10 filmes sobre ‘Racismo

Racismo

outra-historia-americana-poster021)A outra história americana: Esse é um filme impressionante, tanto pela trama quanto por questões técnicas. Dirigido por Tony Kaye e protagonizado por Edward Norton, o filme conta a história de Derek (Norton), um homem que liderou, durante anos, uma gangue racista. Totalmente desgovernado, Derek passa a compartilhar mensagens de ódio, traz problemas para a família e se envolve em um assassinato. Após três anos na prisão, Derek sai em liberdade com uma cabeça totalmente diferente da que entrou, mas percebe que seu irmão mais novo (interpretado por Edward Furlong) seguiu seus passos e está prestes a liderar um novo grupo racista. Diálogos densos, fotografia incrível. Emocionante.

Índice2) Ao Mestre com Carinho: Filme de 1967, protagonizado Sidney Poitier e inspirado na autobiografia de E.R. Braithwaite. Na trama, Poitier interpreta Mark Thackeray, um engenheiro frustrado que recebeu um convite para ministrar aulas em uma escola pública.  Thackeray logo se desentende com a classe, que possui um comportamento agressivo e não o respeita. Diante da situação o professor decide não só ensiná-los as matérias escolares, como também dar-lhes uma lição de vida. Socialmente marcante, ‘Ao mestre com carinho’ é um obrigatório. Dirigido, roteirizado e produzido por James Clavell.

3)  Histórias Cruzadas: Baseado na obra de Kathryn Stockett, o filme se passa na Histórias Cruzadasdécada de 1960, no Mississipi.  Na trama, Skeeter (interpretada por Emma Stone) é uma jornalista inconformada com o racismo sofrido por duas empregadas negras, Aibileen (Viola Davis) e Miny (Octavia Spencer). Skeeter começa a escrever um livro sobre o cotidiano das empregadas e entrevista outras mulheres que passaram por situações semelhantes. O livro, chamado ‘The Help’, torna-se um escândalo e choca a vizinhança conservadora onde Skeeter vive. Doce e triste, um filme imperdível. Dirigido e roteirizado por Tate Taylor.

4)   Preciosa: Impossível fazer uma lista dessas, sem citar esse filme. Ainda não que não seja um dos meus preferidos – acho muito exagerado, reconheço que 19962710.aspPreciosa conta com atuações incríveis. Dirigido por Lee Daniels, o filme conta a história de Claireece “Preciosa” Jones (Gabourey Sidibe), uma adolescente negra e pobre de 16 anos que sofre abusos sexuais tanto do pai quanto da mãe.  Preciosa, que tem um filho com síndrome de down, descobre estar novamente grávida. Para não ser expulsa do colégio, ela busca ajuda na orientadora social, Sra. Weiss (interpretada por Mariah Carey).

5) Mississipi em Chamas: Denso, dramático e assustador. Filme de 1988, dirigido por Alan Parker. Na trama, Gene Hackman interpreta Rupert Anderson e Willem Dafoe vive Alan Ward, dois agentes do FBI que investigam o assassinato de três Mississipiativistas. A trama se passa na década de 60 e é um retrato sobre as atrocidades cometidas pela Ku Klux Klan. Apesar de muito premiado (entre eles: Oscar, BAFTA e Globo de Ouro), o filme foi criticado por sua inconsistência histórica já que apresentou os agentes do FBI como heróis, quando na verdade, o FBI pouco defendeu os civis da região.

6) 12 Anos de Escravidão: Baseado em um romance autobiográfico, “12 anos de escravidão” conta a história de Solomon Northup, um homem negro e livre que viveu em Nova York no século XIX. Em 1841, Norhtup (que era um violinista conhecido), recebeu um contive: viajar para Washington, tocar em um circo e ganhar qcartaz-12-anos-de-escravidc3a3ouase o triplo do seu salário. Durante a viagem, o músico é sequestrado e vendido como escravo.

Obrigado a trabalhar em uma plantação em Louisiana, Norhtup tenta fazer contato com sua família de todas as formas. Enquanto não consegue, presencia a barbárie e a violência sofrida por outros negros, que encontram-se em uma situação parecida com a sua. Em “12 anos de escravidão”, Steve McQueen (também diretor em Shame) toca em um ponto dramático da história da humanidade, é difícil (quase impossível) não se sentir sensibilizado quando o assunto é escravidão. Famílias separadas, dor, humilhação psicológica e física, racismo e tortura: um misto de ações e sentimentos  que fazem o estômago embrulhar. Já vimos muitas histórias sobre esse temahomo-sapiens-1900-dvd, mas ’12 anos, diferente de Django Livre, por exemplo, traz uma história sincera sobre o terror, sobre o lado mais obscuro do ser humano. E aliás, acho fundamental esse papel que o cinema cumpre, de nos lembrar – ou melhor, de nos fazer ter consciência – da nossa história.

    7) Homo Sapiens 1900: Imperdível. O documentário, de 1998, dirigido por Peter Cohen, constitui-se de uma narrativa (em forma de colagem, com fotos e vídeos) sobre a ‘eugenia’, ou seja, sobre o aprimoramento da raça humana. Homo Sapiens 1900 demonstra como a ciência e diversos estudos científicos estão marcados pelo racismo. Além disso, Cohen mostra como o facismo e o nazismo, como a Europa e o próprio EUA se basearam nessas teorias. Os nazistas, por exemplo, propagavam a ideia de ‘limpeza de pele’, de físicos perfeitos e da superioridade da raça ariana. 

Hotel-Rwanda  8) Hotel Rwanda: Filme de 2004, dirigido por Terry George. A trama reconstrói o Genocídio em Ruanda, ocorrido em 1994, época em que o conflito entre os hutu e os tutsi causou a morte de mais de 500.000 pessoas.  A ‘guerra’ entre os dois grupos começou quando o presidente Juvenal Habyarimana foi assassinado em um atentado (logo após assinar um acordo de paz). Na história, Don Cheadle interpreta Paul, dono de um hotel que, diante da possibilidade de um massacre, tenta proteger a família. Nesse mesmo período, o hotel de Paul acaba se tornando abrigo para refugiados (não só civis, mas também militares e políticos).

Adivinhe.Quem.Vem.Para.Jantar.DVDRIP.Xvid.Dublado9) Adivinhe quem vem para jantar:  Spencer Tracy + Katherine Hepburn + Sidney Poitier = Clássico, com interpretações incríveis e, com uma história emocionante. Filme de 1967, dirigido por Stanley Kramer. Na trama, Hepburn e Tracy interpretam um casal que recebe em sua residência o noivo da filha, John Prentice (Sidney Poitier).  O casal se choca e se incomoda com a cor de Prentice, que apesar de ser um bom homem, não corresponde aos ‘padrões’ impostos pelos sogros. O filme tem um roteiro ímpar, com toques de ironia que deixam os diálogos e as situações mais interessantes e cômicas.

a-cor-purpura-alice-walker_mlb-f-216554592_5922     10) A Cor Púrpura: Filme de 1985, de Steven Spielberg. Após ser violentada pelo pai, Celie (interpretada por Whoopi Goldberg), uma jovem de quatorze anos, dá a luz a duas crianças. Separada dos filhos e da irmã, que tanto ama, Celie começa a escrever cartas (primeiro para Deus e depois para a Natalie, uma missionária). Solitária e extremamente triste, Celie – com a ajuda de Shug e Sophia (Oprah), começa a perceber que pode mudar seu destino.

 

Gigola

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Gigola (a gigolô feminina) não é uma mulher de beleza exuberante, não é daquelas que escancaram as revistas, daquelas que aparecem nas telas ou passarelas. Ousaria dizer que nem bonita ela é… mas é irresistível, sensual, glamourosa, voraz. Gigola é um charme – e aprendeu a lidar com os prazeres sexuais com uma professora do colégio, época em que se entendia como ‘George’ e já era maliciosa.

Apaixonou-se perdidamente pela professora, envolveu-se até o último fio de cabelo. Decepcionou-se logo no primeiro amor, a professora morreu. Gigola, viúva, nunca mais foi a mesma e nunca mais encontrou alguém que substituísse a altura o amor perdido.

Jogou-se na rua, ovelha negra, largou a faculdade de medicina, chocou os pais católicos, tornou-se garota de programa. Fez sucesso, subiu rapidamente na carreira, tornou-se uma poderosa cafetã. Não ficava atrás de nenhum homem, sabia mandar, sabia negociar. Enriqueceu.

Comedora, pegava todas, até aquelas que estavam dispostas a pagar milhões, a presenteá-la com carros importados e lhe comprar joias caríssimas. Rica, independente, com mulheres aos seus pés, respeitada… o quê lhe faltava? Gigola sentia falta de um amor.

Tentou suicídio, sobreviveu. No hospital conhece uma mulher, a própria reencarnação da única pessoa que mexeu com seu coração. Ela era igual a professora, mas não… não era ela. Médica, heterossexual e casada. Gigola se apaixonou por uma mulher impossível.

Marisa Paredes84093548Gigola é um filme gostoso, bonito. Daqueles que tem um clima de glamour, de ‘amor de cabaret’. Mas deixa a desejar em alguns pontos, peca pela tentativa caricata  de reconstrução de época. Laura Charpentier, a diretora, bem que se esforçou – e seu esforço é evidente em cada cena, mas alguma coisa faltou… um ‘it’, um climax, um rumo.

Lou Doillon é um verdadeiro presente para os olhos, fria, segura, séxy. Encarna uma Gigola irresistível – mas, confusa. Afinal, o quê a Gigolô feminina quer da vida? E, nesse universo lésbico, nessa vida noturna, o que a faz querer não ser quem é?

E, convenhamos, Gigola tem sorte. Nas mãos, duas mulheres belíssimas: Odete e Alice. Como resistir a Ana Padrão e a Marisa Paredes? (Paredes, que aliás, participa de uma cena quentíssima!).  Impossível também, não ter olhos para Rossy de Palma – que aparece pouco, mas aparece bem – marcante.

 

A tia Alejandra

tIA aLEJANDRA“La tía Alejandra” é um grande clássico do terror mexicano. Pesado e obscuro, o filme conta a história de Rodolfo, Lucía e seus três filhos. A família, de classe média, recebe a visita de Alejandra, uma senhora misteriosa e amarga que não é bem vista pelas crianças. Rodolfo e Lucía, no entanto, se apoiam financeiramente na tia e fazem de tudo para que ela permaneça na casa.

A chegada de Alejandra provoca graves incidentes e a família é marcada por sucessivas tragédias.  Enquanto as crianças possuem a certeza de que Alejandra, ‘uma bruxa’, é responsável por todos os acontecimentos ruins e tentam afastá-la, os adultos fazem de tudo para que ela permaneça – até que a situação foge do controle.

Dirigido por Arturo Ripstein e produzido em 1979, o filme é estrelado Isabela Corona, a “Bette Davis” mexicana, por Diana Bracho e Manuel Ojeda (outros dois grandes nomes da dramaturgia).

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Ripstein se debruça sobre o respeito que a cultura mexicana possui em relação a sabedoria dos anciãos e constrói uma história densa e inquietante. O filme, que se classifica perfeitamente no gênero de terror psicológico, não é uma daquelas produções com cenas gritantes de violência ou de susto. Pelo contrário, a narrativa ilustra casos de magia negra, ocultismo e bruxaria (enriquecido pela folclore mexicano) de uma forma assustadora, mas pouco explícita.

Por isso mesmo, ao ver o filme, me lembrei de “Os inocentes”, do Jack Clayton.  “A tia Alejandra’ também retrata uma história de possessão, magia e vingança, envolvendo crianças. O longa mexicano, por outro lado, é sexualmente mais pesado.

Isabela Corona (que, por muitos anos manteve uma relação amorosa com Júlio Bracho, pai da Diana Bracho) está deslumbrante, enigmática, fria. É ela que domina o filme, desde o inicinho ao fim. Diana Bracho também se sai muito bem, mas ainda estava longe de ser a figura forte e influente que se tornou no setor da sétima arte (de 2002 a 2006, por exemplo, foi a presidente da Academia Mexicana de Artes y Ciências Cinematográficas).

Título Original:La Tía Alejandra (1979)
Director: Arturo Ripstein
Guión: Delfina Careaga y Sabina Berman
Actores: Isabela Corona, Diana Bracho, Manuel Ojeda, María Rebeca
 
 

As bruxas de Zugarramurdi

Brujas_FrikarteEm 1610, a inquisição espanhola acusou quarenta mulheres por bruxaria. Cinco morreram em consequência a enfermidades, doze foram queimadas na fogueira. As outras pediram misericórdia e prometeram voltar à vida cristã.

No dia do julgamento, testemunhas relataram tantas coisas incríveis e horrorosas que os inquisidores passaram mais de 48 horas colhendo as informações. No processo, as mulheres foram acusadas de se encontrarem na Caverna de Zugarramurdi (Cueva de los Aguelarres ou Cueva de las Brujas) para praticar magia. [O local é um pequeno município espanhol, situado perto de Pamplona e, desde a época, ficou conhecido como “Cidade das Bruxas”].

Alex de la Iglesia (também diretor em La Comunidad) já havia  demonstrado interesse em filmar sobre o assunto. Até então, tinha um pré-projeto que ficou guardado durante anos até que resolveu filmá-lo. As produções, feitas em Zugarramurdi, levaram apenas sete  semanas para ficarem prontas. O filme foi bem recebido, ganhou oito prêmios Goya, sendo um para a atriz Terele Pávez e os outros de: maquiagem e cabelo, efeitos especiais, direção, montagem, direção, direção artística e figurino.Las Brujas

‘As bruxas de Zugarramurdi’ conta a história de um grupo de homens que tenta roubar uma joalheria, mas tem uma ação fracassada. Joseph, um dos assaltantes, acaba levando o filho, Sérgio, de apenas oito anos para o assalto e sem opções, foge com ele e com os companheiros.

Durante a fuga, o grupo entra em uma floresta e se deparam com um estranho restaurante, cujo os donos, são ainda mais estranhos. Os fugitivos são avisados: ‘Não continuem a viagem, porque vocês estão indo em direção a cidade das bruxas’.

Claro, eles não dão ouvidos. Logo, conhecem Graciana Barrenetxea – uma das lideres do clã das bruxas, que os pede carona. Graciana, cujo sobrenome ao contrário significa “Barre Echea” ou “Varre a Casa” – busca, há anos, uma criança que deve ser oferecida a deusa, que salvará as outras gerações de bruxas.

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Iglesia mantém o tom sarcástico e irônico. É normal que o espectador não acostumado com essa perspectiva louca e diferente, receba o filme com certa estranheza. Essa, no entanto, é uma das marcas do diretor. Alex tem essa predisposição em brincar com figuras pop, fazer piadas sujas e sacanas – e ser exagerado, até meio trash. No início do filme, por exemplo, o protagonista – vestido de Jesus Cristo, se une a um amigo vestido de Bob Esponja e juntos, bolam o assalto.

As bruxas de Zugarramurdi  é um daqueles filmes, que quando acaba, te deixa com a boca aberta. Do tipo: “Eu realmente vi isso?” No mais, não acho que seja um filme para mulheres (como muitos falam por aí), acho que é um filme sobre mulheres e que apresenta um visão até meio deturpada do sexo feminino. Afinal, somo tão histéricas e vingativas assim?

Gosto especialmente da abertura, que brinca e apresenta diversas referências histórias e artísticas. Trabalho lindo e minucioso, com uma trilha sonora fantástica. Aliás, é sempre bom ver Carmen Maura e Teréle Pávez juntas.

Vic + Flo viram um urso

Vic (Pierrette Robitaille) é uma mulher de sessenta anos que acaba de receber liberdade provisória da justiça. Em busca de abrigo, passa a viver com um tio – um senhor doente que sobrevive dependendo do cuidado dos outros.

Um dia Vic reencontra seu irmão, que lhe empresta certa quantia de dinheiro, a deixa responsável pela casa e vai embora. De certa forma, Vic passa a ser dona da residência – localizada no meio da floresta, longe da cidade, de tudo e de todos.

Seus dias de solidão acabam quando sua mulher, Flo (Valerie Donzelli), também recebe liberdade da prisão e passa a viver com ela. No entanto, Flo, que é mais jovem, deseja viver na metrópole, cercada lojas e pessoas.

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Confesso que a sinopse do filme não me chamou atenção. Fui fisgada pelo título: o uso do  símbolo + e dica de que elas viram um urso (?), me deixaram curiosa.  Não me arrependi, Denis Côté (também diretor em Alegria do Homem que Deseja), cumpre o que promete e realiza um belíssimo trabalho que, aliás, chama atenção pela fotografia.

Robitaille desempenha uma atuação incrivelmente densa, Vic não é um personagem qualquer – é amargo, repleto de mistérios e solidão. E o filme, em seu desenvolvimento, traduz o ócio das duas, a ausência de algo novo. A incessante  busca de Flo, que não se vê presa naquele lugar pelo resto da vida. Vic, por outro lado, apresenta uma dependência amorosa que chega a  ser doentia. Flo é uma mulher fria, direta e – diferente de Vic, está muito mais disposta a “vida” externa. Vic não só se encerrou naquela cabana no meio da floresta, ela se encerrou dentro de si mesma.

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Gosto especialmente do momento em que Vic, logo no inicinho do filme, se depara com dois garotos. Um deles toca um instrumento de sopro de maneira desafinada e pede dinheiro,  “Você só ganha se merecer”. Em suma, aquele garoto – que reaparece em um momento crucial, faz um prelúdio ou talvez até uma metáfora: a vida é repleta de imperfeições, de tropeços…

Aos poucos, Denis Côté insere outros sujeitos na trama que não só garantem a finalização do argumento como também criam uma expectativa. Falei anteriormente sobre o trabalho fotográfico. Impossível deixar de comentar sobre o tom azul que prevalece em praticamente todas as cenas e acentua os sentimentos dos personagens: dor, medo, tristeza, solidão.  Vic + Flo é um filme frio, é um filme azul.

A flor do meu segredo

Rever Almodóvar é uma necessidade, um brinde a milhares de homens e mulheres que existem dentro da gente, mas que ficam adormecidos. Em suas cores, em seus diálogos, em seus planos e enquadramentos, o diretor brinca com a tragédia humana, nos cerca de questionamentos sobre assuntos existenciais: amor, morte, sexo, dinheiro, medo, solidão, loucura. EXAGERO. É inegável, Almodóvar tem sua marca, domina o que faz e o faz muito bem.

Assisti um de seus filmes outro dia; decidi rever um que fosse estrelado por Marisa Paredes. Também estava com saudade dela, daquela voz charmosa e irresistível. Fiquei na dúvida, muitas opções. Maus Hábitos? Tudo Sobre Minha mãe? A pele em que Habito? De salto alto? Não… A Flor do meu segredo!

Imagem“A flor do meu segredo” é um daqueles filmes que deixam o coração apertado, que causa catarse já nos primeiros instantes. Na história, Leo Macias (Marisa Paredes) é uma escritora famosa que enfrenta uma crise criativa. A ausência do seu esposo, Paco – que é militar, a deixa depressiva e melancólica. Leo, é uma mulher sedenta por amor.

Ao mesmo tempo em que a editora a pressiona a produzir outro romance, ela se afoga em bebidas e apresenta um comportamento suicida. Um detalhe interessante é que Leo não assina as obras em seu nome, ela usa o heterônimo: Amanda Gris. Nas pequenas subtramas: a empregada da casa enfrenta um impasse, ou continua trabalhando com Leo, ou se dedica a companhia de dança. A mãe e a irmã da personagem principal vivem em guerra. Um editor do jornal El País aceita Leo como colunista do jornal e sua melhor amiga estuda estuda a melhor forma de noticiar a morte.

Indefenso frente al acecho de la locura

Assisti uma entrevista onde a Marisa Paredes resume perfeitamente sua personagem, ela afirma que Leo é uma mulher que não está disposta a seguir se enganando, que ela tenta de todas as formas – desde o fundo de sua alma,  a recuperar um amor que já morreu. Em suma,   essa é a essência do longa, a dor provocada por uma busca inútil. Leo entra em uma guerra que já está perdida.

Não acho que essa perspectiva sobre o “perder” se limite só ao amor. Somos, todos nós, perdedores em alguma coisa- e é difícil reconhecer isso. Pode parecer pessimismo, mas não é. Ninguém pode vencer em tudo, essa é uma condição humana. No caso do filme, Leo chegou “a beira da loucura”, isso porque não sabe viver sem amor e para ela, Paco significa amor.

tumblr_mq7sop3CBE1rif7tro1_500Difícil conversar tecnicamente sobre o trabalho do Almodóvar, isso porque ele é único – desculpe se eu repeti essa expressão várias vezes, HAHA, mas é bem isso. Em “A flor do meu segredo” o diretor está mais trágico, mais lento e muito mais romântico -diferente das comédias exageradas que fez anteriormente.

Se existe uma cena que me encanta no longa se passa no momento em que Leo, depois de tentar o suicídio, vai para o centro da cidade e se depara com a greve feita pelos estudantes de medicina. Ela caminha entre milhares de pessoas vestidas de branco, que entoam uma canção. Leo veste vermelho, está de óculos escuros e está visivelmente abalada. A cena me remete logo a uma canção do Legião Urbana: “É solitário andar por entre a gente”.

É incrível como Almodóvar sabe usar metáforas, ele tem uma delicadeza ímpar e consegue encaixá-las perfeitamente na trama. Nas cenas iniciais, por exemplo, Leo aparece sentada em seu escritório, escrevendo mais um de seus romances e usando uma bota que o marido lhe dera de presente. As botas doem e estão tão apertadas que ela não consegue tirar. Tal qual acontece em seu casamento, há um amor absurdo, insuportável, tão grande e tão forte, que a sufoca.

Marisa ParedesHoje calcei as botas
que me ofereceu há dois anos.

Lembra que teve de me tirar
porque, sozinha, eu não conseguia?Ao vê-las, esta manhã, me lembrei
de você e calcei-as em sua homenagem.
Estão apertadas.

Por vezes, lembranças de você,
como estas botas
apertam-me o coração
e mal posso respirar…
Não consigo descalçá-las

Assim na terra como no céu

Imagem Maria Garcia (Carmen Maura) é uma jornalista ocupada e bem sucedida que descobre que está grávida. Contrariando o chefe e os colegas do serviço, decide assumir sozinha a gravidez e esconde a identidade do pai. Durante a gestação, Maria começa a ouvir seu filho; o feto conversa com ela e afirma que não quer nascer. Diante desse impasse, Maria revela em rede nacional que seu filho não quer vir ao mundo. A jornalista choca as autoridades e a opinião pública, mas acaba descobrindo que outras mulheres grávidas, assim como ela, estão passando pela mesma situação: seus bebês não querem nascer.

“Assim na terra como no céu” é um filme sensível e poético, a poesia, inclusive, está presente no próprio título, sabiamente escolhido. O argumento é lindíssimo, está cheio de questionamentos existenciais e nos leva a repensar o modo de vida que estamos levando. O que estamos fazendo do mundo? Qual será o nosso destino? Valeu a pena ter nascido?

Em princípio o argumento até parece pessimista, os bebês não querem nascer porque acham que não vale a penar viver num mundo como esse, repleto de doenças e violência. A concepção principal é a de que eles vivem em um local onde sabem e percebem tudo o que acontece, mas diferente de nós (que já nascemos), possuem escolha.

Outros (e importantes) questionamentos surgem ao longo do desenvolviAssim na terra como céusmento da trama. Aqui não só exploram o aborto, a depressão pós parto e mortalidade infantil, mas também a posição das mulheres que, muitas vezes, ficam a mercê das decisões médicas. No caso de Maria, ela opta por ter um parto normal e aguardar os nove meses, mas os médicos insistem para que ela faça uma indução.

O filme, produzido em 1992 e dirigido por Marion Hansel, conta com Carmen Maura, que está ímpar na pele de uma mãe amorosa que não sabe mais o que fazer em relação ao filho.

Insanatório: Quem entra, não sai.

Jack (Jesse Metcalfe) é um jovem que finge estar louco para ser internado em um sanatório, ele busca pela irmã que foi internada no mesmo hospital depois que apresentou problemas emocionais por causa da morte da mãe. Quando entra na instituição, descobre que o diretor e médico do instituto (interpretado por Peter Stormare) está usando os pacientes como cobaias, criando criaturas sedentas por sangue. Jack e a irmã, que estão a mercê de enfermeiros impiedosos, precisam descobrir uma saída já que os outros pacientes estão se transformando em terríveis canibais.

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Jeff Buhler, que também trabalhou como roteirista em “O último trem”, peca ao construir um longa marcado por cenas inverossímeis e exageradas. O argumento é até interessante, mas não se sustenta. Burler, por exemplo, poderia ter explorado muito mais o impasse do personagem principal que não tinha certezas sobre a própria sanidade.

Uma das coisas mais incômodas do filme foi a construção estética, a maquiagem, os cenários: parece que fizeram um trabalho mal acabado. A caracterização dos pacientes  contaminados chama atenção, Burler teve a infeliz ideia de colocá-los usando lentes de contatos azuis, completamente caricatos (pareciam participantes da Zombie Walk).

Tentaram abordar a lobotomia, fizeram um leve e superficial retrato sobre esse processo tão polêmico. No entanto, algo ficou no ar, uma expectativa de que explorassem mais o tema e retratassem de maneira realística (ou até mais assustadora). Alguma cenas foram desnecessárias, causaram choque… mas de forma errada (como aquela em que o médico estupra a funcionária ou aquela em que o paciente arranca a cabeça de um gato e começa a beber seu sangue). Em suma, “Insanatório” é um daqueles filmes que não indico a ninguém, nem se for pra perder ou para passar o tempo… que seja com alguma coisa mais interessante.

Ficha Técnica:
Título Original: Insanitarium
Direção: Jeff Buhler
Ano de Produção: 2008
Gênero: Suspense, Terror

Escalade

Um grupo de jovens mal intencionados visitam Alice Nabat (a diretora do colégio onde estudam) para tentar fazer com que ela altere os resultados das provas finais. A diretora, que está fazendo aniversário, não percebe a malícia dos alunos e acaba convidando-os para o seu apartamento. Inicia-se um jogo de sexualidade e manipulação.

Alex, Lola, Gea e Hervé filmam Alice (sem que ela perceba) e a colocam em uma posição forjada e comprometedora. Alex, que apresenta características de um psicopata, agrava a situação ao não permitir que diretora saia do apartamento, mantendo-a em cativeiro. Alice, no entanto, nega-se a alterar os resultados da prova e os alunos, sem saber o quê fazer,  perdem o controle da situação.

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Escalade, 2011, é um filme de suspense com pitadas de terror psicológico. A direção de Charlotte Silvera é concisa, seca, assim como o desenvolvimento da trama. Ao assisti-lo, logo me lembrei de “Tentação Fatal”, uma produção americana de 1999, estrelada por Katie Holmes e Helen Mirren. Em Tentação Fatal, três alunos sequestram a professora de história, Mrs Tingle, para fazer com que ela mude as notas do trabalho final. Apesar das inegáveis semelhanças, Escalade é um filme muito mais denso e cruel.

Estava com saudades da Carmen Maura, foi bom revê-la em um personagem tão interessante (aqui, ela fala francês praticamente o tempo todo). Ao longo do filme, percebemos que Alice possui um comportamento ambíguo. Ao mesmo tempo em que não confia em seus alunos, envolve-se com eles – especialmente com Alex, com quem chega a ficar a sós no quarto e permite ser tocada na cintura e nos joelhos.

Carmen MauraOs quatro alunos possuem características marcantes, mas Hervé (interpretado por Thomas Sagols) se sobressai. Além de ser ridicularizado pelos colegas, o garoto alimenta uma paixão platônica por Alice. Hervé acaba tomando um porre, não consegue se controlar e não só se declara como também se masturba na frente da diretora. Sem dúvida, uma das cenas mais incômodas do filme – tirando a cena final, é claro, que também é bastante perturbadora.

A iluminação e o cenário aumentam a sensação de fobia, além disso, o aspecto teatral – diálogos marcantes, trabalho corporal dos atores – faz com que a tensão aumente. Em suma, Escalade é um bom filme, mas não excelente. Há um clima de incerteza, pouca veracidade… ao mesmo tempo em que a diretora nos dá um choque de realismo, ela nos coloca em dúvida sobre a atitude dos garotos.

*O filme foi gravado em 2004, mas por causa de dificuldades de pós produção, só foi lançado em 2011. As gravações também foram problemáticas, contavam apenas com cinco atores, não tinham um cenário próprio e (pelas palavras da própria Carmen), fazia um frio desgraçado.

P.S Existe uma cena interessante (spoiler!) onde a personagem da Carmen Maura quase consegue fugir, é incrível como aquela mulher atua, não dá pra descrever –  porque é uma cena que merece atenção