Resenha: “O pintor da vida moderna”, Baudelaire

P.S – Nesta semana o professor solicitou esta leitura e eu fiz algumas anotações, que atrevo chamar de resenha. 

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Charles Baudelaire foi um poeta francês, considerado um dos percursores do Simbolismo e reconhecido como o fundador da tradição moderna em poesia. Nasceu em 1821 em Paris e faleceu em agosto de 1867. Uma de suas obras mais conhecidas é “Flores do Mal”, onde ele começa o seu projeto simbólico.  O livro “O pintor da vida moderna”, iniciado em 1863, foi escrito em três fases: a primeira para o Le Figaro (publicada em 26 de novembro) e a segunda publicada em 29 do mesmo mês. Mais tarde essas partes foram reunidas em uma coletânea num livro editado em 1868 sob o título de L’Art Romantique.

Através de um ensaio crítico, Baudelaire analisa a figura do pintor na vida moderna e suas relações com diversos setores, fatos e figuras que estão ligados à arte. Já no capítulo inicial o autor apresenta uma postura crítica em relação àqueles que supervalorizam as obras de arte clássicas e menosprezam os artistas menores. Como exemplo, cita as pessoas (a quem chama de amadores) que vão ao Museu do Louvre e se colocam radiantes diante de um quadro de Ticiano Vecellio e depois se dizem conhecedoras do museu. Ou mesmo aqueles que leram Rancine e Bossuet e acreditam que dominam a história da literatura.

Aprofundando suas reflexões, o autor ressalta a importância da moda e de sua contextualização para compreendermos o passado e o presente. Em suas palavras: “o passado é interessante não só pela beleza que dele souberam extrair os artistas para os quais ele era o presente, mas igualmente como passado, por seu valor histórico”. Os trajes antigos que hoje nos provoca riso carregam consigo valores de moral e estética de uma determinada época.

Ainda nessa questão, o autor afirma que o homem imprime o que acredita ser belo em seu vestuário, o homem deseja se assemelhar àquilo que gostaria de ser: “o passado, conservando o sabor do fantasma, recuperará a luz e o movimento da vida e se tornará presente”.  A teoria racional e histórica do belo se opõe à teoria do belo único e absoluto e mostra-nos que o belo possui uma dupla dimensão: ele possui elemento eterno e invariável ao mesmo tempo em que possui um elemento relativo e circunstancial

O Artista x O Homem do Mundo

(Quem foi C. G. ?)

Durante toda a reflexão sobre a diferença entre um artista e um homem do mundo, Baudelaire utiliza como exemplo um amigo e o cita no livro como “C.G.” Trata-se de Constatin Guys, um pintor e desenhista autodidata que viveu entre 1805 e 1892, que trabalhou como repórter e foi profundo conhecedor do mundo da moda. Para Baudelaire, C.G. é o típico “homem do mundo” e não apenas um “artista” (num sentido restrito). O homem do mundo é aquele que se interessa pelo mundo inteiro, que quer saber, entender e conhecer. O artista vive no mundo moral e político, o homem do mundo é um cidadão espiritual do universo.

Para o autor, o homem do mundo e a criança possuem muitas semelhanças. Os pequenos enxergam tudo como novidade e estão sempre inspiradas. Enquanto o adulto foi dominado pela razão, a criança é dominada pela sensibilidade. Portanto, o “homem do mundo” é também um “homem criança”, aquele que é dominado a cada minuto pelo gênio da infância e para qual nenhum aspecto da vida é embotado… ele ama a multidão, pois a multidão é um espelho imenso de possibilidades, um caleidoscópio dotado de consciência.

Uma das grandes buscas do “homem do mundo” é a modernidade. A modernidade caracteriza-se pelo transitório, efêmero, contingente. “ A modernidade é a metade da arte e a outra metade é o eterno e o imutável”. Neste sentido, o artista que procura reproduzir uma fórmula (com aqueles que pintam personagens com inspirados em expressões já consagradas) tendem a produzir algo falso, ambíguo e obscuro.

A memória possui um papel fundamental na criação e na originalidade. Para o autor, “todo os bons e verdadeiros desenhistas desenham a partir da imagem inscrita no próprio cérebro e não a partir da natureza”. A memória e a imaginação estão interligadas, e permitem que o desenhista se torne mais anárquico e imparcial.

O Dândi x A mulher

Tanto o Dândi e a Mulher foram figuras (ou objetos) de arte atemporal que serviram de inspiração para os artistas da modernidade. Os dois podem ser encarados como elementos de representação que perduram no tempo e que mesclam dois conceitos importantes trabalhados no texto: moda e beleza.

O dândi é aquele que cultua as próprias paixões e a sí mesmo, mas para fazê-lo precisa de dinheiro. Não porque o dinheiro é indispensável, mas é algo que o permite alcançar o símbolo da superioridade aristocrática de seu espírito. Sua imagem nos remete ao típico rico ocioso, um homem entediado e que sofre por ser homem.  Ele nunca pode ser vulgar. Conforme explica Baudelaire:

 “ O dandismo aparece sobretudo nas épocas de transição em que a democracia não se tornou ainda todo-poderosa, em que a aristocracia está apenas parcialmente claudicante e vilipendiada. Na confusão dessas épocas, alguns homens sem vínculos de classe, desiludidos, desocupados, mas todos ricos em força interior, podem conceber o projeto de fundar uma nova espécie de aristocracia, tanto mais difícil de destruir pois que baseada nas faculdades mais preciosas, mais indestrutíveis, e nos dons celestes que nem o trabalho nem o dinheiro podem conferir” (BAUDELAIRE, p. 872, 1996)

Como modelo artístico, a mulher é quase uma divindade. Encarada como símbolo da beleza natural e por vezes pura, ela transmite luz e um convite a felicidade. O seu porte, seus movimentos, seu tecido… todos esses aspectos nos remetem à harmonia. Porém, ao mesmo tempo, as mulheres podem parecer mágicas ou até sobrenaturais, especialmente quando está diante da necessidade de ser adorada.

Neste caso, assim como o citado acima, a indumentária (e os adereços) é fundamental para indicar a época em que o personagem viveu. Diante disso, Baudelaire também realiza uma reflexão acerca da maquiagem. Afinal este “artifício” possui como objetivo e por resultado fazer desaparecer da tez todas as manchas que a natureza semeou.

O autor defende a ideia de que as pinturas para o rosto não devem ser usadas de uma forma vulgar, no sentido de imitar uma beleza artificial. A maquiagem não pode ser encarada como um artifício para dissimular um aspecto, “pode exibir-se não como afetação, mas como espécie de candura”.

 

REFERÊNCIAS

BAUDELAIRE, C.  Sobre a modernidade:  o pintor da vida moderna. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996

MANTOLVANI, R., Resenha: “O pintor da vida moderna, de Baudelaire”.  Disponível em: http://escrita-das-mulheres.blogspot.com.br/2007/02/resenha-o-pintor-da-vida-moderna-de.html [Acesso: 21 de maio de 2016]

Uma série imperdível: “Quem ama não mata”

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Meu professor comentava muito sobre “Quem ama não mata” durante as aulas da pós-graduação. Trata-se de uma série produzida pela Rede Globo em 1982 que retratava cinco casais de diferentes faixas etárias e seus problemas conjugais. O principal deles, Alice e Jorge, interpretados por Marília Pera e Cláudio Marzo, viviam uma crise profunda. Ela não conseguia engravidar e acreditava ter algum problema, quando na verdade, ele não podia ter filhos. A série, que foi transmitida em 20 episódios (todos eles estão no Youtube), serviu de inspiração para “Felizes para sempre?”, protagonizada por Maria Fernanda Cândido, Paola Oliveira e Enrique Diaz.

Eu assisti e me apaixonei, achei realmente incrível. Todos os personagens, em sua carga dramática, possuem um quê de questionamento social, especialmente as mulheres. Tão diferentes e ao mesmo tempo, muito parecidas em alguns pontos. Logo no primeiro capítulo recebemos a pista de que um dos personagens foi assassinado e que este crime foi passional. Na época, o Brasil ainda vivia as sombras do assassinato da Angela Diniz…

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Este tipo de produção ainda estava em uma fase experimental na Globo, essa é a terceira série lançada pela emissora. As temáticas de “Quem ama não mata” são tão atuais que é difícil acreditar no ano em que foi lançada. Além de um retrato  da emancipação feminina, do abuso sexual e de relacionamentos abusivos, a série trazia suavemente uma reflexão sobre o aborto.

Marília Pêra esta muito linda e extremamente feminina, incorpora a típica mulher do lar que gasta os dias se dedicando a vida doméstica, que depende financeiramente do marido e que sonha com a maternidade. Susana Vieira interpreta sua irmã e vai na contramão da personalidade de Alice. Laura é a mãe imperfeita que fica longos dias sem ver as filhas (criadas pelos avós), e alimenta um relacionamento instável. Júlia, interpretada por Denise Dumont, é uma das filhas de  Laura e sugere um relacionamento aberto à seu marido após se apaixonar por outro homem, é uma jornalista em começo de carreira sedenta por conhecimento.

Através dos pais de Alice, a série debate a sexualidade na velhice e o processo de envelhecimento em sí. É difícil não comparar “Quem ama não mata” com “Felizes para sempre?” e me impressiona a maneira em que o olhar sobre a velhice (especialmente feminina) tem se transformado. Na primeira versão, os pais são conservadores e encaram a velhice como um “momento de descanso” a qual enxergo como uma preparação para a morte.

Na segunda versão, o casal vê a velhice como uma oportunidade de fazer aquilo que não fizeram quando jovens. E em relação a mulher, a Norma, ainda há uma questão importante: o marido não consegue satisfazê-la sexualmente e o casal entra em conflito quando ela, professora universitária, é assediada e se sente atraída por um professor mais jovem.

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A reflexão sobre a maternidade realizada na série é algo que me encanta. Alice possui um desejo incontrolável de ser mãe, mas acima de tudo, se sente na obrigação de fazê-lo para agradar o marido e satisfazer a família. E é através desse desejo que ela passa a ser controlada pelo marido, que depois de se descobrir infértil, assume uma postura extremamente machista, impedindo a esposa de sair e exigindo que ela se comporte de determinada maneira. A falsa ideia da vida perfeita através da maternidade é quebrada pela figura de Laura, que é uma péssima mãe e que provou, de todas as maneiras, não ter nascido para o “ofício”.

Ainda há um personagem que eu adoro, trata-se de Yara, interpretada por Ângela Leal. Em determinado momento da trama, ao desconfiar de sua infertilidade, o marido de Alice procura Yara no intuito de saber o que aconteceu com o filho que tiveram juntos, anos atrás. Ao vê-la ele se surpreende pois quando jovem, era uma menina pobre e sem instruções. “Fiz um aborto”, ela diz para ele, ostentando um cargo alto em uma empresa de empréstimos e ainda completa “O filho não era seu”.

Então é isso, fica a dica da serie… que achei inteligentíssima e cheia de questionamentos sociais. Se gostarem, espero que voltem aqui para comentar!

:*