O terceiro sinal: um monólogo sobre as experiências de um ator não profissional em sua primeira peça de teatro

“Dentro de alguns minutos, sem nenhuma experiência prévia, tendo decorado o texto na última semana e tomado parte em apenas três ensaios, sem ser nem desejar me converter num ator, eu estaria me apresentando diante de uma plateia pagante num dos teatros mais mitológicos do País, sob a direção do mais histórico de seus diretores”.

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 O lançamento da Companhia BR 116 aconteceu há seis anos, em julho de 2010. A parceria entre a atriz mineira Bete Coelho e o ator baiano Ricardo Bittencourt trazia a experimentação como proposta chave do projeto, a ideia era permitir que atores trabalhassem tanto na direção quanto na roteirização de suas peças. Celebrando o início dessa caminhada eles se uniram para criar “O terceiro sinal”, uma obra com tom autobiográfico e cheia de metalinguagens.

Este trabalho inspira muitas reflexões, especialmente por se tratar do teatro falando do teatro. De início, cabe analisar a concepção da companhia. Quando a criaram, os atores pensavam em uma maneira de não dependerem tanto de patrocinadores.  Na época, Ricardo Bittencourt chegou a explicar para o jornal Estadão que a peça não recebeu patrocínio: “Estamos fazendo sem patrocínio, como um hino de amor nosso ao teatro e uma forma de a gente estar vivo, atuando, enquanto companhia, enquanto realizadores. ”

Em seu livro, “Iniciação ao teatro”, Sábato Magaldi dedica o capítulo “A Empresa” para falar exatamente sobre a importância da organização financeira das companhias e explica que ela é fundamental para manter a peça em cartaz. Neste processo, muitos artistas e estrelas acabam por se transformar em empresários, que se dedicam quase que integralmente às tarefas executivas. O autor ainda afirma que muitas companhias surgem não só como um empreendimento, mas como a possibilidade que o artista encontra de imprimir sua personalidade a seu trabalho.

Bete Coelho chega a dizer que o teatro é o primo pobre das artes e quem se entrega a esses projetos precisa se preparar porque não vai ficar rico. Magaldi reforça essa concepção em seu livro, dizendo que a atividade cênica nunca foi compensadora do ponto de vista financeiro, ainda que existam alguns exemplos isolados de pessoas que conseguiram fazer fortuna com a exploração do teatro: “Ao lado deles, numerosos outros crivam-se de dívidas, e terminam seus dias com a mesma insegurança do início, Só a vocação justifica a persistência de indivíduos que se sacrificam no teatro e que, fora dele, pelo talento, encontrariam ao menos a tranquilidade material.”

Sobre a peça: Em cena, um jornalista extremamente inseguro relata os momentos de nervosismo e aflição antes de entrar no palco pela primeira vez. A peça foi inspirada no livro “Queda Livre”, de Otávio Frias Filho.  No livro, cujo subtítulo é “Ensaio de Risco” o autor narra sete aventuras que viveu; experiências radicais como uma viagem ao coração da selva amazônica (onde ele bebe o chá alucinógeno do Santo Daime) ou como a sua incursão no mundo do sexo transgressivo: swing, orgias e sadomasoquismo. Dentre as experiências radicais, ele conta como foi participar de “Boca de Ouro”, dirigida por José Celso Martinez Correa em 2000 – isso depois de ensaiar apenas três vezes.

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    Otavio é interpretado por Bete, que se apresentava com o cabelo bem curto, com um terno cinza e uma gravata borboleta.  Além dela, há apenas uns panos escuros e algumas projeções que são inseridas ao decorrer do monólogo. É dado o terceiro sinal e o jornalista precisa entrar em cena, logo a sua insegurança fica visível e ele, tremendo, começa a contar como foi parar naquele lugar e como se preparou para a grande data: a estreia.

A grandiosidade na proposta desse trabalho é a capacidade analítica do personagem, que como um estranho no ninho, observa criticamente tudo o que está em sua volta. Ele se deslumbra com a naturalidade em que os atores se transformam, ele relata as dificuldades em se locomover em um palco nada convencional, comenta sobre as ordens enérgicas do diretor e analisa sua função como crítico e escritor de peças teatrais.

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A peça tem diversos momentos de humor, onde o personagem ri de si mesmo. Como quando ele narra o quase escorregão que leva no palco, que estava molhado. Ou quando comenta das incontáveis vezes em que verificou em seus bolsos os acessórios que deveria usar em cena: um jornal, um cigarro e um revolver.

A tensão psicológica do ator é um dos pontos analisados por Magaldi. Para ele, essa tensão confere ao ator uma individualidade distinta e não muito raro, leva-o a uma neurose.  Para interpretar a peça, eles podem correr o risco de transferir para a vida privada certos sentimentos que são dos personagens, por isso, antes de qualquer coisa, o ator precisa de certa contenção para estabelecer um equilíbrio satisfatório entre a vida artística e a pessoal.

Em “O terceiro sinal” Otávio defende a importância de o crítico estudar teatro, compreender o tema das peças que escreve e redigir um texto com clareza. Por outro lado, na postura de ator, ele se questiona sobre a complexidade de dizer certas palavras e em transmitir o sentido delas para o público. Então, na peça, o personagem narra as reuniões que teve com Bete Coelho e Giulia Gam para aprender a falar mais claramente. O interessante é que o que para elas parecia um exercício simples, para ele era quase um inferno. Afinal, ele se dizia bom com a escrita, mas não tanto com a fala. E além de tudo, sua timidez o desconcentrava.

 Neste ponto, as observações realizadas pelo personagem vão de encontro ao que Sábato Magaldi defende, para ele a palavra é um dos múltiplos instrumentos que podem ser utilizados para causar um maior impacto no espectador:

O ator comunica-se com o público por meio da palavra, instrumento da arte literária. Embora alguns teóricos desejem menosprezar a importância da palavra na realização do fenômeno teatral autêntico, sua presença não se separa do conceito do gênero declamado. Para o ator, entretanto, a palavra é um veículo que lhe permite atingir o público, mas não se reduz a ela a interpretação. Sabe-se que o silêncio, às vezes, é muito mais eloquente do que frases inteiras. A mímica ou um gesto substitui com vantagem determinada palavra, de acordo com a situação. Postura, olhar, movimentos – tudo compõe a expressão corporal, que participa da eficácia do desempenho. (MAGALDI, P. 4.)

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 Mais um momento brilhante de metalinguagem ocorre quando o personagem conta como foi a sua experiência em ver a sua amiga, atriz, em uma peça. De repente, ela começa a chorar desesperadamente e ele se lembra da frase de Diderot:  “As lágrimas do comediante escorrem de seu cérebro; as do homem sensível jorram de seu coração. ”. As lágrimas daquela atriz estariam escorrendo do cérebro ou jorrando do coração¿, pergunta. (Mais tarde, nos é confidenciado que Otávio assistia Bete Coelho na peça Cacilda!).

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[1]  Esta é a primeira fala da peça e também a primeira sequência do ensaio publicado no livro.

Referências:

MAGALDI, Sábato. Iniciação ao teatro. (Arquivo não datado). [Acesso 10.07.2016] Disponível através do link: www.passeidireto.com/arquivo/6050117/magaldi-sabato—iniciacao-ao-teatro/1

FALCÃO, Letícia (2015):  A crítica teatral na escrita da história do teatro brasileiro: possibilidades para um debate interdisciplinar. XXVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis. [Acesso 10.07.2016] Disponível através do link: :http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1427739221_ARQUIVO_Leticiatextocompleto.pdf

KÁTIA, ANA. (2010):  Monólogo marca a estreia de grupo teatral de Bete Coelho. Jornal Estadão. [Acesso em 10.06.2017] Disponível através do link: http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,monologo-marca-estreia-de-grupo-teatral-de-bete-coelho,584679

México, um país em dois olhares

mexicoAs obras de dois autores inspiraram a linha comparativa deste trabalho, eles tiveram a coragem de se aventurar a estudar o México, sua história e o comportamento dos mexicanos. Um deles foi Érico Veríssimo, que publicou o livro “México” em 1960. O outro foi Jorge G. Castañeda, autor de “Amanhã para sempre”, de 2013.

É curioso como a visão dos dois se assemelha em alguns quesitos e por vezes, se distanciam abruptamente em outros casos. Naturalmente há o distanciamento do tempo em que os livros foram escritos, mas leva-se também em consideração a linha narrativa. Enquanto o livro de Veríssimo é um romance com forte tom poético, o livro de Castañeda apresenta uma linguagem mais científica e um estudo sobre o conceito de identidade nacional. Jorge G. Castañeda é professor de uma das maiores universidades do México (a UNAM) e atuou como chefe das Relações Internacionais no governo do então presidente Vicente Fox. Em seu livro, ele confronta diversos clássicos, autores (como Octavio Paz) e questiona os estereótipos pelos quais os mexicanos ficaram conhecidos.

Érico Veríssimo foi um dos escritores brasileiros mais populares do século XX (e dentre suas obras famosas, cabe citar a trilogia de O tempo e o vento).  Ele realizou sua terceira viagem ao México em 1955, ao lado de sua esposa, Mafalda. Na época, dizia enfrentar um bloqueio criativo por causa da vida burocrática que levava nos EUA, ele ocupava um cargo na Organização dos Estados Americanos, em Washington.

A visão de Jorge G. Castañeda pode não ser muito agradável aos mexicanos já que ele indica grandes falhas na sociedade e, de maneira corajosa, se atreve a sugerir soluções. Apesar de uma linguagem complexa, o livro perpassa por assuntos certeiros e fundamentais sobre o país, como por exemplo: o narcotráfico e a violência.

Castañeda começa sua reflexão afirmando que os mexicanos são individualistas e o são de uma maneira diferenciada. No primeiro capítulo “Por que os mexicanos são ruins em bola e não gostam de arranha-céus”, ele explica que os mexicanos enxergam a casa própria não só como status, mas como garantia de individualidade – por isso, a pequena popularidade dos arranha-céus (ou prédios). De acordo com o autor, os mexicanos são individualistas inclusive no esporte, por isso são os melhores no Golfe  e não no futebol.  Eles evitam pegar ônibus e são individualistas até quando o assunto é democracia, sentem desconfiança em relação às ações coletivas.

 O perfil que o autor faz do mexicano é bem distante do lado romântico que Érico Veríssimo descreve. Por exemplo: Castañeda afirma que os mexicanos são avessos a qualquer tipo de confronto ou competição porque são fatalistas. Se vêem como perdedores e… já que vão perder, vale a pena lutar? O autor apresenta diversas análises e aponta algumas justificativas para esse comportamento, uma delas está na própria história do México, que foi extremamente cruel e violenta com os índios.

Para Veríssimo, o mexicano é um povo que foi traumatizado em seu nascimento e isso marcou o inconsciente coletivo do país, por isso vivem sempre angustiados “por uma sensação aflitiva de que algo de mau, algo de terrível está sempre por acontecer. O nascimento da nação mexicana foi difícil, dilacerante, sangrento, doloroso e o índio que sobreviveu à Conquista não se adaptou ao ambiente frio e hostil criado pelo invasor, ele desejou voltar ao ventre materno, isto é, a terra.”

Sobre os mexicanos e seus costumes, Castañeda explica que a população já não é tão católica como muitos pensam. Hoje, a maioria deles não vai à igreja nem vivem a religião, mesmo que se autodenominem como católicos praticantes. O escritor ainda explica que o país é extremamente marcado pelo racismo, pelo preconceito e pelas lutas de classes. Eles se dizem “mente aberta”, mas não são. Veríssimo vê a religião com outros olhos, ele possui um encantamento em relação a ternura que os mexicanos sentem pela Virgem de Guadalupe, e entende que toda essa identificação vem do fato de que a virgem, morena, teria aparecido para um índio (chamado Juan Diego na colina Tepeyac).

Em 1960, Veríssimo dizia o mesmo que Castañeda sobre as diferenciações raciais, porém em outras palavras. Para ele, o México era uma nação em que predominava o sangue índio. Ele dizia que cerca de 30% de seus habitantes eram racial e culturalmente índios enquanto a menor parte da população era formada de brancos ou de criollos, isto é, de filhos de pais e mães espanhóis, mas nascidos no México.

Os 10% que eram ou se consideram brancos viviam e pensavam mais ou menos como os brancos de qualquer outro país da América e, seus dramas e neuroses relacionavam-se não ao fato de serem mexicanos, mas sim de pertencerem a uma determinada classe social: “Assim, o que na minha opinião melhor representa o México, é o de sangue espanhol de índio, não só porque ele constitui a maioria da população, mas também e principalmente porque dá a nota tônica na vida do país”.

E a relação com os Estados Unidos também é tema para estudo nos dois livros. Veríssimo não deixa de citar a famosa frase de Porfírio Diaz que dizia: “Pobre Mexico, tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos”.  Já Castañeda, utiliza a famosa frase em introdução ao assunto: “Nós não atravessamos a fronteira, a fronteira nos atravessou” Sobre essa relação, os dois autores concordam em um ponto: por parte dos mexicanos, há uma mistura de raiva e admiração.

Mesmo com linguagens tão diferentes, os dois autores se mostram carinhosos e respeitosos em relação ao país, eles não economizam palavras ao falar das cores, da arquitetura, dos pintores, da história e das músicas mexicanas. Muito se pode descobrir através da visão deles e é difícil não se envolver na leitura desses livros.

Minha vida sem banho

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Escolhi esse livro pelo título, fiquei extremamente curiosa com a descrição e sobre o desenvolvimento da história. Li o livro em menos de uma semana e definitivamente, fiz uma boa escolha: me emocionei e me diverti com a história. “Minha vida sem banho” foi escrito em 2014 pelo jornalista Bernardo Ajzenberg. Na trama, Célio é um homem que, de repente, não toma banho por conta do aquecedor quebrado. Porém, ao longo dos dias, ele vai repetindo a ação… ele simplesmente decide não tomar banho mais. A narrativa vai se misturando com outras vozes e histórias, pois além de Célio, há as correspondências de sua namorada (que acabou de realizar uma viagem) e a narrativa sobre a história dos pais de Célio (com um suspense delicioso).

Numa das resenhas que li por aí, diziam que a grande metáfora para a ausência dos banhos seria nossa mania destrutiva de sempre protelar algo que necessita ser feito. Eu encarei o lance mais como uma “acumulação” das marcas que a vida deixa, acho que o personagem estava mesmo era depressivo pela ausência da namorada, pela vida sem sentido e por causa da relação com os pais. E aí, as coisas que ele vivia (as dores, decepções) ficavam impregnadas em seu corpo como a sujeira fica quando não se toma banho. Viajei, né?

A história vai ficando cada vez mais legal no decorrer dos dias, quando ele começa a feder e a sentir coceiras em lugares impróprios. As pessoas fingem não perceber a ausência dos banhos, até que a situação fica insustentável. Outro detalhe que amei é que a trama é ambientada em São Paulo. Tem um ano que moro aqui e toda vez que ele citava um lugar eu ficava me perguntando se conhecia ou se já tinha visitado.

Montserrat Caballé (não consigo parar de ouvir!)

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A minha cabeça entrou em parafuso desde que a ouvi essa mulher cantar. De ontem para hoje, de repente, não consigo para de assistir os vídeos dela no Youtube ou de procurar por sua biografia. Eu já a conhecia há muito tempo, por causa da música “How can I go on”, cantada por ela e pelo Freddie Mercury, mas nunca parei para repará-la. Lembro que eu amava dirigir pelas estradas de Nova Lima com essa música no volume mais alto, enquanto eu fingia ser a Montserrat e o seu amigo, Leo, fingia ser o Freddie Mercury.

Enfim… ontem fiquei alucinada pela capacidade vocal dessa mulher, pelos seus movimentos no palco e fiquei reparando até na forma em que ela mexia a língua em determinado momento da canção, resumindo: pirei. Fiquei encanta por sua força, por sua beleza e por sua segurança. Infelizmente encontrei poucos textos sobre ela, mas li algumas coisas que valem ser compartilhadas. 

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Montserrat nasceu em abril de 1933, é considerada uma das mais famosas cantoras líricas de todos os tempos.  Originou-se de uma humilde família espanhola. Aos onze anos entrou para o “Conservatori Superior de Música del Liceu”, em Barcelona;  lá iniciou seus estudos em canto. Formou-se em 1954 sendo eleita uma das melhores alunas. O início de sua carreira foi modesto, mas ela já chamava atenção por escolher repertórios pouco frequentes para cantoras espanholas, como Mozart e Strauss. Em 1965 sua vida deu uma guinada, parece até coisa de filme, mas ela estava no Carnegie Hall quando teve que substituir Marilyn Horne na ópera Lucrezia Borgia, de Donizetti. Horne sentia-se mal, então… Montserrat assumiu o seu lugar naquele dia. Sua atuação lhe rendeu 25 minutos de aplausos ao término de uma representação e um dos mais importantes críticos nova-iorquinos titulou lhe deu o apelido “Caballé” (Callas  + Tebaldi).

“A partir desse momento, Caballé ficou conhecida como uma das grandes divas da ópera mundial e a fama lhe gerou vários anos de teatros lotados para assistir às suas apresentações. Hoje tem em discos uma variedade enorme em estilo e repertório que estão em mais de 130 gravações”

*Além de suas línguas maternas (catalão e castelhano), ela também fala alemão, francês, inglês, português e italiano perfeitamente.

*Durante o século XX, somente um pequeno número de cantoras foi capaz de desempenhar o papel de Norma (de  Vincenzo Bellini) com sucesso: Rosa Ponselle, no início da década dos anos 1920, depois Joan Sutherland, a partir da década de 1960, Montserrat Caballé e Maria Callas.

*Recentemente (no ano passado) ela foi condenada a meio ano de prisão por fraude fiscal. De acordo com a matéria publicada em O Globo: “Segundo a acusação da promotoria de Barcelona, Montserrat “solicitou que diversos shows realizados no exterior, em 2010, fossem pagos a uma empresa em Andorra, como se tivesse residência nesta país, quando, na verdade, vivia em Barcelona”. No último mês de maio, a soprano já tinha devolvido, na íntegra, o valor reclamado pelo fisco. Segundo o portal espanhol “El País”, fontes próximas a cantora relatam que, por conta da idade avantajada, o estado de saúde de Montserrat não é bom. Ela praticamente não sai de casa e o problema judicial teria abalado ainda mais sua condição. Em 2012, ela sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) durante uma visita a Rússia”

A história de uma vaca rebelde

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Confesso que há muito não lia algo tão criativo e divertido. O livro é narrado em primeira pessoa e não tem compromisso nenhum com a realidade. A personagem principal, Elsie Bovary, é uma jovem vaca acostumada com a vida calma no pasto  e cheia de inquietações. Dentre inúmeros pensamentos, ela sempre se pergunta sobre o desaparecimento de sua mãe. Um dia, ela resolve se aproximar da casa dos humanos, donos da fazenda, e percebe que todos eles ficam horas vidrados em suposto deus que vive numa caixa. A caixa é uma TV e ao observá-la descobre que há uma série de possibilidades, culturas e crenças que vão além daquele pequeno mundinho em que vive. Mesmo com toda inverossimilhança, a narrativa construída por David Duchovny é tão encantadora que você se deixa levar e a tradução é tão perfeita que as pequenas piadas escondidas no texto não perdem o sentido. Duchovny é um ator hollywoodiano e sua experiência provavelmente o ajudou a escrever um livro quase como um pequeno roteiro, cheio de diálogos e passagens divertidíssimas.

Amor a toda prova

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Kathy Bates é uma das atrizes americanas que mais me inspira, eu sempre fico me perguntando sobre como ela conseguiu se sobressair num ambiente que valoriza tanto a magreza. Acho que não só o conseguiu por seu talento, identifico uma coragem e uma autenticidade na personalidade dela. Então eu sempre assisto seus filmes cheia de admiração e respeito e de certa forma, me emociono com os trabalhos mais singelos.  Amo mais ainda quando ela interpreta papéis de mulheres comuns, donas de casas desiludidas que sofrem uma reviravolta na vida, como nesse filme,  uma delícia de comédia! Acho que quando esses personagens são interpretados por um atriz como Bates, que foge dos esteriótipos, eles se tornam mais verossímeis.

Amor a toda prova é um filme descompromissado, engraçadinho e açucarado. Uma ótima opção quando não se tem nada para fazer ou quando se quer melhorar o astral. O filme conta a história de Grace, a fã número um do cantor Victor Fox. Ela vê seu mundo desmoronar quando ele é assassinado misteriosamente.  Grace não tem um casamento feliz e convive com sua nora, uma mulher extremamente inteligente e independente  que sofre inúmeros preconceitos pofilmes_9186_Amor a Toda Prova04r ser anã. As aventuras dessa mulher se iniciam quando ela resolve prestar suas condolências à família de Victor e sem querer descobre que o cantor assassinado era gay e que se esposo (mal humorado e depressivo) vive em sua casa.

Os dois se estranham de início, mas se comprometem a encontrar o responsável pelo assassinato de Victor. Daí começa uma jornada cheia de momentos engraçados e emocionantes, principalmente porque Grace tinha a imagem do artista, enquanto Dirk (o esposo de Victor) o conheceu como ser humano normal, cheio de defeitos como qualquer outra pessoa.  O jeitão do Victor Fox, interpretado por Jonathan Pryce me lembrou muito o Liberace, sabe? Eu achei sensacional.

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Estou há meia hora na frente do computador, deitada de bruços, debaixo das cobertas e num quarto parcialmente bagunçado, tentado iniciar um artigo sobre simulacro e simulação, exigido pelo professor da faculdade. O fio de partida é um livro de Jean Baudrillard que me fez sentir mais burra do que o normal e que li mais de três vezes, insistindo numa coisa que eu não sei se ainda entendi. Em suma, segundo o livro, a realidade não existe e vivemos a cópia da cópia, o simulacro são signos sem vínculos com o real e a simulação recupera o conceito de mimese de Platão. No meio dessas informações frias e complexas, eu me sinto frustrada porque ao invés de esquentar meus poucos neurônios numa coisa que simplesmente não entra na minha cabeça, eu poderia estar agora terminando de ver a quarta temporada de Orange is the new black ou os inúmeros episódios de Master Chef que perdi. Esperei esse sábado loucamente durante a semana e fiz vários planos como arrumar o cabelo, passear pela Sé e ir ao Centro Cultural do Banco do Brasil assistir uma peça de teatro. Esse frio deprimente e um sono acumulado não me permitiram sair da cama e só tive coragem de levantar à 17h30, com os olhos inchados e com o cabelo sem escova, todo para o alto. Sem chance de preparar um almoço, foi miojo mesmo e um hambúrguer congelado da Sadia, que já vem com pãozinho e um queijo meio estranho… ou seja, um sábado deprimente. Daí ao invés de escrever o artigo, que precisa ficar pronto hoje, eu começo a escrever esse texto sem pé nem cabeça e que provavelmente não vai me levar a lugar algum e que ninguém vai ler, um alívio. Eu gostaria de estar no cinema agora, assistindo a um filme bem engraçado, junto com minhas amigas. Depois iríamos para casa, compraríamos um refrigerante, um chips e um doce e ficaríamos lembrando os tempos da escola, falando de alguns professores e colegas, comparando a vida deles e a nossa… tipo, João se casou e Ana já tem dois filhos. Tô me sentindo estranha hoje, mais depressiva e reflexiva do que o normal. Estou fazendo um exercício, que é muito difícil e que me ajuda a levar os dias. Eu tento não pensar muito naquilo que me incomoda ou que me deixa triste, parece bem idiota, mas até que funciona. Eu começo a pensar e logo penso que não posso pensar e aí penso em outra coisa. Eu li uma frase em algum lugar por aí e que faz todo sentindo: “depressão é um excesso de passado e ansiedade é um excesso de futuro”. O presente também estava nessa frase, mas eu esqueci o que o excesso de presente significa. Estava pensando que se eu pudesse escrever um livro ele se chamaria “Flores Colombianas para Brasília”, eu vi essa frase em algum lugar há muitos anos e ela não saiu da minha cabeça. Eu tenho o título, mas não tenho uma história. Quer dizer,tenho uma ideia do que aconteceria no final, com certeza algum tipo de canibalismo… como em Titus de Shakespeare ou em O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante. Esse título é genial é? Eu acho o Peter Greenaway muito foda. Meu primo me pediu a indicação de um livro essa semana, não sei porque, mas o primeiro que me veio em mente foi Ensaio sobre a Cegueira. Ele disse que começou a ler, que gostou e que não dá vontade de parar. Daí falei para ele repara na ausência de pontuação e no fato de que os personagens não tem nome, nenhum deles… como se o autor, Saramago, quisesse fazer com que o leitor também ficasse um pouco cego. Estou com saudade da minha família, sinto isso todos os dias. É, não sei… hoje eu tô estranha cara.

Amor, sexo, culpa e traição… que livro bom!

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Fernando Sabino é um dos autores brasileiros que, no momento, mais desperta o meu interesse. A verdade é que eu gostaria de ter lido mais de seus livros. Há algumas semanas terminei de ler A Faca de dois gumes e enquanto lia, mergulhei em cada um dos contos, cheios de sensualidade, humor e suspense. Sabino é um escritor belo-horizontino, nascido em 1923; fez parte do Grupo Mineiro, liderado por Carlos Drummond de Andrade e Martins de Almeida. Seu conto de estréia foi Os grilos não cantam mais, de 1941.  Dentre as suas obras mais famosas estão O homem nu (de 1960) e o Grande Mentecapto ( de 1979).

O livro reúne uma trilogia, histórias independentes (e escritas em momentos diferentes da vida do autor) que narram três crimes. Em suma, todas as histórias possuem uma forte relação com o  amor e com os sentimentos de culpa e dúvida. De todos, gostei mais do segundo… uma espécie de quebra cabeça que me encantou pela genialidade da narrativa e pelos encontros e desencontros dos personagens.  Nessa história, chamada “Martini Seco”, um casal entra num bar e começa a discutir. Ele vai ao banheiro e ela ao telefone. Os dois voltam à mesa, ela toma um gole da bebida e cai fulminada. A polícia acredita que ele a matou, enquanto ele jura que enquanto estavam discutindo, ela tinha ameaçado se matar. Ou seja, o que aconteceu naquela cena, um assassinato ou um suicídio?

O primeiro dos contos possui inspiração na obra machadiana Dom Casmurro, “O bom ladrão” conta a história de um cara que se apaixona por uma mulher de comportamento duvidável, ela é uma ladra que não não mostra arrependimentos de seus crimes (na verdade, pequenos furtos, digamos…crimes sutis). O problema é que o amor que ele sente por ela  é tão grande que o faz cúmplice e às vezes, até mesmo responsável por alguns delitos.  A terceira história é sensacional, é ela que dá nome ao livro e que posteriormente inspirou o filme  de Murilo Salles, de 1989. Um advogado leva uma vida perfeita junto ao filho e a esposa. Um dia, descobre que ela o trai e enfurecido, decide assassiná-la. O plano é brilhante, o crime é perfeito… mas uma reviravolta inesperada acontece e sua vida se torna um inferno.

Mergulhei nessas histórias, alucinada para descobrir a resolução de cada um dos crimes. Histórias inteligentes, diálogos dinâmicos e muito humor negro. Uma delícia de livro!

A melancolia de Pandora

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Nessa semana fui na pré-estreia de “A melancolia de Pandora”e saí de lá numa bad inexplicável. A peça conta a história de uma mulher depressiva que mergulha em suas memórias e alucinações. Ela quase nunca sai da cama e é observada de perto por três figuras: um anjo, por Doutor Rudolph Ahrisman, que se diz um libertador da mente humana e por Max (mordomo de Ahrisman). A todo momento, os pensamentos, as lembranças e as ações dessa mulher são contestadas e analisadas pelos outros personagens, que aos poucos vão influenciando-a em seu comportamento.

Como disse em outros textos publicados por aqui, poder ir a uma peça dessas me emociona muito; por diversos motivos. O principal deles é uma sensação que não pode ser materializada, é o efeito de uma mudança que tem impactado a minha vida em muitos sentidos e que me distancia das pessoas que mais amo, ao mesmo tempo em que me aproxima das coisas que mais admiro. É uma alegria que me cura a dor da distância,  um   momento que me faz acreditar que essa saudade enorme que sinto, tem um sentido… quero dizer, “um dia essa dor será útil”.

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Saí da peça muito confusa, com mais perguntas do que respostas. Cheguei em casa e precisei ler bastante para me localizar e entender o que se passou. Depois tudo fez sentido. Eu fiquei mesmo foi maravilhada com as músicas  e com o cenário que  se misturava com os atores como numa dança e ganhavam vida. A cama com rodinhas levada de um lado para o outro, o quarto que se movia e a luz que entrava pela janela criando sombras incríveis. E a roupa da mulher melancólica, um vestido que se parecia com uma camisa de força.  Eu fiquei pensando na genialidade de quem criou tudo isso e no trabalho que deve ter dado.

Como eu disse, eu fiquei bem confusa… mas saí da peça com uma sensação terrível. De tudo o que consegui entender na hora, o que mais me marcou foi o lance da “Esperança, esperança, esperança”, isso me fudeu. [Eu explico melhor no próximo subtítulo]. Outra coisa, toda hora que eu olhava para a mulher apática e a via com aqueles ombros caídos, e com os olhos meio perdidos, desanimados… eu ficava “o que isso quer dizer meu Jesus?”, daí fui ler sobre a melancolia e achei a representação tão, tão, tão perfeita! [Li um texto que relacionava a melancolia à Madame Bovary, de Flaubert].


Pandora, a caixa e a esperança (um resumo do resumo)

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Depois da peça, a primeira coisa que fui ler foi sobre  Pandora (eu precisava comprovar se o lance da esperança era o que eu tinha entendido… e era). O mito é desencadeado com o roubo do fogo por Prometeus. Antes, o mundo era povoado apenas por homens que não envelheciam, não se cansavam e não sofriam. Depois que Prometeus rouba o fogo dos deuses e o dá para os homens, Zeus se enfurece e promete castigá-lo.  Com a ajuda de Atena e Hefesto, cria uma mulher chamada Pandora (dotada de beleza e sedução, porém com a capacidade de mentir e enganar) e a oferece para Epimeteu (irmão de Prometeus). Ele se apaixona por ela e se casa. Pandora trazia consigo um jarro presenteado por Zeus e estava proibida de abrí-lo. Ela não resiste a curiosidade e o abre, liberando uma série de males que os homens até então desconheciam:  a doença, a guerra, a velhice, a mentira, os roubos, o ódio, o ciúme… Assustada, ela fechou a jarra tão rápido quando pode e lá só restou uma coisa: a esperança.

  • A esperança pode ser encarada como uma coisa boa ou ruim, pelo que entendi… Nietzsche (1844-1900) em Humano, Demasiado Humano, escreveu que “Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens”.

Freud explica: O luto e a melancolia

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Então eu pulei para a segunda parte, já tinha entendido um pouco o lance da esperança, mas não tanto o da melancolia.  Eu acompanho o site do Lê livros semanalmente, achei coincidência que há poucos dias compartilharam o livro “Luto e Melancolia” de Freud. Pensei, “Caralho, é disso que preciso!” Comecei a leitura com muito medo, imaginando que não iria entender nada, mas até que compreendi algumas coisas. Antes, eu tenho que reconhecer o meu apreço por quem o editou, pela introdução, pelas análises e pelo posfácio, que foram fundamentais para que eu conseguisse entender: A introdução foi feita por Marilene Carone e há outros três textos, feitos por Maria Rita Kehl, Modesto Carone e Urania Tourinho Peres.

Enquanto lia esse livro, flashes da peça voltavam a minha memória e tudo ia se encaixando. Especialmente a representação da mulher. Eu li este livro pelo celular mesmo e para vocês terem uma ideia, fiz 86 marcações.

O luto e a melancolia se assemelham em algumas situações, porém a melancolia vai um pouco além. Nos dois há a dor de perder um objeto, mas o melancólico não sabe muito bem o que perdeu.  O luto é a reação de perder uma pessoa querida ou de uma abstração que possa ser colocada no lugar dela (como um ideal, a liberdade, a pátria).Na melancolia há uma predisposição patológica, veja só: “A melancolia se caracteriza por um desânimo profundamente doloroso, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de toda atividade e um rebaixamento do sentimento de autoestima, que se expressa em autorecriminações e autoinsultos, chegando até a expectativa delirante de punição”.  “No luto é o mundo que se tornou pobre e vazio, na melancolia é o próprio ego”.

-No  luto, a pessoa consegue pensar que está menos triste, consegue ir se desapegando do objeto perdido. Na melancolia, a batalha é mais acirrada em função da ambivalência, que pertence em si mesma ao reprimido.

a-melancolia-de-pandora-bete-coelho-djin-sganzerla-andrc3a9-guerreiro-lopes-e-ricardo-bittencourt-foto-jennifer-glassNa peça, a mulher sofre por perder alguém e sempre fala de um amor que viveu… mas fala desse amor de uma forma meio confusa, como se não soubesse muito bem como o perdeu. Ela também menciona os pais, representados  por dois bonecos, meio fantasmagóricos, que vivem em seu quarto (nossa, muito massa). O livro explica que a melancolia está muito relacionada aos sentimentos que o melancólico alimenta por outra pessoa, a quem o doente ama, amou ou deveria amar:

“Dessa forma, tem-se a chave do quadro clínico, na medida em que se reconhecem as autorecriminações como recriminações contra um objeto de amor, a partir do qual se voltaram sobre o próprio ego. A mulher que ruidosamente se apieda do marido por estar ele tão ligado a uma mulher tão incapaz, na verdade quer se queixar da incapacidade do marido, em qualquer sentido que esta possa ser entendida.” Para o melancólico, queixar-se é dar queixa: “Eles não se envergonham nem se escondem, porque tudo de depreciativo que dizem de si mesmos no fundo dizem de outrem.”

Daí surge uma reflexão muito interessante: o narcisismo dessa patologia. Freud trabalha muito com essa questão do ego e da libido.  Numa espécie de sadismo, o melancólico (numa tendência  ao ódio), tenta vingar-se do objeto amado através da autopunição,  “ele atormenta os seus seres amados através da condição de doente, depois de ter cedido à doença para não ter de mostrar diretamente a eles sua hostilidade”. “Freud estranha que falte ao melancólico o sentimento de vergonha comum aos arrependidos, aos que de fato se consideram indignos e sem valor. Se estes se escondem e tentam fazer calar sua culpa e seu crime, os melancólicos parecem sentir necessidade de alardear suas baixezas”.


Onde nos encaixamos nisso?

Stuart Hall explica: a identidade  cultural na pós modernidade

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Ainda sobre Freud: ” Vem daí a importância do papel representado pelo melancólico, como um sujeito que teria perdido seu lugar no laço social e sente necessidade de reinventar-se, no campo da linguagem. Essa perda de lugar pode ocorrer quando o sujeito não se sente capaz de adaptar-se ás exigências do outro”

Acho que Stuart Hall pode entrar nesse tema quando trata da crise de identidade (tão normal em nossos dias, dessa nossa crise de não saber onde ir, da rapidez do dia-a-dia e da solidão que sentimos, nesse lance do sujeito perder os laços sociais: Ela caracteriza-se dessa forma: “perder o sentido de sí”. Deslocamento das estruturas e processos centrais da sociedade moderna. Abalo das referências que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. As identidades modernas estão sendo descentradas, isto é: deslocadas e fragmentadas. “A identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza” – Kobena Mercer

O caráter da mudança na modernidade tardia: A questão da identidade também está relacionada ao caráter da mudança na modernidade tardia, em particular, ao processo de mudança conhecido como globalização e seu impacto sobre a identidade cultural:  para Marx, a modernidade – [é o] permanente revolucionar da produção, o abalar ininterrupto de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eterno. Todas as relações fixas e congeladas são dissolvidas, todas as relações recém formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. “À medida em que áreas diferentes do globo são postas em interconexão umas com as outras, ondas de transformação social atingem virtualmente toda a superfície da Terra”