Um pedido

Se eu te pedir, você faz uma coisa pra mim? Olha, eu não vou pedir coisa demais, eu só quero distância. Sabe o que é? Depois dos últimos acontecimentos, depois do que fizemos um ao outro, não dá mais, não dá nem pra tentar de novo. Mas se eu te peço distância, não fique tão magoado. É que eu não quero por a perder todas as coisas boas que fizemos e dissemos um ao outro. Tenta me entender, por favor. Vamos ser menos ingênuos menos infantis: tá na hora de reconhecer que já chega e que não dá mais. Eu só peço distância, por que as coisas ruins têm um peso tão maior do que as boas que estamos colocando tudo a perder: as confissões que fizemos um ao outro se tornaram ameaças.  Eu sei que dói, mas não é possível amar sozinho e eu não te amo mais. É duro dizer (e eu sei que é difícil ouvir): Acabou.

O contrário do Amor

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(Martha Medeiros)

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.

Não escrevi es…

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Não escrevi esse texto antes, justamente para acompanhar mais um pouco a cobertura e a repercussão da morte de Hebe Camargo. Inclusive, não desgrudei os olhos da TV no domingo (30/10), dia do seu enterro. Hebe conseguiu unir a programação das principais emissoras brasileiras (Rede Globo, Record, SBT e Rede TV) onde, cada uma a seu modo, prestou a sua homenagem. Acontece que fomos pegos de surpresa, a repetitiva imagem da apresentadora sorridente e fazendo estripulias (como mesmo dizia) ficou tão intrínseca na memória do país, que foi difícil crer que ela realmente se foi.

 

Fiquei sabendo da notícia por uma tia, enquanto lavava vasilhas. Quando saí na rua, um vizinho comentava com outro o quanto estava triste. A morte da Hebe uniu a minha família em frente à TV, cada um queria ver a transmissão de uma emissora diferente. Recebi uma amiga em casa, tínhamos comemorado o aniversário da minha mãe no dia anterior e ela, assim que chegou, se uniu para assistir a programação.

A imagem daquele carro de bombeiros circulando as ruas do Morumbi me lembrou a morte de outras figuras populares que inclusive, morreram antes de eu nascer (e que tomei conhecimento pela internet ou pela própria TV). A morte de Elis, de Airton Senna e de Tancredo Neves, todas guardam uma semelhança: a comoção popular e o incrível sentido e proporção que acabam tomando: tornam-se cenas que entraram para a história.

O assunto não acabou naquele dia, nem naquele lugar. Hoje de manhã, quando cheguei, os garotos do laboratório de vídeo da faculdade comentavam: “Você viu, estamos mesmo chegando no fim do mundo: a Hebe morreu”. Alguns estavam sentidos e não queriam transparecer aquela sensação de perda (uma perda virtual, porque nunca a vimos pessoalmente e mesmo assim sua presença se tornou costumeira em nosso cotidiano).  Logo depois no ônibus um casal deu um selinho: “Selinho da Hebe”, disse a moça para o namorado.

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Essa catarse televisiva (e midiático) é de tamanha grandeza que a frase da minha professora de TV passou a ter ainda mais sentido: “Quem tem o microfone, tem o poder”. No Twitter, Hebe ocupou os trendings topics, tornou-se assunto massivo da internet (os vídeos no Youtube que se tratavam dela, aumentaram consideravelmente em horas), os jornais escancaram seu rosto nas capas, o “Meia Hora” trazia a Hebe mandando um selinho e em pequenos quadrados: seu público retribuindo.

Um dos jurados do programa do SBT “Qual é o seu talento” (desculpem, não me lembro o nome agora), disse uma das frases de mais sentido: “Hebe era a cara do Brasil, era a morena que ficou loira, era a alegria e o bom gosto ao se vestir, o brasileiro gosta de ser ver bonito”. E poucos sabem, foi objeto de estudo de muitos pesquisadores que queriam entender e aprender a: linguagem televisiva. Enfim, Hebe só estava esperando a morte para se transformar em uma estrela de verdade.

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(Caricatura por: Luis Fernando)

Filmes da Infância, parte 1

Como disse em um post anterior, resolvi criar uma lista de filmes gostosos da minha ( e de muitas outras pessoas) infância, comecei falando do meu favorito “A Família Addams”: alguns desses filmes  se tornaram clássicos, outros cairam no esquecimento… vale a pena conferir:

1) Edward Mãos de Tesoura (1990):

O filme dirigido por Tim Burton me trazia um sentimento estranho. Aquele clima de romance e fantasia me fizeram acreditar por muito tempo que a neve realmente vinha das mãos (ou tesouras?) daquele personagem apaixonante. A delicadeza das músicas de Danny Elfman e a simpatia da personagem de Dianne Wiest (Peg), me fizeram chorar muito. Vocês se lembram daquela cena em que a Kim (Winona Ryder) dança na neve e ele sem querer, corta a mão dela? Claro que lembram… Cara, que sentimento aflitivo! Mas se tem uma coisa da qual não consigo esquecer são os cortes de cabelo e os bonecos que ele fazia nos jardins. Aquela cena em que o velho inventor morre, e o deixa sozinho naquela mansão escura me sensibilizou tanto, que ficava me perguntando o que o Edward faria “incompleto”. Sempre que passava na Sessão da Tarde eu não perdia e tempos depois comprei o DVD para guardar com uma das minhas melhores recordações. O filme recebeu o Oscar de melhor maquiagem em 1991 e foi o primeiro em que Johnny Depp e Tim Burton trabalharam juntos.

 

·O cantor Michael Jackson comprou as famosas mãos de tesoura quando foram leiloados

·Os primeiros esboços do filme foram escritos como um musical.

·A maquiagem de Johnny Depp levava cerca de 1h45 minutos para ficar pronta.

·O filme é um fábula moderna inspirada em: A bela e a Fera, e O fantasma da Ópera e Frankenstein.

2) Os Batutinhas (1994): Continue reading “Filmes da Infância, parte 1” →

A RAINHA CARECA

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Hilda Hilst


De cabeleira farta
de rígidas ombreiras
de elegante beca
Ula era casta
Porque de passarinha
Era careca.
À noite alisava
O monte lisinho
Co’a lupa procurava
Um tênue fiozinho
Que há tempos avistara.
Ó céus! Exclamava.
Por que me fizeram
Tão farta de cabelos
Tão careca nos meios?
E chorava.
Um dia…
Passou pelo reino
Um biscate peludo
Vendendo venenos.
(Uma gota aguda
Pode ser remédio
Pra uma passarinha
De rainha.)
Convocado ao palácio
Ula fez com que entrasse
No seu quarto.
Não tema, cavalheiro,
Disse-lhe a rainha
Quero apenas pentelhos
Pra minha passarinha.
Ó Senhora! O biscate exclamou.
É pra agora!
E arrancou do próprio peito
Os pêlos
E com saliva de ósculos
Colou-os
Concomitantemente penetrando-lhe os meios.
UI! UI! UI! gemeu Ula
De felicidade
Cabeluda ou não
Rainha ou prostituta
Hei de ficar contigo
A vida toda!
Evidente que aos poucos
Despregou-se o tufo todo.
Mas isso o que importa?
Feliz, mui contentinha
A Rainha Ula já não chora.

Moral da estória:
Se o problema é relevante,
apela pro primeiro passante.


Os versos acima foram extraídos do livro “Bufólicas”, Editora Globo – São Paulo, 2002, pág. 15, que conta com ilustrações magníficas de Jaguar.

 

Entre Pancho Villa y una Mujer Desnuda

Conheço muito pouco (pouquíssimo mesmo) do cinema mexicano, mas há alguns anos me esbarrei com um filme de Isabelle Tardán e fiquei simplesmente apaixonada. ‘Entre Pancho Villa y una Mujer Desnuda’ é um daqueles longas divertidos, com um toque teatral que te prendem pela delicadeza e pelo desempenho dos atores em cena.

Gina é uma mulher de cinquenta anos que tem uma carreira de sucesso e que de maneira profunda, foi se entregando e nutrindo o relacionamento com Adrián, que no início se baseava apenas em sexo. Os dois possuem uma admiração pela figura de Pancho Villa e decidem escrever um livro sobre sua história. Enquanto realizam um estudo sobre Pancho e suas mulheres, tentam sustentar seu namoro que está cada vez mais desgastado. Gina quer um filho e Adrián apenas sexo. Um dia se encontram e Gina consegue convencer Adrián de lhe fazer um filho: transam loucamente, no quarto, cozinha e na sala.

Depois de dias de espera, Gina vai até o apartamento de Adrián e descobre que ele está com outra mulher. A raiva dela é tamanha que lhe dá um tapa e, naquela chuva forte, acaba quebrando o salto. Adrián se vai, fica por tempos sem procurar Gina, aceita viajar para o jornal em que trabalha.

 Ela também já cansada daquela situação, arruma um outro namorado, que tem a metade da sua idade e que a ama intensamente. Depois de meses, Adrian trata de recuperar Gina, liga todos os dias e ela nem se dá ao trabalho de atendê-lo. A figura de Pancho Villa (como uma atuação divida de Jesus Ochoa) então aparece. É a masculinidade de Adrián representanda em um homem que não aceita um “não” de uma mulher.

Onde Adrián está, Pancho vai para lhe dar dicas de como reconquistar Gina. Bom, foi aí que o filme me conquistou… A cada “ponto perdido”, a cada surpresa negativa que Gina faz para Adrián, Pancho leva um tiro. Ela conta que está namorando, que não o ama mais, que não quer vê-lo mais. Vai correndo para um praça e ele a segue, oferece o livro, já publicado que os dois começaram a escrever juntos (e que ele terminou sozinho), ele diz que fez uma dedicatória para ela. “Mas a mão, Adrián? A mão?”. Pancho incita Adrián a matá-la, todo o tempo. “Não a deixe fugir”. Adrián aponta uma arma para Gina, atira… e quando percebe, o que tem nas mãos é apenas um livro. Gina o deixa sozinho na praça. Adrián se ajoelha e ela já não está mais, ele chora e Pancho leva um ultimo tiro, e cai sobre a fonte, desfalecido.

O filme ganha uma dinamicidade muito grande desde aí. A situação muda completamente de contexto e a procura constate agora, parte do homem. Sabe, não tem mais o que falar a não ser ASSISTAM, NÃO PERCAM!

Diana Bracho está lindíssima, exalando feminilidade no auge dos seus cinquenta e poucos anos…  O filme está disponível no Youtube, os links seguem abaixo:

(Parte 1) http://www.youtube.com/watch?v=pi-CqrajoQg

(Parte 2) http://www.youtube.com/watch?v=E7zvDAt8UpY&feature=relmfu

(Parte 3) http://www.youtube.com/watch?v=eS6XVgxK7nM&feature=relmfu

(Parte 4) http://www.youtube.com/watch?v=agwQyeWtNZE&feature=relmfu

(Parte 5) http://www.youtube.com/watch?v=FxJOzKZrsOM&feature=relmfu

(Parte 6) http://www.youtube.com/watch?v=9cfZHM9Tujs&feature=relmfu

(Parte 7) http://www.youtube.com/watch?v=vmEh0wWTfUw&feature=relmfu

(Parte 8) http://www.youtube.com/watch?v=XQ0PkGr-K_g&feature=relmfu

Parte 9 ) http://www.youtube.com/watch?v=KiOpHv0sLu8&feature=relmfu