Os experientes e a bissexualidade na velhice

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Quando “Os experientes” estreou na Rede Globo, eu estava em processo de mudança para São Paulo. Estava louca para acompanhar os episódios, mas cheguei aqui e não tinha nem TV e nem internet em casa. Na verdade, não tinha nem cama. Observação boba, mas primeiro dia nesta casa, exatamente no dia em que esse episódio foi transmitido, dormimos no chão (e sentimos muito frio!). Enfim… tempos depois encontrei todos os capítulos disponíveis na internet, e assisti um por um, matando uma vontade antiga.

Não poderia eleger um episódio especial, porque são todos lindos, bem feitos e cheios de poesia. A série tem muitos diálogos impactantes, umas imagens incrivelmente belas, atores sensacionais e uma direção impecável. Não sei se estou exagerando, sou só amores por essa produção.

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Escolhi comentar sobre Folhas de Outono, o último episódio da série. Na narrativa, Francisca (interpretada por Selma Egrei) acaba de perder o marido e descobre que foi traída por ele durante anos. Um dia, se encontra com uma vizinha, a Maria Helena (Joana Fomm) que acaba de perder a mãe. As duas se aproximam e começam uma amizade que termina em namoro. O que me encanta é a naturalidade em que esse namoro é tratado e me chama a atenção a falta de estardalhaço (como aquele que foi feito em relação ao beijo da Fernanda Montenegro e da Nathália Timerg).  Não acho que mudamos de lá pra cá, o que me leva a pensar que a série não teve a audiência devida e que o horário pode ter influenciado nesta questão.

O negócio é que a bissexualidade e a sexualidade feminina na terceira idade são vistas com certo incomodo, já reparam? Como se duas senhoras não pudessem mais fazer sexo ou qualquer outra coisa do tipo. E  tem todo aquele lance de culpa, de vergonha, de moral. A mulher é ensinada, desde sempre, a não demonstrar seus desejos, a não sentir prazer… Sabe, há algum tempo vi uma reportagem que dizia que a sexualidade na velhice está sendo repensada e que não é tão incomum encontrar por aí mulheres (de 60, 70, 80, 90…) que foram casadas durante anos e que depois de viúvas, começaram a se relacionar com outras mulheres. 

Na série, Francisca e Helena são mulheres com experiências muito diferentes, mas com sentimentos muito parecidos. Francisca teve filhos, vivia um casamento rotineiro e infeliz. Maria Helena não se casou, não teve filhos e passou a vida cuidando da mãe. Porém, as duas são solitárias, idosas e cheias de vida. Elas também possuem desilusões com homens (o que não encaro, de forma alguma,como um pretexto para a bissexualidade).

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A mensagem que este episódio me passa é: a importância da redescoberta do corpo, a interação com o outro, a motivação de estar vivo e seguir em frente. A coragem de ser e viver o que se deseja, a percepção de que já não há mais tempo para se perder.

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Imagem salva de: drawingbalmy.tumblr.com

Oi, passei para saber se estão todos bem! Eu sinto uma falta danada de escrever por aqui e se pudesse o faria todos os dias. Nem sei se teria assunto. A vida por aqui está uma correria, e é só no fim de semana que tenho tempo (isso quando tenho) para sentar e escrever um pouco. Vocês não imaginam o quanto isso me faz bem.

A fenda do tempo

downloadPensei que este livro fosse uma narrativa de comédias para adultos, até começar a ler e ver que se tratava de um livro infanto juvenil. Poderia tê-lo abandonado, mas não consegui. Comecei a lê-lo hoje pela manhã e acabei de acabar a última das 202 páginas. Uma história muito gostosa, contata de um jeitinho que encanta. O livro foi escrito por Dinísio Jacob, escritor paulista, nascido em 1951. Ele trabalhou como roteirista para “O Castelo Rá-Tim-Bum”, “Glub-Glub”, “Cocoricó” e a “TV Cruj” (assisti todos quando criança). Terminei este livro pensando que daria um ótimo filme e que espero lembrar dessa história pra contar para os meus filhos.

O livro conta com dois personagens principais, a chinezinha Yeng-Cheng (uma espécie de secretária/doméstica que adorava varrer) e o Bildamaster, um linguista  (que falava com fluência dezenas de línguas). Os dois vivem em um casarão em São Paulo, um antigo instituto de pesquisas que está ameaçado por empreendedores que querem fazer do local um grande estacionamento (olha! me lembrei do castelo agora!!).  Antigamente o casarão era de propriedade de Dona Leocádia Laura, uma das únicas mulheres baronesas de café da época (poderosa!), um quadro com seu rosto fica exposto na parede principal da casa.

Bom, acontece que um dia um enorme buraco surge no quintal. O buraco é tão grande que seria possível passar um elefante, um rinoceronte (e ainda sobrar espaço). Do buraco surgem barulhos estranhos parecidas com vozes bem distantes e cavalos… Bildamaster, curioso que só, entra no buraco e vai parar na Inglaterra da Idade Média. Por outro lado, Dona Leocádia volta do passado e se depara com um mundo completamente novo.

Delícia de livro gente, eu amei a Dona Leocádia (que saiu de 1925) passeando pela Avenida Paulista e se surpreendendo com os carros, com a ausência dos casarões de seus amigos e com o metrô. Um livro inteligente e ao mesmo tempo, simples e cheio de aventuras para  encantar crianças inteligentes.

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Ultimamente fico estressada com quem me força sair de casa. Estão fazendo muito isso comigo e não sei o motivo. Quer dizer, sei sim. Me mudei para São Paulo há um ano, mudei meus hábitos e muito do que fui não existe mais. Dentre as coisas que ficaram está o gosto pela leitura e pelo cinema. As pessoas que me conhecem há muitos anos, aquelas lá de Nova Lima, sabem que eu não saio de casa se não tiver um bom (bom mesmo) motivo. Não troco os meus livros por uma multidão que não se parece comigo, só vou em shows quando o cantor me agrada e não porque “é de graça”. Fico irritada em ter que gastar cinquenta centavos com um evento que não gosto, mas estou juntando dinheiro para pagar os cento e sessenta reais de ingresso para a peça que vou assistir mês que vem. Adoro andar pela Paulista aos domingos e sempre penso no quanto seria bom se os meus amigos estivessem aqui comigo. Tô estudando e trabalhando muito e cada vez com mais preguiça de gente com conversa boba, tipo… “o meu crush gosta de morango”. Ah vá! Também estou com preguiça de gente que fala demais sobre signos. Estou revendo minhas necessidades e valores. Nunca tinha perdido ninguém, até que um familiar morreu e mostrou o quanto a vida pode ser curta (e bela). E triste. Me mostrou o quanto a vida dos que nós amamos é valiosa. Gosto muito de escrever e acho que escrevo mal, por isso sempre releio as publicações que faço aqui, sempre acho um erro gramatical ou de ortografia e me odeio durante algumas horas. Uma vez criei uma página de Facebook para este blog, uns amigos curtiram e também algumas pessoas que não conhecia. Fiquei fissurada nas pessoas que não conhecia, querendo saber o que elas acharam do blog e porque curtiam (eu ia até o perfil delas para fuçar). Achei isso meio doentio, apaguei a página e resolvi nunca mais fazer uma. O meu horário preferido é 17h30, acabei de me dar conta disso enquanto voltava para casa. Um horário que me remete a infância, quando saía da escola e ia andando pelas ruas arborizadas da cidade (e o caminho tinha muita árvore mesmo) até chegar e encontrar um café com pãozinho de sal me esperando. O vento gostoso batendo no rosto e a ansiedade ao esperar a minha mãe voltar do trabalho. Hoje andei para casa pensando, quando eu morrer, espero que seja às 17h30.

Mamãezinha, querida?

Sempre que assisto aos filmes estrelados por Joan Crawford me pergunto se ela fez aquelas coisas terríveis com a filha. Pouco depois da morte da atriz, Christina lançou um livro que narrava o terror que passou (durante anos) ao lado da mãe, a quem descrevia como uma pessoa obsessiva e violenta. Li o livro por duas vezes e aquelas palavras me pareciam muito verdadeiras, até que recentemente vi uma entrevista da Christina, já na casa dos sessenta anos, debochando (e muito) da Joan. Achei a atitude horrível! Fui pesquisar pelos outros filhos da Joan e encontrei diversos vídeos onde eles contradiziam tudo o que a Christina falava.
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A verdade é que nunca vamos ter certeza do que aconteceu e que é difícil não ficar curioso sobre as histórias contadas. Mamãezinha Querida é um livro autobiográfico lançado por Christina Crawford em 78, onde ela conta como sua mãe, uma das maiores atrizes Hollywoodianas, infernizou a sua vida. Desde espancamentos com cabides de ferro à ataques de fúria no jardim. Joan Crawford foi retratada como uma mulher histérica e com sérias variações de humor.  

Na entrevista que vi, Christina dizia ter odiado o filme e que não concordava com os exageros retratados na história. Dizia que como já tinha vendido os direitos sobre a obra, não tinha como intervir na montagem dos personagens. Mas falava como alguém em posição de conforto, que ganhou uma grana com todo aquele show de horrores e que ainda, conseguiu a fama (que sempre desejou). Só para constar, Chistina dedicou-se a vida de atriz , mas teve que se contentar com papéis medíocres.

É muito louco pensar que a Joan Crawford, antes de morrer, chegou a dizer que Faye Dunaway era a única atriz que poderia interpretá-la com maestria. E mais estranho ainda é pensar que Dunaway aceitou o papel que colocaria em xeque a imagem de Joan e que este trabalho tenha lhe rendido amargos resultados (os críticos caíram matando e ela chegou a ganhar o Framboesa de Ouro).

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O filme ficou conhecido por seus exageros e pela interpretação caricata que da Faye. Pior ainda foi a caracterização, uma maquiagem calcada nas duas grandes marcas da atriz: a boca (que era aumentada pelo batom) e as grossas sobrancelhas. Mesmo com as inúmeras referências, como as ombreiras que Joan tanto amava, a personagem de Faye não conseguiu transmitir glamour, mas uma imagem patética que beirava ao ridículo. Independente de ser ou não retratada como maquiavélica, Joan merecia mais.

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Li o livro quando tinha quinze anos, lembro que ficava andando com ele pela escola e lendo durante o recreio. A narrativa é toda em primeira pessoa e retrata desde a infância de Christina até a sua juventude. E é muito interessante o fato de ela sempre evidenciar que mesmo com todas aquelas patifarias que sofria, amava a mãe e a perdoava por seus atos de covardia. Christina critica muito a hipocrisia da mãe, que fazia tudo em função do marketing pessoal. Seus aniversários eram luxuosos e contava sempre com a presença de famosos. No fim da festa, Christina era obrigada a doar todos os seus presentes para as crianças carentes e só podia escolher um. Sua revolta era ter de se mostrar feliz diante das câmeras, mesmo destroçada de raiva.  (Prometo reler e escrever um post só sobre o livro!)

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Da Joan, nunca saberemos a versão. Mas existem algumas coisas interessantes sobre sua história que nos ajudam a entender um pouco de sua personalidade. Joan foi filha de mãe solteira e teve uma infância pobre (muito, muito pobre), sua mãe era viciada por limpeza e a ensinou sem “muito carinho” a melhor maneira para se arrumar a casa. Em uma entrevista que li dela, bem antiga, a atriz dizia que gostava de limpar a própria casa e o fazia como a mãe tinha ensinado: começando sempre pela cozinha.

Como mulher solteira, a atriz enfrentou sérios problemas para adotar os filhos na Califórnia. Precisou passar por vários processos e comprovar que era capacitada para ser mãe, até que resolveu viajar para outros lugares (Nevada e NY), com leis menos rígidas com o intuito de “agilizar as coisas”. Christina foi adotava em 1940, Christopher em 1942 e Catherine e Cynthia em 1947.

Joan morreu de câncer em maio de 1977, em seu apartamento em Manhattan. Sabia que Christina estava escrevendo sobre ela e tinha o pressentimento de que não eram boas palavras. Em conversa com seu amigo publicitário, John Springer, chegou a dizer: “Acho que Christina está usando o meu nome para ganhar dinheiro, será que ela acha que vou deixá-la financeiramente desamparada ou que vou desaparecer logo?”  No fim das contas, pouco antes de morrer, Joan Crawford mudou todo o seu testamento, deixando o resto de seu dinheiro para Catherine e Cynthia, para sua secretária Betty Baker e para associações de caridade que mais gostava.

Oura ironia é a de que Bette Davis, grande inimiga de Joan, ficou do seu lado quando o livro foi publicado. Bette dizia não acreditar em nenhuma daquelas palavras, que Joan não teria feito nada disso e que o livro deveria ser jogado no lixo. Mais irônico ainda é que a própria Bette Davis passou por essa situação, quando sua filha Bárbara escreveu horrores sobre ela no livro “My Mother’s Kepper”.

Amigos pessoais da Joan diziam que foi bom este livro ter sido publicado depois de sua morte, pois se ela estivesse viva isso teria despedaçado seu coração.

O cangaço, a oralidade e a espacialidade

Num dia desses, sem muitas pretensões, assisti a um documentário chamado “Feminino Cangaço”, que despertou a minha curiosidade sobre o movimento e me fez conhecer um mundo de informações. Na minha cabeça o cangaço se resumia a Lampião, Maria Bonita e aquela horrível imagem de suas cabeças expostas. Li inúmeros arquivos e trabalhos acadêmicos sobre o tema e há tantas coisas e perspectivas possíveis que é difícil resumir. Depois aproveitei o tema para fazer um pequeno trabalho pra faculdade, relacionando-o com o conceito de espacialidade e oralidade. Foi um movimento polêmico, controverso e inspirador que vale a pena ser conhecido. Das inúmeras leituras e anotações que fiz, divido com vocês (como sempre):

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Ilustração: José Lourenço

Breve resumo sobre a história do Cangaço

Para compreender o Cangaço, seu surgimento e sua importância histórica, é necessário não o desvincular das questões sociais e fundiárias no Nordeste. Este fenômeno de banditismo nômade, caracteriza-se por grupos de homens que vagavam pelas cidades em busca de justiça e vingança pela falta de emprego e alimento.

Os registros mais antigos sobre a surgimento do movimento data-se no fim do século XVIII. O primeiro cangaceiro da história teria sido José Gomes, conhecido como Cabeleira e nascido em 1751.  Porém o grupo só ganhou certa visibilidade com a atuação de Jesuíno Alves de Melo Calado, conhecido como Jesuíno Brilhante. Muitos interpretam o Cangaço como um grupo que trabalhava como justiceiros, outros o interpreta como um grupo de aproveitadores e criminosos. A linha entre essas duas perspectivas é realmente tênue, mas o que especialmente os caracterizava eram os assaltos sequestros e saques.

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O termo “cangaço” provém da palavra “canga”, uma peça de madeira utilizada nos pescoços dos bois para realizar certos transportes. Como os cangaceiros precisavam levar todos os pertences junto ao corpo, foi lhes dado essa denominação. O termo também está relacionado aos bandos de camponeses pobres que viviam no Nordeste e que usavam roupas de couro e levavam armas (carabinas, peixeiras e espingardas) junto ao corpo.

O bando ganhou força especialmente no fim do século XIX e início do século XX, quando ocorreu a ascensão de Virgullino Ferrreira da Silva, o Lampião:

“Tido por muitos como um justiceiro social e por outros como um bandido que matava a sangue frio, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi o cangaceiro que mais acendeu a imaginação popular. Uma das lendas que explica seu apelido diz que ao se apresentar ao bando de cangaceiros, aos 17 anos, Virgulino usou um truque que transformava um fuzil em metralhadora. A mágica consistia em amarrar ao mesmo tempo um lenço no cotovelo e na peça do disparador, de modo que quando acionasse o gatilho, o fuzil se armasse. Até hoje no Nordeste esse feito é conhecido como o pulo do Lampião” (GOMES, p.16, 2007).

A participação das mulheres no movimento ocorreu por volta de 1930, quando Maria Bonita (Maria Gomes de Oliveira), companheira de Lampião, se uniu ao grupo. A partir disso, mais de trinta mulheres passaram a fazer parte do cotidiano dos cangaceiros e serem consideradas criminosas; o maior número delas veio da Bahia, seguidas por mulheres do Sergipe, Alagoas e Pernambuco.

No entanto, a maneira em que foram inseridas no Cangaço é polêmica e por muitas vezes, desconhecida. Enquanto algumas delas ingressaram voluntariamente, outras foram coagidas, sequestradas ou privadas do convívio com seus familiares. A idade delas variava entre 13 e 26 anos e suas origens eram diversas, desde aquelas mais humildes àquelas de famílias abastadas que viam no movimento uma oportunidade de conquistar novos espaços e como uma atitude libertária.  Um fato interessante: quando grávidas, precisavam ficar escondidas e depois do nascimento do bebê, eram obrigadas a voltar ao cangaço e doar a criança para alguma família.

O marco do fim do Cangaço aconteceu na madrugada de 28 de julho de 1938 quando um grupo policial liderado pelo tenente João Bezerra encontrou e atacou o grupo de Lampião na fazenda Angico, em Sergipe. O Rei foi Cangaço, Maria Bonita, e outros dez cangaceiros foram degolados e tiveram suas cabeças expostas nas escadarias da Igreja Santana do Ipanema.

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Os Cangaceiros e a Espacialidade

Como não moravam em locais fixos, os cangaceiros tinham uma vida nômade. Viviam sempre em movimento, de uma cidade para outra, solicitando (ou exigindo) a ajuda dos moradores locais ou enveredando pela vegetação cheia de espinhos da caatinga. A singularidade deste comportamento é rica em sentidos e possibilita uma vasta gama de interpretações e análises. Uma delas é que o grupo representava uma ameaça constante à segurança da comunidade dessas cidades, por isso encarados como estranhos.

Recorremos a Zygmunt Bauman, autor de “Modernidade Líquida” para compreender melhor o sentido desses termos. A ideia de comunidade está muito próxima do que o autor chama de “utopia da harmonia”. É, acima de tudo, um território vigiado de perto, onde aqueles que fazem algo que desagrada os outros ou provocam ressentimento são prontamente punidos e colocados na linha. Ainda, segundo o autor, “os desocupados, os vagabundos e outros intrusos que não fazem parte, são impedidos de entrar”.

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Um acontecimento marcado na história do bando de Lampião e que pode ser facilmente relacionado ao tema da espacialidade é o famoso ataque a Mossoró. No dia 13 de junho de 1927, Lampião enviou uma carta ao prefeito, Rodolfo Fernandes, exigindo quatrocentos contos de réis para não atacar a cidade. Rodolfo recusou a proposta deixando claro que não tinha a quantia, e então Lampião decidiu invadir a cidade para saquear os comércios, os bancos e as casas.

“A ordem dada pelo prefeito era que quem estivesse desarmado saísse da cidade. O desespero aumentava mais a medida que o dia avançava. Às onze horas da noite, os sinos das igrejas de Santa Luzia, são Vicente e do Coração de Jesus começaram a martelar tetricamente, o que só servia para aumentar a correria. As sirenes das fábricas apitavam repetidamente a cada instante. Muita gente que não acreditava na vinda de Lampião, só aí passou a tomar providências para a partida. Na praça da estação da estrada de ferro, era grande a concentração de gente na busca de lugar para viajar nos trens que partiam de Mossoró. Até os carros de cargas foram atrelados a composição para que a multidão pudesse partir. Mesmo assim não dava vencimento, e os retardatários, em lágrimas, imploravam um lugar para viajar. ” (MAIA, 2016)

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A cidade, com o apoio de soldados, resiste ao ataque dos cangaceiros. Lampião foge com seu bando deixando um de seus companheiros baleado e atirado no chão, fora o cangaceiro Colchete, preso em Mossoró. Com medo do bando voltar, os defensores da cidade permaneceram em plantão por toda a noite.

O sentido de segurança em relação aos estranhos fica ainda mais interessante e complexo com as duas estratégicas sociais, identificadas por Claude Lévi-Strauss. De certa forma, as duas foram utilizadas com os cangaceiros. A primeira é a antropoêmica e consiste na ideia de “vomitar”, cuspir os vistos como estranhos e incuráveis, impedir o contato ou o diálogo, reduzir a interação social. A segunda é a antropofágica, e consiste numa desalienação. Uma forma de ingerir, devorar os indivíduos, uma espécie de assimilação forçada.

O Mestre: Lampião

Mesmo com sua personalidade obscura e assustadora, Lampião trazia consigo um brilho refletido na sua vontade de justiça. Foi isso que o fez entrar para o cangaço aos 17 anos, o intuito de vingar a morte do pai, assassinado em um assalto policial.

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A força que trazia dentro de si foi uma das causas que impulsionou e direcionou o movimento, sua morte deixou seus companheiros sem a orientação de como seguir adiante e enfraqueceu o bando a ponto de deixa-lo à beira do extermínio. Mais que um líder, Lampião também pode ser considerado como uma espécie de mestre.

Como explica Abib (2006, p.88), “o mestre é aquele que é reconhecido por sua comunidade como o detentor de um saber que encarna as lutas e sofrimentos, alegrias e celebrações, derrotas e vitórias, orgulho e heroísmo das gerações passadas, e tem a missão quase religiosa de oferecer esse saber àqueles que a ele recorrem”.

No caso de Lampião, sua figura não foi uma referência só para os cangaceiros. Muitas pessoas, fora do movimento, tinham nele a imagem de herói. Como explica Gomes (p. 17, 2006): “Até os próprios coronéis necessitaram da apreciação popular das ações de Lampião para justificar a impunidade dos cangaceiros. […] Como explicar a vitória de um pequeno bando sobre a polícia de oito estados se não pelos “superpoderes” dos cangaceiros? ”

Oralidade: a roupa e as histórias

É impressionante a riqueza cultural que pode ser extraída deste movimento. Quando se trata de oralidade, muitos são os temas a serem abordados e diversas podem ser as perspectivas. A começar pelas vestimentas dos cangaceiros, que por sí só, contam muitas histórias. Imagine que aquelas roupas pesavam cerca de trinta quilos, isso numa época em que a maioria dos deslocamentos eram realizados a pé. Como dito anteriormente, a roupa do cangaceiro era a sua casa, ele levava ali todos os seus pertences (incluindo os mais valiosos).

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A roupa: Ao longo dos anos, os integrantes do movimento foram construindo uma estética própria.  Os tecidos das roupas eram grossos e entrelaçados, normalmente eram de cor ocre (parecido com barro, argila). As calças eram alpercatas, uma espécie de meia grossa que protegia a pele contra os gravetos e espinhos. Os famosos chapéus de couro tinham abas largas e viradas para cima, normalmente eram enfeitados com mandalas ou com estrelas de cinco pontas. Eles também usavam lenço no pescoço, e na cintura, muitas bolsas, cabaças ou manculões como suporte para transportar os objetos pessoais.

Sobre o chapéu, a matéria assinada por Pollianna Milan e publicada pelo Jornal a Gazeta, vem esclarecer que “[…]a aba virava naturalmente para cima quando se cavalga, durante o período do cangaço, serviu de suporte de arte (na aba iam alguns enfeites) e também de alerta: nenhum cangaceiro poderia correr o risco de ser surpreendido em uma emboscada, por isso não poderia andar com a aba abaixada escondendo os olhos. ”

Outro detalhe interessante: os amuletos utilizados nas vestimentas traziam sorte e proteção. Para os cangaceiros, eles serviam como um objeto que neutralizava o mau-olhado.

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As histórias: As heranças deixadas pelo cangaço são diversas e as histórias são recontadas até hoje. É a memória como força instauradora, repleta de ritualidades a serem interpretadas e de referências a serem relembradas. Conta-se, por exemplo, que Lampião teve o olho direito furado por um galho seco de arbusto quando fugia correndo pela caatinga, por isso era cego de um olho. Ou que, por odiar mulheres de cabelo curto, Lampião mandou marcar com ferro aquelas que o desobedeciam. Quando uma cangaceira era morta ou feita prisioneira, os cangaceiros iam atrás das mulheres dos policiais para descontar o feito.

Das inúmeras histórias, vieram as narrativas orais, teatrais, musicais, televisivas e fílmicas. Além dos trabalhos acadêmicos, das teses e das exposições. Dos filmes, dois grandes exemplos, “Corisco e Dadá” (1996, direção de Rosemberg Cariry) e “Deus e o diabo na terra do sol” (1964, Glauber Rocha).  Dos livros cita-se “Os Cangaceiros” de José Lins do Rego e o romance O Cabeleira, de Franklin da Távora. Não podemos esquecer dos cordéis que apresentavam posições fantasiosas sobre as façanhas de Lampião, ora refletindo o medo ora a admiração da mentalidade popular.

Referências

ABIB, Pedro Rodolfo Jungers. Roda de Capoiera, Angola e a força do canto dos poetas –  Uma abordagem sobre a noção da circularidade do tempo. 2006.

ANDRADE, Altair. A história do cangaço: verdades, lendas, narrativas sobre um fato histórico-social. Disponível em: http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/historia-do-cangaco-verdades[Acesso em 01.06.2016]

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Editora Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007.

GOMES, Karolina. HACKMAYER, Monica. PRIMO, Virgina. Lampião, Virgulino e o mito. Revista Eclética, Junho-Dezembro de 2007.

MILAN, Pollianna. A moda do cangaço. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/a-moda-de-lampiao-26ohoct3wvy2p0942qutg2pu6 [Acesso: 01.06.2016]

Mulheres do Cangaço: www.mulheresdocangaco.com.br [Acesso em 03.06.2016]

Feminino Cangaço, documentário. Centro de Estudos Euclides da Cunha, WebTV Unerb, Direção Lucas Viana

Revista História: As Cangaceiras. Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/as-cangaceiras. [Acesso em 01.05.2016]

RASPANTINNI, Márcia. Femino Cangaço: Mulheres que Transgrediram as regras do sertão. Disponível em: http://historiahoje.com/feminino-cangaco-mulheres-que-transgrediram-as-regras-do-sertao [Acesso: 04.06.2016]

MAIA, Geraldo. O dia em que Lampião atacou Mossorró: Disponível em: http://www.passandonahorarn.com/2015/06/o-dia-em-que-lampiao-atacou.html [Acesso: 04.06.2016]

 

Os perigosos – Autobriogafias e AIDS

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“Os perigosos” é um daqueles livros que se guarda para sempre, o encontrei perdido em uma das estantes da Leitura e o trouxe junto na mala na minha mudança para São Paulo. Li fazendo inúmeras anotações, tentando ficar atenta a tudo. Marcelo Secron Bessa tem um texto dinâmico, delicioso e muito esclarecedor. Foram 379 páginas de muito aprendizado.  O livro realiza uma análise sobre as produções literárias com temáticas relacionadas à AIDS e dá uma ênfase nas autobiografias.  Mais do que isso, oferece uma oportunidade de compreender como a imprensa reagiu em relação a doença e como reforçou alguns estigmas (tinham uma narrativa baseada em medo e preconceito, mas ao mesmo tempo, alertavam e informavam os leitores).

Este é um tema que me interessa muitíssimo, por vários motivos. Me impressiona como a minha geração desconhece a história relacionada à doença e por vezes, acredita estar imune a ela. Como eu disse, este livro me ensinou muito e me fez ter conhecimento sobre histórias e fatos que não imaginava. Nos primeiros capítulos, o autor conta que a epidemia foi tratada como um “câncer gay” e que muitos acreditavam que ela não chegaria ao Brasil. Na época, a imprensa direcionava matérias sobre a AIDS para as seções de saúde.

Uma das grandes discussões, que prevaleceu por muito tempo, é a de como encarar o doente. Eram vítimas ou culpados¿ Existia ali uma inocência ou uma vilania? Como a doença foi diretamente ligada aos homossexuais, existia todo um discurso moralista que os tinha como pervertidos. Os médicos e os enfermeiros, por outro lado, eram tratados como heróis. Na metáfora militar, eles encarnavam os soldados na linha de frente de combate. Ao longo dos anos foram surgindo narrativas literárias e matérias com tom romanesco. Um exemplo interessante é o de um jornalista que se passou por médico para acompanhar o dia a dia de um hospital que tratava desses pacientes.

O autor dialoga com muitos outros autores que realizaram um trabalho literário sobre a AIDS, como Susan Sontag, Michel Foucault, Jean-Claude Bernardet, e Valéria Polizzi. Também entre eles está Hebert Daniel.  Sobre Herbert, o autor afirma: se Cazuza foi a cara da doença, Hebert Daniel foi a voz. Sobre Hebert há um apontamento interessante, ele não gostava do termo “aidético” dizia: “Não sou aidético, estou com AIDS”. Sobre isso, reescrevo uma citação que marquei no meu livro:

“Nas reportagens jornalísticas anteriores, a pessoa com AIDS é chamada de vítima, doente, condenada e similares. Usualmente, ao serem interpelados sobre o porquê do uso de aidético em detrimento de termos menos tendenciosos, os jornalistas esclareciam que seria imposição dos editores para ocupar menos espaço. Decerto que isso faz sentido, já que, geralmente, os textos jornalísticos têm espaços contadíssimos e, por isso, devem prezar pela síntese. Mas, hoje, relendo uma fotocópia daquela edição do jornal, penso que além da intenção (e necessidade) de ocupar menos espaço nos textos, parece também que sua criação pelo tal “ABC da AIDS”, naquele momento e naquele contexto, visavam dar um tom, digamos, mais científico e, portanto, neutro do que parece indicar a justaposição desse termo com outros mais médicos e técnicos”.

O capítulo que mais gostei, que está todo marcado e cheio de post its, fala sobre Caio Fernando Abreu (um dos meus autores favoritos). Caio foi um homem extremamente sensível e marcado como um “escritor pesado e de baixo astral”. Por volta de 1994, quando se descobriu soropositivo, ele se tornou uma “celebridade”, o que de certa forma lhe causou certo incômodo:  “Sinto que houve, primeiro, quando me declarei soropositivo, um espanto, depois um movimento meio de solidariedade, misturado de piedade e escândalo. E acho que Ovelhas negras não recebeu atenção da crítica. Ganhou muita nota, teve muita entrevista e aí os caras só queriam saber sobre AIDS, era um absurdo. Depois (de aparecer no programa) do Jô Soares, parei. Porque o meu trabalho literário continua. O resto da crítica falava sobre um escritor com AIDS e tal, inclusive nas críticas da reedição de Morangos Mofados. O texto não foi levado em consideração”.

Durante a doença, Caio busca inspiração em Frida Kahlo e se identifica com a dolorosa vida da pintora que, depois de um acidente, passou por sérias intervenções cirúrgicas e sentiu muitas dores. “Tenho lido muito. Sofri e chorei com O diário de Frida Kahlo que me dá muita força: se ela suportou tanta, tanta dor, porque eu não suportaria também?”

sobre “O terceiro sinal”

Eu pensei muito se iria ou não escrever sobre a peça, depois de duas enormes publicações sobre Bete Coelho, eu realmente me perguntei se ficaria repetitiva. Provavelmente sim, mas a verdade é que pouco me importa. Eu sempre escrevo neste blog pensando em que vai lê-lo, mas penso no quanto cada um desses textos importam para mim e para a minha memória.

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Assisti a peça duas vezes, cheia de expectativas e emoções. Quando foi lançada, eu ainda morava em MG e cursava jornalismo. Li algumas passagens do livro e sempre o relacionava com o novo jornalismo e com o jornalismo literário.

No segundo dia em que vi a peça, o autor do livro estava no teatro. Dele eu fazia uma outra ideia, na minha cabeça a imagem impregnada era a de um homem alto, robusto e de cabelos escuros. Nunca parei para pesquisá-lo e jurava que era um jornalista contemporâneo do Nelson Rodrigues ou algo do tipo (isso antes de ler o livro, apenas com algumas imagens da peça na cabeça e pouco conhecedora da sinopse).Quando o vi, fiquei curiosa,, esperávamos Bete trocar de roupa. Na minha invisibilidade, eu reparava tudo o que me cercava com uma sensação louca que alterava meus sentidos, uma anestesia mesmo. Ele era baixo, com orelhas meio pontudas e bem diferente de tudo o que imaginei. Tinha cabelos brancos.

Por um momento a impressão foi quebrada, reparei uma situação meio chata e constrangedora. Não sei se todo mundo viu ou se quem viu, fingiu que não. Assim como eu também o fiz. Meus sentidos foram alterados, aquela ideia do “personagem” tinha se transformado, como se um quadro acabasse de receber uma grossa pincelada que alterasse as cores já aplicadas.

Mas isso não é tão importante. Vamos ao que realmente interessa, o livro a qual a peça é baseada se chama Queda livre e contém a narrativa de pequenas aventuras da vida dele, alguns desafios que ele se impôs. A peça fala sobre uma delas, de sua experiência como um ator não profissional. Ele participava de um trabalho do Teatro Uzyna, dirigido por Zé Celso. Era Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues.

Sabe, sempre quando penso em metalinguagem me remeto à Almodóvar. Acho bárbaro as peças e filmes que trabalham com esse recurso de uma maneira simplificada e bem finalizada. “O terceiro sinal” é um desses, é o teatro falando do teatro de uma maneira muito sensível e por vezes cômica.

P.S = Estou sentada numa sala da USP, esperando a aula começar; enquanto isso escrevo.

Voltando… eu reparei em tudo naquele dia, desde o papo das pessoas na fila, aos detalhes das marcas no palco. Eu não queria perder nada. Por exemplo, por mais que o evento tenha sido gratuito, eu senti uma falta do “povão”. Daí me lembrei de um estudo acadêmico sobre a importância da arquitetura do Palácio das Artes em BH e como essa própria arquitetura afasta mais o povo do que atrai. Na pesquisa as pessoas entrevistadas disseram que não entravam  no Palácio das Artes porque não tinham dinheiro para pagar pelos eventos, sem saber que muitos deles são gratuitos ou a preços populares.

Me impressionei muito com a tranquilidade da Bete diante daquela gente fria e ávida por uma ação. Se fosse eu, teria saído correndo bem antes das cortinas abrirem. Depois o que me impressionou foi a facilidade e o domínio com as falas, algo que sempre me remete à Anna Magnani (e não sei porque) talvez porque ela amava o teatro tão e intensamente, que se preocupava em dizer as falas com precisão quase religiosa em respeito aos escritores. [Pelo menos foi isso que li sobre ela].

A insegurança de Otávio/personagem diante da necessidade de entrar no palco é bem cômica, mas me soou mais sentimental. Aquele palco poderia ser reinterpretado de muitas outras  formas, como quando encaramos os desafios da vida: o primeiro parto de uma mulher, a apresentação de um TCC, a primeira viagem sozinha, a visita a casa dos pais do namorado, o adeus a virgindade.Do melhor que senti do personagem foi seu medo e sua vergonha, medo do insucesso, da derrota, do tombo. vergonha da voz, do próprio corpo, da falta de experiência.

A história dele é um encorajamento para que não tenhamos medo de encarar um mundo novo e desconhecido. Um lembrança das nossas condições, de que estamos sempre muito perto do fracasso e da imperfeição e que tentar já é de certa forma uma vitória.

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PAUSA

19:34h  – A aula começou há alguns minutos e quase caí da cadeira quando o professor falou que o tema seria: QUEDA LIVRE. Estamos estudando a pós-modernidade e alguns conceitos bem complexos como o estruturalismo, o pós estruturalismo e a reconstrução. É muita coincidência (e acreditem em mim, juro que isso tá rolando agora!) O subtítulo da aula é: “Um grão de areia no maremoto”. Agora ele menciona um texto obrigatório que relaciona a pós modernidade com a montanha russa, uma alegoria. Estou anotando tudo o que ele diz por que ainda estou incrédula sobre como esta aula está tão ligada ao que acabei de escrever sobre a peça. “Perdemos os sentidos, beijamos o céu. Insegurança na subida e quanto mais alto, maior a queda. Começamos a perder os sentidos e as certezas, depois vamos para o looping: você vira de ponta cabeça e sofre um descentramento, não sabe qual é o próximo passo, Pânico, Caos. É o fim, é o nada”

As lágrimas do comediante, disse um dia Diderot, escorrem de seu cérebro; as do homem sensível jorram de seu coração.