Minha terra, minha vida.

Estou um pouco sumida do La Amora, muitas coisas estão acontecendo e com esse clima tão quente eu não consigo colocar as ideias em ordem. Vocês já devem ter reparado que algumas publicações estão incompletas e eu peço desculpa por isso (prometo deixar tudo direitinho).

Domingo passado (dia 22) aconteceu a famosa cerimônia do Emmy, a premiação da TV americana. American Horror Story foi a serie mais indicada ( concorrendo em 17 categorias) mas só levou dois dos prêmios, uma pena. Jessica Lange também não recebeu o prêmio por sua atuação como Sister Jude, o que me deixou bastante frustrada. Aproveitando a folga e dando sequência ao objetivo de comentar sobre os seus filmes, assisti ‘Minha Terra, minha vida’, filme de temática rural, que narra a saga da família Ivy pela luta por sua terra.

Acho importante chamar atenção para um detalhe, Jessica Lange se envolveu profundamente com a história de pequenos agricultores que, durante o período do governo Reagan, passaram pelas mesmas dificuldades narradas, a atriz tirou dinheiro do próprio bolso e ao lado de Richard Pearce, produziu o filme que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar (perdeu para Sally Field – que também estreava um longa com a mesma temática: Um lugar no coração).

A atriz participou de inúmeras palestras, realizou vídeos institucionais e não se importou em fazer publicidade para a causa. Lange dividia a cena com o então marido, Sam Shepard, mas é ela que domina o filme, personificando uma mulher forte e corajosa que prioriza a sobrevivência da família.

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‘Minha Terra, Minha vida‘, conta a história da família de Jewell que possui uma pequena fazenda em Iowa há mais de cem anos. Dessa vez, ela e o marido Gil (Sam Shepard) são responsáveis pela administração do local, onde vivem com seus três filhos (um adolescente, uma garota, um bebê) e com Otis (Wilford Brimmley), pai de Jewell. Com o pouco rendimento que ganham, Gill resolve ir ao banco renovar o empréstimo e lá descobre que as regras de cobrança mudaram: o banco passou a exigir que os agricultores pagassem toda a dívida que tinham (acumuladas há anos) em apenas trinta dias. Para piorar, um tornado havia atingido a região deixando os fazendeiros em completa bancarrota.

As cenas iniciais do filme indicam qual será o foco da trama: o drama familiar. Jewell surge na cozinha de casa (que aliás, é um dos principais cenários – remetendo-nos diretamente ao espaço teatral) onde sua pequena filha Marlene mostra a camisinha que encontrou no quarto do irmão. O almoço em família e as festas na comunidade destacam o clima de equilíbrio e harmonia (mesmo depois do inesperado tornado que atinge o local). Com um cenário maravilhoso e uma bela fotografia, acompanhamos o árduo trabalho que todos os dias é feito pelos Ivy. É interessante um pequeno detalhe cenográfico que muitas vezes passa desapercebido:  a mesa aparece farta de comida (uma metáfora simples ao tempo de bonância).

Gill vai ao banco renovar o contrato de empréstimo e, mesmo percebendo um clima diferente, acredita na boa relação que tem com o gerente que conhece há mais de oito anos. Tudo cai por terra quando descobre que sua dívida será cobrada e executada em apenas trinta dias. Jewell, sabendo da condição financeira da fazenda, também tenta convencer o banco de manter o empréstimo e recebe uma resposta definitiva: ‘Não temos uma relação, temos um negócio’.  Percebe-se que a confiança que os agricultores tinham em relação ao banco era tão grande que, até então, eles nem se preocuparam  com os efeitos do tornado. De certa forma, esse comodismo é criticado por Otis, pai de Jewell que afirma:  ‘Não devíamos ter confiado no governo’, Jewell responde: ‘O governo é parte de nós’ e Otis contra-ataca: ‘O governo sabe que sem os agricultores ele não sobrevive’.

Fiquei sensibilizada com a produção e com o toque extremamente realístico com que abordaram a história: sem rodeios, com um respeito pelo diálogo e pela dimensão psicológica dos personagens. Lange aparece sem maquiagem, de rolinho na cabeça, com botinas e esquentando a comida no fogão. Shepard, com as unhas sujas, executa um trabalho pesado junto aos animais e a imagem de ‘artista de cinema’ praticamente desaparece, o que é no mínimo admirável.

É com o levantamento das contas (e a descoberta que estão completamente falidos) que reforçam o efeito catártico. Assim como os Ivy, seus vizinhos ficaram a ponto de perder tudo e tiveram que leiloar seus bens. Jewell, que provavelmente foi criada ali, vê seu amigo de infância se suicidar e deixar a mulher e o filho completamente desolados.

Jessica Lange

Diante das dificuldades, o relacionamento entre os membros da família Ivy torna-se cada vez mais tempestuoso, Otis culpa Gil pelo insucesso da administração. Gil começa a beber e fica agressivo com as crianças, o filho mais velho do casal se torna melancólico e os bens são leiloados. Jewell, que no início ficava escondida na cozinha e preocupava-se com os afazeres da casa toma a atitude que os outros não tiveram, começa a se unir aos agricultores e rebela-se contra o banco.

A dificuldade financeira chega para destruir a imagem idílica de uma família perfeita. ‘Minha terra, minha vida’ é um filme lindo e forte, que vale a pena ser visto e revisto diversas vezes: não só pela entrega artística dos protagonistas, mas também por trazer a tona um melodrama realístico e bem estruturado.

O que esperar da terceira temporada de American Horror Story?

Pra quem é fã de American Horror Story (tanto quanto eu) e sabe que estamos desde o dia 3 de Janeiro sem nenhum episódio novo, há algumas novidades interessantes que nos esperam. A próxima temporada, que recebeu o título ‘Coven’ (algo próximo a Convenção) está sendo gravada a todo vapor em New Orleands e, ao que tudo parece, não vamos nos decepcionar. Como já se sabe, Ryan Murphy deu algumas dicas durante a segunda temporada sobre o que a próxima história abordaria. Muito se especulou sobre o tema e acertou quem apostou em bruxas! (Lembram-se da cena em que a Irmã Eunice/Possuída coloca uma música no toca discos, ‘I put a spell on you’, pois é, essa foi uma das dicas. A outra foi quando Judy, completamente enlouquecida por causa dos eletrochoques, disse ao Kit que pegaria seu chapéu e sairia voando dali. E a terceira apareceu quando Judy pegou uma vassoura e ficou rodopiando com ela).

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O elenco: Dessa vez, a terceira temporada de AHS conta com um elenco reforçadíssimo! Além dos rostos já conhecidos como Jessica Lange, Frances Conroy, Lily Rabe, Taissa Farmiga, Sarah Paulson e Evan Peters, outros atores de peso se uniram ao cast. Alexandra Breckenridge (a Moira jovem), Jamie Brewer (a Addie, na primeira temporada) e Denis O’Hare (Larry) estão de volta, além deles, Patti Lupone, Christine Ebersole, Kathy Bates, Angela Bassett, Emma Roberts, Sir Maejor e Gabourey Sidibe já estão confirmados.

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Sobre a história e os personagens, o que sabemos?

  • Jessica Lange interpretará uma bruxa chamada Fiona. Em uma entrevista, a própria atriz afirmou: “Alguns dos personagens serão figuras históricas, eu interpreto uma bruxa que vai e volta no tempo, por isso, estou em lugares e vivo histórias diferentes. Como só filmamos poucas cenas, ainda não sei ao certo como o personagem será. Outro fato importante é que nessa temporada, Lange interpretará a mãe de Sarah Paulson, que na trama recebeu o nome de Cordélia! Lange será uma das bruxas mais poderosas e terá uma escola onde treina principiantes, o perfil da personagem é tão ácido quanto o da Constance.
  • Bates interpreta Madame Lalurie, uma mulher da alta sociedade de Louisiana que é uma serial Killer e que tortura seus escravos. Curiosamente, o bisavô de Kathy Bates foi médico de Andrew Jackson, vizinho de Lalure. “Eu acredito que meu bisavô tenha passado por aquele lugar antes dela sair”.
  • Dessa vez, Frances Conroy terá uma participação na série, ela estará presente em dez episódios (dos treze) da temporada. Sua personagem também será uma bruxa e melhor: uma antiga rival de Fiona, personagem da Jessica Lange. Ela também será mãe da Taissa Farmiga que, ao que tudo parece, viverá novamente um par romântico com Evan Peters.
  • Bassett será Marie Laveau, uma mulher especialista em voodoo. “Enquanto estive em New Orleans fiz uma pesquisa e descobri que as pessoas tinham muito respeito por ela. Minha personagem foi uma mulher que nasceu em 1801, viveu até os 80 anos e que era muito influente na cidade.“
  • Patti Lupone não será uma bruxa como pensávamos, em entrevista, a atriz revelou que seu personagem será algo parecido com Piper Laurie em ‘Carrie, a Estranha’, uma mulher extremamente religiosa, é provável que ela apareça para ‘caçar as bruxas’.
  • Como a própria Jessica Lange afirmou em entrevista, a história se passará em vários períodos de tempo, mas a principal se centra em uma batalha entre dois tipos de bruxas (um deles, as bruxas de Salém). Ryan chegou a afirmar que quer algo mais luxuoso e que dessa vez, pretende pegar mais leve. A série trará um romance parecido com Romeu e Julieta e terá um perfil cômico.

Confiram algumas imagens do set de gravação:

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E pra terminar, confiram os  teasers promocionais que sairam!

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O destino de uma vida

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O Destino de uma vida (Losing Isaiah, 1995) é um daqueles dramalhões que te prendem do início ao fim. O longa conta a história de Khaila (Halle Berry), uma viciada em drogas que abandona o filho em um lixão. Por sorte, o garoto é salvo e vai parar no hospital. Lá, a assistente social Margaret (Jessica Lange) emocionalmente abalada pelo caso, decide adotá-lo. Passam-se dois anos, Khaila se reabilita e descobre que o filho, o pequeno Isaiah está vivo e então, decide recorrer à justiça por sua guarda.

É uma pena que um filme desses não seja tão fácil de encontrar para download na internet. Por sorte, volta e meia, ele é transmitido na TV a cabo pelo Telecine. O time de atores chama atenção (Samuel L. Jackson, David Strathairn, Cuba Gooding Jr.), mas o destaque da trama vai para Marc John Jefferies (o Isaiah) que garante grande parte da doçura do filme. O jovem ator nos envolve desde a primeira cena em que aparece nos ombros do pai adotivo conversando sobre futebol. A intimidade que o pequeno conquistou com os outros atores praticamente transborda pela tela e é impossível não ser cativado.

o fofo do Marc John Jeffries, no papel de Isaiah.
o fofo do Marc John Jeffries, no papel de Isaiah.

Particularmente, gosto muito do trabalho técnico realizado na abertura. A câmera em plongeé mostra toda a cidade de cima e o barulho de sirenes nos dá o indício de que algo está acontecendo. De repente, vemos uma Halle Berry irreconhecível, com o rosto ferido e cabelo desgrenhado, tentando alimentar seu pequeno bebê. A câmera subjetiva aumenta nossa inserção em seu desespero, em sua incontrolável vontade por mais uma dose. Em sua loucura provocada pelo vício, Khalia deixa o pequeno Isaiah no lixo em busca de crack. Na sequencia, o espectador fica com o coração na mão: na tela, vemos a imagem do pequeno bebê, quase sendo amassado pelo caminhão de lixo.

Margaret acompanha de perto o pesadelo vivido por Isaiah. No início tenta se distanciar, mas aos poucos cria uma relação protecionista. Depois de uma longa conversa com o marido e com a filha, decide que irá levar o bebê para casa. Um dia, sua colega de trabalho a adverte: pergunta a Margaret o que ela faria se uma assistente social se envolvesse em um dos seus casos e resolvesse adotar a criança. Sem pestanejar, Margaret responderia que a faria desistir.

Khalia, por outro lado acaba presa por roubar comida em uma loja. Todo o processo de reabilitação inicia-se naquele ambiente hostil que é a prisão. Junto a outras mulheres se vê obrigada a comparecer em sessões de terapia onde revela suas dores mais profundas. Depois de dois anos e já de volta as ruas, Kahlia começa a trabalhar como babá e visita constantemente uma assistente social. Em uma cena belíssima, a assistente pergunta a Kahlia se ela está lendo o livro que lhe foi indicado. Ela faz com que Kahlia leia em voz alta, mas aquela passagem a deixa muito emocionada, Khalia chora com muita dor e finalmente revela que perdeu um filho.

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O processo de adaptação de Isaiah à família de Margaret não é tão fácil. Em consequência as drogas que a mãe utilizava, Isaiah também ficou viciado. Conforme é informado no longa, o garoto possui grande irritabilidade e déficit de atenção. Ele exige de Margaret dedicação ‘full time o que prejudica sua relação com Hannah, a filha mais velha. Em uma apresentação escolar de Hannah, Isaiah tem um crise e Margaret precisa de ausentar. Hannah fica chateada e reclama por não conseguir se aproximar da mãe.

Nesse meio tempo, a assistente social informa a Khalia que seu filho está vivo e que se ela realmente está interessada em tê-lo de volta, algumas mudanças terão que acontecer. Khalia arruma um novo emprego, aluga uma casa, melhora a aparência e se diz pronta para uma batalha. Quando Margaret e o marido são informados de que a mãe biologia de Isaiah quer sua guarda, há uma comoção muito grande. Margaret insiste que como assistente social, seguiu todos os procedimentos corretos a procurou por algum tempo, mas não teve resposta.

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Uma mãe negra, uma mãe branca:

A luta entre as duas mães rapidamente tornou-se uma briga racial. O maquiavélico advogado de Khalia (brilhantemente interpretado por Samuel L. Jackson), pergunta a Margareth se Isaiah possui algum brinquedo da sua cor: É claro que sim, ela responde, e também possui bonecos azuis, verdes e alaranjados. Ele então retruca: E com qual dele a criança irá se identificar, como o Muppet amarelo? Em outro momento, ele pergunta ao marido de Margareth com que frequência eles recebem negros para jantar ou se por acaso, possuem amigos negros. Ele responde: O pediatra de Isaiah é negro. O advogado então pergunta: E você o convida para a sua casa? Ainda em outro momento, o advogado pergunta quais livros Margaret lê para Isaiah e se em algum deles, o herói é negro.E ela responde que nunca leu um livro para ele onde o heroi fosse de fato, negro.

Para Khalia, Isaiah precisa conviver com outros negros para aprender a se defender. Ela insiste em colocá-lo em uma escola junto a outras crianças negras e exige que ele vá viver com ela. Segundo sua percepção, viver com uma mulher branca não faria Isaiah perceber a sua ‘condição racial. Nem conhecer historicamente sua raça. No banheiro do tribunal, as duas mães acabam se esbarrando e o diálogo entre as duas ilustra perfeitamente o tom dessa discussão tão complexa. Khalia diz que Isaiah não é como um cachorrinho de estimação que pode ser adestrado. Margaret retruca: eu não sei o que há de errado com o seu povo. “Com o meu povo?” Khalia pergunta.

Brincando no banheiro, Hannah e Isaiah dão as mãos. Um sobreposta a outra evidenciando a diferença entre as cores, Hannah pergunta: ‘O que há de diferente entre as nossas mãos? E Isaiah responde: a sua é maior do que a minha.

losing isaiahO rei Salomão e as duas mães

Há uma história religiosa sobre o caso do Rei Salomão e duas mulheres. O rei pediu sabedoria e humildade a Deus para poder discernir entre o bem e o mal. Deus então lhe garantiu que o faria, sem lhe dizer quando ou como. Um dia, duas mulheres se aproximaram dele e colocaram-se a discutir. As duas moravam na mesma casa e tiveram um filho praticamente no mesmo dia. No entanto, uma delas acabou adormecendo e deitou-se sobre a criança que faleceu. A outra criança continuava viva, mas não se sabia quem era a mãe. Uma afirmava que durante a madrugada, a outra trocou os bebês. A outra, por outro lado, disse que sua criança era a que estava viva e que toda aquela história era mentira. O rei Salomão então disse: Tragam-me uma espada e dividam a criança ao meio. A primeira mulher disse: – Ah, senhor meu! Dai-lhe o menino vivo, e de modo nenhum o mateis. A outra, porém dizia: Nem meu, nem teu. Seja dividido!

Então respondeu o rei: Dai à primeira o menino vivo. De modo nenhum o mateis; esta é sua mãe.

“O destino de uma vida coloca” em jogo questões sociais complexas, mas evidencia o papel de um sentimento fundamental para uma relação familiar. Margaret questiona: Estamos falando de negros e brancos, mas e sobre o amor?

De fato, o tribunal se prendeu a uma discussão importante mas não fundamental: onde Isaiah encontraria o verdadeiro amor? Qual das duas iria lhe amar de verdade? O fato de Khaila tê-lo abandonado e depois se arrependido, significaria que ela não o amasse? Levamos para casa e para a vida esses questionamentos.

Normal

Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança
Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança

Quando achei que a Jessica Lange não podia me surpreender mais, encontro disponível na internet “Normal”, longa produzido em 2003 pela HBO. Com muita delicadeza, o filme dirigido por Jane Anderson (e que traz Tom Wilkinson e Richard Bull no elenco) explora uma discussão antiga e complexa: a transexualidade. Apesar do assunto não ser uma novidade, a troca de sexos continua sendo motivo de grandes discussões políticas e representações cinematográficas. No filme “A Lei do Desejo” (de 1987), Carmen Maura interpretava Tina, um homem que mudou de sexo para manter um caso incestuoso com o pai. Também não muito distante Felicity Huffman protagonizou em 2005 “Transamérica”, longa em aparecia como um transexual que lutava para realizar a cirurgia de troca de sexo.

Mas, diferente das bizarrices de Almodóvar ou da abordagem quase visceral de Duncan Tucker, “Normal” é extremamente leve. Vemos Roy Applewood, um senhor casado e com filhos que decide assumir a transexualidade. Ele cria um embate com a conservadora cidade onde mora e passa a conviver com a hipocrisia, com o preconceito dos colegas do trabalho e com a incompreensão da família. A imagem de Tom Wilkinson, vestido de mulher me lembrou muito o cartunista brasileiro Laerte Coutinho. Para quem nunca viu, há uma entrevista maravilhosa que Coutinho cedeu a Marília Gabriela onde fala do seu trabalho e de suas experiências como transexual. Recentemente, Laerte tomou uma atitude polêmica: entrou na justiça para ter o direito de usar o banheiro feminino.

{A revelação}

Logo no início do filme, o casal Roy e Irma Applewood (que comemoram 25 anos de casados) reúnem-se com o padre da igreja para conversar sobre a relação. Após uma benção, o padre questiona se está tudo bem ou se há alguma coisa interferindo na vida sexual dos dois. Inesperadamente, Roy (um senhor na casa dos cinquenta anos) não consegue segurar as lágrimas e confessa: “Sou uma mulher presa no corpo de um homem e quero fazer uma cirurgia para trocar de sexo”.

Em princípio, tanto o padre quanto a Irma não acreditam naquela conversa. Porém, quando cai na real de que tudo aquilo é verdade e de que o marido está decidido a fazer a cirurgia, Irma abandona a sala e termina a reunião. Já em casa e incrédula começa a confrontar o marido com perguntas duras e diretas: “Quando você transava comigo, era um homem ou uma mulher?” De maneira sincera e compreensível, Roy responde que em várias vezes, durante o sexo, se sentia como mulher.

- Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!-Você não pode tê-lo de volta.
– Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!
-Você não pode tê-lo de volta.

Ironicamente, a filha do casal (interpretada por Hayden Panettiere, ainda bem novinha) possui trejeitos masculinizados, não gosta de usar roupas de meninas e não tem paciência quanto à menstruação. Irma faz de tudo para que ela não saiba do que acontece com o pai, mas há situações que não podem ser evitadas. Sem delongas, Irma manda Roy para fora de casa e implora para que ele repense suas “escolhas”. Acontece que Roy chegou ao ponto de não conseguir negar-se mais, chegou ao fundo do poço, estava com algo entalado na garganta e aquele era o momento de se libertar.

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{Transformação}

Roy conversa o chefe para informá-lo que daquele dia em diante, passaria a se vestir como mulher. O chefe lentamente entende que Roy está falando a verdade e apesar de incompreender a situação, decide mantê-lo no cargo. O chefe vai até a casa de Irma para perguntar se aquilo está realmente acontecendo. Após uma conversa familiar, os dois trocam olhares e surpreendentemente, se beijam. Logo se separam e brincam: “Não daria certo” – o que não é verdade já que os dois passam a ter um caso. Brilhantemente, o filme explora não só a sexualidade de Roy, mas também a sexualidade de Irma. Depois de assumir-se transexual, Roy deixa claro para a mulher que o sexo é uma necessidade natural do ser humano, portanto, ela tem o direito de transar com outros homens (já que ele vai realizar a cirurgia).

Roy passa a tomar hormônios, fica mais sensível, os seios crescem, assim como os cabelos. Nesse meio tempo Irma entra na menopausa e os dois enfrentam juntos, as mudanças corporais. Em uma cena divertida e ao mesmo tempo bela, Roy ouve som no carro e tenta cantar com voz de mulher. No dia seguinte, quando chega de brincos no serviço, um de seus colegas o obriga a tirá-los. Entre socos e pontapés, Roy impõe-se e mostra que a partir daquele momento, teria que ser tratado com respeito.

{Aceitação}

O filme, na verdade, não explora o que aconteceu com Roy antes da “revelação”. Há poucos lampejos e referências a uma infância em que ele, ainda menino, pegava as roupas da mãe para se transvestir. O enfrentamento com o pai, em uma festa de família tornou-se o ponto alto da representação de seu sofrimento. Durante os parabéns, o patriarca da família relembra o quanto Roy era diferente dos outros. Humilha-o diante dos irmãos, da filha e da mulher. Roy esquiva-se da sala. Tempos depois, Irma o encontra no celeiro, com uma espingarda apontada para o pescoço.  Diante do êxtase emocional percebe que não conseguiria perder o marido, não conseguiria vê-lo morrer.

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Após a possibilidade da perda, Irma permite a volta do marido a casa e passa a conviver pacificamente com a mudança.  Em uma cena belíssima, Irma opina sobre as escolhas de roupa do Roy. Ele, já vestido de mulher, agradece o apoio. E ela responde: “Você faria o mesmo”. Os diálogos são uma lição de amor e cumplicidade, de que o amor (o verdadeiro) vence as dificuldades do dia-dia.

Pouco tempo depois Roy e a família vão à missa. Os integrantes passam a encará-lo e ele, respeitosamente se ausenta da Igreja. Com certeza, esse é um dos pontos positivos do filme: a diretora trata com compreensão a incompreensão das pessoas diante a transexualidade. Sem julgamentos, AndersonRoy Tom Wilkinson mostra que nem todo mundo entende o que acontece com um transexual e que esse é um processo dificílimo. De alguma forma, a cena da igreja me fez lembrar uma conhecida que dizia que se estivesse com a filha na rua e visse dois homens (ou duas mulheres) se beijando, chamaria a polícia. Levei essa discussão para a aula de Política e um dos meus colegas disse uma coisa interessante: “às vezes o pré-conceito está intrínseco, a pessoa não percebe quanta maldade um ato desses representa. Em um país sério, se ela chamasse a polícia seria ela que iria presa”.

 Por último, há outra cena que me deixou emocionadíssima. A família recebe o filho mais velho. Quando ele encontra o pai (sua referencia de masculinidade) vestido de mulher, começa a julgá-lo. Os dois se esmurram pela casa até que o pai consegue convencê-lo de que o respeito mútuo é indispensável. Os dois, em lágrimas, abraçam-se na escada sala. Quando as coisas voltam ao Normal, Irma e Roy fazem sexo como homem e mulher, pela última vez.

Sister Jude, Baby Jane e Norma Desmond

Desde o último episódio, em que vi Jessica Lange apresentando um número musical em American Horror Story, estou pensando em escrever esse post. Como sempre, a falta de tempo não deixou. Há algumas semanas, reparei que a busca por AHS no blog continua em alta. Não é por menos. A 2ª temporada está chegando ao fim (com o penúltimo episódio indo ao ar hoje) e tanto a trama, quanto os personagens, sofreram reviravoltas absurdas. De longe, Sister Jude é a minha personagem preferida.

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No começo da série, “Judy” era uma freira sádica, deslumbrada pelo poder e que adorava humilhar seus pacientes. No entanto, a freira (e antiga prostituta) passou por poucas e boas. Depois de quase ser violentada por um paciente psicótico (vestido de Papai Noel), foi aprisionada em Briarcliff, acusada de um crime que não cometeu. Enfrentou um antigo nazista e ficou cara a cara com o diabo. Após um encontro com a morte, revelou um pouco mais do seu passado sombrio e de seus antigos desejos, entre eles: o sonho de ser mãe, que não se consumou quando descobriu que tinha sífilis.

Agora como interna, sofre todos os abusos que cometia com os pacientes, quando era diretora do hospício. É obrigada a tomar calmante de cavalo, usa camisa de força, fica presa na solitária e toma eletrochoques (o último foi além da conta: deixou a pobre coitada totalmente desnorteada). Jude foi a responsável por colocar a jornalista Lana Winters em Briarcliff, mas arrepende-se do que fez e tenta ajudá-la a sair. Lana, por outro lado, internada por ser lésbica, sofre inúmeras violências na mão do Drº Therdson, um serial killer, que mata, estupra e arranca a pele de mulheres. Há inclusive, uma cena fortíssima, em que Lana é obrigada a se masturbar olhando para um homem nu, para ver se consegue despertar por ele algum sinal de desejo (isso não acontece).

Sister Jude
Sister Jude

 O 11º capítulo foi espetacular, ou melhor: inesperado. Desde o início da série, há um jogo muito interessante do diretor, que fica evidente nesse capítulo: a idéia é de que todos nós somos uma mistura de sentimentos bons e ruins e que somos levados diariamente a questionar nossos valores e conviver com nossos instintos. De maneira triunfante e com a ajuda do Kit e da Sister Jude, Lana consegue sair do hospício e se vingar do Drº Therdson, humilhando-o  publicamente e por fim, atirando em sua nuca. A jornalista escreve um livro sobre as histórias que viveu no hospício e sobre as pessoas que conheceu enquanto esteve internada, entre elas: Pepper.

Pepper, após ter um encontro com alienígenas, voltou diferente. A pequena de dentes grandes e laço no cabelo que não conseguia pronunciar direito as palavras, volta com uma inteligência que não lhe é característica. Ela enfrenta Drº Arden, o nazista que adora fazer experiências com os internos e impede que ele chegue perto de Grace, que está grávida de Kit – há toda uma história complexa entre Kit e os alienígenas que ainda não foi muito bem explicada. Ironicamente, Pepper torna-se uma grande companheira para a Sister Jude: o que é fantástico, já que só na reta final da série é as duas se aproximam.

LINK ONLINEBrilhantemente, o final do Drº Arden e da Irmã Mary Eunice deixou os espectadores de cabelo em pé. A inocente Mary Eunice, que no segundo episódio incorpora um demônio e que atormenta a vida dos personagens durante todo o tempo, não agüenta mais a situação em que se encontra (afinal: é uma pessoa boa que se encontra presa em um corpo que só faz maldades), implora ao Monsignor Timothy O’Hara que a liberte.Ele então a mata, jogando-a do vão das escadas. Drº Arden, que tem uma paixão incontrolável pela irmã, decide cremá-la. Junta-se ao seu corpo falecido da freira e os dois terminam juntos…queimados.

Pode até parecer que esse post é um grande Spoiler. Bom: é e não é.  A verdade é que na madrugada de hoje, vi o vídeo promocional do último episódio de American Horror Story e fiquei (e ainda estou) extasiada. Não se sabe ao certo o que realmente vai acontecer, mas a o vídeo promete um final emocionante. Sister Jude, que acabou esquecida naquele hospício, aparece (bem rapidamente), fragilizada, quase sem cabelos e muito magra. Se ela vai ou não recuperar a sanidade é um mistério (acho pouco provável). A imagem de Jessica Lange quase sem cabelos e revirando os olhos em um quarto escuro me chocou – e muito. É por isso que resolvi escrever esse texto. O vídeo confirmou a idéia que eu tinha sobre a atriz e sobre a relevância desse trabalho.

[ Quem se tornou fã de Lange depois que a conheceu pela série (e olha, não são poucos) deve ter sofrido quando descobriu que o Globo de Ouro de melhor atriz foi para Julianne Moore. Na verdade eu não quero entrar na discussão de quem tem ou não tem o mérito para ganhar o prêmio, sabemos que a atuação da Julianne Moore em Game Change foi impecável, mas pra mim, a Academia cometeu um erro cabeludo ]

Apesar da contextualização completamente diferente dessas três, percebo algumas ligações fortes entre Sister Jude, Baby Jane e Norma Desmond e a principal delas: são as atrizes. Pouco antes de ser convidada a interpretar um dos papeis mais marcantes de sua carreira, Bette Davis colocou um anuncio no jornal pedindo por emprego. A velha atriz, provando o amargor do esquecimento, dizia nos jornais que precisava trabalhar porque tinha três filhos. Como diria tempos depois, “envelhecer não é para mocinhas”. E realmente não é, principalmente em um meio tão ruidoso quando se trata de beleza e juventude.

Davis recebeu o convite de Robert Aldrich de braços abertos e topou contracenar com a sua inimiga: Joan Crawford. “O que terá acontecido a Baby Jane”, um filme B de 1962, entrou anos depois, para a lista de clássicos do cinema americano. Não é por menos, afinal, além de unir duas lendas, Aldrich trouxe a tona uma história inesquecível de duas irmãs que vivem na mesma casa e dividem um passado perturbador. O fato é que para representar Jane Hudson, Bette Davis abriu mão da vaidade e aceitou aparecer em cena como uma grande caricatura de si mesma.

Bette Davis como Baby Jane
Bette Davis como Baby Jane

Com o rosto coberto de base branca, marcada por traços fortes de batom, Jane, entornando infantilidade e loucura, aterroriza a irmã (e porque não, os espectadores) com o sonho de voltar a fazer o mesmo sucesso que fazia quando criança. Bette Davis saiu da sua zona de conforto e topou rir de si mesma.  No filme, a atriz canta e dança como se fosse uma menina de dez anos.  Para piorar a situação, Jane quando jovem envolveu-se em um acidente de carro com a irmã. Ela estava dirigindo bêbada e bateu no portão deixando Blanche paraplégica. Desde então a sua sanidade nunca mais foi a mesma.

A inveja pelo sucesso da irmã, que também virou uma famosa atriz de cinema, escorre pelas mãos de Jane, que oferece ratos e passarinhos mortos no café da manhã, a amarra na cama e rouba seus cheques para comprar bebidas. Bette Davis, maliciosa que só, chega ao auge com seu personagem, quando Jane, em um ataque de loucura liga para o médico da irmã e imita perfeitamente sua voz. Aquela gargalhada no final da ligação é simplesmente inesquecível.

Gloria Swason como Norma Desmond
Gloria Swason como Norma Desmond

Em 1950, Gloria Sawson também andava esquecida. A atriz que encabeçou diversos sucessos da MGM e foi uma dos principais nomes do cinema mudo, aceitou a trabalhar em um projeto de Billy Wilder que ironicamente, ilustra uma rica atriz: Norma Desmond, que foi um sucesso no cinema mudo, mas que acabou sendo esquecida. “Crepúsculo dos Deuses” satiriza o próprio cinema e brinca com a carreira desastrosa de alguns atores. Norma Desmond quer fazer um filme e para isso, praticamente obriga o roteirista Joe Gillis a lhe ajudar na produção. Totalmente sem bom senso, Norma Desmond não percebe que aquele filme já está fadado ao fracasso.

Muitas atrizes receberam a proposta antes de Gloria Swason, mas nenhuma delas aceitou por acharem que a história era parecida demais com a realidade em que viviam É aí que entramos outra vez na coragem de Swason, que assim com Davis e Lange, aceitou rir de si mesma. Norma Desmond envolve-se tanto com a produção do filme que a traria de volta ao estrelato, que acabou ficando louca, esperando por um “Close up” que nunca veio. (Ou melhor, veio sim, brilhantemente arquitetado por Wilder).

Jessica Lange então, segura de si e de sua carreira, aceita interpretar uma freira maldosa e louca. Todo mundo sabe que ela também andou um pouco esquecida. Me arrisco a dizer que mesmo o Globo de Ouro em 2009 por Grey Gardens, não foi suficiente para trazê-la de volta aos olhares do público – talvez por isso, tenha aceitado trabalhar em TV, um meio, como a mesma afirmou que não está acostumada. Recebeu duras críticas, entre elas de que estava velha e plastificada demais. Lange não se entregou, não se escondeu, não se envergonhou. Pelo contrário, deu a cara a tapa a milhões de espectadores do mundo inteiro, que a aguardam ansiosamente todas as quartas-feiras.

Jessica Lange como Sister Jude
Jessica Lange como Sister Jude

Surgiu com um porrete na mão, com as unhas grandes e vermelhas, vestindo uma camisola sensual debaixo do hábito, apanhou na bunda (de quatro!), tentou exorcizar um demônio sozinha e não se cansou de tocar Dominique para os pacientes. Brilhante mesmo, foi a sua performance em “The Name Game”, onde apareceu com um cabelo estilo anos 60 e rebolou até o chão. Claro que esse é um trabalho em conjunto e que por traz de tudo isso, há cabeças pensantes, entre elas Ryan Murphy, o qual agradeço muito por ter nos presenteado com essa personagem incrível, que é a Sister Jude.

Confiram a cena da Jessica Lange cantando em American Horror Story:

The Name Game

Muito mais que um crime

Imagine ter um pai amoroso, do qual você se orgulha mais do que tudo. Imagina que você tem um filho e que ele admira seu pai com a mesma intensidade. Seu pai ensina as tradições da família, preocupa-se com sua saúde e alimentação. Ele trabalhou duro em uma fábrica na América, para suster sozinho você e seu irmão, já que sua mãe falecera. Que vocês são muito unidos e que ele vive dizendo para os vizinhos e colegas que morre de orgulho de ter uma filha como você.

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Music BoxAgora imagine que de repente, seu pai recebe uma carta acusando-o de ser um criminoso nazista, que matou e torturou centenas de pessoas inocentes. Que de maneira cruel, estuprou mulheres, assassinou crianças e matou famílias sem piedade. Pois essa é a linha temática que guia o filme “Music Box” de 1989, com Jéssica Lange. O título em português é um pouco mais sugestivo, aqui no Brasil foi traduzido como “ Muito mais que um crime”.

Lange interpreta Ann Talbot, uma advoga criminalista que se vê em uma sinuca de bico.  Durante toda a sua vida, nada a fez duvidar do caráter do pai: um velho húngaro que se refugiou nos Estados Unidos após a queda da URSS. Sua dificuldade inicial é decidir se vai ou não assumir o caso, já que seu envolvimento emocional com o pai poderia prejudicá-la durante a investigação do processo. Após tomar a decisão, começa a se informar sobre todos os detalhes que de alguma forma poderiam incriminá-lo. Passa dias lendo os processos, buscando nos livros e nas testemunhas os argumentos mais plausíveis que comprovem a inocência do pai.musicbox

Logo de cara, é fácil dizer uma coisa: Jessica Lange está maravilhosa. Parece que depois de anos, ela aprendeu que voz delicada e olhos tímidos não combinam com certos personagens.  Vou um pouco mais longe: é bem provável que os trabalhos que realizou no teatro tenha ensinado a impor a voz nos momentos certos. Acontece que o filme é lindo, é emocionante, e rapidamente, ela nos convence que Annie é uma mulher forte e destemida.

São duas horas de filme, que te questionam a todo o momento: “o que você faria se estivesse no lugar dela?”. Provavelmente a mesma coisa. Ela defende a inocência do pai com unhas e dentes, chega inclusive a jogar sujo para consegui-lo. Mostra que aprendeu muito bem a atuar e se defender durante a troca cansativa de diálogos cínicos dos promotores. Não tem medo de ser mulher em meio a tantos homens e sustenta as conversas com o mesmo nível. Mas seus olhos não mentem. Cada testemunha de acusação que aparece e que conta histórias horrendas a fazem tremer, só de imaginar a possibilidade do pai ter realmente os cometido.

O julgamento é movimentado. A imprensa cumpre seu papel. Manifestantes rondam a casa da advogada, jogam pedras e cobram que Mike Laszlo(pai de Annie) seja considerado culpado. Há uma  testemunho emocionante de um homem que conta que não poderia esquecer do dia em que Mike entrou em sua casa, prendeu toda a sua família, assassinou a mãe, o pai e o filho. Mike os prendeu, e os jogou no rio. Por sorte, o homem sobreviveu e, ainda que velho e cansado, pode testemunhar contra aquele que acredita ser um criminoso. E a advogada segura o choro (essa cena é linda).

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“Music Box” é um filme emocionante, aliás, é bacana ver todos os contrapontos de uma pessoa que se vê no fim da linha (e tem Lange falando húngaro fluentemente). Quando suas afetividades são questionadas, o sangue as vezes fala mais alto. É o que acontece com Annie, que no desenrolar do caso vai confrontando a credibilidade do homem que durante toda a vida chamou de pai. Ainda que bem menos surpreendente do que eu pensei que seria, o filme conseguiu prender a minha atenção do começo ao fim (especialmente no fim), que é uma honrosa menção ao que há de melhor dentro da gente: os nossos valores.

Music Box

Segredo de Sangue

Segredo de Sangue - CAPA

Estou tentando cumprir a desafio de escrever sobre os filmes de Jessica Lange. Na madrugada de ontem, vi no Investigation Discovery: “Segredo de Sangue” (filme de 1998, dirigido por Mark Tonderai, com Gwyneth Paltrow e Johnathon Schaech).  Quando acabou, às 3 horas da manhã, fiquei me perguntando se ficava alegre por ter conseguido vê-lo (já que é difícil de encontrar), ou com raiva: porque ele marthaé decepcionante. E pior: decepcionante ao pé da letra: inclusive nos quesitos de fotografia.

Na verdade o filme não é um total desperdício. É gostoso ver Jessica Lange e Paltrow dividindo a tela (independente desse tortuoso roteiro). A história é muito simples, típica dos filmes de suspense americano dos anos 90: “Helen descobre que está grávida do namorado Jackson, os dois que vivem em Nova York decidem se casar e mudar para Kilroran (uma grandiosa propriedade rural que precisa de algumas reformas). O local sempre esteve aos cuidados de Martha Baring, mãe de Jackson. A mulher, no entanto, é neurótica, ambiciosa e ciumenta. E começa a fazer de tudo para afastar Helen do seu filho.”

Apesar de ter um personagem de destaque, Lange apresenta uma atuação contida e pouco convidativa. Aliás, ela recebeu uma indicação ao Framboesa de Ouro (o famoso Razzie Awards) pelo prêmio de pior atriz do ano. Um dos problemas do filme é que ação demora muito para começar. Parece até que precisaram correr com o final, que já não dava mais tempo. [SPOILER] Imagine que a única vingança da mocinha foi um tapa na cara  da vilã e um sorriso irônico no  final. Helen revelou o segredo de Martha e conseguiu afastar o filho dela. Acontece que tudo isso estava muito claro: não havia mistério, era evidente que Jackson não tinha matado o pai.

Pra explicar melhor: Jackson se recordava que quando tinha uns sete anos, presenciou uma discussão entre o pai e a mãe. Ela queria se separar, porque ele estava a traindo. Martha então sai de cena. Com raiva, Jackson agarra as pernas do pai e ele acidentalmente cai e morre. Mas a versão verdadeira é um pouco diferente: Martha é quem tinha um amante e por isso, o pai de Jackson resolvera abandoná-la. Em sua fúria, matou o marido e deixou que o filho se culpasse. Todo esse fraco mistério faz com que a figura de Jackson fique ainda mais pedante. Não há sequer um momento em que ele se mostre interessante, ou de personalidade forte. A mãe diz uma coisa: ele faz. A mulher diz outra: ele faz.

Logo (e também por causa disso: da fraqueza na construção dos personagens), que o final se torna totalmente angustiante de ruim: nos últimos segundos, Helen conta o “grande” segredo de Martha para Jacmartha 2kson, ele se levanta e diz: “Você não é minha mãe, vou vender tudo isso e você não vai ficar com nada”… Helen dá um tapa na cara de Martha (pelo menos isso), e sai. THE END.

Acho que fui com sede ao pote. No mais, quem se sobressaiu aí foi a Gwyneth Paltrow que se saiu bem no papel de mocinha – Sem dúvidas, a cena mais interessante é a do parto, quando Martha induz o nascimento do bebê com remédios para cavalo. A desprotegida Helen, que estava distante do namorado, fica a mercê das maldades da sogra que parece não se importar em vê-la sofrendo.

Resta comentar sobre a avó de Jackson, mãe do marido de Martha:  um personagem crucial, que abriu os olhos da Helen e lhe contou sobre o passado obscuro de Martha (“ que limpava bosta de cavalos e queria um sobrenome importante”).

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Crimes do Coração

Na minha ânsia de assistir os filmes de Jessica Lange e correr para comentar no LA AMORA, vi o trailer de “Crimes do Coração” de 1986 pelo Youtube. Em um dos comentários diziam: “Fuja dos filmes dirigidos por Bruce Beresford”. Bom, foi uma pena não ter dado ouvidos ao comentário – não vou generalizar, até porque não vi outro filme de Beresford (nem mesmo Conduzindo Miss Daisy – mas digo com toda veemência que “Crimes do Coração” é um filme mediano.

Crimes do Coração

Antes mesmo de toda essa história de gostar da atriz, esse era um dos filmes que estavam na minha lista. Sempre achei que um longa que junta Jessica Lange, Sissy Spacek e Diane Keaton teria todas as disposições para se tornar um clássico, principalmente por apresentar a possibilidade mais sublime de dramatização.

A história em si é bem interessante e o roteiro (ainda que fraco) possui pontos que chamam a atenção: o problema é o resultado, a junção que não deu certo – ficou inacabado, com um ar de quero mais. Em suma, a sensação que tive no final foi de que perdi meu tempo. A história é a seguinte:

“Lennora Josephine Magrath (Diane Keaton), Margaret Magrath (Jessica Lange) e Rebeca Magrath Botrelle (Sissy Spacek) são irmãs com personalidades e modos de vida bem diferentes. Elas se reúnem quando a mais jovem, Rebeca, atirou no marido dela, Zackery (Beeson Carroll). A irmã mais velha, Lennora, cuida do avô delas e está se transformando em uma empregada, enquanto Margaret tenta fazer carreira em Hollywood como atriz e cantora e teve uma vida intensa, preenchida por muitos homens. O encontro delas causa muita alegria, mas também muitas tensões.”

Algumas coisas vão se encaixando ainda que vagarosamente. Aos poucos você entende que o comportamento agressivo de Margaret é reflexo do trauma profundo que sentiu ao encontrar a mãe morta (enforcada, junto com um gato amarelo).  E que essa morte provocou marcas em todas as três, mas de formas e intensidades bem diferentes. É absolutamente normal que a personalidade das três sejam diferentes, afinal: são idades e perspectivas distintas.  As atuações são ótimas, um aplauso especial para Keaton.

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Desde que vi “O Clube das Desquitadas” ligo Diane Keaton a uma mulher tímida, insegura e problemática: parece que essas características ficaram tão marcadas que se repetiram inúmeras vezes na carreira dela.  Ok, Lennora veio bem antes do Clube, mas ela guarda os mesmos resquícios e para mim é uma das personagens mais interessantes. Por que ficou em casa cuidando do avô? Por que não namora? Lennora tem uma solidão que esvai pelos olhos, se refugia nas velhas manias da avó de cuidar do jardim. {Talvez} Por ser a mais velha, poderia ser o ponto de equilíbrio da família, mas diante das situações: está muito longe disso.

 Só não me digam, por favor, que esse é um “drama feminista” (foi o que eu li no Filmow e discordo bastante). Conta a história de mulheres, mas não é um longa feminista. Ele retrata uma mulher desiludida com a vida porque não casou, outra que é infiel (e que merece ir a cadeia) porque tentou matar o marido e depois foi fazer limonada e de outra que é uma mulher linda, porra-louca e que encanta os homens e depois os abandona. Durante todo o filme, o diretor nos dá motivo para culpá-las, entende?

Se me permitem uma última observação, fiquei surpresa em um dos momentos do filme. Rebeca conta para a irmã mais velha que traiu o marido com jovem de 15 anos. A resposta de Margaret é tão surpreendente que quase me fez cair da cadeira: “Mas ele é negro! Já pensou no que isso pode representar para você?” Na boa, eu achei que ela diria: Ele é menor de idade, isso é pedofilia! hahaha… Mas não, a reação foi totalmente diferente.

O destino bate à sua porta

O destino bate à sua porta

(Dirigido por Bob Rafelson, 1981)

Sinopse: Nos anos 30, em um posto de gasolina e restaurante à beira da estrada, Nick Papadakis (John Colicos), um grego que é o dono do estabelecimento, emprega Frank Chambers (Jack Nicholson), um andarilho. Em pouco tempo Cora Papadakis (Jessica Lange), a mulher dele, está tendo um obsessivo e apaixonado caso com Frank. Logo o casal de amantes conclui que a única forma de ficarem juntos e ter todo o dinheiro que ambos almejam é assassinar Nick

 

Quando coloquei esse filme no DVD às 1:45h da madrugada, imaginei que não ficaria com a atenção presa até o final, mas pelo contrário: não consegui piscar os olhos.  Também, o que esperar de um filme que tem Jessica Lange, Anjelica Huston, Jack Nicholson e Christofer Lloyd no elenco? Eu estou abismada com tantas reviravoltas e o mais importante: o diretor conseguiu fazer tudo isso, sem perder o ritmo.

Lembro que na semana passada, comentava com a minha mãe que tive esse filme em VHS nas mãos há uns dez anos (presenteado por um amigo dela, que sabia que eu era fã incondicional da Anjelica Huston), mas não o assisti por falta de paciência. Ainda bem que não o fiz porque naquela época (eu estava com uns dez anos) e provavelmente não entenderia nada.

O título em inglês “The Postman always rings twice” se refere a um antigo ditado que diz que quando se abre a porta para a morte, ela volta a bater de novo. A primeira versão do filme foi realizada em 1946 por Tay Garnett, com Lana Turner e John Garfield no elenco. Estou muito curiosa para vê-la porque se for tão boa (ou melhor) que a versão de 81, sem duvidas, entrará para a minha lista de filmes preferidos.

Estava lendo “1001 filmes para ver antes de morrer”, organizado por Steven Jay Schneider e encontrei uma referência ao longa de 1946, onde eles dizem o seguinte: “Lana Turner jamais esteve tão atraente como no papel de Cora Smith, que se casa com um homem mais velho insosso (Cecil Kellaway) para escapar da pobreza, mas que, profundamente insatisfeita, sucumbe à sua atração por Frank Chambers (John Garfield), um jovem andarilho.

Como muitos filmes noir, o relacionamento do casal malfadado depende de um crime, o assassinato do marido de Cora (…). Os enquadramentos claustrofóbicos de Tay Garnett enfatizam o aprisionamento dos amantes mortais e a mise-en-scene melancólica e proibitiva do filme é o cenário perfeito para a trama sinistra. Com seu figurino branco e glamourizada pela iluminação, Turner se torna o centro visual da história, baseada no romance de James M. Cain publicado na década anterior. Cora não é uma femme fatale comum. Seus sentimentos por Frank são verdadeiros e não uma armação ardilosa.

Em princípio foi difícil imaginar Jack Nicholson como um galã sedutor, porque como disse em outro post a imagem dele me remete a um fanfarrão. Mas ele consegue: e o faz muito bem aliás. A questão é que fiquei me perguntando como eles fariam um casal como Nicholson e Lange dar certo. Mas em momento algum você deixa de acreditar que os dois se amam e lutam pra ficar juntos.

A grande sacada são os momentos surpresas em que você supõe um acontecimento e aí, “ou dá tudo errado, ou dá tudo certo”. (E olha, eu realmente me surpreendi em algumas cenas!) A primeira tentativa do assassinato, onde Cora pega um saco cheio de bolinhas de chumbo, bate na cabeça do marido e solta um grito, assustada e incrédula por realmente ter feito aquilo: É SENSACIONAL!

Há também um clima tenso e sensual tão forte que você se convence: Caramba, eles são uns canalhas, mas merecem ser felizes.  – Pra você ter uma idéia, fazem sexo logo depois de assassinarem o marido de Cora / Os dois transando e o corpo bem ali.

O filme é super válido e já ouvi comentários de que o segundo supera o primeiro. A questão do ritmo é fundamental, ou melhor: é o que provavelmente diferencia os dois, claro que também pelas técnicas e pela  época em que foram produzidos. O que posso falar do segundo é que ele sustenta perfeitamente esse clima de suspense (mesmo que não tenha  o charme de um filme noir).

Geração Prozac

 

No Filmow, vários usuários classificaram Geração Prozac como uma versão mais leve de Garota Interrompida (filme de 1999, com Winona Ryder e Angelina Jolie ). Ao meu ver, os dois filmes se desencontram em muitas partes, principalmente porque possuem abordagens diferentes. Pra mim Geração Prozac está muito mais próximo de Réquiem por um Sonho (filme de 2000, com Ellen Burstyn) que também possui cortes secos e transições de lente subjetiva que levam o espectador a entrar no mundo do personagem.

Geração Prozac não aborda nenhum tema fora do comum. A trama envolve dramas muito próximos da realidade: Elizabeth (Lizzie, interpretada por Christina Ricci) é uma menina que vê os seus pais divorciarem muito cedo e cresce sob a proteção da mãe. Aos dezenove anos, ela consegue uma vaga no curso de Jornalismo na conceituada universidade de Harvard. Porém Lizzie acaba entrando em profunda depressão e se dedica a noites incansáveis de trabalho, sempre regadas de drogas e bebidas. Sua instabilidade emocional afasta seus entes mais queridos. Assim, ela decide procurar uma psiquiatra: Dra. Diana Sterling (Anne Heche), que lhe receita o antidepressivo Prozac

O filme me cativou na primeira cena, onde Lizzie sentada nua na cama, com feições e postura de desânimo explica um de seus dilemas:

 “Meus pais se divorciaram antes de eu fazer dois anos. E desde então, meu pai quase não participou da minha vida. E minha mãe participou demais. Ela queria corrigir todos os seus erros através de mm”.

A câmera gira entorno daquele corpo magro e quase desfalecido quando de repente, o pequeno momento de silêncio (onde Lizzie encara a câmera) é interrompido pela entrada da Senhora Wurtzel (mãe de Lizze, interpretada por Jéssica Lange).  Ela não consegue esconder o contentamento de ter uma filha bolsista em Harvard. Abre as cortinas, empacota as coisas, liga para a mãe avisando que aquele era o primeiro dia de faculdade da filha. Parecia que era ela que estava indo estudar: – educação e oportunidade: palavras que ela repete incansavelmente, reafirmando que seus desejos e perspectivas foram canalizados na filha.

Ainda que com certa frieza, Lizzie se levanta para arrumar suas coisas. No caminho para a faculdade, mãe e filha conversam sobre as perspectivas do curso de jornalismo e esse diálogo é essencial, é o recurso mais rico que o diretor utiliza para deixar claro o grau de complexidade daquela relação. Através das falas (linguagem emotiva) a mãe revela suas frustrações:

 

E pensar que na sua idade eu já era mãe e dona de casa. Eu ficava tão entediada que comprei um macaco, só para ter alguém com quem conversar. Mas aí você chegou.

Existe um momento no filme que me chamou atenção: Lizzie diz que a mãe vive tentando arrumar um namorado e sempre pergunta a filha se seus pretendes eram bons partidos. Ela conheceu de perto todos os namorados da mãe, menos o que ela mais queria: o pai. A primeira idéia que se tem é de que a mãe é uma solteirona enxuta e carente.

Na cena em que chegam na faculdade, um homem se aproxima e oferece ajuda. A mãe logo pergunta: “Você acha que ele seria um bom pai?” Logo ocorre uma pequena inversão, entende-se que mãe se culpa pela ausência da figura paterna na vida da filha e sua preocupação não é só encontrar um namorado e sim: a de encontrar um pai. Ela não é uma mãe tão má quanto em princío Lizzie nos leva a achar, se preocupa com a alimentação, higiene e educação da filha.

Quando se despedem, a Senhora Wurtzel sai chorando pelo corredor e Lizzie logo pensa: “sempre estivemos juntas, só nos duas: e minha mãe achou um jeito de se aproveitar disso.” Aquele era no imaginário de Lizzie um momento de ruptura (logo se percebe que  ela precisa da mãe muito mais do que imagina).

Na faculdade Lizzie pode ser o que não conseguiu na escola. Encontrou amigos, chamava atenção dos garotos, bebia, fumava, falava palavrões. Estava longe de casa e deixou seu desejo mais intimo aflorar: o desejo de não ser tratada como estranha (mesmo se sentindo assim). Lá ela conhece Ruby (interpretada por Michelle Williams), que se torna sua melhor amiga: “Se ela fosse homem, me casaria com ela”.  Freqüentam festas, falam sobre os mesmos filmes e músicas – a faculdade simboliza a libertação.

Um dia, passeando pela faculdade avista seu pai: era aquele, o homem que não via há cerca de quatro anos, ele estava justamente ali na sua frente, fotografando uma jovem que provavelmente possuía idade próxima a dela. “Como ele pôde nos trocar por isso?” Ela recorda de quando ainda era criança quando ele a fotografava: “Quando você vai voltar papai? Mamãe disse que se você quiser, ela quer também.” Com um enquadramento em seus olhos subtende-se que essa é uma lacuna que não foi preenchida. E assim ela mente pra si mesma: “Eu não o vejo há quatro anos, não preciso dele mais.”

Lizzie tem uma personalidade forte, mas totalmente susceptível. A sua iniciação no mundo das drogas e da bebida mostram a sua fragilidade. Na primeira vez que utiliza o ecstasy tem alucinações com Lou Reed. Imagina que ele canta pra ela. Seus olhos se enchem lágrimas. As drogas não são um caminho sem volta, mas sem dúvidas, é um caminho terrivelmente dolorido para os envolvidos e no caso representado no filme: ainda mais doloroso para a usuária.

Suas emoções são bem instáveis. Depois que ganha o prêmio de melhor aluna de jornalismo e recebe um convite de trabalho da Revista Rolling Stones, perde o rumo. Parece que tem medo de não conseguir produzir nada interessante então passa a viver disso: de escrever. Não come, não tom banho: só escreve. Gosto muito de quando ela fala: “Escrevo desde sempre, eu preciso”. Mas essa necessidade se torna tão grande, que começa a consumi-la. Ela é grossa com os amigos, não liga para a mãe.

Quando encontra-se em um cerco fechado, Lizzie é convencida a procurar a Dra. Diana Sterling. Ela se questiona inúmeras vezes se aqueles encontram realmente vão ajudá-la. Na primeira consulta, ela diz: “Eu sei que você vai dizer que tenho medo de rejeição por causa da minha relação com o meu pai. Só quero que você saiba que mesmo assim, continuo querendo me encontrar com ele”.

Há uma cena belíssima produzida por Erick Skjoldbaerg, onde ela está sentada, tentando escrever. Em um fade, aparece um disco do Lou Reed rodando e a sala onde ela se encontra, começa a rodar junto. Tomada por um desespero ela entende que teve um bloqueio: não consegue escrever. “Eu quero explicar como estou exausta. Até nos meus sonhos, eu acordo cansada.”

É ai que a Senhora Wurtzel entra novamente na história encenando uma dos diálogos do filme que mais mexeram comigo. Ela se desespera ao perceber que a filha voltou a ter depressão, começa a gritar e a chorar. Lizze recorda da infância e das discussões que a mãe tinha com o pai por telefone: Na cena, aparece a mãe gritando com o pai, enquanto ela rabiscava um desenho, fingindo não ouvir: “Eu a criei sozinha. O que você fez por ela? Eu a criei sem sua ajuda, dei alimentação, roupa, educação. Você nem veio visitá-la ou levá-la pra passear”A mãe quase quebra o telefone e de repente, solta um grito que parecia abafado há anos. Grito de cansaço, de tristeza.

Lizzie promete que vai passar o aniversário junto a mãe. Assim, a Senhora Wurtzel prepara todo um jantar e convida os pais. Mas Lizzie não parece tão animada. Antes mesmo dos seus avôs chegarem, ela bebe e rouba cigarros da mãe. Durante o jantar, a mãe tenta manter as aparências, mostrar para os pais que fez o ‘dever de casa todo e que criou uma boa filha, comenta dos prêmios que ela ganhou: faz uma propaganda da menina.

Mas Lizzie mal se senta a mesa e quando o faz, humilha a mãe. Diz que ela não chegou a ler nenhum de seus trabalhos e que por isso, não tem direito nenhum de falar sobre isso. Os avôs se assustam, perguntam se ela está se drogando. E ela diz: Sim! Eu uso drogas. Depois, adormece no sofá.

A mãe está acabada, ainda assim, cobre e faz um carinho na filha. Em Off, Lizzie diz algo emocionante: ‘Mãe, me desculpe. Me ajude. Eu sei que eu não tenho o direito de me comportar assim.  “Sonhei que tinha dito o contrário do que saiu da minha boca.” Quando se encontram pela manhã o embate acontece.

Lizzie diz que a mãe não paga as suas contas. Isso choca tanto a Senhora Wurtzel que ela pega todas as contas que paga para a consulta da filha e mostra os papéis acumulados. Com os olhos arregalados, revela que está exausta de tanto trabalho extra, só para manter o tratamento de Lizzie. A menina, depois que cai na real chora sem parar, sentindo-se naturalmente culpada.

A trama sofre algumas alterações. Lizzie começa um namoro e mostra ainda mais o seu descontrole emocional. Liga para o namorado sem parar, vai a seu encontro (mesmo quando ele pede um tempo). Ela fica devastada, aquele término de relação faz com que se sinta péssima – ela não sabe (ou simplesmente não consegue) controlar seu ciúme. É aí que a Dra Diana Sterling entra com o Prozac.

Quando a Senhora Wurtzel vai visitar a filha no hospital, acaba sendo assaltada. Leva socos e pontapés no rosto, tem o braço machucado e fica internada. A situação das duas  se inverte mais uma vez. “E assustador pensar que alguém precisa de mim”. Quem já esteve em uma situação como essa, com um pai ou uma mãe internado, deve entender que realmente é assustador. Falando agora por mim: parece que não vai se dar conta, que parte de você fica ali fingindo agüentar quando a outra, quer mergulhar a cabeça no travesseiro e chorar.

Lizzie não é uma má pessoa, apenas não aprendeu a controlar seus sentimentos (ou não consegue). Sua mãe, no final das contas é uma heroína: Está ali para segurar a filha a todo o momento, não se importando em como fazê-lo.

Acho que não preciso escrever mais nada (e acredite, eu ainda teria muito mais o que falar – às vezes eu não consigo deixar de ser prolixa). Na verdade, foquei na relação entre mãe e filha, na complexidade desse amor – foi onde o filme mais me tocou. Termino o Post então, com uma fala que a Senhora Wurtzel emite para a filha, quando as conversam na mesa da sala sobre o fim do namoro de Lizzie.

Quando seu pai me deixou

Você me trouxe de volta a vida.

Você precisava de mim

Você era tudo pra mim.

Confira o trailer: