Muito mais que um crime

Imagine ter um pai amoroso, do qual você se orgulha mais do que tudo. Imagina que você tem um filho e que ele admira seu pai com a mesma intensidade. Seu pai ensina as tradições da família, preocupa-se com sua saúde e alimentação. Ele trabalhou duro em uma fábrica na América, para suster sozinho você e seu irmão, já que sua mãe falecera. Que vocês são muito unidos e que ele vive dizendo para os vizinhos e colegas que morre de orgulho de ter uma filha como você.

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Music BoxAgora imagine que de repente, seu pai recebe uma carta acusando-o de ser um criminoso nazista, que matou e torturou centenas de pessoas inocentes. Que de maneira cruel, estuprou mulheres, assassinou crianças e matou famílias sem piedade. Pois essa é a linha temática que guia o filme “Music Box” de 1989, com Jéssica Lange. O título em português é um pouco mais sugestivo, aqui no Brasil foi traduzido como “ Muito mais que um crime”.

Lange interpreta Ann Talbot, uma advoga criminalista que se vê em uma sinuca de bico.  Durante toda a sua vida, nada a fez duvidar do caráter do pai: um velho húngaro que se refugiou nos Estados Unidos após a queda da URSS. Sua dificuldade inicial é decidir se vai ou não assumir o caso, já que seu envolvimento emocional com o pai poderia prejudicá-la durante a investigação do processo. Após tomar a decisão, começa a se informar sobre todos os detalhes que de alguma forma poderiam incriminá-lo. Passa dias lendo os processos, buscando nos livros e nas testemunhas os argumentos mais plausíveis que comprovem a inocência do pai.musicbox

Logo de cara, é fácil dizer uma coisa: Jessica Lange está maravilhosa. Parece que depois de anos, ela aprendeu que voz delicada e olhos tímidos não combinam com certos personagens.  Vou um pouco mais longe: é bem provável que os trabalhos que realizou no teatro tenha ensinado a impor a voz nos momentos certos. Acontece que o filme é lindo, é emocionante, e rapidamente, ela nos convence que Annie é uma mulher forte e destemida.

São duas horas de filme, que te questionam a todo o momento: “o que você faria se estivesse no lugar dela?”. Provavelmente a mesma coisa. Ela defende a inocência do pai com unhas e dentes, chega inclusive a jogar sujo para consegui-lo. Mostra que aprendeu muito bem a atuar e se defender durante a troca cansativa de diálogos cínicos dos promotores. Não tem medo de ser mulher em meio a tantos homens e sustenta as conversas com o mesmo nível. Mas seus olhos não mentem. Cada testemunha de acusação que aparece e que conta histórias horrendas a fazem tremer, só de imaginar a possibilidade do pai ter realmente os cometido.

O julgamento é movimentado. A imprensa cumpre seu papel. Manifestantes rondam a casa da advogada, jogam pedras e cobram que Mike Laszlo(pai de Annie) seja considerado culpado. Há uma  testemunho emocionante de um homem que conta que não poderia esquecer do dia em que Mike entrou em sua casa, prendeu toda a sua família, assassinou a mãe, o pai e o filho. Mike os prendeu, e os jogou no rio. Por sorte, o homem sobreviveu e, ainda que velho e cansado, pode testemunhar contra aquele que acredita ser um criminoso. E a advogada segura o choro (essa cena é linda).

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“Music Box” é um filme emocionante, aliás, é bacana ver todos os contrapontos de uma pessoa que se vê no fim da linha (e tem Lange falando húngaro fluentemente). Quando suas afetividades são questionadas, o sangue as vezes fala mais alto. É o que acontece com Annie, que no desenrolar do caso vai confrontando a credibilidade do homem que durante toda a vida chamou de pai. Ainda que bem menos surpreendente do que eu pensei que seria, o filme conseguiu prender a minha atenção do começo ao fim (especialmente no fim), que é uma honrosa menção ao que há de melhor dentro da gente: os nossos valores.

Music Box

Pálpebras de Neblina

(Caio Fernando Abreu)

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cânticos: “Não digas ‘Eu sofro’. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/ que era sofrer ?” Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia – coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker. Disfarçado, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban – filme. Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de tarde do dia Tão idiota que parecia não acabar nunca. Ah! como eu precisava tanto de alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi. Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega – aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo malpintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja.

Caio F
E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar – exposta, imoral, escandalosa – sem se importar que a vissem sofrendo. Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia – uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos. Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha, dor de brasileiro-médio-privilegiado. Fui caminhando mais leve. Mas só quando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais. Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: carnaval, futebol. E lágrimas. Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu “dói tanto”, contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou “porquê?”, compreendi ainda mais. Falei: “Porque é daí que nascem as canções”. E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

A comunidade

Hoje de manhã, quando voltava de um exame encontrei uma senhora no ônibus que me pegou de papo. Larissa me disse que é de Madri, mas que está passando uns dias em Belo Horizonte ao lado das duas filhas que se mudaram pra cá há dois anos. Estava encantada com o “bus” daqui, “que tem um lugar reservado para viejitos”.

– “Mi marido se fué”, ela disse.

E eu, perguntei na cara dura: se foi pra onde?

-“Se murió” (ele morreu, explicou).

Uma pena ter descido correndo, não deu tempo de passar meu email e telefone. Disse que estudava jornalismo, que gostava de cinema, que morava em Nova Lima e que todos os dias tinha que pegar o ‘bus’. Larissa me indicou um nutricionista, um dermatologista e um dentista em BH, parece que conhece a cidade muito mais do que eu. Me perguntou se eu conhecia Carmen Maura, Almodóvar e Marisa Paredes. Achei um máximo! Eu sou apaixonada pelos três, justamente pelos três.

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Quando ia descendo, Larissa me desejou “¡Feliz Navidad!” (adoro o jeito que eles escrevem a exclamação de cabeça para baixo) e me indicou um filme: “La Comunidad”, com a Carmen Maura.  Conscidência ou não, é um dos meus preferidos com a atriz. Assisti há algum tempo atrás pelo Youtube, e indico para qualquer um que queira conhecer um pouco do cinema espanhol.

O filme é de 2000, dirigido pelo brilhante Alex de La Iglesia e conta com o melhor do humor negro.  Não há nada de convencional na trama, nem mesmo os moradores do pequeno condomínio: que aos poucos, vão revelando atitudes assombrosas. As referências do diretor são clássicas, entre elas: Alfred Hitchcock e Roman Polanski.

Carmen MauraNa resenha de Mariane Morisawa publicada na Istoé, há uma reflexão impecável: “Alex de la Iglesia imprime um tom surreal e divertido ao filme desde os créditos, que lembram as aberturas dos trabalhos de Alfred Hitchcock e Roger Corman. A comunidade do título, na verdade a reunião dos condôminos do tal prédio, é uma mistura de gente que parece de outro mundo, mas que infelizmente está aqui mesmo”

O que move a ação dos personagens é avareza extrema (e engraçada), que faz com que percam a noção do exagero de suas atitudes.  Júlia (personagem de Maura) é uma corretora de imóveis infeliz, casada com  um homem desempregado e sem chances de sair daquela vida.  Um dia visita um apartamento (que deveria vender) e resolve passar uma noite nele.  Curiosa, entra na casa do vizinho de cima.

Ela então descobre que ele está morto (e provavelmente há muito tempo, já que seu corpo continua naquele lugar, apodrecendo). Depois que chama a polícia, para recolher o corpo, volta ao local e descobre uma quantia absurda de dinheiro, escondida embaixo do piso.  O que era um sonho se torna um pesadelo.  Aquela quantia não era segredo para os outros vizinhos, que passam a tentar impedi-la de sair do local.

As gravações ocorrem de verdade em um edifício abandonado, no centro de Madri. A lacomunidadidéia era gravar apenas em um dos apartamentos, mas os diretores viram que precisariam filmar em todo o prédio.  O mais interessante é que o diretor consegue unir no mesmo filme, referências Pop’s e surrealistas. E por isso, prende do início ao fim, quem gosta dessa temática. Quanto a Maura, a atuação é tão boa, que a atriz venceu (merecidamente, é claro) o prêmio Goya do ano.

Então, fica a dica: minha e da Larissa: “ A comunidade” que também  traz  Sancho Gracia, Teréle Pávez, Kity Manver, Paca Gabaldón, Manuel Tejada, Enrique Villen, María Asquerino e Marta Fernández Muro no elenco.

Curiosidades:

-Filmado totalmente em um cenário interno, com exceção das cenas de rua e do terraço.

-Na cena da banheira é usado um colchonete para amortecer a queda

-Carmen Maura teve realmente participação nas brigas e cenas com ratos e baratas

-Alex de Iglesias comentou que descobriu que neste filme a atriz mais talentosa que já trabalhou: Carmem Maura

– A maioria dos atores faziam trabalhos no teatro, o que auxiliou na rostidade construida por cada personagem

Olhos de Azeviche

(Elisa Lucinda)

Olhe aqui, olhos de azeviche
Vamos acertar as contas
porque é no dia de hoje
que cê vai embora daqui…
Mas antes, por obséquio:
Quer me devolver o equilíbrio?
Quer me dizer por que cê sumiu?
Quer me devolver o sono meu doril?
Quer se tocar e botar meu marcapasso pra consertar?
Quer me deixar na minha?
Quer tirar a mão de dentro da minha calcinha?
Olhe aqui, olhos de azeviche:
Quer parar de torcer pro meu fim
dentro do meu próprio estádio?
Quer parar de saxdoer no meu próprio rádio?
Vem cá, não vai sair assim…
Antes, quer ter a delicadeza de colar meu espelho?
Assim: agora fica de joelhos
e comece a cuspir todos os meus beijos.
Isso. Agora recolhe!
Engole a farta coreografia destas línguas
Varre com a língua esses anseios
Não haverá mais filho
pulsações e instintos animais.
Hoje eu me suicido ingerindo
sete caixas de anticoncepcionais.
Trata-se de um despejo
Dedetize essa chateação que a gente chamou de desejo.
Pronto: última revista
Leve também essa bobagem
que você chamou
de amor à primeira vista.
Olhos de azeviche, vem cá:
Apague esse gosto de pescoço da minha boca!
E leve esses presentes que você me deu:
essa cara de pau, essa textura de verniz.
Tire também esse sentimento de penetração
esse modo com que você me quis
esses ensaios de idas e voltas
essa esfregação
esse bob wilson erotizado
que a gente chamou de tesão.
Pronto. Olhos de azeviche, pode partir!
Estou calma. Quero ficar sozinha
eu co’a minha alma. Agora pode ir.
Gente! Cadê minha alma que estava aqui?

Segredo de Sangue

Segredo de Sangue - CAPA

Estou tentando cumprir a desafio de escrever sobre os filmes de Jessica Lange. Na madrugada de ontem, vi no Investigation Discovery: “Segredo de Sangue” (filme de 1998, dirigido por Mark Tonderai, com Gwyneth Paltrow e Johnathon Schaech).  Quando acabou, às 3 horas da manhã, fiquei me perguntando se ficava alegre por ter conseguido vê-lo (já que é difícil de encontrar), ou com raiva: porque ele marthaé decepcionante. E pior: decepcionante ao pé da letra: inclusive nos quesitos de fotografia.

Na verdade o filme não é um total desperdício. É gostoso ver Jessica Lange e Paltrow dividindo a tela (independente desse tortuoso roteiro). A história é muito simples, típica dos filmes de suspense americano dos anos 90: “Helen descobre que está grávida do namorado Jackson, os dois que vivem em Nova York decidem se casar e mudar para Kilroran (uma grandiosa propriedade rural que precisa de algumas reformas). O local sempre esteve aos cuidados de Martha Baring, mãe de Jackson. A mulher, no entanto, é neurótica, ambiciosa e ciumenta. E começa a fazer de tudo para afastar Helen do seu filho.”

Apesar de ter um personagem de destaque, Lange apresenta uma atuação contida e pouco convidativa. Aliás, ela recebeu uma indicação ao Framboesa de Ouro (o famoso Razzie Awards) pelo prêmio de pior atriz do ano. Um dos problemas do filme é que ação demora muito para começar. Parece até que precisaram correr com o final, que já não dava mais tempo. [SPOILER] Imagine que a única vingança da mocinha foi um tapa na cara  da vilã e um sorriso irônico no  final. Helen revelou o segredo de Martha e conseguiu afastar o filho dela. Acontece que tudo isso estava muito claro: não havia mistério, era evidente que Jackson não tinha matado o pai.

Pra explicar melhor: Jackson se recordava que quando tinha uns sete anos, presenciou uma discussão entre o pai e a mãe. Ela queria se separar, porque ele estava a traindo. Martha então sai de cena. Com raiva, Jackson agarra as pernas do pai e ele acidentalmente cai e morre. Mas a versão verdadeira é um pouco diferente: Martha é quem tinha um amante e por isso, o pai de Jackson resolvera abandoná-la. Em sua fúria, matou o marido e deixou que o filho se culpasse. Todo esse fraco mistério faz com que a figura de Jackson fique ainda mais pedante. Não há sequer um momento em que ele se mostre interessante, ou de personalidade forte. A mãe diz uma coisa: ele faz. A mulher diz outra: ele faz.

Logo (e também por causa disso: da fraqueza na construção dos personagens), que o final se torna totalmente angustiante de ruim: nos últimos segundos, Helen conta o “grande” segredo de Martha para Jacmartha 2kson, ele se levanta e diz: “Você não é minha mãe, vou vender tudo isso e você não vai ficar com nada”… Helen dá um tapa na cara de Martha (pelo menos isso), e sai. THE END.

Acho que fui com sede ao pote. No mais, quem se sobressaiu aí foi a Gwyneth Paltrow que se saiu bem no papel de mocinha – Sem dúvidas, a cena mais interessante é a do parto, quando Martha induz o nascimento do bebê com remédios para cavalo. A desprotegida Helen, que estava distante do namorado, fica a mercê das maldades da sogra que parece não se importar em vê-la sofrendo.

Resta comentar sobre a avó de Jackson, mãe do marido de Martha:  um personagem crucial, que abriu os olhos da Helen e lhe contou sobre o passado obscuro de Martha (“ que limpava bosta de cavalos e queria um sobrenome importante”).

HushHushHUSH

Bon appetit

POST EM CONSTRUÇÃO

A vontade de falar sobre a temática desses filmes não é nova. Desde o início do Blog fiquei me perguntando como abordar um assunto tão complexo e ao mesmo tempo, tão curioso. Quem me conhece sabe da paixão que tenho pelo filme dirigido em 1989 por Peter Greenaway: O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante.  Com o tempo conheci outros filmes que abordam (também de forma surpreendente) uma função natural e cotidiana do ser humano: COMER.

Como este texto é apenas uma singela análise (mas contém imagens, vídeos e spoilers), recomendo que não leia se tiver curiosidade de assisti-los. Nesta publicação vamos falar de: Titus, Estômago e O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante. Não se engane com os títulos, a história de cada um deles é muito interessante e todos os três valem a pena serem vistos (e revistos).

O que esses filmes tem em comum?  Pois eu respondo agora: Canibalismo. Não há nada de novo quando se trata do ato “comer”, muito menos de “comer gente”.  Os astecas sacrificavam e comiam os guerreiros prisioneiros de guerra de outras tribos. No Brasil, índios Pacura da Amazônia engordavam seus companheiros para depois comê-los. Casos como o Armin Meiwes ou Fritz Haarmann chocaram o mundo e estamparam os jornais. No cinema, não foi diferente.

Quando fui assistir O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante pensei que a minha melhor surpresa seria ver Helen Mirren numa versão sensual e despojada, mas o  filme vai muito além da atuação de Mirren: Greenaway tem um trabalho artístico tão forte, que consegue fazer com que os atores passem a fazer parte do cenário (e vice-versa).

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A história se passa no restaurante Le Hollandais, cujo dono Albert Spica (belissimamente interpretado por Michael Gambon) é um sangrento mafioso que adora comida francesa e janta todos os dias no mesmo lugar. Sua mulher, Georgina Spica possui um paladar mais afinado e sempre recebe pratos especiais feito pelo simpático chefe de cozinha Richard Borst. No mesmo restaurante, Giorgina conhece o bibliotecário Michael (Alan Howard): Os dois começam um fervoroso caso e são acobertados pelo chefe de cozinha.

Como um déspota, Albert escolhe os pratos conforme seus desejos, come enquanto conversa (ou grita), esparrama bebida pela roupa, bate na mulher, grita com os capangas e mata ali mesmo quem o desafia. Seu tom de raiva ilustra sua enorme ambição por poder. Aliás, todos os capangas que estão ali, sentados a mesa entorno de Albert ilustram muito bem a junção de medo e ambição: estão naquele restaurante celebrando o interesse e a insegurança.

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O assombroso delírio proposto pelo filme é a junção de situações chocantes: Logo no começo, há uma cena escatologica: vemos um homem nu entre cachorros. Sua feição é de evidente tortura. Albert o obriga a comer o cocô dos animais e depois o abandona ali, sem nenhuma piedade. Em outro momento, Albert descobre o segredo da mulher e obriga uma criança (que era um informante dos amantes) a comer os botões da roupa até confessar onde Giorgina estava escondida.  Ele chega até o amante e o obriga a comer as páginas do seu livro preferido, até matá-lo sufocado.

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Se há algo magnífico, que me encanta nesse filme, é a arte com as cores. Com uma mistura lírica entre ópera, comida e pintura, os personagens (como disse antes) passam a fazer parte do cenário. Quando estão comendo, o ambiente é todo vermelho: inclusive a roupa dos personagens. A cor do banheiro é branca, a da cozinha é verde e a da biblioteca: marrom e dourado. E quando transitam entre os ambientes, as roupas também vão mudando de cor.  O diretor explicou a escolha:

“A cozinha é verde porque representa a floresta de onde vem todo o alimento; o restaurante é vermelho por ser onde toda a violência ocorre; o banheiro, onde os amantes fazem amor pela primeira vez, é como o paraíso, e como tal ele tinha de ser branco; tem uma breve sequência no hospital que é iluminada com amarelo porque para mim é a cor das crianças, dos ovos, dos recém-nascidos; e finalmente a cor da biblioteca que é ouro, representando ‘a época dourada do aprendizado’, o idílico tempo em que tudo no Jardim do Éden era maravilhoso”

O quadro “Banquete dos Oficiais da Companhia da Guarda de São Jorge”, do holandês Frans Hals (1580-1666), que fica pendurado na parede do restaurante é o sinal mais evidente do perfil (e ligação) artístico do diretor. Há também um garotinho (aquele que é obrigado a comer botões), que aparece em momentos do filme, cantando uma música lírica e trágica: simboliza o coro das tragédias gregas, que Greenaway explica brilhantemente: “No mundo antigo, os romanos e os gregos sempre pensaram que a alma residia no abdômen; apenas os cristãos acreditavam que ela habitava o peito. As civilizações primitivas ensinaram que a barriga é o centro do corpo e sua própria gravidade, mas o cristianismo subverteu esse princípio ao considerar o coração como o âmago do homem”.

Pois então, chegamos ao momento mais aflamado da história. Georgina vive com o amante um sentimento que não tinha quando estava com Albert: sente-se livre, sem medo. Ao chegar à biblioteca e encontrar Michael morto, rodeado de livros e folhas de papel é tomada por uma ânsia desesperadora. Deita-se ali mesmo, junto ao corpo do amante e chora sua infelicidade de não conseguir protegê-lo.  Com muito custo, convence o chefe de cozinha a preparar o seu prato mais inusitado: o corpo de Michael.

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Como um ritual de despedida, entra com o corpo assado do amante e obriga o marido a comê-lo. Ironiza que não seria nenhum sacrifício, já que o próprio Albert prometera que mataria e comeria o homem que se atrevesse a dormir com Georgina. Esse momento é indescritível, há uma riqueza de detalhes tamanha: desde a música às roupas. A inversão de papeis ocorre justamente aí: Agora quem tem medo é Albert, é ele que se sente inseguro e incrédulo

– Jesus!

– Não é Jesus, Albert é o Michael… Meu amante!

Georgina obriga o marido a começar pelo pênis do amante.

-“Bon appetit, Albert.That’s French”  (bom apetite, é francês).

Final III[5]

O HIV não tem cara

Joann Santangelo decidiu fotografar portadores do vírus HIV para ajudar a diminuir os estigmas que rondam a doença e promover as estatísticas reais da doença. Estima-se que existam 33 milhões de pessoas em todo o mundo com HIV/AIDS. 490,696 vivem na América.  O projeto chamado: Austin Faces AIDS: Portraits of People Living with HIV and AIDS é o resultado de um ano de visitas do fotógrafo que também gravou o depoimento dessas 16 pessoas. O projeto mostra que pessoas hoje em dia conseguem viver bem com o vírus, diferente da realidade de anos atrás quando a doença surgiu.

Cris, contaminado há 25 anos.

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Derrick, contaminado há 26 anos.

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Shawn, contaminado há 22 anos:

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Dennis, contaminado há  18 anos e Lorenzo há 14:

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Tim, contaminado há 14 anos:

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Henry, contaminado há 15 anos: rsz_h570_4_13

Gary, contaminado há 26 anos:

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Clara, contaminada há 15 anos:

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Guy, contaminado há 25 anos:

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Yolanda, contaminada há 3 anos:

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Cris, contaminado há 4 anos:

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Gina, contaminada há 26 anos:

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Philip, contaminado há 25 anos:

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Huppert para os belorizontinos

Imagem do filme "Bella addormentata"
Imagem do filme “Bella addormentata”
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Isabelle Huppert em “Em nome de Deus”

É difícil (muito difícil mesmo) encontrar um filme com Isabelle Huppert nos cinemas de Belo Horizonte.  Pois estamos com sorte. Há dois filmes dela em cartaz nas salas alternativas de BH. Hoje no Cine 104 começa a VIII Semana Venezia Cinema no Brasil e ela será aberta justamente com um filme da Huppert: “Bella Addormentata”, dirigido por Marco Bellocchio.  O filme trata do polêmico caso que dividiu a Itália em 2009, quando o pai de Eluana Englaro, uma mulher de 38 anos que estava em coma desde um acidente de carro 17 anos antes decidiu suspender sua alimentação artificial.

A trama mistura imagens reais de TV e personagens de ficção e exibe uma reconstrução do acalorado debate sobre a morte de Englaro. Vários ativistas cercaram a clínica onde estava internada para protestar contra a decisão do pai e até o então primeiro-ministro Silvio Berlusconi tentou impor uma lei que forçaria os médicos a retomar a alimentação de Eluana através de um tubo.

O outro filme está em cartaz no Belo Artes, “Em Nome de Deus”, dirigido por Brillante Mendoza é uma produção da Filipinas, França e Alemanha que conta a seguinte história: Baseado em um fato real que ocorreu em 2001. Um grupo de homens armados e mascarados, pertencentes à associação muçulmana Abu Sayyaf, invade o hotel de uma ilha turística e sequestra doze hóspedes estrangeiros. O ataque tinha como alvo inicial empregados do Banco Mundial, que já haviam deixado o local.

O grupo então sequestra turistas e missionários cristãos, que são forçados a fazer um cansativo percurso a pé pela selva filipina. Aos poucos, o clima de medo, preconceito e ódio se transforma em uma relação pautada por uma estranha simbiose. O filme integrou a Seleção Oficial do Festival de Berlim.

Os Horários para o Belas são:
14h30 16h50 19h10 21h30

Rua Gonçalves Dias, 1581 – Lourdes

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Confira a programação gratuita da VIII Semana Venezia Cinema no Brasil:

Terça-feira, 04 de dezembro
19h | Bella Addormentata | de Marco Bellocchio | Itália/França, 2012, 115’ |
21h | Roma,ore 11 | de Giuseppe De Santis | Itália, 1952, p/b, 105’ (película restaurada, projetada como pré-abertura do evento na Itália em agosto, celebrando seus 60 anos de primeira projeção)
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Quarta-feira, 05 de dezembro
19h | Un giorno speciale | de Francesca Comencini | Itália. 2012, 90’ |
21h | È stato il figlio | de Daniele Ciprì | Itália /França, 2012, 90’ |
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Quinta-feira, 06 de dezembro
19h | Gli equilibristi | de Ivano De Matteo | Itália /França, 2012, 100’ |
21h | L’intervallo | de Leonardo Di Costanzo |Itália /Alemanha/Suíça, 2012, 86’ |
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Sexta-feira, 07 de dezembro
19h | Roma,ore 11 | de Giuseppe De Santis Itália – 1952, p/b, 105’ (película restaurada, projetada como pré-abertura do evento na Itália em agosto, celebrando seus 60 anos de primeira projeção)
21h | Bella Addormentata | de Marco Bellocchio | Itália /França, 2012, 115’
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Sábado, 08 de dezembro
19h | È stato il figlio | de Daniele Ciprì | Itália /França, 2012, 90’
21h | Un giorno speciale | de Francesca Comencini | Itália, 2012, 90’
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Domingo, 09 de dezembro
19h | L’intervallo | de Leonardo Di Costanzo, Itália /Alemanha e Suiça – 2012, 86’
21h | Gli equilibristi | de Ivano De Matteo | Itália /França, 2012, 100’
Entrada gratuita com retirada de ingressos uma hora antes do início da sessão

Crimes do Coração

Na minha ânsia de assistir os filmes de Jessica Lange e correr para comentar no LA AMORA, vi o trailer de “Crimes do Coração” de 1986 pelo Youtube. Em um dos comentários diziam: “Fuja dos filmes dirigidos por Bruce Beresford”. Bom, foi uma pena não ter dado ouvidos ao comentário – não vou generalizar, até porque não vi outro filme de Beresford (nem mesmo Conduzindo Miss Daisy – mas digo com toda veemência que “Crimes do Coração” é um filme mediano.

Crimes do Coração

Antes mesmo de toda essa história de gostar da atriz, esse era um dos filmes que estavam na minha lista. Sempre achei que um longa que junta Jessica Lange, Sissy Spacek e Diane Keaton teria todas as disposições para se tornar um clássico, principalmente por apresentar a possibilidade mais sublime de dramatização.

A história em si é bem interessante e o roteiro (ainda que fraco) possui pontos que chamam a atenção: o problema é o resultado, a junção que não deu certo – ficou inacabado, com um ar de quero mais. Em suma, a sensação que tive no final foi de que perdi meu tempo. A história é a seguinte:

“Lennora Josephine Magrath (Diane Keaton), Margaret Magrath (Jessica Lange) e Rebeca Magrath Botrelle (Sissy Spacek) são irmãs com personalidades e modos de vida bem diferentes. Elas se reúnem quando a mais jovem, Rebeca, atirou no marido dela, Zackery (Beeson Carroll). A irmã mais velha, Lennora, cuida do avô delas e está se transformando em uma empregada, enquanto Margaret tenta fazer carreira em Hollywood como atriz e cantora e teve uma vida intensa, preenchida por muitos homens. O encontro delas causa muita alegria, mas também muitas tensões.”

Algumas coisas vão se encaixando ainda que vagarosamente. Aos poucos você entende que o comportamento agressivo de Margaret é reflexo do trauma profundo que sentiu ao encontrar a mãe morta (enforcada, junto com um gato amarelo).  E que essa morte provocou marcas em todas as três, mas de formas e intensidades bem diferentes. É absolutamente normal que a personalidade das três sejam diferentes, afinal: são idades e perspectivas distintas.  As atuações são ótimas, um aplauso especial para Keaton.

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Desde que vi “O Clube das Desquitadas” ligo Diane Keaton a uma mulher tímida, insegura e problemática: parece que essas características ficaram tão marcadas que se repetiram inúmeras vezes na carreira dela.  Ok, Lennora veio bem antes do Clube, mas ela guarda os mesmos resquícios e para mim é uma das personagens mais interessantes. Por que ficou em casa cuidando do avô? Por que não namora? Lennora tem uma solidão que esvai pelos olhos, se refugia nas velhas manias da avó de cuidar do jardim. {Talvez} Por ser a mais velha, poderia ser o ponto de equilíbrio da família, mas diante das situações: está muito longe disso.

 Só não me digam, por favor, que esse é um “drama feminista” (foi o que eu li no Filmow e discordo bastante). Conta a história de mulheres, mas não é um longa feminista. Ele retrata uma mulher desiludida com a vida porque não casou, outra que é infiel (e que merece ir a cadeia) porque tentou matar o marido e depois foi fazer limonada e de outra que é uma mulher linda, porra-louca e que encanta os homens e depois os abandona. Durante todo o filme, o diretor nos dá motivo para culpá-las, entende?

Se me permitem uma última observação, fiquei surpresa em um dos momentos do filme. Rebeca conta para a irmã mais velha que traiu o marido com jovem de 15 anos. A resposta de Margaret é tão surpreendente que quase me fez cair da cadeira: “Mas ele é negro! Já pensou no que isso pode representar para você?” Na boa, eu achei que ela diria: Ele é menor de idade, isso é pedofilia! hahaha… Mas não, a reação foi totalmente diferente.