violetaAs boas coisas e as boas companhias vão-se embora muito rápido e a gente, na correria do dia-a-dia, na loucura de juntar os cacos e no caos da vida, que é mais sobreviver que viver, perde a oportunidade de passar um minuto a mais, de dar um beijo a mais, de trocar um olhar a mais. De estar junto. Não há nada mais absoluto do que a ausência, preenchida por uma enlouquecedora saudade, por uma triste nostalgia e pela revoltante incerteza. Apenas há a crença na possibilidade de um dia estarmos juntas novamente. Mas acreditar não é suficiente, a incerteza ainda bate na porta, entra e planta a semente da dúvida: e depois? Depois da vida, o que há? Do calor ao frio em tão poucos minutos, tão pouco tempo. Do sol a chuva, que não para, não cessa.

The Babadook

Don’t let it in

Don’t let it in

Don’t let it in

babadookOi gente! Tirei o fim de semana para descansar e assistir alguns filmes, havia tempo que não fazia isso – e que não aparecia por aqui no La Amora, né? Pois é… Ontem eu assisti “The Babadook” e até agora estou encantada com a produção (ainda que o final poderia ter sido melhor, rs!). O filme conta a história de Amélia (Essie Davis), uma mulher que deu a luz e perdeu o marido no mesmo dia (seu marido bateu o carro quando a levava para o hospital).

Seis anos depois seu filho, Samuel (Noah Wiseman), demonstra um comportamento anormal, pouco amigável e muito diferente das crianças de sua idade. Um dia ele pede que ela leia um livro chamado “The Babadook”, a história de um monstro que entra na casa sem ser convidado e durante a noite aterroriza o sonho de uma criança. Daí em diante situações assombrosas passam a cercar a casa e os personagens.

babaddook Então… como esses filmes são bem subjetivos… fica o convite à interpretação. O que a minha cabeça miúda conseguiu pensar foi que o Babadook é uma metáfora à depressão sofrida pela mãe pós parto, também acentuada pela morte do marido, fato que ela ainda não superou.Aliás, acho que foi ela que escreveu o livro porque em certa cena, ela aparece com as mãos sujas de tinta e afirma que é escritora de livros infantis. Bom… e a super interpretação do garoto não poderia deixar de ser mencionada,  Noah Wiseman trabalha bem demais! Filme super bacana, recomendo…

Assista ao trailer:

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Os anos não foram suficientes para me fazer esquecer. Na mente apenas um distante e confuso reflexo do que você foi ou do que eu imaginei que fosse. Meu cérebro, como toda boa máquina, tenta reconstruir pedaço por pedaço, unindo o gosto de lágrima ao que perdi da infância.

Rascunho do que poderia ser absoluto, mas não passou de sombra, ausência. Que mesmo morte, viva cheio de dor como uma ferida recém aberta. As cicatrizes permanecem e ficam grudadas na pele… para que a gente nunca se esqueça de quem as deixou.

Amanhã para sempre – parte 2

“We didn’t cross the border, the border crossed us”

Nós não atravessamos a fronteira, a fronteira nos atravessou.

méxico

Bom, como vocês sabem, gosto de realizar minhas leituras, fazendo algumas anotações… da quais, divido com vocês:

Vê-se que o México se encaixa claramente no grupo de países de renda baixa e média, como outras nações emergentes da América Latina, do Sudeste Asiático, da África e do mundo islâmico, nas quais prevalecem as atitudes tradicionais (…) Nesse sentido, está mais próximo da Polônia e de Portugal do que do que do Peru ou do Paraguai.

Estereótipo x Caráter x Identidade:

Um dos clássicos que citaremos com frequência ao longo deste estudo é Emilio Uranga, considerado em seu momento o homem mais inteligente do México, antes de morrer de tanto beber. Uranga escreveu um texto brilhante intitulado Ensaio de uma ontologia mexicano, de 1949, no qual demonstra precisamente que tal substrato ontológico não existe. O que há são, quando muito, traços característicos de um povo transformados pela interpretação sofisticada dos pensadores clássicos: estereótipos convertidos em caráter.

A identidade nacional é um conceito que define uma nação perante si mesma, de modo ontológico, histórico e com intenções fundamentais: a identidade de uma nação é o que a faz ser o que é. O caráter nacional, por sua vez, tem a ver com o modo como uma sociedade concebe a si própria e como ela é percebida pelos outros.

Individualismo

O México não tem conjuntos musicais nem orquestras mundialmente famosos, mas sua música inundou a América Latina e os Estados Unidos como nenhuma outra do exterior. Seus astros são individuais e sempre atuam assim. É impensável um concerto coletivo de músicos mexicanos – Juan Gabriel, os Tigres del Norte, Luis Miguel, Armando Manzanero, Selena à sua maneira e, muito antes, Los Panchos – como nos festivais brasileiros da década de 1960 até o início da de 1980. Uma versão mexicana do evento de Ravi Shankar e Geroge Harrison em apoio à independia de Bangladesh em 1971, ou os concertos de Sir Bobo Geldof e Bono contra a pobreza na África, ou o esforço conjunto de Peter Gabriel, Sting e Bruce Springsteen pelos direitos humanos e contra a aids são simplesmente inconcebíveis no México. Um remake aguado só ocorre quando as redes de televisão que são as donas dos músicos os instruem para que façam uma apresentação beneficente ou coisa que o valha.

Sobre a Classe Média e o Consumo:

(Cartão de Crédito): Milhões de indivíduos de baixa renda munidos de plástico foram afetados quando as recorrentes bolhas estouraram no mercado financeiro: em 1967, 982, 1987 e, enfim, 1995. Os bancos foram irresponsáveis em distribuí-los como água, os consumidores foram irresponsáveis em aceita-los e em acumular dívidas enormes, e as autoridades reguladoras foram incrivelmente irresponsáveis em deixar que tudo isso acontecesse. Os portadores usavam um cartão para saldar a dívida do outro (como nos EUA), e acabaram mergulhando rapidamente em dívidas impagáveis. Porém, uma vez mais, ao contrário do caso dos televisores, como no dos automóveis, esse fato ocorreu em escala relativamente pequena, e foi varrido pela evolução da classe média.

Mariachi

Vitimização: Há uma lei de ferro na antropologia barata mexicana, com um corolário na política do país. Ela afirma que os mexicanos gostam de se enxergar como vítimas (…). O México como país de vítimas e a política com um esporte em que a pole position, por assim dizer, é o status de vítima: talvez seja essa a feição mais conhecida e mais estereotipada associada à alma e apolítica mexicana. E não é inteiramente falsa.  Nos escritos dos clássicos, por exemplo, Manuel Gamio, Samuel Ramos e Octavio Paz – a vitimização é variedade retratada como o complexo de inferioridade de todos os mexicanos. (…) Em suma, o povo mexicano, mesmo antes de ser mexicano, sempre foi lesado pelos outros  (no lamento de Ramos: “Até agora, os mexicanos, só souberam morrer”, e nisso consiste a natureza de sua máscara (Paz), de seu complexo de inferioridade (Ramos, Ramirez e Uranga), de ser raça pobre e afligida (Gamio) e da infinidade de casos contados acerca da intuitiva associação mexicana a “los vencidos”e não a “los vencedores”.

Os mexicanos evitam o conflito e a competição: O trauma  imposto ao índio pela conquista foi tão grande que anulou suas possibilidades de luta sob a nova cultura, seu único mecanismo de defesa e sua única força foram aceitar o que ele tinha, desconfiar de tudo quanto o espanhol, o criollo ou mestiço oferecesse. O Índio se esquiva do conflito com os elementos culturais encontrados acima deles, sejam amistosos ou agressivos.  Em muitos aspectos, o índio e portanto o mestiço, e aparentemente todo mexicano tinham razão. O confronto sempre foi um mau negócio para eles, desde Montezuma e Cortés até os heróis da revolução, uma vez que todos acabaram assassinados.

Como formulou  Federico San Román, esmiuçando a tese de Santiago Ramirez, essa ausência do pai explica tanto o individualismo quanto a aversão ao conflito do mexicano. Ambos eram mecanismos de defesa construídos para proteger o mexicano abandonado contra um mundo hostil, no qual inexistia o pai protetor. O espanhol procriava com muitas mulheres sem assumir o papel de pai ou marido. Os primeiros mestiços foram criados sem pai e sem família integrada. De modo que que o mexicano, diz San Román, é um ser cronicamente bastardo ou sem pai, cuja bastardia inicial deixa uma marca permanente, e que repete sua história até hoje. Seus olhos estão sempre fitos no passado, no mesmo drama, na mesma traição. Essa traição recorrente, de geração a geração, alimenta a raiva histórica que hoje tem muito mais a ver com a desintegração  da família e a pobreza do que com acontecimentos de cinco séculos atrás.

Amanhã para sempre – parte 1

Encontrei esse livro de bobeira na Fnac e não resisti em comprar. Diferente de tudo o que eu já havia lido sobre o México, “Amanhã para sempre”, apresenta um estudo clínico sobre o país e sua população (calcado em pesquisas científicas, dados e censos – todos bem atuais. O livro foi publicado em 2013). O autor, Jorge G. Castañeda, é um professor de uma das maiores universidade do México (a UNAM) e atuou como chefe das Relações Internacionais no governo do então presidente Vicente Fox. O mais interessante é que neste livro ele confronta diversos clássicos e questiona os estereótipos pelos quais os mexicanos ficaram conhecidos.

Amanhã para sempre

A visão de Jorge G. Castañeda pode não ser muito agradável aos mexicanos já que ele indica grandes falhas na sociedade e, de maneira corajosa, se atreve a sugerir soluções. Apesar de uma linguagem complexa (especialmente por causa do uso de termos científicos), o livro perpassa por assuntos certeiros e fundamentais ao país, como por exemplo, o narcotráfico, a democracia, a violência e a história.

Castañeda começa sua reflexão reafirmando que os mexicanos são individualistas e o são de uma maneira diferenciada. No primeiro capitulo “Por que os mexicanos são ruins em bola e não gostam de arranha-céus”, ele explica que os mexicanos enxerlivro2gam a casa própria não só como status, mas como garantia de individualidade – por isso, a pequena popularidade dos arranha-céus (ou prédios). Eles são individualistas até no esporte, por isso são os melhores no Golfe ( “Há esporte mais solitário no mundo?”) e não no futebol.  Evitam pegar ônibus e são individualistas até quando o assunto é democracia, sentem desconfiança em relação às ações coletivas.

O traço que ele faz do mexicano, bem distante do lado romântico que Érico Veríssimo descreve em seu livro ‘México‘, afirma que os mexicanos são aversos à qualquer tipo de confronto ou competição porque são fatalistas. Se vêem como perdedores e… já que vão perder, vale a pena lutar? O autor apresenta diversas análises e aponta algumas justificativas, uma delas está na própria história do país, que foi extremamente cruel e violenta com os índios.

Castañeda me ajudou a ter uma visão bem mais clara sobre os mexicanos e seus costumes. Ele explica, por exemplo, que a população já não é tão católica como anteriormente. Hoje, a maioria das pessoas não vão à igreja nem praticam a religião, mesmo que se autodenominem de católicos praticantes. O escritor ainda explica que o país é marcado pelo racismo e pelo preconceito, ainda que tenham uma “mente mais aberta”. Outro detalhe importante é a discussão sobre gênero: as mulheres estudam mais e continuam ganhando menos.

Outro assunto muito discutido é a complexa e problemática relação do México com os Estados Unidos. Que culmina em algo que mistura raiva, admiração e uma ligação de dependência – de ambas as partes, naturalmente, uma mais forte que a outra. livro3

O que mais me encantou no livro foi a problemática que ele constrói sobre a existência (ou não) da identidade da América Latina. Pois é, Castañeda afirma que não existe fatores fortes o suficiente para a existência de uma identidade, para ele alguns quesitos fundamentais para a construção deste conceito simplesmente não são articulados entre os países (como a história, a língua, a composição étnica e o pertencimento).

Enfim...Amanhã para Sempre me fez perceber que os brasileiros e mexicanos possuem mais coisas em comum do que imaginam. Nas palavras do próprio autor, compartilhamos uma cultura comum ainda que não idêntica (não só pela origem, mas também pelo sincretismo e pela mestiçagem). Mesmo assim, ele indica semelhanças como a indústria cultural (novelas, filmes, música), a influência cultural religiosa e a vitimização.