Corpore insano

(por Thais dos Reis)

– Hoje, quando vinha pra cá, passei por três mulheres. Elas estavam encostadas na parede, se insinuando para os rapazes que andavam na calçada.

– E qual é o problema irmã?

– Elas diziam algumas palavras…

– Que palavras?

– Elas estavam gritando: “quer trepar?, quer trepar?”, acho que eram prostitutas.

– E o que te assusta nisso?

– Na verdade não me assusta, mas aquelas mulheres me chamaram atenção. Fiquei me imaginando no lugar delas.

– No lugar delas?

– Isso… se eu fosse uma prostituta.

-Então, o que você pensou?

-Não entendo porque elas se negam a beijar a boca dos clientes quando topam outras coisas… você sabe.

-Não, não sei irmã. Vamos! Diga! (disse a freira mais velha, quase implorando) Nos estamos sozinhas nesse quarto, as outras já se recolheram em seus aposentos.

– O que eu quero dizer é que elas não topam beijar na boca, mas topam coisas piores.

-Piores como?

-Como o sexo oral (disse a jovem, quase sussurrando)

– Acho que elas possuem uma ética profissional (respondeu a velha, com segurança)

– Ética profissional? (perguntou em gargalhadas)

-Bom, eu não sei… não faço ideia.

-Nos meus pensamentos… sabe, acho que ser uma freira é muito mais fácil do que ser prostituta.

-Como você chegou a essa conclusão irmã, se nunca foi prostituta?

-Me desculpe, me desculpe! (disse a jovem, segurando as mãos da companheira de quarto) Tento impedir pensamentos impuros que colocam as minhas virtudes em contestação, mas quando estou em contato com Deus, quando começo a orar sinto-me submersa em um prazer tão grandioso quanto um…

-Quanto um o quê irmã? Cuidado com o que vai falar!

– … quanto um orgasmo.

– Eu não consigo acreditar nessa comparação, são duas coisas completamente diferentes. E porque dizer que ser uma freira é mais fácil? Estamos sempre em castidade, abrimos mão da luxúria e da vaidade, estamos sempre em oração, trabalhamos para os pobres e menos favorecidos…

-Penso no cheiro.

-Cheiro? Que cheiro irmã?

– No cheiro dos homens.

(A freira mais velha, aproximou-se da jovem e colocou-a contra a parede. Aproximou-se tanto que poderia beijá-la,)

– O que você está fazendo?

– Quero ter certeza que você é a minha companheira de quarto. Aquela que há alguns anos chegou no convento submergida em uma inocência e uma pureza, que não consigo enxergar mais.

– Não duvide de mim irmã. Na verdade, o que eu sinto por elas é compaixão. Tenho pena da vida que elas levam.

– Então não tenha, elas escolheram essa vida (disse, se afastando)

– Como pode dizer que escolheram essa vida? Elas foram levadas a fazê-lo. Provavelmente tiveram uma vida repleta de pobreza, sem oportunidades, não tiveram estudo!

– Nego-me a discutir com você sobre esse assunto. E tenho certeza que você também pensa assim. Está na hora de você rever seus pensamentos, antes que tenha a devida punição.

Depois veio o silêncio. Cada uma, deitada para seu lado, ficou pensando nas possíveis consequências daquela conversa única e inoportuna. Restavam dúvidas, restavam curiosidades. As duas poderiam ficar ali, conversando sobre aquele assunto durante dias . Mas por medo, por respeito (ou por qualquer outra coisa menos relevante), decidiram nunca mais falar sobre aquilo. Ironicamente, do outro lado da cidade, uma prostituta falava com a outra:

– Hoje vi uma freira na rua. Ela passou rapidamente, tentando esconder o interesse. Sabe, andei pensando… ser prostituta é muito mais fácil do que ser freira.

– Como? perguntou a outra, se você nunca foi freira?

Monstros

FREAKS

Na última sexta-feira tive a felicidade de assistir no Cine Humberto Mauro “Os Monstros”, dirigido por Tod Browning em 1932. Nutria uma curiosidade antiga pelo filme que conta a história de um circo em que as atrações principais são aberrações (daí o nome “Freaks”). Hans (interpretado por Harry Earles) é um anão que se apaixona pela trapezista mais bela do circo: Cleópatra. O anão tenta agradá-la de todas as maneiras, comprando presentes caros e se submete a terríveis humilhações. Cleópatra, por outro lado, é uma mulher gananciosa que só aceita se casar com Hans porque descobre que ele é herdeiro de uma grande fortuna. Mas assim como Hans, as outras aberrações do circo são honestos e leais. Percebendo as maldades de Cleópatra, se juntam e tramam uma vingança.

O filme ficou esquecido por muitos anos e foi censurado até a década de 60. Enquanto esteve em cartaz, causou repulsa e indignação dos espectadores e deu um prejuízo de 164 mil dólares a MGM. Mulheres grávidas foram proibidas de assisti-lo porque acreditavam que o filme poderia causar abortos. Algumas pessoas sofreram infarto durante a exibição, outras fizeram protestos para que parasse de ser transmitido. Todo esse rebuliço é muito curioso quando se pensa que as aberrações eram pessoas com alguma deficiência ou deformação física. A imagem de pessoas sem braços, sem pernas ou com algum problema de fala, não correspondia a estética americana e estavam muito distante do que hoje entendemos como politicamente correto. Aliás, o politicamente correto não existia

freaks

Os atores com deficiência, ou “as aberrações” também chocavam a equipe de produção e o elenco “normal”, que se sentiam incomodados por terem que atuar com pessoas que chamavam de retardadas. Não há muitas informações sobre os bastidores, mas o que se sabe e que Tod Browning enfrentou inúmeras dificuldades para sustentar as produções e manter a equipe em harmonia. O que se compreende hoje é que o filme foi de tamanha inovação e coragem inclusive porque o próprio cinema falado estava engatinhando. 

Os críticos classificaram o filme como uma produção sensacionalista e de mau gosto. Curiosamente, Browning trabalhou em um circo durante a sua juventude e presenciava diariamente as humilhações que os verdadeiros “freaks” sofriam. A grande ironia é na concepção de Browning,os monstros eram Cleópatra e seu amante Hércules, pessoas detestáveis e de caráter duvidoso. Depois que Cleópatra casa com Hans, ela se une ao amante para pensar em uma forma de matar o marido. O filme propõe uma reflexão de contraponto entre a moral e estética, aspectos fundamentais da sociedade pós-moderna.

freakskTomo a liberdade de reproduzir aqui uma parte do texto de Bernard Herzogenrath escrito no livro ‘1001 filmes para ver antes de morrer’ da editora Sextante: ‘Desde sua concepção original como um filme de terror que superasse todas as expectativas, algo mais perturbador do que qualquer coisa jamais vista (quando Dwain Esper o explorou sob titulos vagos e enganosos, como Amor proibido, Show de monstros e Erros da natureza), até seu renascimento como filme de vanguarda na tradição de Luis Buñuel e Alain Robbe-Grillet, Monstros, de Tod Browning, englobou os gêneros terror, filme de arte e documentário – este último, por conta de seu realismo, a partir do uso de ‘aberrações reais’. Não obstant, apesar da originalidade em termos de concepção e estética – e da surpreendente capacidade de ao mesmo tempo comover e chocar plateias – Monstros continua sendo, até hoje, uma obra subestimada. (…) Uma mera sinopse não pode fazer justiça a este filme assustador porém profundo, o qual é preciso de fato ver para ‘crer’. Uma suprema bizarra (aberração?) do cinema mundial, considerada por muitos o mais extraordinário filme da carreira de um diretor cuja filmografia inclui a versão original de Drácula (1931)”

Carmen Miranda

Carmen Miranda

Carmen é um dos símbolos mais interessantes de beleza e feminilidade que tenho em mente. Essa percepção veio a aumentar depois que terminei de ler uma de suas biografias, escrita por Ruy Castro. Pensei por algum tempo em que tipo de publicação faria hoje. Em principio queria citar (em referência ao dia das mulheres) algumas feministas que me inspiraram a conhecer e participar do movimento. Logo depois, pensei em filmes temáticos e músicas que seguem essa perspectiva e por fim, me lembrei da Carmen.

No dia que resolvi escrever sobre ela, conheci a jornalista Júnia, que por coincidência estava com o mesmo livro nas mãos. Foi um encontro completamente casual e inesperado e que me valeu muito. Eu passeava pelo edifício Maletta, estava com sede, entrei numa lanchonete e lá a encontrei. Eu disse para a Júnia que estava com a “Carmen na cabeça” e que não conseguia parar de pensar no triste fim que ela teve. Sabiamente, Júnia me disse que a vida é feita de escolhas e que Carmen foi uma mulher feliz com as escolhas que fez.

Carmen MirandaComo Helena Solberg diria em seu documentário “Banana is my business”, Carmen Miranda tinha a inocente ideia de que conseguiria representar o Brasil no exterior. Se comprometeu tanto que essa foi sua bandeira por muitos anos. Carmen exigia cantar em português em seus filmes e sempre estava na defensiva quando o assunto era o país. Se Carmen conseguiu representar o Brasil? Claro que sim, mas em partes. Ninguém jamais representaria um país em sua totalidade tendo em vista a complexidade e vastidão cultural, ideologia, política ou qualquer outro aspecto que engloba uma nação. Ainda assim, sua imagem está extremamente ligada ao Brasil, ela se tornou um símbolo.

Também por coincidência, o professor Mozahir citou o livro do Ruy Castro como uma bibliografia que ajudaria a entender o papel do rádio no país. Infelizmente, poucas pessoas (ou praticamente nenhuma) mostrou interesse por Carmen. Depois da aula tive que escutar: “quem é Carmen?” ou, “ela ainda está viva?“ Sim, Carmen continuará viva, enquanto for lembrada. Na verdade é um pouco decepcionante pensar que estudantes de jornalismo, já no fim do curso, não fazem ideia de quem foi Carmen. Não é uma informação que está colada na grade curricular, mas que eu tenho certeza: faria um bem danado! O Mozahir dizia: “foi incrível o que essa mulher fez”, ela chegou a ser uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood na década de 1940, enfrentava maratonas diárias de shows e tinha uma repertorio invejável.

Sempre bem humorada e com consciência plena de sua beleza, Carmen ficou famosa ainda muito jovem. Comandava sua carreira com determinação e sabedoria. Pouco tempo depois de fazer sucesso cantando, comprou uma casa nova para os pais e aprendeu a dirigir. Tinha também muita habilidade com costura, por isso: customizava facilmente suas roupas. Aqueles sapatados gigantescos (e pesados) que usava nos shows foram inventados por ela e exigiam um equilíbrio fora do comum. Além disso, Carmen ditava moda. Chegavam a dizer que ela era careca porque nunca mostrava os cabelos. Os turbantes, na verdade, só se fixavam na cabeça justamente por causa dos cabelos. No fundo, ela achava toda aquela conversa de “ser careca” muito engraçada. Há também um fato interessante: antes de Hollywood, viajou muito pela América Latina. Chegaram a perguntar a Carmen se era verdade que o Brasil era uma “matagal” onde se encontrava macacos e cobras. Carmen brincava e dizia: “Sim, há muitas cobras”

Carmen Miranda

Apesar de todo esforço em representar o país, Carmen não foi bem acolhida pelos críticos brasileiros. Morando nos Estados Unidos, recebia em sua casa jornais ou informações de amigos da hostilidade dos críticos. Diziam que ela gesticulava demais, que tinha uma voz péssima, que estava gorda ou que tinha esquecido a língua portuguesa. Com tanta hostilidade, Carmen ficou temerosa de voltar ao Brasil. Quando veio pra cá, já em 1955, estava completamente confusa e fraca, resultado direto dos calmantes, dos estimulantes e da bebida.

Helena Solberg e Ruy Castro afirmaram inúmeras vezes sobre o quanto Carmen Miranda foi injustiçada. A obra deles, acima de tudo (e acima da própria Carmen) possui uma semelhança maravilhosa: todas as duas (tanto o livro, quanto o documentário) são de uma doçura incontestável, que fazem com que a gente se incline a gostar dela também. Um dos sonhos de Carmen era voltar ao Brasil e pular carnaval do meio da multidão. Dizia que queria se misturar no meio do povo, dançar até não poder mais e depois voltar para casa. Como Ruy Castro acrescentaria: esse era um devaneio, Carmen jamais conseguiria pular carnaval sem ser identificada.

Dois dos inumeros pares de sapato que Carmen Miranda colecionava em sua casa em Hollywood.
Dois dos inumeros pares de sapato que Carmen Miranda colecionava em sua casa em Hollywood.

De origem católica, sacrificou as próprias vontades em nome de um casamento em que a figura masculina dominava. Castro dizia no livro que em momentos de confusão (mental), Carmen chegou a afirmar que apanhava do marido (não se sabe se isso realmente aconteceu). David Sebastian conheceu Carmen nas filmagens do filme Copacabana. Ela aceitou as investidas e casou-se com o americano. * Antes, porém, Carmen teve inúmeras desilusões amorosas: hora por homens que não aceitavam sua fama e seu dinheiro, hora por homens que simplesmente não a levavam a sério. Ironicamente, o grande desejo de Carmen era se casar e ter filhos.

Como não acreditava em divórcio, perdeu parte da felicidade por um casamento desastroso. Ela, que vivia cercada de brasileiros em sua casa, teve que deixar de recebê -los. David também passou a empresariá-la, assegurando-se de sempre vê-la na ativa, não importasse o quanto estivesse exausta. Usou parte do dinheiro (que não era pouco) em investimentos sem futuro e em presentes caríssimos. Além disso, estimulou o uso das bebidas alcoólicas que no final da vida, tornaram-se um hábito, ou melhor: uma necessidade de Carmen.

Mas como Ruy Castro evidencia, David não foi o culpado pelo fim trágico de Carmen. Ele só veio a piorar as coisas. Com os limites da medicina na época, acreditava-se que tanto os calmantes quanto os estimulantes eram benéficos. Como uma bola de neve, Carmen foi aumentando as pílulas, até chegar nas medicações injetáveis. Para tentar diminuir o vício, os médicos cortavam as doses dos remédios, o que na verdade, deveria ser feito gradativamente. Assim, Carmen passava dias sem dormir, tinha alucinações, até o que o organismo cedia. Mas o ciclo vicioso dos remédios sempre voltava: e Carmen caiu em uma profunda depressão.

Carmen Miranda

Um dos tratamentos indicados e que Ruy Castro descreve era o choque elétrico. Ao que parece, Carmen recebeu cinco sessões de choques elétricos que comprometeram sua memória. Subia ao palco e submetia-se a apresentações em que muitas vezes esquecia as letras das musicas. Também já não tinha a mesma coordenação motora e constantemente perdia o ar ou ficava zonza.

“Em 1953, a aplicação dos eletrochoques ainda era feita em moldes primitivos. O paciente não era anestesiado. Não lhe davam um relaxante muscular e ele não recebia oxigenação artificial, como se passaria a fazer muito depois. Nem se sonhava com monitores cardíacos, cerebrais e de pressão arterial. E, pior ainda, não se fazia uma desintoxicação prévia, com a eliminação gradual dos medicamentos, que afinal, tinham levado àquela condição. Na época, a máquina de eletrochoque, fabricada pelos Laboratórios Lester, de Nova York, fornecia uma carga de 110 volts, muito mais do que, no futuro, se consideraria “aconselhável”. Eram precisos três enfermeiros para manobrá-la: um, para girar o botão e aplicar o choque, os outros dois, para conter o paciente e impedi-lo de se machucar e de, literalmente, levantar vôo.”

Os médicos alegaram que Carmen estava com problema nos nervos. A depressão estava tão profunda que ela não se levantava da cama, não comia nem falava. Veio ao Brasil pouco tempo antes de morrer. Tanto os médicos quanto os amigos próximos, acreditavam que essa era uma maneira de ajudá-la a melhorar. Carmen ficou hospedada no Copacabana Palace por mais de cem dias. Continuava tomando os remédios que um dia a matariam justamente para se manter nos palcos. Chegou a se apresentar no Brasil, foi recebida por milhares de pessoas que cantavam “Taí” em sua homenagem. Visivelmente fragilizada, confundia os companheiros da juventude que a visitavam no hotel e chorava sem parar. Castro dizia que ela cogitou a hipótese de não ir para Hollywood, mas o marido era insistente e praticamente a obrigara a voltar a ativa.

Carmen, fragilizada depois dos tratamentos.
Carmen, fragilizada depois dos tratamentos.

Em uma apresentação no programa de Jimmy Durante, Carmen cai de joelhos e diz que está sem fôlego (há, inclusive, diversos vídeos no Youtube, reproduzindo o show). Ruy Castro conta que nesse momento, ela revira os olhos e dá pra perceber que a morte já estava por perto. Naquela mesma noite, em 5 de Agosto de 1955, Carmen cantou seus sucessos para um grupo de amigos. Subiu ao quarto, fumou um cigarro, tirou a maquiagem e foi para o quarto. Faleceu após um colapso cardíaco. Foi encontrada deitada no chão segurando um espelho de rosto.

Seu corpo chegou ao Brasil em 12 de Agosto, cerca de quinhentas mil pessoas acompanharam o velório cantando “Taí” em despedida. As vendas dos seus discos aumentaram consideravelmente, semanas depois, já não tinham mais estoque. Carmen foi enterrada no Cemitério São João Batista.

*Carmen, no programa de Jimmy Durante: em uma apresentação que aconteceu hora antes de seu falecimento. Carmen, aos 24:07min cai e diz que está sem ar:

A morte de Lupe Vélez

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Ontem na aula, o professor falava que a morte e a ironia andam de mãos dadas. Comentávamos do caso de conhecidos e de artistas que passaram por situações estranhas (ou inesperadas) antes da morte. Uma delas, um tanto esdrúxula foi Lupe Vélez.

Lupe Vélez (nome artístico de María Guadalupe Vélez de Villalobos) nasceu na cidade de San Luis Potosí no dia 18 de julho de 1908, no México. Há controvérsias sobre sua biografia. Para atender os parâmetros morais de Hollywood, dizia-se que Lupe passou a juventude em um convento e que sua mãe era uma cantora de ópera. A mãe de Lupe, na verdade, era uma prostituta que a vendia em programas noturnos. Ruy Castro chegou a classificá-la como a primeira “latina” de Hollywood. Ele explica que a também mexicana, Dolores del Rio chegou em Hollywood um pouco antes, mas que Dolores tinha um jeito aristocrático e por isso, os produtores a faziam passar por russa, espanhola ou francesa.

Lupe chegou em Hollywood em 1927, aos 19 anos. Como conta a lenda, diversos atores (como Clark Gable, Tom Mix e Charles Chaplin) cairam aos seus pés. Ela chegou a ficar três anos com Gary Cooper (mas o romance terminou quando tentou matá-lo a tiros – e errou os disparos). Dizem que Lupe trouxe o esteriótipo de latina temperamental. Há uma comentário de Ruy Castro sensacional sobre esse costume: “Também emocionalmente, tornou-se uma tradição de Hollywood mostrar as latinas como mulheres instáveis e infantis, sempre com um ombro de fora, sujeitas a arroubos fáceis de lidar (o comportamento adulto, maduro e racional seria privilégio das mulheres americanas). De tanto apresentá-las como tempestuosas e incendiarias, falando alto e muito rápido, Hollywood passou a acreditar que todas as latinas eram assim. E, de tanto serem apresentadas como tais, começaram a achar que eram mesmo daquele jeito”.

6TiYiyNurofbkpwcoTueQG70o1_400Pois bem, em dezembro de 1944 Lupe resolveu dar um fim a sua vida. A atriz estava na geladeira dos estúdios há muito tempo, encontrava-se completamente só e falida. Pra piorar, Lupe estava grávida de Harald Maresch, um homem casado. (Na época era quase impensável uma mulher solteira criar um filho sozinha). Lupe planejou uma morte glamurosa. Comprou inúmeras flores que distribuiu pela casa, colocou velas no quarto que davam um efeito na parede por causa dos espelhos. Pediu para jantar o melhor da comida mexicana, se maquiou e usou o vestido mais bonito. Antes, escreveu um bilhete para Harald onde dizia:”Para Harald. Que Deus o perdoe e perdoe a mim também, mas prefiro tirar minha vida e de nosso bebê do que trazer vergonha a ele ou matá-lo.”

Lupe tomou 75 comprimidos de Seconal (remédio para dormir) e se embebedou de uisque. Ruy Castro narra brilhantemente o que aconteceu: “Os 75 comprimidos de Seconal a puseram para dormir, sem dúvidas. Mas pouco depois ela acordou passando mal – como se o jantar, o conhaque e os barbitúricos quisessem explodir para fora do seu corpo. Lupe levantara-se e cambaleara vomitando pelo quarto, rumo ao banheiro. Já ali, escorregara no ladrilho, talvez no próprio vômito e mergulhada de cabeça em direção ao vaso. Ao bater com a cabeça, o choque a fizera perder os sentidos – e ela morreu afogada na água da privada.”

* Lupe deixou também uma carta para sua fiel secretária. E foi justamente a secretária que a encontrou morta. Durante anos, negou que Lupe tivesse morrido daquele jeito, dizia que Lupe foi encontrada na cama, cercada de flores.

* Andy Warhol realizou um filme em 1966 sobre a atriz

Epifanias em Vermelho

epifanias em vermelho

Ironicamente e apesar de tudo, eu não consigo entender o que sinto sobre nos dois. Demorei muito tempo para perceber que eu sou melhor sozinha e que hoje em dia não abro mão disso. Ainda assim, eu poderia passar a eternidade ao seu lado. Só porque eu acho que você sente as mesmas coisas que eu sinto. Acontece que a sua presença traz recordações “non gratas”. Sempre há rodeios sobre acontecimentos que eu resolvi deixar fora da minha vida. Como se isso fosse possível. Sabe, tudo me parece tão mascarado, tão interpretado que no final das contas soamos ridículos. Ando me perguntando se conseguiria viver com alguém mais covarde do que eu. Pouco provável. Eu só aguento a minha película fina de obscuridade porque não posso me livrar dela. Eu queria que você estivesse aqui, dentro de mim. Que você soubesse dos meus desejos e que pudesse satisfazê-los. Eu queria estar dentro de você, só para saber seus desejos e satisfazê-los. Seria bom se não soasse tão pedante. Essa história de transparecer força e frieza me recorda do que somos. Já pensou que tanta seriedade pode ser uma desculpa? Estou tendendo a acreditar que estamos fadados a viver nesse ciclo de distanciamento, nessa intertextualidade entre dor, culpa, desejo e prazer. Há que se ter (há que se arrumar) um motivo. Há que se fingir e isso é muito triste. É uma pena que precisamos de pretextos para estar juntos. É uma pena que você se envergonhe disso. É uma pena que eu me envergonhe também. Ao mesmo tempo penso que estão certos os que dizem que a vida é muito rápida. Eu não quero passar pela juventude sem ter vivido meus desejos, com medo de tentar algo novo, me responsabilizando pelos outros, sacrificando o presente por um futuro que eu nem sei no que vai dar. Eu queria amar loucamente, queria ver a vida sangrar. Vê-la escorrer em vermelho pelos olhos, pelas roupas, pela carne. Prazer e dor andam de mãos dadas. Queria me embriagar e não voltar pra casa (se possível por uns dias). Queria esquecer das limitações, os medos, os anseios. Não queria pensar em nada nem imaginar se estaríamos juntos no futuro, queria viver o presente e nada mais. Mas quem não quer? Estamos todos enclausurados na “maldição tantas vezes repetida”. Estou triste por nos dois. Estou triste por não conseguirmos ser mais do que essa mísera repetição.

Normal

Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança
Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança

Quando achei que a Jessica Lange não podia me surpreender mais, encontro disponível na internet “Normal”, longa produzido em 2003 pela HBO. Com muita delicadeza, o filme dirigido por Jane Anderson (e que traz Tom Wilkinson e Richard Bull no elenco) explora uma discussão antiga e complexa: a transexualidade. Apesar do assunto não ser uma novidade, a troca de sexos continua sendo motivo de grandes discussões políticas e representações cinematográficas. No filme “A Lei do Desejo” (de 1987), Carmen Maura interpretava Tina, um homem que mudou de sexo para manter um caso incestuoso com o pai. Também não muito distante Felicity Huffman protagonizou em 2005 “Transamérica”, longa em aparecia como um transexual que lutava para realizar a cirurgia de troca de sexo.

Mas, diferente das bizarrices de Almodóvar ou da abordagem quase visceral de Duncan Tucker, “Normal” é extremamente leve. Vemos Roy Applewood, um senhor casado e com filhos que decide assumir a transexualidade. Ele cria um embate com a conservadora cidade onde mora e passa a conviver com a hipocrisia, com o preconceito dos colegas do trabalho e com a incompreensão da família. A imagem de Tom Wilkinson, vestido de mulher me lembrou muito o cartunista brasileiro Laerte Coutinho. Para quem nunca viu, há uma entrevista maravilhosa que Coutinho cedeu a Marília Gabriela onde fala do seu trabalho e de suas experiências como transexual. Recentemente, Laerte tomou uma atitude polêmica: entrou na justiça para ter o direito de usar o banheiro feminino.

{A revelação}

Logo no início do filme, o casal Roy e Irma Applewood (que comemoram 25 anos de casados) reúnem-se com o padre da igreja para conversar sobre a relação. Após uma benção, o padre questiona se está tudo bem ou se há alguma coisa interferindo na vida sexual dos dois. Inesperadamente, Roy (um senhor na casa dos cinquenta anos) não consegue segurar as lágrimas e confessa: “Sou uma mulher presa no corpo de um homem e quero fazer uma cirurgia para trocar de sexo”.

Em princípio, tanto o padre quanto a Irma não acreditam naquela conversa. Porém, quando cai na real de que tudo aquilo é verdade e de que o marido está decidido a fazer a cirurgia, Irma abandona a sala e termina a reunião. Já em casa e incrédula começa a confrontar o marido com perguntas duras e diretas: “Quando você transava comigo, era um homem ou uma mulher?” De maneira sincera e compreensível, Roy responde que em várias vezes, durante o sexo, se sentia como mulher.

- Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!-Você não pode tê-lo de volta.
– Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!
-Você não pode tê-lo de volta.

Ironicamente, a filha do casal (interpretada por Hayden Panettiere, ainda bem novinha) possui trejeitos masculinizados, não gosta de usar roupas de meninas e não tem paciência quanto à menstruação. Irma faz de tudo para que ela não saiba do que acontece com o pai, mas há situações que não podem ser evitadas. Sem delongas, Irma manda Roy para fora de casa e implora para que ele repense suas “escolhas”. Acontece que Roy chegou ao ponto de não conseguir negar-se mais, chegou ao fundo do poço, estava com algo entalado na garganta e aquele era o momento de se libertar.

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{Transformação}

Roy conversa o chefe para informá-lo que daquele dia em diante, passaria a se vestir como mulher. O chefe lentamente entende que Roy está falando a verdade e apesar de incompreender a situação, decide mantê-lo no cargo. O chefe vai até a casa de Irma para perguntar se aquilo está realmente acontecendo. Após uma conversa familiar, os dois trocam olhares e surpreendentemente, se beijam. Logo se separam e brincam: “Não daria certo” – o que não é verdade já que os dois passam a ter um caso. Brilhantemente, o filme explora não só a sexualidade de Roy, mas também a sexualidade de Irma. Depois de assumir-se transexual, Roy deixa claro para a mulher que o sexo é uma necessidade natural do ser humano, portanto, ela tem o direito de transar com outros homens (já que ele vai realizar a cirurgia).

Roy passa a tomar hormônios, fica mais sensível, os seios crescem, assim como os cabelos. Nesse meio tempo Irma entra na menopausa e os dois enfrentam juntos, as mudanças corporais. Em uma cena divertida e ao mesmo tempo bela, Roy ouve som no carro e tenta cantar com voz de mulher. No dia seguinte, quando chega de brincos no serviço, um de seus colegas o obriga a tirá-los. Entre socos e pontapés, Roy impõe-se e mostra que a partir daquele momento, teria que ser tratado com respeito.

{Aceitação}

O filme, na verdade, não explora o que aconteceu com Roy antes da “revelação”. Há poucos lampejos e referências a uma infância em que ele, ainda menino, pegava as roupas da mãe para se transvestir. O enfrentamento com o pai, em uma festa de família tornou-se o ponto alto da representação de seu sofrimento. Durante os parabéns, o patriarca da família relembra o quanto Roy era diferente dos outros. Humilha-o diante dos irmãos, da filha e da mulher. Roy esquiva-se da sala. Tempos depois, Irma o encontra no celeiro, com uma espingarda apontada para o pescoço.  Diante do êxtase emocional percebe que não conseguiria perder o marido, não conseguiria vê-lo morrer.

Irma Jessica Lange

Após a possibilidade da perda, Irma permite a volta do marido a casa e passa a conviver pacificamente com a mudança.  Em uma cena belíssima, Irma opina sobre as escolhas de roupa do Roy. Ele, já vestido de mulher, agradece o apoio. E ela responde: “Você faria o mesmo”. Os diálogos são uma lição de amor e cumplicidade, de que o amor (o verdadeiro) vence as dificuldades do dia-dia.

Pouco tempo depois Roy e a família vão à missa. Os integrantes passam a encará-lo e ele, respeitosamente se ausenta da Igreja. Com certeza, esse é um dos pontos positivos do filme: a diretora trata com compreensão a incompreensão das pessoas diante a transexualidade. Sem julgamentos, AndersonRoy Tom Wilkinson mostra que nem todo mundo entende o que acontece com um transexual e que esse é um processo dificílimo. De alguma forma, a cena da igreja me fez lembrar uma conhecida que dizia que se estivesse com a filha na rua e visse dois homens (ou duas mulheres) se beijando, chamaria a polícia. Levei essa discussão para a aula de Política e um dos meus colegas disse uma coisa interessante: “às vezes o pré-conceito está intrínseco, a pessoa não percebe quanta maldade um ato desses representa. Em um país sério, se ela chamasse a polícia seria ela que iria presa”.

 Por último, há outra cena que me deixou emocionadíssima. A família recebe o filho mais velho. Quando ele encontra o pai (sua referencia de masculinidade) vestido de mulher, começa a julgá-lo. Os dois se esmurram pela casa até que o pai consegue convencê-lo de que o respeito mútuo é indispensável. Os dois, em lágrimas, abraçam-se na escada sala. Quando as coisas voltam ao Normal, Irma e Roy fazem sexo como homem e mulher, pela última vez.