Se por acaso você estiver precisando fazer uma leitura descompromissada, leve e divertida, vai a dica: Recordações de um Olho Torto, de Plínio Cabral. Acontece o seguinte: comprei o livro sem nenhuma expectativa, pensando apenas nas minhas histórias pessoais (tenho miopia e estrabismo desde que me entendo por gente, convivo com uma avó cega de um olho e com uma mãe que tem 14 graus de miopia). Mas fui pega de surpresa com essa história irônica, divida em (rápidos) 35 capítulos sobre a história de Almerindo.
Almerindo possui uma deficiência visual, seus olhos são traiçoeiros, são independentes. Desde que nasceu vive com infelicidade de conviver com o preconceito (que vem inclusive da própria mãe e do pai, que logo percebem o problema na visão do garoto e não se alegram com a sua chegada). Bom, o anti-herói enfrenta diversas dificuldades e humilhações desde pequeno, como na escola: tinha tanta dificuldade para ler escrever, que a professora foi desistindo de ensina-lo. Almerindo cresce revoltado e decide matar o pai, até que é dissuadido por um primo: “ao invés de mata-lo, vamos lhe pregar sustos”
O livro pode ser facilmente encontrado na Internet, o preço varia entre 6,50 e 30,00, tem que dar uma pesquisada. O final do livro é ótimo, inesquecível para que quer se divertir!
Copiei uma parte do prólogo que eu ADORO:
(…) Compreendi, muito cedo, a verdade que existe no dito popular: “Não deixes que tua mão esquerda saiba o que faz a direita”. Para mim é algo muito embaraçoso, criando, inclusive, situações anômalas que determinam estranhas paralisações em plena rua: a perna esquerda tende para a direita, a direita tende para a esquerda, tomando rumo perigoso e de conseqüências imprevisíveis. É claro que isso não acontece a miúde, o que me salva, inclusive Ed conotações políticas inexplicáveis.
Os dedos exercem, sobre mim, um estranho fascínio. Por que são diferentes? Essa diferença é tecnicamente, desnecessária, a não ser por motivos sociais, se assim o desejam os ordeiros do mundo. Não há outra explicação. O polegar é grosso, baixote, tem ares de truculento ditador sul-americano. O indicador parece-me alcagüete: não indica nada, mas tem um estilo, um jeito de ser todo seu: mostra-se grande, mas é pequeno. Mostra-se impotente, mas não tem importância. Não compreendo esse machismo, os dedos são masculinos. Na verdade, o mindinho me parece bastante feminino, não pela sua fragilidade, mas pelo isolamento bem comportado. Do anular, tenho minhas duvidas. Não vou com ele. Tem andadura em falsete, com ares de malandro bem sucedido.
É claro, vendo as coisas assim, o corpo se decompõe e sua unidade é um milagre que não consigo explicar. E nem é necessário: há vida própria em tudo (…)”
