Disseminar e Reter: reinterpretando a ação do homem na paisagem

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Caos: uma cidade cinza, repleta de prédios, carros e pessoas em constante movimento. São Paulo: uma megalópole com onze milhões de habitantes, retratada através de um filme (chamado “Disseminar e Reter”) que tem a construção do Minhocão como tema principal. Este é o cenário escolhido por Rosa Barba, artista italiana, que se propõe a analisar a relação do homem com o ambiente em que vive. Sobre o Minhocão, ela afirma: “Fico impressionada que, segundos depois que o trânsito é fechado, as pessoas imediatamente tomam conta do lugar”.

Criado durante a ditadura militar, em 1970, o Minhocão foi alvo de muitas críticas; tanto que ficou conhecido como “cenário da arquitetura cruel”. Sua origem vem da São João (no centro da cidade), considerada a Quinta Avenida paulista. Na década de 30 e 40 o local era um dos redutos boêmios da cidade, com cinemas e lojas requintadas, cercado por bairros escolhidos pelos barões de café como: Santa Cecília e Higienópolis. A cena veio a ruir com a construção do Minhocão, que provocou uma drástica desvalorização imobiliária e aumentou a degradação do local.

No filme, a autora cria a junção de imagens com um texto escrito por Cildo Meireles (artista plástico), cuja narrativa aborda a cultura de oposição à grande mídia e analisa a importância do papel do espectador perante a arte. Em entrevista ao jornal “The Guardian”, Barba conta que escolheu Meireles por reconhecer nele a força da voz que vem da rua e por se impressionar com sua proposta: analisar a realidade, fugindo das metáforas.

Enquanto o vídeo mostra imagens da cidade de São Paulo, fotos antigas, documentos e pessoas caminhando no Minhocão, escutamos a voz de Meireles, que fala sobre comunicação. Ele defende a criação de uma nova linguagem de expressão que vai contra a ideia do culto do objeto, um projeto cultural de cunho social que possa encarar o espectador não como consumidor (que é uma pequena fatia do público com poder aquisitivo) mas como participante. A ideia é criar um circuito, pensar em mecanismos de circulações que buscam a troca de informações e que tenha uma essência oposta à da grande mídia (como a TV e o Rádio). O projeto enfrentaria uma elite, que possui sofisticação tecnológica, alta soma de dinheiro e poder.

O Minhocão pode ser encarado como um dos sintomas da pós-modernidade: é um dos efeitos da industrialização da cidade e traz consigo uma proposta progressista, é um símbolo da transição e ruptura do velho para o novo. Em “Reflexões sobre Pós-Modernidade”, Renato Ortiz ajuda-nos a entender melhor essa questão ao relacionar os dois temas: arquitetura e pós-modernidade.

De acordo com o autor, a Pós-Modernidade é um rearranjo dos processos sociais e societários, é o momento em que a relação entre o homem e o mundo e do homem consigo mesmo estão em processo de mutação. A arte e a arquitetura refletem este processo e merecem atenção porque a cidade faz parte da memória coletiva, é a história sendo percebida na materialização dos monumentos, ruas e edifícios que pertencem à uma comunidade.

Ortiz explica que no Modernismo existiu um esforço para impor uma única verdade, a ideia de progresso e desenvolvimento passou a ser ligada à de felicidade humana. O Pós-Moderno,em contrapartida, reflete a ideia de uma imaginação democrática, a estética atende a emergência de um novo contexto social onde há uma descentralização da produção de consumo, do poder e das relações sociais.

 Na arquitetura, isso não é diferente. A arquitetura moderna é univalente, utiliza poucos recursos materiais e abusa da geometria do ângulo reto: estilos racionais e universais, adequação de formas arquitetônicas ao industrialismo das sociedades de massa. Já o Pós-Modernismo rejeita o compromisso dos modernistas com o desenvolvimento social, recusa a universalização das formas. A casa não é uma máquina de morar,o homem passa a ser integrado nesta ideia.

 * Disseminar e Reter  é uma das obras expostas na 32ª Bienal de Arte de São Paulo.

Noite final menos cinco minutos

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Encontrei este curta-metragem no YouTube, depois de uma longa procura pelos trabalhos realizados pela atriz Magali Biff. Desde que a vi no teatro, fiquei apaixonada. Assisti o filme umas três vezes, sempre sob o efeito das cenas impactantes. A narrativa (super experimental) me remete às notícias sobre bullying que a gente vê todos os dias nos jornais.  “Noite final menos cinco minutos” foi lançado em 1993 e dirigido por Débora Waldman; é sem dúvidas, um curta que incita à reflexão.

Em cena, Magali aparece dirigindo um Marverick preto, visivelmente desconexa do ambiente. Numa sequência com poucos diálogos, percebemos o incômodo e a solidão do personagem, que de repente se depara com um rato e parece sentir carinho por ele. Fico me perguntando, seria compaixão ou… identificação¿ No âmbito do grotesco, ainda vemos a personagem tentar um contato social com outras pessoas, quando acaba vomitando. O mais interessante é a indiferença das pessoas que a cercam. Ela está numa espécie de festa, mas ninguém repara nela e isso aumenta o clima de estranhamento. Me incomodou perceber a invisibilidade do personagem, que não se enquadra naquele mundo e ao mesmo tempo, entender o motivo do seu desespero…

Reggie Love: um dos personagens que me inspiram!

Eu sou aquela pessoa que tem uma lista com um milhão de filmes novos para assistir e na hora “H”, escolhe um filme que já viu um milhão de vezes. Neste fim de semana revi “O Cliente” pelo Netflix e me surpreendi ao lembrar dos mínimos detalhes, das falas e de algumas cenas… ta aí um dos filmes que assistia constantemente quando era pequena, porque amava a Susan Sarandon. Mas eu juro, que não é só por causa dela que esse filme me encanta tanto.[E sim, já escrevi sobre ele por aqui, né?]

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Em suma, só não me lembrava da coragem da personagem, Reggie Love, ao enfrentar um mundo dominado por homens para defender uma criança extremamente assustada e confusa (no caso, o cliente que dá título ao filme).  Essas histórias me inspiram muito, é sempre bom ver o retrato de protagonistas fortes e inteligentes, sabe? Ao mesmo tempo, é incômodo pensar que mulheres continuam sendo subjugadas no mercado de trabalho e menos remuneradas. No inicinho do filme, quando Mark procura por uma ajuda, ele entra na sala da advogada procurando pelo “Senhor Love” e se assusta ao se dar conta de que o Senhor Love, é uma mulher. [Spoiler?] E quando ela entra numa sala, cheia de homens famintos para conseguir uma informação do garoto (que presenciou um assassinato), e surpreende todos com sua esperteza.

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Fiz uma pesquisa rápida sobre o assunto e me deparei com uma matéria do jornal O Globo (publicada em maio, deste ano) sobre uma campanha da OAB contra o machismo entre os advogados. Olha só que interesse o apontamento levantado:  Presidente da OAB/Mulher, Daniela Gusmão diz que há um estigma de que advogadas precisam ser masculinas para serem respeitadas. “A mulher pode ser formal e feminina ao mesmo tempo”, afirma ela, que organiza o evento. Sugiro que leiam a entrevista toda, se for possível. É pequena, mas muito interessante. Quando leio a matéria, imagino a situação se repetindo em outros contextos ou setores, tipo… na engenharia.

O filme propõe muitas pautas, mas a questão profissional é a que mais agrada. Gosto da narrativa, que tem um suspense gostoso de assistir… bem ao estilo anos 90. A riqueza da construção do personagem não terminar por aí, há uma quebra de estereótipos quando descobrimos, ao longo da narrativa, que Reggie perdeu a guarda dos filhos por causa do alcoolismo. Entendo que sua doação para salvar a vida do garoto e da família como uma  redenção.

Isabelle Huppert: Une vie pour jouer

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Certas coisas não mudam por aqui, é impressionante que mesmo depois de quatro anos com o blog no ar, eu ainda escreva sobre os mesmos temas. Ontem tive a felicidade de assistir o documentário Une vie pour jouer, sobre a carreira de Isabelle Huppert. Eu morria de vontade de assistí-lo e passei longos anos procurando por ele. O filme mostra os bastidores da vida da atriz, sua agenda corrida, sua preparação para entrar no palco, conta com alguns depoimentos e vídeos caseiros. Serge Toubiana, o diretor, acompanhou os passos de Isabelle durante um ano (época em que ela gravava A teia de chocolate de Claude Chabrol, A Professora de Piano de Michael Haneke e encenava a peça Medea Miracle). Confesso que esperava um pouco mais desse documentário, mas gostei muito das entrevistas em que ela fala sobre sua juventude e experiências. Ainda que conhecida como uma atriz “fria”, Isabelle me surpreende por sua intensidade e autoridade ao atuar.Para quem também gosta do trabalho dela, este post fica como sugestão… o documentário possui momentos bem interessantes sobre os bastidores dos filmes que ela fazia na época e umas lindas imagens da infância da atriz.

Krisha: uma tragédia familiar

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Há muito tempo um filme não me surpreendia tão positivamente como esse. Comecei a assistí-lo sem pretensão e caí de joelhos logo na primeira cena. A narrativa se baseia na história de Krisha, uma mulher que visita a família no Dia de Ação de Graças após um longo período de afastamento (provocado pelo alcoolismo). No primeiro momento, a câmera acompanha todo o seu trajeto até a casa da irmã e enquanto ela caminha, é como se estivéssemos caminhando atrás.  A proposta do filme é muito simples, mas carrega uma dramaticidade tão grande que é difícil ficar indiferente.

Krisha, com seus esvoaçantes cabelos brancos, olhos muito azuis e pele envelhecida, é um personagem tão complexo e forte, que provoca comoção. Aliás, mais do que isso: É também primordial o ambiente em que a história se passa (com um tom bem realista, com construções dos símbolos, com junções de improviso e personagens secundários marcantes). Mesmo quem nunca teve um familiar alcoólatra consegue compreender o desespero do personagem e dos que estão próximos dela, diante da situação.

Me emocionei muito com o reencontro de Krisha com a mãe, já bem debilitada pela velhice e pelo alzheimer. É impressionante o fato de que todas as cenas tenham sido improvisadas e que a velha senhora (que na vida real, é mãe da atriz e avó do diretor Trey Edward Shults) tenha participado de algumas cenas sem saber que se tratava de um filme.  No ápice do trama, no momento de desentendimento entre os familiares, a avó percebe que há algo de errado acontecendo e se manifesta. De acordo com a entrevista que vi do diretor, a manifestação da avó naquele momento foi completamente espontânea e foi filmada por sorte, pois onde ela estava (que era na sala de jantar), não havia espaço para colocar as câmeras no posicionamento ideal. Então, apenas uma câmera foi deixada lá só para fazer imagens de cortes.

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Sinceramente, é um dos melhores filmes que assisti este ano. A história de Krisha poderia se passar em qualquer lugar do mundo, é um tragédia familiar universal,  retratada com uma sensibilidade incrível. As recordações da família, a intimidade entre eles, as dores, as alegrias e os rancores, um filme marcante.

O Corpo

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Assisti “O Corpo” há muitos anos atrás, numa noite qualquer pelo Canal Brasil. De alguma forma aquele filme não saiu da minha cabeça, porque o retrato das duas protagonistas Carmen e Beatriz (interpretadas por Marieta Severo e Claudia Jimenez) continua ressoando na minha memória. O filme tem uma forte pegada sensual e muitos momentos de humor negro, mas por trás da trama principal, há também alguns questionamentos sociais interessantes.

A narrativa se baseia em um conto de Clarice Lispector chamado “A via crucis do corpo”, o livro possui treze pequenas histórias que analisam a condição feminina. Li algumas críticas em relação ao filme e nenhuma delas foi muito boa (digo, positivas em relação ao filme)… ainda que eu não entenda muito de cinema, o meu olhar foi mesmo sobre as personagens, que muito oferecem. É evidente que existe uma relação homossexual entre as duas, ainda que não se fale “tão” explicitamente sobre isso. No filme, as duas também se relacionam com um homem, interpretado por Antônio Fagundes. Em princípio, elas vivem em função das vontades do cara que tem um comportamento meio machista e ao longo da trama vão se rebelando contra ele. Mas a questão não é essa de “homem contra mulher”, mas especialmente da mulher exercendo sua sexualidade e seus desejos, sem medo. Enquanto para o homem, a situação de bigamia é extremamente confortável, para as mulheres cai o julgamento que as coloca como pervertidas. Enfim… é um filme bem gostosinho de ver e conquista pela atuação da Cláudia e da Marieta.

Amor a toda prova

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Kathy Bates é uma das atrizes americanas que mais me inspira, eu sempre fico me perguntando sobre como ela conseguiu se sobressair num ambiente que valoriza tanto a magreza. Acho que não só o conseguiu por seu talento, identifico uma coragem e uma autenticidade na personalidade dela. Então eu sempre assisto seus filmes cheia de admiração e respeito e de certa forma, me emociono com os trabalhos mais singelos.  Amo mais ainda quando ela interpreta papéis de mulheres comuns, donas de casas desiludidas que sofrem uma reviravolta na vida, como nesse filme,  uma delícia de comédia! Acho que quando esses personagens são interpretados por um atriz como Bates, que foge dos esteriótipos, eles se tornam mais verossímeis.

Amor a toda prova é um filme descompromissado, engraçadinho e açucarado. Uma ótima opção quando não se tem nada para fazer ou quando se quer melhorar o astral. O filme conta a história de Grace, a fã número um do cantor Victor Fox. Ela vê seu mundo desmoronar quando ele é assassinado misteriosamente.  Grace não tem um casamento feliz e convive com sua nora, uma mulher extremamente inteligente e independente  que sofre inúmeros preconceitos pofilmes_9186_Amor a Toda Prova04r ser anã. As aventuras dessa mulher se iniciam quando ela resolve prestar suas condolências à família de Victor e sem querer descobre que o cantor assassinado era gay e que se esposo (mal humorado e depressivo) vive em sua casa.

Os dois se estranham de início, mas se comprometem a encontrar o responsável pelo assassinato de Victor. Daí começa uma jornada cheia de momentos engraçados e emocionantes, principalmente porque Grace tinha a imagem do artista, enquanto Dirk (o esposo de Victor) o conheceu como ser humano normal, cheio de defeitos como qualquer outra pessoa.  O jeitão do Victor Fox, interpretado por Jonathan Pryce me lembrou muito o Liberace, sabe? Eu achei sensacional.

Mamãezinha, querida?

Sempre que assisto aos filmes estrelados por Joan Crawford me pergunto se ela fez aquelas coisas terríveis com a filha. Pouco depois da morte da atriz, Christina lançou um livro que narrava o terror que passou (durante anos) ao lado da mãe, a quem descrevia como uma pessoa obsessiva e violenta. Li o livro por duas vezes e aquelas palavras me pareciam muito verdadeiras, até que recentemente vi uma entrevista da Christina, já na casa dos sessenta anos, debochando (e muito) da Joan. Achei a atitude horrível! Fui pesquisar pelos outros filhos da Joan e encontrei diversos vídeos onde eles contradiziam tudo o que a Christina falava.
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A verdade é que nunca vamos ter certeza do que aconteceu e que é difícil não ficar curioso sobre as histórias contadas. Mamãezinha Querida é um livro autobiográfico lançado por Christina Crawford em 78, onde ela conta como sua mãe, uma das maiores atrizes Hollywoodianas, infernizou a sua vida. Desde espancamentos com cabides de ferro à ataques de fúria no jardim. Joan Crawford foi retratada como uma mulher histérica e com sérias variações de humor.  

Na entrevista que vi, Christina dizia ter odiado o filme e que não concordava com os exageros retratados na história. Dizia que como já tinha vendido os direitos sobre a obra, não tinha como intervir na montagem dos personagens. Mas falava como alguém em posição de conforto, que ganhou uma grana com todo aquele show de horrores e que ainda, conseguiu a fama (que sempre desejou). Só para constar, Chistina dedicou-se a vida de atriz , mas teve que se contentar com papéis medíocres.

É muito louco pensar que a Joan Crawford, antes de morrer, chegou a dizer que Faye Dunaway era a única atriz que poderia interpretá-la com maestria. E mais estranho ainda é pensar que Dunaway aceitou o papel que colocaria em xeque a imagem de Joan e que este trabalho tenha lhe rendido amargos resultados (os críticos caíram matando e ela chegou a ganhar o Framboesa de Ouro).

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O filme ficou conhecido por seus exageros e pela interpretação caricata que da Faye. Pior ainda foi a caracterização, uma maquiagem calcada nas duas grandes marcas da atriz: a boca (que era aumentada pelo batom) e as grossas sobrancelhas. Mesmo com as inúmeras referências, como as ombreiras que Joan tanto amava, a personagem de Faye não conseguiu transmitir glamour, mas uma imagem patética que beirava ao ridículo. Independente de ser ou não retratada como maquiavélica, Joan merecia mais.

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Li o livro quando tinha quinze anos, lembro que ficava andando com ele pela escola e lendo durante o recreio. A narrativa é toda em primeira pessoa e retrata desde a infância de Christina até a sua juventude. E é muito interessante o fato de ela sempre evidenciar que mesmo com todas aquelas patifarias que sofria, amava a mãe e a perdoava por seus atos de covardia. Christina critica muito a hipocrisia da mãe, que fazia tudo em função do marketing pessoal. Seus aniversários eram luxuosos e contava sempre com a presença de famosos. No fim da festa, Christina era obrigada a doar todos os seus presentes para as crianças carentes e só podia escolher um. Sua revolta era ter de se mostrar feliz diante das câmeras, mesmo destroçada de raiva.  (Prometo reler e escrever um post só sobre o livro!)

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Da Joan, nunca saberemos a versão. Mas existem algumas coisas interessantes sobre sua história que nos ajudam a entender um pouco de sua personalidade. Joan foi filha de mãe solteira e teve uma infância pobre (muito, muito pobre), sua mãe era viciada por limpeza e a ensinou sem “muito carinho” a melhor maneira para se arrumar a casa. Em uma entrevista que li dela, bem antiga, a atriz dizia que gostava de limpar a própria casa e o fazia como a mãe tinha ensinado: começando sempre pela cozinha.

Como mulher solteira, a atriz enfrentou sérios problemas para adotar os filhos na Califórnia. Precisou passar por vários processos e comprovar que era capacitada para ser mãe, até que resolveu viajar para outros lugares (Nevada e NY), com leis menos rígidas com o intuito de “agilizar as coisas”. Christina foi adotava em 1940, Christopher em 1942 e Catherine e Cynthia em 1947.

Joan morreu de câncer em maio de 1977, em seu apartamento em Manhattan. Sabia que Christina estava escrevendo sobre ela e tinha o pressentimento de que não eram boas palavras. Em conversa com seu amigo publicitário, John Springer, chegou a dizer: “Acho que Christina está usando o meu nome para ganhar dinheiro, será que ela acha que vou deixá-la financeiramente desamparada ou que vou desaparecer logo?”  No fim das contas, pouco antes de morrer, Joan Crawford mudou todo o seu testamento, deixando o resto de seu dinheiro para Catherine e Cynthia, para sua secretária Betty Baker e para associações de caridade que mais gostava.

Oura ironia é a de que Bette Davis, grande inimiga de Joan, ficou do seu lado quando o livro foi publicado. Bette dizia não acreditar em nenhuma daquelas palavras, que Joan não teria feito nada disso e que o livro deveria ser jogado no lixo. Mais irônico ainda é que a própria Bette Davis passou por essa situação, quando sua filha Bárbara escreveu horrores sobre ela no livro “My Mother’s Kepper”.

Amigos pessoais da Joan diziam que foi bom este livro ter sido publicado depois de sua morte, pois se ela estivesse viva isso teria despedaçado seu coração.

Lótus

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Eu esperei muitíssimo para ver Lótus (de Cristiano Trein), um curta metragem brasileiro, produzido em 2006. O lance é que o Porta Curtas é um site com um acervo sensacional, mas que nem sempre funciona (o que é muito irritante!). Foram anos procurando pelo vídeo até que, depois de uma longa pesquisa, o encontrei no Vimeo.

O filme é protagonizado por Bete Coelho (que por sinal, ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Gramado) e Marcello Antony, os dois dão vida à Letícia e Fábio… um casal em crise. Fábio morre de ciúmes de Letícia e possui devaneios com a possibilidade de ser traído. Letícia, por outra lado, possui uma frieza em relação ao marido e tenta, de todas as formas, alimentar seu desejo sadomasoquista. Acredito que daí venha o nome do curta, todo mundo sabe que a flor de Lótus é considerada sagrada em algumas culturas, que significa pureza. O que nem todo mundo sabe é que a água que acolhe a planta normalmente é associada ao apego e aos desejos carnais.

Li muitas resenhas relacionando o filme a uma história picante e sexy. Não sei se é viagem, mas consegui perceber um tom romântico, meio de amor não correspondido. Claro, há uma sensualidade evidente, mas há uma trama muito mais cruel e profunda por trás disso tudo.  – Antes de qualquer coisa, eu achei que a Bete ficou perfeita para o papel, e é por causa dela que queria tanto assistir o filme. Ela me parece ser consciente de sua imagem e segura do que quer, tranquila para conversar sobre sexualidade sem julgamentos, sem tabus. Vejo uma força nela, algo que não me soa forçado…um pouco parecido com o que a Marisa Paredes tem.

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Em Lótus, Fábio persegue Letícia quando ela sai do trabalho e a encontra transando com outro homem. Antes disso, no dia anterior, sonhara que a matava no estacionamento do prédio. A perseguição vai ficando mais densa quando ele descobre que ela frequenta uma casa de sadomasoquismo, daí decide transar com outra mulher (talvez por vingança, por vontade ou para provocar ciúmes na esposa). Todo o filme e o jogo de gato e rato entre os dois me pareceu muito cruel, deve ser um inferno viver um relacionamento em que não se tem confiança no outro e que ainda, se disputa algo que não deve ser disputado. Há solidão demais entre os dois, um distanciamento absurdo. O masoquismo está ali, em um fazendo o outro sofrer emocionalmente.

Uma das minhas maiores referências cinematográficas sobre sadomasoquismo é A professora de piano, com a Huppert. Acredito que, mesmo não sendo tão profundamente abordado, Lótus se assemelha com o filme quando quebra alguns estereótipos por apresentar uma mulher comum, sadomasoquista. Nenhuma das duas personagens faz o tipo daquelas gostosonas, peitudas e com saltos altíssimos que ficou tão colado a nosso imaginário através da Bettie Page…

Uma relação delicada

Assisti mais um filme da Isabelle Huppert e fiquei, mais uma vez, encantada com a competência dessa atriz. Digo competência porque ela me parece muito segura e entendida do que quer fazer e do que é preciso ser feito. Admiro muito o artista que abre mão da beleza e do glamour para representar um personagem. Como a Bette Davis, por exemplo, que quando jovem e no auge da carreira, raspou os cabelos para interpretar a Rainha Elizabeth I. Huppert faz isso neste filme, lança-se corajosamente a interpretar uma cineasta que sofreu um AVC e ficou com sequelas na fala, no caminhar…

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Numa mistura de autobiografia e metalinguagem, o filme conta a história de Maude, uma cineasta que sofre uma hemorragia cerebral e fica com severas limitações físicas. Em busca de restabelecer a carreira e a vida pessoal, Maude mergulha em um projeto televisivo e acaba se relacionando com um dos atores, mas sofre pelo relacionamento extremamente abusivo, que a deixa em situação de ruína financeira.

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Li inúmeras críticas do filme e concordo com as que dizem que apesar da presença da Huppert e de sua interpretação intensa, o filme passa despercebido por apresentar personagens antagonistas pouco desenvolvidos e por ter uma abordagem superficial de certos acontecimentos. Como um pequeno quebra-cabeça, Catherine Breillat (a diretora) vai nos indicando certos fatos, sem trabalhá-los muito, apenas com poucas pinceladas. E logo, estamos em outra cena, em uma situação bem diferente.[É isso…talvez esse espaçamento seja um problema. Eu não sei, conheço muito pouco do trabalho da Breillat, mas acredito que esse tipo de narrativa possa ser uma de suas marcas.]

No filme, Viko, o personagem com que Maude se relaciona é odioso do começo ao fim e é realmente difícil e incômoda a maneira com que ela vai liberando seu dinheiro, ainda que ele a trate super mal. Há uma dor no personagem que não é dita explicitamente, só se percebe nos pequenos detalhes, na baixa auto-estima, no medo de não conseguir voltar a ser quem era.  Ao mesmo tempo, é uma mulher que busca forças para continuar vivendo, sobrevivendo e existindo.

Bom… eu gostei do filme, mas esperava mais. Você já assistiu? Me conta aí o que achou!