A freira assassina

killernunblu_shot5lNunsploitation é um termo que eu desconhecia, até a semana passada quando passeando pelo 101 Horror Movies, me deparei com a sinopse de “A Freira Assassina”. Em suma, nunsploitation é um subgênero do estilo exploitation, que se adéqua a filmes de conteúdos ousados, que envolvem sexo e violência. Apesar de muitas críticas ruins, não resisti a baixar e assistir o filme italiano de Giulio Berrut, que traz ninguém menos que Anita Ekberg como personagem principal. Eu, pouco entendedora do assunto, confesso que achei o filme genial.

AnitaPara quem não se lembra, Ekberg é uma das musas de Fellini – aquela que em um vestido de festa, se banha na fonte da Fontana di Trevi. Em “A Freira Assassina”, Ekberg encarna a Irmã Gertrude, uma das coordenadoras de um hospital (que também funciona como asilo/hospício). Gertrude se recuperou de um tumor no cérebro e desde então apresenta transtornos psicossomáticos, blecautes e vício em morfina. Completamente saudável, Gertrude acredita que está doente. Sua loucura aumenta quando assassinatos misteriosos começam a acontecer no hospital e todos acreditam que ela é a responsável.

Sadismo, eis a palavra. E também podemos adicionar loucura, profanação e lesbianismo. Quando Gertrude começa a perder o senso, ela passa a cometer atrocidades contra os pacientes, mergulhando em uma série de enganos e confusões mentais. Em uma cena, por exemplo, ela humilha uma paciente idosa e com problemas cardíacos, quebrando sua dentadura na frente de todos, na mesa de jantar. No mesmo dia, a paciente morre. Gertrude, pouco arrependida, rouba um de seus anéis para comprar morfina e, claro, aproveita para sair do hospital, tirar o hábito e fazer sexo com estranhos.

Não fosse o bastante, Gertrude repara nas insinuações da sua companheira de quarto, Irmã Mathieu (Paola Morra) e começa a ter uma relação amorosa (e doentia) com ela. Escondidas pelo hábito, nenhuma das duas pode revelar os desejos que sentem. Mathieu, a única amiga de Gertrude, faz de tudo para apoiá-la e para impedir que ela seja incriminada. E, Mathieu também tem seu lado erótico explorado, sendo responsável pelas cenas mais quentes do filme. AnitaGosto especialmente do momento em que Gertrude toma morfina e começa a ter alucinações, misturando as memórias da cirurgia, com cenas de assassinato e de sexo. Ainda que não de maneira linear, recebemos algumas pistas sobre o mistério que envolve os crimes. Também gosto de uma cena, em que Gertrude, na chuva, vê dois pacientes transando no jardim do hotel e o diretor, dá um close demorado em seus olhos e em sua boca.

O filme também está repleto de cenas grotescas, como o momento em que uma das pacientes é assassinada – mas antes, agulhas são perfuradas em seu rosto. Ou quando Gertrude, em alucinação, vê a própria cabeça ser aberta para cirurgia.

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Helena Rojo, 70 anos!

Helena RojoHelena Rojo completou 70 anos moçada! Isso mesmo, não foram 70 dias, nem horas ou meses… Helena Rojo completou 70 lindos anos, graciosamente. Quem acompanha o La Amora sabe que eu sou perdidamente apaixonada por ela e que sempre que posso, acompanho seus trabalhos e comento seus filmes.

Eu fiquei pensando sobre o que poderia escrever e finalmente, tomei coragem para fazer um vídeo! (É, eu sei…). Mas, deu tudo errado, a começar pela bateria, depois pela memória da câmera e depois pela dificuldade de passar para o computador. Na correria, desisti de terminar, droga! (Mas é porque também não deu tempo, até tudo se resolver, já estava eu, agarrada com as coisas do jornal em que trabalho).

 Não consegui falar tudo o que queria e olha que falei demais. Só para completar, queria acabar de enumerar os dois momentos da novela “O Privilégio de Amar” que me marcaram: O primeiro, como contei, foi o momento em que a Luciana encontra o Andres com outra mulher na banheira. O segundo (e eu lembro como se fosse ontem!) foi a cena em que a Luciana leva uma facada da Tamara. Naquela cena, meu mundo caiu e eu fiquei extasiada, com o coração na mão! E o terceiro foi a cena final da novela, quando todos os atores se juntam na mansão da Luciana, dão as mãos e agradecem o publico. Aquela música maravilhosa ao fundo e aquele aspecto teatral, me fez arrepiar. Lembrando, eu tinha 7 anos e me recordo de tudo, como se fosse ontem.  Sobre o autógrafo, vou colocar uma foto para vocês verem que não é mentira, guardo com muito carinho.

Ta aí, o autógrafo... dei uma leve escondida no meu rosto... percebe-se
Ta aí, o autógrafo… dei uma leve escondida no meu rosto, porque né…

Eu estive pensando sobre a cena em que a Luciana leva uma facada da Tamara e me dei conta de que ela é tecnicamente muito bem bolada. Vocês repararam que a Luciana está de branco né? Pois é, o branco não só causa um forte contraste com o vermelho (do sangue), como também reforça a aura positiva da personagem, quer dizer, naquele momento, a Luciana está se redimindo de todas as maldades que cometeu contra a Cristina. E reparem no movimento da câmera, em sua instabilidade – chamando atenção para a loucura da Tamara. Gente, eles filmaram em contra-plongeé! Cena belíssima:

The Calling

The CallingAcompanho a carreira da Susan Sarandon há muito tempo e já estava sentindo saudade de um filme que valesse a pena ser visto. Cheguei a comentar isso no La Amora, sobre o fato da Susan ter sumido dos holofotes e de ter feito filmes ruins e medianos nos últimos anos. “The Calling” está longe de ser um grande suspense, mas Sarandon está na sua melhor forma e traz uma interpretação densa e emocionante – ao vê-la, me lembrei dos seus antigos sucessos, em que aqueles olhos enormes se enchiam de lágrimas e deixavam minha garganta com gosto de choro.

O filme conta a história da detetive Hazel (Sarandon) que comanda a delegacia de uma pequena e calma cidade americana. Hazel tem um histórico de alcoolismo e de insucessos na carreira que colocam a sua credibilidade a prova. De repente, a delegada se vê diante de diversos casos de assassinatos brutais, do qual acredita terem sido feitos por uma mesma pessoa, ou seja, por um serial killer. Como seus superiores não acreditam na sua história, Hazel decide investigar o caso com a ajuda de um policial iniciante, Ray Green (interpretado por Gil Bellows). O filme também conta com a presença ilustre de Ellen Busrtyn, que interpreta uma juíza aposentada, mãe de Hazel.

the_callingNão há nenhuma grande novidade no roteiro e até me arrisco a dizer que o filme perpassa por muitos clichês e pouca ação. O assassino, que é revelado no início da trama é movido por uma missão apocalíptica e para Hazel é mais do que é mistério, é um desafio para que ela prove que ainda é capaz de ser uma boa delegada. O interessante é que todas as vitimas morrem com a boca aberta e na junção das fotos criminais, mandam uma mensagem. Como eu disse, o filme não é grandioso, mas é bom ver Sarandon em sua melhor forma, extremamente dramática e encabeçando o elenco – mais do que isso, protagonizando um filme.

 

As Diabólicas

Pela primeira vez, escrevo sobre um filme aqui no La Amora do qual não li nenhuma análise, artigo ou sinopse. Sobre “As diabólicas” a única coisa que sei é que foi dirigido por Henri Clouzot, que foi gravado na década de 1950 e que foi um dos precursores do estilo de suspense e terror, que se popularizou posteriormente através de Alfred Hitchcock. [A verdade é que eu queria fazer um texto mais limpo, fugir de qualquer influência, falar só sobre o que eu senti ao assisti-lo, entende?]Les-DiaboliquesPois bem, eu não tinha conhecimento sobre “As diabólicas” até que a Jéssica (do Indiscreet Talkin) disse que esse é um de seus filmes favoritos. Vi, revi e fiquei com uma sensação muito forte: a de que todas as mulheres que viveram na década de 30, 40 e 50 foram bonitas. Aliás, a de que até as feias eram bonitas. Soa como exagero, e eu sei que é, mas existia uma elegância, uma classe (ou seja lá o que for), que não existe mais. Feliz das que nasceram naquela época. Reparem em Simone Signoret (com aquele cigarro sexy no canto da boca), que linda!

“As diabólicas” conta a história de duas professoras que se unem para assassinar o pérfido e sádico diretor da escola. O caso não poderia ficar mais sombrio se uma não fosse sua esposa, Christina (Vera Clouzot) e a outra, a sua amante, Nicole (Simone Signoret). Depois do crime, as duas resolvem jogar o cadáver na piscina da escola e se surpreendem quando funcionários decidem limpá-la: o corpo desapareceu!

As diabólicasDesde o início, algo me pareceu bem claro e no fim do filme, pude comprovar que estava certa. Acho que o diretor deu diversas pistas sobre a trama e sobre os personagens, uma delas são as roupas. Christina, com aquelas tranças e com vestidos bem comportados, nada se parecia com Nicole, muito mais sensual, corajosa e traiçoeira. Enquanto Christina mantinha o ar de “garota bem comportada”, Nicole sustentava uma postura de “bad girl”. Aliás, não acho que a personalidade de cada uma seja um mero aspecto, querendo ou não, Christina é a esposa, quero dizer… como esposa, ela tem um lugar “superior” a amante.

Logo quando Nicole aparece em cena, com um dos olhos roxos por ter apanhado do amante, eu senti que o filme era muito mais denso do que qualquer outro que já assisti dessa época. Não só pela violência física, mas pela evidente relação sexual entre os três personagens principais. O filme tem um lado bem “pervertido” que, provavelmente, não deve ter sido bem recebido pela crítica. Essa coisa de censura, de deixar o dito pelo não dito, me encanta nesses filmes – é como um quebra-cabeça a ser decifrado.

Senti um desconforto imenso em três cenas: A primeira foi quando o diretor obrigou Christina a engolir a comida e dar exemplo aos alunos. A segunda foi a cena do caixote, quando elas tentam sair com o corpo e levá-lo até escola e a última, a mais surpreendente: foi a cena das lentes! Essas cenas geniais me deixaram muito angustiada.

tumblr_lks8fcGKU11qciafbo1_r1_500 Quando elas estão na casa da Nicole, prontas para matar o diretor, eu senti que o aspecto “sufocante” tinha aumentado. Talvez, porque elas saíram da escola e se deslocaram para um espaço bem menor e mais apertado. Finalmente, quando colocam o morto dentro da banheira e o cobrem com um plástico tudo parecia ter ficado mais tranquilo: até que aquelas gotas não paravam de cair, fazendo um barulho extremamente incômodo: como se as lembrasse, “Enquanto vocês estão aí, deitadas, tem um corpo na banheira”. – Essa cena me deu calafrios.

Fiquei deslumbrada com a sequência em que Christina corre pelo corredor, gostei tanto que voltei para assistir de novo. A câmera, dando zoom em seus pés, que se enrolavam na camisolas – e a luz das janelas… Muitoooo show! Me lembrou de um filme com a Joan Crawford, onde ela tem um pesadelo e sonha que esta fugindo…. E, a Vera Clouzot também é uma mulher linda – brasileira, aliás. Li, não sei aonde que, assim como a personagem, sofria de problemas no coração e faleceu em decorrência a esses problemas (mas, não me lembro quais).

tumblr_lz3skypw3x1qcay1ao1_500P.S: As Diabólicas também me remeteu a um outro filme, ” A cerimônia”, com Isabelle Huppert e Sandrine Bonnaire… nele as duas também planejam um crime e há um clima meio homoerótico …

Um estranho no ninho

tumblr_muc868zieO1rzk6y2o1_500“Um estranho no ninho” é um daqueles filmes que está há anos na minha lista de espera e, não sei porque demorei tanto para assisti-lo. Talvez, continuaria na lista se eu não tivesse visto, outro dia, uma foto da Louise Fletcher recebendo o Oscar em 1976. Procurei um video da premiação e Fletcher agradecia seus pais, surdos-mudos, através da linguagem de sinais. É um momento lindíssimo da premiação e um dos mais emocionantes que eu vi. Finalmente assisti o filme e confesso que diversas cenas ainda estão vivas na memória – não sei se por causa da história, por causa da produção ou por causa da magnifica atuação dos atores…

Considerado um clássico contemporâneo, “One Flew Over the Cuckoo’s Nest”, conta a história de Randle MacMurphy (Jack Nicholson), um prisioneiro que finge está louco para ser mandado para um hospício (e assim, não precisar trabalhar). Aos poucos, MacMurphy faz amizade com os internos e os estimula a desobedecer as regras impostas pela enfermeira-chefe Ratched (Fletcher). No entanto, o sistema é muito mais forte do que MacMurphy imagina e ele se vê condicionado a um cotidiano maçante e a terríveis sanções.

Pelo que li, o filme, dirigido por Milos Forman, foi baseado em um livro escrito por Ken Kesey e demorou anos para ser produzido. Diversos empecilhos atrasaram as produções, a começar pelo baixo orçamento e pela dificuldade em encontrar um bom elenco. Forman tinha uma preocupação enorme em fazer com que a narrativa tivesse um aspecto realístico, por isso fez com que os atores passassem por trabalhos de campo. Aliás, as gravações foram realizadas em um hospital de verdade e com pessoas que realmente possuíam problemas mentais.

tumblr_mwtmzulOYH1s4ht91o1_500Dentre as inúmeras críticas, o filme põe em cheque o conceito de loucura e aponta o dedo para as instituições de repressão. [Quando li uma análise do filme, logo me lembrei de uma peça de teatro escrita por Hilda Hilst: “A empresa”. Na obra, Hilst conta a história de América, uma jovem que faz uma criação, mas é desestimulada pelos superiores e acaba não resistindo ao sistema. Algo bem semelhante ao que acontece a MacMurphy. Também me lembrei de Holocausto Brasileiro, escrito por Daniela Arbex]

O anti-herói e um lobo em pele de cordeiro

Jack Nicholson é a grande estrela do filme e encarna um anti-herói de uma maneira tão natural que é difícil resistir ao efeito catártico, difícil não se colocar no lugar dele ou não torcer para o sucesso de suas “aventuras”. É um personagem espirituoso, que dá vida ao hospital e aos internos. Forman sustenta a trama criando situações  sensacionais (como o passeio de barco) que nos convidam a gostar dos pacientes (por sinal, dois deles interpretados por ninguém mais, ninguém menos que Christopher Lloyd e Danny DeVito).

tumbjacklr_n6eooqo0AN1rmxg04o1_400Não é difícil entender o porque a enfermeira Ratched foi um personagem tão marcante na história do cinema e é curioso pensar que o papel foi recusado por grande atrizes como Jande Fonda, Anne Brancroft, Ellen Burstyn e Faye Dunaway. Em uma entrevista, Louise Fletcher chegou a dizer que sempre via os outros atores se divertindo nos bastidores e que estava tão cansada de tentar manter as características “pesadas” da enfermeira, que decidiu passear nua nos sets de filmagem. Ela também disse que o personagem estava tão incrustado, que sem perceber, dava ordens a equipe de gravação.Um estranho no ninho

Ratched é um personagem que chama atenção por ser fisicamente graciosa, uma mulher linda, mas detestável. Os produtores não queriam que fosse uma mulher que, de imediato, causasse repulsa. Por isso construíram um personagem que se portava bem, que falava baixo… mas que não tinha bons valores ou consideração pelos internos. Aliás, o cabelo e aqueles rolinhos (meio “Malévola) foram intencionais e mostram, também através do cuidado com o uniforme, que era uma mulher conservadora.

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Bienvenido Paisano!

O fim de semana foi corrido e não deu tempo para sentar para escrever sobre “As Diabólicas”, que a Jéssica me indicou.  Mas antes de dormir, eu queria fazer uma notinha, pelo menos para não deixar o blog desatualizado. Eu tinha me comprometido a escrever toda semana sobre um filme mexicano e não queria burlar esse compromisso, que acho que tem mais valor pra mim do que para as pessoas que acompanham o blog.  [Finalmente faço uma publicação onde cito a Maria Sorté, uma atriz mexicana lindíssima e que adoro!]

Bienvenido paisano

Há algum tempo, assisti uma comédia chamada “Bienvenido Paisano” – dirigido por Rafael Villaseñor e estrelado por Maria Sorté, Tereza Ruiz e Rafael Inclán.  O filme é uma graça, super gostosinho de ver e com uma história bem do tipo “família”. Na trama, Inclán interpreta Epifanio, um jardineiro de origem mexicana que vive e trabalha nos EUA há mais de vinte anos. Um dia ele recebe a notícia de que seu irmão está doente e decide viajar para Zacatecas e visitá-lo. A viagem também é uma oportunidade para apresentar o México para seus dois filhos, que nasceram nos EUA. Quando volta, Epifanio acaba se deparando com um país muito diferente do que deixou e suas raízes começam a falar mais alto.

Piffany, a filha maidetalle_BIENVENIDO PAISANO_03_396x216s velha do casal, sente-se incomodada com a ideia de viajar para o México. Ela tenta, durante o tempo todo, provar que é uma cidadã americana e não se interessa pelo país de origem dos pais. De certa forma, ao fazer a escolha de permanecer na América, Epifanio e Cenobia também abrem mão de muitas características “latinas” com o intuito de se adequar a comunidade – são como uma cópia mal feita e caricata.

O ponto alto do filme se dá justamente quando a família decide regressar aos EUA e enfrenta problemas com os documentos. Eles sentem na pele (principalmente a garota) uma falta de receptividade dos americanos em relação aos mexicanos (e aos latinos, em geral). Enquanto Piffany desesperadamente quer voltar, Cenobio (o filho mais novo) percebe que quer ficar no México. Trava-se um verdadeiro drama familiar.


O ano da peste

Até então, o único filme que tinha assistido com Felipe Cazals foi “Las Poquianchis”, onde ele reconstitui o caso das irmãs González Valenzuela, uma delas interpretada por Diana Bracho.  Outro dia estava lendo sobre o diretor e descobri que ele chegou a dirigir um filme argumentado por Gabriel García Marquez… “El año de la peste”. Confesso que eu não sabia que o Gabo era fã da sétima arte e que atuou, inclusive, como diretor da escola de cinema de Santiago de los Baños, em Cuba.

“El año de la peste”, produzido em 1978, conta a história de uma cidade assolada por uma epidemia desconhecida, qO ano da peste ue mata misteriosamente milhares de habitantes. Mesmo com o excesso de mortes, as autoridades insistem em dizer que a situação está controlada e que não há nada em que se preocupar. As pessoas caminham nas ruas e se deparam com corpos amontoados, mas agem normalmente. Na TV, os telejornais tentam minimizar as ondas de pânico e os estadistas calam médicos e especialistas que afirmam que a cidade está sofrendo com uma epidemia similar a peste negra, ocorrida na Idade Média. [Gabo era fã de “Um Diário do Ano da Peste”, escrito por Daniel Defoe (1660-1731)].

Adoro esse tipo de narrativa e enquanto assistia ao filme me lembrei de produções e histórias semelhantes como “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago, “Tempos do Lobo” de Michael Haneke ou “Contágio” de Soderbergh. Aliás, Cazals é tão seco quanto  Haneke e não pensa duas vezes em mostrar uma cena de sexo onde uma mulher beija o peito ferido do amante.

‘O ano da peste’ me incomodou um pouquinho… só em duas questões: não gostei da trilha sonora, que ao invés de acentuar o suspense, era irritante. A iluminação também estava estranha, não dava para saber se algumas cenas se passavam de manhã ou de noite, não dava para reconhecer o rosto dos atores enquanto eles dirigiam ou conversavam dentro das casas. Eu realmente não sei se é a estética do filme e fiquei confusa em alguns momentos, imaginando se se tratava da maneira em que o filme foi conservado.

Mesmo com o ritmo lento da trama, Calzar nos presenteia com pequenas pérolas, como aquela cena em que centenas de policiais descem a escadaria de uma igreja (todos armados e com máscaras de proteção) e vão de encontro ao povo (que se manifesta em praça pública) e se defende atirando pedras. No fim, já não existe mais polícia, nem povo… 

Também achei incrível a cena em que os agentes de limpeza começam a despejar remédio sobre as áreas infectadas. Em certo momento eles se deparam com três moradores de rua e jogam remédio sobre eles. Os moradores de rua, por sua vez, continuam a agir como se nada tivesse acontecendo, sentam-se e começam a comer o que encontram no lixo.



Daniela Romo “El año de la peste” trouxe uma feliz surpresa. Daniela Romo, bem no inicinho da carreira, fez uma pequena participação no filme. Tinha vinte anos. Na trama ela interpreta Laura, amiga da assistente do médico e que estranhamente tem um caso com ele. (É, fiquei meio confusa nessa parte). Tive que parar o filme para conferir se era ela mesmo, só pra ter certeza. Romo já tinha um cabelo enorme e usava aquele anel no dedinho (que não larga até hoje!).

Bette Davis Eyes

Bette DavisGosto de cinema desde que me entendo por gente. Me apaixono e já me apaixonei diversas vezes por atores e atrizes, por filmes e trilhas sonoras que, em cada época da minha vida, me acalentavam e tornavam meu pequeno mundo um pouco mais interessante. Me apeguei a Bette Davis e a Joan Crawford como qualquer outra garota jovem se apega a um ídolo, tinha recortes, fotografias e filmes das duas. Escrevia suas falas em meus diários, queria usar roupas como as delas – ainda que oitenta anos de distância nos separassem.

As conheci quando vi um filme em preto e branco pela primeira vez: “O que terá acontecido a Baby Jane?”. Não poderia ter feito escolha melhor. Joan me encantava por sua beleza, Bette por sua inteligência ácida. Passei meses assistindo a maratonas de filmes estrelados por elas.

Mas com Bette Davis a paixão foi diferente. Não era só uma grande admiração por seu talento. Me identificava com ela, com seus personagens, com sua história de vida, com sua personalidade. Na minha adolescência, Davis falava por mim. Ela era como eu queria ser, mas não era. Ainda hoje quando penso em “Bette Davis” direciono-me a ideia de uma mulher destemida, respeitada. Bette não tinha papas na língua, se preciso, brigava com os outros atores, com o diretor, com o presidente da produtora. Bette se impunha, era geniosa e respondia na lata.

Eu, enquanto era aquela menina que falava baixo e não respondia nunca, queria ter os “Olhos da Bette Davis”…E seus personagens contribuíram diretamente para que tivesse aquela sensação. Em  “Vaidosa”, por exemplo, Bette Davis – que nunca foi considerada uma beldade, encarna uma mulher belíssima e rica, que destrata, trai o marido e vive um casamento por interesse. Ela está incontrolável.  Pois é, pouco me importava se a personagem era uma vilã… eu só queria ser, incontrolável.

Mas o ‘espírito da Olivia de Havilland nunca saiu de mim e até hoje, acho que fala muito mais alto…São como amarras, que me prendem ao bom comportamento, que me deixa no caminho entre o querer fazer e o ter que fazer. Que me segura na hora das respostas ingratas, que forma um gosto de choro na garganta, no grito abafado, nas palavras não ditas, no rancor acumulado.

É que ser Havilland não é ruim, mas ser Davis deve ser muito melhor…

Tudo pode dar certo

Todo_incluidoFico decepcionada quando penso no fato de que filmes, com grande potencial como este, fiquem sem serem vistos por falta de divulgação ou por falta de identificação do público. Talvez, se fosse uma produção americana e com nomes famosos, “All Inclusive” (ou “Todo Incluido” e em português “Tudo por acontecer”) teria um alcance muito maior.

Não sei por que demorei tanto para escrever sobre essa produção… Foi com este filme que tive certeza da minha predileção por Jesus Ochoa e foi exatamente com ele que comecei a me interessar pelo cinema mexicano.  “All Inclusive”, na verdade, é um filme produzido pelo chileno Rodrigo Ortuzar Lynch, apresenta traços da cultura mexicana, mas ilustra uma situação que poderia se passar em qualquer outra família do mundo.

Na trama, Ochoa interpreta Gonzalo, um empresário bem sucedido que leva a família em viagem, com o intuito de revelar que padece de uma doença terminal e que só possui três meses de vida. Apesar de viajarem juntos, os membros estão sentimentalmente separados: Camila, a filha mais velha de Gonzalo, é uma mulher conservadora que está enfrentando uma crise por ter se divorciado. Maca, a filha do meio, é uma garota de vinte e poucos anos que se sente incompreendida pela família e Andrés, o caçula, é um adolescente cheio de dúvidas e hormônios à flor da pele.

all_inclusiveGonzalo e a mulher, Carmen, também apresentam um casamento desgastado e estão, cada vez mais distantes um do outro.  Com a notícia da chegada de um furacão, a família acaba presa no quarto de hotel e, impossibilitados de fugirem dos próprios problemas, se vêem diante da necessidade de enfrentá-los. Mas dessa vez, juntos.

Apesar da trama dramática, o filme é recheado de situações engraçadas, que deixa o desenvolvimento da história mais leve, mais agradável. Lynch acerta em três pontos fundamentais: no roteiro, na trilha sonora e na fotografia. Há quem diga que o filme está repleto de clichês… talvez esteja, mas em nenhum momento fiquei incomodada com a narrativa. Os dramas pessoais dos personagens são densos, provocadores e realísticos: desde Camila que apresenta um interesse sexual por uma funcionária do hotel a Carmen, que conhece um agente turístico e transa com ele, traindo o marido e se arrependendo logo depois.

Gonzalo, por outro lado, tenta viver os últimos momentos da vida em paz com o passado e em sintonia com a família.  Alias, Ochoa, ah! Ochoa!! Como esse homem é incrivelmente talentoso e consegue emocionar e fazer rir com tanta sinceridade e sem ser exagerado… Amo, amo!!