“Drogados, assassinos, bêbados, ladrões, mentirosos, adúlteros, caluniadores, falsos, todos sempre foram aceitos na igreja. Gays, não! Amamos o pecador, mas não o pecado… quanta balela”
Que livro delicioso, daqueles que você não quer parar de ler! Ácido, engraçado (com boas doses de humor negro), deprimente e acima de tudo, questionador. “Ovelha, memórias de um pastor gay” é uma espécie de diário, narrado em primeira pessoa. Conta a história de um pastor está no leito de morte e enfrenta um conflito existencial imenso. Desde criança tinha comportamento e desejos homossexuais, mas foi reprimido pela mãe e levado a seguir a vida religiosa. Casou-se, teve filhos e mesmo assim, nunca conseguiu se livrar “do pecado”, da “impureza”. É um homem cheio de culpas, com uma relação conflituosa com os familiares, mas especialmente com a mãe. Seu desejo é se reencontrar com ela e revelar, que além de ser soropositivo, é homossexual.
Gustavo Magnani é um jovem autor, se não me engano, este é o seu primeiro livro. Ele é muito querido na web porque mantém um dos sites literários mais conhecidos do Brasil, o Literatortura. Eu estou realmente apaixonada por esse livro, pela acidez… mas, principalmente, pela dinâmica da narrativa, pelas referências contemporâneas (como as redes sociais, etc) e pela contextualização. É um livro com um tema tão denso, mas ao mesmo tempo, tão leve de se ler…
Há um suspense, o leitor precisa entender o motivo do desespero desse homem, descobrir o seu nome e o porque ele se sente tão culpado. A gente vai sentindo compaixão por ele, se entristecendo e ao mesmo tempo, se assustando com tamanha agressividade e revolta…
– Citações –
“Atendi mais de trinta pessoas naquele dia. Falava com ela. A palavra é uma espada de dois gumes, corta para os dois lados. Nunca quis ser gay. Tanto neguei que cheguei a duvidar da existência de deus. – Por que não cura?! – perguntou uma bicha louca sendo maquiada.– Falta fé, respondi. E talvez faltasse mesmo. Se a fé move montanhas, por que não move pintos para longe de mim?”
“Chamei Thiago, meu filho. O pequeno de dedo na boca, num despertar, correu e tropeçou, iniciando o primeiro choro da minha volta. E soava bonito, harmônico, Beethoven é o caralho, Mozart é a minha pica, Bach o meu cu, ninguém encantou como Thiago, o pequeno e único tropeçador.”
“Gabriel Garcia Marquez. Conheci aos quinze anos, em mais uma leitura escondida. Depois dele, meu boymagia, como dizem, deixou de ser loiro de olhos azuis para ser mulato de sangue latino”.
