Escada para protagonista

Dianne wiest Ontem encontrei um site americano dedicado ao trabalho teatral da Dianne Wiest. Há inúmeras entrevistas e críticas jornalísticas disponíveis onde ela fala sobre aspectos da carreira e da vida particular. Encontrei também no Google Books um livro escrito por Rosemarie Tichler e Barry Jay Kaplan “Actors at Work’, onde ela fala como decidiu seguir a carreira e quais foram os seus melhores desempenhos. Em um dos artigos do site, bastante descritivo aliás, Wiest comenta sobre Helen Sinclair, personagem que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1995. A jornalista descreve o enorme apartamento de Dianne no Upper West Side em NY e conta que a atriz apareceu para a entrevista com o cabelo escuro, estilo anos 30. Com seu marcante tom de voz, Dianne conta para a entrevistadora que pensou em desistir do papel (escrito por Woody Allen, especialmente para ela), por que não conseguia fazer o que ele exigia: falar alto. Ela reuniu-se com Allen e disse que não se importaria se fosse dispensada. Ele então insistiu docemente e disse que nenhuma faria aquele papel se não fosse ela.

A entrevista foi realizada pouco tempo depois que Dianne ganhou o Oscar e pela quantidade de matérias disponíveis  no site (realizadas na época) fica muito claro o assédio que o ator sofre depois que ganha um prêmio desses. Dentre inúmeras coisas, Wiest disse foi bailarina até os 19 anos, quando decidiu se tornar atriz. Ela já havia feito alguns trabalhos no teatro, mas foi exatamente Woody Allen que trouxe visibilidade para sua carreira já que ele a escalou para A Rosa Púrpura do Cairo, seu primeiro trabalho no cinema. Gosto especialmente o que ela revela sobre Tiros da Brodway pois há uma admiração muito grande em suas palavras.

Para ela, Helen Sinclair foi um desafio inigualável: tanto de entonação, quanto corporal. Ela brinca que o beijo de John Cusack é muito bom, apesar de estranhar sua pouca idade.Wiest estava com 47 anos e Cusack com 28. Ela revelou que Allen intencionalmente a fez parecer mais velha na trama, para evidenciar a diferença de idade entre os personagens.  Cusack mais tarde afirmou que sempre achou Dianne Wiest belíssima e atraente, portanto, não teve nenhum problema em beijá-la. Ele chegou a brincar que nada se iguala ao beijo em que deu em Anjélica Huston em Os Imorais (filme em que ela interpretava sua mãe e, depois do beijo, cortava sua garganta). Dianne então conta que a entonação que usava no filme quase estouravam os microfones, era como transpor o teatro para um pequeno cenário.

Dianne Wiest e Woody Allen

A jornalista então pergunta sobre planos futuros e ela diz que não há nada em mente além de ser mãe em tempo integral. Dianne, na época, viva com suas duas filhas (uma de sete e outra de três anos) e dizia que tudo mudara depois de tê-las adotado. A jornalista a chama de mãe solteira e Wiest reforça que essa foi a melhor escolha da sua vida. Na entrevista, a atriz reflete sobre um ponto que me chamou atenção (e que inclusive é ao que se refere o título dessa publicação). Ela dizia que não nutria mais ilusões de receber um trabalho de destaque e que se sentia muito feliz e orgulhosa pelo papel que Hollywood lhe reservara: o de coadjuvante. Para Wiest, na idade em que ela se encontrava, nunca iriam contratá-la para atuar em um filme de ação ou um filme sensual, mas que ela se contentava com isso (e que se sentia grata).

No livro “Actors at Work” há também um belo trabalho descritivo: os autores contam que a aguardavam em um pequeno e chique restaurante de Nova York e que ela chegou perfeitamente na hora marcada. A atriz sentou-se em uma enorme mesa preta e logo foi contando que havia se acidentado no set de filmagens do filme “Dedication”, de 2007, onde ela fazia o papel da mãe da atriz Mandy Moore. Dianne aceitou as uvas que o garçom lhe oferecera e disse que só iria comer depois da entrevista. Ela também se desculpou inúmeras vezes por não ser muito boa em dar entrevistas.

No decorrer da conversa, Dianne conta como começou a trabalhar em Law & Order e porque decidiu sair. Dianne participou de 48 episódios entre 2000 e 2001 onde fazia o papel de Nora Lewin, uma promotora de justiça. Ela dizia que aceitou o convite de Dick Wolf sem saber exatamente onde estava se metendo. O início do trabalho já foi desestimulante pois ninguém lhe explicou direito qual a origem do personagem, suas motivações: tudo era automatizado e repetitivo. Em um episódio a promotora decide sentenciar um menor de idade a pena de morte. Dianne negou filmar essa cena porque sabia do peso de uma narrativa como aquela, sendo transmitida para milhões de pessoas. Ela também afirmou que chegaram a dizer que ela tinha um caso com Samuel Waterston e que dentre vários murmúrios, diziam que ela estava sendo beneficiada por ser amante do ator. Decidiu então, largar o programa.

Os autores voltam a lhe fazer uma pergunta recorrente: o que ela sente quando lhe chamam de atriz coadjuvante. Dianne brinca que nunca foi sexualmente atraente. O autor a corrige e diz: “você não é uma Marilyn Monroe, mas é muito bonita”. Ela então volta a comentar que essa pretensão de ser destaque já saiu de sua mente faz tempo. Hoje Dianne pode escolher onde, como e com quem quer atuar e esse, sem dúvidas, é um beneficio de poucos.

Em suma, o que me levou a escrever essa publicação é que desde que comecei a acompanhar o trabalho de Wiest, fiquei inquieta ao perceber o quanto ela foi deixada de lado. O único filme em que me lembro de vê-la como protagonista foi “Obrigada, Doutor Rey” de 2002, ainda assim dificílimo de achar (e pouco divulgado). O fato de ser coadjuvante não a incomoda o que de alguma forma, é um alívio. Acho que uma atriz com um repertório como o dela, não pode (de jeito nenhum) cair no esquecimento.

O destino de uma vida

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O Destino de uma vida (Losing Isaiah, 1995) é um daqueles dramalhões que te prendem do início ao fim. O longa conta a história de Khaila (Halle Berry), uma viciada em drogas que abandona o filho em um lixão. Por sorte, o garoto é salvo e vai parar no hospital. Lá, a assistente social Margaret (Jessica Lange) emocionalmente abalada pelo caso, decide adotá-lo. Passam-se dois anos, Khaila se reabilita e descobre que o filho, o pequeno Isaiah está vivo e então, decide recorrer à justiça por sua guarda.

É uma pena que um filme desses não seja tão fácil de encontrar para download na internet. Por sorte, volta e meia, ele é transmitido na TV a cabo pelo Telecine. O time de atores chama atenção (Samuel L. Jackson, David Strathairn, Cuba Gooding Jr.), mas o destaque da trama vai para Marc John Jefferies (o Isaiah) que garante grande parte da doçura do filme. O jovem ator nos envolve desde a primeira cena em que aparece nos ombros do pai adotivo conversando sobre futebol. A intimidade que o pequeno conquistou com os outros atores praticamente transborda pela tela e é impossível não ser cativado.

o fofo do Marc John Jeffries, no papel de Isaiah.
o fofo do Marc John Jeffries, no papel de Isaiah.

Particularmente, gosto muito do trabalho técnico realizado na abertura. A câmera em plongeé mostra toda a cidade de cima e o barulho de sirenes nos dá o indício de que algo está acontecendo. De repente, vemos uma Halle Berry irreconhecível, com o rosto ferido e cabelo desgrenhado, tentando alimentar seu pequeno bebê. A câmera subjetiva aumenta nossa inserção em seu desespero, em sua incontrolável vontade por mais uma dose. Em sua loucura provocada pelo vício, Khalia deixa o pequeno Isaiah no lixo em busca de crack. Na sequencia, o espectador fica com o coração na mão: na tela, vemos a imagem do pequeno bebê, quase sendo amassado pelo caminhão de lixo.

Margaret acompanha de perto o pesadelo vivido por Isaiah. No início tenta se distanciar, mas aos poucos cria uma relação protecionista. Depois de uma longa conversa com o marido e com a filha, decide que irá levar o bebê para casa. Um dia, sua colega de trabalho a adverte: pergunta a Margaret o que ela faria se uma assistente social se envolvesse em um dos seus casos e resolvesse adotar a criança. Sem pestanejar, Margaret responderia que a faria desistir.

Khalia, por outro lado acaba presa por roubar comida em uma loja. Todo o processo de reabilitação inicia-se naquele ambiente hostil que é a prisão. Junto a outras mulheres se vê obrigada a comparecer em sessões de terapia onde revela suas dores mais profundas. Depois de dois anos e já de volta as ruas, Kahlia começa a trabalhar como babá e visita constantemente uma assistente social. Em uma cena belíssima, a assistente pergunta a Kahlia se ela está lendo o livro que lhe foi indicado. Ela faz com que Kahlia leia em voz alta, mas aquela passagem a deixa muito emocionada, Khalia chora com muita dor e finalmente revela que perdeu um filho.

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O processo de adaptação de Isaiah à família de Margaret não é tão fácil. Em consequência as drogas que a mãe utilizava, Isaiah também ficou viciado. Conforme é informado no longa, o garoto possui grande irritabilidade e déficit de atenção. Ele exige de Margaret dedicação ‘full time o que prejudica sua relação com Hannah, a filha mais velha. Em uma apresentação escolar de Hannah, Isaiah tem um crise e Margaret precisa de ausentar. Hannah fica chateada e reclama por não conseguir se aproximar da mãe.

Nesse meio tempo, a assistente social informa a Khalia que seu filho está vivo e que se ela realmente está interessada em tê-lo de volta, algumas mudanças terão que acontecer. Khalia arruma um novo emprego, aluga uma casa, melhora a aparência e se diz pronta para uma batalha. Quando Margaret e o marido são informados de que a mãe biologia de Isaiah quer sua guarda, há uma comoção muito grande. Margaret insiste que como assistente social, seguiu todos os procedimentos corretos a procurou por algum tempo, mas não teve resposta.

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Uma mãe negra, uma mãe branca:

A luta entre as duas mães rapidamente tornou-se uma briga racial. O maquiavélico advogado de Khalia (brilhantemente interpretado por Samuel L. Jackson), pergunta a Margareth se Isaiah possui algum brinquedo da sua cor: É claro que sim, ela responde, e também possui bonecos azuis, verdes e alaranjados. Ele então retruca: E com qual dele a criança irá se identificar, como o Muppet amarelo? Em outro momento, ele pergunta ao marido de Margareth com que frequência eles recebem negros para jantar ou se por acaso, possuem amigos negros. Ele responde: O pediatra de Isaiah é negro. O advogado então pergunta: E você o convida para a sua casa? Ainda em outro momento, o advogado pergunta quais livros Margaret lê para Isaiah e se em algum deles, o herói é negro.E ela responde que nunca leu um livro para ele onde o heroi fosse de fato, negro.

Para Khalia, Isaiah precisa conviver com outros negros para aprender a se defender. Ela insiste em colocá-lo em uma escola junto a outras crianças negras e exige que ele vá viver com ela. Segundo sua percepção, viver com uma mulher branca não faria Isaiah perceber a sua ‘condição racial. Nem conhecer historicamente sua raça. No banheiro do tribunal, as duas mães acabam se esbarrando e o diálogo entre as duas ilustra perfeitamente o tom dessa discussão tão complexa. Khalia diz que Isaiah não é como um cachorrinho de estimação que pode ser adestrado. Margaret retruca: eu não sei o que há de errado com o seu povo. “Com o meu povo?” Khalia pergunta.

Brincando no banheiro, Hannah e Isaiah dão as mãos. Um sobreposta a outra evidenciando a diferença entre as cores, Hannah pergunta: ‘O que há de diferente entre as nossas mãos? E Isaiah responde: a sua é maior do que a minha.

losing isaiahO rei Salomão e as duas mães

Há uma história religiosa sobre o caso do Rei Salomão e duas mulheres. O rei pediu sabedoria e humildade a Deus para poder discernir entre o bem e o mal. Deus então lhe garantiu que o faria, sem lhe dizer quando ou como. Um dia, duas mulheres se aproximaram dele e colocaram-se a discutir. As duas moravam na mesma casa e tiveram um filho praticamente no mesmo dia. No entanto, uma delas acabou adormecendo e deitou-se sobre a criança que faleceu. A outra criança continuava viva, mas não se sabia quem era a mãe. Uma afirmava que durante a madrugada, a outra trocou os bebês. A outra, por outro lado, disse que sua criança era a que estava viva e que toda aquela história era mentira. O rei Salomão então disse: Tragam-me uma espada e dividam a criança ao meio. A primeira mulher disse: – Ah, senhor meu! Dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis. A outra, porém dizia: Nem meu, nem teu. Seja dividido!

Então respondeu o rei: Dai à primeira o menino vivo. De modo nenhum o mateis; esta é sua mãe.

“O destino de uma vida coloca” em jogo questões sociais complexas, mas evidencia o papel de um sentimento fundamental para uma relação familiar. Margaret questiona: Estamos falando de negros e brancos, mas e sobre o amor?

De fato, o tribunal se prendeu a uma discussão importante mas não fundamental: onde Isaiah encontraria o verdadeiro amor? Qual das duas iria lhe amar de verdade? O fato de Khaila tê-lo abandonado e depois se arrependido, significaria que ela não o amasse? Levamos para casa e para a vida esses questionamentos.

Doença como metáfora

“Doença como metáfora” foi escrito por Susan Sontag em 1978 e é uma obra que continua atual e relevante. Já no prefácio, Sontag cria uma metáfora onde afirma que todas as pessoas possuem dupla cidadania: uma no reino dos sãos e outra no reino dos doentes. “Apesar de preferirmos só usar o passaporte bom, mais cedo ou mais tarde, ficamos como cidadãos desse outro lugar”. Sua análise não é sobre a doença física em sí e sim sobre os estereótipos construídos sobre ela. A autora evidencia o câncer e a tuberculose, classificados como “duas doenças tolhidas pelos ornamentos da metáfora”. O livro, reconhecido como um clássico contemporâneo é também uma investigação sobre a política conservadora e sobre o potencial simbólico da discriminação.

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Susan Sontag por Annie Leibovitz, a autora foi diagnosticada com câncer no seio em 1977

(1) No século XIX, a tuberculose era considerada intratável, portanto receber esse diagnóstico era quase uma sentença de morte. Para Sontag, o câncer ocupou essa vaga de enfermidade implacável que entra sem pedir licença e invade secretamente o corpo do doente. A perplexidade sobre a doença é tão grande que é comum o pavor de quem a observa. Muitos doentes perceberam um distanciamento dos amigos e familiares que de forma inevitável, possuem a sensação de transgressão ou que a autora chama de violação de tabu. Os próprios nomes das doenças carregam consigo certo peso (há quem evite falar a palavra câncer, como muitos antigamente evitavam falar tuberculose).

Como os nomes já são rotulados pejorativamente, as pessoas diagnosticadas com a doença se sentem desmoralizadas e condenadas. É comum esconderem a doença que pode por em risco a vida amorosa ou mesmo o emprego. Já no primeiro capítulo, Sontag questiona a atitude de médicos que comunicam o diagnostico de câncer a família e não ao paciente: “a probabilidade de uma pessoa que sofreu um infarto coronário vir a morrer de outro infarto no intervalo de alguns anos é, no mínimo, a mesma de uma pessoa com câncer vir a morrer de câncer em breve. Mas ninguém pensa em esconder a verdade de um paciente cardíaco: nada existe de vergonhoso num ataque do coração. Mentem para os pacientes de câncer não só porque a enfermidade é (ou se supõe ser) uma sentença de morte, mas porque é considerado algo obsceno”.

(2) As metáforas sobre o câncer e sobre a tuberculose se entrecruzam e se distanciam ao longo da história. Sontag cita que Galeano chegou a comparar o câncer como um caranguejo: não porque é uma doença que rasteja e sim por causa da sua protuberância. Etimologicamente, a tuberculose foi vista como um inchaço, os médicos diziam que o tubérculo tinha um tumor – portanto, desde a antiguidade tardia até uma época bem recente, a tuberculose era tipologicamente um câncer. A autora explica que a tuberculose e o câncer só foram definitivamente separadas em 1882, quando se descobriu que a tuberculose era uma infecção bacteriana.

Muitas vezes, a tuberculose é vista como uma doença que atinge apenas um órgão: os pulmões. Ela também é vista como uma enfermidade de contrastes extremos: palidez branca e rubor vermelho. Por muito tempo acreditou-se que a tuberculose é capaz de gerar períodos de euforia e apetite sexual intenso (e que esse surto de vitalidade é apenas enganoso). Acreditava-se que o paciente com tuberculose poderia se curar se mudasse de ambiente. A tuberculose é uma doença da privação: das roupas escassas, de corpos escassos e quartos sem aquecimento. O tubérculo moribundo é alguém que se tornou mais belo e elevado. Em contrapartida, o câncer é entendido como uma doença que pode surgir em qualquer órgão, a palidez do paciente de câncer é imutável. Ele é visto como dessexualizador. Enquanto o moribundo tuberculoso é belo, o do câncer é atrofiado. O câncer é traiçoeiro e mais cedo ou mais tarde, será terminal. O câncer é uma doença da classe média, ligada à fartura, ao excesso. O tuberculoso possui estímulo de apetite, o paciente com câncer, não consegue comer.

Os aspectos citados acima são contrastes colhidos na mitologia popular. Sontag explica que muitos pacientes com tuberculose morreram sentindo muita dor, enquanto pessoas com câncer sentiram pouca ou nenhuma dor. A tuberculose não é apenas pulmonar. Ela também critica o que chama de “equação de Groddeck”: câncer=morte.  “O câncer é um tema raro e ainda escandaloso para a poesia, e parece inimaginável estetizar a doença”.

Susan Sontag faleceu em 28 de dezembro de 2004 aos 71 anos.  A autora sofreu com complicações de síndrome mielodisplásica, que evoluiram para leucemia mielóide aguda.
Susan Sontag faleceu em 28 de dezembro de 2004 aos 71 anos. A autora sofreu com complicações de síndrome mielodisplásica, que evoluiram para leucemia mielóide aguda.

(3) Para Sontag, a tuberculose e o câncer estão ligados a paixão. No entanto, enquanto a tuberculose foi vista como uma doença dos românticos e apaixonados, o câncer é efetivamente caracterizado por sua ausência (os pacientes são encarados como sexualmente reprimidos, incapazes de expressar ira). Muitos acreditam que ambas são uma sequela da frustração: o amor dos tuberculosos (mitologicamente encarados como pessoas explosivas ou sentimentais) são barrados enquanto o amor (e outros sentimentos) das pessoas com câncer são constantemente reprimidos (Sontag cita o caso de Norman Mailer que afirmou que se não tivesse assassinado a esposa, teria ficado com câncer). A resignação é a causa da enfermidade.

Ainda em referência às metáforas da tuberculose, Sontag afirma que era característica das vitimas natas e também era capaz de tornar sexy a pessoa doente. “Era tanto um modo de representar a sensualidade e fomentar as demandas da paixão como um modo de representar a repressão e divulgar as demandas da sublimação, e a doença suscitava tanto um torpor do espírito”.

(4) Sontag afirma que o tuberculoso já havia adquirido conotação romântica no século XVIII. A literatura veio para fortalecer essa ideia e apresentar o tuberculoso como alguém delicado e sensível. A doença passou a estar relacionada com uma pessoa com aspecto atrativo. Na época, era sofisticado parecer enfermo (magro e pálido). A moda entre os homens e mulheres era o vulnerável e o raquítico. A tuberculose estava ligada a noção de melancolia e elegância. Além disso, a junção entre morbidez, beleza e tristeza conotava criatividade. O mito da tuberculose tornou-se um clichê. Ao mesmo tempo, o tuberculoso era considerado um marginal e a doença passou a ser motivo de viagens (viajar ou isolar-se, até então, não eram vistas como forma de tratamento). Sontag afirma que os românticos inventavam a invalidez como pretexto para o ócio e par a isenção das obrigações burguesas afim de viver apenas para a arte. A tuberculose também era associada a loucura e só então os doentes passaram a serem enviados aos sanatórios. A autora revela algo muito interessante, ela diz que a metáfora da viagem psíquica é um prolongamento da ideia romântica: “Não por acaso a metáfora mais comum para uma experiência psicologica radical vista de maneira positiva – produzida por drogas ou por psicose – é a de uma viagem.”

(5) Ao contrário das grandes epidemias (como a peste bubônica, tifo e a cólera) a tuberculose era encarada como uma doença isolada, como uma doença do indivíduo: Ninguém pergunta “Por que eu?” quando contrai cólera ou tifo. Mas “Por que eu?” (com sentido de “isso não é justo”) é a pergunta que muitos se fazem quando sabem que estão com câncer”. Apesar da sua incidência, contrair tuberculose era algo misterioso ( o mistério que rondava a tuberculose, por exemplo, não ocorria com a sífilis. Apesar de terrível, sabia-se que a sífilis poderia ser contraída através do sexo) O julgamento não era só moral, mas também psicológico. Queimava-se as roupas do tuberculoso assim como queimavam de quem tinha cólera. Outro temor proveniente da tuberculose (e que de alguma forma, está presente no câncer) é de que ele esteja ligado a genética.

A mente de uma pessoa trai o corpo ou o corpo da pessoa trai os sentimentos. Sontag explica que no mundo antigo, as doenças eram vistas como ira divina. Hoje são formas de autojulgamento ou autotraição. Em situações extremas a doença é responsável por trazer a tona o que há de melhor e o que há de pior nas pessoas. Na antiguidade, a doença epidêmica era um castigo para a comunidade, hoje é um castigo para o indivíduo. [na literatura] “Para os personagens tratados de maneira menos sentimental, a doença é vista como uma oportunidade para finalmente agir bem”.

I710518(6)Para os gregos a doença poderia ser gratuita ou merecida, com o advento do cristianismo, moralizou-se a percepção sobre as doenças que passaram a serem vistas como punição (como um castigo justo e adequado). “No século XIV, a ideia de que a doença condiz com o caráter do paciente, assim como o castigo condiz com o pecador, foi substituída pela ideia de que ela expressa o caráter”. Sontag cita o médico Bichat que dizia que a saúde é o silêncio dos órgãos e a doença, sua revolta, portanto: a doença é a linguagem dramática do corpo. Nos séculos passados a doença foi vista como um sentimento exacerbado, a tuberculose foi logo ligada ao desejo, os primeiros românticos eram caracterizados como pessoas que desejam com mais intensidade do que as outras.

Para Sontag a ideia punitiva sobre as doenças contemporâneas (antes com a tuberculose, hoje com o câncer) ampliou-se. Antes a doença expressava o caráter, hoje o caráter causa a doença. Ela evidencia o absurdo e o perigo dessa percepção que coloca o ônus da doença no paciente (acreditava-se que a cura depende, sobretudo da capacidade de auto-estima do paciente, uma capacidade já debilitada). Tanto o mito que ronda o câncer quanto o que rondou a tuberculose sugerem que a pessoa é responsável por sua própria doença. Na visão de Sontag, o caso do câncer é pior já que o câncer é visto como sinônimo de fracasso.

Por uma estética da imagem e do vídeo

TV Cello, de Nam June PaikNo terceiro capítulo do livro ‘Cinema, Vídeo, Godard’, Philippe Dubois realiza uma profunda reflexão sobre a identidade do vídeo. De acordo com o autor, o vídeo é um sistema de imagens que surgiu entre o cinema (que o precedeu) e o infográfico (que o superou) . Apesar da importância, o vídeo possui um problema complexo pois é um “pequeno objeto” mal determinado. Os únicos terrenos em que foi verdadeiramente explorado foram no meio artístico (através da videoarte) e na intimidade particular (nos vídeos caseiros e familiares).

Para Dubois, o próprio nome (o termo “vídeo”), carrega consigo uma ambiguidade já que constantemente é usado como um sufixo, ou seja, como um complemento (ex: videogame, videocassete) e não como um fixo. O termo parece paradoxal e precisa de uma especificidade. Em latim video significa “eu vejo”, portanto é um verbo genérico que engloba todas as artes visuais. ‘Video é o ato do olhar’ e apesar de não ter um corpo próprio, ele é o fundador de todos os outros corpos que perpassam pela imagem.

A ambiguidade do vídeo está presente em sua própria natureza. Quando nos referimos a ele é difícil definir do que exatamente estamos falando (um meio de comunicação ou uma arte?, uma imagem ou um dispositivo?, uma técnica ou uma linguagem?). Dubois afirma que o vídeo é da ordem da imagem, que possui uma linguagem relativamente conhecida e uma identidade mais ou menos assumida. Porém é importante observar que o vídeo também é um sistema de circulação de informações e de conteúdo, independente do resultado visual. Para o autor, essa natureza paradoxal não é uma deficiência e sim uma força.

Nos discursos sobre o vídeo é comum importarmos termos de outros domínios. Termos do universo cinematográfico, por exemplo, são utilizados para se referir ao vídeo como se não houvesse diferença entre eles. Dubois questiona: “ Ora, as imagens em movimento funcionam do mesmo modo?”, “A operação de montar os planos no cinema é a mesma de editar imagens em vídeo? As questões em jogo são as mesmas em ambos os casos?” Para responder tais questionamentos, Dubois catacteriza noções sobre plano e montagem.

O plano é um bloco de espaço e de tempo, necessariamente unitário e homogênio, indivisível, incontestável, que funciona como núcleo de todo o filme e se constitui, dentre outros processos, de quadro, campo, espaço off e perspectiva. A montagem cinematográfica é aquela que permite perceber o filme como um corpo global e unitário, portanto exige algumas funções que garantem o efeito de continuidade (o filme se elabora tijolo por tijolo).

Television Decollage - Wolf Vostell
Television Decollage – Wolf Vostell

Dubois chama atenção para o fato de que a a existência de uma narrativa (uma ficção com personagens, ações e organização do tempo) não representa o modo discursivo dominante do vídeo, essa estrutura está adequada ao cinema. No vídeo, a linguagem de representação que predomina são o modo documental, experimental e plástico. Essa é uma estética particular, mas não exclusiva.

Existem três procedimentos que reinam no terreno do vídeo. A sobreimpressão é o efeito de sobrepor duas ou mais imagens e cria a sensação de multiplicação de visão. As janelas permitem uma divisão da imagem e ao contrário da sobreimpressão (onde uma é colocada sobre a outra), há uma divisão, um recorte (são, por exemplo, colocadas uma do lado da outra). A incrustação (textura vazada e espessura da imagem) é um dos procedimentos mais importantes e mais específicos do vídeo. Trata-se da mescla de imagens que possuem origens distintas.

Três filmes do cinema brasileiro, difíceis de engolir.

Tenho andado com muito azar quando se trata de cinema brasileiro. ´Os últimos três filmes que vi são de um desastre tão grande que fiquei me perguntando por que eu fui perder meu tempo. Já me meti em inúmeras discussões com pessoas que adoram afirmar que o cinema nacional é ruim e que só tem putaria. É assim mesmo que muitos pensam, não adianta. Mas como explicar esse sucesso de público? De alguma forma os brasileiros querem se ver retratados na telona. Não como personagens caricatos (nem do jeito que o cinema hollywoodiano injustamente insiste em fazer). O brasileiro vai a sala de cinema para ver sua cultura, seus problemas, sua realidade. Ele quer ver na telona uma representação da sua sociedade, da sua língua, afinal o cinema é também instrumento de identificação cultural, por isso tão importante.

As ultimas três produções que vi são bastante questionáveis (uma delas, inclusive, recebeu grande aceitação do público). São filmes que de alguma forma, cedem aos padrões estéticos americanos e fortalecem antigas estigmas que taxam o brasileiro. Todos os três estão fora do circuito alternativo, são produções popularescas e bastante enganadores (principalmente porque são muito convidativas). Mas isso não importa, comédia boa (sendo alternativa ou não) é aquela que te faz rir, que abusa da ironia e do sarcasmo sem perder a mão.

grazi massaferaO primeiro dos três filmes que vi foi Billi Pig, produção de 2012, dirigida por José Eduardo Belmonte. Billi Pig já engana pelo elenco (Selton Mello, Cássia Kiss, Milton Gonçalves e Zezé Barbosa) logo depois, te decepciona pela construção do roteiro e pela sequência duvidosa. Classificado como uma chanchada misturada com screwball comedy, a produção conta a história de Wanderley, um corretor de seguros falido que tenta ajudar sua mulher Marivalda(Grazi Massafera) a realizar o seu sonho de ser atriz. Não fosse só por isso, Marivalda possui um porquinho de pelúcia que cria vida e começa a interferir no cotidiano dos dois. Contexto completamente desconexo, diálogos sem graça, falhas de continuidade. Enfim, um filme triste de assistir.

Logo a primeira cena é bastante confusa: Marivalda aparece com um falso Oscar na mão, cercada de índios macumbeiros que a induzem a sacrificar o pequeno porco falante. Trata-se do sonho da personagem que vive uma perseguição insana pela fama. Ela e o marido se juntam a um falso padre e tentam ajudar a filha de um traficante poderoso. Grazi Massafera aparece com um sotaque terrível e Selton Mello com frases previsíveis e repetitivas.Perde-se muito tempo com histórias paralelas e há um dificil desenvolvimento da história (com vários personagens desaproveitados e sem ligação com a idéia central).

Totalmente Inocentes , filme de 2012 e dirigido por Rodrigo Bittencourt é também um daqueles que promete mas não cumpre. A intenção é boa, a concepção é interessante, mas na prática não dá certo. O enredo conta a história de três garotos (Bracinho, Torrado e Da Fé) que querem dominar o morro para impressionar a menina mais bonita da favela: Gildinha (Mariana Rios). O problema é que o lugar já é liderado por ‘Do Morro (Fábio Porchat) que também está interessado por ela. Ainda na trama, acompanhamos a história do jornalista Wanderlely (Fábio Assunção), um homem atrapalhado que corre o risco de perder o emprego se não conseguir um furo.

totalmente inocentesPercebe-se desde o início que o filme não tem grandes pretensões É uma comédia leve com poucos diálogos interessantes e com bons atores. Mas é um filme sem foco, que se perde diversas vezes e que peca por reunir tantos personagens estereotipados de uma vez só. Uma moça honesta e bonita que mora na favela, um traficante mau com uma história triste, uma lésbica extremamente masculinizada, um dono de uma pastelaria mão de vaca, um jornalista de má índole (e por aí vai). Sem contar que ainda temos a irritante presença de Filipe Neto, totalmente deslocado e inconveniente. (Gosto do Filipe Neto, mas ele foi mal aproveitado. Neto aparece com um narrador que reforça repetidas vezes o que o espectador já viu e compreendeu).

Totalmente Inocente é uma paródia do Tropa de Elite e do filme Cidade de Deus e, de alguma forma é uma homenagem aos ‘favelas movies. O destaque vai para Kiko Mascarenhas no papel da Diaba Loura, engraçado e totalmente transvestido, ele faz o filme valer a pena. Porchat também está muito bom, mas não em seu melhor momento: Porta dos Fundos é a comprovaçã básica de que ele sabe fazer humor de uma forma melhor (beeeem melhor).

vai-que-da-certo-460O terceiro filme tem um ‘mérito’ que os outros não tem: é um sucesso de publico e de crítica. Vai que dá certo, produção de 2013, dirigido por Maurício Farias, tem a cara da Globo, aliás, é uma produção da Globo Filmes (e talvez por isso, carregue a mesma plasticidade da TV). A história: Cinco amigos de adolescência se reencontram e percebem que não alcançaram o sucesso planejado, então decidem assaltar uma transportadora de valores. O elenco é bom (Bruno Mazzeo, Danton Mello, Fábio Porchat, Felipe Abib, Gregório Duvivier, Lúcio Mauro Filho e Natália Lage), a história é interessante, mas o filme fica no meio caminho entre o ‘mais ou menos’ e o razoável.

Fico decepcionada quando bons atores não podem aproveitar seu potencial. Exemplo disso é Gregório Duvivier que no filme, interpreta um rapaz bobo, que só se interessa por videogame. Ironicamente, ele é um dos personagens mais engraçados do filme, graças é claro, a Duvivier. A trama tem várias reviravoltas mas te deixa desestimulado. Esse é um filme para passar o tempo e para ver uma só vez.

Com uma forte publicidade e distribuição, Vai que dá certo insipira-se em um sucesso americano: Se beber não case. A produção foi contextualizada para o Brasil, mas os mesmos dispositivos narrativos podem ser encontrados. O personagem de Duvivier, por exemplo, assemelha-se muito ao que Zach Galifianankis faz com o personagem Alan: se envolve em problemas que atrapalham os planos dos amigos.

Personagens superficiais, produção comercial escancarada. Aliás, os atores do Porta dos Fundos é um chamativo. Na trama, os dois possuem papéis pequenos e apesar de coadjuvantes, roubam a cena.

In Treatment: Paul e Gina

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“Um psicanalista, cinco casos, uma sessão por noite.”

A série: In Treatment é uma série da HBO baseada em uma produção da TV Israelense, BeTipul. Produzida por Mark Whalberg e roteirizada por Rodrigo García (filho do escritor Gabriel García Márquez), foi exibida em 43 episódios de janeiro a março de 2008. Em In Treatment acompanhamos o trabalho do psicanalista Paul Weston (Gabriel Byrne) que está passando por uma séria crise. Weston não tolera mais o seu trabalho e é atormentado por diversos questionamentos sobre suas habilidades como terapeuta. Ele busca ajuda na sua amiga e antiga professora Gina, a qual não vê há anos. Cada episódio centra-se em um paciente.

“Segunda é dia de atender Laura, uma bela anestesista que atravessa uma imensa crise emocional e não sabe se termina com o namorado ou casa com ele. As terças, ele atende Alex, um piloto arrogante que participou de uma missão caótica no Iraque, quase morreu por lá e acha que isto não o afeta. Quarta é a vez de Sophie, uma ginasta que, depois de sofrer um acidente, quer que Paul analise seu estado e ateste que ela está bem para manter sua classificação na equipe olímpica. Nas quintas, o psicanalista recebe Jake e Amy, um casal que atravessa uma crise. Jake tem verdadeiros ataques de raiva e, quando Amy não lhe conta o que faz, ele imagina o pior. Mas Weston vem se tornando intolerante e suas reações podem afetar sua carreira. Por isso, às sextas é ele quem vai para o divã e faz terapia com Gina (Diane Wiest).”

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Paul e Gina, 1ª Temporada: A relação entre Paul e Gina é a que mais me interessa na série, primeiro é claro, porque traz Dianne Wiest em um papel incrível e segundo porque é o momento em que o espectador pode entender o ponto de vista de Paul sobre os seus pacientes. Gina foi professora de Paul na faculdade, ela realizou durante anos o trabalho de supervisão de Weston e também foi sua terapeuta. De repente, Paul decidiu interromper suas sessões e deixou de encontrá-la. Passaram-se oito anos desde então. Paul resolveu procurar Gina porque está sofrendo ataques de raiva e intolerância com seus pacientes. Em uma das sessões de Jake e Amy, por exemplo, Paul é questionado pelo casal se deveriam seguir a gravidez ou fazer um aborto. Em resposta, Paul afirma com agressividade que deveriam fazer um aborto, contrariando assim um dos princípios da psicoterapia: não influenciar as decisões dos pacientes.

Paul liga para Gina e marca um horário, quando chega a seu escritório, senta-se em sua cadeira e Gina pede que ele se levante: “essa cadeira é minha”. Há uma deliciosa brincadeira para enganar o espectador: em princípio, como não sabemos quem é Gina, pensamos que ela é uma das pacientes. Gina repete inúmeras vezes que está aposentada e que agora dedica seu trabalho para escrever um livro, portanto não lhe parece muito claro qual é a intenção da visita de Paul. Ironicamente, nem ele mesmo parece saber, mas o que ele deixa evidente é que precisa de ajuda. Gina relembra a última vez que viu Paul, ele estava com tanta raiva que não voltou mais, nem mesmo para o funeral do seu marido, David. Já no primeiro encontro, os dois se desentendem. Paul relata as dificuldades que está encontrando com os pacientes, uma delas: Laura.

Paul descreve Laura como uma ninfomaníaca que constantemente, diz que está apaixonada por ele. De imediato, Gina entende o que se passa e pede para que Paul se afaste dela. Ela pergunta se os dois já tiveram algum contato físico e Paul se ofende, dizendo que sabe perfeitamente que essa é uma barreira eticamente intransponível. Com raiva, Paul xinga Gina, dizendo que ela está tão preocupada com suas teorias que não está escutando o que ele tem a dizer. Em contrapartida, Gina diz que é muito comum diagnosticar casos de transferência erótica em terapeutas que passam por transtornos em seus casamentos (ou seja, terapeutas que se apaixonam pelo paciente). Paul sente-se ofendido e questiona as habilidades de Gina como terapeuta, ela também fica com raiva e diz que não sabe o que ele está fazendo ali: “você quer ajuda mas eu sinto que estou falhando, não sei se você quer uma direção, um conselho de amiga ou de uma colega”. Esse tipo de discussão entre os dois volta a se repetir inúmeras vezes, mas em cada uma delas, descobrimos um pouco mais da relação dos dois.

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Paul irrita-se toda vez que Gina sugere que ele esteja apaixonado por sua paciente. Gina pede que Paul transfira Laura para outro terapeuta e ele diz que só o faria se ela a atendesse. Gina se nega. Com raiva, Paul desenterra o caso de Charlie, um antigo paciente de Gina. “Se me lembro bem você já passou pela mesma situação. Talvez, isso não seja sobre meu pai, mas seja sobre você Gina. Não se esqueça que fui eu que indiquei o Charlie para você. Lembro de ele ter me ligado depois de uma das suas seções e confessou que estava apaixonado por você. Foi mais longe, disse que vocês estavam apaixonados um pelo outro, mas você  não enfrentou isso, você fugiu para a Inglaterra”.

Gina diz que quando Paul sugere passar seus pacientes para ela, inconscientemente quer passar os seus problemas para ela, quer que ela encontre uma solução.  Metaforicamente, em cada sessão, Paul descreve seus pacientes para Gina, como se fosse possível chegar um dia e dizer “Toma, eles são seus agora”. Depois de muito insistir, Gina consegue que Paul confesse sua paixão por Laura. Confuso, ele usa como metáfora a relação de um ginecologista e sua paciente. Para Paul, o ginecologista precisa ter uma enfermeira por perto para garantir que ele não passe dos limites, Gina é sua enfermeira. Com uma dose de bom senso, Gina diz que a relação de um ginecologista com sua paciente é muito mais complicada e que essa não é uma comparação correta. Ele então sugere: O namoro entre um professor e um aluno. Ela reforça: são situações diferentes. Um psicoterapeuta não pode se relacionar com seu paciente, é antiético. “O paciente está completamente desprovido de uma situação emocional equilibrada e o terapeuta sabe muito bem quais portas usar para se aproveitar disso.”

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Durante alguns episódios eu fiquei tentando entender porque Paul age com tanta agressividade quando está com Gina. Em um episódio ele a chama de aranha sonolenta, fria e que não se importa com seus pacientes. Ele então relembra de uma carta. Paul concorria para ser o presidente do Instituto, mas precisava da aprovação da terapeuta. Gina escreveu uma carta (que Paul guardou durante meses no bolso), onde ela dizia que ele não estava preparado para assumir o cargo. Paul conta que nunca esqueceu o que foi dito por ela: “Os pacientes consideravam positivas, suas sessões com o Paul. Contudo, tornou-se claro que Paul alimentava às suas expectativas. E sua forma de fazer terapia é errada, por causa de seu desejo de agradar…”

Por fim, há um momento muito delicado entre os dois que deve ser relembrado. Paul praticamente “joga” na cara de Gina o caso de Charlie. Ele estava apaixonado por ela e ligava para o amigo todos os dias dizendo que não conseguia entender porque Gina não o correspondia. Finalmente, Gina responde Paul à altura. “Depois de todos esses anos você não me conhece.” Gina conta que é uma mulher extremamente emocional e por isso se controla em relação aos pacientes. Ela diz que estava apaixonada por Charlie e por muitas vezes, chegou a afirmar para ele que não podia se relacionar, pois ele era seu paciente. Então, Gina revela que não era isso que a prendia. Seu amor por David era muito maior, ela queria ser a “Gina do David” e não abria mão disso. Ela sabia que David a traia e mesmo assim, escolheu ser fiel a ele. No seu enterro, Gina pensou: “eu o escolheria de novo, de novo e de novo…”

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Normalmente alteramos nossas memórias, elas podem ser muito enganadoras. Gostaríamos de pensar que as memórias estão no passado, mas toda vez que puxamos uma cena acrescentamos algo mais antes de colocar no lugar. Se odiamos nosso marido agora, lembramos do nosso casamento como uma data menos feliz. Constantemente alteramos nossa memória para que o passado não entre em conflito com o nosso presente.

In Treatment: Paul e Gina

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Paul e Gina, 2ª Temporada: Na segunda temporada, o surgimento de Paul no escritório de Gina é tão inesperado quanto na primeira. Mas dessa vez, o enfoque da relação dos dois está ainda mais interessante. Paul surge pedindo que Gina aceite depor em seu favor. Um de seus pacientes cometeu suicídio e ele foi processado por negligência. Na verdade, o processo é um grande risco para Paul: caso seja julgado como culpado precisará pagar uma fortuna e ainda, perde a licença. Ele afirma diversas vezes que está cansado dos pacientes e que não quer continuar com o trabalho. Seus questionamentos são diretamente jogados sobre Gina, como se ele buscasse nela, a solução para os seus problemas. Os diálogos, como na primeira temporada, são carregados de um coloquialismo muito interessante que reforça a ideia de familiaridade entre os dois. Além disso, o clima fica ainda mais empolgante com o encontro de Paul com Tammy Kent. (Tammy foi uma antiga namorada de Paul e “coincidentemente” é paciente de Gina).

O livro de Gina foi um sucesso de crítica, mas Paul afirma que ainda não está preparado para lê-lo. O primeiro encontro dos dois é apenas amigável e mesmo assim, Paul volta a questiona-la sobre a psicologia. “Você não se cansa de escutar as pessoas?” Sua presença naquela sala, como diria momentos depois continua sendo um pedido de ajuda (ainda que repleto de arrogância). Paul revela que sua vida é um grande caos (está se separando da mulher, tem problemas com os pais e quer largar à carreira). Há uma extensa reflexão sobre a temporada anterior: Paul afirma que não entende como se deixou cegar de amor por uma paciente (Laura) e de alguma forma, se permitiu ultrapassar as barreira éticas da profissão (o que Gina ‘religiosamente’ chamava de essência).

A segunda temporada expõe discussões muito mais interessantes e é impossível não prender a atenção em cada episódio. Um conhecido meu, que inclusive indicou a série, disse uma coisa certíssima: os diálogos são à base da produção inteira e talvez, por isso, temos a impressão de ser um programa lento. Na verdade, In Treatment não é uma série pra qualquer um: as cenas são carregadas de diálogos e reflexões complexas sobre a vida, sobre a família, sobre a morte, etc…

Em um dos episódios, Paul está completamente desnorteado porque não sabe o que fazer com o pai doente. Suas lembranças o fazem recordar das diversas crises nervosas da mãe, que era bipolar. Enquanto Paul via sua mãe definhar emocionalmente, seu pai (que era médico) se encontrava com outras mulheres.  A dor reprimida pelo personagem quase transborda em seus diálogos. Ele se nega a visitar o pai, com medo de ser rejeitado novamente. Gina percebe claramente que Paul transfere esse medo para os filhos: ele teme não ser um bom pai.

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Paul: Eu sinto ódio dele.
Gina: O seu ódio nasceu para você se proteger da rejeição. Você não tinha escolha, ele era o único que tinha escolha dentro daquela casa.
 

O pai de Paul falece e todo o sentimento sobre o passado vem à tona. Com muita raiva, Paul se lembra de sua ausência e de seu descomprometimento com a família. Ele começa a se questionar se o amor que o pai tinha por ele era verdadeiro. Sabiamente, Gina o faz pensar sobre o outro lado da moeda. Um médico que não consegue curar a própria mulher percebe seu fracasso e acaba refugiando-se em outras coisas. “A morte deixa muitas perguntas sem respostas, ninguém nasceu pronto para ser pai”. Paul começa a destruir o muro sobre seus sentimentos, confessa que pediu perdão ao pai antes de vê-lo morrer. Gina então tem uma reflexão belíssima. Ela afirma: “Uma das coisas mais confusas em problemas emocionais em uma família é que pode parecer injusta e aleatória. Como um acidente em uma estrada. Todos estão no carro, mas você foi o único que atravessou o vidro”.

 Meu pai me amava, então ele fez o que pode?
-Não, seu pai te amava e ele fez o que fez… E você o amou e o odiou porque ele te ignorou. Não se pode racionalizar o amor.
 
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Na segunda temporada há também um momento marcante. Apesar das inúmeras ofensas que escuta de Paul, Gina sempre se porta com elegância e paciência. Só há um momento em que ela não consegue se segurar e acaba discutindo com ele. Paul volta a repetir que Gina é uma mulher fria, que não se preocupa com os pacientes e que não dá a mínima para o que eles estão sentindo. Ele a acusa de ser uma psicoterapeuta ortodoxa que julga seus pacientes ao invés de ajudá-los. Gina não aguenta a pressão e finalmente diz o que realmente acha de Paul. Depois de chama-lo de idiota e de “pé-no-saco”, Gina revela que a terapia dele avançou muito pouco e que seu trabalho tem interferido no seu comportamento. Por fim, conclui que Paul quer que Gina faça o papel de pai (autoritária), que Gina o rejeite para que ele possa se sentir inocente e que ela diga quem ele é e o que fazer. “Você vem aqui toda semana e despeja em mim as mesmas porcarias de sempre.’

O último encontro do dois é de uma sutileza muito grande. O episódio inicia-se com Gina lendo uma carta onde Paul renuncia a profissão e assume sua responsabilidade sobre a morte do paciente. Ela guarda a carta na gaveta e tranca como garantia de que aquelas afirmações nunca sejam publicadas. No encontro, Paul relembra os tempos de faculdade, quando ele e os colegas estavam apaixonados por Gina. Eles queriam saber onde ela morava, se era casada e se tinha filhos. Um dia, Paul encontrou Gina e seu marido em um restaurante e ficou se perguntando porque ela estava casada com ele.  Os dois se lembram de como brigavam na sala de aula. “Você discutia sobre tudo o que eu falava”, “Sim, mas você nos fazia discutir, essa era a sua técnica”. Depois de insistir muito, Paul descobre que Gina tem um encontro, que ela está tentando recomeçar.

 
Paul: Você é uma excelente terapeuta Gina, eu não sobreviveria sem você.
Gina: Obrigada. Paul, esta seria a hora em que eu deveria dizer: ‘A minha porta está sempre aberta’, mas eu não vou dizer isso.
Paul: Eu entendo…

Dolores Claiborne

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Dolores é um nome que vem do latim e significa dor/lamentações. Foi esse que Stephen King escolheu para o personagem vivido por Kathy Bates em “Eclipse total”, filme de 1995, dirigido por Taylor Hackford. King ficou tão impressionado com a atuação de Kathy Bates em “Louca Obsessão”, que escreveu o livro tendo a atriz em mente. Não há como uma obra dessa profundidade dramática passar despercebida. O filme traz um forte time de atores (entre eles: Jennifer Jason Leigh, Judy Parfitt e Christopher Plummer) envolvidos em uma trama muito bem elaborada e de uma destreza técnica admirável.

Dolores Claiborne é uma empregada doméstica que trabalha para Vera Donovan (uma senhora extremamente rica e detestável). Um dia, Vera é encontrada morta na escada de casa e Dolores é considerada a principal suspeita. Sua filha, a jornalista Selena Claiborne (Jennifer Jason Leigh), retorna a pequena cidade para tentar ajudar a mãe. O problema é que Dolores já havia se envolvido com um assassinato há quinze anos antes e a volta da filha a cidade traz lembranças e revelações drásticas.

Em princípio, Dolores parece uma mulher detestável, que vive em uma casa suja e escura e está totalmente desnorteada. Selena, por outro lado, não é apenas jovem e bonita: é uma mulher bem sucedida e extremamente equilibrada. Quando as duas se encontram na delegacia (onde Dolores não reconhece a filha, já que não a encontra há anos) a narrativa se inverte. Apesar da velhice e do descuido, Dolores é uma mulher lúcida e sabe perfeitamente os riscos que corre se for julgada culpada pela morte da patroa. Selena, por outro lado mostra um completo desconforto por estar naquele lugar e principalmente, por estar perto da mãe. Dolores-Claiborne

É dentro da casa suja e escura que entendemos todo o passado que assombra Dolores. Suas memórias são confidenciadas aos poucos ao espectador que, de alguma forma, é conquistado por aquela mulher tão sofredora. Através da sua percepção, descobrimos que Dolores apanhava do marido e era constantemente humilhada por ele. Ela relembra que recebeu uma paulada nas costas do homem completamente bêbado. Sua dor física e moral eram tão grandes que Dolores resolveu findar todo aquele pesadelo: prometeu ao marido que se a cena se repetisse, um dos dois morreria.

É também através de suas memórias que entendemos porque ficou tanto tempo exercendo um trabalho exaustivo. Vera, sua patroa, tinha manias que nem mesmo sabia explicar. Dolores precisava lavar os lençóis todos os dias e pendurá-los em um varal distante da casa. Além da limpeza dos móveis e do chão, tinha que dar conta da comida. O mísero dinheiro que juntava seria usado para fugir da cidade com a filha.

Dolores iria fugir no dia do eclipse, em sua percepção, as pessoas estariam distraídas e não iriam sentir sua falta.  Mas algo dá errado e ela se vê presa naquela lugar pelo resto da vida. Ainda resistente, Dolores (que havia perdido o marido recentemente), continua trabalhando para Vera com o objetivo de financiar os estudos da filha, longe daquele lugar.

Dolores Claiborne - Kathy Bates

Eclipse Total não é um filme que se limita a um pequeno suspense sobre assassinatos. É, para além do que nos apresenta inicialmente, um drama sobre dor, solidão, tristeza e arrependimento.  Porque Selena foi embora? Porque ela se sente tão mal perto da mãe?  Conforme Dolores se lembra, Selena foi uma das testemunhas dos maus tratos que sofria do marido. Então, porque sente tanta admiração pelo pai? O filme nos responde a todos esses questionamentos e de maneira sensível, nos mostra como é difícil lidar com um passado obscuro.

Há uma cena belíssima que Selena olha para as mãos machucadas da mãe e pergunta: o que você fez com a sua mão? E Dolores responde: Se você quer saber como é a vida da pessoa, é só olhar para a mão dela.

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