Uma pequena abordagem sobre como a série trabalha questões de gênero, sexualidade e raça
A série chegou no final de sua segunda temporada e apresentou uma explosão de acontecimentos, com muito sangue derramado e um montão de gente saindo machucada (fisicamente e psicologicamente também). Sobre a trama, só consigo dizer que me encanta por tamanha genialidade e pela profundidade dos personagens. Fico chocada com o domínio técnico de quem criou essa história, que deve ter estudado arquétipos até não poder mais. Quer dizer, é gente que sabe o que faz e o faz muito bem. Para quem nunca assistiu, um singelo resumo: trata-se de uma série de suspense que retrata o cotidiano de uma professora de defesa criminal, Annalise e de seus alunos, que acidentalmente se envolveram em um assassinato. A série é transmitida pela ABC e produzida por Shonda Rhimes, a mesma criadora de Greys Anatomy.
O elenco é encabeçado por Viola Davis, uma atriz com enorme carga dramática e muito talento. Sinceramente, é uma daquelas figuras cativantes que conseguem criar empatia com o público, mesmo interpretando uma mulher com sérios desvios morais. Na segunda temporada Annalise está mais obscura, sem rumo e desmoralizada. Em certo momento se referem à ela como um “cachorro morto” que insistem em chutar. Mas é incrível como, com sua inteligência e competência, consegue dar a volta por cima, surpreendendo e salvando a todos. É a perfeita anti-heroína.
Não dá para assistir uma série como essa e ficar indiferente ao fato da personagem principal se tratar de uma mulher, negra. [Annalise é uma mulher negra, linda, dona de seu próprio negócio, dominadora. Que fique claro.] Não vou me aprofundar na análise sobre questões raciais ou de gênero (até porque não tenho bagagem para falar disso) mas, sem dúvidas é um mérito da Shonda e nos faz questionar onde estão as protagonistas negras nas séries televisivas (novelas, programas de TV). Aliás, a questão me faz recordar o discurso de Viola no Emmy 2015: “A única coisa que diferencia as mulheres negras de qualquer outra pessoa é a oportunidade”.
Sobre as mulheres da série, percebemos que todas são muito fortes. Desde Bonnie, a assistente de Annalise às alunas. Bonnie é o meu segundo personagem favorito, há nela muita dor e um mistério que ainda não foi bem desenvolvido. Pelo tom da segunda temporada, me parece que as humilhações a que ela se permite sofrer em relação à chefe estão ligadas muito mais a culpa do que a fraqueza ou gratidão.
Em suma são mulheres inteligentes, confiantes e estudadas que possuem o mesmo valor que os personagens masculinos. A imagem delas não é sexualizada, nem abordadas superficialmente e muito menos reproduzem antigos arquétipos clichês. Sobre as alunas: Michaela também é uma mulher negra, de família endinheirada. Laurel é latina e também provém de uma família cuja situação financeira é boa (ela rompe com a dominação do pai e, desde o início da trama, deixa evidente que deseja trilhar o próprio caminho sem depender financeiramente dele).
Outro ponto chave da série é o retrato respeitoso e com naturalidade sobre a opção sexual dos personagens. Um dos alunos, o Connor, é gay e não se explora a questão de forma pejorativa. Em seu contexto, ainda há o fato de que ele namora um homem portador do vírus HIV e, independente disso, vivem uma vida sexual ativa e feliz. Annalise é bissexual, e isso é esfregado na cara do espectador de forma surpreendente, porque em princípio, os fatos nos fazem acreditar que ela é heterossexual. Em entrevista, Shonda tocou no tema e ressaltou a importância de retratá-lo em suas séries: “Acredito que todo mundo deve começar a se ver refletido na TV. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é a luta da nossa era, assim como foi a dos negros pelos seus direitos civis. Roteiristas como Norman Lear terem colocado negros na TV ajudou a mudar algumas mentes.”
Eu não sei o que tinha na cabeça lá pelos meus 14 anos, só sei que tinha uma coisa em mente: queria saber sobre o feminismo. Li, em algum lugar na internet (lembram do site de buscas “cadê”? Pois é, eu usava muito), que se você era feminista devia pelo menos ter ouvido falar em Monólogos da Vagina e em Eve Ensler. Lá fui eu, loquei o DVD e levei para a escola. SIM, EU LEVEI PARA A ESCOLA! Fui e mostrei pra professora de sociologia, sugeri que passasse pra turma. Nunca fiquei tão envergonhada quando meus colegas falaram que eu estava assistindo putaria e a professora sem entender (e sem ter ideia do que se tratava), não fez muito caso, levou na brincadeira. Fiquei com tanta raiva! Cheguei em casa e fui assistir o filme e nunca me senti tanta mal, aquela mulher na tela falava coisas tão pesadas e tão íntimas, que eu fiquei envergonhadíssima.
Os anos se passaram e eu, lendo um artigo feminista, me deparei com uma menção ao Monólogos. Corri para o Youtube e assisti o vídeo. Foi uma sensação estranha, como se eu pudesse me ver sentada na cama do meu quarto com quatorze anos, assistindo o filme e tentando entender o que Ensler falava. Dessa vez foi diferente, fiquei realmente admirada com a destreza e a sapiência dela ao abordar temas tão femininos e tão complexos. Hoje, depois de dez anos, entendi que eu não tinha a mínima maturidade para compreender a dimensão de tudo aquilo.
Eve construiu a peça entrevistando mais de 200 mulheres
Eve é uma atriz americana, ela lançou “Monólogos da Vagina” em 1996, trata-se de uma série de histórias de mulheres e a relação delas com a própria vagina. A atriz contextualiza questões de gênero, de sexualidade, relacionamentos e de abuso. Tudo diante da perspectiva da relação da mulher e do seu órgão sexual. A peça foi um estouro, é considerada uma das mais importantes peças políticas e experimentais de sua década, foi encenada por grandes atrizes como Jane Fonda, Meryl Streep, Glenn Close e Susan Sarandon. Traduzida para mais de 50 idiomas e encenada em mais de 150 países.
A ideia surgiu através de conversas casuais, Eve começou a criar pequenas anedotas sobre os casos que as amigas contavam e de repente tinha uma material tão bom que resolveu fazer mais entrevistas, assistir e anotar casos que via em jornais. Ela chegou a afirmar que era obcecada com histórias de estupros, que esse tipo de violência social só crescia e que estava diretamente relacionada com vaginas. Mais tarde confessou ter sofrido abusos sexuais e disse que o feminismo de antigamente era diferente do de agora, que é “muito mais informado e indignado” (de um jeito positivo).
Em uma entrevista que deu ao The Guardian, em fevereiro do ano passado, ela constatou algo interessante (e que de certa forma, justifica o sucesso da peça): “Me dei conta que a violação contra a mulher é universal, essa negação ao desejo e ao prazer, o fato de culparem a mulher por sua sexualidade, os abusos que sofrem. Quando você luta contra a mutilação genital que acontece em Gambia, quando você luta contra os ataques de estupros no Congo, quando você luta contra as queimaduras de ácido que as mulheres sofrem no Paquistão, acredita que isso não acontece no seu mundo ou na sua cultura, porque parece muito específico. Mas quando você finalmente percebe que a violência contra a mulher é o que sustenta o patriarcado, você entende que estamos nessa juntas. As mulheres em todo o mundo estão nessa luta juntas”
As histórias
Há histórias que te fazem rir, outras que te fazem chorar. Eve trata com naturalidade assuntos bem delicados que podem te fazer corar, alguns constrangedores….dentre as histórias que mais me chamaram atenção está a de uma mulher que desde pequena sofria repreensões da mãe quando colocava a mão na vagina (mesmo que estivesse coçando, ela não podia colocar a mão lá), nem deixar que colocassem. Ela conviveu com esse medo à própria vagina durante toda a infância, o que piorou quando ela foi estuprada. Em suas memórias, lembra que o abusador era um amigo do pai, recorda do pai brigando com a mãe e a mãe o mandando para fora de casa. Ela só foi se libertar dessa repulsa quando conheceu uma mulher, que a seduziu e que mostrou para ela o que era o sexo feito com carinho. Outra história interessante é de uma jovem que foi transar com um rapaz e se surpreendeu quando ele disse que ela estava fedendo. Ela dizia que não tinha culpa por causa dos seus fluídos vaginais, mas ele a humilhou e a chamou de porca e ela ficou tão traumatizada “que fechou a fábrica”, nunca mais fez sexo desde então…
Nem tudo foi um mar de rosas, a peça recebeu muitas críticas
O texto da peça desagradou algumas feministas. Na percepção delas, Eve deu a entender que o movimento prega a superioridade das mulheres em relação aos homens. Alguns acharam que ela retratou os relacionamentos sexuais de uma maneira negativa demais, e que se “esqueceu” da importância do feminismo das mulheres negras, debatendo apenas sobre situações de “mulheres brancas em situação de privilégio na sociedade”. A peça também foi criticada por conservadores, foi proibida de ser encenada em seis colégios católicos. Em 2007 a Universidade de Saint Louis também proibiu a sua encenação, dizendo que se tratava de um tema redundante. Camille Paglia atacou Eve dizendo que ela era uma charlatã se pagando de culta.
Em 1998, Eve criou o V- Day
Ela reuniu um grupo de pessoas para se manifestarem contra a violência sofrida por mulheres e meninas, a ideia é repetir esse evento até a violência acabar. Desde então, o V-Day ocorre em Fevereiro, Março e Abril todos os anos e oferece vários projetos (campanhas, peças, filmes educativos) cujo os lucros são doados à programas específicos a favor das mulheres. Uma das campanhas de mais sucesso foi a “One Billion Rising for Justice” (Um bilhão se levanta por justiça), lançada em 2013 – conseguiram juntar um bilhão de pessoas, em 207 países. Outra,que também reuniu um bilhão de pessoas, convidava os voluntários a dançar e a fazer um apelo global por justiça, a ideia era motivar as vítimas a quebrar o silêncio.
Em entrevista, Eve foi questionada se realmente achou que um dia conseguiria acabar com a violência contra as mulheres: “É uma boa pergunta. Vou te dizer o que penso. A escravidão, por exemplo, é barbárie. Como uma prática dessa ainda existe? Estuprar mulheres, mesma coisa. Como isso pode existir ainda? Eu acredito que tem que acabar e imediatamente! Nós temos que ter em mente que sim, é possível acabar com essa violência. Continuar justificando o ato como se fosse parte da condição humana, ou parte da própria vida, é normalizar esse tipo de violência permanentemente. Então, sim, eu acredito que essa ideia é possível. Absolutamente. Eu não continuaria trabalhando com isso se não acreditasse, seria uma pessoa insana. Ao mesmo tempo eu acredito que o mundo já mudou, hoje nos vemos notícias de violência contra mulheres estampando jornais, há 16 anos isso não acontecia. Então, isso me faz pensar,porque não pode acabar? Eu vou continuar acreditando nisso até os fins dos dias, é o que me faz levantar da cama pela manhã”
“Loucas noites de batom” (Gabriel Aghion, 1996), conta a história Adrian – um executivo homossexual que é convidado para um jantar de negócios pelo chefe, Alexander. Com o intuito de passar uma boa imagem ele pede que sua amiga, Eva (Fanny Ardant), finja ser sua esposa. A situação foge do seu controle quando Alexander se apaixona por Eva, sem saber que ela, além de solteira, é proprietária de uma boate gay. Detalhe: Alexander é casado, e extremamente machista e preconceituoso.
Não é uma história com um plot diferente daquele que já vimos milhões de vezes no cinema. Acho justa a comparação com “Gaiolas das Loucas”, já que retrata (também de uma forma bem humorada), a necessidade momentânea de um gay assumido, esconder sua sexualidade. O que me fez gostar tanto de Pédale Douce e de ter o colocado na lista dos meus favoritos, foi a dinamicidade ao abordar assuntos complexos com tanta clareza e sinceridade, sem cair no ridículo ou explorar esteriótipos. Você consegue rir e se emocionar, ao mesmo tempo em que reflete sobre tabus que assombram a sociedade.
Existe uma grande discussão sobre gênero e sexualidade levantada nesse filme, que cutuca a ferida da família tradicional e debocha da heteronormatividade. Gosto, especialmente, da forma em que o filme retrata e brinca com o preconceito e mostra que quando se trata de sexualidade, não se deve taxar nada nem ninguém. Também gosto muito da sutileza e da transparência ao abordar a AIDS, um tema que pode ser ainda mais doloroso, se não encarado com o devido respeito.
Pra falar a verdade eu tinha me preparado para escrever um texto enorme. Revi recentemente uma entrevista que nos ajuda a lembrar sobre o quanto o machismo também é prejudicial aos gays. Agora eu acho que não cabe muito entrar em detalhes, mas devo lembrar que vivemos em um sistema que condena os “homens afeminados”, porque esperam deles uma postura que corresponda à noção que construímos sobre virilidade.
A INCRÍVEL – EVA –
No meio do jantar, confrontada por uma senhora com visões conservadoras sobre vários aspectos sociais, e principalmente, sobre sexualidade… Eva fala: “Detesto caçar, sou a favor da cirurgia plástica, sou militante a favor do aborto, adoro Picasso, odeio fanáticos e prefiro travestis a velhas chatas”. E foi assim, em apenas dez minutos de filme, que caí de joelhos… completamente apaixonada por Eva, que “ama a liberdade e o prazer”.
Um personagem engraçado, com posições tão honestas e bem definidas… Gosto muito da imagem da Fanny nesse filme, que além de divertida, encosta novamente na questão de gênero. As vezes, em algumas cenas, ela está de peruca e não é difícil confundi-la com um travesti. Você percebe que ela se porta assim de propósito, exatamente para ser confundida. Ou então, sai por aí usando terno e gravata. Ela ama e defende os gays com unhas e dentes e está deliciosamente inteligente, sarcástica, ácida…
E então, o primeiro livro de março foi lido. “Adeus, maridos”, um conjunto de histórias de mulheres que decidiram largar o casamento para viver com outras mulheres. É um livro leve, descomplicado e que me ajudou a ver o feminismo de maneira mais profunda.
A introdução é uma das coisas mais interessantes que li nos últimos tempos, Marge Frantz explica como o condicionamento cultural (seja nas repreensões, sanções ou suposições), fez com que as mulheres, há muitos séculos, fossem levadas à acreditar nos privilégios do casamento – o que em parte, não é de todo falso. O problema está no que ela chama de “heterossexualidade compulsória”, a crença de que todas as mulheres e homens nascem heterossexuais.
“Nós queríamos acreditar que éramos “normais” ou, que viveríamos vidas “normais”. Queríamos ser aceitas: temíamos as críticas e os castigos sociais, tínhamos medo, principalmente da perda de apoio econômico, empregos ou filhos. Casamos.”
Essa introdução me abriu os olhos para muitas coisas, aprendi muito. Eu não fazia ideia, por exemplo, que o fim da Guerra Civil (que trouxe uma aceleração na urbanização e na industrialização), fez com que muitas mulheres da classe média se tornassem independentes, o que permitiu que abrissem mão da vida doméstica. Segundo Frantz, foi nessa época em que o movimento feminista se autodenominou pela primeira vez e foi também nessa época que surgiu a palavra “lésbica”.
A depressão da década de 1930 foi terrível para as mulheres. Diziam que se elas abandonassem seus empregos, existiria vagas suficientes para os homens. Agora, imagina o quão difícil foi para as lésbicas: “algumas casaram porque não viram alternativa possível”. Um outro aspecto, que até então eu nunca tinha pensado sobre… é na importância dos bares para a criação da identidade homossexual. Lá eles se sentiam seguros, os bares gays foram o berço de uma nova cultura, de um senso de comunidade.
As histórias são sensacionais, surpreendentes. Muitas se passam na década de 1960 e 1980. Lembrando que o livro foi publicado em 1991 – e mesmo com alguns avanços, está claro que ainda falta muito. As organizadoras, Deborah Abbot e Elle Farmer, também dão a contribuição com suas histórias, as duas foram casadas com homens e depois assumiram a homossexualidade.
O que pude perceber é que a maioria das histórias perpassa por um caminho de culpa e medo. Pelo temor da não aprovação dos pais, dos ex-maridos e principalmente dos filhos.
A maioria das mulheres são maduras, algumas de 50, 70 anos… e é impossível não se apaixonar pela história de muitas delas. Em um dos relatos, por exemplo, uma mulher negra conta como na década de 1950, tomou coragem para largar o marido e assumir o relacionamento dela com uma dance girl, também negra, que conheceu em um bar noturno. Ou a mulher, que perdeu a guarda dos três filhos para um marido extremamente violento e ainda foi mandada embora de casa.
“Eu ainda acredito no casamento”
Foi uma das frases que vi repetida vezes no livro (não todas com essas palavras, mas com esse sentido). Em suma elas continuam defendendo a vida a dois, mas seguindo a liberdade sexual.
Durante algumas semanas uma querida amiga da faculdade, insistiu para que eu procurasse um livro da jornalista espanhola Rosa Montero. Ela passava os dias falando sobre “A louca da casa”, obra que Motero escreveu em 2003. Eu, atolada com os trabalhos do fim do semestre, acabei me esquecendo da autora.
Há um mês fui convidada a participar de um grupo de trocas. Ofereci um DVD da Elis Regina e pedi um livro. Por ironia do destino, recebi “Historia de Mulheres”, publicado em 1995 – uma coletânea de 16 pequenas biografias de personalidades femininas. Comecei a lê-lo sem interesse, sem nem me dar conta de que a autora era a “tal” jornalista que a minha amiga tanto falava. Devorei as páginas em uma semana e fui pega por um êxtase de admiração e curiosidade. É duro admitir, mas fiquei com inveja da capacidade textual da Rosa Montero, que escreve maravilhosamente bem e tem um trabalho jornalístico impecável.
Logo na introdução, Montero reconhece que listas são excludentes e que a escolha de dezesseis biografias fatalmente deixam de fora outras mulheres com histórias tão admiráveis quanto as que foram narradas. Com um trabalho extenso, quase visceral, Montero passou dias e noites analisando documentos, lendo bibliografias e fazendo entrevistas. O livro é, na verdade, a reunião da série de textos – um pouco mais extensos, que Montero publicou no jornal El País.
Simone de Beauvoir
Montero questiona o papel secundário que foi dado a mulher na sociedade e perpassa pelas diferenciações hierárquicas entre os sexos. Através de uma dimensão histórica (desde o início dos tempos, com a criação de Adão e Eva) a autora relembra mulheres surpreendentes que, de uma forma ou de outra, acabaram esquecidas pela história:
“Mais fascinante ainda é a história de Lilith. A tradição judaica conta que Eva não foi a primeira mulher de Adão, pois antes existiu Lilith. E essa Lilith quis ser igual ao homem: indignava-se, por exemplo, de ser forçada a fazer amor embaixo de Adão, uma postura que lhe parecia humilhante, e reclamava os mesmo direitos do varão. Adão, aproveitando-se de sua maior força física, tentou obrigá-la a obedecer, mas então Lilith o abandonou. Foi a primeira feminista da Criaçao, mas suas moderadas reivindicações eram certamente inadmissíveis para o deus patriarcal da época, o qual transformou Lilith numa diaba matadora de crianças e condenou-a a padecer a morte de cem de seus filhos a cada dia, horrendo castigo que emblemiza à perfeição o poder do macho sobre a fêmea.”
Camille Claudel
As biografias são romantizadas, coisa que Montero faz muito bem. Em “A eterna fugitiva”, Montero narra a história de Agatha Christie e conta detalhes curiosos sobre a escritora. Christie não gostava de tirar fotografias, principalmente depois que fez quarenta anos e engordou muitíssimo. Preocupada com a aparência, a escritora não gostava de aparecer sorrindo nas fotos: tinha os dentes podres. Em 3 de dezembro de 1926, Agatha desapareceu. Traumatizada com a morte da mãe e com a traição do marido, simplesmente sumiu sem deixar pistas. Foi encontrada onze dias depois em um hotel, tinha perdido completamente a memória (“escapado de sí”). Nos fins dos dias, foi perdendo completamente o juízo, falava coisas sem nexo e cortava mechas do próprio cabelo – e que tanto se orgulhava.
Outra figura interessante é a Lady Ottoline Morrell uma britânica milionária que era “alta, tinha cara de cavalo e cabelo de fogo”. Durante grande parte da vida, Ottoline dedicou-se a um salão artístico por onde passaram figuras conhecidas como Virginia Woolf, Lytton Stratchey, Henry James, T.S. Elliot, Charles Chaplin e Bernard Shaw. Apesar de ser mecenas, apoiar e financiar artistas, Ottoline Morrell era quase sempre ridicularizada por eles. Aos 55 anos teve um câncer na mandíbula que a deixou desfigurada. Não bastasse, perdeu todo o dinheiro com as festas que oferecia aos artistas e descobriu as zombarias que faziam dela.
Montero afirma que apesar de sua fama de ‘aristocrata horrorosa e extravagante’, Ottoline – quando jovem – não era feia coisa nenhuma: “ É inquietante que essa mulher que foi uma das mais famosas beldades de sua época, acabe transformada, na velhice, no próprio simbolo da feiura e patetice” Mesmo depois do câncer (e das terríveis dores que sofria), Ottoline aguentou as humilhações e sofrimentos e continuou recebendo artistas em sua residência – só que de uma forma mais modesta. Morreu aos 64 anos, vitima dos estragos da doença e do tempo.
Agatha Christie
De todas as histórias, a que mais me chamou atenção foi a da Aurora Rodríguez, que nasceu em El Ferrol por volta de 1880. Uma de suas irmãs solteiras teve um filho, o abandonou e foi para Paris. Aurora o criou e incentivou seus estudos de música. O garoto, chamado Pepito Arriola tornou-se um menino prodígio e aos oito anos já era um sucesso internacional. Sua mãe, voltou de Paris e o levou embora, “coisa que Aurora não pôde perdoar”.
Aurora, que era uma mulher lunática e paranoica, planejou uma gravidez. Com astúcia procurou um progenitor: um padre aventureiro chamado Alberto Pallás. Em 1914 deu a luz a Hildegart (nome que significa “Jardim de Sabedoria”) e logo tratou de incitar-lhe aos estudos. “Quando Hildegart nasceu, Aurora começou a treiná-la desde o primeiro dia, como quem destra um animal. Antes de completar três anos, Hilde falava e escrevia corretamente, aos oito dominava quatro idiomas e era versada em filosofia e temas de educação sexual. Aos quatorze escrevia artigos para El Socialista e nessa época já se tornara famosa”.
Hilde concluiu a faculdade de direito aos 17 anos e aos 18 cursava medicina. Recebeu um convite de Havellock Ellis para ir a Inglaterra e aceitou. Sua mãe, possessiva e enciumada, a torturava psicologicamente e implorava para que ela ficasse. “Aurora sentia que a criatura lhe escapara, paranoica, considerava que Havellock Ellis fosse um espião que queria perverter sua filha”. Três dias antes da data de partida, Aurora passou a noite velando ao pé da cama da filha vendo-a dormir e quando já estava clareando disparou-lhe quatro tiros a queima roupa, um na cabeça e três no peito que a mataram na hora. No julgamento Aurora afirmou que essa tinha sido a sua mais bela obra: “É muito mais penoso matar uma filha do que pari-la, de parir, todas as mulheres são capazes, mas de matar seus filhos não”.
Aurora e Hildegart Rodríguez
Eu acho que eu poderia passar o resto do dia, da semana ou do mês falando desse livro. Mas, reconheço que esse texto já está maior do que devia. Só pra constar, a Rosa Montero também fala sobre: Mary Wollstonecraft, Zenobia Camprubí, Almaa Mahler, María Lejárraga, Laura Riding, George Sand, Isabelle Eberhardt, Margareth Mead, Camille Claudel, Irmãs Bronté e Irene de Constantinopla.
E pra terminar, separei umas frases do livro que eu mais gostei:
– “Todos carregamos dentro de nós nossa própria morte, toda vida é ir desvivendo”.
– sobre a Frida Kahlo: “Frida era muito bonita. Ou mais do que bonita, era tremenda. Tinha olhos ferozes e maravilhosos, boca perfeita sobrecenho hersuto, bigode apreciável. Certa vez ela o raspou e Diego ficou furioso: de algum modo os atributos sexuais dos dois eram trocados, porque ele tinha grandes peitos de mulher que a encantavam”
– sobre Margaret Mead: ” Seria cabível perguntar-se o porquê de uma mudança tão notável: as causas ocultas, o que aconteceu com ela por dentro. Há pessoas que, com o transcorrer da vida simplesmente envelhecem, outras, mais sábias ou afortunadas, vão amadurecendo. Outras, ao contrário apodrecem e outras ainda, enfim, se desbaratam, e todos esses processos têm frequentemente um claro reflexo no aspecto físico”
BIBLIOGRAFIA: Montero, Rosa, 1951 – História de Mulheres/ Rosa Montero / tradução Joana Angélica d’Avila Melo – Rio de Janeiro: PocketOuro, 2009.