Mês: Maio 2014
Histórias Íntimas
A primeira vez em que ouvi falar em Mary del Priore foi há dois anos atrás. Ela estava presente em uma edição da Bienal do Livro em Belo Horizonte para comentar sobre seu lançamento. Por infelicidade não pude vê-la, mas guardei seu nome e desde então – também por indicação de uma professora, acompanho suas publicações.
Terminei outro dia a leitura do “Histórias Íntimas” onde Priore conta e analisa a sexualidade e o erotismo na história do Brasil. Que livro incrível, Priore apresenta uma dinamismo e constrói uma narrativa gostosa através de uma historiografia muito bem feita. A autora fala sobre aborto, pedofilia, educação sexual, mídia, carnaval, masturbação, feminismo, censura (…), e apresenta diversos aspectos sociais em um trabalho sensível e corajoso.
Com um olhar crítico, ela revela as mudanças comportamentais ao longo dos anos. Antigamente, por exemplo, era comum andar nú, fazer sexo e defecar em publico. Por quê e como a educação sobre o corpo se modificou tanto? Como o homem foi proibindo o que não era decente? Afinal, quem determinava o que era decente ou não? “Antes malcheirosos e sujos, hoje, perfumados”. Difícil sintetizar quinhentos anos de história, por isso, fica muito claro que o trabalho de Priore é uma pincelada sutil sobre a história.
Como sempre faço, durante a leitura realizei algumas anotações, marquei detalhes que me chamaram atenção. Divido com vocês as minhas anotações, um pequeno resumo do primeiro capítulo, “Da Colônia ao Império”. Prometo compartilhar depois as outras anotações.
Logo na introdução, Priore levanta uma reflexão inquietante. Ela questiona o leitor sobre a construção da sociedade brasileira em que as práticas sexuais, antes marginalizadas, se tornaram comuns: “As bancas de jornais exibem mulheres frutas. Nas propagandas, casais seminus lambem os beiços e trocam açucaradas. Nas frentes das câmeras segredos são revelados sem constrangimento. A internet abriu um universo de possibilidade para o sexo. Da pedofilia à prostituição, tudo se encontra no mercado virtual (…) Segundo pesquisas do IBGE, o número de casamentos caiu. Além disso, aumento a quantidade de mulheres mais velhas que se unem a homens mais jovens e elas procriam mais tarde, também. Se a ideia de interioridade dava consciência à vida dos indivíduos no passado, hoje, vivemos apenas o instantâneo”.
“Nas igrejas, pinturas demonstravam os diabos que recebiam as almas pecadoras, nuas em pelo, com golpes de pá e tridentes. Nos livros de oração com imagens, o justo morria sempre de camisola”
Capítulo 1: “Da Colônia ao Império”
Durante a Colônia, a noção de privacidade ainda estava em “gestação” – foi construída em um meio instável e precário. A ideia de privacidade e intimidade dos homens do século XVI e XVIII se diferenciava profundamente da nossa. O sentimento de coletividade sobrepunha-se ao de coletividade: fazer sexo e andar nú eram práticas que correspondiam aos ritos estabelecidos pelo grupo. “Privado” era um conceito familiar, em 1718, o jesuíta Raphael Bluteau – um dos primeiros a usar o termo, escreveu: “Privado, uma pessoa que trata só de sua pessoa, de sua família e de seus afazeres domésticos”. Palavras como “vergonha” e “pudor” não existiam no dicionário. Muitas pessoas andavam nuas, sobretudo os índios e os escravos.
1500: Desabrochar do Renascimento da Europa e a chegada dos portugueses no Brasil. Na pintura, o humanismo colocava o homem como centro do mundo e não mais Deus, descobrindo-se os corpos nus. “Nu que hoje associamos ao erotismo, mas os nossos avós não o faziam”.
Os padres e os jesuítas, desde o início da colonização, lutavam contra a nudez e contra aquilo que ela simbolizava. Para os jesuítas, a nudez dos índios era igual a dos animais, afinal, assim como os bichos, os índios não tinham vergonha ou pudor do natural. Anchieta afirmou que as índias, além de andarem peladas, não se negavam a ninguém. “Comparadas com as mulheres que nas gravuras representavam o continente asiático ou a Europa, nossa América era nua, não porque sensual, mas porque despojada, singela e miserável”.
“A associação entre nudez e luxuria provocava os castigos divinos. Ameaçavam-se as pecadoras que usavam decotes. Eis por que a luxúria foi associada a uma profusão de animais imundos: sapos, serpentes ou ratos que se agarravam aos seios ou ao sexo das mulheres lascivas. Nas igrejas, pinturas demonstravam os diabos que recebiam as almas pecadoras, nuas em pelo, com golpes de pá e tridentes. Nos livros de oração com imagens, o justo morria sempre de camisola. O pecador, despido! Enterravam-se as pessoas vestidas, para ressuscitassem com roupas que as identificassem”.
Os seios: As chamadas “tetas” só tinham uma função, a produção do leite: “Acreditava-se que o sangue materno cozinhava com o calor do coração, tornando-se branco e leitoso.” Os seios não eram vistos como algo sensual, mas algo ligado ao pudor da maternidade. Ao longo dos anos os seios começaram a ser cobertos: “E isso até nas imagens sacras. Estátuas da Virgem Maria em estilo barroco, antes decotadas, ou a própria Virgem do Leite- que antes expunha os bicos – desaparecem de oratórios e igrejas. Nossa Senhora passa a cobrir-se até o queixo”.
Banho: Nas civilizações antigas o banho estava associado ao prazer: vide as termas romanas. Os primeiros cristãos quiseram acabar com a frequentação (aos conhecidos “banhos bordéis”), religiosos eram proibidos de comparecer a esses locais (…). Brasil: Enquanto os índios davam um exemplo de higiene, os europeus eram impedidos de nadarem nus, eram não só perseguidos como também obrigados a pagarem multas. Não tomavam banho, “as películas nauseabundas, que os antigos acreditavam funcionar como verniz que atuava contra doenças, na verdade bloqueava as trocas aéreas, necessárias ao organismo”.
“Hábitos de higiene, hoje associados ao prazer físico, eram inexistentes. Entre os habitantes da América portuguesa, a sujeira esteve mais presente do que a limpeza”. Rostos, mãos, braços, peitos e pernas raramente recebiam uma lavada. Os quartos (ou leitos) raramente eram abertos ou purificados, também não ficavam expostos ao sol – as camas ficavam úmidas de suor.
Perfume: As mulheres usavam perfumes que remetiam a odores de animais, “haviam neles um papel sexual que acentuava a ligação entre as partes íntimas e o odor”. Ou seja, o perfume não era usado para mascarar o cheiro, mas para sublinhá-lo. Os cheiros íntimos agradavam. O poeta Gregório de Matos, por exemplo, chegou a criticar a mulher que se lavava antes do ato sexual:
“Lavai-vos quando o sujeis E porque vos fique o ensaio Depois de foder lavai-o Mas antes não o laveis”(1790) Na Europa esse conceito foi se transformando, o odor forte, considerado um arcaísmo, se tornou coisa de roceira e de prostitutas velhas. Aqui a sensibilidade ao cheiro também foi se instalando, há registro de processos de divórcio, por parte de cônjuges que não aguentavam o odor do parceiro. Apesar da sujeira estar em toda parte, as pessoas apontavam-na com o dedo e começavam a se incomodar. Sobretudo, defecar e urinar em público, expondo as partes íntimas, chocava.
As casas: As moradias era bonitas por fora, mas raramente eram limpas por dentro. Os aposentos eram varridos por uma vassoura feita de bambu. Água no chão? Nunca. “A fim de tornar os quartos toleráveis e deles expulsar o mau cheiro, costumavam usar substâncias odoríferas antes de dormir”. Penicos estavam por toda a parte e seu conteúdo era jogado na ruas e praias. A privada era um luxo que ninguém tinha. “Entre nós o penico vigorou até o século XIX, empestando o ambiente”.
Chaves eram artefatos caríssimos, portanto as portas não ficavam trancadas. As camas eram um elemento de ostentação e traduziam um alto nível de vida. Na hora da intimidade, os casais se sentiam mais a vontade nos matos, praias e campos. Longe dos olhos dos outros.
O Corpo: Os cabelos femininos, conhecidos como “crinas” eram altamente valorizados, assim como hoje. O corpo devia ser “entre o magro e o gordo, carnudo e cheio de suco”. Morenice e robustez eram padrões de beleza.
“El futuro no se desea, se merece”
Ontem antes de dormir fiquei me lembrando da época do colégio em que eu chegava em casa depois da aula e corria para assistir novelas mexicanas. Testei minha memória, me esforcei para recordar exatamente da sensação que sentia. É incrível, mas eu ficava envolvida com as tramas, sofria com os personagens, entrava em êxtase.
Sou um ser nostálgico e essa ‘nova’ admiração por Daniela Romo me fez querer rever as novelas. Graças ao Youtube praticamente todos os vídeos estão online, mas assisti-las me deu um choque, uma quebra de expectativas. Ironicamente (e em vão) eu busquei os vídeos com a tola crença de que iria ter as mesmas sensações. Não foi bem assim. Os vídeos pareciam não só inverossímeis como também exagerados.
Onde foi parar aquela emoção que eu sentia?
Uma coisa boba (ou aparentemente boba) me fez ter consciência de tempo, de passado – o que antes não significava nada, não existia. Me senti o próprio Agamben. Meus vinte e três anos trouxeram não só um certo amadurecimento como também a consciência de finitude. Isso é assustador.
Rever as novelas me fez perceber que existem sensações que eu nunca mais vou sentir, elas existem apenas na memória. É como se fosse uma inocência perdida, uma parte de mim que simplesmente se foi.
É óbvio que essa “sensação de finitude” não se relaciona apenas às novelas. Outro dia, por exemplo, eu e a minha tia estávamos relembrando a época em que usávamos um ônibus executivo aqui na cidade. Não existiam cartões, comprávamos passagens diretamente na rodoviária, eram azuis e vermelhas, de papel mesmo. Lembro que as passagens eram numeradas, se alguém sentasse em seu lugar, você podia pedir para que ele saísse.
O ônibus era incrivelmente confortável, poltronas macias, muito barulho, muito remelexo. Volta e meia ele quebrava, os passageiros eram obrigados a descer e esperar outro veículo. Uma situação tão horrível, hoje lembrada com saudosismo.
Lembrei também de um velho costume que eu e minha mãe tínhamos. Quando pequena eu ficava sentada na escada da cozinha e a via trabalhar, arrumar a casa. Sentei-me outro dia na mesma escada e como um deja-vu tive recordações da época em que ela parava na minha frente e ficava fazendo bolhas de sabão com detergente.
Esses sentimentos que eu senti e ‘que nunca mais vou sentir de novo’ – vamos chamar assim, porque não conheço um termo pra isso – me lembram do conceito que aprendi em uma aula de jornalismo cultural. O professor citava Walter Benjamim e dizia que ele defendia a ideia de que uma obra original possuía uma aura, uma existência única, intocável, que não podia ser reproduzida ou imitada, era o “aqui e agora”. Para Benjamim essa relação era até erótica, porque criava a necessidade de um querer e não poder ter.
Depois de tantas voltas, cito Daniela Romo novamente. Me justifico. Outro dia, vi uma entrevista onde ela falava que havia vencido o câncer. Visivelmente emocionada, Romo disse uma das frases mais lindas e profundas que ouvi: “El futuro no se desea, se merece”. Ela encontrou essa reflexão em um livro de Carlos Ruiz Zafon, ‘O prisioneiro do céu’.
O que Zafon escreveu soou como uma sentença. Aqui ele não se refere ao passado ou ao futuro, mas ao presente. De repente, as duas vertentes de pensamento me pareceram claramente relacionadas. Essa sensação de finitude só vem para reforçar a frase de Zafon: não dá para voltar ao passado e , de certa forma, é o presente que condiciona o futuro. Se você quer um bom futuro, planeje-o agora, faça-o agora. Mereça-o.
Daí me lembrei de Nietzsche, da ‘maldição tantas vezes repetida’, da crise do racionalismo: Não viva em função do passado, nem do futuro, viva o presente: O futuro e o passado nos molda, mas não podemos viver em função deles. Pensar só no passado nos deixa mais melancólicos e rancorosos, pensar só no futuro nos deixa mais ansiosos.
e que venha a Copa…

Malévola

Vic + Flo viram um urso
Vic (Pierrette Robitaille) é uma mulher de sessenta anos que acaba de receber liberdade provisória da justiça. Em busca de abrigo, passa a viver com um tio – um senhor doente que sobrevive dependendo do cuidado dos outros.
Um dia Vic reencontra seu irmão, que lhe empresta certa quantia de dinheiro, a deixa responsável pela casa e vai embora. De certa forma, Vic passa a ser dona da residência – localizada no meio da floresta, longe da cidade, de tudo e de todos.
Seus dias de solidão acabam quando sua mulher, Flo (Valerie Donzelli), também recebe liberdade da prisão e passa a viver com ela. No entanto, Flo, que é mais jovem, deseja viver na metrópole, cercada lojas e pessoas.
Confesso que a sinopse do filme não me chamou atenção. Fui fisgada pelo título: o uso do símbolo + e dica de que elas viram um urso (?), me deixaram curiosa. Não me arrependi, Denis Côté (também diretor em Alegria do Homem que Deseja), cumpre o que promete e realiza um belíssimo trabalho que, aliás, chama atenção pela fotografia.
Robitaille desempenha uma atuação incrivelmente densa, Vic não é um personagem qualquer – é amargo, repleto de mistérios e solidão. E o filme, em seu desenvolvimento, traduz o ócio das duas, a ausência de algo novo. A incessante busca de Flo, que não se vê presa naquele lugar pelo resto da vida. Vic, por outro lado, apresenta uma dependência amorosa que chega a ser doentia. Flo é uma mulher fria, direta e – diferente de Vic, está muito mais disposta a “vida” externa. Vic não só se encerrou naquela cabana no meio da floresta, ela se encerrou dentro de si mesma.
Gosto especialmente do momento em que Vic, logo no inicinho do filme, se depara com dois garotos. Um deles toca um instrumento de sopro de maneira desafinada e pede dinheiro, “Você só ganha se merecer”. Em suma, aquele garoto – que reaparece em um momento crucial, faz um prelúdio ou talvez até uma metáfora: a vida é repleta de imperfeições, de tropeços…
Aos poucos, Denis Côté insere outros sujeitos na trama que não só garantem a finalização do argumento como também criam uma expectativa. Falei anteriormente sobre o trabalho fotográfico. Impossível deixar de comentar sobre o tom azul que prevalece em praticamente todas as cenas e acentua os sentimentos dos personagens: dor, medo, tristeza, solidão. Vic + Flo é um filme frio, é um filme azul.





