Autor: Thais dos Reis
Dianne Wiest!

Frank e o Robô
Na juventude, Frank foi um ladrão responsável por inúmeros golpes. Porém, castigado pela velhice é obrigado pelo filho a conviver com um robô que o alimenta, limpa a casa, controla o horário dos remédios e lhe faz companhia. Em princípio essa relação “homem x máquina” o incomoda muito. Até que Frank aprende a gostar da situação e se aproveita do ajudante para voltar à ativa. Frank ensina ao robô pequenos truques e cria um projeto: roubar um dos livros mais valiosos da biblioteca, Dom Quixote. A biblioteca, por sinal, está passando por uma reforma: todos os livros serão trocados por arquivos digitais. Lá há uma companhia que Frank adora a bibliotecária: Jennifer e por isso, a visita constantemente.
Quando soube que Susan Sarandon participava do filme “Frank e o Robô” fiquei um pouco chateada. A proposta da sinopse não me chamava atenção de maneira alguma, nem o pôster, nem o trailer. Fui traída pela imagem (assim como outros espectadores dos quais acompanhei os comentários em sites de cinema). Há uma passagem no livro que estou lendo que pode, muito melhor do que eu, explicar essa situação.
Em “A linguagem cinematográfica”, Marcel Martin ressalva uma das vertentes de pensamento de Lucien Wahl: Podemos então constatar que uma boa quantidade de filmes perfeitamente eficazes no plano da linguagem mostra-se nula do ponto de vida estético, do ponto de vista do ser fílmico: não têm existência artística. “Há filmes”, escreve Lucien Wahl, “cujo roteiro e razoável, cuja direção é impecável, cujos atores são talentosos, e não valem nada. Não vemos o que lhes falta, mas sabemos que é o principal” O que lhes falta é aquilo que alguns chamam de alma ou graça, é o que eu denomino ser. Não são as imagens que fazem um filme, escreveu Abgel Gance, mas a alma das imagens.
No caso de Frank e o Robô, dirigido por Jake Schreier essa percepção de “alma fílmica” em contraponto a própria imagem está muito presente. Apesar das ressalvas no filme, que nem sempre estão de acordo com a afirmação de Lucien Wahl, a imagem de Frank Langella, um senhor de idade acompanhado por um robô pequenino é pouco convincente. Mas o roteiro, as mensagens e a brilhante interpretação de um forte time de atores (Liv Tyler, James Marsden e o próprio Frank Langella) são quesitos importantes para atribuir ao filme esse bom desempenho: são dispositivos que completam a alma da obra.
Em suma, o robô é importante para o argumento, mas não é essencial. “Frank e o Robô” vai além (muito além) da relação do homem e máquina. A proposta principal, ainda que subjetiva é a reflexão da relação do homem com o próprio homem. A velhice e o esquecimento de Frank é um dos motivos para que a família compre um ajudante. Mas por quê ninguém se dispõe a ficar com ele? Talvez, porque todo mundo está ocupado demais com a própria vida. Jake Schreier então nos faz pensar mais uma vez em outra consequência da velhice (e do nosso futuro incerto): a solidão.
O filme engana-nos mais uma vez quando nos leva a acreditar na lucidez de Frank. Somos convidados, como cúmplices, a duvidar do dono da biblioteca e torcer para que Frank consiga não só roubar o Dom Quixote mas também as suas joias. Ao redor da situação, acompanhamos o drama dos filhos que precisam seguir com as próprias vidas e ao mesmo tempo, cuidar do pai.
Alías, o fim do filme é uma doce surpresa.
Leve-me para sair
“Leve-me para sair”, curta dirigido por José Agripino e que tem uma temática super importante sobre homossexualidade, preconceito e dramas pessoais. Foi realizado em São Paulo com jovens entre 16 e 18 anos. O filme ganhou prêmios importantes no cenário nacional, entre eles o 4º Close – Festival Nacional de Cinema da Diversidade Sexual ; E Melhor Curta Nacional – 20º Mix Brasil.
Susan Sarandon

Minha doce Geisha
Eu nunca fui fã de comédias românticas, mas esse filme em especial me agradou muito. Resolvi escrever sobre ele porque encontrei críticas bem negativas que o classificavam como uma comédia intencionalmente boba e inverossímil. De fato, o roteiro é extremamente leve e descompromissado, mas há aspectos igualmente importantes que devem ser levados em conta. “Minha doce Geisha” é um filme de 1962 dirigido por Jack Cardiff e roteirizado por Norman Krasna. O filme traz a belíssima Shirley MacLaine no papel de Lucy Dell, uma atriz hollywoodiana casada com um diretor europeu Paul Robaix (interpretado pelo excelente Yves Montand, que dentre outros sucessos, traz no currículo “Adorável Pecadora”).
Lucy e Paul fizeram grandes sucessos juntos, mas dessa vez Paul resolveu ir sozinho ao Japão para realizar uma versão de Madame Butterfly para o cinema. Lucy tenta convencê-lo de que pode interpretar o papel, mas Paul insiste que aqueles cabelos ruivos e olhos azuis definitivamente não serviriam para uma geisha. Sem deixar o marido desconfiar, Lucy vai para o Japão e se submete a uma transformação para conseguir o papel. Aprende a falar e a se portar como uma geisha, coloca lentes pretas nos olhos e usa peruca. O grande problema é que Paul se apaixona pela geisha, deixando Lucy numa situação complicada.
O filme caiu no “popularesco” e agradou ao público. Uma das coisas que eu gosto é o trabalho visual e o cuidado que Cardiff teve nas primeiras cenas em que Shirley Maclaine aparece como geisha. Inicialmente ela sempre está ofuscada por uma sombra (quando não é o seu rosto são seus olhos), esse artifício propõe uma dupla interpretação. A sombra ofusca Lucy do marido, mas também do espectador que vai conhecendo a geisha aos poucos. A sombra também está presente no momento em que Paul invade o quarto da geisha e implora por um beijo.
O falso sotaque da Shirley poderia parecer pedante, como aquela cena em que ela diz que nunca beijou um homem. Porém MacLaine é extremamente cativante e você se diverte imensamente com ela. É muito claro que todo aquele disfarce é difícil de não ser notado, mas Yves Montand te convence que o marido não sabe de nada. É, como eu disse anteriormente, uma comédia descompromissada, divertida… vale muito a pena!
SPOILER: Não há como não se apaixonar pelo fim do filme, quando descobre-se que Paul sabia o segredo de Lucy, que ela era sua doce geisha.
“Don’t be sympathy to anybody but me, my geisha”
Super Mario Bross, de um jeito diferente.
Abril Despedaçado
Abril Despedaçado, filme dirigido por Walter Sales (importante diretor que traz no currículo filmes como Central do Brasil e Terra Estrangeira) é antes de tudo, uma obra que fortalece a identidade do cinema brasileiro e evidencia uma linguagem característica e bastante enraizada da nossa cultura: a do nordeste. Por isso é também importante dar a devida atenção ao roteiro de Karim Aïnouz (cineasta brasileiro que trabalhou em grandes obras como O céu de Sueli e Viajo porque preciso, volto porque te amo).
A partir de um cenário árido e cheio de simbolismo, acompanhamos a trajetória de Tonho (Rodrigo Santoro) que é atormentado por um questionamento: vingar ou não a morte do seu irmão mais velho, assassinado pela família rival. A luta teve início em décadas anteriores, quando o avô de Tonho, resolveu reivindicar os direitos pela terra que lhe foram tomadas pela família Ferreira. Desde então há um enfrentamento de várias gerações que por uma questão de honra, alimentam um ciclo de vingança e violência.
A narrativa, baseada no romance do albanês Ismail kadaré, é ambientada no sertão nordestino de 1910 e consegue de forma sensível (e muito bela), tratar de temas cruéis que envolvem não só os valores humanos, mas também as relações sócias: uma delas, muito presente no filme: o patriarcado. A figura masculina na obra possui um papel fundamental e está representada na ideia de força e seriedade que se concentra no pai. É ele o responsável pela continuidade das atividades produtivas que sustentam a família e é justamente ele, que alimenta (quase que de forma obrigatória) a vingança dos Breves.
A presença da morte na vida dos personagens é acentuada pela estagnação. Muito bem metaforizada na figura dos bois que ficam rondando na mesma direção e de maneira automatizada, sem sair do lugar. A bolandeira é a própria vida no sertão, onde não acontece nada e os personagens vivem a repetição das mesmas atividades, dos mesmos valores, do mesmo desejo de vingança e não saem do lugar. Mas essa rotina é quebrada pelo “menino” (Ravi Ramos Lacerda), irmão mais novo de Tonho e que narra todos os acontecimentos da trama. Apesar de se encontrar imerso nesse mundo paralisado, “menino” demonstra esperança, jovialidade e alimenta um questionamento sobre a necessidade de vingança.
Seu questionamento fica ainda mais forte com a chegada de Clara e Salustiano, um casal que está de passagem pelo local e que de alguma forma, trazem mudanças para a vida do personagem. Essas mudanças podem ser dividas em três etapas, igualmente importantes: 1ª) Clara presenteia o “menino” com um livro e alimenta sua imaginação quanto ao mundo e quanto ao mar. 2ª) “Menino” recebe um nome de Salustiano: Pacu, o que auxilia na criação da identidade do personagem, 3ª) Clara se envolve com Tonho e abandona o parceiro. Coincidentemente (ou não!) é nesse momento que os bois começam a se movimentar sozinhos na bolandeira (de tão automatizados) e Tonho se dá conta que alguma coisa precisa mudar (e inconscientemente, essa também é uma decisão de Pacu).
Tiger, Tiger!

Put your bitchface on!









