Li o livro da Andressa Urach, deixa eu te contar o que achei!

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Fiquei curiosa para ser esse livro, queria demais conhecer as histórias tão polêmicas da Andressa Urach. Eu sinto uma simpatia por ela, e nem sei explicar o porquê. Como eu cheguei a ler inúmeras notícias e resenhas, acabei não me surpreendendo muito. A figura dela é interessante, e o livro também… seja ou não uma jogada de marketing. Vejo a Andressa como um exemplo vivo da loucura que é o universo do entretenimento, das coisas boas e ruins que acontecem no submundo das celebridades e que a gente não vê no jornal. O livro carrega um discurso muito forte de arrependimento, a narradora é uma pessoa que cometeu loucuras e exageros em busca de uma satisfação: tudo isso envolvia fama, dinheiro e muito sexo.

O que mais humaniza Andressa é a sua origem, o fato de ela ter nascido em uma família como todas as outras famílias brasileiras. Ela poderia ter sido a sua vizinha, sua conhecida, sua prima… O que a diferencia de tantas outras pessoas? Talvez a sua audácia ou o apelo pela exposição.

A fixação de Andressa pela beleza começa muito cedo, depois o vício nas cirurgias plásticas passa a persegui-la como um fantasma. Independentemente da quantidade de intervenções estéticas, ela nunca se contenta. E o livro começa no ápice desse vício, no momento em que ela precisa ser internada às pressas por causa da infecção nas pernas. Ela, com medo de morrer e pensando no filho, e a mãe dela, desesperada ao vê-la doente.

Em suma, é um narrativa bem simples, mas interessante de se ler. Das revelações polêmicas, muito se falou: Andressa conta que foi abusada sexualmente por homem a quem considerava como “avô”, ela conta que perdeu a virgindade com o irmão, que praticou zoofilia, que era a prostituta mais disputada e que brigava muito com a mãe, inclusive fisicamente. Ela não esconde os encontros sexuais com homens ricos, nem as bizarrices exigidas por eles. A modelo fala também sobre seus relacionamento com mulheres e dá sua versão sobre o encontro que teve com Cristiano Ronaldo (e conta que o jogador foi violento, fez ameaças e que seus seguranças chegaram a deixá-la presa num quarto de hotel).

O que Debbie e Carrie me ensinaram…

coracaopartidoEu sinto muito por deixar esse blog tão abandonado, vocês não imaginam o quanto me faz bem escrever aqui. O fim do ano foi corrido e tantas coisas aconteceram que ainda não consegui parar para me organizar e colocar tudo em seu devido lugar. Muito do que vivi no ano passado me serviu de lição, um impulso para tomar um novo rumo na vida e colocar em prática os projetos antigos. Tô com um sentimento de que não tenho mais tempo para perder…

No fim do ano de 2016, dentre inúmeros acontecimentos, o que mais me impressionou foi a morte das atrizes Carrie Fisher e Debbie Reynolds. Na verdade, fiquei até um pouco obcecada… conversei com os colegas do trabalho sobre o assunto, li alguns artigos, assisti documentários.

A proximidade da morte das duas, mãe e filha, me fez realmente acreditar que se pode morrer de tristeza e mais, me provocou uma sensação bem romântica, daqueles que defendem a universalidade do amor. Independentemente das brigas e do rancor entre elas, existia ali uma ligação muito mais forte. Maior a nossa compreensão.

O fato é que Debbie morreu de coração partido. Vou repetir, porque me soa bonito demais: Ela morreu, de coração partido. Das entrevistas que assisti, percebi que ela ficava extremamente emocionada ao falar da filha e ao mesmo tempo, preocupada. Em uma das últimas conversas televisivas que teve, ela chega a segurar o choro.

O caso me fez pensar nas pessoas que amo, no quanto são fundamentais para minha existência, no quanto eu sofreria se não estivessem mais do meu lado. É necessário perdoar, para se viver melhor. É necessário se doar. A vida é uma só, e é efêmera demais.

eu tinha sete anos, quando me apaixonei por Eva Wilma

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Quando “Mulher” passou pela primeira vez na TV eu tinha sete anos, o seriado foi transmitido entre abril de 1998 e dezembro de 1999. Na época minha mãe dava plantões noturnos e eu dormia na casa da minha avó. Aparentemente, ninguém vigiava os meus horários de assistir televisão, porque lembro perfeitamente que o programa era transmitido tarde da noite, nas quarta-feiras. Ambientado em uma clínica especializada em atendimento a mulheres, o seriado abordava diversos assuntos relacionados à saúde feminina como: aborto, abuso sexual, anticoncepcionais, casamento, doenças sexualmente transmissíveis, partos (e por aí vai…).Era pesado (pra minha idade), mas tinha uma linguagem muito interessante, diferente de tudo o que tinha assistido até então.

Eva Wilma interpretava Martha, uma médica ao estilo heroína que dividia os plantões com a Doutora Cristina, interpretada por Patrícia Pillar. Além de acompanhar o envolvimento das médicas com as pacientes, quase sempre com casos complexos e dramáticos, o espectador ainda tinha uma dose extra sobre a vida pessoal das personagens principais… as duas em vibes diferentes. Cristina, em sua juventude, enfrentava questionamentos éticos sobre a escolha da profissão e ainda tinha que se virar com um relacionamento super conturbado, uma espécie de namoro enrolado com Carlos, interpretado por Maurício Mattar. Martha, por outro lado, tinha uma voz mais forte e decisiva dentro do hospital, por causa de seus anos de experiência, Na vida íntima, convivia com o mesmo marido há anos, numa cumplicidade invejável. (O marido era interpretado por Carlos Zara e na época, eu não fazia ideia de que eles foram casados na vida real HAHA).

Não me lembro com exatidão dos episódios, nunca parei para assistir a série novamente (nem quando repetiu no Canal Viva), mas foi por falta de tempo mesmo. Recordo com exatidão que em determinada fase da série, a personagem da Eva Wilma descobre um câncer no seio e aquele sofrimento dela, diante da necessidade de fazer a retirada da mama, me matava. Lembro que tive uma conversa com a minha mãe na época (meu Deus, eu lembro muito disso!), porque eu não conseguia entender como seria essa “tal” retirada da mama. Não entrava na minha cabeça como aquilo funcionava.

Então, Martha foi um dos primeiros crushs que tive na vida, ainda que  esse amor meio estranho, tenha sido um personagem fictício. Eu amava a força e a inteligência dela, que não dava o braço a torcer para o administrador do hospital (que por sinal, era um babaca corrupto), e sempre com muita clareza, falava sobre questionamentos femininos e tratava os pacientes com transparência. Era uma mulher inteligente, moderna e bem feminista. Recomendo muito a série, quem tiver a oportunidade assista pelo menos um episódio (depois vem me contar o que achou!), acho difícil não gostar…

Amor, literatura e novelas…

Já parou para pensar que o amor pode não ser algo biologicamente determinado, mas culturalmente aprendido? Eu já, mas só depois que li o livro da Cristiane Costa: “Eu compro essa mulher”. Comentei sobre ele aqui há anos e prometi escrever uma série de resenhas sobre o livro… É uma das melhores coisas que já li, recomendo muito!

No primeiro capítulo, “Lições de Amor”, a autora explica como o amor pode não ser biologicamente determinado, mas culturalmente aprendido. A base da construção sobre o amor romântico está no gênero criado no século 12, a literatura cortês. Essas histórias românticas instauraram uma forma desejante de controle do imaginário que até hoje é exercido pelas telenovelas. A autora explica que não é possível afirmar que o conceito de amor foi criado nesta época, o que se pode afirmar é que a cultura de valorização do amor romântico, da maneira que conhecemos hoje, ainda não tinha sido inventada até então.

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A linguagem romântica é instaurada pela cortesia. Historicamente a palavra cortês qualifica um conjunto de costumes adotados pelos cortes feudais. Na prática, foi um conjunto de normais éticas e estéticas que governavam a relação entre os sexos. Com o surgimento dessa nova literatura, surge o conflito entre duas retóricas: a linguagem dogmática da escolástica e a passional do amor cortês.

Esse novo formato ainda trouxe uma segunda revolução, ele coincide com a aceitação pela instituição eclesial deste mesmo amor como base do casamento. Somente no século 9 a Igreja começa a enfrentar o casamento com uma forma de aplacar a luxúria: “Houve revolta, principalmente entre os nobres, contra a instituição da monogamia, o fim do divorcio (ou o repúdio da esposa infértil, como eram definidas na época mesmo as mulheres que tivessem gerados filhos apenas do sexo feminino) e, mais do que tudo, conta a definição de incesto como relações com parentes  até o sétimo grau, o que dificultava as estratégias de aliança. O problema do incesto colocava questões muito mais de ordem política do que amorosa sob o domínio da Igreja, que tinha o pode de abrir ou não exceções”. Só em 1090 surgem evidência da formulação de um novo modelo matrimonial, não definido pela imposição dos pais, e sim pela vontade dos envolvidos.

Nas histórias da época existia uma situação típica que prevalece até hoje: o obstáculo. Do mesmo jeito que conhecemos, a separação que ao mesmo tempo afasta e intensifica o desejo. Outra era a rebelião dos filhos, movidos pelo amor e contra as ordens paternas (a exemplo Romeu e Julieta: “uma história que deixa claro como a noção de escolha, que assegura a autonomia do indivíduo, já era viável. Mas também como entrava, muitas vezes, em conflito direto com os interesses coletivos numa época em que a sociologia da aliança ainda prevalecia sobre a psicologia amorosa. E o final para o sujeito desejante era a morte”.

A rainha Vitória, no século 19, foi a primeira monarca a se casar por amor, numa escolha pessoal e não movida por estratégia. A exemplo do conto Cinderela, história onde o rei pede uma moça pobre em casamento por paixão: “ A era vitoriana, mais identificada pelo puritanismo da moral burguesa, nos legou também o modelo de casamento tal como conhecemos hoje, em seus vestidos brancos, véus e grinaldas, e motivação exclusivamente romântica. Um modelo em que o casamento e não o adultério, seria o veículo certo para canalizar as poderosas forças da paixão”.

Romeu e Julieta e a ruptura da Ordem

200px-20070205000653romeo_and_juliet_brownA história de dois amantes separados pelo ódio dos familiares é repetida até hoje, nas tramas de telenovelas… mas, a origem é muito mais antiga, embora popularizada por Shakespeare no século XVI. O conto surgiu no século 3, quando os gregos já contavam a saga de uma mulher que recorreu a uma poção que simulava a morte para escapar de um segundo casamento: “Pelo menos cinco italianos já tinham se debruçado sobre a história antes de Shakespeare, que, no entanto, se inspirou unicamente no longo poema do inglês Arthur Brooke.

Em Shakespeare não é a desobediência dos filhos que provoca o destino trágico e sim a insistência dos pais em não ouvir os filhos. A fábula moralista se transforma em libelo revolucionário. O amor leva ao conflito extermínio, a morte dos amantes significa não a derrocada da ideia do amor, mas um sacrifício por meio do qual funda-se um mito de origem de amor moderno.

Cinderela e a ascensão social pelo amor

Ao contrário de Romeu e Julieta, Cinderela vigora a primazia do amor sobre a ordem social (provavelmente por isso é uma das histórias mais repetidas pela cultura de massa. A história foi criada em 1697, na França por Charles Perrault e teve pelo menos 345 variantes, além de ter dado origem a vários versos de filmes, óperas e animações: “Não faltam interpretações sobre essa pequena história. Desde a psicológica que encara a relação de Cinderela com sua madrasta como uma tentativa de ultrapassar o poder materno ou vê nos pequenos sapatinhos de cristal um símbolo de feminilidade”.

O mito é usado até hoje nas telenovelas, pois apesar de sua improbabilidade histórica, junta duas fantasias: ascensão social e amor. O casamento permitiria a classe mais baixa ostentar os mesmos meios de distinção simbólica da clássica dominante. Um ato ideal feito sob medida para a sociedade de consumo. A história personifica o mito de que é possível ultrapassar as fronteiras sociais através do amor.

Abelardo e Heloísa ou o obstáculo

O amor impossível entre o filósofo Abelardo e Heloísa foi contado em cinco cartas que correram o mundo. A história, cheia de acontecimentos dramáticos parece muito com os melodramas.  Há várias teorias sobre a origem do livro, e quatro delas merecem atenção: a correspondência seria autêntica, mas retocada no século seguinte, o conjunto de textos poderia ser um romance epistolar, as cartas teriam sido reescritas por Heloísa depois da morte do esposo e finalmente, trata-se de um dossiê fictício, com base nas lembranças transmitidas oralmente.

 Tristão e Isolda ou o triângulo amoroso

O triângulo amoroso também é explorado tanto na literatura quanto nas telenovelas (através de inúmeras variações) e faz sentido até hoje, além de ser muito pedagógico. O mito tem origem na história do jovem Tristão e a mulher do seu tio, Isolda.  “Trata-se de uma relação de duplo vínculo: não é difícil ver que esconde uma contradição, o casamento era proposto como único lugar autorizado para o desrecalque das pulsões sexuais, e o mesmo casamento era recuado à parte da maioria dos homens. Os personagens principais, ao valorizar o adultério, evidenciam a incompatibilidade entre o casamento e o amor.

A paixão, por outro lado, possui um lado, é muito mais volátil e não tanto revolucionário e desestabilizador como o amor. “O ardor de Tristão e Isolda duraria exatamente três anos, tempo em que se diluem os efeitos do filtro, uma bebida mágica que seria responsável por despertar a paixão”. O mito do filtro, hoje seria chamado de tesão.

E aí, gostaram? O texto acima é uma resenha do primeiro capítulo do livro “Eu compro essa mulher” (2000), da Cristiane Costa. 🙂  

Terra Nostra: O parto da Maria do Socorro

Tava pesquisando uma coisa completamente aleatória quando acabei caindo num vídeo da novela Terra Nostra.

Mais especificamente, na cena do parto de Maria do Socorro, personagem da Débora Duarte. Fiquei hipnotizada. Assisti várias vezes, prestando atenção em cada detalhe. A intensidade da atuação, o realismo da dor, a beleza bruta da cena… tudo me prendeu.

Lembrei que vi essa novela quando era bem novinha. Na época, era uma verdadeira febre. Meus colegas de escola tentavam forçar um sotaque italiano no recreio, dizendo “capisce?” e “bambina”, como se estivéssemos vivendo na São Paulo de 1890.

Mas eu, criança ainda, não tinha maturidade pra entender o peso de certas cenas.

Hoje, revendo como adulta, percebo quanta coisa passa por baixo do pano e quanta carga simbólica existe por trás daquele parto.

Maria do Socorro: silêncio, dor e resiliência

Antes e depois do elenco de "Terra Nostra": filho de Matteo e Giuliana é  galã da TV hoje - Zappeando

A personagem Maria do Socorro era esposa de Gumercindo, vivido por Antônio Fagundes. Eles tinham duas filhas, mas não um filho homem, e isso era visto como uma falha dela. Como se fosse sua única e principal função na vida.

Essa expectativa silenciosa, imposta e cruel, pesava sobre sua existência.

A frustração de não ter gerado um herdeiro não era só social, era pessoal. Ela sentia culpa, vergonha e até certa inadequação como mulher.

E, pra piorar, Gumercindo a trai com a escravizada Naná, interpretada por Adriana Lessa.

Socorro, já emocionalmente fragilizada, é obrigada a engolir a humilhação em silêncio. Ela começa a pensar que entrou na menopausa e que sua função reprodutiva chegou ao fim.

E aí vem o enredo: a gravidez tardia, descoberta quase por acaso, e o parto que parece mais uma travessia espiritual do que um simples evento fisiológico.

O parto como redenção

A cena é mesmo impactante. Dizem que foi uma das mais assistidas da TV brasileira, e com razão. Em vez daquela representação tradicional de parto limpo e quase glamouroso, onde a atriz mal sua e sai da cena com o cabelo intacto, aqui o que se vê é dor, suor, esforço, cansaço e intensidade emocional. É visceral. É humano. É real.

O que mais me chama atenção é como o momento do parto é retratado como algo íntimo entre mulheres. Quando Gumercindo entra para levar água, Maria do Socorro esconde o rosto. Sente vergonha de ser vista naquela situação de vulnerabilidade. E pede que ele saia. Isso diz muito. Não é só sobre pudor.

É sobre como a maternidade, e todo o peso que vem com ela, recai quase que exclusivamente sobre os ombros femininos. Não apenas o ato físico de parir, mas a responsabilidade simbólica de entregar algo ao homem.

De justificar sua presença na casa e seu valor dentro daquela estrutura familiar.

Dar à luz, para Maria do Socorro, é quase uma forma de perdão. Um reencontro com o seu lugar. Uma absolvição. A redenção por não ter, até então, proporcionado ao marido a satisfação de um filho homem.

O que essa cena ainda nos diz hoje

Terra Nostra | TV Time

O mais forte de tudo isso é pensar que a história se passa no final do século XIX, mas o sentimento que ela evoca continua atual. O corpo da mulher, a pressão da maternidade, a culpa por não cumprir um papel esperado, a vergonha de demonstrar fragilidade… tudo isso ainda existe. Ainda é tema. Ainda é vivido.

Rever essa cena me fez refletir não só sobre o papel da mulher no passado, mas sobre o quanto dessa herança ainda carregamos. Como essas imagens nos moldaram. Como foram naturalizadas. A maternidade como um destino. O filho homem como troféu. O sofrimento como moeda de validação.

E por isso a atuação da Débora Duarte é tão marcante. Ela não fala muito. Ela não precisa. O corpo fala. A respiração pesada fala. O olhar fala. É uma aula de interpretação e uma denúncia silenciosa sobre como a mulher era, e em muitos casos ainda é, reduzida a seu útero.

Pensar o passado para entender o presente

É isso que me fascina nas novelas antigas. Elas são cápsulas do tempo, cheias de significados, omissões, repetições e verdades desconfortáveis.

Reassistir Terra Nostra hoje não é apenas uma viagem nostálgica. É uma chance de perceber como a dramaturgia foi, e ainda é, um espelho da sociedade.

Ver Maria do Socorro parindo em silêncio e dor me lembrou que, mesmo com todos os avanços, ainda precisamos falar muito sobre a maternidade que pesa, a mulher que se cala e os papéis que nos impõem. Se antes essa história era contada sob a ótica do sacrifício e da resignação, talvez hoje a gente consiga olhar pra ela com mais crítica e empatia.

E só por isso já valeu cada uma das mil vezes que revi essa cena.

Audre Lorde – Não existe hierarquia de opressão

Conheci a Audre Lorde outro dia, pelo Facebook. Depois de ver um vídeo sobre suas reflexões, me interessei em estudar suas teorias (quero muito, muito mesmo ler o que ela escreveu ). O seu texto sobre hierarquia de opressão me tocou profundamente, uma visão sobre movimentos sociais que até então, não tinha me atentado. Vou compartilhar o texto por aqui, porque é engrandecedor e tem muito a nos ensinar:

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Eu nasci negra e uma mulher. Estou tentando me tornar a pessoa mais forte que consigo para viver a vida que me foi dada e ajudar a efetivar mudanças em direção a um futuro aceitável para o planeta e para minhas crianças. Como negra, lésbica, feminista, socialista, poeta, mãe de duas crianças — incluindo um menino — e membro de um casal inter-racial, com frequência me vejo parte de algum grupo no qual a maioria me define como devassa, difícil, inferior ou apenas “errada”.

Da minha participação em todos esses grupos, aprendi que opressão e intolerância de diferenças aparecem em todas as formas e sexos e cores e sexualidades — e que entre aquelas de nós que compartilham objetivos de libertação e um futuro viável para nossas crianças, não pode existir hierarquia de opressão. Eu aprendi que sexismo e heterossexismo surgem da mesma fonte do racismo.

“Ah”, diz uma voz da comunidade negra, “mas ser negra é NORMAL!”. Bom, eu e muitas pessoas negras da minha idade lembramos de forma soturna dos dias em que não costumava ser!
Simplesmente não consigo acreditar que um aspecto de mim pode se beneficiar da opressão de qualquer outra parte da minha identidade. Eu sei que pessoas como eu não podem se beneficiar da opressão sobre qualquer outro grupo que busca o direito a uma existência pacífica. Em vez disso, nós nos subestimamos ao negar a outros o que derramamos sangue para obter para nossas crianças. E essas crianças precisam aprender que elas não têm de ser umas como as outras para trabalharem juntas por um futuro que irão compartilhar.

Dentro da comunidade lésbica eu sou negra, e dentro da comunidade negra eu sou lésbica. Qualquer ataque contra pessoas negras é uma questão lésbica e gay, porque eu e milhares de outras mulheres negras somos parte da comunidade lésbica. Qualquer ataque contra lésbicas e gays é uma questão de negros, porque milhares de lésbicas e gays são negros. Não existe hierarquia de opressão.

Eu não posso me dar ao luxo de lutar contra uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não demorará muito a aparecerem para destruir você.

Fonte: Literatura Interseccional

Coragem e Inteligência: Protagonismo Feminino em #CopyCat

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Passeando pela Neflix, encontrei um filme com a Sigourney Weaver que até então, nunca tinha assistido. “Copycat – A vida imita a morte” (1995) é uma trama de suspense sobre um assassino em série que persegue uma mulher, especialista em crimes. Weaver interpreta a Drª Helen Hudson, a personagem que sofre a perseguição. Por causa de um ataque que sofreu, Helen desenvolveu síndrome do pânico e passou a não sair de casa [ela largou todo o trabalho que fazia, deixou de fazer as palestras e se isolou]. As coisas mudam quando vários assassinatos começam a acontecer na cidade, o assassino reproduz crimes que ficaram mundialmente famosos. Daí, a polícia aparece, mas não consegue desvendar as pistas e por isso, recorre à Helen, que entende do assunto e que está interligada a cada um dos crimes [As pistas deixadas pelo assassino são endereçadas a ela.] A narrativa cumpre com seu dever: é um suspense cheio de mistérios e de momentos de tirar o fôlego. Na verdade, o que mais curti no filme foi o protagonismo feminino. Apesar do trauma, Helen é uma mulher forte, corajosa e acima de tudo: muito inteligente. Para ajudá-la, uma policial linha dura chamada M.J (interpretada por Holly Hunter), que enfrenta os criminosos cara-a-cara e que maneja a arma como ninguém.

Sobre a vida, o fim… e o amor

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A cada dia que passa, sinto a vida mais frágil. Antes fosse coisa de filósofo de boteco, mas é real. Tão real, que me assusta ao desespero. Que me provoca calafrios, me faz ficar em silêncio, pensativa. Não é um medo puro e simples da morte, é a percepção de um tempo perdido que não volta mais. A gente fica adulto e se dá conta de que um dia tudo termina, que certos momentos são passageiros e que as pessoas também se vão. Meu tio faleceu e ao receber a notícia daqui, longe da família, levei tanto susto que larguei todo o trabalho que estava fazendo e fui chorar no banheiro. Mas não era um choro qualquer, era um choro de desespero… eu acho. A tristeza que me tomou naquele momento, de total surpresa, foi tão grande que não sei explicar…. uma tristeza por todos eles, porque além de pensar no meu tio, em toda a sua história, também pensava em seus filhos ( meus primos) e na minha tia. E ao mesmo tempo, me colocava no lugar deles. Queria poder abraça-los e transmitir todo o amor que sinto por eles. Eu os amo muito, muito mesmo. Dele, só me restam memórias boas e um respeito enorme, por ter sido um grande pai, um bom esposo. Quando ainda morava em Minas ele sentava na minha cama e sempre falava sobre faculdade, tecnologia, carros. Ele amava tanto os meninos… tanto! Briguei com um amigo naquela semana, que não me via há muito tempo e veio me visitar aqui em casa e reclamou, porque eu estava calada demais. Mas eu não conseguia… não conseguia nem queria falar, foi a primeira vez que perdi um familiar próximo. Eu sabia que um dia aconteceria com a gente, mas não assim, agora, do jeito que foi. E mesmo ele doente, eu achava que iria se recuperar, que iria voltar para casa e receber o cuidado da família. Triste, muito triste (eu só consigo pensar nessa palavra).

Dica de leitura: Dez Mulheres

Capa Dez mulheres.inddHá muito tempo um livro não me emocionava tanto como este. Mesmo com uma montanha de textos para ler para a faculdade e com a correria do dia-a-dia, me dediquei a essa leitura com um prazer indescritível e me sensibilizei tanto, que chorei no ônibus, a caminho do trabalho… “Dez mulheres” conta a história da reunião das pacientes da terapeuta Natasha, mulheres de diferentes classes sociais, idades e vivências. Todas tão humanas e universais, que poderiam existir em qualquer lugar do mundo. Neste caso, o cenário é o Chile, aliás, muitos Chiles… cada um em conformidade com a perspectiva de determinado personagem. O livro aborda tantos temas, que é difícil definir: amor, sexualidade, doenças, relações familiares, maternidade, solidão, dinheiro… Tantas questões não resolvidas, tantos traumas, alegrias e tristezas. Eu realmente me senti participante da história, apaixonada com a narrativa. Depois deste livro, me interessei muito pelo trabalho da autora, Marcela Serrano, a quem desconhecia. Do pouco que li sobre sua biografia, já admiro.Dentre as diversas entrevistas que vi e li dela, destaco uma de suas frases:“Definirse feminista es definirse ser humano”.