Chá e Simpatia

É incrível como certas tramas nos conquistam pelos pequenos detalhes, por diálogos bem construídos, pela delicadeza dos personagens. “Chá e Simpatia”, produzido em 1956, é uma delas, me conquistou pela simplicidade. O filme conta a história de Tom Lee (John Kerr), um estudante universitário que não consegue se enturmar com os outros alunos e prefere passar os intervalos conversando com Laura, a orientadora. Um dia, Tom é visto costurando. A história se espalha e começam a dizer que ele é gay, passam a chamá-lo de “sister boy”

Decorah Kerr

O cotidiano de Tom na faculdade vai ficando cada vez mais difícil, ele sofre com o preconceito e com as zombarias dos colegas, ao mesmo tempo em que encara as pressões do pai que insiste para que ele se porte como homem. Porém, Tom é um jovem sensível, que gosta de escutar músicas, de teatro, literatura e não tem pré-disposição para esportes.

Laura (Deborah Kerr) entende o garoto e aos poucos se aproxima dele, contrariando as vontades do seu marido, Bill (Leif Erick-Son) – que é um dos professores da faculdade. A proximidade faz com que surja uma paixão entre os dois. Laura, no entanto, é uma mulher comprometida enquanto Tom é um jovem confuso e extremamente tímido.

As felicidades do amor duram momentos, as dores duram para sempre.

O filme foi baseado na peça homônima de Robert Anderson: “Tea and Sympathy”, encenada pela primeira vez em 1953. Nos palcos, o próprio Jonh Kerr ( que além de ator, era um advogado atuante) foi dirigido por ninguém mais, ninguém menos do que Elia Kazan. Anderson é considerado um dramaturgo da altura de Tennessee Williams e de Arthur Miller, só que não é tão famoso. A história, na verdade, é quase uma autobiografia, quando Robert Anderson se juntou ao exército, ele acabou se apaixonando por uma mulher mais velha e comprometida.

18-deborah-kerr-cUma das coisas que mais me agrada nesse filme são os diálogos, Minelli nos presenteia com pequenas pérolas, falas inesquecíveis. Como por exemplo no momento em que Laura diz para Tom: “Nossas ações são como pedras jogadas na água, elas produzem círculos. Os círculos são as consequências”. Parece até que é uma tendência, filmes baseados em peças teatrais (talvez  pela estrutura) possuem um cuidado extra em relação aos diálogos.

Difícil falar sobre Deborah Kerr, minha admiração por ela aumenta a cada dia… aliás, não me canso de dizer que a acho maravilhosa! Aqui, Kerr está doce e contida, com um postura sóbria, madura.  Um dos meus filmes favoritos com a atriz.

Quando você falar sobre isso… e você vai falar. Seja bondoso.

A homossexualidade é um tema recorrente no cinema, um tema delicado e polêmico. Se hoje, filmes sobre o assunto ainda despertam estranheza, na década de 1950 o assunto era um completo tabu. O interessante nessa trama é que ela funciona quase como um registro histórico, com um documento que ilustra como as pessoas se comportavam naquela época. É evidente que a homofobia é o tema principal do filme, mas outros assuntos também complexos são retratados na trama, entre eles: o machismo.

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É notório o papel secundário que as mulheres recebem na faculdade, Laura assume uma função importante, mas seu marido determina que atue apenas como “espectadora”. Ela ainda divide suas atividades com as obrigações domésticas e depende da permissão do marido para participar do baile – incrível como tudo isso é retratado com naturalidade.

Exatamente pelo fato da personagem principal ter um marido machista, a proximidade  entre  Laura e Tom é redentora para as duas partes. Enquanto ela o ensina a não se importar com o que dizem e a confiar em sí mesmo, Tom faz Laura perceber que o seu casamento  a faz infeliz. O amor surge da dor, da fraqueza dos dois, por isso tão belo.

Idiocracia

IdiovraciaJoe Bauers é um homem burro. Tão burro que foi obrigado por seus superiores a trabalhar em um departamento onde nada lhe é exigido, nada lhe é perguntado. Um dia, ele é escolhido para participar de uma inusitada experiência militar, junto a ele, Rita – uma prostituta. Foram selecionados exatamente porque ninguém daria a mínima se os dois desaparecessem, Seus corpos foram hibernados e programados para despertar após quinhentos anos.

Quando Rita e Joe acordam, já no futuro, o mundo está completamente desordenado. As ruas estão imundas e as pessoas são tão idiotas que mal conseguem pronunciar as palavras direito, a humanidade regrediu. Nesse novo mundo, Joe e Rita são as pessoas mais inteligentes e chamam atenção pela esperteza. Diante de um problema sério, o presidente dos Estados Unidos contrata Joe como ministro e ordena que ele dê um jeito em diversos problemas em seu governo, entre eles o desemprego e a falta de comida.

costcoviewProduzido em 2006 e dirigido por Mike Judge, Idiocracia é um filme independente e de baixo orçamento, que brinca com a sociedade e constrói uma  crítica primorosa. Ainda que o desempenho técnico não seja tão grandioso, o humor negro se mantém intacto.

O mais interessante é que, conforme a visão crítica de Judge, daqui há quinhentos anos a humanidade mal conseguirá escrever, não irá valorizar a própria história,  será estúpida, politicamente incorreta e viverá praticamente  no meio do lixo. Isso tudo por casa da chamada “disgenia”,  que funciona como uma acumulação e perpetuação de genes defeituosos. É claro que é um visão pessimista, mas nos faz repensar na postura que tomamos diante de questões sociais que parecem banais, mas não são. Será que não estamos assistindo televisão demais? Será que lemos o suficiente?

Ficha Técnica
Título Original: Idiocracy
Ano: 2006
Gênero: Comédia
Diretor: Mike Judge
Duração: 84 minutos

A professora de piano

Comentei aqui no La Amora sobre “O Clube do filme”, livro escrito por David Gilmour. A história foi baseada na vida do próprio autor e conta como ele deixou seu filho de quinze anos (que não gostava de estudar) abandonar o colégio. Em troca, Gilmour exigia que seu filho assistisse semanalmente clássicos do cinema. Em um certo momento da narrativa, o autor afirma que existem filmes tão especiais que não importa o quanto são revistos, eles sempre serão marcantes em qualquer período da vida.

Se existe um filme que marcou a minha vida, seu nome é ‘A Professora de Piano, do Michael Haneke. Pode parecer estranho, porque a historia é pesada e envolve uma dolorosa trama de compulsão sexual. O assisti aos 15 anos, ainda no período do colégio. Fiquei em choque. Nunca tinha assistido nada daquilo, nada tão perturbador. Outro dia me encontrei com duas amigas da escola e elas diziam que na época eu não parava de falar no filme. Foi com ele que conheci Isabelle Huppert e foi com ele que conheci Haneke, uma longa história de amor – que dura até hoje.

ImagemProduzido em 2000, o filme conta a história de Erika Kohut, uma mulher de quarenta anos, que mora com a mãe, não bebe, não fuma, não usa roupas chamativas, é conservadora e muito séria. Em grande parte de seu tempo, Erika ministra aulas de piano no Conservatório de Viena. O que há de errado com ela? Quando não está em casa ou dando aula, Erika passa seu tempo frequentando cines pornôs, peep-shows e gosta de se autoflagelar.

Um dia Erika começa a dar aulas a Walter Klemmer (Benoît Magimel), um jovem bonito e bem humorado que chama sua atenção e logo se apaixona por ela. Os dois começam a se relacionar, mas Erika perde as estribeiras e propõe jogos sexuais perversos que deixam Walter indeciso e confuso.

Quando o prazer se transforma em sofrimento

La-Pianiste-7771Antes de ser um filme sobre masoquismo ou repressão sexual, “A Professora de Piano” é um retrato dramático sobre uma relação sufocante entre mãe e filha e ilustra perfeitamente a importância da figura materna (e também paterna, é claro) no desenvolvimento psíquico e social humano. Erika possui amor e ódio pela mãe e isso fica claro logo nas primeiras cenas. Em certo momento do filme, a mãe da pianista controla seu salário e determina com o quê ela pode gastá-lo. Erika começa a puxar os cabelos da mãe e só depois se dá conta do que fez, arrepende-se e em lágrimas, pede desculpa. Não é difícil relacionar o filme de Haneke a Sonata de Outono, dirigido por Bergman em 1978. No filme, Ingrid Bergman interpreta Charlote, uma pianista famosa com sérios problemas de relacionamento com as filhas: Eva (Liv Ullmann) e Helena (Lena Nyman). Especialmente com Eva, com quem alimenta um doentio jogo de disputa, de arrogância – de amor e ódio.

Uma das cenas mais chocantes em ‘A professora de piano se passa no momento em que Erika, no auge da sua loucura e sofrimento, deita-se com a mãe e tenta transar com ela. Poucos espectadores reparam nesse detalhe, mas a cena se passa logo depois que Erika imagesdescobre o falecimento do pai. Há muitas interpretações para a cena, mas a que me pareceu mais interessante é a ideia de que Erika, naquele momento, queria assumir o papel da figura paterna, transar com a mãe e voltar para o único lugar onde se sentiu segura: o útero materno.

Quando Erika conhece Walter ela se depara com algo absolutamente novo: a oportunidade de ser livre, a possibilidade de revelar seus segredos mais profundos. Desde o início da trama é possível perceber que seus desejos sexuais  a corroem, a tornam presidiária. Essa situação é muito semelhante ao que é ilustrado em ‘A Ninfomaníaca de Lars Von Trier, que conta a história de Joe, uma mulher viciada em sexo. Assim como Joe, Erika é insaciável, mas ao invés de ter prazer, ela sofre. – Leia o texto escrito por Mario e Diana Corso, uma análise do filme Ninfomaníaca que discute a diferença entre erotismo e pornografia, vale a pena!

83210925_oOutro momento fundamental da trama é quando Walter vai até a casa de Erika e lê, em voz alta, a carta que ela o enviou onde descreve em minúcias o que quer que Walter faça: “Bata no meu rosto, bata forte. E mesmo se eu gritar por ajuda, não pare”. Erika, de joelhos, mostra seus brinquedos sexuais escondidos debaixo da cama: ela se revela, não há mais nada para esconder. É uma ruptura, Erika agora esta sozinha. Ao mesmo tempo, ela passa a bomba para Walter: a partir daí ele sabe o seu segredo, é hora de decidir se irá aceitá-lo ou não. Aliás, será que Erika realmente deseja por aquilo?

A alma de Erika está em Elfriede Jelinek e em  Isabelle Huppert

O filme foi baseado no romance da escritora austríaca Elfriede Jelinek, publicado em 1983 e vencedor do premio Nobel de literatura. O livro chegou no Brasil um pouco tarde, apenas em 2011. Polêmico. Foi recebido com estranheza pelo público e pela crítica, Jelinek ficou anos sem falar sobre a sua obra. De acordo com o texto escrito por Silvia Velloso Rocha e publicado no Globo, há várias interpretações políticas sobre ‘A Pianista que perpassam o feminismo, a xenofobia e o preconceito de classes.

Elfriede Jelinek
Elfriede Jelinek

Em relação ao filme existem diversos aspectos técnicos que chamam atenção, não é atoa que ele tenha se tornado o grande vencedor no Festival de Cannes em 2001, repleto de detalhes, com uma trilha sonora sensacional e atuações brilhantes. Li, em várias críticas, que o filme é  ‘lento demais. Vamos lembrar que essa não é uma produção americana, não há pressa nem uma explosão de clímax.

Um momento genial no filme se passa quando Haneke filma o rosto de Huppert, em close, nessa cena Erika vê Walter ensinando outra garota a tocar piano: ela está possessa, morta de ciúmes, mas não deixa o sentimento se esvair, continua lá, fixa, imóvel, fria. É exatamente nesses detalhes que o filme de Haneke se torna incrível, aliás, essa é uma de suas marcas. Haneke respeita os pequenos momentos, ele não tem pressa. Huppert corresponde muito bem a expectativa, sua interpretação não é exagerada e ainda assim conseguimos sentir todo o drama do personagem, incrível o que ela faz, incrível como ela se constrói.

Em ‘A professora de Piano, Annie Girardot também rouba a cena quando aparece. Difícil definir a sensação que ela passa em tela, aquela figura pequena, já idosa, dócil e ao mesmo tempo, odiável. Girardot e Huppert, as duas possuem uma química invejável, atuam com naturalidade, ali são realmente mãe e filha.

Philomena

Philomena me deixou com o coração pesado, com uma certa angústia. Não bastasse ser uma história triste, baseia-se em fatos reais. Dirigido por Stephen Frears, o filme relata o sofrimento de Philomena Lee (interpretada por Judi Dench), uma senhora que escondeu um segredo por cinquenta anos.

Em 1952, na Irlanda, Philomena foi mandada pelos pais para um convento, diziam que ela tinha cometido um grave pecado, engravidar. Sem ajuda do namorado, a jovem foi obrigada a trabalhar (praticamente como escrava) e em troca, as freiras davam a ela e a seu filho comida e moradia.

Uma dia, uma família americana visitou o convento e adotou o menino, sem sua permissão – é claro. Ao longo dos anos, Philomena buscou pela criança, sem nunca encontrar dados concretos de seu paradeiro. Ao deixar seu segredo vir a tona, Philomena desperta a curiosidade de Martin Sixsmith (Steve Coogan), um jornalista disposto a contar a sua história e ajudá-la a encontrar seu filho.

Philomena: Martin Sixsmith and Philomena Lee in real life and as played by Steve Coogan & Judi DenchO filme mostra como o destino pode, às vezes, ser muito irônico – pra não dizer, traiçoeiro. Uma história de desencontros… mais do que isso, uma história de amor tão grande e interminável, que sobreviveu a provas mais difíceis da vida. Philomena nos questiona sobre Deus, sobre a religião, sobre a moral e sobre a igreja, como instituição. Quantas Philomenas existem por aí? Quantas delas perderam seus filhos, quantas delas viveram em profundo desespero? Impossível ser preciso.

Gostei muito do filme, mas por um personagem em especial: Martin Sixsmith. Como jornalista recém formada, me identifiquei com sua dedicação ao contar a história. Uma das principais funções do jornalista é exatamente essa: ouvir – e é engraçado como nem todos sabem fazer isso. Recontar uma história, ter sensibilidade e perceber que ali está um fato interessante, mesmo que seu texto vire, no dia seguinte, papel para enrolar peixe. Mesmo que sua história não vire um filme…philomena05Judi Dench, mais uma vez, incrível. Difícil não se emocionar com sua interpretação. Durante a cerimônia do Oscar, Rubens Ewald Filho disse que esse é o melhor trabalho dela. Pra dizer a verdade eu não concordo, mas não há como não reconhecer que esse trabalho é ‘grande. Steve Coogan não deixa por menos, também responsável pela carga dramática do filme, principalmente quando seu personagem finalmente descobre o paradeiro do filho da Philomena.

Stephen Frears, que por sinal também foi diretor em ‘A Rainha e já trabalhou com Judi Dench em Sra. Henderson Apresenta’ exibe um trabalho muito bem feito, especialmente em relação a fotografia, interessante como ele foi sábio ao não fazer da história, que é bem triste, um dramalhão qualquer e ainda assim, conseguir emocionar.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos

Ontem revi um dos filmes brasileiros que mais gosto. O assisti há muitos anos, ainda no colégio e o título não me saiu da cabeça; Revê-lo trouxe sensações semelhantes as que senti na época, uma consciência amarga do fim da vida, uma nostalgia enorme e um respeito, uma admiração pela história e evolução humana.ImagemPor si só, o título “Nós que aqui estamos, por vós esperamos” é uma belíssima construção poética, uma sentença, uma reafirmação de que todos os homens possuem um só futuro, uma só certeza: a morte.  Mais interessante ainda é que a frase está inscrita na porta de um cemitério localizado em Paraibuna, no interior de São Paulo e serviu de inspiração para o diretor, Marcelo Masagão.

O filme, primeiro projeto de Masagão, é uma releitura cinematográfica do livro ‘A Era dos Extremos’, de Eric Hobsbawm. Premiado no Festival de Recife e no Festival de Gramado em 2000, o documentário é composto por uma série de colagens, textos, pinturas e vídeos que remontam a história, evidenciando a modernidade. O vídeo fica ainda mais emocionante com a trilha sonora, por sinal muito linda, criada por Win Mertens.

O rádio, a luz e a aspirina

Enquanto assistia o filme eu anotava algumas palavras, faço isso às vezes. Relendo meu caderno, o que escrevi foi: fantasmas do passado, terror, grotesco, chocante, família, sacrifício, humanidade, imagem, modernidade, voto feminino, poesia, religiões, trilha sonora, beleza. Em suma, é exatamente o que define “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”, Masagão foi muito sábio ao dar voz aos esquecidos, trazer a tona histórias tristes (e poéticas) que nunca saberíamos, contar o banal, fazer do banal uma poesia.

E a arte que ele constrói não é só visual, é sensorial também. A trilha sonora, o texto e o vídeo se fundem. As histórias são contadas através de frases de efeito, difícil não se sensibilizar com elas, por exemplo: “Berlim, 2000 casamentos: lua de mel improvisada, no outro dia Hans estava no front, Hans atira bombas”. ou “Paul Norman não tinha luz em casa, morreu na cadeia elétrica”, “Trabalhou doze horas por dia numa fábrica da Ford, inclusive aos sábados. Nunca teve um Ford”, “Nunca viu TV, nunca foi pra guerra, gostava de coca-cola”.

Foto: Carlos Santos/G1
Foto: Carlos Santos/G1

Aliás, o que Masagão faz não é só ‘arte é também um trabalho documental, de historiador, um trabalho jornalístico, ele reconta o passado. Um dos temas recorrentes é a guerra, o diretor visivelmente se opõe a isso e seu instrumento principal é a imagem, ele exibe imagens chocantes como um homem brincando com uma pena decepada, multidões caminhando, bombas explodindo, uma mulher brincando com uma mão, cidades destruídas – mais uma vez, difícil não se sensibilizar.

Vale lembrar que Masagão não só relembra os ‘esquecidos’, mas também menciona figuras populares, algumas inesquecíveis, de ditadores como: Hitler, Mussolini, Pol Pot, Franco, Salazar, Idi Amin, Pinochet, Médici. De feministas: Doris White, Josephine Baker. De pensadores e artistas: Karl Kraus, Freud, Madre Thereza, Gandhi Stalin, Picasso (…). Não há nada mais lindo do que a imagem de Fred Astaire dançando em contraponto a imagem de Mané Garrincha jogando, que comparação incrível não? Melhor ainda, ao som de um samba irresistível.

Ficha Técnica:
Gênero: Documentário
Direção: Marcelo Masagão
Roteiro: Marcelo Masagão
Trilha Sonora: Wim Mertens
Duração: 73 min.
Ano: 1999
 

Assista:

Milagre na cabana

Realizado especialmente para TV, Milagre na cabana é um filme dramático que conta a história de Wanda (Patricia Heaton) e Sarah (Meredith Baxter), duas irmãs distantes que se reencontram após o falecimento da mãe. Enquanto Wanda ficou na cidade e cuidou da mãe durante sua doença, Sarah mudou-se com o marido e a filha Gina para longe e nunca se deu ao trabalho de visitá-las.

Miracle No funeral, Wanda – extremamente magoada – confessa que a mãe passou anos esperando que Sarah viesse vê-la. No entanto, Sarah tinha um motivo importante que a impedia de voltar para casa e talvez por vergonha (ou orgulho) preferiu não revela-lo.

Após a leitura do testamento, as irmãs descobrem que Lily (Della Reese), uma velha senhora, mora há anos na propriedade pertencente à família. Sarah, decidida a vender o local, precisa enfrentar Wanda e Gina que fizeram amizade com Lily e descobriram sua triste história de lutar e dor: na juventude, Lily casou-se com um homem explorador, foi separada do filho e obrigada a passar por sessões de eletrochoque até conseguir fugir (e com a ajuda de uma amiga), instalar-se naquele local.

Do amor, da família e a dor da distância

Milagre na Cabana não é um grande filme, não mesmo. Alguns aspectos técnicos, como a fotografia, deixam a desejar. Uma coisa que me incomodou bastante foi uma intenção descarada de sensibilizar o espectador, de induzi-lo através dos diálogos carregados e da trilha sonora densa. Apesar disso, a produção conta com uma essência que me agrada neste tipo de gênero: eles tendem a enriquecer a estrutura filmica televisiva.

O que chama atenção na trama é o cuidado em trazer protagonistas mulheres e ilustrar as dificuldades que rondam o universo feminino através dos anos. Aliás, o filme não só ilustra o universo feminino, ele representa em profundidade as dificuldades das relações humanas e familiares. Enquanto Wanda precisa perdoar Sarah como irmã, Lily precisa ficar em paz com o passado e reencontrar o filho perdido.

milagre na cabana1No filme duas vertentes conduzem o argumento: a primeira é a relação entre Wanda, Gina e Sarah. Além de ficar ressentida com a irmã, Wanda insiste que Sarah preste atenção na filha, que não possui amigos e não consegue se abrir com ninguém. A segunda, não menos importante, é a relação entre Gina e Lily, que relembra o passado traumatizante através da semelhança de Gina com a avó.

Quando nos referimos a Lily, temos que lembrar que quem a interpreta é ninguém mais, ninguém menos que Della Reese. Impossível não se emocionar com uma atuação tão forte e cativante, Resse sabe o seu lugar na trama e o conquista sem esforço.

Ficha Técnica
Título Original: Miracle in the Woods
Ano: 1997
Gênero: Drama
Diretor: Arthur Allan Seidelman
Duração: 90 minutos
 

milagre na cabana2P.S: Patrícia Heaton

Comentei outro dia aqui no La Amora sobre “The Middle”. Amei a série e asisti os episódios em menos de duas semanas. Estou apaixonada pela Patrícia Heaton, incrível como ela se sai bem em filmes e seriados cômicos. Tenho lido bastante sobre ela, sobre a carreira dela (que, basicamente, é dedicada a TV).

Heaton, aliás, participou durante anos de Everybody Loves Raymond e só a pouco me dei conta de que ‘ela, a Debra’ é ‘ela, a Frankie’… Dãã, deu pra entender? Deu né. Em Milagre na cabana, Patricia Heaton está grávida, gravidíssima aliás e é engraçado como ela tenta esconder a barriga, exatamente como também o faz em duas temporadas de Everybody Loves Raymond.

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TITUS, que história!

Sangue, vingança e traição: a história.

Titus é um influente general romano que lutou contra os godos e venceu a batalha. Quando retorna a cidade, ele traz quatro prisioneiros: Tamora (a rainha dos godos) e seus três filhos – e os usa dar uma demonstração do seu sucesso e poder.  Tamora implora para que Titus os liberte, ou pelo menos, liberte seus filhos. Implacável, Titus mata o primogênito de Tamora e lhe entrega suas vísceras.

Titus chega na cidade a um momento oportuno, há uma eleição para escolher o novo imperador: na disputa estão Saturtino e Bassiano (irmãos), que brigam pelo trono. Saturtino apela para a vaidade de Titus, enquanto Bassiano acredita em sua justiça. Bassiano realmente possui boas intenções, mas o fato de namorar Lavínia (filha de Titus) o prejudica.

 Em primeiro momento, Titus tenta se auto eleger – o que deixa Saturtino furioso! – depois, percebendo a impossibilidade de se tornar imperador, o general escolhe Saturtino, pois acredita que ele, sendo o irmão mais velho, tem mais direito ao trono.

Os filhos de Titus sabiam do namoro entre Lavínia e Bassiano, além disso, não apoiaram o pai em sua escolha. Titus sente-se traído, mata um dos filhos e exige que os outros (entre eles, Lúcio, um soldado popular e influente) nunca mais se aproximem dele. Assim que assume o cargo, Saturtino dá pistas de sua má índole:  para humilhar Titus e Bassiano ao mesmo tempo, diz que irá se casar com Lavínia. Titus não gosta muito da ideia, mas como é um homem muito leal, aceita.

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Titus leva Tamora e seus filhos para uma prisão, no caminho Saturtino os encontra e fica encantado pela rainha dos godos.  Então Saturtino volta atrás e resolve se casar com Tamora, ofendendo Titus mais uma vez.  Depois da realização do casamento, Tamora faz um acordo com Saturtino: ela sabe que se Saturtino humilhar Titus mais uma vez, a popularidade do imperador pode cair então pede que seu marido deixe que ela se vingue de Titus do seu jeito.

Aos poucos, Saturtino fica cegamente apaixonado por Tamora e nem percebe que ela mantém um romance com um de seus empregados, o Aaron, um homem traiçoeiro. Um dia, Tamora e Aaron são flagrados pelos filhos de Titus. Com medo de ter seu segredo revelado, Tamora os mata e provoca uma tragédia: ela manda que seus filhos se vinguem de Titus de uma vez por todas: estuprem Lavínia.

Os filhos de Tamora não só estupram Lavínia como também arrancam a sua língua e cortam as suas mãos. A garota é encontrada por seu irmão, Lucius, completamente atormentada. Levam-na para Titus e ele fica desesperado, chocado, sem chão. Titus encontra Aaron e pergunta o que pode fazer para demonstrar para Tamora e para Saturtino que não pretende mais brigar, Aaron propõe que Titus tenha um ato de coragem: que arranque a própria mão e mande ao imperador. E é justamente o que Titus faz. O problema é que ele foi enganado, Aaron sugeriu a automutilação por pura maldade. Pouco tempo depois ele manda a mão de Titus de volta e debocha do soldado.

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Nesse meio tempo, Tamora engravida de Aaron, mas a criança nasce negra e ela, envergonhada, pede que o matem. Aaron chega um pouco antes do assassinato do menino e leva o filho para longe dali e promete: ele se vingará. Enquanto isso, Lucio vai até a terra dos godos e conta para o povo as barbaridades que Tamora cometeu. Ele encontra pessoas que também não gostam da rainha e que querem vê-la morta.

Com medo de Saturtino descobrir o crime que seus filhos cometeram em relação à Lavínia, Tamora e seus filhos vão à casa de Titus assombrá-lo, eles fingem ser uma “alucinação” do soldado. O que eles pretendiam, na verdade, era fazer com que Titus pensasse que tinha enlouquecido, mas ele não cai na pegadinha, pelo contrário. Tamora vai para o palácio, deixa os filhos sozinhos na casa de Titus e pede para que eles terminem o trabalho. Titus, no entanto é muito mais esperto do que eles e mata os dois.

Titus manda uma carta para Saturtino e pede por trégua e por isso afirma irá servir um jantar para o imperador e sua esposa. Saturtino aceita. No dia do jantar, Titus prepara a refeição. Antes de servi-la, ele mata a filha (Lavínia) na frente dos convidados para mostrar que não aguenta mais vê-la sofrer. Finalmente, os convidados começam a comer o que Titus preparou: uma torta de carne, feita com os restos mortais dos filhos de Tamora. A rainha não sabe que são seus filhos e então, os come. Depois que Titus revela que a torta na verdade é feita de carne humana, ele finalmente apunhala Tamora no pescoço. Revoltado, Saturtino mata Titus. Lucius, também revoltado, mata Saturtino.

Acerto Final

Sou grande fã do Jack Nicholson, fã assumida.  Mas a minha admiração por ele não surgiu através dos seus grandes filmes, daqueles mais famosos como “Um estranho no ninho”, por exemplo. Comecei a admirar Nicholson depois que assisti ‘Acerto final’, um drama de 1995, dirigido por Seann Peann. No filme, ele interpreta Freddy Gale, um homem traumatizado pela morte da filha, Emily.  Depois de perdê-la, Gale promete para si mesmo se vingar de John Booth (interpretado por David Morse), o responsável pelo atropelamento da garota – no dia, Booth estava alcoolizado.

Quando Booth finalmente é solto, Gale encontra-se no ápice da sua obsessão. Inclusive, vai a casa da sua ex-mulher (interpretada por Anjélica Huston) para confrontá-la com o passado, com a morte da menina. Gale não suporta a ideia de ver sua ex-esposa com outro homem e, agora, mãe de dois filhos. É exatamente nessa concepção que o filme ganha seus pontos, enquanto Gale está preso ao passado, sua mulher resolveu seguir em frente e Booth, mesmo se sentido culpado e completamente arrependido, também deseja reconstruir a vida ao lado de Jojo (interpretada por Robin Wright).

ImagemO bacana é que a trama não se trata apenas da vingança de Gale e também não é um daqueles dramas morosos, não é um sonífero. “Acerto final” nos faz repensar na vida, nas relações familiares e nas “chances” que deixamos passar. Apesar de não ser grandioso, o filme traz pequenas pérolas em forma de diálogo e uma atuação primorosa de Nicholson, que domina o longa em toda sua duração. Aqui, Nicholson está dramático, mas em uma dosagem tão perfeita que é difícil não se sensibilizar com sua dor, é difícil não torcer para que ele consiga finalmente, matar Booth e livrar-se desse rancor que o corrói aos poucos.

Anjelica Huston Jack NicholsonA trilha sonora é perfeita, especialmente uma música de Bruce Springsteen que captura toda a tensão e o suspense do filme. Em falar em música, uma das coisas desse filme que não sai da minha cabeça é as diversas sequências construídas em cima de um bonequinho, que assobiava uma música que Gale cantava para Emily, uma música triste e marcante, uma alegoria a memória de Gale, atormentado pela morte da filha.

Ficha Técnica:
Título Original: The Crossing Guard
Ano: 1995
Gênero: Drama/Ação
Direção: Seann Peann

Tristezas não pagam dívidas

Tristezas não pagam dívidas é um livro incrível, produto da dissertação de Mônica Rugai Bastos, apresentada em 2001 no Programa de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. A autora realiza uma análise socio-política sobre a produção cinematográfica brasileira no período dos anos 30 aos anos 50 e expõe a importância das duas principais produtoras nacionais: a Atlântida e a Vera Cruz. Como define Renato Ortiz na introdução, a Atlântida e a Vera Cruz “simbolizaram a tentativa de trabalhar uma dramaturgia nacional quando o cinema estrangeiro, leia-se norte americano, era o sinal explicito de nossa alienação cultural”. Além de analisar a chanchada de maneira detalhada, Bastos relembra nomes importantes como Oscarito, Grande Otelo e Cyll Ferney, contextualizando-os em um cenário marcante, onde o Brasil saía de um perfil tipicamente agrário (anos 30), para uma época ilusória de glamour (anos 50).

Encontrei esse livro na Leitura, comprei exatamente no dia do meu aniversário, mas só agora tive tempo de relê-lo. Estou marcando as partes que me chamaram atenção. O texto a seguir é um pequeno resumo do que eu li, algumas reproduções de citações importantes ou das partes que me chamaram mais atenção. Mas aqui está um olhar apenas sobre o inicinho do livro, onde ela fala sobre o cinema nacional e sobre Hollywood. Espero (ou melhor, prometo!) retomar esse texto mais a frente.(Digamos que essa é a primeira parte e assim que tiver a segunda, coloco um link aqui!)

O Brasil e a chanchada

“a narrativa fílmica reproduz um otimismo saudável e ingênuo”.

A chanchada marcou o cinema brasileiro, surgiu em um período em que um dos grandes temas culturais era o carnaval. Nos filmes, muito samba, marchinhas, plumas, pandeiros, sátiras. Mocinhas e vilões desfilavam em um Rio de Janeiro glamouroso, frenético. Como diria a autora; “ir ao cinema era moderno e viver na cidade também”.

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Infelizmente, essa ideia de modernidade era ilusão, uma concepção forjada nos primeiros anos no governo de Getúlio Vargas. De fato, o país dava passos para mudanças estruturais econômicas, mas elas aconteceram gradativamente (com a implementação de siderúrgicas, criação das leis trabalhistas e indústrias de bens de consumo duráveis). É de conhecimento que Vargas  tinha uma preocupação em educar o povo para a cidadania, criou um sentimento nacionalista  e investiu em órgãos especializados na educação.

Essas estratégias refletiram diretamente no cinema e Bastos explica da seguinte forma: “Vargas se utilizou do cinema nacional para divulgação de novas ideias, e, ao fazê-lo, engendrava uma fórmula dúplice: de um lado, apoiava-se na tese de que o cinema brasileiro, por ser nacional, era melhor do que o estrangeiro. de outro, ao veicular ideias e valores nacionais, provocava uma identidade imediata do público com os princípios defendidos. Com tal estratégia, conseguia que o público comparecesse em massa e estivesse mais aberto à absorção daqueles princípios”

E claro, para divulgar seus slogans, facilitou a penetração dessas mídias (entre elas o cinema e o rádio) no cotidiano da pessoas. Nos anos 30, o rádio tinha um espaço muito maior do que o cinema – não só porque chegava em regiões mais restritas, mas por que era mais conhecido. Aos poucos o cinema foi tomando sua forma, conquistando o seu lugar e tinha uma vantagem: “O cinema ganhava do rádio, por que além da ideia e do som, tinha também a imagem”. Mas conquistava seu espaço com dificuldade: os filmes chegavam com atraso, as estrelas nacionais não conseguiam disputar o mesmo espaço com as de Hollywood e os gastos publicitários eram astronômicos. O cinema nacional (como indústria) só conseguiu se consolidar na década de 1950, com a chegada da Vera Cruz.

As estrelas de cinema preenchem o vazio da falta de heróis do mundo moderno

As primeiras produtoras cinematográficas brasileiras surgiram na década de 30, época em que o público já tinha absorvido a ideia do “star system”, uma série de estratégias publicitárias (se é que se pode chamar assim) que já tinham se consolidado em Hollywood. Para uma melhor definição, é interessante dizer que o star system era uma fábrica de estrelas, de artistas, que propositalmente criava uma expectativa, uma admiração do público em relação aos atores e de certa forma, eram paradoxais: ao mesmo tempo que aproximavam os famosos do público (por meio das revistas e dos próprios filmes), criavam um distanciamento.

Foi, principalmente por causas dessas estrelas que Hollywood se tornou uma indústria cultural. Na década de 20 o cinema movimentava um público restrito, depois disso rendeu-se ao mercado e tornou-se um produto mundialmente conhecido. É difícil precisar exatamente o momento em que isso aconteceu, mas o que se sabe é que a chegada dos profissionais de marketing nesse cenário trouxe ao cinema uma “aura” diferente, trouxe não só o glamour como também o consumo. Vendia-se não só os filmes, mas também os atores e ganhava-se muito dinheiro com isso.

Eliana Macedo e Grande Otelo, 1948. Cena do filme: E o Mundo se Diverte.
Eliana Macedo e Grande Otelo, 1948. Cena do filme: E o Mundo se Diverte.

Bastos explica o seguinte: “Como todo objeto, a estrela (o ator) apresenta duas facetas, precisa ser suficientemente concreta para vender sua imagem pelos filmes; mas necessita ser diáfana para se diferenciar do restante dos mortais. Os estúdios de cinema atingem esse objetivo por meio da mitificação dos atores e das atrizes. É uma forma invertida da apresentada pelo teatro grego, onde o ator pode representar um mito. No cinema, o ator torna-se o mito no momento em que representa os anseios da humanidade. Há uma projeção das aspirações do público sobre o interprete que acarretam a perda de sua individualidade. É disso que vive o cinema”.

Uma das reflexões mais interessantes da autora (na verdade, ela se baseia em Edgar Morin) é a de que no cinema (em sua essência), o ator é apenas uma peça secundária, afinal o cinema é seu próprio personagem. A linguagem cinematográfica permite a ausência do autor, diferentemente do teatro em que o ator é fundamental, o filme coloca essa importância em segundo plano… o exemplo mais claro disso são os documentários ou alguns filmes do realismo alemão, mas o star system provocou uma simbiose entre os dois (entre o ator e o filme).

 REFERENCIA: Bastos, Mônica Rugai. Tristezas não pagam dívidas. Cinema e Política nos anos da Atlântida/ São Paulo: Olhos D’agua, 2001

Walt nos Bastidores de Mary Poppins

Dirigido por John Lee Hancock, “Walt nos Bastidores de Mary Poppins “ (ou Saving Mr. Banks) conta a história da conflituosa relação entre Walt Disney e P.L. Travers durante a gravação de Mary Poppins, filme produzido em 1964, que traz Julie Andrews e Dick Van Dyke como protagonistas. Walt Disney passou cerca de vinte anos tentando convencer Travers a liberar os direitos autorais da obra, quando finalmente ela aceitou, exigiu ser parte da equipe criadora do filme, causando alguns transtornos para os envolvidos.

ImagemO filme possui sequencias belíssimas, uma fotografia interessante e o produto final  – tecnicamente falando, não deixa a desejar. A construção cenográfica e a reprodução de época (com aqueles carros antigos maravilhosos e figurinos bem trabalhados) são de deixar o queixo caído. Sem dúvidas, o argumento é fundamental, mas o cenário é o ponto forte e traz a tona aquele clima gostoso que mistura glamour e nostalgia. E há uma certa magia também, quem nunca se encantou com as animações da Disney? Saber o que se passou por trás de uma produção tão grandiosa é no mínimo curioso, uma ode à infância.

Não há o que dizer sobre Tom Hanks e Emma Thompson, é difícil expressar a grandiosidade do encontro desses dois. Mas o filme é, sem dúvidas, de Thompson, responsável pelos momentos mais densos e dramáticos. Ela traz humanidade a Pamela Travers, encarna uma mulher marcada por um passado triste, que teve uma infância difícil e que não conseguiu se livrar da culpa que sentia em relação a morte do pai. Aliás, a sua relação com o pai (interpretado por Colin Farrell) é o ponto chave de toda a história e justifica as manias obsessivas e doentias da autora.

Imagemsaving-mr-banks-tom-hanks-600-370Mas eu não gostei do filme, não consegui… algo me deixou muito incomodada. “Walt nos Bastidores de Mary Poppins“, endemoniza Pamela Travers, ainda que isso não fique muito evidente. Bom, vamos reconhecer que Travers não era uma mulher fácil de lidar, tinha uma história familiar complexa, era chata em relação às manias e demonstrava ter um perfil dominador. Conta-se que Travers insistia na ideia de interpretar Mary Poppins, que não queria que a cor vermelha fosse usada no filme e que largassem mão das animações.

Mas para Travers, Poppins não era um mero personagem, talvez funcionasse como um alter ego, um fantasma que rondou a sua vida por anos, sua relação com a “babá encantada” era de ódio e amor. E dizer que ela amou o filme, que se emocionou com a exibição é mentir para o espectador, o que é meio revoltante. Travers não só odiou a produção, como nunca mais vendeu os direitos autorais de seus livros para a Disney. Como diria a Lola, ela chorou sim… mas de raiva, de fúria!

ImagemFoi isso, exatamente isso que me incomodou. Será que se esqueceram que Walt Disney também foi uma personalidade contraditória, cheio de manias, que tinha um talento inquestionável e um faro para negócios igualmente grande(?). Difícil acreditar que Walt tenha feito todas as vontades de Pamela tão facilmente e tão graciosamente assim. Difícil acreditar que ele não tenha a convidado para a Première apenas por medo de que ela estragasse o lançamento do filme, venhamos e convenhamos… ele devia estar louco para se livrar dela.