Hasta no verte Jesus mio

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“Esta é a terceira vez que regresso à Terra, mas nunca sofri tanto quanto nessa reencarnação, já que na vida anterior fui rainha.”

Descobri Elena Poniatowska quando me mudei para São Paulo, um de seus livros foi o primeiro que li quando fiz a minha carteirinha na biblioteca pública. Foi paixão a primeira vista, ou a primeira lida. Pra falar a verdade, já tinha ouvido sobre ela em uma entrevista da Daniela Romo, que dizia gostar da sua narrativa. Na época não dei muita atenção até realmente pesquisar sobre a autora, ver suas entrevistas e ler seus livros. Comecei por Hasta no verte Jesus mío, escrito em 1969. Trata-se da história de Jesusa, uma mulher que cresceu e viveu em um ambiente de pobreza, que sofreu inúmeros abusos e proibições (principalmente do pai e do marido) e que mesmo assim, não deixou de se rebelar contra as injustiças sofridas por ela e por seu povo oaxaqueño – isso tudo durante o Porfiriato.

O livro de Poniatowska é um marco na literatura mexicana porque rompe com o oficialismo e apresenta uma narrativa alternativa através de um discurso bastante feminino. É uma obra que presa pela memória e dá a voz representativa, através de um personagem, à uma multidão marginalizada (sofrida, mas não resignada). Gosto especialmente do humor negro, do trabalho respeitoso da autora às tradições e as crenças populares.

Jesusa nasceu e viveu na pobreza, a mãe morreu pouco tempo depois de seu nascimento, ela trabalhou em diversas funções para garantir sua sobrevivência, casou-se sem ter uma paixão fervorosa pelo noivo, sofreu abusos físicos e psicológicos, perdeu-se do marido em plena Revolução Mexicana, falava com mortos e acima de tudo, tinha uma rudeza que mesclava a ignorância com a sabedoria, por exemplo… ela passava horas se ensaboando no rio e se raspando com areia: “E mesmo que estivesse doendo, a questão é que eu precisava matar o microbio”

A amizade entre autora e a personagem

O que mais me encantou na obra não foi só a trama, a narrativa ou a personagem com visível tom feminista. Acontece que além de ser baseada em uma história verídica, trata-se de uma relação de confiança e amizade entre entrevistador e entrevistado. Bom…Poniatowska nasceu em Paris, mas foi naturalizada no México. Começou a trabalhar como jornalista em 1955, entrevistou grandes nomes da figura política e cultural da América Latina. Em 1962 foi assistente do antropólogo Oscar Lewis, que lhe chamou atenção para o jornalismo testimonial (o que ao meu ver, está muito próximo do conceito de novo jornalismo). Foi daí que surgiu a ideia para escrever “Hasta no verte Jesus mío”,

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Um dia Elena estava em uma lavanderia e escutou Josefina Bórquez, que ao que parece, reclamava de alguma coisa… mas com muita sabedoria. A jornalista ficou encantada com a sua linguagem, com seu sotaque e se aproximou. Assim deu início à um trabalho de testemunho, em que visitava Josefina semanalmente para tomar notas de suas histórias, de suas memórias, de suas piadas e crenças.

Elena, que em 2013 recebeu o prêmio Cervantes, deu uma entrevista à CBN e comentou sobre Josefina: “Ela me marcou muito, por ser uma pessoa de caráter e dignidade. Me encantou assim que a vi, assim que conversei com ela. Quando fazia as visitas ela me dizia: você está roubando a minha luz, então vai ter que pagar!. Isso porque eu usava um gravador enorme. Ela era muito valente e me marcou muito, se todos os mexicanos fossem como essa mulher, uma mulher de verdade, estaríamos salvos”

Junior

ArnoldDos tempos da minha infância, Junior era um dos filmes mais gostosos que eu assistia, daqueles que deixava uma sensação boa e um leve sorriso no canto dos lábios. Lembro que passava nas noites de sábado no SBT e eu dava pulos de alegria quando era anunciado. Quando a gente é criança é fácil acreditar em qualquer coisa, portanto me parecia muito plausível a história de um homem grávido.

Na época eu  eu desconhecia a concepção de gênero e de identidade, mas hoje percebo que o filme trazia essa discussão à tona. Na história, Arnold Schwarzenegger formava com Danny DeVito uma dupla de pesquisadores que desenvolveram um remédio que auxiliava mulheres na gravidez. O projeto dos dois é interrompido e então, eles decidem roubar um óvulo, implantar na barriga do Dr Hasse ( Schwarzenegger) como teste. O improvável acontece e Dr Hasse engravida. Daí uma série de situações cômicas e inimagináveis começam a acontecer, Dr Hasse sente-se mais sensível, come mais, sente contrações – e toda aqueles sintomas de uma mulher grávida. O grande problema é que o óbuloque eles roubaram era da Dr. Diana, interpretada pela linda e maravilhosa Emma Thompson.

JUNIOR, Arnold Schwarzenegger, 1994, holding a test tube

O filme, produzido em 1994, foi uma tentativa de reproduzir o sucesso de Irmãos Gêmeos, onde Arnold e Dany atuavam como irmãos – e que convenhamos, é um clássico. É engraçado porque enquanto muitos possuem na memória a lembrança de Arnold como o “Exterminador do Futuro”, eu sempre ligo a imagem dele à de um homem grávido.  Não sei se a maioria pensa assim, mas acho que ele é muito bom em comédias e faz seu “para casa” direitinho. Em Junior, por exemplo, ele frequentou salas de espera (de ginecologistas, acredito eu), para ver qual era o comportamento das mulheres grávidas. Bacana, né?

Doidas Demais

Um breve resumo da comemoração do meu aniversário de 14 anos = Goldie Hawn + Susan Sarandon.

Banger_sistersBom, é que no meu aniversário de 14 anos pedi que minha mãe me levasse ao cinema. Eu não fazia ideia que “Doidas demais” estava em cartaz, aliás, nem sabia da existência desse filme. Mas aí, chego lá e vejo um poster enorme e começo a tremer as pernas. Lembro que a classificação era de 16 anos e minha mãe deu um jeito de fazer com que eu entrasse para assistir. Aliás, lembro que ela dormiu o filme inteiro.

A história é bem fraquinha, mas dá pra divertir um pouco. Acho que é por isso que gostei tanto do filme naquela época e nem me liguei na quantidade de piadas de sacanagem que tem. Só lembro que eu saí do cinema com a sensação de que aquele tinha sido o melhor dia da minha vida. Nossa, eu fiquei tão feliz!

A Goldie Hawn é uma graça, sério! É incrível como ela carrega o filme nas costas e praticamente rouba a cena de todo mundo. Particularmente, achei o personagem do Geoffrey Rush um pouco desnecessário e chato, ainda que ele seja uma peça para ligar certos pontos da trama e contribui para a criação de um pequeno suspense.

THE BANGER SISTERS, from left: Susan Sarandon, Goldie Hawn, 2002, © Fox Searchlight
THE BANGER SISTERS, from left: Susan Sarandon, Goldie Hawn, 2002, © Fox Searchlight

Sobre o filme…

Suzette (Goldie) e Lavinia (Susan) eram duas amigas aventureiras que na década de sessenta colecionavam fotografias “bem comprometedoras” de astros do rock. A presença das duas nos shows e as loucuras que cometiam as fizeram ser apelidadas de “The Banger Sisters” (termo que, segundo o Google, está relacionado com “Headbanger”, uma palavra usada para designar a subcultura de fãs de heavy metal e suas variantes).

Passaram-se vinte anos e a vida das duas tomou rumos bem diferentes: enquanto Suzette continuava a levar uma rotina louca e sem rumo, Lavínia se tornou uma dona de casa chique e blasé.  Suzette precisa de dinheiro e recorre a amiga, mas quando a encontra, fica chocada com a sua mudança.


Ah! E dêem uma olhada no meu diário de quando eu tinha quatorze anos, eu já gostava de fazer listas, já era apaixonada pela Susan Sarandon e amava assistir o Oscar.

Thaís DiárioThais

sobre Susan Sarandon e Os últimos passos de um homem

Ontem eu fui dormir pensando no quanto eu gostava da Susan Sarandon e como essa admiração foi perdendo o fôlego ao longo dos anos. Ainda guardo muito carinho por ela e sempre que posso me dedico a assistir seus filmes e me atualizar sobre o que ela tem feito. Eu não saberia explicar o que mudou, mas, diferente de antes, já não sinto aquela fixação que me fazia comprar seus filmes, pesquisar sobre os seus projetos, colecionar gravuras e todas aquelas coisas que os fãs fazem.

Susan protagonizou muitos dos filmes que eu assistia quando criança, e nem todos eram infantis – na verdade, a maioria esmagadora era composta por filmes dramáticos. Talvez o que mais me emocionou, ou… me marcou, foi “Os últimos passos de um homem”, em que Sarandon interpreta a freira Helen Prejean, que tenta salvar da pena de morte, Mathew Poncelet, interpretado por Sean Penn. 

os últimos passos

Vou confessar que eu tinha medo do Sean Penn, e naquela época eu só tinha olhos para a Susan.  Seu personagem era bruto, grosseiro e acima de tudo, tinha cometido um crime assustador e violento. Hoje, revendo o filme, fico encantada com a grandiosa interpretação dos dois, e  também muito encantada com a direção do Tim Robbins, que por sinal… roteirizou e produziu o filme.  Aliás, na época, Susan e Tim eram casados.

Bom, o filme é baseado em uma história real e é compreensível que tenha levantado tanta polêmica. Não sei se alguém iria discordar, mas neste filme existe um claro posicionamento contra a pena de morte. O interessante, e talvez uma das coisas que me faz apaixonada pela Susan é que ela sempre foi muito politizada e leva isso para a sua vida real. Ela mergulha nosimages seus personagens, nas suas histórias e nas suas ideologias.

O caso é que “Os últimos passos” é uma daqueles filmes que tocam na ferida da sociedade e retratam a complexidade dos valores humanos. Que deixa exposto e quase grita que precisamos evoluir, e muito. E que encontrar um caminho certo é realmente muito difícil (talvez, impossível).

Eu sempre assisti esse filme me colocando no lugar da família dos jovens que foram assassinados. Não sei se vocês já viram esse filme, mas, acho que deveriam… pelo menos para ter uma noção do que estou falando. A cena em que a Helen visita os pais da moça estrupada é  de cortar o coração e é imensamente compreensível a raiva, o ódio, que eles possuem em relação ao assassino. Por outro lado, o que pesa no argumento da Irmã Helen e nos faz ter compaixão por Mathew é a força, a sinceridade do seu arrependimento e a importância do perdão. 

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Esse filme possui três momentos que fazem a minha espinha gelar.. a primeira é a cena em que nos é revelado o assassinato, a forma em que os jovens morreram e como foram covardemente violentados. A segunda é quando Mathew está caminhando para a sua execução, o ênfase em suas pernas tremendo e a explicação de como será a sua morte. Ele vai caminhando e é acompanhado por Helen que lê a Bíblia para ele.

Pena de Morte

“Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu.
Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.”
Isaías 43:1,2

E por último a cena em que eles se olham pelo vidro e ela diz: ‘Eu te amo”. Bom, está claro que não é uma afirmação com conotação sexual. É uma afirmação que pode ser facilmente explicada por uma música que faz parte da trilha sonora do filme, que aliás, é incrível… gente, não tenho como definir o quanto essa trilha sonora é maravilhosa:

Look in the eyes
Of the face of love
Look in her eyes
Oh, there is peace
No, nothing dies
Within pure light

sobre a 3ª temporada de Orange is the new Black

Terminei de assistir a terceira temporada de “Orange is the New Black” três dias depois da estréia. Isso é porque eu sou uma pessoa extremamente ansiosa e muito desocupada. Depois que terminou,  bateu aquele desespero… só de saber que falta um ano para os próximos capítulos. Engraçado, porque no ano passado fiz exatamente a mesma coisa, um sentimento louco, muito bem resumido na imagem a seguir:

Crédito: Dias de Cinefilia
Crédito: Dias de Cinefilia

Particularmente, achei a temporada fraca se comparada com as outras duas. Não sei, senti falta de um gancho. Mas, eu sou suspeita para falar porque sou fã de carteirinha e sou apaixonada por essa história. Reparei que as antagonistas ganharam mais espaço, tiveram suas histórias desenvolvidas, aliás, essa temporada parece ter uma pegada mais dramática do que as outras. Ou então… eu estou muito sensível, porque eu, definitivamente, chorei mais do que ri.

OITNBComecei a gostar menos da Piper e mais da Alex. Foi possível ver um lado mais doce e humano da Alex e agora é difícil não torcer por ela. A Red e a Crazy Eyes são as minhas favoritas, eu realmente adoro tudo o que elas fazem. Queria que o novo lance da Red tivesse se desenvolvido melhor, talvez que ela pelo menos tivesse trocado uns beijinhos. E a Crazy Eyes…  Ah! Muito amor ♡. Eu tô falando assim, meio por cima, porque não quero soltar spoiler…

Fico muito feliz com o sucesso dessa série, com o fato de trazer aos olhos do público um elenco incrível de atrizes, boas atrizes, que fogem do esteriótipo.  Por dar visibilidade a problemas femininos (maternidade, beleza, carreira…) com muito respeito e com senso de realidade, com verossimilhança.  Ah! E temos a Ruby Rose né moçada? Que é um deleite para os olhos e um figura mundialmente conhecida por colocar em discussão a fluidez de gênero.  Ainda sobre a Ruby, vale dar uma olhada nesse clipe:

O Clube das Desquitadas

ClubedasDesquitadasSe eu fizesse uma lista com filmes a indicar para todas as minhas amigas, “O Clube das Desquitadas” estaria nela – na segunda posição. Antes só viria Thelma e Louise. Eu perdi as contas de quantas as vezes eu assisti esse filme e acho que não sei explicar a sensação boa que tenho quando o assisto. Tenho ele em dvd e é uma das minhas preciosidades. Existem muitos aspectos que me fazem gostar de “O Clube das Desquitadas” a começar por cinco das minhas atrizes favoritas: Goldie Hawn, Bette Midler, Diane Keaton, Stockard Channing e Maggie Smith.  – E sim, eu tenho muitas atrizes favoritas.

É incrível como elas possuem uma sintonia e como conseguem fazer histórias dramáticas parecerem tão engraçadas. Aliás, este é um mérito de quem concebeu a trama, fazer o público rir, mesmo diante de histórias tão tristes.  Hoje, estudando um pouco sobre a construção de arquétipos, vejo que esse filme tem tanto equilíbrio, exatamente por causa da boa construção dos personagens. Acho que no fundo, toda mulher (e talvez, todos os homens) possuem um pouco de cada uma das protagonistas.

Para quem nunca assistiu, acho que vale um breve resumo. Trata-se da história de stockard-channing-firstwivesclub-5quatro amigas que, na juventude, estudaram juntas. Anos depois, uma das amigas (a Cynthia) comete suicídio. No velório, Elise, Brenda e Annie se reencontram e descobrem que a vida de cada uma delas tomou rumos bem diferentes. No entanto, as quatro possuem algo em comum: foram traídas ou abandonadas por seus respectivos maridos.


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Não se trata de uma luta contra os homens, ainda que uma interpretação superficial nos faça entender isso. Acho que a história por trás de cada uma das personagens é muito mais complexa. A começar pela concepção errada (e muito difundida) de que ao amadurecer, a mulher perde o seu valor, seu potencial de sedução. Elise tem um problema muito evidente em relação à beleza. A quantidade de intervenções cirúrgicas demonstra (de uma forma muito ácida e engraçada) sua insegurança. Mas, afinal… qual é a mulher que não se preocupa em estar bela?  O fato é que somos ensinadas e sofremos uma certa pressão por estar belas. Não só as mulheres, os homens também! – Aliás, sobre a Elise, vocês sabiam que quem iria interpretá-la era a Jessica Lange? Mas, ela desistiu na última hora.

the first wiveA Annie por outro lado é aquele tipo de mulher que foi ensinada a se comportar. A não gritar fora de hora, a se desculpar todo o tempo. O mundo pode estar desmoronando, mas você precisa manter a pose. É mais fácil achar e dizer que está feliz, viver a aparência, do que reconhecer o fracasso. Não sou muito chegada nessa personagem porque acho ela um pouquinho histérica…

A Bette Midler, ah! Bette Midler… De verdade, eu amo essa mulher, as caras e Brendabocas que ela faz… e adoro a Brenda – me identifico, rsss. Vejo um crítica à concepção que encara as donas de casa de uma maneira pejorativa. Uma das amigas se tornou atriz em Hollywood e nem por isso, teve uma vida menos merda do que a da Brenda. A Brenda é o centro das piadas, é a gordinha, e “gordo sofre”. Praticamente todas as piadas envolvem o peso dela e, em certo ponto,ela passa a fazer piadas com o próprio peso – mas, com um tom bem sarcástico e delicioso.

And don’t tell me what to do
And don’t tell me what to say

Por fim, depois de tanto falar… acho que a mensagem final, transmitida por “You Don’t Own me“, música imortalizada na voz da Lesley Gore, diz muito e diz o necessário.  Não existe nada mais importante que a liberdade, e mulheres (e homens), se valorizem! 


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A identidade cultural na pós-modernidade

Oi gente! Estou lendo “A identidade cultural na pós-modernidade”, de Stuart Hall. Como de costume, fiz algumas anotações e um pequeno resumo. Acho que me ajuda a estudar e a lembrar dos pontos mais importantes. Vou fazer uma série de publicações sobre este livro, uma sequência… pra me ajudar a estudar e claro, para compartilhar informações. O livro é pequenino, dividido em seis capítulos e com apenas 56 páginas.

O livro se volta para questões como: Que pretendemos dizer com crise de identidade? Que acontecimentos recentes nas sociedades precipitaram essa crise? Que forma elas tomam? Quais são suas consequências potenciais?


Identidade-cultural

“O homem da sociedade moderna tinha uma identidade bem definida e localizada no mundo social e cultural. No entanto, uma mudança estrutural está fragmentando e deslocando as identidades culturais de classe, de sexualidade, de etnia, de raça e de nacionalidade. As velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio. Se antes elas eram sólidas localizações, nas quais os indivíduos se encaixavam socialmente, hoje se encontram com fronteiras menos definidas, o que provoca no indivíduo uma crise de identidade”


1- A Identidade em questão 

A questão da identidade está sendo extensamente discutida na teoria social, em essência o argumento é o seguinte:  as velhas identidades que por tanto tempo estabilizaram o mundo social estão em declínio. Surgem novas identidades e o indivíduo moderno está fragmentado, até então, ele era visto como um sujeito unificado.

– A crise de identidade: Perder o sentido de sí. Deslocamento das estruturas e processos centrais da sociedade moderna. Abalo das referências que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. As identidades modernas estão sendo descentradas, isto é: deslocadas e fragmentadas.

“A identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza” – Kobena Mercer

Identidade Social


1.1 – Três concepções de identidade

A) Sujeito do Iluminismo: Concepção humana de um indivíduo totalmente centrado, unificado. O centro consiste no núcleo interior, concepção muito individualista do sujeito e de sua identidade.

B) Sujeito Sociológico: Reflexo da crescente complexidade do mundo moderno e consciência de que o núcleo interior não é autônomo nem autossuficiente, mas formado na relação com “outras pessoas importantes para ele”, que mediavam sentidos e valores. Interação entre o eu e a sociedade. Concepção interativa da “identidade” e do “eu”.

C) Sujeito Pós Moderno: O sujeito, previamente encarado como tendo uma identidade unificada e estável está se tornando fragmentado, composto não de uma, mas de várias identidades,  algumas vezes contraditórias e não resolvidas. A identidade deixa de ser fixa, permanente e passa a ser uma celebração móvel: formada e transformada continuamente e não biologicamente. 

“Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas porque construímos uma cômoda história sobre nós mesmos ou uma confortadora narrativa do eu”


1.2- O caráter da mudança na modernidade tardia

globalizaçãoA questão da identidade também está relacionada ao caráter da mudança na modernidade tardia, em particular, ao processo de mudança conhecido como globalização e seu impacto sobre a identidade cultural:  para Marx, a modernidade – [é o] permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eterno. Todas as relações fixas e congeladas são dissolvidas, todas as relações recém formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. “À medida em que áreas diferentes do globo são postas em interconexão umas com as outras, ondas de transformação social atingem virtualmente toda a superfície da Terra”

SOCIEDADE TRADICIONAL X SOCIEDADE MODERNA

– Tradicional: O passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contém e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular do passado, no presente e no futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes.

– Moderna: Sociedade de mudança constante, rápida, abrangente e contínua.  Possui uma forma altamente reflexiva de vida, na qual as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz das informações recebidas sobre aquelas próprias práticas, alterando, assim, constitutivamente seu caráter.

“A sociedade não é, como os sociólogos pensaram, muitas vezes, um todo unificado edownload bem delimitado, uma totalidade, produzindo-se através de mudanças evolucionárias a partir de sí mesma, com o desenvolvimento de ma flor a partir de seu bulbo. Ela está constantemente sendo descentrada ou deslocada por forças fora de sí mesma.” – O deslocamento tem características positivas: desarticula as identidades estáveis do passado, mas abre possibilidades para novas articulações”

Palavras-chave: Descontinuidade, Fragmentação, Ruptura e Deslocamento.


1.3 – O que está em jogo na questão das identidades?

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Erosão da identidade mestra – Nenhuma identidade singular (ex, raça ou classe social) pode alinhas todas as diferentes identidades como uma identidade mestra, única, abrangente, na qual se pode basear uma política de forma segura.

– Bibliografia: A Identidade Cultural na pós-modernidade. Stuart Hall; tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: Lamparina, 2014.

Se vivêssemos em um lugar normal


– Você já foi para a Disney? – Contra atacou Jack

– Claro! O voo saiu do aeroporto internacional de La Chona. Pelo que eu sabia, a Disney era um castelo de fantasia onde o importante era se comportar bem, não importa o que acontecesse ou o que você pudesse ver. As vezes algum Mickey Mouse, quando ninguém estava olhando, levava você para o canto e enfiava o dedo no seu cu. Mas você tinha que ficar quietinho, sem reclamar e sem fazer o mesmo, nada de querer agarrar os peitos da Margarida ou da Minnie, não, porque havia guardas hiperfuriosos que surravam você com o cassetete. Estão vendo? Melhor não falar da Disney na frente dos pobres.

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Ontem terminei de ler mais um livro do Juan Pablo Villalobos, passei praticamente toda a viagem de Minas/São Paulo o lendo. Comentei aqui no La Amora que no mês passado conheci este autor através do livro Festa no Covil e que gostei da sua narrativa, do seu bom humor e de suas ironias. Pois, “Se vivêssemos em um lugar normal” também tem essa pegada, ainda que de uma perspectiva bem diferente.

A história se passa na década de 1980, num México assolado por pobreza e com uma enorme discrepância social, em uma cidade em que “há mais vacas do que pessoas”. O narrador é Orestes, um adolescente que vive junto à sua família em uma casa minúscula e mal acabada que mais se parece uma “caixa de sapato”. Seu pai é professor de educação cívica e moral e sua mãe, dramática, é uma mulher que recusa a própria pobreza e insiste em dizer que pertence à classe média, ou seja, quejuam nega o mundo em que vive. Dentre disputas e ofensas, Orestes e seus seis irmãos aprenderam a sobreviver a base de quesadillas. Como a comida é pouca, um nutre o desejo secreto de que os irmãos desapareçam.

O “equilíbrio” da família é interrompido quando chegam novos vizinhos no morro da “puta que pariu” (onde eles moram). Acontece que a casa dos vizinhos é grandiosa, luxuosa…e Orestes não entende para quê serve uma casa tão grande para uma família com apenas três membros. “Definitivamente somos pobres”.  Em seguida se instala no local um empreendimento imobiliário de alto padrão e a casa da família de Orestes está prestes a ser demolida.

O livro é uma delícia, daqueles que você lê rapidinho e volta para reler as partes mais engraçadas. Ah! E a Polônia também aparece nesta história (junto a elementos fantásticos como alienígenas e melancias psicodélicas). Uma história que se passa no México, mas que com facilidade poderia se passar no Brasil, principalmente por causa da bem humorada descrição da pobreza, dos pobres e sua conflituosa relação com a sociedade.