner) e Mark (Jason Bateman), um casal financeiramente estável que não consegue engravidar.
7) MATILDA
Não sei se preciosa falar muito sobre esse filme, afinal… é um clássico!
Matilda é um filme de 1995, dirigido por Danny DeVito. A trama conta a história de uma garotinha esperta e muito inteligente (ávida por conhecimento) que tem pais sem um pingo de paciência com crianças.
Eles a mandam para uma escola que é dirigida pela cruel Agatha Trunchbull. A presença da professora Srta. Jennifer Honey faz com que a vida das crianças naquela escola fique mais ‘doce. A professora Honey logo percebe que há algo diferente com a garotinha e faz de tudo para ajuda-la. Entre travessuras e momentos divertidíssimos, a pequena descobre que possui poderes mágicos e decide usa-los para combater a monstruosa diretora.
8) UMA FAMÍLIA INESPERADA
Assisti esse filme há muito tempo, muito tempo mesmo, mas ficou grudado na memória. Em princípio não ia colocá-lo na lista porque tinha a impressão que seria difícil encontrá-lo, mas fazendo uma pesquisa rápida, descobri que ele é fácil de achar – inclusive, está disponível no Youtube (com legendas em português).
Na trama, Stockard Channing interpreta Barbara Whitney, uma mulher independente que namora um pintor e não é muito chegada em crianças. Um dia, sua irmã aparece e pede que ela cuide de seus filhos já que não sente amor por eles e não tem nenhum pingo de responsabilidade.
Preocupada com as crianças, Bárbara as leva pra casa e se vê em um beco sem saída porque não faz ideia de como cuidar delas. Ao longo do tempo, Barbara cria um laço de amor com os meninos e começa a se dar bem com eles. Inesperadamente, a irmã de Bárbara volta e tentar recuperá-los. Desesperada, Bárbara trava uma batalha judicial para impedir que sua irmã leve seus filhos embora. (Produzido em 1996 e dirigido por Larry Elikann).
9) CHÁ COM MUSSOLINI
A primeira vez em que vi esse filme, achei muito chato… Depois revi e fui prestando atenção nos detalhes, no cuidado com o cenário e com a reconstrução de época, além as atuações belíssimas (palmas para Maggie Smith!) e dos diálogos marcantes.
É um filme que vale a pena! A trama conta a história de Luca Innocenti, um menino que perdeu a mãe muito cedo e que não é reconhecido pelo pai (já que nasceu “fora do casamento”).
Lucas acaba sendo criado por sua babá Mary e ao longo dos anos, desenvolve um apreço pela arte (principalmente pela influencia de Elsa, uma americana colecionadora de quadros). As mulheres que o cercam vivem comentando sobre política, fazem críticas ferozes quanto a sociedade e debatem acerca da situação do país. (Filme de 2000, dirigido por Franco Zeffirelli.
10) UM SONHO POSSÍVEL
Dei uma pesquisada na internet e acho que esses três sites podem ajudar em boas dicas sobre filmes relacionados a esse tema:
Vou começar esse texto com três perguntas que andam me perturbando a dias, que podem parecer bobas, mas que fazem todo o sentido: por quê o sexo na maturidade causa tanta polêmica? Afinal, pessoas velhas não transam? E, aliás, por quê tamanho estigma? Ultimamente o cinema mundial vem apresentando uma onda de filmes com essa temática, uns com um tom realístico, outros nem tanto, a maioria com o mesmo foco: a velhice (ou o envelhecimento). Conversava sobre isso com um colega e ele disse que eu não poderia deixar de assistir Glória, um filme chileno de 2013, que contava a história de uma mulher de 58 anos, divorciada e sexualmente ativa.
Como boa cinéfila, fiz meu dever de casa direitinho. Antes de assistir o filme, li sobre o diretor, sobre a produção e sobre a atriz principal. Gloria foi super bem recebido, levou prêmios no Festival de Berlim, foi vendido para mais de 45 países e levantou uma onda saudosista no Chile. Aliás, recepção merecida, porque é realmente muito bom.
Li uma entrevista do Sebastián Lelio (o diretor) onde ele dizia que hoje em dia, os homens e as mulheres na casa dos 60 anos possuem perspectivas diferentes das gerações passadas: “Não querem ficar em casa, para eles trata-se de uma nova fase da vida, na qual querem também se divertir e dançar e viver”. Concordo plenamente, acho que o processo de envelhecimento mudou, muito em razão do crescimento da expectativa de vida.
Diante dessa “nova onda” do cinema (de filmes como Amour, O Exótico Hotel Marigold, E se vivêssemos todos juntos?) é possível perceber que Gloria não é exatamente sobre a velhice, mas sim sobre o envelhecimento. Aliás, o personagem tem apenas 58 anos (e há de convir que nem é tão velha assim). Eu acho que esse filme se adequa perfeitamente a uma passagem de um livro da Rosa Montero (História de Mulheres) onde a autora diz o seguinte: “Há pessoas que, com o transcorrer da vida simplesmente envelhecem, outras, mais sábias ou afortunadas, vão amadurecendo. Outras, ao contrário apodrecem e outras ainda, enfim, se desbaratam, e todos esses processos têm frequentemente um claro reflexo no aspecto físico”
Na trama, Gloria (Paulina Garcia) é uma mulher independente, mora sozinha, possui dois filhos (Ana, de 27 anos e Pedro, 30), está separada há mais de dez anos e adora sair a noite para dançar. Em um desses bailes conhece Rodolfo (Sérgio Hernandez), um ex-militar que fica perdidamente apaixonado por ela. Os dois começam a se relacionar, mas enquanto Glória o introduz para sua família, Rodolfo se esquiva e insiste na ideia de que suas filhas não entenderiam seu namoro. Enquanto leva uma vida agitada (dividida entre o trabalho, os filhos, o neto, as sessões de yoga e de terapia), Gloria começa a se perguntar se o seu novo relacionamento realmente vale a pena.
Uma das coisas que mais me encantou no filme foi o respeito pela nudez e a ausência da apelação sexual. Por diversas vezes, Paulina Garcia aparece nua em tela e o clima estabelecido transborda erotismo e sensualidade. Aliás, Paulina não é uma mulher “linda”, mas tem um charme que faz do personagem ainda mais interessante, é como se o filme dissesse: “Você tem cinquenta anos, ou mais do que cinquenta anos? Tá vendo esse filme? Tá vendo essa mulher? Pois é, poderia ser você nessa situação então, vá ser feliz!” E felicidade aqui, que fique claro, não é algo surreal, em um dialogo belíssimo entre Gloria e Rodolfo eles discutem justamente esse aspecto:
Rodolfo: Você é feliz?
Glória: Sim… Não. As vezes.
Rodolfo: Como todo ser humano…
Em Berlim, Paulina Garcia foi chamada de “Meryl Streep chilena”. Nem sei se essa comparação é realmente necessária ou justa, afinal… Paulina é Paulina e suficiente por sí só. E como essa mulher impressiona, como emociona nos simples detalhes, sem exageros (porque isso – ao meu ver – é ser bom ator, é pegar um personagem comum e transforma-lo em algo grande). Sérgio Hernandez também impressiona, está mais humano do que nunca, andando na linha tênue entre a coragem e a covardia.
Existem filmes que são inesquecíveis. Não porque são clássicos ou mundialmente conhecidos, simplesmente porque, em algum momento, fizeram parte da sua vida. Não me canso de dizer que quando eu era pequena eu frequentava algumas locadoras aqui da cidade (e na maioria das vezes) locava as mesmas fitas. Eu amava a Angélica Huston e assistia a seus filmes diversas vezes, sem cessar. O fato é que nem sempre eu os compreendia, mas não me importava em ver e rever a mesma história, as mesmas cenas e os mesmos diálogos.
“Tudo por um sonho” (The Perez Family/1995) é um deles. Vi inúmeras vezes quando era criança e, ainda que a atmosfera fosse dramática e sensual, havia um aspecto emotivo e cômico que me fazia gostar imensamente do filme. A trama contava a história de Juan Perez (Aldred Molina, totalmente misterioso e sedutor), um cubano que havia sido liberado da prisão e que estava decidido a viajar para os Estados Unidos e encontrar sua mulher Carmela e sua filha Teresa (interpretadas por Anjélica Huston e Trini Alvarado).
Sem um puto no bolso, Juan percebe que a sua única oportunidade de entrar nos EUA é ilegalmente. Enquanto bola um plano, conhece a “caliente” e sonhadora Dottie Perez (Marisa Tomei), uma mulher que deseja ir para a América e se tornar estrela de cinema. A personalidade de Juan e de Dottie são contrastantes: enquanto ele é um homem tímido, ela é uma mulher que não tem papas na língua – e, por esse motivo, os dois não se dão muito bem.
Dottie é uma mulher esperta e propõe um acordo para Juan: já que os dois possuem o mesmo sobrenome, eles podem fingir que são marido e mulher e entrar mais facilmente nos EUA. Juan aceita. Ao longo da trama o “casal” conhece mais dois imigrantes (que também possuem o sobrenome “Perez”) e fazem a mesma proposta, que eles se unam e finjam que são uma família. Enquanto isso, Carmela acredita que Juan está preso e alimenta a esperança de reencontrá-lo. Teresa, por outro lado, insiste na a ideia de que Juan morreu (ou, se está vivo, nunca irá procurá-las).
Ao longo da trama, Dottie e Juan se apaixonam, mas ele não consegue se livrar do passado: precisa reencontrar a ex-mulher e ter certeza de que está bem. Ironicamente, um segundo amor também aparece na vida de Carmela, um policial (interpretado por Chazz Palminteri) insiste em cortejá-la.
Marisa Tomei domina o filme do início ao fim, ela se sobressai tanto nas cenas dramáticas quanto cômicas. Tomei dá o tom ao personagem e está jovem, com um astral que chama a atenção. Anjélica Huston também está linda, com um ar de estrela de cinema, daquelas atrizes clássicas, sabe? Ao rever o filme outro dia, reparei que a Huston parece um pouco exagerada, fora do lugar, meio perdida, mas ainda com um brilho particular. Também gosto da atuação de Molina, que acerta na dose da seriedade exigida pelo personagem.
No entanto Mira Nair (a diretora, que aliás, é indiana) escorrega em alguns momentos, exagera em um humor estranhamente sem graça e cria certo desconforto. O filme se sustenta até o fim, mas tem um encerramento tão desnecessário que até dói de lembrar.
Helena Rojo é uma das minhas atrizes mexicanas favoritas, a acompanho há muito tempo, desde que o SBT exibiu a novela “O Privilégio de Amar” pela primeira vez (se não me engano, em 1998). Ano passado tive a felicidade de descobrir que três de suas novelas (Cuidado com el Angel, Por Ella soy Eva e El Privilégio de Amar) estavam sendo transmitidas concomitantemente na TV brasileira, uma pena não ter tido tempo para assisti-las.
Rojo é uma mulher linda e mais do que isso, muito talentosa. Adoro seus cabelos ruivos e aquele olho meio “cor de mel” que ela tem… Quando eu era mais nova (não me perguntem como!) mandei uma carta pra ela e ela não só respondeu como mandou uma foto autografada, que guardo até hoje. Desde então comecei a reparar no quanto a Helena Rojo é atenciosa com seus fãs – e eu, particularmente, acho isso tão bacana! Não é da boca pra fora, nem porque eu a admiro muito, mas ela realmente é atenciosa. Não é de hoje que a Rojo sabe o nome de vários fãs, conversa em vídeo com eles, almoça e manda emails.
E a Helena Rojo é bem conhecida no Brasil, o que é também muito bacana. Há de convir que existe um preconceito velado em relação às tramas mexicanas, não sei por que falam tão mal dessas produções e se discute tão pouco sobre seus aspectos (afinal, as novelas mexicanas estão muito ligadas ao cinema melodramático que estourou na década de 1940).
Estava revendo um vídeo (dos inúmeros disponíveis no YouTube) de uma novela com a Helena Rojo chamada “Las Secretas Intenciones” e eu tinha me esquecido do show de interpretação que a Helena dá, principalmente nos últimos capítulos. Pensando nisso, fiz uma pequena listinha com as minhas novelas preferidas dos quais a Helena Rojo participou e vou colocá-las aqui, espero que vocês gostem.
*Antes, uma rápida biografia: María Elena Enríquez Ruiz nasceu em 18 de agosto de 1944 na Cidade do México. Na década de 60 começou a trabalhar como modelo e já em 1968 fez seu primeiro filme: “El Club de los Suicidas”. Trabalhou intensamente com cinema (dividiu a telona, por exemplo, com Peter O’Toole em “Foxtrot” e com Klaus Kinsky em “Aguirre a ira dos deuses”). Migrou-se para o mudo das novelas pela primeira vez em 1974, onde interpretou Isaura em “Un Extraño En Su Pueblo”. Daí não parou de dar a vida a grandes personagens (como Lucianal Duval, Augusta Curiel e Ramona Gonzaga) mostrando um grande jogo de cintura e um estilo eclético, não só na televisão como também no teatro. Hoje, aos setenta anos, Helena é considerada uma “Primera actriz”, possui seis prêmios TVy Novelas eestá casada com Benjamín Fernández. Do seu casamento anterior (com Juan Ferrara) teve três filhos: Leo, Elena e Patricia – prometo melhorar essa biografia!
O Privilégio de Amar (1998)
Na primeira fase da trama, Luciana é uma garota pobre que trabalha como empregada na casa Ana Joaquina, uma mulher rigidamente católica e muito cruel. Luciana se envolve com João da Cruz, um seminarista (filho de Ana Joaquina) e acaba engravidando dele. João vai embora da cidade com o intuito de tornar-se padre sem saber que será pai. Sozinha e completamente desesperada, Luciana abandona sua filha em um lar adotivo comandado por freiras e também se muda da cidade. O tempo passa e Luciana se torna uma famosa e importante estilista. Casada e com dois filhos, Luciana Duval nunca esqueceu a filha que abandonou e vive atormentada tentando encontra-la. Enquanto isso, a órfã Cristina nutre o sonho de ser modelo e consegue um trabalho na Companhia Duval, sem saber que sua chefe é também a sua mãe. [ Criada por Delia Fiallo, a novela foi ao ar em 1998 substituindo “A Ursupadora”. Produzida por Carla Estrada e dirigida por Miguel Córcega. Dividiu-se em 155 capítulos ].
Quando revi a novela há pouco tempo atrás as cenas e os diálogos me pareceram datados. É claro, que agora, com uma perspectiva diferente, algumas coisas deixam de fazer sentido e simplesmente, perdem a sua magia. Na cena que eu assisti, a Cristina (Adela Noriega) pedia perdão a Deus por ter perdido a virgindade e o padre (Cesar Evora) lhe passava uma penitência e a repreendia fortemente pelo acontecido. Cristina chorava, desolada e culpada por ter se entregado “ao grande amor da sua vida, antes do casamento”. (É claro que naquela época todo o sentimentalismo que encharcava os diálogos faziam sentido, era uma sociedade diferente, de um país – que como sabemos – é muito conversador e católico. Mas hoje, a história parece um pouco pedante).
Apesar de tudo, ainda acredito que essa foi a melhor novela feita por Helena Rojo (e também a novela responsável por torna-la tão popular no Brasil). Seu personagem, Luciana Duval tinha uma característica sensacional que o diferia dos outros: Luciana não era um personagem maniqueísta, conseguíamos ter ódio e amá-la ao mesmo tempo e até certo momento da trama, não sabíamos se ela era má ou boa. O que eu consigo me lembrar dos velhos tempos, em que eu chegava da escola, nem tirava o uniforme e ia correndo pra sala é que eu tinha uma sentimento meio sádico em relação aos personagens – eu adorava quando eles se batiam, quando a Luciana se machucava e meio que sofria junto, vai entender? Eu também adorava imaginar a possibilidade de ver a Luciana e o Padre João da Cruz juntos, mesmo sabendo que ele tinha se entregado integralmente a Deus.Outro aspecto importante é que a trama trazia um elenco fortíssimo. Marga Lopez incrivelmente detestável (assim, como a Diana Bracho na primeira parte), Enrique Rocha (um amigo da onça), Maria Sorté, Nuria Bages, Andres Garcia – quero dizer, tinha muita gente foda e o melhor era que os plots secundários foram muito bem desenvolvidos e apesar do número enorme de personagens, cada um deve seu espaço respeitado. Só pra constar, essa novela tem um dos finais mais lindos que existem, amo a música e amo quando os atores descem a escada da mansão de mãos dadas e cumprimentam o público, como se fosse uma peça teatral.
Gente Bien (1997)
Gente Bien foi uma novela fantástica, repleta de erotismo, amor e traição, uma pena nunca que sido exibida no Brasil. Na história, Helena Rojo e César Evora apareciam mais uma vez como casal, mas não muito felizes. Os dois faziam parte da trama secundária, Helena interpretava Rebecca Balmori, uma mulher rica mas muito enferma – tinha problemas no coração. Seu marido, Jaime Dumas era um canalha mentiroso, ele tinha se apaixonado por Maria (a protagonista) e fazia de tudo para separá-la de Gerardo.
O interessante é que Rebecca sempre aparecia observando um aquário e só depois me dei conta do seu significado. Aos poucos Rebecca foi desconfiando de Jaime e tentou se separar dele (os dois tinham um filhinho muito fofo). Nos capítulos finais Rebecca sofre com uma crise na frente do esposo e ele se nega a lhe dar o remédio que salvaria sua vida. Rebecca morre, caindo sobre o aquário. (Aliás, a cena é fantástica, o personagem cai em câmera lenta enquanto cacos de vidro e agua despencam sobre seu corpo … a Lucy Orozco é muito foda mesmo). Jaime rapidamente se arrepende de não ter salvado Rebecca e reconhece que, na verdade, sempre a amou… mas aí já era tarde e ele então passa a ser atormentado pelo “fantasma” de Rebecca (falando assim parece trash, mas não é, foi muito bacana).
Retrato de Família (1995)
Retrato de Família foi uma novela pequena, com apenas 90 episódios. Lançada em 1995 e produzida por Lucy Orozco, a trama contava a história da família Mariscal Preciado, totalmente destroçada pela enorme rivalidade entre duas irmãs: Inere (Diana Bracho) e Cecília (Rojo). Cecília, na verdade, era uma mulher boa que se viu envolvida em uma teia de vinganças criadas por sua endiabrada irmã. Pra agravar a história, Cecília tinha uma filha (Elvira) que a odiava e a acusava de ter matado seu ex-marido, Augusto. Como se não fosse possível piorar, Cecília se apaixona pelo último cara da terra que deveria: Esteban, namorado de Elvira.
A abertura dessa novela [que você pode conferir aí abaixo] é uma das mais legais que eu já vi, não sei se pela música ou apenas pelas pistas que deixavam sobre a trama.. Aliás, a trilha sonora era extremamente marcante, muito mesmo – me lembro de uma música até hoje. Em suma, quando se vê Diana Bracho e Helena Rojo juntas, não se pode esperar nada menos do que um show de interpretação e isso de fato se deu. Yolanda Andrade também estava muito boa, sua personagem era incrivelmente irritante e petulante, mas para o gosto da nação, teve o final que merecia: morreu.
Ao longo da história descobrimos que Irene sempre foi apaixonada por Augusto, daí nasceu a rivalidade em relação a irmã que ficou ainda mais violenta depois do seguinte fato: Irene era, na verdade, a mãe de Elvira e foi forçada pelos pais a deixá-la aos cuidados de Cecília, que não podia ter filhos, mas era casada e tinha uma situação financeira melhor. Aliás, quem era o pai de Elvira? Isso mesmo, Augusto! Finalmente Cecília consegue se casar com Estéban e ter um final feliz, enquanto Irene termina seus dias remoendo a morte da filha.
Las secretas intenciones (1993)
Não é uma das melhores novelas da Rojo, mas ela está incrivelmente linda e louca, por isso a menção. Mais uma vez, Helena Rojo integra uma novela produzida por Lucy Orozco, aqui como uma vilã chamada Antonieta Alcántara. A novela era bem romântica, mas trazia uma discussão bacana sobre loucura e sanidade. Transmitida em 1993 e com apenas 80 capítulos, a trama contava a historia de amor de Larissa Cardenal e Miguel Curiel.
Larissa era filha de Clara, uma mulher muito rica e maldosa que deixava seu desdém pela filha muito claro. Um dia Larissa tem um crise de nervos e é internada em uma clínica psiquiátrica. Miguel também foi internado na mesma clínica pois não conseguia ir bem na escola, nem se relacionar com os outros alunos. Na clínica, Larissa e Miguel se conhecem e se apaixonam.
Pois bem, onde entra a Helena? Antonieta era filha de uma enfermeira e vivia junto a mãe no hospital psiquiátrico. Lá ela conhece Carlos (pai de Larissa) e se apaixona perdidamente por ele. Os dois acabam tendo uma pequena relação, mas Carlos decide voltar para a família o que deixa Antonieta enfurecida e louca por vingança (alguém lembrou de Glenn Close aí? É, tipo isso). Daí Antonieta perseguia a família de Carlos e cometia horrores desmedidos, contra tudo e contra todos. A personagem teve um final FANSTÁSTICO: Vestida de noiva, ela tenta matar Carlos, mas não consegue. Abandonada e totalmente doida, se une a um bando de mendigos… sua fala final é: “Me voy a quedar sola”.
Ramona (2000)
Gosto muitíssimo dessa novela por dois detalhes que podem parecer bobos, mas que fazem toda a diferença. Ramona foi uma novela de época, produzida por Lucy Orozco e Rosa Maria Martinez. A trama contava a história da família Moreno Gonzaga que participou das batalhas entre colonos (mexicanos) e imigrantes (americanos) durante o ano de 1847.
Guerra, morte e paixões proibidas foram cenário para essa pequena novela, de apenas 69 episódios. O primeiro detalhe que me agrada é que a novela trazia uma protagonista (interpretada por Kate del Castillo) forte e corajosa, que apesar dos clichês, resistia às obviedades das histórias românticas. O segundo é que a produção tinha um cuidado histórico e documental primoroso, tornando-se um registro romantizado da história do país.
Na trama Helena Rojo interpretava Ramona, mãe da protagonista que também se chamava Ramona. A “Donã Ramona” era uma mulher ultra conversadora que não admitia as aventuras amorosas da filha e fazia de tudo para que ela aceitasse um casamento arranjado. A carga dramática da personagem era muito forte. Ramona além de ser preconceituosa e violenta, carregava consigo um segredo que a atormentava há muitos anos, ela teve um caso extraconjugal e engravidou. A novela também é um retrato perfeito do papel secundário que as mulheres ocuparam ao longo da história, das proibições e dos preconceitos que sofriam.
“Os inocentes” é um grande filme e é uma pena que ele não receba o reconhecimento que merece. O assisti agora a pouco, ainda sobre influência da minha repentina admiração por Deborah Kerr (que por sinal – e mais uma vez – está belíssima). O filme foi baseado em um clássico de Henry James (A outra volta do parafuso) e conta história da Senhora Giddens, uma mulher que é contratada por um aristocrata para ser a governanta em sua mansão em Bly, na Inglaterra.
Com uma grande paixão por crianças (“mais até do que a própria vida”), Giddens se muda para a Bly com o intuito de cuidar de Miles e Flora, duas crianças que perderam os pais e cujo o tio não dá a mínima. Em princípio Giddens é muito bem recebida por Flora e Miles (que chega um pouco mais tarde, depois de ser expulso do colégio) e pela Senhora Grose (uma arrumadeira idosa), mas aos poucos ela começa a ser atormentada por dois fantasmas que carregam um sombrio segredo.
Lançado em 1961, dirigido por Jack Clayton e roteirizado por Truman Capote, “Os inocentes” enquadra-se no melhor estilo do terror psicológico, não peca por excessos, possui um roteiro brilhante, uma iluminação e uma trilha sonora de tirar o fôlego – não é atoa que Martin Scorsese tenha o colocado em sua lista de melhores filmes de terror de todos os tempos, nem é atoa que ele tenha sido classificado pela Time Out como um dos melhores filmes britânicos de todos os tempos – o longa é realmente muito bom.
Clayton fez uma boa escolha ao optar por um filme em preto em branco; a iluminação tem um papel técnico importantíssimo na trama e o diretor a usa com destreza assombrosa. Em uma cena, por exemplo, a governanta começa a ouvir barulhos e questiona a própria sanidade. O que Clayton faz? Ilumina apenas os olhos de Kerr que estão completamente perdidos e assustados (e isso se repete várias vezes),.
Como a história é muito densa, um aspecto que passa despercebido (mas que não deveria) é o cuidado com a construção cenográfica, que sustenta a verossimilhança histórica de maneira impecável. Não sei exatamente se poderia classificá-lo assim, mas o cenário possui toques impressionistas que se adequam a função psicológica das ações: as escadas, o casarão meio abandonado, as velas – e claro, o vestuário bem trabalhado (que também dão a história um tom mais sombrio).
Sobre o roteiro há algo que chama atenção, as falas são muito, muito, muito bem trabalhadas e a narrativa é um misto de fluxo de consciência e diálogos (e muitos deles não estão de acordo com a continuidade de tempo – Giddens, por exemplo, escuta os fantasmas conversando… mas essa conversa se passa no presente? no passado?) Não há nada explícito, mas você percebe desde o inicinho que alguma coisa está errada, o roteirista vai oferecendo pequenas pistas: por exemplo, quando o pequeno Miles, durante um brincadeira, pede para que a Senhora Giddens escute um poema: no poema o “eu-lírico” pede que o espírito saia de seu túmulo e tome o seu corpo.
Deborah Kerr não decepciona, a atriz consegue equilibrar o aspecto dramático (que muito se dá pelo embate psicológico do personagem) com a personalidade doce e interiorizada da Senhora Giddens. O interessante é que no livro a governanta tem apenas 20 anos (e não é atoa), mas quando Kerr atua esse aspecto se transforma em um mero detalhe. Mas Kerr não pode levar todo o mérito, Pamela Franklin e Martin Stephens (as crianças) também trazem um peso dramático à trama, principalmente quando ocorre o confronto com a governanta.
Ha muito que dizer sobre esse filme, mas eu prometo não me estender. Só mais um aspecto merece o comentário: a abertura. Jack Clayton queria fazer algo diferente das produções da Hammer (um companhia britânica especializada em filmes de terror), por isso iniciou seu filme com uma tela totalmente preta onde uma criança canta “O Willow Waly” (essa abertura só dura 45 segundos,mas apresenta a música que toca repetidas vezes ao longo do filme). Então, só depois é que ele exibe os créditos, em uma tela igualmente preta, mas dessa vez, podemos ver as mãos da Débora Kerr (que exprime muita tensão através delas) e ouvir a personagem rezar pelas crianças. – E, pelo que eu li, a voz que aparece no início não é de uma criança, e sim da Deborah Kerr “imitando” uma criança (PQP!).
O Erótico, as metáforas e os símbolos: quem é realmente Inocente?
O início do filme é um pouco devagar, mas sem dúvidas, depende desse desenvolvimento para não comprometer a compreensão da história, afinal, há muito hipocrisia naquela casa – e o difícil é descobrir da parte de quem. Finalmente, depois de um período angustiante, onde a personagem principal se pergunta o que se passa naquele lugar, ela deduz (ou simplesmente entende) qual a história dos dois fantasmas.
Peter Quint trabalhou cuidando dos cavalos da mansão. De acordo com a Senhora Grose ele era um homem detestável, alcoólatra e extremamente grosseiro. Apesar de tudo, Miles o adorava e ninguém conseguia separá-los. A Senhorita Jessel foi, antes da Senhora Giddens, a governanta da casa e ela era muito próxima da Flora, as duas passavam horas dançando no salão. Um dia Quint chegou bêbado, escorreu na escada e morreu. Jessel, que era apaixonada por ele, não suportou a dor de perdê-lo e se matou afogada em um lago. Grose contava que os dois eram extremamente obscenos, falavam palavrão e faziam de dia o que deveriam fazer a noite.-Na frente das crianças?, a Senhora Giddens pergunta. “Eu não tenho certeza se as crianças viram, eu vi várias vezes.”
Ao observar o comportamento estranho das crianças (as trocas de olhares, as brincadeiras maldosas, os galanteios de Miles), a Senhora Giddens deduz que as crianças estão possuídas por esses espíritos. Quint e Jessel querem entrar no corpo dos irmãos para se reencontrarem mais uma vez como amantes – Mas será que isso é verdade ou ela está apenas enlouquecendo? Quando a Senhora Giddens começa a confrontar as crianças, sugerindo e observando esse possível contato sexual entre elas, a velha empregada Grose lhe afirma: “Não faça isso, eles são tão inocentes!”. E a Senhora Giddens responde: “Eles não são inocentes, são adultos!”.
Como eu disse, não é atoa que a Senhora Giddens (no livro) tem apenas 20 anos. Há (tanto no livro quanto no filme) uma dúvida sobre quem é realmente o inocente (ou puro) nessa história. Giddens, um poço de gentileza e candura, enfrenta pela primeira vez esse tipo de trabalho e conforme afirma: “só quer ajudar os outros”. Mas e se tudo o que se passa for apenas fruto da sua imaginação (já que as crianças e os empregados insistem em dizer que não enxergam os fantasmas que ela vê?) e se ela estiver mentindo? -Posso lhe garantir que não há uma resposta para essa pergunta.
O beijo (ou melhor, os beijos) entre Miles e a Senhora Giddens me deixou desconcertada, confesso que voltei o DVD pra ter certeza do que estava vendo. A cena é no mínimo polêmica e corajosa. E muito clara: HÁ UMA TENSÃO SEXUAL ACONTECENDO ALI! Miles beija a governanta e depois deita-se na cama, com um rostinho angelical enquanto a Senhora Giddens, desconcertada, lhe sorri – Close em sua boa, entreaberta. (Jack Clayton impediu que as crianças vissem o resultado do filme e escondeu delas o contexto sexual da trama). O interessante é que o filme dá vários indícios metafóricos de que a governanta foi sexualmente reprimida (as plantas caídas, os insetos – um incrível toque freudiano).
E essas metáforas e símbolos estão em todo o lugar, em um momento do filme, por exemplo, a Senhora Giddens escuta sussurros e barulhos que sugerem Quint e Jessel transando. “Me ame, me ame” Ao mesmo tempo que escuta esses barulhos ela se depara com o cortina batendo incessantemente na janela. Quando ela ela se vira, o barulho para.
Imperdível, é tudo o que me esta a dizer, esse filme é imperdível!
Já disse diversas vezes aqui no La Amora que não gosto de escrever sobre clássicos, primeiro porque não tenho cacife para falar sobre eles e segundo porque (provavelmente) há um grande acervo de releituras/críticas/resenhas sobre essas produções que dispensam qualquer comentário – é só pesquisar no Google e voilá. Acontece que ontem assisti “Tarde demais para esquecer” pela primeira vez e fiquei de queixo caído com a graciosidade do longa.
Terminei de ver o filme com um sentimento de culpa enorme; me perguntando o “porque’ de ter demorado tanto para vê-lo. Depois dessa doce surpresa, me proponho a assistir clássicos e comentar sobre eles aqui (não sou nenhuma crítica, vocês sabem, mas como cinéfila às vezes me bate uma sensação louca, quase que como um “compromisso” de melhorar meu repertório). Afinal, qual o cinéfilo que nunca assistiu “O Poderoso Chefão”, por exemplo? Pois é, eu… E o pior é que não só esse, como diversos outros filmes foram deixados de lado por essa “cinéfila relapsa”. Prometo: nunca mais!
Tarde demais para esquecer (An Affair to remember, 1957) conta a história de Nickie Ferrante (Grant) um jogador famoso e mulherengo que é um dos homens mais cobiçados do momento. A farra de Ferrante está prestes a acabar pois ele está noivo de Lois Clark (Neva Patterson), uma socialite. Em uma viagem de volta a Nova York, Ferrante conhece Terry McKay (Deborah Kerr), uma ex-cantora que também está de casamento marcado. Terry e Nickie acabam se envolvendo e se apaixonando durante a viagem, mas como possuem outros relacionamentos decidem se encontrar depois de seis meses no alto do Empire State. Neste período eles poderão acertar suas vidas e, caso se reencontrem, se casar.
Kerr e Grant possuem uma química perfeita e os dois correspondem a elegância da direção de Leo McCarey (também diretor em A Delícia de Um Dilema) – que optou usar o CinemaScope. O filme é um remake de “Duas Vidas” (produzido em 1939, que traz Irene Dunne e Charles Boyer nos papéis principais) e ao que tudo indica (porque eu ainda não vi o “original”), a versão de 39 é muito mais densa e dramática.
Um dos motivos que me fizeram não assistir “Tarde demais para esquecer” foi o fato de achar que o filme era um daqueles romances água com açúcar, que te faz chorar e te deixa deprimida quando acaba. Que engano! O filme é, na verdade, uma história linda, emocionante e divertida, que te deixa com um humor lá em cima. Meu Deus, que figurino! Sei que muita gente pensa do mesmo jeito que eu e por isso confesso que adorariavoltar no tempo e pousar (HAHA!) na década de 1950 só para usar roupas iguais aquelas, vestidos maravilhosos, cabelos perfeitos…
O bacana é que o filme consegue equilibrar o humor com a carga dramática. No momento em que a trama já está bem desenvolvida (e que já fomos conquistados pela história e pelos personagens), o espectador é pego de surpresa. [Spoiler] Terry, ansiosa para se encontrar com Nickie, acaba não prestando atenção ao atravessar a rua e é atropelada. O acidente não só a deixa sem andar, como também a impede de encontrar o “amado”, o que faz com que Nickie acredite que Terry desistiu do relacionamento dos dois. [Uma história que seria difícil adaptar aos dias de hoje já que o celular, a internet e diversos outros meios de comunicação vieram para facilitar a vida dos casais apaixonados].
Sempre ouvi falar muito sobre Déborah Kerr e sobre o Cary Grant, mas esse é o primeiro filme que assisto com eles (ou melhor, o primeiro filme em que eu realmente presto atenção neles). Aliás, como eles são lindos! Já reparou na perfeição do nariz da Déborah Kerr ou no charme do Cary Grant? É muito interessante o fato desses atores conseguirem ser incrivelmente sexys (“sem serem vulgar”). E é igualmente incrível (uso esse adjetivo porque realmente é difícil crer) na força da moralidade do cinema americano dessa época. Não só isso, mas também na “inocência perdida”, entende?. Esse filme me trouxe uma certa nostalgia, fiquei me lembrando das histórias que a minha mãe e a minha avó me contavam; dos namoros escondidos, dos beijos roubados. “Não podia pegar na mão!” ou “Conversar, só na sala”. Sei lá, acho que o romantismo morreu.
Uma amiga insistiu para que eu assistisse Frances Ha, disse diversas vezes que tinha tudo a ver com o momento que eu estava passando. Então, peguei o filme e coloquei a frente dos outros que estavam na fila de espera. Comecei a assisti-lo descompromissada, apenas por obrigação e terminei com um leve sorriso no rosto… um sorriso de satisfação. De fato, o filme é uma delícia: leve, “cool” e contemporâneo.
Dirigido por Noah Baumbach e roteirizado por Baumbach e Greta Gerwig, o filme conta a história de Frances (Greta Gerwig) uma dançarina recém-formada que faz uns “bicos” como professora em uma companhia de balé, mora em NY e divide um apartamento com sua melhor amiga Sophie (com quem tem uma ótima química). O namorado da Frances a convida para morarem juntos, mas ela não aceita. Frances não quer deixar a melhor amiga na mão e ao mesmo tempo, decide terminar o namoro (que já não andava bem das pernas). Ironicamente, Sophie (Mickey Sumner) decide se casar e, de repente, informa a Frances que irá se mudar. Decepcionada (e financeiramente apertada), Frances tenta encontrar outra companhia para dividir o aluguel, ao mesmo tempo que faz de tudo para se firmar na carreira.
Frances é um personagem adorável, é uma menina linda, um pouco desajeitada e repleta de sonhos. Em síntese, tem todas as características da Amelie Poulain (só que é realística). Com sinceridade e naturalidade, Baumbach nos faz repensar a vida, chama atenção para os laços afetivos e sugere mais leveza e bom humor no dia a dia. Em uma cena belíssima, por exemplo, Frances dança no meio da rua (apesar dos problemas com o serviço e com a incerteza quanto ao apartamento), a garota simplesmente se diverte. Aliás, “Frances Ha” também nos faz pensar sobre os “nãos” que a vida dá: são inevitáveis, os “nãos” estão aí, safa-se quem souber lhe dar melhor com eles.
Amei, amei a forma em que a relação entre Frances e Sophia foi retratada. Todo mundo tem um melhor amigo, todo mundo tem alguém com que conversar sem medir as palavras, alguém com quem se parece. Assim são Frances e Sophia, e, assim como acontece na vida real, às vezes há uma quebra de expectativa. Ninguém é perfeito para ninguém, mesmo que a gente insista em cometer esse erro, esperar muito dos outros.
Greta Gerwig se sai muito bem em tela, domina a situação e transparece simpatia. Gerwig (que foi um dos nomes do Mumblecore, movimento americano cinematográfico que veiculava filmes de baixa produção, sem script ) traz um dos aspectos mais importantes do filme: a improvisação. Outro aspecto importante é o uso de P&B, que confere um clima diferente ao longa (bem nostálgico, sabe? Logo no início eu me lembrei aqueles filmes franceses da década de 60, que delicia!). E os diálogos conferem ainda mais naturalidade ao filme, é como se os personagens estivessem conversando em nossa sala de estar. Melhor do que isso, só o final, que nos deixa com um astral beeeem mais leve.