Anjos da lei

Resolvi escrever sobre ‘Anjos da lei’ porque tive uma surpresa quando encontrei no Filmow, no IMDB e no Omelete uma boa recepção e diversas críticas positivas sobre o longa. Anjos da Lei (ou 21 Jump Street) é um filme de comédia, lançado em 2012, dirigido por Chris Miller e Phil Lord (também diretores em ‘Tá chovendo hambúrguer’). A trama conta a história de dois rapazes que eram inimigos no colégio, mas que se tornaram companheiros quando foram aceitos na Academia de Polícia. Particularmente, comecei a assistir o filme com muitas esperanças e o que vi foi um retalho de clichês e diálogos repetitivos.

Entendo perfeitamente quem gostou do filme, há alguns detalhes que, de fato, merecem atenção. Um deles é que os diretores de ‘Anjos da lei’ se inspiraram na famosa série policial da FOX (produzida nos anos 80 e que trazia Johnny Depp no papel de Tom Hanson). O que é bacana é que fizeram uma boa releitura da série e, na história, os personagens tem a oportunidade de retornar ao colégio (totalmente transformado) e reviver o passado.

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Como eu gosto do Jonah Hill! E como fico chateada ao vê-lo fadado ao mesmo tipo de papéis – em Anjos da lei, não acontece diferente. No início do filme, somos apresentados a Schmidt e a Jenko. Enquanto Schmidt (Hill) é um nerd gordinho e impopular, Jenko (Channing Tatum) é o garanhão da turma e o esportista mais popular da escola. Depois de já formados, os dois são colocados na mesma classe da Academia de Polícia e decidem se ajudar. Enquanto Schmidt auxilia Jenko com as provas escritas, Jenko ajuda Schmidt nas provas práticas/físicas. Quando se tornam oficialmente policiais, Jenko e Schmidt percebem que a vida profissional não é tão fácil assim e são surpreendidos por uma sequencia de insucessos ( a começar por uma péssima tentativa de prisão de um bando de motoqueiros).

Como castigo os dois são colocados em outra unidade e recebem uma missão: descobrir quem é o fornecedor das drogas que os garotos da escola da região estão usando. Agora, disfarçados, Jenko e Schmidt voltam ao colégio (dessa vez, como irmãos) e se empenham para descobrir quem é perigoso traficante. Ironicamente, a escola está remodelada, o que era popular há alguns anos atrás, deixou de ser. Assim, Schmidt (sempre rechaçado por ser nerd e amoroso) se torna o popular da turma, enquanto Jenko passa a andar com os nerds.

anjos-da-lei-640x480Apesar da proposta, ‘Anjos da lei’ reúne todos os velhos clichês, oferece um filme simples (mas uma opção para passar o tempo). Não bastasse ser impopular, nerd e gordinho, Schmidt atrapalha-se em seus romances e é praticamente ridicularizado em tela por seu ‘excesso de sentimentalismo’.  Jenko é bonitão e praticamente todas as mulheres se oferecem a ele (assim como a professora que não para de convidá-lo pra sair).  Ice Cube, no papel do chefe de polícia aparece como uma cara mal humorado, com boca suja e impaciente –  QUER MAIS CLICHÊ QUE ISSO? Pois é, você encontra: carros explodindo (ou não?) , meninas lindas dopadas, segregação escolar (grupo de teatro x grupo de estudos de química), professores politicamente incorrentos – e por aí vai…

As ligações perigosas: sobre o livro

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“O amor, o ódio, só tem o trabalho de escolher,

tudo está debaixo do mesmo tecto.

E pode até, fazendo existência dupla,

afagar com uma das mãos e ferir com a outra “

M. Merteuil

Entusiasmada com a narrativa, li o livro e fiz anotações sobre detalhes que me chamaram atenção. Um delas, e talvez até evidente, é que a Marquesa de Merteuil é um personagem muito mais pérfido e cruel do que parece ser no filme. Logo nas páginas iniciais, quando o Visconde revela o desejo de se relacionar com a Presidente de Tourvel, a Marquesa sugere que ele poupe se tempo, ‘tome sua virtude a força’ e atenda seu pedido de desonrar a jovem Cecília Volanges. Em uma carta da Madame de Volanges, fica muito claro porque as outras mulheres a admiram: não só por sua beleza, mas também por conseguir resistir [como assim dizia] aos terríveis encantamentos do Visconde – e não ser domada por nenhum homem.

Em boa parte do livro, o Visconde e a Marquesa se empenham em fazer com que Cecília e Dancey se encontrem, ao mesmo tempo, morrem de tédio das infindáveis e tolas declarações de amor. Já na segunda parte da trama, a Marquesa decide denunciar a troca de cartas entre os jovens apaixonados por puro divertimento, para ela não existe amor sem obstáculos e é dessa forma que, ironicamente, ganha a confiança de Cecília, Dancey e da Madame de Volagens.

Assim como no filme, as passagens mais interessantes se dão entre o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil. As cartas trocadas por eles estão repletas de ironia, sensualidade e duplo sentido. Além disso, os dois analisam os outros personagens friamente (até com certo deboche) e garantem o ritmo da narrativa. O Visconde de Valmont também merece seu destaque, sua insistência em relação a Presidente de Tourvel é admirável, assim como a sua astúcia. Um fato que me chamou a atenção foi que o Visconde só decidiu tirar a virgindade de Cecília após descobrir que sua mãe escrevia cartas denunciando-o a Presidenta (e não apenas, para agradar a Marquesa).

Provavelmente é uma impressão minha (pois não achei menção a isso em nenhuma página da internet), mas é o seguinte: durante algumas passagens, o Visconde e a Marquesa me pareceram apresentar certos interesses homossexuais, um exemplo é quando o Visconde relata um fato que lhe ocorreu quando estava na casa da Viscondessa M: ‘Os beijos da Viscondessa deixaram-me indiferente, mas confesso que o de Vressac me deu prazer’. Em outro momento, a Marquesa cita Cecília mas não se refere a ela como amiga e sim como uma leve paixão e que se fosse homem teria prazer em cortejá-la (a carta logo me lembrou da famosa cena do filme ‘Segundas Intenções’ – filme de 1999, também baseado no livro, onde Kathryn Merteuil (interpretada por Sarah Michelle Gellar) e Cecile (Selma Blair) se beijam.

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A Marquesa me pareceu muito mais sábia e maquiavélica do que o Visconde. Em uma passagem do livro, o Visconde pede que a Marquesa não dê atenção a Prévan, um homem que disse publicamente que a conquistaria. Ela se nega a atender seus pedidos, diz que dormiria com Prévan para satisfazer sua própria vontade e que ninguém iria ficar sabendo. [A Marquesa mede suas forças com o Visconde, não atende seu pedido e ainda lhe provoca ciúmes]. O fato é que a Marquesa arma para Prévan e faz com que o encontro dos dois se pareça a uma tentativa de estupro – Prévan acaba preso.

Na primeira e na segunda parte, Cecília nos leva a crer que é uma moça inocente (mesmo com todas as desconfianças e insinuações da Marquesa), porém depois que perde a virgindade com o Visconde (inclusive, depois de descobrir que ele dormiu com a sua mãe), a personagem praticamente transforma-se e passa a ser o que as palavras do Visconde definem bem: ‘tão sabia quanto o mestre’. 

[ O desfecho ] Não há muito o que comentar das cartas dos outros personagens, eles são fundamentais para o desenvolvimento da trama, mas a Marquesa e o Visconde se sobressaem, eles são os manipuladores. A presidente de Tourvel, que em grande parte da obra tenta fugir dos próprios desejos e manter sua virtude é humilhada por Valmont e acaba morrendo (em uma mistura de dor, decepção e cólera). O Visconde, como sabemos, morre em uma batalha com Danceny, que seu muda de Paris com medo de perseguições. O que não nos é contado no filme é que Cecília implora que a mãe lhe coloque em um convento e decepcionada com o amor, se torna freira. A Marquesa,depois da humilhação no teatro, pega varíola, fica com o rosto completamente desfigurado (e ainda perde um olho) e nas palavras da Madame de Volagens, fica hedionda:  ‘O marquês de ***, que não perde a ocasião para uma maldade, dizia ontem, falando dela, que a doença a virara do avesso, e que tinha agora a alma estampada no rosto. Infelizmente todos acharam que a expressão era justa’ (Carta CLXXV, p.358)

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Marquesa de Merteuil uma feminista?

‘Eu sempre soube que nasci para dominar o seu sexo

e vingar o meu’

Confesso que estou encantada com a história, viciada no livro e no filme… participei de algumas discussões, revi outras interpretações e li vários artigos/publicações na internet sobre a trama. Lola Aronovich, autora do blog ‘Escreva, Lola, Escreva’, nos presenteou com duas publicações sobre a trama e foi questionada por uma leitora se a Marquesa poderia mesmo ser considerada uma feminista. Lola chamou atenção para o fato de a Marquesa ter consciência do seu papel desprivilegiado na sociedade e de se esquivar da situação. Outro detalhe, sabiamente observado por ela é que a Marquesa foi a única a receber um castigo (o Visconde e a Presidente morrem, Cecília vai para o convento – o que não é mostrado no filme) enquanto a Marquesa é humilhada publicamente.

Particularmente, não sei se ‘feminista’ é um termo adequado, ainda assim, concordo que a Marquesa de Merteuil representa as mulheres (e sua condição desigual a dos homens) com bastante êxito. Não só ela, as outras personagens também o fazem muito bem. Oprimidas pelos contratos sociais (como o casamento), pela igreja, condenadas ao silêncio, levadas a negar os desejos e os próprios prazeres, responsáveis por apresentar uma reputação de pureza, uma atitude passiva e vários outros aspectos que poderíamos citar por horas.

Outro Blog que eu adoro e que também levanta um questionamento interessante é o ‘Há sempre um livro a nossa espera‘, da Cláudia Soares Dias.  Ela se pergunta sobre a causa e as motivações sociais que levaram a Marquesa apresentar tal personalidade. Para Cláudia, essa personalidade se dá porque Merteuil possuía uma grande dificuldade em lhe dar com rejeições e apresentava (quando adolescente) uma forte curiosidade em relação a sexualidade que esbarrava nas restrições religiosas e sociais. No entanto, não acho que essa personalidade se limite apenas a uma curiosidade, mas também a uma necessidade de ‘auto-proteção’, antes de se tornar viúva, ela ainda estava sujeita às vontades do marido, ainda estava presa a figura masculina e foi só com a sua morte que ela pôde se reinventar.

Em uma passagem do filme, o Visconde faz a seguinte pergunta a Marquesa:

Visconde: Eu frequentemente me pergunto como você conseguiu se inventar

Marquesa: Bem, eu não tive escolha, tive? Sou mulher. Mulheres são obrigadas a serem muito mais cheias de recursos que homens. Vocês podem arruinar nossa reputação e nossas vidas com algumas poucas palavras bem escolhidas. Portanto, é claro que eu tive de inventar não apenas eu mesma, mas também formas de fuga que ninguém pensou antes. E eu fui bem-sucedida porque sempre soube que nasci pra dominar o seu sexo e vingar o meu

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No livro, essa passagem se dá na carta LXXXI, justamente quando o Visconde tenta convencer a Marquesa de que ela não deve se relacionar com Prévan. Austera e confiante, ela explica sua trajetória para mostrar que não teme nenhum homem (e que não aceita ordens). Merteuil também fala (com certo deboche) da sua superioridade sobre o Visconde: ‘Que tem o Visconde feito que eu não tenha ultrapassado mil vezes? Seduziu, perdeu mesmo muitas mulheres: mas que dificuldades teve a vencer? Que obstáculos a ultrapassar? Onde está o mérito que verdadeiramente lhe caiba?”

Reproduzo uma parte da carta que é uma síntese da história de Marquesa e que nos ajuda a descobrir um pouco mais da sua personalidade… (Olha, é um pouco grande… eu sei, mas vale muito a pena!)

‘Entrando na sociedade num tempo em que, criança ainda, as circunstâncias me condenavam ao silêncio e a inacção, delas soube tirar proveito para observar e refletir. Enquanto me julgavam estouvada ou distraída, não dando ouvidos à verdade dos ensinamentos que me dispensavam, eu recolhia cuidadosamente tudo o que procuravam esconder-me.

Essa curiosidade útil, ao mesmo tempo que servia para me instruir, ensinava-me ainda a dissimular. Obrigada muitas vezes a esconder dos olhos dos que me rodeavam os motivos que me chamavam atenção, experimentei pousar os meus no que me agradasse; o resultado desde logo foi ter adotado aquele olhar sem constrangimento que o Visconde tantas vezes me gabou. Animada por este primeiro êxito, tratei de regular, pelo mesmo processo, os diversos movimentos do meu rosto. Se sentia qualquer apreensão, estudava-me até assumir um ar de serenidade, ou mesmo de alegria, levei o meu zelo ao ponto de a mim própria causar dores voluntárias, para durante esse tempo procurar a expressão de prazer. Com o mesmo cuidado e maior custo, exercitei-me a reprimir os sintomas de uma alegria inesperada. Foi assim que consegui tomar sobre a minha fisionomia aquele domínio que algumas vezes admirou em mim.

Eu era ainda muito nova, e quase sem interesse, mas só tinha de meu os próprios pensamentos, e indignava-me a ideia de que mos pudesse roubar ou surpreender contra minha vontade. Munida dessas primeiras armas, experimentei servir-me delas. Não me satisfazia a não me deixar penetrar: divertia-me mostrar-me sob formas diferentes. Dominando os meus gestos, observava as minhas falas. Uns e outras eram regulados segundo as circunstancias, ou mesmo segundo as minhas fantasias. Desde então, a minha maneira de pensar pertenceu-me a mim só, e não mostrei nunca senão o que me era útil deixar ver.

Este trabalho sobre mim própria fixou a minha atenção sobre a expressão dos rostos e o carácter das fisionomias, e adquiri esta mirada penetrante, na qual a experiência todavia me ensinou a não me fiar inteiramente, mas que, em todos os casos, raramente me enganou.  

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Ainda não tinha quinze anos, possuía já os talentos a que a maior parte dos nossos políticos devem a sua reputação, e encontrava-me ainda nos rudimentos da ciência que pretendia adquirir.  (…) O meu desejo não era gozar, era saber. O desejo de me instruir sugeriu-me os meios.  Senti que o único homem com quem podia falar sobre esse assunto, sem me comprometer, era o meu confessor. E logo tomei o meu partido. Passei por cima dessa pequena vergonha e gabando-me duma falta que não tinha cometido, acusei-me de ter feito tudo o que fazem as mulheres. Tal foi a verdade que ideia exprimia. A minha esperança não foi de todo iludida, nem inteiramente realizada, o receio de me trair impedia-me de me esclarecer. Mas o bom do padre pintou-me o mal tão grande que eu concluí que o prazer devia ser extremo e ao desejo de o conhecer sucedeu o de o saborear.

Não sei onde esse desejo me teria conduzido, e, faltando-me por completo a experiência, uma única oportunidade ter-me-ia talvez perdido. Felizmente pra mim, minha mãe anunciou alguns dias depois que eu ia casar-me. A certeza de que ia saber extinguiu imediatamente a minha curiosidade, e cheguei virgem aos braços do Sr. De Merteuil. Era com tranquilidade que esperava o momento que tudo devia ensinar-me, e foi-me preciso reflectir para mostrar confusão e receio. A primeira noite, que geralmente se tem uma ideia tão cruel ou doce, apresentava-me apenas uma ocasião de experiência: dor e prazer, tudo eu observava com exatidão e nessas diversas sensações via apenas fatos para recolher e meditar.  

Este gênero de estudo depressa começou a agradar-me; mas, fiel aos meus princípios, e sentindo, talvez por instinto, que ninguém devia estar mais longe da minha confiança do que o meu marido, resolvi, pelo simples fato de que era sensível, mostrar-me impassível a seus olhos. Esta frieza aparente foi, ao longo do tempo, o fundamento inabalável da sua cega confiança. Juntei-lhe, após uma segunda reflexão, o aspecto estouvado que a minha idade autorizava; e nunca ele me julgou mais criança do que nos momentos em que com mais audácia eu o iludia.

Entretanto, devo confessá-lo, deixei-me primeiro arrastar pelo turbilhão do mundo, e entreguei-me inteiramente às suas distrações fúteis. Mas ao fim de alguns meses, tendo-me o senhor de Merteuil levado a partilhar as suas tristes férias no campo, o medo do aborrecimento fez com que me voltasse o gosto do estudo; e encontrando-me rodeada apenas de pessoas cuja distância de mim me punha ao abrigo de toda a suspeita, aproveitei a ocasião para dar um campo mais vasto às minhas experiências.

 Foi ali, principalmente, que obtive a certeza de que o amor que nos louvam como a causa dos nossos prazeres é apenas, quando muito, o seu pretexto. A doença do senhor de Merteuil veio interromper tão doces ocupações; foi necessário segui-lo à cidade, onde ele ia procurar socorros. Morreu, como sabe, pouco tempo depois; e embora, no fim de contas, eu não tivesse de me queixar dele, nem por isso senti menos vivamente o preço da liberdade que a minha viuvez ia proporcionarme, e a mim própria prometi aproveitar bem essa liberdade. Minha mãe contava que eu entrasse num convento, ou voltasse a viver com ela. Recusei uma e outra solução; e tudo o que concedi à decência foi voltar ao mesmo lugar no campo, onde me restavam ainda algumas observações a fazer.

 Essas observações ganharam força com o auxílio da leitura; mas não julgue que foram todas do gênero que supõe. Estudei os nossos costumes nos romances; as nossas opiniões nos filósofos; procurei mesmo nos mais severos moralistas o que eles exigiam de nós, e soube assim o que se podia fazer, o que se devia pensar e o que era preciso parecer. uma vez fixada sobre esses três pontos, só último apresentava algumas dificuldades na sua execução; esperei vencê-las e medirei nos meios.

 Começava a aborrecer-me dos meus prazeres rústicos, demasiado monótonos para a minha imaginação; sentia uma necessidade de coquetismo que me reconciliasse com o amor; não para verdadeiramente o sentir, mas para o inspirar e o fingir. Em vão me haviam dito e eu tinha lido que não se podia fingir esse sentimento; eu via, no entanto, que para o conseguir bastava juntar à inteligência de um autor o talento de um comediante. Experimentei os dois gêneros, e talvez com algum êxito; mas em lugar de procurar os vãos aplausos do teatro, resolvi empregar na minha felicidade o que tantos outros sacrificavam à vaidade.

 Um ano se passou nessas diversas ocupações. Como o meu luto já me permitia voltar a aparecer, regressei à cidade com os meus grandes projetos; não esperava o primeiro obstáculo que aí encontrei. Aquela longa solidão, aquele retiro austero tinham lançado sobre mim uma aparência de virtude que amedrontava os nossos galãs; mantinham-se afastados e deixavam-me entregue a uma multidão de aborrecidos senhores, que pretendiam todos a minha mão. O embaraço não estava em recusá-los; mas várias dessas recusas desagradavam à minha família, e eu perdia nessas questões internas o tempo que prometera a mim mesma gastar tão agradavelmente.

 Fui pois obrigada, para atrair uns e afastar os outros, a pôr em relevo algumas inconsequências e a empregar em prejudicar a minha reputação, o cuidado que pensava aplicar em conservá-la. Consegui-o facilmente, como pode imaginar. Mas não me sentindo arrebatada por nenhuma paixão, fiz só o que julguei necessário, e medi com prudência as doses da minha leviandade. Logo que atingi o fim que me propusera voltei ao ponto de partida e fiz promessas de emenda a algumas daquelas mulheres que, não podendo ter pretensões a agradar, se pavoneiam com as do mérito e da virtude. Foi um lance de dados que me valeu mais do que eu esperava.

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Aquelas reconhecidas donas arvoraram-se em minhas apologistas; e o zelo cego que empregaram para louvar o que elas chamavam a sua obra chegou ao ponto de, à menor frase que alguém se permitisse a meu respeito, todo o partido da virtude gritar contra o escândalo e a injúria. Pelo mesmo processo consegui ainda a aprovação das mulheres que pretendiam agradar, as quais, persuadidas de que eu renunciava a seguir carreira idêntica à sua, me escolheram para alvo dos seus elogios, todas as vezes que queriam provar que não diziam mal de toda a gente.

 Entretanto, a minha anterior conduta tinha atraído os apaixonados; e, para me equilibrar entre eles e as minhas infiéis protetoras, mostrei-me como uma mulher sensível, mas difícil, a quem o excesso de delicadeza fornece armas contra o amor.

Então comecei a desenvolver no grande teatro os talentos que dera a mim própria. O meu primeiro cuidado foi o de adquirir o renome de invencível. Para chegar a isso, os homens que não me agradavam foram sempre os únicos de quem simulei aceitar as homenagens. Empreguei-os sutilmente em alcançar por meio deles as honras da resistência, enquanto me entregava sem receio ao amante preferido.

 Mas a esse a minha fingida timidez não permitiu nunca que me seguisse na sociedade; e os olhares do mundo fixaram-se, desse modo, no amante recusado. Sabe, meu amigo, que levo pouco tempo a decidir-me; é por ter observado que são quase sempre os cuidados anteriores que revelam o segredo das mulheres. Por muito que se faça, o tom nunca é o mesmo, antes e depois do acontecimento. Esta diferença não escapa ao observador atento, e achei menos perigoso enganar-me na escolha do que deixar-me penetrar. Ganho ainda com esse procedimento afastar as evidências, que fornecem os únicos elementos para nos julgarem. Estas precauções, e ainda a de nunca escrever, não entregar nunca uma prova da minha derrota, poderiam parecer excessivas; a mim nunca me pareceram suficientes. Desci ao fundo do meu coração, e nele estudei o dos outros. Soube assim que não há ninguém que não conserve aí um segredo que não deve ser revelado; eis uma verdade que a Antiguidade parece ter conhecido melhor do que nós, e da qual a história de Sansão poderia ser apenas uma engenhosa alegoria. Nova Dalila empreguei sempre, como ela, o meu poder em surpreender esse importante segredo.

Quantos Sansões modernos não tive eu já com a cabeleira sob a minha tesoura! E a esses, deixei eu de temer; são os únicos que me tenho permitido humilhar algumas vezes. Mais subtil com os outros, a arte de os tornar infiéis para evitar parecer-lhes volúvel, uma fingida amizade, uma aparente confiança, alguns rasgos generosos, a ideia lisonjeira que cada um conserva de ter sido o meu único amante, tudo serviu para obter o seu silêncio. Por fim, quando esses meios me faltaram, soube, antes de romper, abafar de antemão, sob o ridículo ou a calúnia, a confiança que esses homens perigosos pudessem obter. O que lhe estou dizendo, tem-me o Visconde visto praticar constantemente; e duvida da minha prudência! (…)

O que esperar da terceira temporada de American Horror Story?

Pra quem é fã de American Horror Story (tanto quanto eu) e sabe que estamos desde o dia 3 de Janeiro sem nenhum episódio novo, há algumas novidades interessantes que nos esperam. A próxima temporada, que recebeu o título ‘Coven’ (algo próximo a Convenção) está sendo gravada a todo vapor em New Orleands e, ao que tudo parece, não vamos nos decepcionar. Como já se sabe, Ryan Murphy deu algumas dicas durante a segunda temporada sobre o que a próxima história abordaria. Muito se especulou sobre o tema e acertou quem apostou em bruxas! (Lembram-se da cena em que a Irmã Eunice/Possuída coloca uma música no toca discos, ‘I put a spell on you’, pois é, essa foi uma das dicas. A outra foi quando Judy, completamente enlouquecida por causa dos eletrochoques, disse ao Kit que pegaria seu chapéu e sairia voando dali. E a terceira apareceu quando Judy pegou uma vassoura e ficou rodopiando com ela).

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O elenco: Dessa vez, a terceira temporada de AHS conta com um elenco reforçadíssimo! Além dos rostos já conhecidos como Jessica Lange, Frances Conroy, Lily Rabe, Taissa Farmiga, Sarah Paulson e Evan Peters, outros atores de peso se uniram ao cast. Alexandra Breckenridge (a Moira jovem), Jamie Brewer (a Addie, na primeira temporada) e Denis O’Hare (Larry) estão de volta, além deles, Patti Lupone, Christine Ebersole, Kathy Bates, Angela Bassett, Emma Roberts, Sir Maejor e Gabourey Sidibe já estão confirmados.

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Sobre a história e os personagens, o que sabemos?

  • Jessica Lange interpretará uma bruxa chamada Fiona. Em uma entrevista, a própria atriz afirmou: “Alguns dos personagens serão figuras históricas, eu interpreto uma bruxa que vai e volta no tempo, por isso, estou em lugares e vivo histórias diferentes. Como só filmamos poucas cenas, ainda não sei ao certo como o personagem será. Outro fato importante é que nessa temporada, Lange interpretará a mãe de Sarah Paulson, que na trama recebeu o nome de Cordélia! Lange será uma das bruxas mais poderosas e terá uma escola onde treina principiantes, o perfil da personagem é tão ácido quanto o da Constance.
  • Bates interpreta Madame Lalurie, uma mulher da alta sociedade de Louisiana que é uma serial Killer e que tortura seus escravos. Curiosamente, o bisavô de Kathy Bates foi médico de Andrew Jackson, vizinho de Lalure. “Eu acredito que meu bisavô tenha passado por aquele lugar antes dela sair”.
  • Dessa vez, Frances Conroy terá uma participação na série, ela estará presente em dez episódios (dos treze) da temporada. Sua personagem também será uma bruxa e melhor: uma antiga rival de Fiona, personagem da Jessica Lange. Ela também será mãe da Taissa Farmiga que, ao que tudo parece, viverá novamente um par romântico com Evan Peters.
  • Bassett será Marie Laveau, uma mulher especialista em voodoo. “Enquanto estive em New Orleans fiz uma pesquisa e descobri que as pessoas tinham muito respeito por ela. Minha personagem foi uma mulher que nasceu em 1801, viveu até os 80 anos e que era muito influente na cidade.“
  • Patti Lupone não será uma bruxa como pensávamos, em entrevista, a atriz revelou que seu personagem será algo parecido com Piper Laurie em ‘Carrie, a Estranha’, uma mulher extremamente religiosa, é provável que ela apareça para ‘caçar as bruxas’.
  • Como a própria Jessica Lange afirmou em entrevista, a história se passará em vários períodos de tempo, mas a principal se centra em uma batalha entre dois tipos de bruxas (um deles, as bruxas de Salém). Ryan chegou a afirmar que quer algo mais luxuoso e que dessa vez, pretende pegar mais leve. A série trará um romance parecido com Romeu e Julieta e terá um perfil cômico.

Confiram algumas imagens do set de gravação:

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E pra terminar, confiram os  teasers promocionais que sairam!

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Precipícios d’alma

Quem frequenta o La Amora sabe o quanto eu sou fã da Joan Crawford, encontrei outro dia um de seus filmes em DVD que há tempos tenho vontade de assistir e confesso que nunca a tinha visto em uma atuação tão primorosa. Precipícios d’alma (Sudden Fear) é um filme de 1952, dirigido por David Millher que traz Crawford, Jack Palance e Gloria Grahame em um ótimo suspense noir que envolve paixão, assassinato, interesse e muito dinheiro. Apesar da simplicidade, a trama apresenta um ritmo delicioso e um trabalho visual muito interessante.

Joan Crawford

O filme inicia-se em um ensaio de uma peça teatral escrita por Myra Hudson (Crawford), uma mulher sensível, bela e riquíssima. Apesar do talento, o ator Lester Blaine (Palance) não é contratado para o papel principal porque segundo Myra, ele não tem o ‘ar romântico’ necessário para o personagem. Depois de ser dispensado, Lester persegue Myra para tentar convencê-la de que tem charme suficiente para participar da peça. Durante uma viagem de trem de Nova York a São Francisco, os dois ficam cada vez mais íntimos e começam a se relacionar. Lester e Myra se casam e vivem por algum tempo um idílico romance ate que Myra decide doar toda a sua fortuna e viver apenas do trabalho que realiza no teatro. Inesperadamente, Lester reencontra uma antiga amante chamada Irene Neves (Grahame) e juntos decidem matar Myra antes que ela se livre do dinheiro.

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Já no começo, há um aspecto muito claro: Lester aproxima-se de Myra para se vingar por ter sido dispensado da peça. O que não fica óbvio é a forma que ele usará para se vingar dela e é o que de fato, sustenta o argumento do filme. Ao aproximar-se de Myra, Lester comprova que além de ser um ótimo ator é um homem perigoso (e porque não, cheio de mistérios?). Enquanto isso, a forte personalidade que Myra apresenta no início da trama (cercada de bajuladores e de homens que a obedecem cegamente) cai por terra quando ela se apaixona. Desde o casamento, Myra traz a tona toda a sua necessidade de receber e de dar amor. Sua face romântica transborda por quase todo o filme e quando descobre que seu marido não é realmente quem pensa, Myra surpreende mais uma vez, mostrando que possui cartas na manga, acentuadas por destreza e astúcia.

Além da tensão presente em todo o filme, outro aspecto que chama atenção é uma enorme sensualidade que envolve os três personagens principais. De fato, Jack Palance não apresenta uma beleza irresistível e ainda assim, te convence que é um arrebatador de corações.  [Aliás, essa foi a sua primeira indicação ao Oscar]. Grahame, no papel de Irene Neves mostra um atrevimento  admirável através de mulher linda e sem escrúpulos. Há uma cena entre os dois muito interessante onde Lester bate em Irene e a empurra no sofá. Ao invés de ter uma reação dramática, Irene se deita e sensualmente acende um cigarro.

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Joan Crawford está lindíssima, lindíssima mesmo (com um figurino impecável, a atriz exibe um corpo escultural e um rosto marcante que lhe é característico). Mais do que isso: o roteiro lhe favorece imensamente e permite que cresça em tela, explorando diversas feições: alegria, tristeza e medo – ela praticamente manda na câmera.  É importante lembrar que nessa época, Crawford pediu para sair da Warner e estava decidida a trabalhar em outros projetos. Em ‘Precipícios d’alma’ Joan atuou também como produtora e uniu-se a RKO para atrair investidores. Assim como Palance, recebeu uma indicação ao Oscar, mas acabou perdendo para Shirley Booth.

Outro destaque vai para a iluminação marcada por um forte contraste e para a sequência dos pesadelos de Myra onde, por exemplo, ela sonha que está caindo de um prédio. A criatividade técnica expõe uma montagem muito bem feita e acentua o clima de suspense (aliás, as cenas finais são de tirar o fôlego).

Mamãe é de morte

Quem se lembra de ‘Mamãe é de morte’? Aquele filme que passava direto na Band. Pois é, tive a oportunidade de revê-lo ontem e só agora, depois de uma pesquisa rápida, descobri que é uma produção de 1994, dirigida por John Walters ( também diretor em Pink Flamingos, famoso por filmes alternativos e de baixo orçamento, muito conhecido no gênero trash).

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Há várias controvérsias sobre esse filme, enquanto alguns dizem que é um dos piores de Walters, outros o classificam como um clássico contemporâneo. O fato é que apesar do exagero característico, ‘Mamãe é de morte’ apresenta cenas hilárias com uma boa dose de ironia e humor negro.  A trama conta a história de Beverly Stuphin, uma perfeita dona de casa americana que guarda um terrível segredo: é uma perigosa serial killer.  O cotidiano tranquilo da família (composta por seu marido Eugene (Sam Waterston) e seus dois filhos, Misty e Chip é interrompido quando Bervely sofre uma ‘crise nervosa’ e passa a matar (sem nenhum escrúpulo) qualquer um que incomode sua família.

Revendo o filme, fiquei atenta a várias  menções interessantes ao cinema trash e me deparei com uma cena onde citam ‘Almas Mortas’, um longa B de 1964 que traz Joan Crawford no papel de Lucy Harbin, uma mulher que foi traída pelo namorado e que decide assassina-lo (e a sua amante) a machadadas. Tempos depois ‘Almas Mortas’ foi classificado como um horror cujo subgênero podia ser definido por Psycho-biddy ou hag horror, trata-se de filmes que misturam drama, thriller, vingança e humor negro onde as personagens principais são mulheres maduras e perigosas (algumas insanas e outras sobre tremendo estresse).

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E como Kathleen Turner está linda, aliás, o filme todo é praticamente ela. Responsável pelas cenas mais hilárias (como aquela em que ela imita o canto dos pássaros ou a do julgamento), Turner sobressai aos outros atores em uma encenação ímpar e engraçada.  É interessante perceber características que marcam os filmes dos ano 90, esse, por exemplo, apresenta uma enorme influência da videoarte (como o uso contínuo das janelas e da sobreimpressão).

Mais do que trash (como a cena onde Beverly arranca um rim do rapaz que a filha é apaixonada), ‘Mamãe é de morte’ é uma crítica bem humorada à sociedade moralista e despe a imagem de família [e vizinhança ] exemplar para mostrar que no fundo, todos nos guardamos nossas imperfeições.

Missão madrinha de casamento

Quando fizeram burburinhos sobre esse filme, que foi um sucesso em 2011 e rendeu mais de $700 milhões de bilheteria, eu pensei com meus botões: (desculpem a expressão) ‘Deve ser uma bosta!’. Passou-se o tempo e eu me peguei assistindo o filme pela TV a Cabo e morrendo de rir. Mordo a língua, volto atrás e confesso que ‘Missão madrinha de casamento’ é um filme divertidíssimo, repleto de cenas e diálogos engraçados. Bom, conheço quem não goste da trama e diz que tem muitos clichês de romance de casamento (e na verdade, tem  mesmo), mas apesar de tudo é um filme interessante do qual me arrisco a dizer que é quase uma versão feminina de ‘Se beber não case’.

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Apesar de ser uma comédia ‘água com açúcar’, Missão madrinha de casamento traz rostos conhecidos da TV Americana (como Rose Byrne, Kristen Wiig e Melissa McCarthy) que sempre deram um show de atuação, mas que de alguma forma, ficaram por muito tempo em segundo plano. Nesse caso, há que citar Melissa McCarthy que ganhou uma enorme visibilidade e que de uns tempos pra cá, cresceu como ninguém no campo do entretenimento.

O filme, dirigido por Paul Feig (o mesmo diretor de Professora sem Classe e As bem armadas) conta a história de Annie, uma mulher que foi convidada pela melhor amiga Lilian para ser sua madrinha de casamento. Annie, no entanto, enfrenta diversas dificuldades para organizar a festa de ‘despedida’ pois sua rival, a Helen, tenta tomar as rédeas da situação e fazer a festa da sua forma (para isso, dispõe-se a gastar fortunas, pagar viagens e vestidos caros). Nesse meio tempo sua vida financeira desanda, ela perde o emprego e é obrigada a voltar a morar com a mãe. Annie conhece um charmoso policial e se apaixona por ele, mas não sabe como lidar com a situação já que desde o último fracasso no relacionamento, decidiu não levar ninguém a sério.

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Se fossemos comparar com ‘Se beber não Case’, Melissa McCarthy seria o Adam, quase sempre ‘fora de órbita’, seu personagem: Megan chama atenção por apresentar falas inusitadas e desconexas. Rondou também pela internet uma entrevista da Kristen Wiig [que atuou como  roteirista do filme] onde ela afirma que não tem interesse em fazer uma sequencia, segundo Wiig, uma continuação seria muito rentável mas esse não é o objetivo de sua carreira.

Dear Zachary

Dear Zachary

Dear Zachary é um documentário devastador, daqueles que te faz ter medo da mente humana e consciência da fragilidade da vida. Há diversos filmes dramáticos e ficcionais que representam histórias chocantes e que conseguem nos atingir de uma maneira impactante, a diferença é que quando o filme termina, os atores saem da pele do personagem e continuam o rumo de suas vidas. Não nessa história, aqui (como de fato acontece em qualquer lugar do mundo) a morte é definitiva e leva com ela as pessoas que amamos e deixa uma enorme saudade [ou, revolta].

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O filme possui um formato interessante e apresenta um ritmo fundamental para o desenvolvimento da narrativa. Dear Zachary reconta a história de Andrew Bagby um médico que foi assassinado com cinco tiros pela namorada Shirley. Andrew era melhor amigo de Kurt Kuenne (diretor e produtor do filme) que resolveu pegar depoimentos de vários conhecidos, vizinhos e pacientes e realizar o documentário. Kuenne acompanhou todo o processo judicial que acusava Shirley como a principal suspeita do assassinato e retratou de perto a luta e a dor dos pais de Andrew, os Bagby, para colocá-la na cadeia.

Para surpresa de todos, quatro meses depois, Shirley afirmou que estava grávida de Andrew. Diante dessa perspectiva, o diretor resolveu mudar o formado do filme e como em uma carta, contar para Zachary como era seu pai. Logo no início de uma das entrevistas, há um comentário sucinto, mas que me parece bastante relevante.

Uma amiga (e também ex-namorada de Andrew) diz que no dia seguinte encontrou uma publicação no jornal onde noticiavam que encontraram um homem morto de jaleco em um parque e que ninguém sabia o porque do seu corpo estar ali. Ela questiona a frieza dos jornais e diz que aquela nota não fazia jus ao ‘homem’ que noticiavam estar morto: ‘Esse não era o Andrew, o Andrew era muito mais do que isso….’  Por um momento, como jornalista, me peguei pensando na banalização do cotidiano, nos inúmeros casos de assassinato e de crimes horrendos que escutamos todos os dias, sem nos perguntar ‘quem era ele’ e nos incontáveis mortos que diferente de Andrew, não tiveram a oportunidade de ter a vida recontada (e romanceada) através de um documentário.

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Após descobrirem a gravidez de Shirley, David e Kathleen (os Bagby) fizeram de tudo para conseguir a guarda do menino já que Shirley não foi presa. O casal passou por situações inimagináveis, tiveram que conviver diariamente com a assassina do filho, para não perder o contato com o neto.  Em vários momentos [como cúmplices], escutamos gravações de conversas entre David, Shirley e Kathleen onde os avós asseguram que não deixarão que nada falte ao bebê. ‘Deixaremos fralda e leite na sua porta pela manhã, o bebê não vai passar fome’

No desenrolar do filme, Kuenne pede que os entrevistados falem sobre Andrew e que mandem uma mensagem para Zachary: praticamente todos demonstram um carinho imenso por Andrew e fazem questão de contar uma história para comprovar o porque o admiravam  tanto. Logicamente, as entrevistas mais tristes são as dos pais que relatam desde a felicidade do nascimento do filho ao triste dia em que foram reconhecer seu corpo, que estava com o rosto completamente desfigurado após levar um tiro na bochecha.

Finalmente, Kuenne decide viajar e se encontrar com Zachary. As imagens são belíssimas, não há como não se emocionar com essa prova de amor (afinal, fazer um filme é um trabalho árduo – e reconstruir uma biografia ainda mais).  O problema é que a narrativa nos pega de surpresa mais uma vez, o documentário sofre uma reviravolta e nos deixa mais uma vez sem rumo, compartilhando aquela dor imensa: a da perda.

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– Segunda Parte –

Se você se interessou pelo filme e não quer Spoilers, por favor, não leia o resto do texto.

Antes de qualquer coisa eu já tinha decidido parar o texto por aqui, mas eu sinto que falta algo mais, alguma explicação que justifique tanta emoção em relação a um documentário. Pouco tempo depois de encontrar Zachary, Kuenne recebeu a terrível notícia de que Shirley havia desaparecido e levado seu filho com ela. Shirley matou Zachary (que tinha apenas treze meses)  com uma dose de remédios e depois suicidou. Os Bagby, que antes relatavam a felicidade de ter o bebê sob custódia, passam novamente a dor da perda. Kuenne [já, com uma voz cansada e muito triste] revela que depois desse acontecimento, tinha decidido abandonar o projeto , até que percebeu que não fazia sentido fazer um filme para Andrew ou para Zachary, o filme agora era para os Bagby.  De uma maneira muito tocante, os amigos de Andrew mandam mensagens para os Bagby, agradecendo por terem trazido ao mundo, uma pessoa tão especial.

No dia que vi o filme, pouco tempo antes de dormir, fiquei me perguntando se existe uma consciência ou reflexão antes da morte. Seja como for (e sei, que esse pensamento não atingiu só a mim), fiquei pensando no que Andrew, Zachary e Shirley pensaram antes de morrer: se Andrew pensou nos pais, se Shirley pensou nos outros filhos ou se Zachary pensou: ”por quê?“

Do diário de Silvia

Do diário de Silvia foi escrito por Erico Veríssimo em 1961 enquanto ele se encontrava em Virginia, Estados Unidos. O diário encontra-se nos últimos capítulos de o ‘O arquipélago’ (que compõe a trilogia de ‘O tempo e o vento’ – formado também por ‘O Continente’ e ‘O Retrato). No livro, escrito em primeira pessoa, Silvia relembra a infância e expõe a vida conturbada que teve com a mãe, a ausência da figura paterna, o insucesso do casamento com Jango e também fala do amor proibido que sente pelo cunhado: Floriano.

Em seus textos, há uma interlocução com vários personagens de ‘O tempo e o vento’ (como o seu padrinho Dr. Rodrigo,  Dinda – já com 85 anos e completamente cega, o comunista Arão Stein, Tio Bicho e Zeca). Com grande dose de subjetividade, Silvia conta sobre seus pesadelos constantes com a mãe, sobre seus abortos e sua intensa relação com a terra. Outro aspecto interessante é que a história se passa na década de 1940 e há diversas menções a acontecimentos históricos como a implantação do Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial.

Fiquei encantada pelo livro! Principalmente porque logo na primeira página, Silvia reflete sobre o hibridismo humano. Passei a lê-lo intensamente e marcar as passagens que me pareciam mais belas, das quais, tomo a liberdade de reproduzir:

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– Isso prova que, como todo o mundo, tenho dupla personalidade. Agora sou a que escrever e depois serei a que lê. Qual! Tenho muitas Sílvias dentro de mim. Cada vez que eu reler estas páginas, serei outra. E cada uma dessas outras será diferente da que escreveu.

-Em certos momentos, chegamos a ter até um certo orgulho de nossas tristezas e infelicidades, e usamos essas ‘desgraças’ para comover os outros e arrancar deles piedade ou amor. (Não quero piedade, quero amor). Em suma, uma chantagem. Um caso parecido com o da Palmira Pepé, que há anos anda pelas ruas da cidade manquejando, choramingando e mendigando. Quando os médicos querem curar-lhe o defeito da perna, a Palmira recusa, alegando que, se sarar, não terá mais razão de pedir esmolas.

-Afinal de contas, onde está mesmo Deus? Não sei. Sinto que ainda não o avistei. Se Ele me conceder a graça da Sua presença, estou certa de que minha vida mudará para melhor. Em suma, necessito que Deus exista.

– Temos a tendência de classificar as pessoas como os naturalistas classificam as borboletas, feito o que as espetamos com um alfinete contra um quadro… e pronto!, passa a ser peças do nosso museu particular. Acho que foi isso que Jango fez comigo. Não quero fazer o mesmo com ele.

-Por que escrevo todas estas coisas que ninguém, mas ninguém mesmo, deverá nem poderá ler a não ser as outras Sílvias?

-Eu gostaria de compreender melhor as outras pessoas. Seria um modo indireto de me compreender a mim mesma. Gosto de gente. Desejo que os outros gostem de mim. A minha vida não teria sido, toda ela, uma busca de amor?

-Gostamos de nos imaginar bons e generosos. Mas se nos debruçarmos sobre o poço de nossos sentimentos e desejos mais secretos, esse túnel vertical onde se escondem nossas maldades, mesquinhezas, egoísmos e misérias – estou certa de que não reconheceríamos a nossa própria face refletida na água do fundo.

– Quando mamãe morreu, meus olhos permaneceram secos. Eu, que me comovo com facilidade com as histórias tristes imaginárias que leio em romances ou vejo no cinema, não tive lágrimas para chorar a morte da criatura que me deu o ser. O que eu senti foi uma espécie de alívio, mas um alívio doloroso, desses que dilaceram o peito. [Mas Sílvia, você cuidou da sua mãe durante toda a vida]. Eu queria ter feito por amor o que só fiz por um sentimento de dever. É isso que me dói.

-Um talho pode não doer muito na hora em que é produzido, mas deixa uma cicatriz que, bem ou mal, a gente carrega vida em fora… Uma cicatriz que em certos dias comicha e nos leva a pensar na pessoa que nos feriu. [Ainda com rancor?] Não, Zeca, mas com uma enorme tristeza. Porque não podemos deixar de perguntar a nós mesmos se a feria era necessária.

-O fato de acreditarmos em Deus não elimina necessariamente todas as nossas dúvidas a respeito da vida e mesmo do próprio Criador. Eu cá tenho as minhas ‘diferenças’ com Deus. Qual é o filho que não briga de vez em quando com o pai? Isso significa que ele deixa de amar o Velho? Ou que cessa de acreditar na sua existência? Ou na sua bondade? Está claro que não. E vou te dizer outra coisa importante. Levantou-se, aproximou-se da panela, apanhou outro pinhão, descascou-o e ficou a comê-lo com ar distraído, como se tivesse esquecido do que ia dizer. Depois, tornou a sentar-se a meu lado e disse baixinho: “Olha. Os grandes arranha-céus têm a capacidade de oscilar com o vento… Sabias? Pois é. Se não oscilassem, viriam abaixo. Assim é a fé. Uma fé dura e inflexível pode transformar-se em fanatismo ou então quebrar-se. A fé que se verga como um junco quando passam as ventanias, essa resiste inata. Portanto, não te preocupes. Continua a duvidar. Deus está acostumado a essas nossa fraquezas”.

-O Bento é um tipo de herói cuja presença e valor ninguém nota, porque ele atomizou, fragmentou seu heroísmo em dezenas de milhares de pequenos gestos e atos cotidianos através de toda a sua vida, de tal maneira que eles não deram e não dão na vista.

– Estou de acordo com Stein num ponto. Não é com caridade que se vai conseguir melhorar a vida dessa pobre gente, mas com uma reforma social de base.  Na minha opinião, porém, a solução não está nos métodos stalinistas. Alguém escreveu que o mal de nossas revoluções é que elas começam com a violência, para imporem um ideal, mas depois o ideal fica esquecido e permanece apenas a violência.  E como é fácil recorrer a brutalidade!  Como é natural! Como isso está de acordo com a nossa condição animal. Parece fora de dúvida que a violência goza de mais popularidade que a persuasão.

Do diário de Silvia/ Erico Verissimo – 2. ed – São Paulo: Companhia das Letras, 2005.