Como me sinto quando: versão Susan Sarandon

– depois da balada a amiga diz: ‘eu nunca fiz tanta loucura!’

Thelma– O clima esquenta com o boy e ele não toma a iniciativa

Horror Picture– Todos foram pra balada e ninguém te convidou

Louise– você tenta mandar uma indireta, super direta

tumblr_mla4ac3riz1qbkh27o3_250– você tá na balada e tocam a sua músicaJanet– quando dizem: “tudo bem, pode ficar com o último pedaço do meu chocolate’

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– você está de TPM e insinuam que você está nervosa demais

tumblr_mlk6xmvlEW1qcpkfeo1_500– quando lhe dizem: Richard Gere está subindo a escada rolante com uma rosa nas mãos para te entregar

tumblr_ml5l1cF3sq1qcpkfeo8_250– você está dormindo e alguém chega e acende a luz do seu quarto

tumblr_ml3bng02Sl1qc0zrfo1_500– vocês se odeiam, mas não perdem a pose

tumblr_mlx0xtxYKk1qkxowqo7_250Susan Sarandon

O sequestro do ônibus 174, uma releitura sobre o choque do real

Em uma das reflexões iniciais de “O choque do real e a experiência urbana” Beatriz Jaguaribe afirma que a cidade (repleta de lixo, becos e fervilhantes atividades) é também cenário para a presença de novas tecnologias e meios de comunicação onde as pessoas são minadas por uma cultura do medo.

Diferente do que se imagina a “cultura do medo” não é experimentada empiricamente. Para a autora, a maioria dos cidadãos experimentam o medo (assaltos, roubos e violações) através da divulgação fílmica ou literária e todo o discurso e construção midiática influencia na criação de uma estética sobre a retratação da violência social.

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Segundo Jaguaribe o choque do real pode ser entendido como a tentativa de provocar um efeito catártico no espectador ou leitor. Portanto a principal finalidade dessa estratégia é criar um incômodo, provocar espanto, atiçar a denuncia social e aguçar o sentimento crítico. Um aspecto importante é que o impacto não é necessariamente extraordinário, mas é exacerbado e intensificado. O real, por sua vez é como uma releitura ou uma representação do fato ao que Jaguaribe define: “o real é a existência de um mundo que independem de nós, a realidade social, em contraste, é uma fatia do real que foi culturalmente engendrada, processada e fabricada por uma variedade de discursos, perspectivas dialógicas e pontos de vista contraditórios”.

O conceito do choque do real e sua finalidade ajuda-nos a entender sua presença nos diversos meios de comunicação de massa (como a reportagem jornalística, o fotojornalismo e o cinema). As narrativas fílmicas (inclusive nos documentários) atendem ao que a autora chama de usar a verossimilhança e intensificação do real. Para ela, é comum observar a organização da narrativa para lhe dar mais fluxo e continuidade.

É importante ressaltar aqui uma observação realizada por Bill Nichols em referência aos documentários. Segundo Nichols o documentário se apoia muito menos na continuidade para dar credibilidade ao mundo a que se refere do que o filme de ficção. Percebe-se que muitas produções estão debruçadas sobre o que ele chama de montagem de evidência: “Em vez de organizar os cortes para dar a sensação de tempo e espaço únicos, unificados em que seguimos as ações dos personagens principais, a montagem de evidencia organiza-os dentro da cena de modo que se dê a impressão de um argumento único, convincente e sustentado por uma lógica”

Ônibus 174:

O sequestro ao ônibus 174 ocorreu em 12 de Junho de 2000 no bairro Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Sandro do Nascimento (então com 22 anos) invadiu o ônibus com um revolver calibre 38 com o objetivo de assaltar os passageiros. Impedido pela polícia militar, Sandro inicia um sequestro que duraria cinco horas. Toda a ação foi acompanhada e amplamente divulgada pela mídia. Dois anos depois, o episódio que marcou o povo brasileiro, foi tema para o documentário dirigido por José Padilha e Felipe Lacerda.

ônibus 174O documentário se propõe a recontar o caso através de entrevistas com os passageiros, com a polícia e com a imprensa. A produção também busca oferecer uma explicação para o episódio através de um estudo biográfico de Sandro (nele, por exemplo, temos conhecimento de que Sandro é um sobrevivente do Massacre da Candelária, que sua mãe foi assassinada quando ele ainda era muito pequeno e que sua condição marginalizada o levou a inúmeras prisões).

Sandro nasceu em 1978 e foi criado pela mãe até os seis anos (quando ela, grávida, foi assassinada na sua frente). Adotou o apelido de ‘Mancha’ e passou a ser morador de rua (viciou-se em drogas, nunca aprendeu a ler ou escrever e Sequestro onibus 174teve inúmeras passagens em instituições de jovens delinquentes).  Seus únicos contatos familiares (com forte alusão a figura materna) foram: sua tia Julieta, a assistente social Yvone Bezerra e a mãe Dona Elza da Silva. O sequestro ao ônibus 174 ocorreu em Junho. Sandro fez 11 pessoas de reféns. Após o sequestro (que resultou na morte da estudante Geisa), Sandro foi imobilizado pela Polícia e morreu asfixiado na viatura.

Há muitos aspectos que chamam atenção sobre o caso do ônibus 174 e Jaguaribe sabiamente destaca um deles: “o revelador e o inusitado do sequestro ao ônibus não é a trajetória terrível de Sandro. Não é a morte absurda da jovem Geisa, nem a espantosa incompetência da polícia e das autoridades, nem mesmo a condição execrável das prisões no Brasil. O que marca singularmente o episódio é a sua completa visibilidade midiática que fez com que esses terríveis ingredientes ganhassem projeção diante as câmeras”.

O documentário e o filme sobre o caso 174 adéquam-se ao que a autora chama de tradição do naturalismo e brutalismo, afinal, contam a história do “realismo sujo das ruas”, retratam a violência em situações limites e ilustram a precariedade e marginalização das classes mais baixas. É interessante observar que a mídia visual possui mais força do que a escrita – comprovado no que presenciamos com o sequestro: o espetáculo, a abundância de informações e uma incansável repetição. O que nos leva a questionar a função da mídia nesses acontecimentos… Apesar de romper com a causalidade e oferecer uma experiência intensa ao espectador (principalmente através da tragédia) o choque é silenciado pela banalidade.

Para a autora, a atitude blasé se justifica pelo medo. As pessoas, embora atentas ao entretenimento, temem que esse choque seja transferido para sua particularidade.  Todo esse cenário funciona como um efeito cíclico, o espectador tem medo, mas procura tais emoções para revitalizar seu cotidiano entediante, a mídia por outro lado, cria o imaginário do risco e depende da circulação da narrativa sobre a violência. Ou seja, o contado do espectador com a metrópole, resume-se em voyeurismo.

onibus-174“O boom de biografias, livros de reportagem, documentários, filmes e narrativas realistas não é uma novidade para o público brasileiro, mas o que marca a produção recente é o forte apelo ao retrato da realidade em fase da violência urbana.”

A atitude blasé é muito bem ilustrada através do documentário sobre o ônibus 174 na entrevista com o sociólogo Luís Eduardo Soares:

“Esse Sandro é um exemplo dos meninos invisíveis que eventualmente emergem e tomam a cena e nos confrontam com a sua violência que é um grito desesperado e impotente. A nossa incapacidade de lhe dar com nossos dramas: com a exclusão social, com o racismo. Nos aprendemos a viver tranquilamente com os Sandros, com as tragédias e com os filhos das tragédias. Isso se converteu em parte do nosso cotidiano. A grande luta desses meninos é contra a invisibilidade. Nos não somos ninguém e nada se alguém não nos olha e nos reconhece, nos dá valor, não preza nossa existência, não devolve a nos a nossa imagem ungida de algum brilho, de alguma vitalidade ou reconhecimento. Esses meninos (de rua) estão famintos de existência social. Um menino negro, pobre, transita invisível pelas ruas brasileiras. Há duas maneiras de se produzir invisibilidade: esse menino é invisível porque nós não o vemos, nos negligenciamos a sua presença. Ou porque projetamos sobre ele um estigma, uma caricatura, um preconceito  .”

Para Beatriz Jaguaribe é importante observar que apesar dessa falta de atitude dos espectadores e cidadãos não há uma divisória rígida nem uma cultura do apartheid. Distintas realidades entram em conflito na metrópole, são confrontos acirradamente desiguais, violentamente injustas, altamente discriminatórias quanto ao gênero, raça e cor. Há uma troca, uma hibridação contínua de símbolos e culturas.

Gal e eu

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Gal Costa esteve ontem em Belo Horizonte a convite da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e maravilhosamente, cantou diversos sucessos de sua carreira (como Folhetim/Camisa Amarela). Por sorte fiquei sabendo da sua presença na capital mineira através de uma página argentina em sua homenagem. Os ingressos começaram a ser vendidos há um mês (e por falta de atenção ao boletim mensal do Palácio das Artes, soube em cima da hora). Minha mãe foi ao PDA  comprar um ingresso e eles estavam esgotados. Fiquei desesperada: há tanto tempo espero por ela e agora que ela está aqui, tão pertinho eu não consigo ingresso. Chorei, esperneei, fiz uma promessa de que se conseguisse entrar, ficaria dois dias sem falar nada. Cheguei lá mais cedo e fiquei rondando por um cambista. Consegui um ingresso (um pouquinho mais caro) e tive a felicidade de vê-la de pertinho, foi lindo.

Hoje eu poderia escrever um texto impessoal e informativo, apresentando as músicas e observando os aspectos estéticos e técnicos do show. Mas uma publicação sobre ela, cantora que eu tanto admiro, não poderia ser simplista assim. Peço desculpas pela repetição, pelo pieguismo… mas quando o assunto é Gal Costa, eu me derreto.

Como já disse aqui no La Amora, nutro uma sincera admiração por vários artistas. Sou fã da Susan Sarandon e da Jessica Lange, por exemplo. Mas quando o assunto é Gal Costa o sentimento que eu tenho é completamente diferente. Gal foi a voz de uma geração, aliás: foi a voz de uma nação: do meu país. Ontem antes de dormir, fiquei me lembrando dos diversos contextos em que sua voz esteve presente na minha vida e no quanto sou encantada por ela. Parece que Gal tem um “feitiço”, uma energia ou um poder que te sensualiza e te encanta.

Quando eu era pequena minha mãe dizia que os meus cabelos soltos pareciam com os de Gal. “Tá lindo, tá Gal”. Por uma inocência eu achava que cabelo bonito era cabelo liso: então quando ela dizia que parecia Gal eu ficava com tanta raiva! Um dia, cheguei na escola com os cabelos soltos e um colega disse: tomou choque? Tá parecendo a GalGAL COSTA! (foi terrível!). Fiquei com vergonha, morrendo de raiva e não podia prender o cabelo porque não tinha levado a presilha. Passei o dia sentada na carteira, querendo sumir e desde então, não fui a escola de cabelo solto (até que aprendi a fazer escova). Ironicamente, meus cabelos não possuem os mesmos cachos e eu sempre tento fazê-los parecer mais volumosos.  Acho o cabelo da Gal Costa tão lindo, tão lindo que admito que gostaria de ter um igual.

Outra lembrança que eu tenho é de assistir um programa na TV Cultura onde Gal cantava acompanhada por uma guitarra. O cara tocava um nota e Gal repetia com a voz. Achei aquilo belíssimo. Passei a imitá-la dentro de casa interminavelmente. Tínhamos um cd e que eu não me cansava de ouvir. Um dia apareceu um cd igualzinho, não sei como aquilo foi parar lá e então eu o levava comigo, dentro da mochila da escola. Um ficava comigo e o outro em casa. Meses depois descobri que era da vizinha (mas eu não devolvi). Um deles se perdeu mas o outro está aqui, um pouco rabiscado de caneta, mas a salvo.

GAL COSTASó fui entender a importância da Gal no ensino médio, quando me ensinaram direito o que foi a ditadura no Brasil (sobre os movimentos culturais, sobre o tropicalismo). Desde então as músicas dos Doces Bárbaros (e as músicas da Elis Regina, inevitável) era o que tocava no meu celular. Eu escutava o dia inteiro, sabia de cor e salteado.

Foi nessa época que comecei a alimentar uma vontade louca de ir a um show dela, de vê-la de pertinho (como o fiz ontem). Porque Gal é inspiração, é sinônimo de beleza e de força: de coragem. Conheci um rapaz chamado Lucas no Palácio, ele estava sozinho (assim como eu), tem 17 anos e é apaixonado por Gal (a quem chama de diva). Conheci Marina e Camila, duas meninas de 21 e 19 anos que a amam. Conversei com uma senhora antes de entrar para o show, ela era bem velhinha e disse: “A Gal tem uma energia que nenhuma outra cantora tem”. Quando entrei no ônibus para vir para casa, dois rapazes estavam conversando no banco de trás, falando sobre a Gal e sua voz. Eu me senti tão bem, tão feliz! Quer dizer: olha só quanta gente!

O show foi lindo, já no final o público saiu das cadeiras e se aglomerou ao palco. Lá estava eu, bem pertinho dela. Gal foi chamada de volta várias vezes, não queríamos deixá-la ir.

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It’s a man’s world

O título da publicação é sugestivo mas refere-se ao filme que vi na semana passada com a Dianne Wiest e Whoopi Goldberg. “O sócio” (1996, dirigido por Donald Petrie ) é uma adaptação da produção francesa de 1979, “L’Associé” que conta a história de Laurel Ayres, uma mulher imagesnegra especialista em mercado financeiro que apesar do talento, não consegue ascender na carreira. Depois de perder um cargo importante para um colega golpista e menos competente que ela, Laurel pede demissão e decide abrir uma empresa e para isso, recebe ajuda de Sally (Wiest), uma super secretária.  Mesmo com tanto talento e dedicação, Laurel não consegue encontrar um sócio para sua empresa (primeiro porque ela é mulher e segundo porque é negra). A empresária então, decide inventar um sócio (um homem, mais velho e branco) que lhe garante visibilidade aos negócios, mas que lhe traz sérios problemas.

Há dois aspectos que me chamaram atenção logo no início do filme. A música ‘It’s a man’s world, criada e mundialmente conhecida na voz do James Brown é cantada por uma mulher. Outro ponto interessante é que o trabalho gráfico da abertura é uma referência aos monitores de computador de fósforo verde. É engraçado ver todo aquele aparelhamento, que provavelmente na época eram de última geração e que hoje estão totalmente ultrapassados. Os computadores ainda tinham aquelas letrinhas verdes subindo pela tela e os celulares eram enormes.

 DiannewiestO filme é leve e carrega alguns clichês, mas nada que comprometa o efeito surpresa da trama. Logo no início, acompanhamos o desgaste que Laurel enfrenta para conseguir um acordo com sócios importantes da empresa para a qual trabalha. Ironicamente, seu colega de trabalho, burla as regras e leva o mérito de ter conseguido novos parceiros. Há uma conversa interessante que acontece quando Laurel vai atrás dele e pergunta qual foi o motivo de tê-la passado para trás. Ele então responde: “Você nunca seria vice-presidente e sabe muito bem porque”. É nesse momento que Laurel se demite da empresa e resolve abrir seu próprio negócio. Outro aspecto interessante é que, desde a primeira cena, Sally está presente na tela. No entanto, sua figura é tão secundária que ela aparece de relance, com poucas falas, arrumando as mesas ou a gravata do chefe. Ninguém lhe dá o devido valor ali, nem mesmo Laurel.

Laurel abre a empresa e encontra conflitos usuais. Ninguém quer ser seu sócio, independente da sua capacidade. Tudo porque ela não possui nome, ou seja, não é conhecida na área. Inesperadamente, Laurel recebe uma visita de Sally. Ela tenta fingir que está tudo sobre controle, mas Sally logo percebe o problema da colega. Ainda descrente que Sally poderia ajudá-la, Laurel pede que Sally vá embora. A secretária então diz: “O feminismo ainda não chegou em Wall Street”. Sally liga para uma amiga, a secretária de um importante empresário e consegue marcar um horário para Laurel com ele. Só então Laurel percebe o valor da doce secretária e então a convida para trabalhar com ela.

o sócioOutra passagem que eu gosto muito no filme acontece quando Laurel chega em casa devastada pelo insucesso da primeira tentativa da empresa. Sua vizinha bate em sua porta e pergunta: “Você tem sua carreira, mas quando chega em casa o que tem?” e Laurel responde: eu tenho Independência. Mas para isso ela teve que mentir: teve que dizer que sua empresa também é administrada por um homem (que não existe) chamado “Cuty”. Sua credibilidade agora depende dele e ela passa a burlar os encontros, fingindo que o Senhor Cuty está viajando ou que ele tem pavor de ser visto publicamente. Enquanto acompanhamos o crescimento da sua empresa, o colega de Laurel (aquele que a passou para trás) começa a enfrentar problemas no serviço. Na teoria ele é um ótimo especialista, mas na prática, não dá conta.

Como todo bom filme de comédia dos anos 90, O Sócio tem lá seus clichês. O primeiro e inevitável é a secretária gostosa que dorme com os homens por interesse. “Querem levar a gente pra cama e essa é a nossa força”.  O outro é a jornalista interesseira e irresponsável que não mede esforços para conseguir uma entrevista com o senhor Cuty. “Para escrever sobre a Laurel, a imprensa precisa conhecer o Cuty”

WhoopidiannewiestLaurel faz de tudo para esconder a inexistência do Cuty, mas a situação fica da vez mais insustentável. Ela descobre que Sally já sabia que Cuty era uma invenção e então conta com a sua ajuda para forjar a morte do sócio. As duas (em uma cena divertida e surreal) colocam uma caveira de mentira em um carro com um explosivo. O feitiço acaba virando contra o feiticeiro e elas são acusadas de matá-lo.

Brilhantemente, para fugir das acusações, Laurel resolve dar vida a Cuty e se traveste de um homem branco. Sem duvidas, seu surgimento é um dos momentos mais agradáveis da trama. Há uma premiação que acontece em um clube onde só é permitida a entrada de homens. Laurel entra no clube, mas ninguém a reconhece. O grande vencedor do premio é o Senhor Cuty e ela, sem pensar duas vezes, vai recebê-lo. Já no inicio do discurso ela diz uma frase que me agrada muito: “O termo exclusivo significa excluir”. Outra coisa que eu gosto muito é que no bar, todos os garçons são negros e são eles que começam a aplaudi-la.

Ficha técnica:

O Sócio / The Associate
Direção: Donald Petrie
Elenco: Whoopi Goldberg, Dianne Wiest e Eli Wallach
Gênero: Comédia
Duração: 108 min.

Whoppi Goldberg totalmente travestida e irreconhecível como Cuty,
Whoppi Goldberg totalmente travestida e irreconhecível como Cuty,

Dias melhores virão

dias-melhores-virao-291Infelizmente não estou familiarizada com produções nacionais da década de 80. Há aspectos técnicos e contextuais que desconheço. Ainda assim, gostaria de comentar um pouco sobre o filme que revi na noite passada e que como sei, foi importante para o fortalecimento da identidade do cinema brasileiro.

“Dias melhores virão”, de 1989, é um filme dirigido por Cacá Dieguez – que traz Marília Pêra, José Wilker, Lília Cabral, Zezé Motta, Rita Lee e Paulo José no elenco. Na história, acompanhamos o cotidiano de Marynalva Matos (Pêra), uma dubladora que sonha em ser atriz de Hollywood. Apesar dos figurinos vibrantes e de uma aparente alegria, Marynalva ou Mary, como prefere ser chamada, é uma mulher marcada por uma vida solitária e infeliz.

Mary transfere seus profundos desejos (e fantasias) para os personagens e para as histórias dos filmes americanos que dubla. Como cortina, conhecemos os pequenos dramas dos colegas (também dubladores) que trabalham com Marinalva, entre eles Dalila (Zezé Motta), uma mulher negra que mora um senhor de idade maluco e que, ao contrário da personagem principal, é extremamente realística.

País vagabundo, povo fodido:

Dias melhores virãoPeço desculpas pelo subtítulo, mas é que não consegui pensar em outro mais adequado. “Dias melhores virão”, apesar de ser extremamente caricato, carrega consigo o que o brasileiro sentia no início dos anos 90 (e que de alguma forma, ainda sente). Marynalva é pobre, vive no subúrbio, toma sua cervejinha no final de semana e vive como amante de um homem, que nunca abandonará a mulher para ficar com ela. Para Marynalva, não há nada mais bonito do que a língua inglesa e seu sonho, é igualar-se à estrelas do cinema americano. Aliás, Marynalva não é nome de estrela, por isso, ela troca decide mudá-lo para Mary Matos.

Sua vizinha Dalila é negra, pobre e trabalha duro para conseguir sobreviver (ela brinca várias vezes que não pode ser vista pela polícia conversando com um branco porque será confundida com bandido). Sua outra colega trabalha vendendo rendas para ter umDias melhores virão Rita Lee dinheiro extra no final do mês. Pompeu (Paulo José) é um cineasta sem sucesso que nunca conseguiu verba para realizar um filme.

Como todo mundo sabe, a autoestima do brasileiro estava baixa, não tinha dinheiro, nem confiança e tudo que era vinha do estrangeiro, era melhor. O próprio titulo do longa é muito sugestivo: ‘Dias melhores virão’, uma síntese do próprio país (um país do futuro, uma promessa – que nunca se concretiza).

A trama inicia-se com a chegada de um rolo de filme americano muito aguardado pelos personagens. Através de um flashback, entendemos porque aquele filme é tão esperado. Voltamos então no tempo e conhecemos a história de Marynalva que já no primeiro dia de trabalho, mostra-se encantada com o seriado pelo qual foi contratada para dublar. Na tela, uma Rita Lee quase irreconhecível, falando em inglês é apresentada como uma atriz que estrela uma série americana (ao estilo I Love Lucy).

Gosto especialmente da interpretação de Zezé Motta, que me passa uma honestidade muito grande e que se contrapõe a excentricidade de Marília Pêra. (não que essa excentricidade seja ruim). Na trama, Dalila recebe inúmeras cartas de um gringo que se apaixonou por ela quando esteve no Brasil durante o carnaval. Ele a pede em casamento e sugere que ela vá morar com ele no México. Como Dalila não fala inglês é Marynalva que traduz todas as suas cartas. A decepção de Marynalva a ver o sucesso da vida amorosa da amiga é evidente (e paradoxalmente engraçada).

A vida amorosa de Marynalva foi um desastre desde muito cedo. A personagem vive assombrada pela imagem de Gabriel, seu primeiro namorado. Ela conta a história que quando tinha dezesseis anos, os dois saíram de um baile e após uma boa transa, Gabriel queria se exibir para ela em sua moto. O rapaz não viu o caminhão de lixo se aproximar, sofreu um acidente e morreu na hora.  Marynalva se afogou em um mundo depressivo e decidiu não sair mais do apartamento, vivia lendo revistas e vendo TV.

Pompeu se apaixona imediatamente por Marynalva e divide com ela todos os seus sonhos. Ironicamente, Marynalva não nutre o mesmo amor por ele e o usa para espionar o amante.

Deboche e Plasticidade:

Há uma cena muito divertida em que Mary chega em casa, depois de um dia de trabalho, liga a TV e começa a assistir uma entrevista do Daniel Filho, falando sobre a situação do cinema brasileiro. A personagem observa um pouco a tela e depois faz uma careta, debochando das nossas produções. E não é que somos nós? De alguma forma, descrentes no cinema nacional?

Marilia pERAO longa é todo muito plastificado o que evidencia uma intencionalidade, exemplo é que quando Mary caminha para chegar em casa, é usual o surgimento de um morador de rua ou de um bandido (todos, negros mas pouco convencionais). Outra coisa interessante é que apenas Mary usa perucas, roupas exageradas e de cores fortes, portanto é o quesito identificador de sua excentricidade, afinal, diferente dos outros, Mary é um personagem absolutamente lúdico.

Mary é uma doce referencia a Carmen Miranda, uma atriz/cantora que conseguiu fazer sucesso em Hollywood. E qual é vantagem? ‘Ela ganha em dólar, responderia um dos personagens. Mas também tem que fazer todas as vontades do estudo. –E daí, se ganha em dólar? (*Marynalva consegue chegar nos EUA e fazer sucesso, mas sua personagem é uma empregada, porque é esse o lugar que Hollywood nos reserva).

Aurora: Aurora Miranda aparece pouco no filme, mas não passa despercebida. Aquela participação na trama, uma sutil homenagem a sua carreira e a carreira da irmã, Carmen Miranda é também um trabalho metalinguístico. O personagem é bastante caricato, não se sabe muito bem o que ela faz ali, às vezes ela aparece cantando, outras, dublando. Independentemente, a história de Aurora se Aurora Miranda em Dias Melhores Virão mistura com a de Carmen, com a de Marynalva e com a de tantas outras mulheres que um dia nutriram o sonho de ir para Hollywood. Como se sabe, Aurora também foi cantora e ao lado da irmã, gravou inúmeros sucessos. Pouco tempo depois que Carmen foi para Hollywood, Aurora seguiu seu passos. Moraram juntas em uma mansão em Beverly Hills. Enquanto a carreira de Carmen decolava, a de Aurora afundava. Ela decidiu se dedicar inteiramente a família e aos filhos e parou de cantar ou gravar discos. Ruy Castro conta na biografia de Carmen, que Aurora não se dava muito bem com David Sebastian (marido de Carmen) e por isso, decidiu voltar ao Brasil com os filhos. Quando chegou, teve um choque cultural grande, estava acostumada com as ruas limpas da América, com a beleza e com a vida boa. Quis voltar, mas já não tinha jeito. Aurora também tentou recomeçar a cantar no Brasil, mas suas músicas já tinham ‘saído de moda.

Ensaios sobre a Cegueira, um olhar sobre a vergonha

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Escrevi este texto no primeiro período de faculdade, muitas coisas mudaram desde que me formei, mas uma delas continua: o meu respeito e a minha admiração por José Saramago, do qual li pela primeira vez ainda com 14 anos…

A cegueira inicia-se em apenas um homem e repentinamente alastra-se a outras pessoas de maneira inexplicável. Assim o filme “Ensaio sobre a cegueira”, baseado na obra do escritor português José Saramago, aborda a história de uma epidemia que se distingue da cegueira usual, uma vez que ao invés da escuridão, os cegos possuem a percepção de uma “cegueira branca”. Os contaminados são enviados a um manicômio, e passam a viver de forma animalesca, relegados à própria sorte. Somente uma mulher consegue enxergar, e dessa forma, acaba se tornando a única testemunha ocular de tal degradação.

A obra ilustra a fragilidade das relações humanas, das imposições morais, dos preconceitos.  A cegueira (também passível de outras interpretações) pode ser entendida como uma imperfeição ética, que se encontra no âmbito das escolhas pessoais ou coletivas comuns no cotidiano.

Os artigos “Culpa e vergonha”, “Privilegiados sem Vergonha”, “Dois tipos de vergonha” e “ A vergonha de ser pobre”, do psicanalista Contardo Calligaris, também ilustram outra característica importante dos costumes ocidentais e consequentemente brasileiros; a vergonha. Assim, como os personagens do filme, que não enxergam  e não respeitam as regras básicas de convivência, tornou-se comum agir por impulso. A vergonha não é pelo ato, e sim, para o que ele possa representar na sociedade. A preocupação é pela reputação.

As identidades deixam de se basear no que se é, para se basear no que se tem. No filme, um dos grandes problemas é que as pessoas não podem ser identificadas pela aparência ou pelo nome, a falta de visão, obriga-os a se conhecerem melhor. Não distante disso, em nossa realidade, o que se percebe é a existência de relações supérfluas, criadas por interesse, pela necessidade de ostentação. Exemplo disso, são os neoprivilegiados descritos por Calligaris, que “sobrevoam a Ilha Grande em vôo rasante”.

Por fim, a relação conflitante entre dominantes e dominados, resultado não só da violência, mas também de humilhações causadas aos menos favorecidos, torna-se algo recorrente, retratada de diversas formas pela mídia e compreendida pela população como algo banal.

quem sofre…

Não aceito dividir a minha dor, nem a sugestão de que a dor pode ser divida.

A dor exige uma particularidade e não há nada que possa me convencer do contrário.

A dor é irmã da solidão, quem sofre: sofre sozinho.  

A Imagem Virtual, Mental e Instrumental

Em A Imagem Virtual Mental e Instrumental, Paul Virilio analisa os efeitos da “videônica” em que a câmera está subordinada ao computador. A imagem percebida pela câmera, ao invés de ser enviada a um telespectador, é enviada a um computador para ser analisada.  A interpretação e a capacidade de análise humana se subordinam a robótica. O autor afirma que a imagem mental, aquela elaborada a partir de conhecimentos individuais, com base em análises e opiniões pessoais está desaparecendo. Essa imagem deu lugar a uma imagem instrumental.

Imagem do Documentário "Câmera-olho", o projeto cinematográfico mais ambicioso do diretor Dziga Vertov
Imagem do Documentário “Câmera-olho”, o projeto cinematográfico mais ambicioso do diretor Dziga Vertov

O desenvolvimento das imagens virtuais, como explica Virilio, está diretamente ligada ao desenvolvimento audiovisual. A industrialização da visão (e o surgimento de novas tecnologias) molda e influencia comportamentos sociais. Temos como exemplo, as câmeras de controle de vigilância. Através de instrumentos cada vez mais modernos de reprodução de imagens, o ser humano está tendo acesso mais fácil e rápido às imagens produzidas tecnologicamente e com conceitos pré-definidos. Dessa forma, graças a essa facilidade de acesso, os homens tem sido induzidos a trocar a análise mental das imagens pela simples aceitação da mensagem que lhe é transmitida, sem questionamentos.

“Agora os objetos me percebem”, a citação de Paul Klee se refere às câmeras de vídeos instaladas em praticamente todos os lugares comuns acompanhando e vigiando as pessoas, através de uma visão artificial.  Com inteligência artificial a máquina tem a capacidade de reter e reproduzir imagens, além de transmitir sensações que estamos sendo observados. A memória visual mental seria uma realidade subjetiva ou objetiva da própria visão cerebral, o sujeito. Já a instrumental precisa de um suporte, uma extensão dos olhos para captar a imagem, ou seja, a máquina, o objeto.

Antes a percepção da imagem era apenas com os olhos, e elas não podiam ser reproduzidas ou projetadas, como acontece agora com o cinema e a fotografia. A digitalização trouxe para a fotografia a efemeridade. Com uma câmera é possível registrar fotos instantâneas, visualizá-las na tela, gerar grande quantidade de imagens e enviá-las a outras pessoas que se encontram em lugares distintos. Neste caso, o autor explica que este desenvolvimento tecnológico também se caracteriza por uma superficialidade.

 O texto aborda o paradoxo da representação do espaço real, a virtualidade e a realidade dos fatos andando praticamente juntos, ou seja, as notícia quase ao mesmo tempo que a realidade. Outra ressalta do autor, é que as máquinas de produção de imagens estão cada vez mais em transformação, ficando obsoletos rapidamente e dando lugar a outros tipos de concepção de imagem.

A industrialização da visão induziu os indivíduos a uma interpretação automática do sentido dos acontecimentos; das imagens que representam esses acontecimentos. Dessa forma, as imagens virtuais instrumentais foram, cada vez mais, substituindo as imagens virtuais mentais, ocasionando que a sociedade se tornasse escrava da imagem.

Essa questão também é abordada no filme que vimos em sala de aula, Ensaio sobre a cegueira. O filme também mostra essa sociedade que é escrava da imagem e que recebe diariamente uma overdose de informações pré-estabelecidas a partir dessas imagens. A cegueira é provocada devido a esse excesso e também devido à incapacidade gerada nessa sociedade de se selecionar e analisar as imagens com base em conceitos pessoais.  A sociedade não só se tornou refém da imagem como também se tornou incapaz de formar opiniões diferentes daquelas que são fortemente induzidas por elas, a sociedade perde o senso crítico.

Essa perda do senso crítico que deixa as pessoas vivendo num mundo de representações é relatada também por Susan Sontag, no texto Na caverna de Platão. Em seu texto, Susan resgata as sombras da alegoria da caverna de Platão para dizer que a banalização da imagem fez com que os indivíduos retornassem a viver em uma caverna. A banalização referida é também causada por esse fácil acesso às imagens que as deixou destituídas de sentido. Ao passo que, por outro lado, as imagens se tornaram tão presentes na vida dos indivíduos que passou a ser confundida com a realidade. Assim, as imagens, que são uma mera representação da realidade, construíram uma sociedade distorcida da real, onde os seres humanos se tornaram cegos e não questionam aquilo que vêem, bem como na caverna descrita por Platão.

A conclusão que se tira é que, a tecnologia trouxe também fatores negativos. O excesso, o imediatismo e esse automatismo banalizaram a imagem e fizeram com que a sociedade passasse a se basear apenas nessas imagens para a construção de sentidos. Sem senso crítico, sem questionamento sobre as mensagens transmitidas, o que caracteriza tanto a cegueira quanto esse retorno à caverna. Ora o indivíduo se vê sem rumo caso afastado das imagens, ora se vê conformado com qualquer sentido que elas vieram impor.