Festa no Covil

Eu sei que o ano está praticamente na metade, mas vou dizendo logo de cara que 2015 é o meu ano literário. Estou lendo muito e de tudo o que vocês podem imaginar (ainda mais agora, que estou morando perto de uma biblioteca absurdamente gigante!). Logo na minha primeira visita à biblioteca, sentei e li umlivro sensacional (pequenino, de apenas 88 páginas), que me lembrou muito a narrativa de ‘O Caderno Rosa de Lori Lambi”, da Hilda Hilst. Trata-se de “Festa no Covil”, do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos.

2015-05-07 15.40.31Então, o ‘Caderno Rosa de Lori’ é um diário de uma garotinha de oito anos, lembram? Pois, Festa no Covil tem praticamente a mesma essência: um menino chamado Tochtli é filho de um dos chefões do narcotráfico mexicano, Youcaut. Na narrativa, ele conta como é a sua vida abastada em um palácio, cercada de adultos- com muito conforto e solidão. Um dos desejos recentes de Tochtli é ter em seu minizoológico um hipopótamo anão da Libéria… e ele insiste muito nessa ideia (durante todo o livro).

Citação:

“Algumas pessoas dizem que eu sou precoce. Dizem isso principalmente porque pensam que sou pequeno para saber palavras difíceis. Algumas das palavras difíceis que sei são: sórdido, nefasto, pulcro, patético e fulminante. Na verdade não são muitas pessoas que dizem que sou precoce. O problema é que não conheço muita gente. Conheço no máximo umas 13 ou 14, e quatro delas dizem que sou precoce. Dizem que eu pareço mais velho ou o contrário, que sou muito novo para essas coisas. Ou o contrário, às vezes pensam que sou um anão.”

A narrativa, cheia de ironias e com muito humor negro, é também obscura. O menino, ainda inocente, conta como convive com a violência como algo natural… ele relata, por exemplo, as torturas que o seu pai comete constantemente contra suas vítimas. Em seus relatos, ele também conta que estuda em casa e revela que cresceu sem a presença da mãe.

Lendo um pouco da introdução, descobri que o que Villalobos faz é um pouco de ‘experimentalismo’ de um gênero muito popular na América Latina chamado: “Pulp/Narcoliteratura”, que fala e denuncia a violência, a corrupção e a marginalização.

Enfim, um livro delicioso…

 “Sinistro e doce como uma caveira de açúcar”


2015-05-07 15.41.20

Fulaninha e Dona Coisa

  • P.S. Este texto é apenas uma notinha, escrita durante a madrugada…

lupa-0

“Você! Você é essa pessoa que vive sob o mesmo teto que eu, e eu nem sei, de verdade, quem é…”

Nos últimos dias eu fiquei cismada em ler teatro. Isso por causa do último livro que li, “Toda nudez será castigada”, de Nelson Rodrigues e achei incrível! Estava passeando pela biblioteca quando vislumbrei um exemplar da coleção ‘Aplauso Teatro Brasil’, com peças escritas por Noemi Marinho. E, olha…tantas vezes a vi em novelas e nunca imaginei que fosse também escritora e com uma bagagem invejável (formada pela USP em arte dramática, autora de Homless, Cor de Chá… escreveu para programas televisivos como ‘Brava Gente’, ‘Sai de Baixo’ etc).

NoemimarinhoComo eu tinha que ir a um curso logo depois, só tive tempo de ler uma das peças… exatamente uma da qual já tinha escutado falar (por causa da Eliete Cigaarini) e que há muito queria assistí-la. “Fulaninha e Dona Coisa”! (que, por sinal, é a peça mais encenada da autora, escrita em 1988).

A trama conta a relação conflituosa entre uma patroa e sua empregada, duas mulheres com contextos e desejos tão distintos… Dona Coisa é cosmopolita, bem sucedida e Fulaninha, uma mulher do interior, sem dinheiro nem família. O texto tem uma pegada humorística, e explora principalmente a inexperiência da empregada – de origem humilde, aprendendo a viver na cidade grande. (Já assistiram Unbreakable Kimmy Schmidt? Então, meio parecido).

Mesmo com o humor característico, algumas passagens chamam atenção… como a solidão da Dona Coisa e a relação de abuso e dependência entre as duas, uma relação retratada de uma forma que continua atual…. essa luta de classes e a discrepância social. Acho que a Fulaninha merece ser revisitada, relida… não sei, mas já não vejo mais a imagem da empregada como aquela que não sabe nem atender o telefone ou que lava as roupas na piscina por engano.

(Outra pegada genial é o fato de que nenhuma das duas personagens possuem nome)


fulaninha e dona coisa 2015-05-19 18.46.49