A história do sobrenatural e do espiritismo

“O importante ao receber uma mensagem vinda do outro lado não é tanto a exatidão da informação, mas seu papel de terapia social ou individual. O que importa não é que a previsão se realize, mas alivie, cure ou convide a agir. Astrólogos, cartomantes, médiuns e videntes agem como médicos da alma.”

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Adoro os livros da Mary del Priori, admiro muito o seu conhecimento histórico e sua veia jornalística. Recentemente comprei “Do outro lado”, livro em que ela faz um mapeamento da história do espiritismo no Brasil (com uma grande ênfase no Rio de Janeiro). Mesmo com um tema tão denso, foi possível fazer uma leitura bem agradável… é como se a narrativa te levasse em uma viagem histórica, como se você estivesse atravessando a época das trevas, descendo as ladeiras, passando por ruas tenebrosas e observando toda aquela gente curiosa e assustada, querendo conversar com os mortos.

Ao longo do livro, você entende que o espiritismo é muito (muito mais) do que apenas a possibilidade de conversar com os que já se foram. É muito interessante como em seu surgimento, foi encarada não como religião, mas como ciência. Mais legal ainda, são os relatos da autora sobre a origem da doutrina na Europa (com o magnetismo, Allan Kardec) até o momento em que ela chegou nas terras tupiniquins e seus efeitos sociais.

O fato é que a relação do homem com a morte e com sua concepção sempre foi marcada por uma curiosidade mórbida, pelo medo do incerto, pela utilização de símbolos e criação de mitos. Os nossos antepassados, no entanto, pareciam interpretá-la de uma maneira mais melancólica, mais intensa.  Depois de ler e reler o livro, me pareceu ainda mais evidente que o espiritismo no Brasil sofreu interferências (tanto do catolicismo, quanto das religiões africanas e de outros tipos de cultos).

É muito curiosa a reação  dos antigos  com o trabalho das cartomantes, dos exorcistas e curandeiros. Uma mistura de medo e de fé, uma estranheza que entrelaça o real e o sobrenatural de uma maneira encantadora. No livro há uma série de fotografias e recortes (de anúncios e matérias de jornais) que mostram como era conflituosa a relação da imprensa com a doutrina. Alguns veículos tentavam desmascarar e desautorizar a religião através de reportagens e sátiras.

Citalções

“Outrora,  o morto continuava vivo no seu túmulo. Recebia as homenagens dos descendentes, imóvel, mas consciente. A sepultura seria apenas outra residência, cela de dormitório, onde aguardaria o despertar no Dia do Juízo e que, por vezes, deixaria para proteger ou informar os vivos, comunicando-se com eles em sonho ou por algum sinal exterior”

“O culto dos santos, que se propagou entre séculos III e IV, firmou outra ideia: a de que era importante substituir o culto dos mortos, vindo da Antiguidade, pelo dos santos. Antes, a intimidade entre mortos e vivos era total: colocava-se comida e bebida sobre as tumbas, festejava-se a passagem para o além com danças, uma pedra na laje impedia o defunto de voltar e estar perto dos parentes.”

“As práticas rituais serviram, a pretos africanos e nacionais, para combater as violências de seus senhores e de seu cotidiano. A religião foi, sim, um instrumento de resistência escrava. Até mesmo porque não faltou clientela branca nos grandes terreiros de candomblé, macumba, e umbanda, onde a relação de submissão do preto passava a ser de dominação, de escravo passava a senhor. Ele mandava, conjurava espíritos e resolvia a vida dos outros. Apenas o pai de santo se conectava com o mundo invisível, habitado por entidades espirituais responsáveis pela vida. Seus rituais viabilizavam essa interação, ali os brancos obedeciam e se curvavam.”

Escolinha do Golias

– Quando eu vou à praia, só posso ficar na areia. É que meu pai não é sócio!

– Ô menina burra! Coitada professor, ela pensar que pra ir pra praia precisa ser sócio…. Ô menina, mulher acompanhada não paga!

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Há muito tempo eu não ria tanto de um programa humorístico como esse tem me feito rir. Outro dia eu estava navegando pelo Youtube quando me veio a sugestão de assistir os novos episódios da Escolinha do Professor Raimundo, recente aposta da Rede Globo. Fiquei por alguns minutos assistindo, e achei muito forçado, sem graça… Nos vídeos relacionados me apareceu um link para assistir A Escolinha do Golias, e lá fui eu.

GENTE, EU NUNCA RI TANTOOO! Sério! Me lembro de assistir alguns episódios quando era criança (passava umas reprises a tarde no SBT), mas só agora me dei conta do quão engraçado é. Saudade de quando a televisão conseguia lançar programas com um humor natural e leve (mesmo carregado de tantos duplos sentidos). Me parece que existia um tom de respeito, algo bem característico do humor da época, bem mais leve.

Cara, o Golias era uma piada, difícil não rir com tantas caras e bocas. Melhor ainda é a química que existe entre ele, a Nair Belo e o Carlos Alberto de Nóbrega. A Nair Bello, que ficou apenas na primeira temporada interpretando a Pazza, simplesmente não consegue segurar o riso, ela faz o tipo que a Cassandra fazia em Sai de Baixo… realmente, muito gostoso de assistir esses episódios (que aliás são bem pequenos, de 20 e poucos minutos). Acho que é disso que o humor televiso brasileiro precisa, de humoristas que saibam fazer piadas e que acima de tudo, saibam rir de si mesmos…

*A Escolinha do Golias teve 3 temporadas, foi transmitida no SBT entre 1990 e 1997.  Reprisada em 2007.

Cinco mulheres marcadas

2Patrícia queria que eu assistisse um filme com a Jeanne Moreau, escolhemos um aleatório que dentre muitos com a atriz, ela ainda não tinha assistido. Acho que acertamos na mosca, porque sem querer encontramos um filme cuja narrativa é tão cativante que não conseguimos desgrudar os olhos da tela.

A trama é ambientada na Iugoslávia, 1943 (e em plena 2ª Guerra Mundial). Um certo soldado alemão namora com cinco mulheres ao mesmo tempo. Para ele, as mulheres são como pequenos troféus, um deboche. Para elas, a esperança de um amor romântico, de casamento.

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Quando os combatentes da Iugoslávia descobrem que essas cinco mulheres perderam a virgindade com o soldado alemão, vão à casa de cada uma delas, raspam seus cabelos (para marca-las), as expõem em praça pública e as expulsam. {O fato das personagens terem seus cabelos raspados me lembrou esses fait-divers que escutamos e lemos de moças que moram em favelas e que tem o cabelo raspado porque foram descobertas namorando policiais e são marcadas como X-9}.

O fato é que essa humilhação sofrida por elas, não só causa um trauma como também as impulsiona a pegar nas armas e a se unir aos combatentes. Antes, sofrem diversas tentativas de abusos, passam fome e sofrem por questionamentos morais.  Impossível não identificar um tom feminista, com o retrato de mulheres fortes e destemidas, que lutam bravamente ao lado dos homens, horando seus ideais. É realmente primorosa a forma em que o universo feminino foi tratado, com respeito e delicadeza (especialmente o retrato que fazem sobre a gravidez em tempo de guerra).

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Jeanne Moreau é realmente espetacular, linda, sensualíssima e muito intensa. Outro destaque é Silvana Mangano, em toda a sua expressividade e seriedade.

Clue: mistério e humor em seu melhor formato

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Ô delícia de filme, daqueles com gostinho nostálgico que nos remete à infância e ao melhor tipo de humor que existe, leve e descompromissado. Lembram do jogo “Detetive”, aquele de tabuleiro cheio de mistério que fazia a gente quebrar a cabeça tentando descobrir quem era o assassino? Pois é, “Os setes suspeitos” (filme de 1985) foi baseado nele. A trama conta a história de um grupo de estranhos, convidados para jantar numa mansão isolada. Chegando lá eles são recebidos por um enigmático mordomo chamado Wadswoth (interpretado por Tim Curry) e passam a ser chantageados, isso porque todos escondem um segredo (e, claro, os segredos estão correlacionados)..

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É impossível não rir com a série de piadas de duplo sentido e de humor negro. Impossível também não se apaixonar pelos personagens e pela construção da narrativa, que vai dando pistas ao mesmo tempo em que vai te confundindo. Afinal a história é linear, mas é sempre interrompida ao apresentar várias versões de um mesmo acontecimento. A narrativa cria uma série de questionamentos e, propositalmente, confunde o espectador. Por fim, você percebe que não se pode confiar em uma palavrinha que os personagens dizem.

De longe a minha personagem preferida é a Sra. White, a viúva negra que viu tantos maridos morrer que perdeu a conta. Também adoro o afeminado Sr. Green, que sem dúvidas é responsável pela melhor reviravolta da história.

O amante de Lady Chatterley

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D. H. Lawrence morreu em 1930, dois anos depois de publicar “O Amante de Lady Chatterley“, lançado clandestinamente da França por ser considerado obsceno. O livro, eleito como um dos cem melhores romances do século XX, aborda abertamente o amor e o sexo entre classes diferentes (o que afrontava a aristocracia britânica). Ficou censurado por mais de trinta anos na Inglaterra e em vários países de língua inglesa. O autor chegou a editar o romance duas vezes para conseguir que fosse liberado, “as versões são tão diferentes, que podem ser consideradas novos livros”. O interessante é que embora seja conhecido como um autor pornográfico e pervertido, Lawrence (que faleceu com apenas 44 anos), levou uma vida romântica e marcada pela poesia.

O livro conta a história de uma mulher de espírito livre, pouco apaixonada pelo marido e entediada com o casamento. Constance Reid foi criada pelos pais de uma forma diferente das outras garotas, foi estimulada a estudar e a se envolver amorosamente com quem quisesse, sem culpas. Quando casou, já não era mais virgem. O seu marido, o aristocrata Clifford Chatterley, foi para a guerra pouco tempo depois do casamento e quando voltou, por causa de um grave ferimento, ficou inválido, necessitando de uma cadeira de rodas. Entediada com a vida numa cidade polo industrial e irritada com o marido, que não correspondia às suas necessidades sexuais, Constance encontrou em Oliver Mellors  (um dos empregados do marido), o acalanto que precisava.

A história de Constance Reid me lembrou muito a de Madame Bovary, mas Constance é uma versão mais firme e decidida de Emma. Antes de se envolver com o empregado do marido, ele já tinha tido outros relacionamentos extra-conjugais e parecia não se arrepender nem um pouco disso. Clifford era um homem medíocre, que não estimulava a atenção e a admiração de Constance, agia como uma criança perto da mãe, era um escritor meia boca, não tinha muitas aspirações. Aliás, ele parecia saber das “puladas de cerca” da esposa, tanto que dizia que assumiria um filho dela, caso engravidasse de outro homem (naturalmente, que não fosse pobre).

Constance nunca “desceu do salto”, era considerada quase como uma celebridade na cidade, tratava todos muito bem, comportava-se perfeitamente como uma dama e no início do casamento, até que tentou ser a esposa perfeita.  Mas aquela vida, que não era a que ela queria, estava a corroendo por dentro, como se fosse um grito preso na garganta ou como um veneno que se toma e que vai te correndo aos poucos. É aí que Mellors aparece, como a possibilidade de uma nova vida…

Monólogos da vagina

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Eu não sei o que tinha na cabeça lá pelos meus 14 anos, só sei que tinha uma coisa em mente: queria saber sobre o feminismo. Li, em algum lugar na internet (lembram do site de buscas “cadê”? Pois é, eu usava muito), que se você era feminista devia pelo menos ter ouvido falar em Monólogos da Vagina e em Eve Ensler. Lá fui eu, loquei o DVD e levei para a escola. SIM, EU LEVEI PARA A ESCOLA! Fui e mostrei pra professora de sociologia, sugeri que passasse pra turma. Nunca fiquei tão envergonhada quando meus colegas falaram que eu estava assistindo putaria e a professora sem entender (e sem ter ideia do que se tratava), não fez muito caso, levou na brincadeira. Fiquei com tanta raiva! Cheguei em casa e fui assistir o filme e nunca me senti tanta mal, aquela mulher na tela falava coisas tão pesadas e tão íntimas, que eu fiquei envergonhadíssima. 

Os anos se passaram e eu, lendo um artigo feminista, me deparei com uma menção ao Monólogos. Corri para o Youtube e assisti o vídeo. Foi uma sensação estranha, como se eu pudesse me ver sentada na cama do meu quarto com quatorze anos, assistindo o filme e tentando entender o que Ensler falava. Dessa vez foi diferente, fiquei realmente admirada com a destreza e a sapiência dela ao abordar temas tão femininos e tão complexos. Hoje, depois de dez anos, entendi que eu não tinha a mínima maturidade para compreender a dimensão de tudo aquilo.

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Eve construiu a peça entrevistando mais de 200 mulheres

Eve é uma atriz americana, ela lançou “Monólogos da Vagina” em 1996, trata-se de uma série de histórias de mulheres e a relação delas com a própria vagina. A atriz contextualiza questões de gênero, de sexualidade, relacionamentos e de abuso. Tudo diante da perspectiva da relação da mulher e do seu órgão sexual. A peça foi um estouro, é considerada uma das mais importantes peças políticas e experimentais de sua década, foi encenada por grandes atrizes como Jane Fonda, Meryl Streep, Glenn Close e Susan Sarandon. Traduzida para mais de 50 idiomas e encenada em mais de 150 países.

A ideia surgiu através de conversas casuais, Eve começou a criar pequenas anedotas sobre os casos que as amigas contavam e de repente tinha uma material tão bom que resolveu fazer mais entrevistas, assistir e anotar casos que via em jornais. Ela chegou a afirmar que era obcecada com histórias de estupros, que esse tipo de violência social só crescia e que estava diretamente relacionada com vaginas. Mais tarde confessou ter sofrido abusos sexuais e disse que o feminismo de antigamente era diferente do de agora, que é “muito mais informado e indignado” (de um jeito positivo).

Em uma entrevista que deu ao The Guardian, em fevereiro do ano passado, ela constatou algo interessante (e que de certa forma, justifica o sucesso da peça): “Me dei conta que a violação contra a mulher é universal, essa negação ao desejo e ao prazer, o fato de culparem a mulher por sua sexualidade, os abusos que sofrem. Quando você luta contra a mutilação genital que acontece em Gambia, quando você luta contra os ataques de estupros no Congo, quando você luta contra as queimaduras de ácido que as mulheres sofrem no Paquistão, acredita que isso não acontece no seu mundo ou na sua cultura, porque parece muito específico. Mas quando você finalmente percebe que a violência contra a mulher é o que sustenta o patriarcado, você entende que estamos nessa juntas. As mulheres em todo o mundo estão nessa luta juntas”

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As histórias

Há histórias que te fazem rir, outras que te fazem chorar. Eve trata com naturalidade assuntos bem delicados que podem te fazer corar, alguns constrangedores….dentre as histórias que mais me chamaram atenção está a de uma mulher que desde pequena sofria repreensões da mãe quando colocava a mão na vagina (mesmo que estivesse coçando, ela não podia colocar a mão lá), nem deixar que colocassem. Ela conviveu com esse medo à própria vagina durante toda a infância, o que piorou quando ela foi estuprada. Em suas memórias, lembra que o abusador era um amigo do pai, recorda do pai brigando com a mãe e a mãe o mandando para fora de casa. Ela só foi se libertar dessa repulsa quando conheceu uma mulher, que a seduziu e que mostrou para ela o que era o sexo feito com carinho. Outra história interessante é de uma jovem que foi transar com um rapaz e se surpreendeu quando ele disse que ela estava fedendo. Ela dizia que não tinha culpa por causa dos seus fluídos vaginais, mas ele a humilhou e a chamou de porca e ela ficou tão traumatizada “que fechou a fábrica”, nunca mais fez sexo desde então…

Nem tudo foi um mar de rosas,  a peça recebeu muitas críticas

O texto da peça desagradou algumas feministas. Na percepção delas, Eve deu a entender que o movimento prega a superioridade das mulheres em relação aos homens. Alguns acharam que ela retratou os relacionamentos sexuais de uma maneira negativa demais, e que se “esqueceu” da importância do feminismo das mulheres negras, debatendo apenas sobre situações de “mulheres brancas em situação de privilégio na sociedade”. A peça também foi criticada por conservadores, foi proibida de ser encenada em seis colégios católicos. Em 2007 a Universidade de Saint Louis também proibiu a sua encenação, dizendo que se tratava de um tema redundante. Camille Paglia atacou Eve dizendo que ela era uma charlatã se pagando de culta.

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Em 1998, Eve criou o V- Day

Ela reuniu um grupo de pessoas para se manifestarem contra a violência sofrida por mulheres e meninas, a ideia é repetir esse evento até a violência acabar. Desde então, o V-Day ocorre em Fevereiro, Março e Abril todos os anos e oferece vários projetos (campanhas, peças, filmes educativos) cujo os lucros são doados à programas específicos a favor das mulheres. Uma das campanhas de mais sucesso foi a “One Billion Rising for Justice” (Um bilhão se levanta por justiça), lançada em 2013 – conseguiram juntar um bilhão de pessoas, em 207 países. Outra,que também reuniu um bilhão de pessoas, convidava os voluntários a dançar e a fazer um apelo global por justiça, a ideia era motivar as vítimas a quebrar o silêncio.

Em entrevista, Eve foi questionada se realmente achou que um dia conseguiria acabar com a violência contra as mulheres: “É uma boa pergunta. Vou te dizer o que penso. A escravidão, por exemplo, é barbárie. Como uma prática dessa ainda existe? Estuprar mulheres, mesma coisa. Como isso pode existir ainda? Eu acredito que tem que acabar e imediatamente! Nós temos que ter em mente que sim, é possível acabar com essa violência. Continuar justificando o ato como se fosse parte da condição humana, ou parte da própria vida, é normalizar esse tipo de violência permanentemente. Então, sim, eu acredito que essa ideia é possível. Absolutamente. Eu não continuaria trabalhando com isso se não acreditasse, seria uma pessoa insana. Ao mesmo tempo eu acredito que o mundo já mudou, hoje nos vemos notícias de violência contra mulheres estampando jornais, há 16 anos isso não acontecia. Então, isso me faz pensar,porque não pode acabar? Eu vou continuar acreditando nisso até os fins dos dias, é o que me faz levantar da cama pela manhã”

 

Anna Magnani em Três Mulheres

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Anna Magnani é o meu crush mais recente, tenho assistido tudo dela e sempre que posso escrevo algo aqui no blog. Acabei de assistir três longas correlacionados, feitos para a televisão e dirigidos por Alfredo Giannetti e lançados em 26 de setembro de 1971, todos estrelados por ela. É incrível pensar que Anna estava tão bem (linda e sensualíssima), e que faleceria dois anos depois (em 26 de setembro de 1973). Os três filmes trazem personagens fortes e dramáticas onde todas caminham para um fim trágico – à sua proporção. Assisti poucos filmes coloridos da Anna, mas nesses eu pude reparar na cor de seus olhos e fiquei intrigada com o quanto eram lindos, eram acinzentados… nem claros, nem escuros.

“O automóvel” conta a história de uma ex-prostituta que sonha em dirigir. Anna Mastronardi é a típica mulher que precisa de desafios para ter algum interesse numa vida tão solitária . Ela não mede esforços para comprar um carro e sacrifica-se para realizar seu sonho, logo depois se dedica a aprender a dirigir. O surpreendente é que quando ela realiza seu grande sonho, não percebe a efemeridade do acontecimento. “A cantora”  se passa durante a 2ª Guerra Mundial. Anna vive Flora, uma cantora que sofre pela velhice, pelo esquecimento do público e por sua decadência. Ela é convidada para cantar para um grupo de soldados e precisa se adaptar à um destrambelhado grupo de músicos (também soldados). Em “A reunião” Anna é Jolanda, uma enfermeira que se apaixona pelo tenente Stelvio Parmegiani, desertor da guerra. Juntos vão para um campo de refugiados em busca de alimentos e tentam fugir da perseguição dos alemães.

Só para sentir a sagacidade dessa atriz, vejam a cena do longa “A Cantora”,em que Flora se depara com os soldados mutilados e é tomada por uma imensa compaixão e tristeza:

Infâmia

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Esses dias eu resolvi escrever sobre filmes clássicos e agora que comecei não dá vontade de parar. Há muito tempo (muito mesmo!) eu queria publicar sobre Infâmia, só que eu sempre colocava uma publicação na frente, mas finalmente chegou o dia! HAHA. Infâmia é um grande filme, com grandes interpretações e com uma trama (e uma abordagem) tão genial que dá calafrios só de pensar. Imagine, duas jovens mulheres decidem abrir uma escola para meninas e fazem um sucesso danado na cidade, até que uma das alunas, mentirosa e manipuladora, insinua que as duas são lésbicas.

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Pois é, uma história pesadíssima se tratando de um filme que foi gravado em 1961. Eu simplesmente amo filmes que driblam a censura (como Uma rua chamada pecado) e dizem o que precisam dizer, só que nas entrelinhas. Essa produção foi dirigida por William Wyler e baseada na peça de Lillian Hellman (escrita em 1934!!). Em 1936 a história ganhou uma adaptação para o cinema, mas ao invés de serem lésbicas, uma das professoras foi acusada de dormir com o marido da outra, as atrizes principais eram a Mirian Hopkins e a Merle Oberon.

A Audrey Hepburn sempre linda e serena, e a Shirley Maclaine (ai, que boneca!), sempre muito viva e sorridente. Eu fiquei boquiaberta quando vi “The Celluloid Closet” (um documentário sobre a abordagem da homossexulidade no cinema) e a Maclaine afirmou que não se tocava no assunto nos sets, ela dizia que nunca conversou sobre o fato das personagens serem lésbicas com a Audrey, era um tabu. Então, ela meio que não sabia do contexto que envolvia sua personagem, a Martha. E, caralho… como o filme vai tomando dimensões dramáticas durante o seu desenvolvimento, é realmente um absurdo o que o preconceito, a homofobia e a maldade humana são capazes de fazer.

– A Mirian Hopkins reaparece nesse filme como a avó da Mary, a menininha mentirosa.

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O filme também me remeteu ao Caso da Escola Base, aquele crime cometido pela mídia brasileira em 1994, contra o casal Shiamada. É mais vergonhoso ainda pensar que o caso ainda rola na justiça e as emissoras responsáveis por levantar tamanha mentira, não foram responsabilizados. Para quem não sabe do que se trata, um casal foi acusado de abusar sexualmente de um de seus alunos e a imprensa caiu matando, só que depois foi comprovado que esse abuso nunca aconteceu.

Vidas em Fuga

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Eu preparei uma publicação especial, para falar apenas sobre os filmes feitos pela Anna Magnani. Estava indo tudo muito bem, quando eu percebi que o post foi ficando grande demais, cansativo de ler e difícil até para editar. O último filme que vi com ela, “The Fugitive Kind”, de 1960, foi uma belíssima surpresa e diante das complicações de postagem, decidi separá-lo dos outros. É que há muitos anos não me sentia tão entusiasmada com um filme como me senti com esse e quando terminei de assisti-lo, depois de todos aquelas reviravoltas e de me ver com os olhos marejados (e com um grito preso na garganta), me lembrei de quando tinha quatorze para quinze anos, época em que ficava horas escrevendo nos diários sobre os filmes, sobre os personagens, sonhava com eles, criava histórias secundárias. A verdade é que pouco mudou, mas agora tenho um blog onde posso divulgar meus bobos pensamentos….

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(Sinopse) Marlon Brando interpreta Xavier, um jovem boa pinta que foi preso em Nova Orleans depois de causar confusão em uma festa. Em julgamento ele promete nunca mais cometer um crime que coloque a sua liberdade em risco. Então, ao ser liberado, pega o seu casaco de pele (que é uma de suas marcas e faz alusão à sua índole duvidosa) e viaja em direção à Two Rivers para tentar uma vida nova. Depois de conseguir uma indicação, ele começa a trabalhar na loja de roupas de propriedade do casal Torrance. Lá ele cria uma relação com Lady Torrence (Magnani), uma mulher mais velha, cheia de mistérios e extremamente deprimida por ter que conviver com o seu asqueroso marido, Jabe. E quando digo asqueroso, acreditem! Outro personagem importante é a Carol, uma jovem problemática e mal vista pela vizinhança, que se sente atraída por Xavier. 

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Adoro filmes de romance entre mulheres mais velhas e homens mais jovens. Uma vez ia fazer uma lista dessa aqui no La Amora, mas ela ficou tão grande (e eu vi que não daria conta de escrever sobre todos eles), que desisti. “Vidas em fuga” é exatamente sobre isso, é o retrato de um amor proibido entre um casal com uma grande diferença de idade e de perspectiva. É uma crônica de uma tragédia anunciada, um filme triste pra caramba, que deixa a gente descrente na humanidade, com raiva por tamanha injustiça. Tennessee Williams arrasou, como sempre, mas jogou (e muito) com o espectador. A gente tem conhecimento dos fatos, mas na posição de observadores, não podemos fazer nada para mudá-los. Quem um dia assistir esse filme, se prepare, é um dramalhão!

Fiquei muito admirada pelos movimentos de câmera no clímax, nos diálogos profundos (que me fizeram pensar na vida e no que estou fazendo dela). O personagem do Brando se define como aquele cara que não consegue parar em lugar nenhum. Através da metáfora do pássaro sem pernas, que nunca pode parar de voar ele explica: “se um dia ele parar, ele morre”. Mais profundo ainda é a distinção que ele faz… o mundo é divido entre três tipo de pessoas: as que se vendem, as que nunca se vendem e as que compram.

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Marlon Brando está muito bem nesse filme, sério, concentrado… eu confesso que até comecei a ter uma quedinha por ele, mas descobri que ele sacaneou a Anna Magnani nas gravações, falando um inglês rápido e meio embolado para a confundir. Aliás, achei muito engraçado o fato da Anna ter dado em cima dele e ele se negado a ficar com ela, dizendo que a achava feia, pode?! O fato é que Anna, quando está em um filme, desbanca qualquer um… essa mulher tem uma capacidade dramática que me tira do sério! É impossível ficar indiferente ao sofrimento de Lady e não torcer para que ela se dê bem no final… Também é difícil não ficar ligado na tensão sexual entre os dois, hora um seduzindo o outro, hora ela se esquivando, hora ele fingindo que não quer nada. AH MEU DEUS! Até chegar no momento da transa dos dois eu tive uns mil enfartos!

A tara maldita

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FINALMENTE eu consegui matar a minha curiosidade e assistir “A Tara maldita”, terror/suspense da década de 50, que traz uma menininha linda no papel de uma psicopata absurdamente malvada e louca. É impressionante como Patty McCormack, a atriz que interpreta a garota, é convincente. O título que deram ao filme no Brasil foi muito infeliz, não condiz com a história (e, convenhamos, dá um puta duplo sentido). O título original do filme é “The bad seed”, algo como “Semente do mal” e não poderia ser mais adequado, afinal, uma das problemáticas levantadas na trama é a angustiante relação entre mãe e filha (há uma enorme desconfiança entre elas, especialmente por parte da mãe, que se questiona o tempo todo sobre o comportamento do seu “anjo de tranças” e sobre o fato da maldade da menina ser algum tipo de herança genética).

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A garotinha se chama Rhoda e desde o inicio sabemos que há algo errado com ela, afinal, é perfeita demais: obediente, educada, inteligentíssima e… manipuladora. Seu pai está a viagem e sua mãe, Christine (interpretada pela linda da Nancy Kelly) é uma boa esposa, dona de casa dedicada, que faz de tudo para ganhar a confiança da menina. Um acidente na escola de Rhonda deixa toda a comunidade escolar abalada, um garotinho morre afogado durante um piquenique… Mesmo com a comoção geral, Christine percebe que Rhonda não ficou nem um pouco chateada pela morte do coleguinha e descobre que a menina tem uma ligação a ele muito maior e obscura do que imaginava.

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O filme perpassa por caminhos profundos e chega em um clímax bem pesado, o grande problema é que deram uma continuidade desnecessária e colocaram diálogos demais, deixando a trama meio arrastada. Impressionante a atuação Eileen Heckart, que interpreta a Sra. Daigle, mãe do garoto que morreu afogado. Em determinado momento ela aparece na casa de Christine, completamente depressiva e bêbada, impossível não sentir compaixão pelador de uma mãe que acaba de perder o filho. P.S. A todo momento eu achava que o caseiro iria fazer alguma maldade com a Christine e com a Rhonda e fiquei impressionada com o final que ele teve!