Bloco do Eu Sozinha

Nova Lima - Estrada

Sempre gostei muito de carnaval. Trabalhar nesse feriado só reforçou a idéia do quanto eu gosto de ouvir a banda e ver os blocos de rua. Ficar presa numa redação foi a pior das torturas. Eu entrava na sala, ligava a TV para assistir o compacto das escolas de samba e enquanto isso recebia vídeos das TVs do interior que traziam as atualizações das festas na cidade. Nesse meio tempo, acompanhei os inúmeros acidentes que aconteceram pelas estradas mineiras e li algumas coisas sobre a renúncia do Papa Bento XVI.

Ainda bem que meu carnaval não passou em branco. No domingo pude aproveitar o melhor do Bloco dos Sujos e os desfiles das tradicionais escolas da minha cidade, Nova Lima. Segui a banda o quanto pude. Na verdade fiquei incomodada com uma coisa: as pessoas que acompanhavam (principalmente os mais jovens, é claro), não sabiam cantar as marchinhas. Era palavrão pra cá, ‘canoa virar pra lá” e só. Uma pena, afinal as letras são tão bonitas e o legal é cantar junto. Além das figurinhas repetidas e dos moços de cabelo pintado de amarelo, senti uma nostalgia incrível quando vi uma menina vestida de mulher gato. Era uma fantasia que eu usei inúmeras vezes (e eu amava!). E a minha mãe, sem duvidas, foi a minha melhor companheira nessas festas.

No centro eu vi famílias inteiras fantasiadas. Aliás, tive uma discussão acalorada com as colegas do serviço outro dia. Elas diziam que o carnaval só serve pra se fazer filho e “pegar doença”. Em contrapartida, eu batia o pé e dizia: o carnaval é um fenômeno fantástico. As pessoas saem à rua, dançam, se abraçam, se beijam. Elas se fantasiam e por poucos dias tem a liberdade de agir de uma maneira que não podem durante o resto do ano. No carnaval você vê pais de família, homens sérios, vestidos de bailarina. Você canta as músicas que seus pais e seus avos cantavam, saudando o país, o amor e a liberdade. É uma das festas mais bem humoradas que existem (e politicamente incorretas também).

sujos

Jony’s Mary!
Jony’s Mary!

E porque não, uma festa de lembranças também. No salão que eu costumo freqüentar, as meninas comentavam que o carnaval só ia até a meia noite de terça feira. Diziam que quem ficasse na rua depois disso, iria ver a Mula sem cabeça. E elas ficavam com medo, corriam para casa o quanto antes. Na quarta, falava-se baixo, não se varria a casa. Tudo em sinal de respeito. A quarta-feira de cinzas era um dia silencioso, carregado. Era um dia de penitências. Minha avó dizia que adorava ver o desfile das escolas de samba, mas a mãe dela sempre a impedia de ver a ala das mulheres, que eram ‘prostitutas (?). Se não tinha serpentina, jogavam papel higiênico mesmo.

E então, com a impossibilidade de pular o carnaval do jeito que eu gosto. Na terça-feira, último dia de festa, fui tirando fotos pelo caminho. Mudei o trajeto. Passei por ruas em que brinquei quando era pequena. Revi a minha antiga escola. Enquanto caminhava, percebi que em diversas casas ouviam-se marchinhas de carnaval. O clima de festa também estava dentro das casas. Passei pelo beco. Uma rua estreitinha, cheia de arames (que não sei por que, me remeteu a Auschwitz).

Nova Lima

Beco Nova Lima

Nova Lima

Passei pelo centro, vi o Bloco dos Sujos descer de relance. Deu vontade de acompanhar, mas segui o meu caminho. Vi (e fotografei) Jony’s Mary (um senhor que incrivelmente, só encontro no carnaval – Ele se tornou uma figura conhecida em Nova Lima porque além de fazer as próprias fantasias, sempre se destaca dançando pelas ruas). Do ônibus, tirei fotos da paisagem que vejo TODOS os dias antes de chegar a Belo Horizonte. A mata, o céu, tudo tão bonito.

Então, nessa terça feira de carnaval, andando pelas ruas, acabei criando, sem querer o meu bloco: o bloco do eu sozinha.

BH NOVA LIMA

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Estrada Nova Lima

Luz

Conheci Samira em Agosto do ano passado. Estávamos na Praça da Estação e íamos participar da Marcha Nacional Contra a Mídia Machista. Samira tinha acabado de se unir ao grupo e me perguntou, um pouco envergonhada, se eu conhecia uma menina chamada Bárbara. Elas tinham marcado de se encontrar, mas a menina acabou não aparecendo.

- Marcha Nacional contra a Mídia Machista, agosto de 2012
– Marcha Nacional contra a Mídia Machista, agosto de 2012

Enquanto a Marcha não saía, conversamos sobre diversos assuntos. Samira me contou que há anos se interessava pelo feminismo e que essa era a sua primeira marcha. Disse que fazia psicologia e que tinha algumas ideias para intervenções. Lembro que me pediu o óculos escuro emprestado, ela estava sem lentes e olhos doíam na claridade. Seguimos até a Praça da Liberdade, entoando gritos feministas e dividindo olhares de cumplicidade. Não só eu e a Samira, todos que estavam participando da Marcha tinham os mesmos olhares, a mesma ideologia. Na despedida, trocamos e-mails, telefone e prometemos uma a outra, que não iríamos perder contato.

Passamos a nos encontrar frequentemente na faculdade, tínhamos diversos planos. Aos poucos, Samira foi se tornando uma amiga. Dividíamos segredos, trocávamos indicações de livros, íamos ao cinema, a museus. – Samira Luz, era assim que ela gostava de ser chamada. Se não me engano, foi em outubro que aconteceu a Noite Branca em Belo Horizonte. Ficamos até as quatro horas da manhã no Parque Municipal admirando as obras de arte, brincando no gramado e discutindo feminismo. Samira tinha queda por assuntos que envolviam “religião”. Além das teorias, sempre indicava um artigo ou livro sobre o papel das mulheres na história religiosa. Ela tinha uma fome de conhecimento insaciável. Dizia que acreditava em um Deus de amor e de justiça.

Em uma quarta-feira qualquer eu saí do serviço e fui encontrá-la  a noite. Eu, ela e uma outra amiga, a Anna Bella, tínhamos combinado de ir a um barzinho juntas. Não me recordo porque, mas a Anna não pode ir. Então, ficamos eu e Samira, tomando refrigerante e dividindo histórias. Lembro que ela me disse que desde pequena, sentia-se feminista. Era uma aluna aplicada, que sentava-se na primeira carteira e fazia redações sobre as condições das mulheres. Eu não sei se era apenas uma divagação, mas ela falava com muita certeza. Achei graça quando ela sugeriu que ficássemos, por uma semana, fazendo movimentos em Belo Horizonte. Ela queria montar barracas de orientações, apresentar peças e vídeos. No íntimo, eu pensava: “ não temos estrutura para isso”.

Não tínhamos mesmo. Mesmo assim, colocou a ideia no papel, dividiu no grupo do Facebook. Samira era assim. Ela não queria atingir poucas pessoas, ela queria atingir todo mundo, entende? Acho que esse é um frescor da juventude, essa inocência de achar que pode mudar as coisas. Participamos de outras marchas juntas. Na última, Samira observava algumas pessoas, me chamava no canto e dizia: “olha só que semblante sério” ou então “olha que pessoa ensopada”. Ensopada ou carregada de sentimentos.

Vivíamos conversando pelo Facebook ou por telefone. Um dia ela me ligou e contou sobre uma convenção que acontecerá em Julho para discutir a participação das mulheres na religião. A conversa ia muito além da pergunta que eu sempre fazia: “Porque uma mulher não pode comandar uma missa?”. Samira sempre me dizia que essa discussão é mais profunda e que envolve aspectos antropológicos e éticos. Ela estava muito feliz. Foi convidada a ser uma das representantes do movimento aqui em BH e eu lembro que disse que iria em cada reunião para apoiá-la. Aliás, Samira sempre me apoiou muito, tanto nas discussões como nas brincadeiras. De fato… éramos cumplices.

Combinamos de ir a uma boate. Iríamos na sexta-feira. Mas a alguns minutos antes de encontrá-la, Samira me ligou, com uma voz desanimada, dizendo que não poderia sair mais. Não entrou em detalhes, mas disse exatamente essas palavras: “A carga está pesada”. Eu não quis insistir muito, combinamos de sair na semana seguinte. Minutos depois ela me ligou novamente, perguntando se eu estava chateada. Eu disse que não estava. Ela reforçou o convite: “Vamos sair na próxima semana e qualquer coisa, você e a Anna dormem aqui em casa”.

Três ou quatro dias depois, Anna Bella me liga perguntando: “O que aconteceu com a Samira?” Eu não fazia ideia. Entrei no seu perfil no Facebook e me deparei com inúmeras mensagens de despedidas. Samira faleceu.

– Já se passaram duas semanas e a ficha ainda não caiu. Não sei como, nem porque mas Samira morreu aos 20 anos. Foi por isso que resolvi escrever esse texto, para lembrá-la (ou melhor), não deixar que a esqueçam (apesar de acreditar que isso é impossível). Samira fez muitos amigos e passou muita energia positiva. Eu não a via sempre, não conversávamos todos os dias, mas estávamos presente uma na vida da outra.

Quando acontece uma coisa assim, parece que tomamos consciência da nossa fragilidade. É como se o destino viesse te dar um soco, dizendo: “Olha só, aproveita porque não será pra sempre”.  Aí dá um aperto no coração e você pensa: poderia ser comigo. E se fosse comigo? Como a minha mãe ficaria? Como a mãe de Samira está? Aí comentei com a minha mãe da frase que ouvi em AHS:

“Um dos vários confortos em se ter filhos é saber que a sua juventude não se foi, mas foi meramente passada para uma nova geração. Dizem que quando um pai morre, a criança sente sua própria mortalidade… mas quando uma criança morre, é a imortalidade que um pai perde.”

Sister Jude, Baby Jane e Norma Desmond

Desde o último episódio, em que vi Jessica Lange apresentando um número musical em American Horror Story, estou pensando em escrever esse post. Como sempre, a falta de tempo não deixou. Há algumas semanas, reparei que a busca por AHS no blog continua em alta. Não é por menos. A 2ª temporada está chegando ao fim (com o penúltimo episódio indo ao ar hoje) e tanto a trama, quanto os personagens, sofreram reviravoltas absurdas. De longe, Sister Jude é a minha personagem preferida.

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No começo da série, “Judy” era uma freira sádica, deslumbrada pelo poder e que adorava humilhar seus pacientes. No entanto, a freira (e antiga prostituta) passou por poucas e boas. Depois de quase ser violentada por um paciente psicótico (vestido de Papai Noel), foi aprisionada em Briarcliff, acusada de um crime que não cometeu. Enfrentou um antigo nazista e ficou cara a cara com o diabo. Após um encontro com a morte, revelou um pouco mais do seu passado sombrio e de seus antigos desejos, entre eles: o sonho de ser mãe, que não se consumou quando descobriu que tinha sífilis.

Agora como interna, sofre todos os abusos que cometia com os pacientes, quando era diretora do hospício. É obrigada a tomar calmante de cavalo, usa camisa de força, fica presa na solitária e toma eletrochoques (o último foi além da conta: deixou a pobre coitada totalmente desnorteada). Jude foi a responsável por colocar a jornalista Lana Winters em Briarcliff, mas arrepende-se do que fez e tenta ajudá-la a sair. Lana, por outro lado, internada por ser lésbica, sofre inúmeras violências na mão do Drº Therdson, um serial killer, que mata, estupra e arranca a pele de mulheres. Há inclusive, uma cena fortíssima, em que Lana é obrigada a se masturbar olhando para um homem nu, para ver se consegue despertar por ele algum sinal de desejo (isso não acontece).

Sister Jude
Sister Jude

 O 11º capítulo foi espetacular, ou melhor: inesperado. Desde o início da série, há um jogo muito interessante do diretor, que fica evidente nesse capítulo: a idéia é de que todos nós somos uma mistura de sentimentos bons e ruins e que somos levados diariamente a questionar nossos valores e conviver com nossos instintos. De maneira triunfante e com a ajuda do Kit e da Sister Jude, Lana consegue sair do hospício e se vingar do Drº Therdson, humilhando-o  publicamente e por fim, atirando em sua nuca. A jornalista escreve um livro sobre as histórias que viveu no hospício e sobre as pessoas que conheceu enquanto esteve internada, entre elas: Pepper.

Pepper, após ter um encontro com alienígenas, voltou diferente. A pequena de dentes grandes e laço no cabelo que não conseguia pronunciar direito as palavras, volta com uma inteligência que não lhe é característica. Ela enfrenta Drº Arden, o nazista que adora fazer experiências com os internos e impede que ele chegue perto de Grace, que está grávida de Kit – há toda uma história complexa entre Kit e os alienígenas que ainda não foi muito bem explicada. Ironicamente, Pepper torna-se uma grande companheira para a Sister Jude: o que é fantástico, já que só na reta final da série é as duas se aproximam.

LINK ONLINEBrilhantemente, o final do Drº Arden e da Irmã Mary Eunice deixou os espectadores de cabelo em pé. A inocente Mary Eunice, que no segundo episódio incorpora um demônio e que atormenta a vida dos personagens durante todo o tempo, não agüenta mais a situação em que se encontra (afinal: é uma pessoa boa que se encontra presa em um corpo que só faz maldades), implora ao Monsignor Timothy O’Hara que a liberte.Ele então a mata, jogando-a do vão das escadas. Drº Arden, que tem uma paixão incontrolável pela irmã, decide cremá-la. Junta-se ao seu corpo falecido da freira e os dois terminam juntos…queimados.

Pode até parecer que esse post é um grande Spoiler. Bom: é e não é.  A verdade é que na madrugada de hoje, vi o vídeo promocional do último episódio de American Horror Story e fiquei (e ainda estou) extasiada. Não se sabe ao certo o que realmente vai acontecer, mas a o vídeo promete um final emocionante. Sister Jude, que acabou esquecida naquele hospício, aparece (bem rapidamente), fragilizada, quase sem cabelos e muito magra. Se ela vai ou não recuperar a sanidade é um mistério (acho pouco provável). A imagem de Jessica Lange quase sem cabelos e revirando os olhos em um quarto escuro me chocou – e muito. É por isso que resolvi escrever esse texto. O vídeo confirmou a idéia que eu tinha sobre a atriz e sobre a relevância desse trabalho.

[ Quem se tornou fã de Lange depois que a conheceu pela série (e olha, não são poucos) deve ter sofrido quando descobriu que o Globo de Ouro de melhor atriz foi para Julianne Moore. Na verdade eu não quero entrar na discussão de quem tem ou não tem o mérito para ganhar o prêmio, sabemos que a atuação da Julianne Moore em Game Change foi impecável, mas pra mim, a Academia cometeu um erro cabeludo ]

Apesar da contextualização completamente diferente dessas três, percebo algumas ligações fortes entre Sister Jude, Baby Jane e Norma Desmond e a principal delas: são as atrizes. Pouco antes de ser convidada a interpretar um dos papeis mais marcantes de sua carreira, Bette Davis colocou um anuncio no jornal pedindo por emprego. A velha atriz, provando o amargor do esquecimento, dizia nos jornais que precisava trabalhar porque tinha três filhos. Como diria tempos depois, “envelhecer não é para mocinhas”. E realmente não é, principalmente em um meio tão ruidoso quando se trata de beleza e juventude.

Davis recebeu o convite de Robert Aldrich de braços abertos e topou contracenar com a sua inimiga: Joan Crawford. “O que terá acontecido a Baby Jane”, um filme B de 1962, entrou anos depois, para a lista de clássicos do cinema americano. Não é por menos, afinal, além de unir duas lendas, Aldrich trouxe a tona uma história inesquecível de duas irmãs que vivem na mesma casa e dividem um passado perturbador. O fato é que para representar Jane Hudson, Bette Davis abriu mão da vaidade e aceitou aparecer em cena como uma grande caricatura de si mesma.

Bette Davis como Baby Jane
Bette Davis como Baby Jane

Com o rosto coberto de base branca, marcada por traços fortes de batom, Jane, entornando infantilidade e loucura, aterroriza a irmã (e porque não, os espectadores) com o sonho de voltar a fazer o mesmo sucesso que fazia quando criança. Bette Davis saiu da sua zona de conforto e topou rir de si mesma.  No filme, a atriz canta e dança como se fosse uma menina de dez anos.  Para piorar a situação, Jane quando jovem envolveu-se em um acidente de carro com a irmã. Ela estava dirigindo bêbada e bateu no portão deixando Blanche paraplégica. Desde então a sua sanidade nunca mais foi a mesma.

A inveja pelo sucesso da irmã, que também virou uma famosa atriz de cinema, escorre pelas mãos de Jane, que oferece ratos e passarinhos mortos no café da manhã, a amarra na cama e rouba seus cheques para comprar bebidas. Bette Davis, maliciosa que só, chega ao auge com seu personagem, quando Jane, em um ataque de loucura liga para o médico da irmã e imita perfeitamente sua voz. Aquela gargalhada no final da ligação é simplesmente inesquecível.

Gloria Swason como Norma Desmond
Gloria Swason como Norma Desmond

Em 1950, Gloria Sawson também andava esquecida. A atriz que encabeçou diversos sucessos da MGM e foi uma dos principais nomes do cinema mudo, aceitou a trabalhar em um projeto de Billy Wilder que ironicamente, ilustra uma rica atriz: Norma Desmond, que foi um sucesso no cinema mudo, mas que acabou sendo esquecida. “Crepúsculo dos Deuses” satiriza o próprio cinema e brinca com a carreira desastrosa de alguns atores. Norma Desmond quer fazer um filme e para isso, praticamente obriga o roteirista Joe Gillis a lhe ajudar na produção. Totalmente sem bom senso, Norma Desmond não percebe que aquele filme já está fadado ao fracasso.

Muitas atrizes receberam a proposta antes de Gloria Swason, mas nenhuma delas aceitou por acharem que a história era parecida demais com a realidade em que viviam É aí que entramos outra vez na coragem de Swason, que assim com Davis e Lange, aceitou rir de si mesma. Norma Desmond envolve-se tanto com a produção do filme que a traria de volta ao estrelato, que acabou ficando louca, esperando por um “Close up” que nunca veio. (Ou melhor, veio sim, brilhantemente arquitetado por Wilder).

Jessica Lange então, segura de si e de sua carreira, aceita interpretar uma freira maldosa e louca. Todo mundo sabe que ela também andou um pouco esquecida. Me arrisco a dizer que mesmo o Globo de Ouro em 2009 por Grey Gardens, não foi suficiente para trazê-la de volta aos olhares do público – talvez por isso, tenha aceitado trabalhar em TV, um meio, como a mesma afirmou que não está acostumada. Recebeu duras críticas, entre elas de que estava velha e plastificada demais. Lange não se entregou, não se escondeu, não se envergonhou. Pelo contrário, deu a cara a tapa a milhões de espectadores do mundo inteiro, que a aguardam ansiosamente todas as quartas-feiras.

Jessica Lange como Sister Jude
Jessica Lange como Sister Jude

Surgiu com um porrete na mão, com as unhas grandes e vermelhas, vestindo uma camisola sensual debaixo do hábito, apanhou na bunda (de quatro!), tentou exorcizar um demônio sozinha e não se cansou de tocar Dominique para os pacientes. Brilhante mesmo, foi a sua performance em “The Name Game”, onde apareceu com um cabelo estilo anos 60 e rebolou até o chão. Claro que esse é um trabalho em conjunto e que por traz de tudo isso, há cabeças pensantes, entre elas Ryan Murphy, o qual agradeço muito por ter nos presenteado com essa personagem incrível, que é a Sister Jude.

Confiram a cena da Jessica Lange cantando em American Horror Story:

The Name Game

Luiz

Luiz disse que está se sentindo muito sozinho. Eu respondi que todos nós, no fim das contas, estamos sozinhos. Estamos sozinhos com os nossos medos, com os nossos segredos, com os nossos desejos e pensamentos. Temos no íntimo, no mais profundo dele, as palavras não ditas, os amores sufocados, a tristeza despistada. Levamos nos olhos a insegurança diária de um futuro incerto (e a decepção de um passado mal resolvido). Queremos que tudo fique em seu lugar e que a vida seja mais fácil. Sonhamos em dar conforto aos nossos pais, mais tranquilidade aos nossos avós, planejamos (ainda que sem objetividade) sobre nossos filhos – e sobre os nomes que eles terão.

luiz

Estamos envolvidos na fumaça de futilidade – que a sociedade nos enfia garganta abaixo a cada zapeada na televisão, a cada publicação das redes sociais. Lemos muito livros, temos informação rápida, em grande quantidade e ainda assim, continuamos nos sentindo ignorantes. Saímos pela cidade e pensamos: “eu não conheço nada”, temos consciência da grandeza do mundo (e da nossa pequenez). Tomamos decisões precipitadas (algumas burras) e concluímos: “foi melhor fazer, do que me arrepender de não ter feito.” Estamos vivendo de imagens e de palavras. Cada vez mais distantes, individualistas e politicamente corretos. No fundo Luiz, acho que sentir-se sozinho tem seus benefícios, “estar sozinho” nos ajuda a entender um pouco mais quem somos, qual dor nos dói mais, quem é mais importante na nossa vida e quem não queremos mais nela. Sentir-se sozinho Luiz, é normal – ainda bem.

Seu nome

(Fabrício Corsaletti)

“se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome
se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome
se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome
se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome
se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome
quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome
no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome
na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?
algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome
detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome
cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome
no cabo da minha bengala gravarei o seu nome
não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome
não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome
não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome
quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome
espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome
espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome
espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome
a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
quando a poesia é boa é como o seu nome
quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome
estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome
talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome
por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome”

A morte e a donzela

Sigourney-WeaverTenho usado muito o Twitter… um dia desses, conversando com um amigo próximo, descubro que ele gosta tanto da Sigourney Weaver quanto eu. Ficamos por dias comentando sobre seus trabalhos e de repente, me lembrei de “A morte e a donzela”. Vi o filme pela primeira vez quando era pequena. Na época fiquei impressionada com a densidade psicológica da Paulina – o que me chamava atenção era a sede de vingança da personagem e da incerteza que a situação produzia: será que ela encontrou o homem certo, o homem que a torturou há anos atrás? O filme veio a calhar: fiquei extasiada. O engraçado é que a sensação que tive foi a mesma de alguns dias atrás quando o revi: de completo desconforto.

Há uns dois anos (por sorte), perambulando em um shopping de Belo Horizonte, encontrei o filme em DVD. Comprei e guardei junto a minha coleção. É estranho, mas não tive coragem de assistir porque as cenas (e principalmente os diálogos) de alguma forma mexeram comigo. Fui revê-lo porque tinha combinado com um amigo assistir filmes com Weaver no elenco – meu amigo não veio e eu assisti o filme sozinha. Pouco tempo depois, perambulando pela internet, descubro que o “A morte e a donzela” é um filme de 1994, dirigido por Polanski. Tá explicado, Roman Polanski é brilhante.

A ambientação do filme é crucial para acentuar o clima de desconforto. A chuva, faz com que os três (e únicos) personagens fiquem presos naquele ambiente. Uma casa sem energia, que parece pouco convidativo. E se tem outra coisa, um pequeno detalhe que me encanta é que: não se sabe em qual país sul-americano ou em que ano se passa a história – afinal, esse não é o foco: o filme quer discutir a liberdade, a vida (ou a morte).

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Então, vamos a sinopse:

“Em um país sul-americano após a queda da ditadura Paulina Escobar (Sigourney Weaver), a mulher de Gerardo Escobar (Stuart Wilson), um famoso advogado, fica sabendo no rádio que Gerardo deverá chefiar as investigações das mortes ocorridas no regime militar. Quando Gerardo chega, ela o vê acompanhado de um estranho que o socorreu na estrada, mas quando o desconhecido retorna à casa ela o identifica pela voz como sendo Roberto Miranda (Ben Kingsley), o homem que a torturou e a estuprou quando ela fazia militância política. Paulina decide então “julgá-lo” ali mesmo, apesar dos protestos do marido, que considera sua atitude precipitada além do fato do acusado alegar inocência.”

O filme possui detalhes magníficos, começando pela musica. Paulina foi capturada quando era ainda muito jovem. Tinha cabelos longos e ruivos… Um dia, quando saía da faculdade, foi surpreendida por militares. A orientação dos seus companheiros era de que se alguém estranho a abordasse na rua gritasse: “Meu nome é Paulina e estou sendo sequestrada”. Mas Paulina não gritou, sabia que morreria se resistisse. Paulina queria viver, queria estar viva para ver o país livre.

Após sessões longas de torturas e eletrochoques, Paulina se encontrou com aquelesite_28_rand_1428444645_death_and_the_maiden_pub_627 que mudara sua vida. Em princípio, o médico olhou suas feridas, deu-lhe sedativos para suportar a dor. Mas logo depois, enquanto se recuperava, ele a estuprou seguidas vezes deixando tocar ao fundo “A morte e a Donzela”, de Schubert. O interessante é que Schubert a compôs em 1824, logo após descobrir que tinha sífilis. Trata-se da história de uma donzela que encontra com a morte, mas que suplica para continuar viva. Desde então, após reencontra-se com o marido, Paulina passou a viver (ou sobreviver) com toda essa paranoia.

O estranho é que “A morte e a Donzela”, que é uma adaptação da obra teatral do chileno Ariel Dorfman não se tornou um clássico. O filme é magnífico e tem uma iluminação primorosa.  É uma daqueles que te deixa desacordada. E é por isso que eu ‘babei” nesse trabalho de Polanski: o cara pega um roteiro que poderia ser totalmente maçante e tranforma em uma história de arrepiar os pelinhos do braço (principalmente na cena em que a Paulina conta como foi torturada).  – Simplesmente fantástico.

Lo Fatal

(Rubén Darío)
 
Dichoso el árbol, que es apenas sensitivo,
y más la piedra dura porque ésa ya no siente,
pues no hay dolor más grande que el dolor de ser vivo
ni mayor pesadumbre que la vida consciente.
Ser, y no saber nada, y ser sin rumbo cierto,
y el temor de haber sido y un futuro terror…
¡Y el espanto seguro de estar mañana muerto,
y sufrir por la vida y por la sombra y por
lo que no conocemos y apenas sospechamos,
y la carne que tienta con sus frescos racimos,
y la tumba que aguarda con sus fúnebres ramos
y no saber adónde vamos,
ni de dónde venimos!…

.Xmas.

CAM00133Há duas semanas eu conheci o Papai Noel. Ele estava sentado em um dos bancos da praça principal de Nova Lima, usava chinelos e levava uma sacola plástica cheia de latinhas. Achei estranho ele puxar papo, estava sentado ao meu lado há uns quinze minutos, observando o pisca-pisca que enfeitava o poste e de repente, me disse:

– Eu gosto muito de crianças, mas nunca tive filhos, eu acho.

– Você acha? Não tem certeza? (perguntei).

-Pelo menos nenhuma mulher apareceu com filho meu.

Ele se aproximou um pouco mais e disse:

– Eu sou o Papai Noel. Meu pai era o Papai Noel também antes de morrer. Mas agora eu não dou presente para as crianças, não tenho dinheiro. O problema é que eu tenho medo de Papai Noel, até rezo quando passo por um. Eu já passei necessidade sabia? Agora não, sempre ganho alguma coisa, roupas ou comida. Hoje mesmo uma mulher me pagou um cachorro-quente, e eu estava com tanta fome. Mas foi Deus, porque eu tinha acabado de sair da Igreja Universal. Vou muito à igreja e ao CAPS também, conhece?

– Conheço ( CAPS significa  Centros de Atenção Psicossocial).

– Eles me dão remédio quando vou lá. Minha mãe também tinha problemas de CAM00139cabeça igual eu tenho.  Mas a minha só piorou depois que levei um tombo e bati a cabeça no chão. Antes disso eu era normal. Eu trabalhava em um escritório, junto com o meu irmão. Eu fui contabilista, fui motorista. Já trabalhei muito. E você, o que faz?

– Sou estudante de jornalismo

– Eu também já fui repórter. Escrevia muito, trabalhava no rádio, escrevia para o jornal. Já contei que dirigia caminhão? Dirigia ônibus também. É muito fácil, é só controlar a embreagem. Mas agora eu cato latinhas, ganho 35 reais. Lá em Belo Horizonte eles pagam melhor.

– Parece que tem alguma formatura na igreja hoje.

– É.  Bonito mesmo são as luzes que estão enfeitando. Sabe, eu tenho 49 anos, mas dizem que pareço ter 32. Não acha?

– Acho.

CAM00135

Pra ser sincera, eu diria que ele tinha uns 54 anos, mas não queria contrariá-lo, o papo estava bom. Ele repetiu o nome pra mim umas cinco vezes, mas não consegui gravar, era um nome difícil. Enquanto conversava com ele eu fotografava a praça. Minha vontade mesmo era de fotografá-lo, mas não queria deixá-lo desconfortável. A conversa foi rápida, eu tinha que ir à Auto-Escola. Quando saí prometi que escreveria sobre ele, que escreveria uma história para ele. Mas  não consegui pensar em nada, em nenhum história bonita. Por desencargo de consciência e como forma de agradecimento pela companhia, aí está o texto que consegui escrever para o homem que conheci: Papai Noel.

CAM00136

.vie dynamique.

Não me surpreende que tantos poetas escrevam sobre o tempo, ele realmente nos aprisiona (ou nos liberta). Sabe, ainda não consigo entender o porque das coisas acontecerem daquela forma. Eu sei que você se machucou bastante. Eu também tenho as minhas cicatrizes. A queda foi muito alta:  para nos duas. Mas o tempo tem me ajudado a superar. Tem me mostrado que viver tão perto assim, tão forte assim, não faz muito bem. Nada em excesso faz bem: porque não nos lembramos disso logo no começo?

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Agora você me pergunta o que sobrou. Um pouco de raiva, eu acho. A verdade é que eu tenho tentado não levá-la sempre no coração.  Aos poucos, deixo os resquícios nos caminhos que vou traçando. Desabafo um pouco com os amigos, leio, vou ao cinema, escuto música, vou à igreja. Até à igreja eu fui, acredita? Mas não consegui rezar por você… dessa vez não. Eu perguntei pra Deus porque me decepcionei tanto assim, mas a resposta ainda não veio. Começo a achar que é porque eu me entreguei demais, eu esperei demais e olha só no que deu.

Sinceramente: eu me assustei um pouco com essa capacidade monstruosa que o ser humano tem de não saber amar. Digo isso por mim, que queria saber amar (mas amar direito) e não consegui. E eu não me refiro a amor físico, sexual. Me refiro ao fraterno, de amigo. Só por desencargo de consciência: a coisa boa é que não há fórmula, então não adianta se culpar. Sofrer também faz parte.

Fiquei me perguntando o que faria se a visse passar por mim. Eu provavelmente não diria nada. Mas é a primeira vez (e você foi a primeira pessoa) que me fez sentir nojo. “Nojo”, eu sei, é uma expressão muito forte, mas por favor, vá além da epistemologia e use os sentidos – sem ofensas (não mais).

Você se lembra que eu vivia te abraçando? Eu não tive oportunidade de dizer isso quando fui embora: mas era afetuoso, era o mesmo abraço que eu dou na minha mãe, na minha avó, nos meus primos. Era abraço de proteção, de carinho. Só que hoje, eu iria repelir qualquer aproximação. Seria tortuoso só de pensar em tocar em você. Essa coisa de pele sempre me disse muito, não sei o por quê. Quando eu estava na igreja, pensando em você, só conseguia pedir desculpas a Deus por não conseguir te desejar nada de bom. Olha, eu  não desejei nada de ruim não viu – mas também não consegui desejar nada de bom. Que coisa triste né?

Não sei porque resolvi escrever sobre isso hoje, acho que é porque ontem sonhei com você. Deve ser o inconsciente mandando recado. No sonho você me deu uma carona. Não falamos nada. Lembro que tinha uma sensação aflitiva, queria descer logo e voltar para casa. O carro parou, nos despedimos:  você seguiu o seu caminho e eu o meu. E eu subi a rua pensando: “poxa vida, ontem mesmo falei com a minha mãe que nunca mais queria encontrá-la”.

Mas a vida até que foi boa com a gente, imagina: os panos caíram na hora certa. As pessoas que eu escolhi para continuarem na minha vida estão sempre por perto, fazemos planos inclusive: de  viajar, de morar perto, de sair muito. Tem coisa melhor? Não, não tem. E eu sei que você também tá levando a vida, conhecendo outras pessoas, vivendo outras histórias. Ainda bem. Graças a esse dinamismo da vida, tenho sobrevivido – tenho certeza que você também.

 ainda bem!